quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Tendências de Natal

Caros leitores,
A Destreza das Dúvidas não queria ser remissa em informar-vos das novas tendências de Natal de Houston. Bem sabemos que ainda é Novembro, mas o Dia de Acção de Graças já lá vai, e este ano muita gente começou a decorar cedo porque estavam fartos da novela das eleições presidenciais.

Como podem verificar pelas fotos em anexo, a grande tendência deste ano é pendurar enfeites gigantes nas árvores exteriores, especialmente bolas: have some balls, will you? Para além disso, convém decorar a porta de entrada com enfeites também eles gigantes -- o Quebra-Noz é sempre uma opção actual -- e guirlandas de verdura natural ou artificial. Evitem pendurar as luzes de Natal no telhado, a fazer de conta que são pingentes, porque isso está fora de moda, mas podem sempre iluminar os carreiros do vosso jardim com luzes multicoloridas. Lembrem-se que estão também a ajudar o PIB nacional com todo este consumo de energia.

Esperamos que tenham uma trabalheira decorativa agradável e muito cuidado para não se electrocutarem a vós, nem aos vizinhos. Antes de subir a uma escada, certifiquem-se de que o equipamento é seguro e vocês não andaram a testar os vinhos que pensam servir na ceia. Não nos responsabilizamos pelos vossos acidentes e subscrevemos a política de tolerância zero.

Happy Holidays, que nós aqui somos politicamente (in)correctos!

Erro humano ou muito queijo?

O Wisconsin é conhecido pela produção de queijo, mas nestas eleições também será conhecido pela produção de votos. Em quatro distritos eleitorais diferentes, "erro humano" levou a que Trump obtivesse um total de pelo menos 5.000 votos que nunca existiram e que, entretanto, já foram retirados. Convenhamos que, estatisticamente, quatro erros humanos independentes serem todos favoráveis a Trump é muito improvável, ainda por cima foram descobertos antes de se começar a repetir a contagem de votos, que se iniciará amanhã. Antes destes erros serem identificados, um Tribunal Federal concluiu que o Wisconsin tinha alterado a delineação dos distritos eleitorais de forma a favorecer os Republicanos e a diluir o voto democrata, o que era inconstitucional, mas apenas é relevante para o voto legislativo.

A estimativa é de que irá custar $3,5 milhões para contar os votos no Wisconsin, quando inicialmente se tinha projectado que custaria $1,1 milhões. Só para terem noção do que isto é, o Green Party só conseguiu angariar $3,5 milhões durante o período eleitoral. Neste momento, Jill Stein já conseguiu angariar $6,6 milhões. Uma juíza do Wisconsin rejeitou o pedido de Stein de os votos serem contados à mão, logo, no final, o custo é capaz de ser inferior ao estimado pois o custo de recontagem é de $1,31 por voto, de acordo com o Milwaukee Journal Sentinel, o que parece ridículo.

Adenda: Pelos meus cálculos, o custo por voto será de $1,18 (ver votos aqui, que somam 2.975.313).

Que lógica tem isto?

Ainda acerca das declarações dos administradores da CGD, quem tem rendimento e património em Portugal tem de o declarar à Autoridade Tributária, ou seja, há uma entidade do estado português que já tem essa informação e, se as pessoas observam a lei, todos os anos a informação é actualizada. Se a informação de um ano para o outro flutua grandemente sem que haja causa aparente, isso deveria despoletar uma auditoria do contribuinte.

Resumindo, não percebo a lógica da recusa dos administradores em submeter as declarações de rendimento e património. Também se recusam a pagar impostos porque se acham no direito de não declarar os rendimentos e o património? Ou será que não queriam que essa informação fosse parar às mãos de pessoas em quem não confiam? Se há desconfiança, qual o motivo?

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Ganharia demais...

Diz o Expresso que António Domingues apresentou a sua declaração de património e rendimento ao TC depois de se demitir. Ora depois de se demitir não era preciso, duh! Como é que lhe queriam pagar tanto dinheiro, se o homem nem de lógica percebe?

Quantas voltas isto dá...

Na Bloomberg, o Tyler Cowen manda os Republicanos ler o "Atlas Shrugged" da Ayn Rand. Mas a cereja no topo do bolo, é ele dizer que Donald Trump devia falar com empresários americanos e aconselhá-los a não desinvestirem dos EUA, em vez de os proibir de sair dos EUA. Esses argumentos eram como os que Hillary Clinton fazia nos seus discursos caros, mas esses discursos para os apoiantes de Trump eram prova de que Clinton era corrupta.

A propósito, Gary Cohn, o Presidente do grupo da Goldman-Sachs vai encontrar-se com Trump hoje na Trump Tower, em Nova Iorque.

Como a prostituição

"Banking now is like a prostitution racket run by pimps. There’s just too much money involved."

Fonte: Minos Zombanakis, o inventor da LIBOR, citado na Bloomberg

"Estranhamente estranho a mim"



Esta manhã o meu cão fugiu para o memorial Gleis 17. Fui atrás dele, e encontrei um senhor a tirar fotografias. Falei-lhe da placa do dia 27.11.1941, e ele sabia. Tem amigos que eram de Riga, e viram assassinar um grupo de judeus a tiro, no pátio do prédio onde viviam. Essas pessoas viram-se depois obrigadas a fugir, e durante uns meses viveram, a contragosto, com polacos. "Quem não perdeu tudo, como eles, tem uma perspectiva muito limitada e simplista sobre o que é certo e errado." Pensei que estava a falar de judeus, mas não - falava dos alemães que foram expulsos da Europa oriental, ou fugiram precipitadamente dos soldados soviéticos. E continuou:
- Essas pessoas perderam tudo - as suas coisas, os lugares da sua história pessoal e o estatuto social - e recomeçaram a vida na Alemanha a partir do nível mais baixo, o de refugiado. Durante décadas não falaram do seu sofrimento, ou por ser muito doloroso ou por não cair bem queixar-se quando se é parte do povo que iniciou, praticou e provocou tantos actos de inacreditável horror. Mas o silêncio é terrível, porque os traumas estão a ser passados aos seus descendentes, que vivem com um sentimento surdo e inexplicável de que algo não está bem.
- Como as violações, disse eu. Durante décadas, as mulheres viram-se obrigadas a silenciar o crime de que foram vítimas.
- Sim, concordou. Uma tia minha foi violada pelos soldados russos, e teve um filho que morreu, infelizmente.
Fez uma pausa, e corrigiu:
- Infelizmente, ou talvez graças a Deus. Esses assuntos - tanto as violações como a criança - eram tabu na nossa família.
- Finalmente começa a falar-se do que aconteceu aos alemães. Desde há pouco mais de uma década comecei a ver artigos sobre esses temas.
- E até estão a fazer um museu sobre esses refugiados da II Guerra Mundial. Já não era sem tempo. Foi um período de muito sofrimento para todos. Mesmo esses que cometiam crimes horrorosos, mesmo esses têm uma história para contar. Leia o livro de Willy Peter Reese "Mir selber seltsam fremd" ("estranhamente estranho a mim"), um conjunto de apontamentos que se tornaram um diário da frente. Ele queria ser escritor, queria ser um Goethe, e foi mandado para a guerra, destruíram-lhe a alma. Morreu lá, aos 23 anos. As cartas que escrevia à mãe foram descobertas há tempos, e publicadas. Um livro impressionante. E depois, as pessoas que estavam do lado de lá, nesses sítios aonde ele levou a destruição. Conheci um deles. Aos 15 anos meteram-no descalço, e com a roupa que tinha no corpo, num comboio com destino aos trabalhos forçados em Berlim. Ao chegar aqui vestiram-no, calçaram-no, tiraram-lhe uma fotografia, e mandaram-no para o cemitério na Hermannstrasse, para um campo de trabalho que lá havia. Era um grupo de cem. Há alguns anos, na minha paróquia começou-se a falar disso, e fomos procurar as pessoas que ali tinham trabalhado. Fizemos anúncios na rádio e na televisão da Rússia e da Ucrânia. Um dia, um homem escreveu-nos a dizer que o pai dele sonhava em alemão. Foi assim que ele veio à Alemanha, ficou na minha casa, e na minha própria sala anunciou que se tinha fechado o ciclo, estava em paz com a sua história e já podia morrer. Depois começou a cantar „Heideröslein“ (uma canção muito popular na Alemanha, com música de Schubert para um poema de Goethe). Uma pessoa fica sem saber o que dizer. Morreu recentemente, tinha Parkinson. Fui visitá-lo quando a doença já ia adiantada, tinha um saco cheio de medicamentos e não sabia quais deles tomar. Uma catástrofe.
Voltei um pouco atrás na conversa, perguntei-lhe se esse prisioneiro dos alemães não tinha tido problemas ao regressar à terra dele, por ser considerado colaboracionista.
- Claro que teve! Quando o Exército Vermelho entrou em Berlim vestiram-lhe uma farda e puseram-no a trabalhar no transporte de prisioneiros de guerra. Mas, mal chegou a casa, foi julgado por colaboracionismo com o inimigo. Ele, que era esperto, dispôs-se logo voluntariamente a fazer os transportes de prisioneiros para a Sibéria. Passou dez anos a fazer isso, todos os dias carregava à pá 18 toneladas de carvão. Passou por muito na vida, esse homem.

Passar dez anos a levar prisioneiros para a Sibéria, para reduzir a crueldade de um castigo onde nem havia culpa...
Lembrei-me do outro, o maquinista de Auschwitz. O melhor amigo do filho dele era um rapazinho judeu que vivia com a mãe numa barraca, alegando que a casa deles tinha sido bombardeada e não tinham nem documentos nem alojamento. Ele levava judeus para Auschwitz, e fazia tantos transportes quantos a sua força permitia, para poupar aos colegas essa descida ao inferno. "Já me destruíram", dizia, "ao menos que não destruam também os outros". Quando a guerra acabou, os dois rapazes andavam a brincar com material militar perdido na floresta, e uma granada rebentou no bolso do filho do maquinista. O miúdo judeu levou-o ao ombro até casa. Como o filho morto no colo, o pai chorava, dizendo "este é o meu castigo, é a paga pelo que fiz."


Há setenta e cinco anos





Faz agora setenta e cinco anos que saiu um comboio de Berlim levando 1035 judeus com destino ao gueto de Riga. Umas semanas antes tinham começado a deportar judeus alemães para esse gueto, que rapidamente esgotou as capacidades para receber tantas pessoas. Depois de uma viagem de três dias, em condições horríveis de frio e falta de água), o comboio de Berlim chegou a Riga antes da data prevista. Todos os seus ocupantes foram levados directamente para o bosque de Rumbula, onde foram obrigados a despir-se, e os assassinaram a tiro. Uns dias mais tarde foram assassinados no mesmo lugar cerca de 27.000 antigos habitantes do gueto, para libertar espaço para os "evacuados" da Alemanha. Foi o Massacre de Rumbula.

Esta é a história insuportável por trás de uma das placas do memorial Gleis 17, junto à estação de Grunewald. A placa que escolhi fotografar apenas por o dia 27 de Novembro ser aquele em que passei por lá. Para cada transporte há uma placa com a data, o número de judeus deportados, e o destino. O destino do comboio, que o das pessoas era sempre o mesmo: o extermínio programado.

 








Faz agora 75 anos que começaram as deportações sistemáticas dos judeus alemães.
A 9 de Novembro, data da "noite de cristal", passei pelo Gleis 17 ao fim da tarde. Apesar da escuridão, do frio e da chuva, uma pequena multidão tinha-se reunido com velas em frente ao muro de betão onde foram cavadas silhuetas humanas para gravar a ausência. Pareceu-me que alguém cantava um kadish pelos mortos.



Uns dias mais tarde, alguém escreveu naquele muro "Verdade Amor Jesus".
A frase foi rapidamente apagada, sem deixar vestígios, mas a vergonha permanece: 75 anos depois, ainda há quem escolha usar a religião dos cristãos para humilhar os judeus.




No princípio deste Advento, lembro o Rorate Caeli: Abri-vos, ó céus, e que as nuvens chovam o Justo. E que o Justo se instale no nosso coração, em vez de ser usado como pedra de arremesso contra os nossos irmãos.




segunda-feira, 28 de novembro de 2016

domingo, 27 de novembro de 2016

Um Republicano a sério

Richard Painter, Chief Ethics Counsel for George W. Bush, and Norman Eisen, Chief Ethics Counsel for Barack Obama, believe that if Trump continues to retain ownership over his sprawling business interests by the time the electors meet on December 19, they should reject Trump.

In an email to ThinkProgress, Eisen explained that “the founders did not want any foreign payments to the president. Period.” This principle is enshrined in Article 1, Section 9 of the Constitution, which bars office holders from accepting “any present, emolument, office, or title, of any kind whatever, from any king, prince, or foreign state.”

Fonte: ThinkProgress

Para um povo que tem a reputação de ser despachado, os americanos têm umas eleições presidenciais muito compridas. As eleições americanas ainda não terminaram, só depois da votação do Colégio Eleitoral é que teremos confirmação dos resultados do voto popular. Alguns membros do Colégio Eleitoral têm sido bombardeados por e-mail a pedir-lhes para não votarem em Donald Trump, mas os Eleitores estão um bocado chateados com tanta atenção. Os Eleitores são nomeados pelos partidos e os do Partido Republicano são dos mais fieis ao partido, logo é muito difícil mudarem o seu voto.

Há dois dias, os advogados de ética para as Administrações Bush e Obama levantaram a questão da constitucionalidade dos membros do Colégio Eleitoral votarem em Donald Trump. Dado que Donald Trump recebe pagamentos de governos estrangeiros através dos seus negócios, está impedido constitucionalmente de exercer o cargo. Só desinvestindo dos seus negócios é que sanaria o impedimento. Trump já afirmou que não acha necessário deixar de gerir os seus negócios particulares enquanto Presidente, logo desde o primeiro dia que estará em violação da Constituição.

Não parece que o Colégio Eleitoral vá observar os preceitos da Constituição, mas já há uma forma dos Republicanos se verem livres de Trump através de um impeachment. Ou seja, Trump foi usado para os Republicanos chegarem à Presidência; assim que ela estiver garantida, vêem-se livres dele e o cargo irá para Mike Pence, que é um Republicano a sério.

irRITAção

Quando discordo de alguém, de vez em quando, as pessoas perdem a paciência. Nessa altura, os argumentos para me desarmar descem à parvalheira: estou na altura difícil do mês, tenho falta de sexo, sou frígida, mal-educada, arrogante, estúpida... Cheguei à conclusão de que a menopausa será bem-vinda porque já não me poderão dizer que estou com o período.

Em primeiro lugar, não ando irritada, nem zangada. O meu estado de espírito é um misto de tristeza e frustração. O meu cão Alfred morreu no Domingo antes das eleições e apanhou-me completamente de surpresa, tão de surpresa que ainda nem consegui processar completamente o que é perdê-lo.

Depois do Trump ganhar, apanhei com muitos "Aguenta", "Cala-te", "Aprende", etc. Decidi criar a Rita Trumpista e tratar os Trumpistas -- ou será Trumpetas? -- da mesma forma que o Trump trata os oponentes. No entanto, o mesmo pessoal que acha que Donald Trump é melhor do que pão fatiado, acha a Rita Trumpista intragável. Ah, percebem porque não gosto do homem? É completamente intragável.

Aligeirando as coisas, notem que a minha canção preferida dos Stones não é "I can't get no satisfaction"; é "Start me up": If you start me up, I'll never stop! You make a grown man cry... Mas o que eu estou a ouvir agora é a Sophie B. Hawkins. Ando no meu período revivalista. Ah, pois, a culpa é do período!


sábado, 26 de novembro de 2016

Cortar ou não cortar...

Os cortes de cabelo recordaram-me de das aulas do Frank Steindl, antigo professor de Economia na Oklahoma State University. Dizia ele para as pessoas terem cuidado com os exemplos que davam. A ideia de que quanto mais o preço desce, maior a quantidade procurada não é verdade para os cortes de cabelo. Se alguém cortar o cabelo e o preço baixar logo a seguir, a pessoa não volta ao cabeleireiro só para aproveitar a descida de preço. Então quem tem o cabelo curto, tem uma procura potencial de cortes de cabelo ainda mais reduzida do que alguém com o cabelo comprido.

A propósito do post dos cortes de cabelo, um leitor enviou-me um e-mail acerca do Efeito de Balassa-Samuelson. O que me chateou no exemplo do Carvalho da Silva é que ele citou preços que não fazem sentido nenhum: os coeficientes de ajustamento PPP publicados pela OCDE, mostram que $1 PPP vale $0.786 na Alemanha e $0.593 em Portugal, ou seja, o rácio Alemanha-Portugal não é 4, como ele disse, logo os dois preços que ele mencionou não se referem ao mesmo corte de cabelo.

Se forem à página da Expatistan, têm um ponto de partida acerca da comparação Lisboa-Berlim; no entanto, a informação dos preços é recolhida de contributos dos próprios utilizadores, logo há, pelo menos, enviesamento de selecção. De acordo com os dados fornecidos, um corte de cabelo normal para homem custa €12 em Lisboa e €18 em Berlim, ou seja, um rácio de 1.5. E até ficarão surpreendidos em saber que a categoria de cuidados pessoais é 9% mais cara em Lisboa do que em Berlim, mas julgo que parte da explicação deve-se à taxa de IVA em Portugal ser ligeiramente mais alta do que na Alemanha e haver diferenças de isenção.

Achei realmente difícil que o rácio fosse 4 -- é verdade, encalhei logo nos números escolhidos, nem consegui pensar em mais nada.

Falando de especialistas...

Noto que, os nossos caros leitores, gostam muito de dizer que eu não conheço muito a realidade portuguesa ou americana, como se isso fosse uma crítica válida. As críticas revelam mais acerca de quem as faz do que do seu alvo.

Vamos, então, acertar os ponteiros porque eu aborreço-me facilmente. Em primeiro lugar, comecem a contar coisas: contem as coisas que sabem e as que não sabem. As que não sabem são, em número, infinitamente superiores às que sabem. Se ainda não chegaram a esta conclusão, é sinal que a vossa cabeça é um sítio muito aborrecido.

O que é que separa um especialista de um não-especialista? Um especialista sabe os limites do seu conhecimento e tem ferramentas que permitem expandir o limite do que sabe, ou seja, o especialista, mais do que pelo saber, define-se pela sua capacidade de aprender. Uma pessoa que desiste de aprender deixa de ser especialista e passa a ser obsoleta.

É simples, meus amigos!

Um engano

Ontem, depois do almoço de Acção de Graças, decidimos ver um documentário: "The First Monday in May". No final, cativou-me o tema de Cat Power que tocou na banda sonora, mas não consegui ver o título. Após fazer uma procura no iTunes, encontrei o álbum "The Covers Record" e achei que tinha sido o tema "In this Hole", que tinha ouvido. Não era, enganei-me; o tema que ouvi era o "Wild is the Wind". Comprei os dois, mas "In this Hole" é o meu preferido.

Depois de ouvir isto veio-me à ideia a versão que Missy Higgins fez de "(I'm) In Love Again" de Cy Coleman. E depois pensei na Fiona Apple. Estas mulheres são tão boas...

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Cortes de cabelo

Ouvi o episódio do Conversas Cruzadas acerca da semana boa do Costa, onde se falou-se do salário mínimo de Portugal ser alto e de isso ser um entrave ao crescimento (visão de Carvalho da Silva), mas também uma necessidade para o crescimento (visão de Álvaro Santos Silva). Em Portugal, há empresas que oferecem aos trabalhadores a oportunidade de trabalhar sem ser colectados, logo falar em salário mínimo de Portugal sem dizer que há muitos trabalhadores para quem esse salário mínimo é irrelevante, confunde-me um bocado.

Carvalho da Silva usa muitos advérbios, diz que tem informação acerca de certas coisas, mas quando lha pedem, esquiva-se de a dar, e serve-se do tom de voz para desarmar os oponentes. Achou por bem falar no preço dos cortes de cabelo na Alemanha e Portugal para justificar que, se os cortes de cabelo em Portugal fossem mais caros, os trabalhadores ganhariam mais. O corte de cabelo é o mesmo, dizia ele, logo infere-se que não faz sentido pagar-se menos em Portugal do que na Alemanha.

O que é o preço de um corte de cabelo? É apenas o salário do cabeleireiro? A resposta é, obviamente, "Não". A informação contida nesse preço refere-se à qualidade do corte de cabelo, os produtos usados, a tesoura, a cadeira onde nos sentamos, o sítio onde o cabeleireiro fica, a atmosfera do cabeleireiro, o tempo que demora o cabeleireiro a trabalhar com o nosso cabelo, a exclusividade do cabeleireiro, etc. Comparar directamente o preço do corte de cabelo em dois sítios e pensar que se tira uma conclusão válida acerca dos salários, sem ter em conta as outras variáveis, é um erro crasso.

O cabeleireiro que eu uso em Houston é caro, tão caro que, a primeira vez que telefonei para marcar um corte com ele, a recepcionista disse-me que era caro e deu-me o preço praticado, que é $20 a $40 superior ao cabeleireiro recomendado pela minha chefe. Por um corte de cabelo, pintar, e secar pago $180-$200 e ainda deixo uma gorjeta. Por exemplo, o meu último corte foi $220, depois da gorjeta, mas ele demorou quase três horas a trabalhar em mim, ofereceu-me uma café espresso excepcional, conversou comigo e fez-me rir, tratando-me como se eu fosse uma amiga de longa data, as instalações têm obras de arte na parede, etc. Eu saí de lá muito bem disposta e quando cheguei ao escritório, a minha chefe disse "WOW!"

Quando fui a Portugal fui a dois cabeleireiros, um em Lisboa e outro nos arredores de Coimbra. Em Coimbra, não cortei, apenas pintei o cabelo e sequei. Paguei €18 o que achei muito barato (até deixei €5 de gorjeta, se a memória não me falha), mas a experiência não foi nada de extraordinário. A rapariga não conversou comigo, o sítio era pequeno e na parede havia posters de produtos de cabeleireiro, e saí de lá com o cabelo esticadinho, exactamente igual ao estilo que a cabeleireira tinha, apesar de eu ter dito que queria um estilo mais volumoso e não esticado que nem esparguete. Mostrei-lhe a foto do que eu queria, até, mas enquanto ela trabalhava, cheirei o meu cabelo a ser queimado pelo secador excessivamente quente e demasiado próximo do cabelo (mesmo assim deixei a gorjeta). Já em Lisboa apenas lavei e sequei e custou €22, se não estou em erro. Não era um cabeleireiro moderno, a rapariga não conversou quase nada comigo, fez o serviço e andou. Até me deu jeito porque eu estava com pressa (também deixei gorjeta porque a malta aí precisa mais do dinheiro do que eu).

O meu cabeleireiro de Houston é alemão, filho de uma alemã e de um italiano. Quando tinha 18 anos foi para Nova Iorque e interessou-se por cabelos, depois regressou à Alemanha fez o curso e andou por vários sítios na Alemanha e nos EUA a trabalhar e ganhar experiência, até se instalar em Houston. É óbvio que o percurso profissional dele vale muito mais do que €10 por corte. Quando vivia em Coimbra, há 20 anos, frequentava uma cabeleireira que era filha de imigrantes em França, tinha o curso de uma escola francesa, e um corte custava à volta de 2.200$00. Ela conversava connosco, o espaço era moderno e tinha boa atmosfera. Ela não cobra €10 por um corte hoje, de certeza.

Não percebo por que raio o Carvalho da Silva frequenta cabeleireiros de €10, pois ele pode pagar muito mais do que isso. Para um homem tão preocupado com os trabalhadores, ele não se importa de explorar os que são pior pagos. Faria mais sentido ir a um cabeleiro mais caro, que ele tem dinheiro para isso, e deixar os cabeleireiros baratos para quem ganha menos. Mas isto sou eu, que não tenho grande prazer em usar advérbios para dizer absolutamente nada.