Um dos insubstituíveis privilégios de viver em Londres é o de poder falar com gente que nos faz um relato apaixonado sobre o que se passa nos países de onde vêm. Não digo que substituía ler a imprensa - não digo, mas a verdade é que não tinha, até almoçar hoje com um colega colombiano, lido nada sobre o referendo na Colômbia, que fosse além das gordas dos jornais online. Fiquei com a impressão, baseada, novamente, nas gordas, de que se tratava de um referendo sobre a paz com as FARC, mas parece não ser assim. O que se referendou foi os termos de um acordo, proposto pelas FARC ao governo central, em que, entre outras coisas, os membros da primeira receberiam um perdão, parcial ou completo, dependendo das circunstâncias, se confessassem os seus crimes. Estes termos foram propostos, em boa medida, como corolário da deterioração da economia da droga que financia as FARC. Do lado da oferta, a Colômbia não resistiu, por um lado, à redução nos preços internacionais causada pela produção massiva no Afeganistão, e, por outro, à falta de um mecanismo efetivo de distribuição para os EUA, o principal mercado, que pudesse rivalizar com o do México; do lado da procura, aparentemente drogas como o crystal meth, que podem ser produzidas internamente, estão a tornar-se mais populares nos EUA do que a cocaína e a heroína, as staple crops das FARC. Como poderão ter adivinhado, o meu colega é economista. Bom, trocado por miúdos, os guerrilheiros das FARC querem sair da selva e arranjar sustento nas cidades, e, para isso, precisam de uma amnistia.
O que mais achei curioso na descrição do meu colega foi o paralelo que ele ensaiou entre as campanhas para o referendo na Colômbia e outro referendo recente.
Aparentemente, a grande figura do lado dos que se opunham aos termos do acordo - o anterior presidente - é um político que ganhou notoriedade praticamente com base num tema em exclusivo, o da luta contra as FARC. Por sua vez, a campanha deste ex-presidente foi feita com base no argumento de que seria possível, com a rejeição do acordo, a assinatura de um outro, melhor (mais punitivo para a FARC), sem que isso resultasse em guerra - a ideia subjacente era a de que "eles" precisam mais de nós do que nós deles, e por isso vão ceder.
Além disso, havia uma assimetria insuperável entre o conhecimento detalhado do que significaria um "sim" no referendo, e o conhecimento, nulo, do que significaria o "não". O "não" resultaria no retomar das negociações, que podiam resultar em guerra, ou em termos melhores para o acordo com as FARC, ou no mesmo sítio de onde se partiu para o referendo,
Por fim, parece haver uma assimetria regional entre Bogotá e a Colômbia rural. Bogotá aparentemente estaria disposta a aceitar os termos do acordo, apesar de ser o sítio onde, provavelmente, iriam viver os guerrilheiros das FARC; o mundo rural estaria mais do lado do "não".
Continuo sem ter lido nenhum artigo sobre o tema, mas acho que a descrição que o meu colega me fez tem muito interesse em si mesma. O que está longe nem sempre é tão diferente como parece do que está perto. Ou isso, ou estamos enviesados e vemos tudo sob o nosso prisma.