sexta-feira, 2 de setembro de 2016

As claques e a diabolização do adversário (II)

No post anterior defendi duas ideias básicas. Primeiro, o espaço público é hoje dominado por claques, pompons, diabolização do adversário e insultos, em detrimento de ideias, modelos e programas. E há razões estruturais para isso (isto é, para além dos protagonistas conjunturais). Segundo, a primeira razão que indiquei foi o progressivo desaparecimento do eleitorado flutuante e a crescente importância da mobilização plena do eleitorado fiel para qualquer vitória eleitoral.

Hoje quero adiantar outra razão: a duração dos ciclos políticos. Digamos que há três cenários possíveis:
  •  O cenário feliz – o governo tem recursos suficientes para alargar a sua base de apoio. Predomina o discurso positivo, otimista, da obra feita. O adversário pode ser ignorado ou menosprezado porque não tem capacidade para competir com tal fartura de recursos.
  • O cenário neutro – o governo tem apenas recursos para manter a sua base de apoio. Aqui temos o discurso tipo “the best is yet to come”, com alguma atenção ao adversário para evitar que este possa formar uma coligação alternativa ganhadora. Promessas têm de ser feitas para manter intacta a base de apoio.
  • O cenário infeliz – o governo não tem recursos para manter a sua base de apoio. As promessas não são credíveis perante um desempenho insuficiente. Predomina o discurso do medo, da ameaça, do diabo desconhecido, do estilo sem substância.
Vejamos o que aconteceu em Portugal desde 1985:

Cenário
Eleição
Variação (%) do Partido do Governo (relativamente à eleição anterior)
Partido no Governo
Feliz
1987
+20.4%
PSD
Neutro
1991
+0.4%
PSD
Infeliz
1995
-16.5%
PSD
Neutro
1999
+0.3%
PS
Infeliz
2001
-6.3%
PS
Infeliz
2005
-12.9%
PSD/CDS
Infeliz
2009
-8.5%
PS
Infeliz
2011
-8.5%
PS
Infeliz
2015
-11.9%
PSD/CDS
 
Conclusão: cenário feliz só mesmo em 1987, com os fundos comunitários a chegarem pela primeira vez. Foi a sorte grande de Cavaco. Depois temos um ciclo neutro, em que os partidos conseguem manter a sua base de apoio por uma legislatura, mas acabam por a perder na seguinte. E assim chegamos a 2001. Desde aí predomina o cenário infeliz. Nenhum partido consegue manter a sua base eleitoral de apoio. Com a entrada no euro e a estagnação económica, os sucessivos governos simplesmente não sabem como resolver os problemas e perdem imediatamente uma parte importante dos seus eleitores (o eleitorado infiel claro). Portanto, predomina o discurso do medo e do diabo, o discurso da claque, porque o desempenho não é convincente para agarrar a coligação de votos que permitiu o regresso ao poder. A única diferença é que o PS levou duas eleições para perder o governo (2009 e 2011), enquanto a direita perdeu sempre logo na eleição seguinte (2005 e 2015).

Temos, pois, dois fatores a puxar na direção do discurso de claque em detrimento do debate saudável, abstenção crescente do eleitorado infiel e ciclos políticos curtos (ausência de recursos para manter a base eleitoral). Mas ainda há mais. Fica para o próximo post falar dessas outras causas!  Daqui a umas semanas!



Preparem-se...

Para uma rapidinha!


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

É ilegal na mesma

Já aqui disse e repito: acho o estado português criminoso. E, não, não estou a falar deste governo, em particular; já achava o governo anterior culpado de muitos dos mesmos crimes. Quais os crimes a que me refiro? Os da invasão de privacidade e de violação da presunção de inocência. Em Portugal, toda a gente é culpada de fuga ao fisco até prova em contrário e, por isso, o estado sente-se no direito de ter acesso à informação das contas bancárias de toda a gente.

Bem sei que saiu um parecer da Comissão de Protecção de Dados que levou o governo a reconsiderar, mas agora dizem-nos que depositantes com mais de €50.000 depositados em bancos não têm direito a sigilo bancário. Será que a Constituição da República Portuguesa dá menos direitos a essas pessoas? Não dá. Continua a ser uma prática ilegal. O estado continua a ser criminoso.

Declaração de interesses: eu não tenho, nem nunca terei, muito dinheiro num banco português; no máximo tenho €3.000 logo a seguir a transferir dinheiro para aí, mas depois gasto, até porque costumo transferir antes de ir de férias. Ou seja, isto dos €50.000 não me afecta em nada.

Adenda: (1) Parece que o alcance da mesma medida é só para residentes. Não faço ideia se os bancos sabem quem é residente ou não, dado que os portugueses ainda estão num espaço económico multi-nacional e sem fronteiras. (2) Como é que os bancos vão saber quem tem um total de depósitos em vários bancos superior a €50.000? Temos um legislador que, para além de criminoso, é imbecil, mas isso não surpreende em nada.

Frases famosas 45

Pois é, o dinheiro não traz felicidade.

Não à República das Bolas de Berlim!

A Polícia Marítima apreendeu umas 210 bolas de Berlim, que eram vendidas ilegalmente na Costa da Caparica. No entanto, se forem à farmácia ao fim-de-semana, não se admirem de ser atendidos por estagiários que estão lá sozinhos, sem a supervisão de um director técnico ou substituto, o que é uma violação da lei. Mas esse tipo de coisa não merece ser fiscalizado de acordo com os sábios governantes de Portugal. Afinal, não queremos que isto se torne na República das Bolas de Berlim; é melhor ficarmos só pela República das Bananas...