Ainda acerca das declarações dos administradores da CGD, quem tem rendimento e património em Portugal tem de o declarar à Autoridade Tributária, ou seja, há uma entidade do estado português que já tem essa informação e, se as pessoas observam a lei, todos os anos a informação é actualizada. Se a informação de um ano para o outro flutua grandemente sem que haja causa aparente, isso deveria despoletar uma auditoria do contribuinte.
Resumindo, não percebo a lógica da recusa dos administradores em submeter as declarações de rendimento e património. Também se recusam a pagar impostos porque se acham no direito de não declarar os rendimentos e o património? Ou será que não queriam que essa informação fosse parar às mãos de pessoas em quem não confiam? Se há desconfiança, qual o motivo?
Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
Que lógica tem isto?
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Portugal
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Ganharia demais...
Diz o Expresso que António Domingues apresentou a sua declaração de património e rendimento ao TC depois de se demitir. Ora depois de se demitir não era preciso, duh! Como é que lhe queriam pagar tanto dinheiro, se o homem nem de lógica percebe?
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Portugal
Quantas voltas isto dá...
Na Bloomberg, o Tyler Cowen manda os Republicanos ler o "Atlas Shrugged" da Ayn Rand. Mas a cereja no topo do bolo, é ele dizer que Donald Trump devia falar com empresários americanos e aconselhá-los a não desinvestirem dos EUA, em vez de os proibir de sair dos EUA. Esses argumentos eram como os que Hillary Clinton fazia nos seus discursos caros, mas esses discursos para os apoiantes de Trump eram prova de que Clinton era corrupta.
A propósito, Gary Cohn, o Presidente do grupo da Goldman-Sachs vai encontrar-se com Trump hoje na Trump Tower, em Nova Iorque.
A propósito, Gary Cohn, o Presidente do grupo da Goldman-Sachs vai encontrar-se com Trump hoje na Trump Tower, em Nova Iorque.
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EUA
Como a prostituição
"Banking now is like a prostitution racket run by pimps. There’s just too much money involved."
Fonte: Minos Zombanakis, o inventor da LIBOR, citado na Bloomberg
Fonte: Minos Zombanakis, o inventor da LIBOR, citado na Bloomberg
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Civilização
"Estranhamente estranho a mim"
- Essas pessoas perderam tudo - as suas coisas, os lugares da sua história pessoal e o estatuto social - e recomeçaram a vida na Alemanha a partir do nível mais baixo, o de refugiado. Durante décadas não falaram do seu sofrimento, ou por ser muito doloroso ou por não cair bem queixar-se quando se é parte do povo que iniciou, praticou e provocou tantos actos de inacreditável horror. Mas o silêncio é terrível, porque os traumas estão a ser passados aos seus descendentes, que vivem com um sentimento surdo e inexplicável de que algo não está bem.
- Como as violações, disse eu. Durante décadas, as mulheres viram-se obrigadas a silenciar o crime de que foram vítimas.
- Sim, concordou. Uma tia minha foi violada pelos soldados russos, e teve um filho que morreu, infelizmente.
Fez uma pausa, e corrigiu:
- Infelizmente, ou talvez graças a Deus. Esses assuntos - tanto as violações como a criança - eram tabu na nossa família.
- Finalmente começa a falar-se do que aconteceu aos alemães. Desde há pouco mais de uma década comecei a ver artigos sobre esses temas.
- E até estão a fazer um museu sobre esses refugiados da II Guerra Mundial. Já não era sem tempo. Foi um período de muito sofrimento para todos. Mesmo esses que cometiam crimes horrorosos, mesmo esses têm uma história para contar. Leia o livro de Willy Peter Reese "Mir selber seltsam fremd" ("estranhamente estranho a mim"), um conjunto de apontamentos que se tornaram um diário da frente. Ele queria ser escritor, queria ser um Goethe, e foi mandado para a guerra, destruíram-lhe a alma. Morreu lá, aos 23 anos. As cartas que escrevia à mãe foram descobertas há tempos, e publicadas. Um livro impressionante. E depois, as pessoas que estavam do lado de lá, nesses sítios aonde ele levou a destruição. Conheci um deles. Aos 15 anos meteram-no descalço, e com a roupa que tinha no corpo, num comboio com destino aos trabalhos forçados em Berlim. Ao chegar aqui vestiram-no, calçaram-no, tiraram-lhe uma fotografia, e mandaram-no para o cemitério na Hermannstrasse, para um campo de trabalho que lá havia. Era um grupo de cem. Há alguns anos, na minha paróquia começou-se a falar disso, e fomos procurar as pessoas que ali tinham trabalhado. Fizemos anúncios na rádio e na televisão da Rússia e da Ucrânia. Um dia, um homem escreveu-nos a dizer que o pai dele sonhava em alemão. Foi assim que ele veio à Alemanha, ficou na minha casa, e na minha própria sala anunciou que se tinha fechado o ciclo, estava em paz com a sua história e já podia morrer. Depois começou a cantar „Heideröslein“ (uma canção muito popular na Alemanha, com música de Schubert para um poema de Goethe). Uma pessoa fica sem saber o que dizer. Morreu recentemente, tinha Parkinson. Fui visitá-lo quando a doença já ia adiantada, tinha um saco cheio de medicamentos e não sabia quais deles tomar. Uma catástrofe.
Voltei um pouco atrás na conversa, perguntei-lhe se esse prisioneiro dos alemães não tinha tido problemas ao regressar à terra dele, por ser considerado colaboracionista.
- Claro que teve! Quando o Exército Vermelho entrou em Berlim vestiram-lhe uma farda e puseram-no a trabalhar no transporte de prisioneiros de guerra. Mas, mal chegou a casa, foi julgado por colaboracionismo com o inimigo. Ele, que era esperto, dispôs-se logo voluntariamente a fazer os transportes de prisioneiros para a Sibéria. Passou dez anos a fazer isso, todos os dias carregava à pá 18 toneladas de carvão. Passou por muito na vida, esse homem.
Passar dez anos a levar prisioneiros para a Sibéria, para reduzir a crueldade de um castigo onde nem havia culpa...
Lembrei-me do outro, o maquinista de Auschwitz. O melhor amigo do filho dele era um rapazinho judeu que vivia com a mãe numa barraca, alegando que a casa deles tinha sido bombardeada e não tinham nem documentos nem alojamento. Ele levava judeus para Auschwitz, e fazia tantos transportes quantos a sua força permitia, para poupar aos colegas essa descida ao inferno. "Já me destruíram", dizia, "ao menos que não destruam também os outros". Quando a guerra acabou, os dois rapazes andavam a brincar com material militar perdido na floresta, e uma granada rebentou no bolso do filho do maquinista. O miúdo judeu levou-o ao ombro até casa. Como o filho morto no colo, o pai chorava, dizendo "este é o meu castigo, é a paga pelo que fiz."
Há setenta e cinco anos
Faz agora setenta e cinco anos que saiu um comboio de Berlim levando 1035 judeus com destino ao gueto de Riga. Umas semanas antes tinham começado a deportar judeus alemães para esse gueto, que rapidamente esgotou as capacidades para receber tantas pessoas. Depois de uma viagem de três dias, em condições horríveis de frio e falta de água), o comboio de Berlim chegou a Riga antes da data prevista. Todos os seus ocupantes foram levados directamente para o bosque de Rumbula, onde foram obrigados a despir-se, e os assassinaram a tiro. Uns dias mais tarde foram assassinados no mesmo lugar cerca de 27.000 antigos habitantes do gueto, para libertar espaço para os "evacuados" da Alemanha. Foi o Massacre de Rumbula.
Esta é a história insuportável por trás de uma das placas do memorial Gleis 17, junto à estação de Grunewald. A placa que escolhi fotografar apenas por o dia 27 de Novembro ser aquele em que passei por lá. Para cada transporte há uma placa com a data, o número de judeus deportados, e o destino. O destino do comboio, que o das pessoas era sempre o mesmo: o extermínio programado.
Esta é a história insuportável por trás de uma das placas do memorial Gleis 17, junto à estação de Grunewald. A placa que escolhi fotografar apenas por o dia 27 de Novembro ser aquele em que passei por lá. Para cada transporte há uma placa com a data, o número de judeus deportados, e o destino. O destino do comboio, que o das pessoas era sempre o mesmo: o extermínio programado.
Faz agora 75 anos que começaram as deportações sistemáticas dos judeus alemães.
A 9 de Novembro, data da "noite de cristal", passei pelo Gleis 17 ao fim da tarde. Apesar da escuridão, do frio e da chuva, uma pequena multidão tinha-se reunido com velas em frente ao muro de betão onde foram cavadas silhuetas humanas para gravar a ausência. Pareceu-me que alguém cantava um kadish pelos mortos.
A 9 de Novembro, data da "noite de cristal", passei pelo Gleis 17 ao fim da tarde. Apesar da escuridão, do frio e da chuva, uma pequena multidão tinha-se reunido com velas em frente ao muro de betão onde foram cavadas silhuetas humanas para gravar a ausência. Pareceu-me que alguém cantava um kadish pelos mortos.
Uns dias mais tarde, alguém escreveu naquele muro "Verdade Amor Jesus".
A frase foi rapidamente apagada, sem deixar vestígios, mas a vergonha permanece: 75 anos depois, ainda há quem escolha usar a religião dos cristãos para humilhar os judeus.
No princípio deste Advento, lembro o Rorate Caeli: Abri-vos, ó céus, e que as nuvens chovam o Justo. E que o Justo se instale no nosso coração, em vez de ser usado como pedra de arremesso contra os nossos irmãos.
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Contos zen para crianças boas 59
1.
As caudas dos lagartos voltam a crescer quando as
cortamos, diz-se.
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Contos zen
domingo, 27 de novembro de 2016
Um Republicano a sério
Richard Painter, Chief Ethics Counsel for George W. Bush, and Norman Eisen, Chief Ethics Counsel for Barack Obama, believe that if Trump continues to retain ownership over his sprawling business interests by the time the electors meet on December 19, they should reject Trump.
In an email to ThinkProgress, Eisen explained that “the founders did not want any foreign payments to the president. Period.” This principle is enshrined in Article 1, Section 9 of the Constitution, which bars office holders from accepting “any present, emolument, office, or title, of any kind whatever, from any king, prince, or foreign state.”
Fonte: ThinkProgress
Para um povo que tem a reputação de ser despachado, os americanos têm umas eleições presidenciais muito compridas. As eleições americanas ainda não terminaram, só depois da votação do Colégio Eleitoral é que teremos confirmação dos resultados do voto popular. Alguns membros do Colégio Eleitoral têm sido bombardeados por e-mail a pedir-lhes para não votarem em Donald Trump, mas os Eleitores estão um bocado chateados com tanta atenção. Os Eleitores são nomeados pelos partidos e os do Partido Republicano são dos mais fieis ao partido, logo é muito difícil mudarem o seu voto.
Há dois dias, os advogados de ética para as Administrações Bush e Obama levantaram a questão da constitucionalidade dos membros do Colégio Eleitoral votarem em Donald Trump. Dado que Donald Trump recebe pagamentos de governos estrangeiros através dos seus negócios, está impedido constitucionalmente de exercer o cargo. Só desinvestindo dos seus negócios é que sanaria o impedimento. Trump já afirmou que não acha necessário deixar de gerir os seus negócios particulares enquanto Presidente, logo desde o primeiro dia que estará em violação da Constituição.
Não parece que o Colégio Eleitoral vá observar os preceitos da Constituição, mas já há uma forma dos Republicanos se verem livres de Trump através de um impeachment. Ou seja, Trump foi usado para os Republicanos chegarem à Presidência; assim que ela estiver garantida, vêem-se livres dele e o cargo irá para Mike Pence, que é um Republicano a sério.
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EUA
irRITAção
Quando discordo de alguém, de vez em quando, as pessoas perdem a paciência. Nessa altura, os argumentos para me desarmar descem à parvalheira: estou na altura difícil do mês, tenho falta de sexo, sou frígida, mal-educada, arrogante, estúpida... Cheguei à conclusão de que a menopausa será bem-vinda porque já não me poderão dizer que estou com o período.
Em primeiro lugar, não ando irritada, nem zangada. O meu estado de espírito é um misto de tristeza e frustração. O meu cão Alfred morreu no Domingo antes das eleições e apanhou-me completamente de surpresa, tão de surpresa que ainda nem consegui processar completamente o que é perdê-lo.
Depois do Trump ganhar, apanhei com muitos "Aguenta", "Cala-te", "Aprende", etc. Decidi criar a Rita Trumpista e tratar os Trumpistas -- ou será Trumpetas? -- da mesma forma que o Trump trata os oponentes. No entanto, o mesmo pessoal que acha que Donald Trump é melhor do que pão fatiado, acha a Rita Trumpista intragável. Ah, percebem porque não gosto do homem? É completamente intragável.
Aligeirando as coisas, notem que a minha canção preferida dos Stones não é "I can't get no satisfaction"; é "Start me up": If you start me up, I'll never stop! You make a grown man cry... Mas o que eu estou a ouvir agora é a Sophie B. Hawkins. Ando no meu período revivalista. Ah, pois, a culpa é do período!
Em primeiro lugar, não ando irritada, nem zangada. O meu estado de espírito é um misto de tristeza e frustração. O meu cão Alfred morreu no Domingo antes das eleições e apanhou-me completamente de surpresa, tão de surpresa que ainda nem consegui processar completamente o que é perdê-lo.
Depois do Trump ganhar, apanhei com muitos "Aguenta", "Cala-te", "Aprende", etc. Decidi criar a Rita Trumpista e tratar os Trumpistas -- ou será Trumpetas? -- da mesma forma que o Trump trata os oponentes. No entanto, o mesmo pessoal que acha que Donald Trump é melhor do que pão fatiado, acha a Rita Trumpista intragável. Ah, percebem porque não gosto do homem? É completamente intragável.
Aligeirando as coisas, notem que a minha canção preferida dos Stones não é "I can't get no satisfaction"; é "Start me up": If you start me up, I'll never stop! You make a grown man cry... Mas o que eu estou a ouvir agora é a Sophie B. Hawkins. Ando no meu período revivalista. Ah, pois, a culpa é do período!
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Civilização,
Música
sábado, 26 de novembro de 2016
Cortar ou não cortar...
Os cortes de cabelo recordaram-me de das aulas do Frank Steindl, antigo professor de Economia na Oklahoma State University. Dizia ele para as pessoas terem cuidado com os exemplos que davam. A ideia de que quanto mais o preço desce, maior a quantidade procurada não é verdade para os cortes de cabelo. Se alguém cortar o cabelo e o preço baixar logo a seguir, a pessoa não volta ao cabeleireiro só para aproveitar a descida de preço. Então quem tem o cabelo curto, tem uma procura potencial de cortes de cabelo ainda mais reduzida do que alguém com o cabelo comprido.
A propósito do post dos cortes de cabelo, um leitor enviou-me um e-mail acerca do Efeito de Balassa-Samuelson. O que me chateou no exemplo do Carvalho da Silva é que ele citou preços que não fazem sentido nenhum: os coeficientes de ajustamento PPP publicados pela OCDE, mostram que $1 PPP vale $0.786 na Alemanha e $0.593 em Portugal, ou seja, o rácio Alemanha-Portugal não é 4, como ele disse, logo os dois preços que ele mencionou não se referem ao mesmo corte de cabelo.
Se forem à página da Expatistan, têm um ponto de partida acerca da comparação Lisboa-Berlim; no entanto, a informação dos preços é recolhida de contributos dos próprios utilizadores, logo há, pelo menos, enviesamento de selecção. De acordo com os dados fornecidos, um corte de cabelo normal para homem custa €12 em Lisboa e €18 em Berlim, ou seja, um rácio de 1.5. E até ficarão surpreendidos em saber que a categoria de cuidados pessoais é 9% mais cara em Lisboa do que em Berlim, mas julgo que parte da explicação deve-se à taxa de IVA em Portugal ser ligeiramente mais alta do que na Alemanha e haver diferenças de isenção.
Achei realmente difícil que o rácio fosse 4 -- é verdade, encalhei logo nos números escolhidos, nem consegui pensar em mais nada.
A propósito do post dos cortes de cabelo, um leitor enviou-me um e-mail acerca do Efeito de Balassa-Samuelson. O que me chateou no exemplo do Carvalho da Silva é que ele citou preços que não fazem sentido nenhum: os coeficientes de ajustamento PPP publicados pela OCDE, mostram que $1 PPP vale $0.786 na Alemanha e $0.593 em Portugal, ou seja, o rácio Alemanha-Portugal não é 4, como ele disse, logo os dois preços que ele mencionou não se referem ao mesmo corte de cabelo.
Se forem à página da Expatistan, têm um ponto de partida acerca da comparação Lisboa-Berlim; no entanto, a informação dos preços é recolhida de contributos dos próprios utilizadores, logo há, pelo menos, enviesamento de selecção. De acordo com os dados fornecidos, um corte de cabelo normal para homem custa €12 em Lisboa e €18 em Berlim, ou seja, um rácio de 1.5. E até ficarão surpreendidos em saber que a categoria de cuidados pessoais é 9% mais cara em Lisboa do que em Berlim, mas julgo que parte da explicação deve-se à taxa de IVA em Portugal ser ligeiramente mais alta do que na Alemanha e haver diferenças de isenção.
Achei realmente difícil que o rácio fosse 4 -- é verdade, encalhei logo nos números escolhidos, nem consegui pensar em mais nada.
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Economia
Falando de especialistas...
Noto que, os nossos caros leitores, gostam muito de dizer que eu não conheço muito a realidade portuguesa ou americana, como se isso fosse uma crítica válida. As críticas revelam mais acerca de quem as faz do que do seu alvo.
Vamos, então, acertar os ponteiros porque eu aborreço-me facilmente. Em primeiro lugar, comecem a contar coisas: contem as coisas que sabem e as que não sabem. As que não sabem são, em número, infinitamente superiores às que sabem. Se ainda não chegaram a esta conclusão, é sinal que a vossa cabeça é um sítio muito aborrecido.
O que é que separa um especialista de um não-especialista? Um especialista sabe os limites do seu conhecimento e tem ferramentas que permitem expandir o limite do que sabe, ou seja, o especialista, mais do que pelo saber, define-se pela sua capacidade de aprender. Uma pessoa que desiste de aprender deixa de ser especialista e passa a ser obsoleta.
É simples, meus amigos!
Vamos, então, acertar os ponteiros porque eu aborreço-me facilmente. Em primeiro lugar, comecem a contar coisas: contem as coisas que sabem e as que não sabem. As que não sabem são, em número, infinitamente superiores às que sabem. Se ainda não chegaram a esta conclusão, é sinal que a vossa cabeça é um sítio muito aborrecido.
O que é que separa um especialista de um não-especialista? Um especialista sabe os limites do seu conhecimento e tem ferramentas que permitem expandir o limite do que sabe, ou seja, o especialista, mais do que pelo saber, define-se pela sua capacidade de aprender. Uma pessoa que desiste de aprender deixa de ser especialista e passa a ser obsoleta.
É simples, meus amigos!
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Civilização
Um engano
Ontem, depois do almoço de Acção de Graças, decidimos ver um documentário: "The First Monday in May". No final, cativou-me o tema de Cat Power que tocou na banda sonora, mas não consegui ver o título. Após fazer uma procura no iTunes, encontrei o álbum "The Covers Record" e achei que tinha sido o tema "In this Hole", que tinha ouvido. Não era, enganei-me; o tema que ouvi era o "Wild is the Wind". Comprei os dois, mas "In this Hole" é o meu preferido.
Depois de ouvir isto veio-me à ideia a versão que Missy Higgins fez de "(I'm) In Love Again" de Cy Coleman. E depois pensei na Fiona Apple. Estas mulheres são tão boas...
Depois de ouvir isto veio-me à ideia a versão que Missy Higgins fez de "(I'm) In Love Again" de Cy Coleman. E depois pensei na Fiona Apple. Estas mulheres são tão boas...
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Música
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Cortes de cabelo
Ouvi o episódio do Conversas Cruzadas acerca da semana boa do Costa, onde se falou-se do salário mínimo de Portugal ser alto e de isso ser um entrave ao crescimento (visão de Carvalho da Silva), mas também uma necessidade para o crescimento (visão de Álvaro Santos Silva). Em Portugal, há empresas que oferecem aos trabalhadores a oportunidade de trabalhar sem ser colectados, logo falar em salário mínimo de Portugal sem dizer que há muitos trabalhadores para quem esse salário mínimo é irrelevante, confunde-me um bocado.
Carvalho da Silva usa muitos advérbios, diz que tem informação acerca de certas coisas, mas quando lha pedem, esquiva-se de a dar, e serve-se do tom de voz para desarmar os oponentes. Achou por bem falar no preço dos cortes de cabelo na Alemanha e Portugal para justificar que, se os cortes de cabelo em Portugal fossem mais caros, os trabalhadores ganhariam mais. O corte de cabelo é o mesmo, dizia ele, logo infere-se que não faz sentido pagar-se menos em Portugal do que na Alemanha.
O que é o preço de um corte de cabelo? É apenas o salário do cabeleireiro? A resposta é, obviamente, "Não". A informação contida nesse preço refere-se à qualidade do corte de cabelo, os produtos usados, a tesoura, a cadeira onde nos sentamos, o sítio onde o cabeleireiro fica, a atmosfera do cabeleireiro, o tempo que demora o cabeleireiro a trabalhar com o nosso cabelo, a exclusividade do cabeleireiro, etc. Comparar directamente o preço do corte de cabelo em dois sítios e pensar que se tira uma conclusão válida acerca dos salários, sem ter em conta as outras variáveis, é um erro crasso.
O cabeleireiro que eu uso em Houston é caro, tão caro que, a primeira vez que telefonei para marcar um corte com ele, a recepcionista disse-me que era caro e deu-me o preço praticado, que é $20 a $40 superior ao cabeleireiro recomendado pela minha chefe. Por um corte de cabelo, pintar, e secar pago $180-$200 e ainda deixo uma gorjeta. Por exemplo, o meu último corte foi $220, depois da gorjeta, mas ele demorou quase três horas a trabalhar em mim, ofereceu-me uma café espresso excepcional, conversou comigo e fez-me rir, tratando-me como se eu fosse uma amiga de longa data, as instalações têm obras de arte na parede, etc. Eu saí de lá muito bem disposta e quando cheguei ao escritório, a minha chefe disse "WOW!"
Quando fui a Portugal fui a dois cabeleireiros, um em Lisboa e outro nos arredores de Coimbra. Em Coimbra, não cortei, apenas pintei o cabelo e sequei. Paguei €18 o que achei muito barato (até deixei €5 de gorjeta, se a memória não me falha), mas a experiência não foi nada de extraordinário. A rapariga não conversou comigo, o sítio era pequeno e na parede havia posters de produtos de cabeleireiro, e saí de lá com o cabelo esticadinho, exactamente igual ao estilo que a cabeleireira tinha, apesar de eu ter dito que queria um estilo mais volumoso e não esticado que nem esparguete. Mostrei-lhe a foto do que eu queria, até, mas enquanto ela trabalhava, cheirei o meu cabelo a ser queimado pelo secador excessivamente quente e demasiado próximo do cabelo (mesmo assim deixei a gorjeta). Já em Lisboa apenas lavei e sequei e custou €22, se não estou em erro. Não era um cabeleireiro moderno, a rapariga não conversou quase nada comigo, fez o serviço e andou. Até me deu jeito porque eu estava com pressa (também deixei gorjeta porque a malta aí precisa mais do dinheiro do que eu).
O meu cabeleireiro de Houston é alemão, filho de uma alemã e de um italiano. Quando tinha 18 anos foi para Nova Iorque e interessou-se por cabelos, depois regressou à Alemanha fez o curso e andou por vários sítios na Alemanha e nos EUA a trabalhar e ganhar experiência, até se instalar em Houston. É óbvio que o percurso profissional dele vale muito mais do que €10 por corte. Quando vivia em Coimbra, há 20 anos, frequentava uma cabeleireira que era filha de imigrantes em França, tinha o curso de uma escola francesa, e um corte custava à volta de 2.200$00. Ela conversava connosco, o espaço era moderno e tinha boa atmosfera. Ela não cobra €10 por um corte hoje, de certeza.
Não percebo por que raio o Carvalho da Silva frequenta cabeleireiros de €10, pois ele pode pagar muito mais do que isso. Para um homem tão preocupado com os trabalhadores, ele não se importa de explorar os que são pior pagos. Faria mais sentido ir a um cabeleiro mais caro, que ele tem dinheiro para isso, e deixar os cabeleireiros baratos para quem ganha menos. Mas isto sou eu, que não tenho grande prazer em usar advérbios para dizer absolutamente nada.
Carvalho da Silva usa muitos advérbios, diz que tem informação acerca de certas coisas, mas quando lha pedem, esquiva-se de a dar, e serve-se do tom de voz para desarmar os oponentes. Achou por bem falar no preço dos cortes de cabelo na Alemanha e Portugal para justificar que, se os cortes de cabelo em Portugal fossem mais caros, os trabalhadores ganhariam mais. O corte de cabelo é o mesmo, dizia ele, logo infere-se que não faz sentido pagar-se menos em Portugal do que na Alemanha.
O que é o preço de um corte de cabelo? É apenas o salário do cabeleireiro? A resposta é, obviamente, "Não". A informação contida nesse preço refere-se à qualidade do corte de cabelo, os produtos usados, a tesoura, a cadeira onde nos sentamos, o sítio onde o cabeleireiro fica, a atmosfera do cabeleireiro, o tempo que demora o cabeleireiro a trabalhar com o nosso cabelo, a exclusividade do cabeleireiro, etc. Comparar directamente o preço do corte de cabelo em dois sítios e pensar que se tira uma conclusão válida acerca dos salários, sem ter em conta as outras variáveis, é um erro crasso.
O cabeleireiro que eu uso em Houston é caro, tão caro que, a primeira vez que telefonei para marcar um corte com ele, a recepcionista disse-me que era caro e deu-me o preço praticado, que é $20 a $40 superior ao cabeleireiro recomendado pela minha chefe. Por um corte de cabelo, pintar, e secar pago $180-$200 e ainda deixo uma gorjeta. Por exemplo, o meu último corte foi $220, depois da gorjeta, mas ele demorou quase três horas a trabalhar em mim, ofereceu-me uma café espresso excepcional, conversou comigo e fez-me rir, tratando-me como se eu fosse uma amiga de longa data, as instalações têm obras de arte na parede, etc. Eu saí de lá muito bem disposta e quando cheguei ao escritório, a minha chefe disse "WOW!"
Quando fui a Portugal fui a dois cabeleireiros, um em Lisboa e outro nos arredores de Coimbra. Em Coimbra, não cortei, apenas pintei o cabelo e sequei. Paguei €18 o que achei muito barato (até deixei €5 de gorjeta, se a memória não me falha), mas a experiência não foi nada de extraordinário. A rapariga não conversou comigo, o sítio era pequeno e na parede havia posters de produtos de cabeleireiro, e saí de lá com o cabelo esticadinho, exactamente igual ao estilo que a cabeleireira tinha, apesar de eu ter dito que queria um estilo mais volumoso e não esticado que nem esparguete. Mostrei-lhe a foto do que eu queria, até, mas enquanto ela trabalhava, cheirei o meu cabelo a ser queimado pelo secador excessivamente quente e demasiado próximo do cabelo (mesmo assim deixei a gorjeta). Já em Lisboa apenas lavei e sequei e custou €22, se não estou em erro. Não era um cabeleireiro moderno, a rapariga não conversou quase nada comigo, fez o serviço e andou. Até me deu jeito porque eu estava com pressa (também deixei gorjeta porque a malta aí precisa mais do dinheiro do que eu).
O meu cabeleireiro de Houston é alemão, filho de uma alemã e de um italiano. Quando tinha 18 anos foi para Nova Iorque e interessou-se por cabelos, depois regressou à Alemanha fez o curso e andou por vários sítios na Alemanha e nos EUA a trabalhar e ganhar experiência, até se instalar em Houston. É óbvio que o percurso profissional dele vale muito mais do que €10 por corte. Quando vivia em Coimbra, há 20 anos, frequentava uma cabeleireira que era filha de imigrantes em França, tinha o curso de uma escola francesa, e um corte custava à volta de 2.200$00. Ela conversava connosco, o espaço era moderno e tinha boa atmosfera. Ela não cobra €10 por um corte hoje, de certeza.
Não percebo por que raio o Carvalho da Silva frequenta cabeleireiros de €10, pois ele pode pagar muito mais do que isso. Para um homem tão preocupado com os trabalhadores, ele não se importa de explorar os que são pior pagos. Faria mais sentido ir a um cabeleiro mais caro, que ele tem dinheiro para isso, e deixar os cabeleireiros baratos para quem ganha menos. Mas isto sou eu, que não tenho grande prazer em usar advérbios para dizer absolutamente nada.
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Economia
Endividamento das empresas ou o dinheiro dos outros
Os países resgatados pela troika tinham em comum défices externos. No entanto, a contribuição do sector das famílias, das empresas e do Estado foi muito diferente em cada um deles.
O contributo do endividamento do Estado em Portugal e na Grécia não precisa de ser discutido - continua a ser o principal tema de discussão de política económica no nosso país.
No caso da contribuição das famílias para o endividamento, apesar da forte redução da taxa de poupança, as famílias portuguesas foram as únicas do grupo de países rasgatado pela troika que, entre a criação do euro e a crise financeira internacional, tiveram em todos os anos capacidade líquida de financiamento. Esta situação contrasta com a situação muito deficitária das famílias gregas e irlandesas.
Em relação às empresas, as portuguesas destacam-se por terem tido elevadas necessidades de financiamento em todo o período, à semelhança das espanholas. Pelo contrário, as empresas gregas e irlandesas apresentaram capacidade líquida de financiamento durante todo o período.
É natural que empresas subcapitalizadas, numa economia em crescimento, precisassem de financiamento. Nesse processo, as empresas portuguesas tornaram-se das mais endividadas do mundo. Infelizmente, como hoje sabemos pelo fraco crescimento da nossa economia e pelo estado dos bancos, os 'investimentos' realizados não foram os melhores.
É este o tema do meu artigo de opinião no ECO - O Dinheiro dos Outros.
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
A "corrupção"
No final de Maio de 2004, mudei-me para Fayetteville, AR. Antes de me mudar, muitas pessoas em Oklahoma disseram-me que era uma cidade muito engraçada, com muitos restaurantes locais e uma vida nocturna animada. Fui trabalhar para a Universidade do Arkansas, onde Bill Clinton e Hillary Clinton trabalharam nos anos 70. Se conhecem a biografia de Hillary Clinton, talvez se recordem que depois de ela chumbar o "bar exam" de Washington, D.C., decidiu mudar-se para Fayetteville para estar com o namorado, o Bill Clinton. Foi a senhoria de Hillary que lhe deu boleia de D.C. até Fayetteville. Quando lá chegaram, a cidade era muito diferente da cidade em que eu vivi. Como disse a senhoria de Hillary, aquelas pessoas nem queijo Brie tinham: os requintes da boa cozinha eram desconhecidos. Já quando eu cheguei, um dos restaurantes mais populares e de maior prestígio era o La Maison des Tartes, onde se podia comprar queijos europeus, para além de bom pão, café, e chá.
Quando me mudei em 2004, Fayetteville tinha cerca de 60.000 pessoas, o que parece pouco, mas a cidade de Springdale, mesmo ao lado, tinha para aí 55.000. E depois havia outras cidades coladas, como Farmington, com 2.800 almas, Johnson, Prairie Grove, etc. A menos de meia-hora, pela I-540, havia Rogers e Bentonville, mais duas cidades, cada uma com mais de 30.000 almas. O Noroeste do Arkansas, ancorado por Fayetteville, Springdale, Rogers e Bentonville, contava com uma população à volta de 400.000 pessoas, e na altura já usufruía de uma excelente qualidade de vida, com "hiking trails" nas florestas e mesmo dentro de Fayetteville, a cidade mais liberal da área. Costumo dizer que os hippies mudaram-se para lá. Desde April a Novembro, o Farmer's Market de Fayetteville é um dos pontos altos da cidade, especialmente o do Sábado de manhã. É tão importante que já serviu de case study para a criação de outros Farmer's Markets em outros estados, como Oklahoma.
O Noroeste do Arkansas tem várias sedes de empresas de importância nacional e mesmo mundial, como o Walmart, a Tyson Foods, e a J.B. Hunt. No final dos anos 90, quando Bill Clinton ainda era Presidente, conta-se que os donos do Walmart sugeriram a construção de uma via rápida que ligasse o Noroeste do Arkansas à I-40 que passa por Fort Smith, AR, a tal I-540. A via rápida foi construída e suponho que, nesta altura, alguns de vós já tenham concluído de que é prova da corrupção dos Clinton. Mas enganam-se porque as coisas são sempre muito pouco lineares, como verão a seguir.
O Walmart tem uma política de só fazer negócio com empresas que tenham representação no Noroeste do Arkansas, o que implica que qualquer empresa que queira vender coisas no Walmart tem de ter um escritório na área. A política deles até é mais severa do que isso, pois "proíbe" os vendedores que trabalham nesses escritórios de comprar casa em Bentonville, AR, que é para os empregados da sede do Walmart não serem vizinhos dos vendedores -- conflito de interesse, percebem? Seria mau que os vendedores fossem amigos dos empregados do Walmart. Isso significa que há um influxo de pessoas qualificadas para a área e o mercado imobiliário das redondezas aprecia bastante, até porque com a construção da via rápida, não custa muito ir de Springdale ou Fayetteville até aos escritórios em Bentonville ou Rogers.
Durante a Presidência Bush, o Walmart fez força para que se construísse um aeroporto no Noroeste do Arkansas, mas não pensem que é um aeroporto insignificante porque o XNA tem ligações directas a muitas grandes cidades americanas, como Houston, Nova Iorque, Chigago, etc. E agora, acham que o Bush também é corrupto por se ter construído um aeroporto no meio do pasto? Antes de eu sair do Noroeste do Arkansas, a Alice Walton decidiu construir um Museu nas encostas onde brincava quando era criança, o Crystal Bridges Museum, que é apenas o melhor museu de arte americana dos EUA e compete com os maiores museus americanos na compra de arte. The New York Times chegou a sugerir que a compra do quadro "Kindred Spirits" à Biblioteca Pública de Nova Iorque por Alice Walton era um desastre semelhante à destruição de Penn Station: afinal, quem de seu juízo iria visitar um museu ao Arkansas no meio do nada?
A construção de Crystal Bridges levantou uma polémica interessante: será que fazia sentido a construção de um museu de arte por uma herdeira que acumulou dinheiro através de uma empresa que paga mal aos empregados? Não seria melhor usar o dinheiro para aumentar os salários dos empregados? Esta polémica foi a mesma que rodeou a decisão de Andrew Carnegie apoiar um sistema de bibliotecas públicas, quando Carnegie era alguém conhecido por lutar contra os sindicatos e os aumentos de salários por decreto. Mas não foi a primeira vez que os Walton decidiram mandar os salários dos empregados à fava, pois em Fayetteville, a Universidade recebe bastante dinheiro em doações e o Walton Arts Center, localizado em Dickson St., no centro da cidade, e onde assisti a um concerto da Marisa, tornou-se pequeno e em 2015 iniciou-se uma renovação e expansão que custou $23 milhões.
Os discursos pagos a preço de ouro de Hillary Clinton foram oferecidos como prova de que era uma pessoa corrupta, que estava feita com Wall Street. Só que num dos discursos, em que ela falou à General Electric Global Leadership Meeting, cujo texto acabou sendo divulgado através das Wikileaks, Clinton defende que as empresas devem voluntariamente aumentar os salários dos empregados, à semelhança do que fez Henry Ford, quando teve a visão de que os seus empregados seriam parte da sua clientela, se os seus salários assim o permitissem. Curiosamente, o Walmart em anos recentes decidiu aumentar os salários praticados.
Como vêem, a América, acima de tudo, é um sítio muito "corrupto".
Quando me mudei em 2004, Fayetteville tinha cerca de 60.000 pessoas, o que parece pouco, mas a cidade de Springdale, mesmo ao lado, tinha para aí 55.000. E depois havia outras cidades coladas, como Farmington, com 2.800 almas, Johnson, Prairie Grove, etc. A menos de meia-hora, pela I-540, havia Rogers e Bentonville, mais duas cidades, cada uma com mais de 30.000 almas. O Noroeste do Arkansas, ancorado por Fayetteville, Springdale, Rogers e Bentonville, contava com uma população à volta de 400.000 pessoas, e na altura já usufruía de uma excelente qualidade de vida, com "hiking trails" nas florestas e mesmo dentro de Fayetteville, a cidade mais liberal da área. Costumo dizer que os hippies mudaram-se para lá. Desde April a Novembro, o Farmer's Market de Fayetteville é um dos pontos altos da cidade, especialmente o do Sábado de manhã. É tão importante que já serviu de case study para a criação de outros Farmer's Markets em outros estados, como Oklahoma.
O Noroeste do Arkansas tem várias sedes de empresas de importância nacional e mesmo mundial, como o Walmart, a Tyson Foods, e a J.B. Hunt. No final dos anos 90, quando Bill Clinton ainda era Presidente, conta-se que os donos do Walmart sugeriram a construção de uma via rápida que ligasse o Noroeste do Arkansas à I-40 que passa por Fort Smith, AR, a tal I-540. A via rápida foi construída e suponho que, nesta altura, alguns de vós já tenham concluído de que é prova da corrupção dos Clinton. Mas enganam-se porque as coisas são sempre muito pouco lineares, como verão a seguir.
O Walmart tem uma política de só fazer negócio com empresas que tenham representação no Noroeste do Arkansas, o que implica que qualquer empresa que queira vender coisas no Walmart tem de ter um escritório na área. A política deles até é mais severa do que isso, pois "proíbe" os vendedores que trabalham nesses escritórios de comprar casa em Bentonville, AR, que é para os empregados da sede do Walmart não serem vizinhos dos vendedores -- conflito de interesse, percebem? Seria mau que os vendedores fossem amigos dos empregados do Walmart. Isso significa que há um influxo de pessoas qualificadas para a área e o mercado imobiliário das redondezas aprecia bastante, até porque com a construção da via rápida, não custa muito ir de Springdale ou Fayetteville até aos escritórios em Bentonville ou Rogers.
Durante a Presidência Bush, o Walmart fez força para que se construísse um aeroporto no Noroeste do Arkansas, mas não pensem que é um aeroporto insignificante porque o XNA tem ligações directas a muitas grandes cidades americanas, como Houston, Nova Iorque, Chigago, etc. E agora, acham que o Bush também é corrupto por se ter construído um aeroporto no meio do pasto? Antes de eu sair do Noroeste do Arkansas, a Alice Walton decidiu construir um Museu nas encostas onde brincava quando era criança, o Crystal Bridges Museum, que é apenas o melhor museu de arte americana dos EUA e compete com os maiores museus americanos na compra de arte. The New York Times chegou a sugerir que a compra do quadro "Kindred Spirits" à Biblioteca Pública de Nova Iorque por Alice Walton era um desastre semelhante à destruição de Penn Station: afinal, quem de seu juízo iria visitar um museu ao Arkansas no meio do nada?
A construção de Crystal Bridges levantou uma polémica interessante: será que fazia sentido a construção de um museu de arte por uma herdeira que acumulou dinheiro através de uma empresa que paga mal aos empregados? Não seria melhor usar o dinheiro para aumentar os salários dos empregados? Esta polémica foi a mesma que rodeou a decisão de Andrew Carnegie apoiar um sistema de bibliotecas públicas, quando Carnegie era alguém conhecido por lutar contra os sindicatos e os aumentos de salários por decreto. Mas não foi a primeira vez que os Walton decidiram mandar os salários dos empregados à fava, pois em Fayetteville, a Universidade recebe bastante dinheiro em doações e o Walton Arts Center, localizado em Dickson St., no centro da cidade, e onde assisti a um concerto da Marisa, tornou-se pequeno e em 2015 iniciou-se uma renovação e expansão que custou $23 milhões.
Os discursos pagos a preço de ouro de Hillary Clinton foram oferecidos como prova de que era uma pessoa corrupta, que estava feita com Wall Street. Só que num dos discursos, em que ela falou à General Electric Global Leadership Meeting, cujo texto acabou sendo divulgado através das Wikileaks, Clinton defende que as empresas devem voluntariamente aumentar os salários dos empregados, à semelhança do que fez Henry Ford, quando teve a visão de que os seus empregados seriam parte da sua clientela, se os seus salários assim o permitissem. Curiosamente, o Walmart em anos recentes decidiu aumentar os salários praticados.
Como vêem, a América, acima de tudo, é um sítio muito "corrupto".
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