quarta-feira, 5 de outubro de 2016

National Night Out

Ontem, 4/10, a primeira Terça-feira do mês, foi National Night Out (NNO) no Texas e na Florida. É um evento nacional nos EUA, que normalmente se realiza na primeira Terça-feira de Agosto, mas o Texas e a Florida celebram mais tarde por causa do calor. Os americanos organizam pequenas "festas", estilo potluck (cada um leva um prato de comida para partilhar com os vizinhos), na sua vizinhança e a polícia e os bombeiros visitam, respondem a perguntas, informam acerca dos recursos disponíveis para os cidadãos, etc. Por exemplo, no ano passado, fomos aconselhados a inscrever-nos online, dando às autoridades do nosso condado informação acerca da nossa residência: quantos adultos moravam lá, quantas crianças, que animais de estimação tínhamos, etc. Em caso de emergência em nossa casa, a polícia e os bombeiros sabem imediatamente de quem estão à procura.

No debate vice-presidencial, tanto Tim Kaine, como Mike Pence, defenderam que tem de haver maior envolvimento entre as autoridades e a comunidade: estreitar relações e cooperar mais. O debate realizou-se na mesma noite de NNO. Em Houston, o tiroteio na semana passada em West University (cidade dentro de Houston) sensibilizou ainda mais as pessoas para a importância deste esforço. Em Bellaire (cidade dentro de Houston), em preparação para o evento, a cidade também organizou uma Pre-National Night Out, em 23 de Setembro, com um filme ao ar livre e convidou todos os residentes via e-mail:

Na minha rua, ainda não marcámos a nossa festa. No ano passado, marcámos para um dia não-oficial e, por isso, tivemos mais polícias e até um carro de bombeiros a visitar-nos, pois não tínhamos quase concorrência nenhuma. Este ano optámos por ser especiais outra vez...

Motivo de orgulho


Ao que consta, Guterres teve a aprovação dos 5 membros permanentes do Conselho de Segurança. A sua eleição para SG da ONU será, agora, um mero pro forma. Muitos, muitos parabéns. É indiscutivelmente um feito extraordinário, também para Portugal.

Adenda: como bem notou o LA-C na caixa de comentários, é mais correto dizer-se que os 5 membros permanentes não se opuseram.

Pence vs. Kaine

Tim Kaine dominou o debate: teve melhores argumentos, funcionou sempre ao ataque, e defendeu Hillary Clinton. Por ser tão forte, isso funcionou como uma fraqueza. No final do debate, os especialistas estavam confusos, pois, se por um lado Kaine tinha dominado, por outro o estilo tão agressivo podia ter desagradado aos eleitores. A primeira reacção do painel que analisou o debate na PBS foi dizer que se tinha de ir consultar as redes sociais para ver que percepção tinham tido os espectadores e quais pedaços do debate seriam cortados para criar gifs e clips para partilhar nas redes sociais.

Mike Pence, ao mesmo tempo que acusava Hillary Clinton e Tim Kaine de serem fracos, escolheu usar a sua fraqueza e incapacidade de argumentação como um escudo. Nos EUA, torce-se pelo mais fraco (you always root for the underdog), logo uma boa maneira de conseguir apoio popular é posicionarmo-nos numa situação de fraco contra forte. A agressividade e preparação excessiva de Kaine fazia dele um Golias; enquanto que Pence escolheu jogar à defesa e posicionar-se como um David, abanando a cabeça, enquanto sorria, como que completamente incrédulo pelo que Kaine lhe estava a fazer. Se Kaine fosse razoável, se não interrompesse tanto, se não fosse tão agressivo, Pence conseguiria responder com calma e de forma clara de forma a satisfazer quem o ouvia. Era Kaine que impedia que tal acontecesse, não era o facto de não haver forma de defender algumas das posições de Trump porque, ou eram indefensáveis, ou nunca tinham sido sequer pensadas de forma a poderem ser implementadas.

Por exemplo, o que fazer com os imigrantes ilegais? Trump disse que eram violadores e criminosos -- menos os que não eram -- e que deviam ser deportados. Pence sabia o que fazer com os "violadores e criminosos", mas os restantes, os que trabalhavam e cujo único crime tinha sido entrar no país ilegalmente, para esses não havia plano. A resposta reduzia-se a dizer que se ia prevenir a entrada de mais imigrantes ilegais e depois deportar os maus; o resto do plano não foi pensado. Será que haveria uma via para conseguir a legalização dessas pessoas, um percurso para a cidadania? Isso não foi defendido do lado dos Republicanos; mas é o que os Democratas defendem.

O ponto alto de Mike Pence foi quando disse que, por vezes, Donald Trump dizia coisas que não devia porque não era um político experiente, como Clinton ou Kaine, ou mesmo ele próprio. Pence teve também melhor à-vontade frente à câmara porque, de vez em quando, olhava directamente para quem estava em casa, enquanto que Kaine olhava para a moderadora ou para Pence, mas quase nunca olhou em frente e tentou fazer "eye contact" com a audiência em casa, o que é um dos pecados mortais de quem fala em público nos EUA. Uma pessoa que não olhe directamente nos olhos de alguém está a esconder qualquer coisa ou a mentir.

Ambos os candidatos defenderam bem a sua dama, dadas as suas restrições. Achei que foi um bom debate e houve boa discussão das políticas que cada lado quer seguir, se bem que Kaine tenha tido respostas mais específicas do que Pence. A moderadora esteve mais ou menos: devia ter controlado melhor as interrupções e talvez insistido que os candidatos respondessem efectivamente às perguntas, em vez de permitir que fossem evasivos ou não respondessem.

Como não amar?

Estive a ver o arquivo e vi que nunca vos tinha dado um dos meus poemas preferidos de Rilke. Só tenho a tradução em inglês porque não sei alemão; aliás, só li Rilke em inglês. Mas, meus amigos, eu leio isto e sinto qualquer coisa muito forte dentro de mim, que me enche plenamente. Fico tão feliz, tão feliz por alguém ter escrito algo de tão belo e eu ter o privilégio de viver numa altura em que lê-lo está ao meu alcance.

Extinguish Thou my eyes:I still can see Thee,
deprive my ears of sound:I still can hear Thee,
and without feet I still can come to Thee,
and without voice I still can call to Thee.

Sever my arms from me, I still will hold Thee
with all my heart as with a single hand,
arrest my heart, my brain will keep on beating,
and Should Thy fire at last my brain consume,
the flowing of my blood will carry Thee.



~ Rainer Maria Rilke
(Translated by Albert Ernest Flemming)

Aqui, agora...


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Vibradores terapêuticos

Fui hoje à farmácia de Gualtar, em Braga. Têm lá um belo expositor com coisas da durex. Os tradicionais presrvativos masculinos, mas também preservativos femininos. Tem frascos de gel para vários efeitos diferentes. Tem anéis de prazer e outra coisa que não consegui perceber o que era.

Nada disto é novidade, já há uns meses (anos?) que vendem estas coisas todas. O que hoje me chamou a atenção é que também lá tinham em exposição um vibrador. Um vibrador durex.

Penso que é legítimo concluir que se se vende nas farmácias então é porque tem efeitos terapêuticos. Na verdade, não é uma surpresa. Afinal, quando foram inventados, os médicos usavam os vibradores para resolver problemas feminimos.

Não percam!

É hoje, às 21 horas de Nova Iorque, duas da manhã de Lisboa de Quarta-feira, o debate entre Mike Pence e Tim Kaine, os dois candidatos a Vice-Presidente dos EUA. A meu ver, este debate é ainda mais interessante este ano porque, dada a idade avançada dos candidatos a Presidente e a probabilidade de um Presidente Trump sofrer um impeachment, há um risco considerável de que o Vice-Presidente acabe a governar. Deixo-vos aqui o YouTube para o live streaming. Podem ver o debate mesmo aqui na DdD.



Frases famosas 86


Era um copo meio vazio, se faz favor.

A disputa transatlântica

Os EUA vão multar o Deutsche Bank devido ao papel que teve na crise financeira de 2008, pois foi um dos bancos que andou a vender MBS (mortgage-backed securities). Parte do combustível que alimentou a crise do subprime veio da Europa porque muitos bancos europeus queriam os retornos das MBS, dado que presumiam que o risco era pequeno: se as coisas fossem ao ar contavam com o governo americano os amparar. Por enquanto, não se sabe muito bem quanto irá ser o valor final da multa que o Deutsche Bank terá de pagar; houve um número astronómico anunciado ($14 mil milhões), mas isso irá ser negociado -- o número de ontem já era $5,4 mil milhões.

Mas não é tudo. O Deutsche Bank está também a ser investigado por outra razão pelo Departamento de Justiça dos EUA e pela Financial Conduct Authority do Reino Unido: a agência do banco em Moscovo ajudou à fuga de capital da Rússia através de "mirror trades":
"A company would buy securities from Deutsche Bank in Moscow for rubles at the same time as another entity owned by the same people in an offshore place like Cyprus, would sell the same shares for dollars via Deutsche Bank’s London office. The shares would then be transferred between the entities, completing the circle. The trades spirited money out of Russia at $10 million to $15 million a clip, according to the report. The end-users of the service weren’t revealed. Mirror trades, which aren’t illegal, can be used to aid money laundering and tax avoidance, or to violate sanctions."

Fonte: Bloomberg

Onde estão as autoridades da União Europeia? O banco é alemão, devia ser regulado pelo BCE e pelo Bundesbank, mas quem anda a investigar estas transacções, para ver se estão relacionadas com lavagem de dinheiro ou fugas a impostos, são as autoridades americanas e britânicas. (Mas não é o único banco em sarilhos. Neste momento, está a desvendar-se o escândalo do Wells Fargo, em que os empregados do banco eram incentivados a vender a todo o custo e acabaram por criar contas falsas e abrir cartões de crédito não autorizados só para gerar receita e satisfazer as suas quotas. E a Morgan Stanley, uma multinacional financeira, sofre do mesmo mal... Ambos estão a ser investigados pelas autoridades americanas.)

Disse Willem Buiter na Bloomberg Surveillance*, na Sexta-feira passada, que, neste momento, se trava uma "disputa transatlântica" em que as autoridades americanas querem que os bancos tenham reservas de capital bem apertadas, mas as autoridades europeias preferem algo mais relaxado. Porquê a diferença de preferência? Porque os EUA crescem e estão confortáveis com um certo nível de risco controlado e por isso os seus bancos têm reservas mais altas do que os bancos europeus. A União Europeia está estagnada e não tem grandes perspectivas de crescimento, logo pressupõe-se que aumentar as reservas bancárias retiraria dinheiro da economia o que agravaria a estagnação; mas há também o risco de, outra vez, o dinheiro sair da economia de outra forma: os bancos europeus canalizarem dinheiro para os EUA porque oferece melhor rentabilidade, o que aumenta o risco para a economia americana e pode alimentar outra crise financeira porque os bancos europeus não têm reservas para aguentar estarem expostos a muito risco -- é esse o medo das autoridades americanas.

*Se ouvem podcasts, aconselho vivamente o Bloomberg Surveillance; é diário e dura 30 minutos.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

E Pluribus Unum

O Benfica é clube construído sobre os ombros de mitos: Eusébio; Coluna; José Águas; Néné; Torres; Rui Costa; Luisão. Todos eles associados a momentos gloriosos de um clube que arrasta multidões e paixões muito difíceis de entender, mesmo para aqueles que as sentem. No Benfica, como na vida, as pessoas associam-se a momentos marcantes: o quão mais feliz o momento, maior é a marca das pessoas que  o vivem, que tornam possível esse mesmo momento.

Mas há também outro tipo de pessoa, quiçá mais rara, de certeza mais importante: aqueles que, quando tudo está perdido, quando a esperança morre cá dentro, chegam com um abraço e uma palavra de conforto e nos explicam, com gestos ou com palavras, que o continuar é o acto essencial da vida. Que continuando, em frente, seja devagar ou aos trambolhões, o futuro melhor acabará por chegar.

Faço parte de uma geração que nasceu para o futebol com uma promessa de Benfica a jogar da única maneira aceite entre hostes encarnadas: à Benfica. Chegamos ao futebol pelos pés de um maestro ainda em formação, ao leme de uma equipa habituada a ganhar, que nos convenceu que isso era a norma. Mas o destino é por vezes cruel, e ao som de música clássica composta pelo Toy, a nossa adolescência juntou às borbulhas no rosto o período mais negro da história encarnada: Artur Jorge, Graeme Souness, Manuel José, Paulo Autori. Escalona, Martin Pringle, Carlos Bossio, Michael Thomas. E Vale e Azevedo claro está. Preparado para culpar tudo e todos, começando e acabando sempre pelo treinador. E quando o chicote soava e o treinador saía, com a época já irremediavelmente perdida, não havia outro remédio senão apelar a quem tinha um coração vermelho demais para dizer que não:

Mário Wilson.

Eu percebo a glória do Eusébio, do (Sr.) Coluna. Os títulos, cá dentro e pela Europa. Mas sei desta glória por imagens, muitas a preto e branco, de um passado que é para mim tão estrangeiro como a ditadura que acabou uma década antes de eu ter nascido. Quando me falam em mística, quando me falam em amor pelo clube, pelo Meu clube, o meu exemplo foi, é e será sempre o Mário Wilson. Que chegava com um tom apaziguador, sabendo que acontecesse o que acontecer, ganhasse ou perdesse, jogasse bem ou mal, os seus dias ao leme da nau da qual o seu coração era eternamente prisioneiro, estariam sempre contados. Mas não importa. Não importa o mérito, não importa a carreira. Importa o Benfica. Foi o Mário Wilson que explicou ao Rui Vitória que é importante apostar na formação. Ainda que não haja Seixal nem Renatos e Bernardos, só Pepas e Mawetes. Ainda assim, é importante tentar. É importante dar oportunidades aos mais jovens. Aos que sentem o Benfica. Mas acima de tudo, o Mário Wilson ensinou-nos que, mesmo quando perdemos tudo, não podemos perder a dignidade. E essa lição, guardo-a comigo para sempre no coração.

Obrigao, Capitão.

Colômbia em Londres

Um dos insubstituíveis privilégios de viver em Londres é o de poder falar com gente que nos faz um relato apaixonado sobre o que se passa nos países de onde vêm. Não digo que substituía ler a imprensa - não digo, mas a verdade é que não tinha, até almoçar hoje com um colega colombiano, lido nada sobre o referendo na Colômbia, que fosse além das gordas dos jornais online. Fiquei com a impressão, baseada, novamente, nas gordas, de que se tratava de um referendo sobre a paz com as FARC, mas parece não ser assim. O que se referendou foi os termos de um acordo, proposto pelas FARC ao governo central, em que, entre outras coisas, os membros da primeira receberiam um perdão, parcial ou completo, dependendo das circunstâncias, se confessassem os seus crimes. Estes termos foram propostos, em boa medida, como corolário da deterioração da economia da droga que financia as FARC. Do lado da oferta, a Colômbia não resistiu, por um lado, à redução nos preços internacionais causada pela produção massiva no Afeganistão, e, por outro, à falta de um mecanismo efetivo de distribuição para os EUA, o principal mercado, que pudesse rivalizar com o do México; do lado da procura, aparentemente drogas como o crystal meth, que podem ser produzidas internamente, estão a tornar-se mais populares nos EUA do que a cocaína e a heroína, as staple crops das FARC. Como poderão ter adivinhado, o meu colega é economista. Bom, trocado por miúdos, os guerrilheiros das FARC querem sair da selva e arranjar sustento nas cidades, e, para isso, precisam de uma amnistia. 

O que mais achei curioso na descrição do meu colega foi o paralelo que ele ensaiou entre as campanhas para o referendo na Colômbia e outro referendo recente. 

Aparentemente, a grande figura do lado dos que se opunham aos termos do acordo - o anterior presidente - é um político que ganhou notoriedade praticamente com base num tema em exclusivo, o da luta contra as FARC. Por sua vez, a campanha deste ex-presidente foi feita com base no argumento de que seria possível, com a rejeição do acordo, a assinatura de um outro, melhor (mais punitivo para a FARC), sem que isso resultasse em guerra - a ideia subjacente era a de que "eles" precisam mais de nós do que nós deles, e por isso vão ceder. 

Além disso, havia uma assimetria insuperável entre o conhecimento detalhado do que significaria um "sim" no referendo, e o conhecimento, nulo, do que significaria o "não". O "não" resultaria no retomar das negociações, que podiam resultar em guerra, ou em termos melhores para o acordo com as FARC, ou no mesmo sítio de onde se partiu para o referendo,  

Por fim, parece haver uma assimetria regional entre Bogotá e a Colômbia rural. Bogotá aparentemente estaria disposta a aceitar os termos do acordo, apesar de ser o sítio onde, provavelmente, iriam viver os guerrilheiros das FARC; o mundo rural estaria mais do lado do "não". 

Continuo sem ter lido nenhum artigo sobre o tema, mas acho que a descrição que o meu colega me fez tem muito interesse em si mesma. O que está longe nem sempre é tão diferente como parece do que está perto. Ou isso, ou estamos enviesados e vemos tudo sob o nosso prisma. 

Too close to call



O meu artigo tem três dias mas as sondagens de ontem confirmam o meu prognóstico. Corrida muito apertada, nenhum dos dois candidatos descolará facilmente. Aguardemos pelos próximos debates mas duvido que a tendência seja muito favorável a Clinton ou a Trump. Too close to call for another five weeks.

Os impostos de Trump

Este fim-de-semana, The New York Times publicou alguns dos formulários de impostos de Donald Trump de 1995. Publicaram apenas as primeiras páginas dos impostos de três estados (Connecticut, Nova Iorque, e Nova Jérsia), mas o contabilista que assinou esses documentos confirmou a sua assinatura. Há dois pontos na notícia: (1) a esperteza de Trump; e (2) a privacidade de Trump.

Quanto ao primeiro ponto, se viram o debate, recordam-me de Hillary Clinton sugerir que ele não pagava imposto de rendimento federal e de ele ter respondido que isso era sinal de que era esperto. Quão esperto, perguntais? Cerca de $916 milhões, a quantia que ele declarou como perdida em 1995, cujas perdas podem ser repartidas por vários anos, até um total de 18 anos. Se perder tanto dinheiro para poder não pagar impostos é sinal de esperteza, então um Presidente Trump é capaz de ir custar dinheiro a muita gente só para provar que continua a ser esperto.



Desde 1972, os candidatos a presidente nos EUA publicam voluntariamente os seus impostos, mas a publicação não-autorizada dos formulários de impostos é proibida e o Times pode ser processado tanto civil, como criminalmente e Trump já ameaçou processar. Susanne Craig foi a repórter que recebeu um envelope anónimo com as cópias dos impostos e uma das autoras da peça. Quando lhe perguntaram acerca do risco de litigação, ela deu uma resposta interessante: se o jornal for processado, iniciar-se-ia um período de descoberta durante o qual se saberia de mais coisas acerca das finanças de Trump.

domingo, 2 de outubro de 2016

A Lição Espanhola e o Aviso ao PS

Após as eleições de dezembro último, os prognósticos sobre Espanha dividiram-se. Uns, como eu, acharam que o PSOE iria procurar uma gerigonça que evitasse o regresso de Rajoy. Apesar das diferenças óbvias, havia já a experiência de coligações com o Podemos em Madrid, Valência e outras cidades e comunidades autónomas. O PSOE governou a Catalunha com a ERC durante muitos anos e fez parte de inúmeras coligações com o PNV no País Basco. E os comunistas da IU sempre viabilizaram os governos de Zapatero. Portanto, parecia natural que o PSOE procurasse uma solução por aí. Do outro lado, defendia-se que o PSOE, sendo um partido responsável (por oposição ao PS), encontraria uma fórmula para viabilizar Rajoy. Para mais, uma parte substancial do PSOE (que governa na Andaluzia, etc.) nunca permitiria aventuras que colocassem em causa a unidade de Espanha. Daí que nunca haveria uma gerigonça em Espanha.

Mas o PSOE, sim, procurou uma gerigonça. Tudo fez para a encontrar. O seu (agora ex) líder sujeitou-se duas vezes a um voto de investidura em março. Quem cilindrou a gerigonça foi o Podemos, e não o PSOE. Não houve gerigonça porque o Podemos não deixou. E é simples perceber porquê. Consumado o takeover dos comunistas (impensável em Portugal o BE e a CDU coligarem-se eleitoralmente), o Podemos decidiu que a prioridade era acabar com o PSOE primeiro e, só depois, com Rajoy. Nessa lógica, o Podemos simplesmente matou a gerigonça antes dela começar. O Podemos apostou no sorpasso, e deixou o PSOE sem gerigonça.

Tivemos assim novas eleições em junho. Novamente dois prognósticos diferentes. Aqueles, como eu, que insistiram em que o bloqueio continuava. E aqueles que falavam de uma mudança estrutural. O avanço eleitoral do PP (à custa do Cs) e o fracasso do sorpasso deixavam o PSOE obrigado a viabilizar Rajoy. Como sabemos o PSOE inviabilizou a investidura de Rajoy duas vezes.

E assim chegámos às eleições galegas e bascas de setembro. Agora sim o sorpasso aconteceu. Na Galiza, onde o PSOE governou entre 2005 e 2009, passou a terceiro partido. No País Basco, onde o PSOE governou entre 2009 e 2012, passou a quarto partido. E ao resto assistimos esta semana. O PSOE arranjará agora uma qualquer liderança interina para viabilizar Rajoy (provavelmente com a abstenção de um punhado de deputados) e depois terá novo líder. Novamente dividem-se os prognósticos. Aqueles, como eu, que falam da implosão do PSOE e reconhecem que o Podemos ocupará o espaço de principal partido da esquerda a breve trecho. Outros acham que o PSOE será reconhecido como um partido responsável e crescerá eleitoralmente à custa do Podemos depois de viabilizar Rajoy.

Penso sinceramente que o PSOE se condenou ao mesmo destino que o PASOK: a irrelevância politica. Mas isso veremos a seu tempo. O que sim fica é um aviso ao PS: quando a esquerda radical acredita que pode substituir o centro-esquerda moderado, não há gerigonça possível, mesmo à custa de aturar a direita por mais uns tempos. Na Grécia. Em Espanha. Por mim, não voltarei a subestimar essa mensagem.

sábado, 1 de outubro de 2016