quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Re:

Na sequência desta entrada sobre o apoio político de Pedro Adão e Silva à pessoa certa no momento errado, o nosso Manuel Cabral, deixa um comentário com uma pergunta que cito:
 A questão que deixo ao meu amigo LAC é se hoje, e sabendo o que foi processo de ajustamento dos EUA e o da Zona Euro, consegue afirmar com a mesma convicção, que o Sócrates de 2009 (e já agora também a Merkel e o Obama) estavam assim tão errados, e que a Merkel de 2010-14 (mais próxima da Manuela Ferreira Leite de 2009) estava certa.
Parece-me que o Manel está a misturar as coisas. Na altura, fui a favor da acção europeia de combate à crise. O tempo e a experiência americana sugerem que essa estratégia era correcta.

Mas, nessa altura também, fui radicalmente  contra que Portugal interviesse de forma tão voluntarista nesse combate. Por um motivo simples, não tínhamos margem orçamental para isso e o nosso endividamento punha-nos nas mãos daquilo a que desde Keynes chamamos os  'Animal Spirits', e que eu prefiro chamar equilíbrios indeterminados. Ou seja, estávamos numa situação em com taxas de juro baixas a dívida pública era suportável, mas que taxas de juro elevadas facilmente seriam suficientes para pôr a dívida em trajectória insustentável. Quer isto dizer que tudo dependia das crenças dos investidores
A isto, há que acrescentar que Portugal podia fazer o que quisesse que não era pelo nosso expansionismo que o mundo ia sair da crise. Somos demasiado pequenos para fazer a diferença nesse domínio.

Portanto, quer na perspectiva europeia quer na perspectiva portuguesa, o tempo não me meu grandes motivos para mudar de opinião.

Finalmente, vale também a pena voltar aos documentos da época. A propósito de uma entrada similar no Facebook, alguém me mandou ler este relatório do FMI sobre a resposta global à crise, ainda assinado por Strauss-Khan. Cito duas passagens que me parecem relevantes para perceber o que quero dizer.

Primeiro, logo na mensagem inicial de Strauss-Kahn:
We recommended a stimulus equivalent to 2 percent of GDP, and countries have largely delivered.
A recomendação de estímulo foi de 2% do PIB. Em Portugal o défice passou de 3,8% em 2008 para 9,8% em 2009 (na altura as estatísticas indicavam que tinha passado de 2,6 para 9,3%). Aceito que me digam que grande parte deste aumento teria ocorrido na mesma por inacção (efeito dos estabilizadores automáticos) e que se pode distinguir um estímulo puro dos estabilizadores automáticos, mas, mesmo assim..., diria que fomos além da tróica.

Segundo, na secção sobre a resposta macroeconómica à crise pode ler-se:
The Fund encouraged those countries, both advanced and developing, with fiscal space available to use it to boost demand.
O conselho de políticas expansionistas era para países com folga orçamental. Imagino que não estivéssemos de acordo quanto à existência dessa folga. Na altura, eu considerava que não havia folga. Infelizmente, não houve nada que se tenha passado depois que me leve a mudar de opinião.

Metafísica europeia

"I am often asked: What if the only way you can secure funding is to cross your red lines and accept measures that you consider to be part of the problem, rather than of its solution? Faithful to the principle that I have no right to bluff, my answer is: The lines that we have presented as red will not be crossed. Otherwise, they would not be truly red, but merely a bluff. But what if this brings your people much pain? I am asked. Surely you must be bluffing. The problem with this line of argument is that it presumes, along with game theory, that we live in a tyranny of consequences. That there are no circumstances when we must do what is right not as a strategy but simply because it is ... right.", escreve Yannis Varoufakis, a 16 de Fevereiro de 2015, num artigo no New York Times.
Afinal, segundo o Ministro das Finanças grego, não foram os helénicos quem deu início às hostilidades do "chicken game" como eu disse. Estava enganada. Provavelmente induzida pelo seu currículo, deduzi que estávamos a assistir a um comportamento estratégico. Achei que era Teoria dos Jogos quando, afinal se tratava de... Filosofia! Faz sentido num Alemanha versus Grécia. Os Monty Phyton bem o perceberam. Curiosamente, Varoufakis invoca o imperativo categórico de Kant (embora também possamos considerar platónico o seu amor pela moeda única) para justificar a sua conduta. Imagino que os alemães façam exactamente o mesmo. Aliás, a forma como têm reagido a esta crise desde o seu começo resulta do seu fervor pela moral kantiana. Lembro-me de ter lido há uns bons tempos que a Alemanha se comportava como alguém que tem um incêndio à porta de casa, mas que se recusa a pegar no extintor ou chamar os bombeiros porque as labaredas começaram com uma fogueira mal apagada de um piquenique com que ela nada teve a ver. Talvez o Immanuel tivesse ido buscar baldes de água, mas não o vejo a dar cobertura ao governo de Tsipras.
Se os Monty Phyton bem entenderam que um confronto entre Alemanha e Grécia iria parecer-se com um duelo metafísico, melhor compreenderam que o desempate precisa do pragmatismo de um Arquimedes. No entanto, não parece estar um em campo, a avaliar pelas declarações à saída de mais uma reunião do Eurogrupo. E tudo o que temos tido tem-se assemelhado bastante a isto:




terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

UE vs. EUA

Sir Winston Churchill, a propósito da participação dos EUA na Segunda Grande Guerra Mundial, disse "You can always count on Americans to do the right thing--after they have tried everything else". Em 2011, os EUA passaram uma lei que continha um plano de sequestro da despesa: se houvesse um impasse no Congresso, a despesa americana seria cortada num valor pré-determinado doesse a quem doer. O início dessa lei foi adiado em 2012 pelo Congresso, mas à medida que a animosidade entre os partidos crescia houve menos vontade de evitar os efeitos da lei. Em Outubro de 2013, os membros do Tea Party paralisaram o Congresso e o governo americano "fechou" as portas durante alguns dias. Frequentemente me deparo com as consequências disso, pois no meu emprego eu tenho de usar dados mensais e, para esse mês, não tenho dados.

Todo o mundo se riu e apontou dedos aos EUA. Este artigo no Huffington Post descreve as reacções de muitos países à figura triste dos americanos. Algumas das críticas mais ferozes vieram das autoridades dos países da União Europeia, que acusaram os EUA de imporem custos ao resto do mundo e, especialmente, de sacrificarem a retoma de uma economia mundial fragilizada. O fecho do governo americano não adiantou nada em termos de se conseguir um compromisso; o sequestro da despesa finalmente aconteceu em Março de 2013. Como era uma coisa para o qual o país já se tinha mentalizado, durante os meses antecedentes, o governo já se tinha preparado para os eventuais cortes, em especial os militares cujo orçamento seria cortado em cerca de 10%. Os efeitos dos cortes não foram grandemente sentidos por causa do planeamento, mas poderão ter adiado os sinais de retoma da economia americana.

Amanhã saberemos, talvez, o que a Grécia decidirá e a resposta da UE. O mais provável é que a situação seja adiada por mais seis meses, isto é, o mais provável é que a União Europeia continue com a faca ao pescoço durante pelo menos mais seis meses. O prolongamento da incerteza neutraliza grande parte da política monetária seguida pelo BCE e desincentiva o investimento e o consumo, o que é extremamente negativo para Portugal. Os bancos gregos estão a ficar descapitalizados com a fuga de capitais, piorando a situação da economia grega e aumentando a probabilidade que esta chegue ao colapso total, o que também é negativo para Portugal.

Ao contrário dos EUA, com o sequestro da despesa e do orçamento, a UE não está a ser preparada para um colapso eventual da Grécia, mas talvez a Alemanha já esteja preparada. No entanto, a força de um sistema não é medida pela resiliência do mais forte; é medida pela resiliência do mais fraco. O que se tem visto é que não há grande coordenação entre os países, nem há vontade de eliminar o problema ou diminuir o seu risco, apenas se adia o problema indefinidamente, como se o custo de oportunidade desta crise fosse zero. Os mercados de dívida soberana dos outros países estão calmos, não esperam grandes resultados destas negociações. Ninguém nos EUA goza abertamente com os europeus; todos dizem que a UE deve esforçar-se ao máximo para resolver a situação e reduzir a incerteza que os europeus enfrentam.

O euro está fraco, as taxas de juro europeias também, e não se vislumbra grande crescimento num futuro próximo. Quem beneficia são as empresas americanas, como a Apple e a Verizon, que estão a financiar-se em euros, neutralizando ainda mais a política monetária do BCE e contribuindo para o crescimento da economia americana. A probabilidade de se insuflarem bolhas nos EUA aumenta e, quando estoirarem, os europeus irão culpar os americanos.

A amizade possível

"Em momentos-chave da minha vida, fiquei sem amigos apenas por ausência de empatia. Ninguém cometeu nenhuma falha ética, mas eu falava outra língua, uma língua que os meus amigos não entendiam. Até aí, eu julgava que a amizade era uma escolha. Hoje, sei que é apenas a arte do possível.”

Pedro Mexia, in “Lei seca”

A pobreza como argumento de autoridade (actualizado)



Na resposta a uma (excelente) questão sobre liberdade e pobreza, Milton Friedman é interrompido por um palerma da audiência que pergunta gritando:
ALGUMA VEZ FOI POBRE?
Friedman, com a sua característica presença de espírito, responde que sim, que foi pobre. Mas, antes de continuar a resposta, acrescenta:
Mas sabe uma coisa? Isso é totalmente irrelevante. Será que se você tiver cancro vai exigir que o médico que o trate tenha tido cancro também?
Foi disto que me lembrei ao ler este lamentável artigo de Gabriel Mithá Ribeiro no Observador. Mithá Ribeiro parece ter aprendido com Friedman as políticas que defende. Pode ser que aprenda mais alguma coisa.

PS O episódio que relato desenrola-se entre os 3m50s e e os 4m30s do vídeo aí em cima.

Adenda
No twitter mandaram-me ler novamente o artigo de Mithá Ribeiro. E eu, feito estúpido fui ler. E ao ler, os meus olhos pararam nesta passagem: Nos tempos em que vivia no Vale do Jamor, nos anos oitenta, tinha um vizinho português branco que trabalhava, vendia ovos caseiros, tinha uma carrinha e condições de vida bem superiores às da minha família. O sujeito e respetiva família já lá viviam quando chegámos. Por lá continuaram quando, poucos anos depois, abandonámos a barraca (...) Quem sabe se aquela família, como outras, saiu de lá bem mais tarde, a custo e subsidiada aquando da requalificação urbanística da zona. 
Que asco.

Também me queria parecer...

Um estudo de 2013 do BCE indica que os discursos negativos dos políticos são maus para os custos da dívida pública. O BCE está sempre a enviar mensagens aos políticos a ver se estes se erguem à altura das exigências da crise actual.

Eu gosto do BCE de Mário Draghi, aliás acho Draghi um homem fenomenal, muito melhor do que Trichet. É pena que do lado da política fiscal europeia não haja ninguém que lhe chegue aos calcanhares.

Percepção e realidade

O Financial Times oferece-nos uma visão interessante de como vê a actuação do governo português na reacção à eleição do Syriza na Grécia. Dizem eles:
"No European leader has poured more scorn on the radical aspirations of the Syriza-led government in Athens than the prime minister of Portugal."

Financial Times, 16/2/2015

A utilização da palavra "scorn" (desprezo, desdém, menosprezo) logo na frase de abertura diz tudo. Nós seguimos a estratégia da Alemanha: a Alemanha opôs-se e nós seguimos o mesmo caminho. Agora pintam-nos como oponentes mais radicais do que os alemães e como obstrucionistas, como se nós fossemos os criadores da animosidade contra a Grécia. Não sei se era essa a imagem que queríamos projectar no estrangeiro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Re: Pornografia Viral

"It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune must be in want of a wife."

Jane Austen, Price and Prejudice

A Lucy Pepper, no Observador, diz que não compreende o apelo das "Fifty Shades of Grey", de E.L. James, traduzido para português como sendo "50 Sombras de Grey". Não é difícil de imaginar de onde vem o apelo do livro e, ao contrário do que ela pensa, não tem nada a ver com pornografia. O livro foi escrito no contexto do sucesso de "Twighlight", a série "Crepúsculo", de Stephanie Meyer--nessse livro, toda a tensão sexual girava em torno de abstinência: a heroína queria ter sexo, o herói não queria porque era um vampiro e podia magoá-la ao ficar louco de desejo. O facto de ela querer e ele não, quando na realidade, o comum é que o oposto aconteça, fazia de Edward Cullen um "homem" muito desejável, pois ele salvaguardava os interesses dela e continha-se, a muito custo, sacrificando os seus--era a prova de amor suprema naquela fantasia. Se Edward Cullen tivesse sido um homem normal, não seria grande prova de amor que ele se contivesse assim; pelo contrário, se ele a amasse verdadeiramente, ela o enlouqueceria de modo a que ele não se contivesse com tanto desejo. Mas sendo ele um vampiro, muito forte, e que poderia pôr a vida dela em risco porque ela era mortal e frágil, já a história da abstinência pega com mais verosimilhança, quer dizer, faz de conta...

E.L. James começou a escrever o seu livro num forum dedicado a prosa inspirada por "Crepúsculo", e notem que o conceito de abstinência foi multiplicado por (-1) e deu em sexo não convencional: muito e cheio de lascívia. Neste caso, o problema do homem é a sua perversão sexual: a sua necessidade de humilhar e magoar as parceiras para se excitar. No início, os jogos nem são muito violentos e ela tem prazer, e cria laços afectivos com ele. A miúda apaixona-se! Quem é que não se apaixonaria por um tipo bem parecido, com dinheiro, que gosta de música clássica, e que insiste em nos dar prazer? Vocês não viram o "Pretty Woman"? Até profissionais do sexo caem na esparrela. O mistério está em como um homem da sofisticação de Christian Grey se apaixona pela Miss Simple-Minded-Holy-Cow-Anastasia-Steele (infelizmente, não há uma boa tradução para a expressão "holy cow" em português...). Mas reparem que a maior parte das mulheres não são a Gisele Bundchen, logo elas revêem-se nas dúvidas e insegurança da Miss Steele e isso é um dos temas comuns a muitos destes romances. E, para além disso, no fim, a Anastasia consegue que o seu homem se vergue. (Sempre achei estranho que as pessoas se apaixonem por alguém e depois tentem mudar a pessoa por quem se apaixonaram. Se o objectivo era mudar o objecto de afecto, porque não encontrar um objecto que as satisfizesse sem ser necessário ele mudar?)

Em entrevistas, Stephanie Meyer admitiu que é grande fã de Jane Austen e, em especial, de "Pride and Prejudice". Edward Cullen, de "Crepúsculo", e Christian Grey, de "50 Sombras de Grey", são versões mais esotéricas de Mr. Darcy, o herói romântico de "Orgulho e Preconceito". Muitas mulheres americanas sabem o início de "Pride and Prejudice" de cor, que se traduz para português como "É uma verdade universalmente aceite que um homem solteiro em possessão de boa fortuna deve estar necessitado de uma esposa", aliás em conversas entre amigas nos EUA é muito comum fazer referência a Mr. Darcy. Dizem elas: "Ah yes, I am still waiting for my Mr. Darcy" ou "Well, he ain't Mr. Darcy, that's for sure!", referindo-se a potenciais parceiros amorosos. Note-se que o Mr. Darcy é o modelo de homem a que elas aspiram: um tipo que sabe gerir a sua fortuna, apesar de socialmente inepto, que as acha especiais e não tem olhos para mais ninguém, e que, acima de tudo, salvaguarda os interesses da sua amada, Elizabeth Bennett, mesmo quando ela o não aprecia e rejeita.

A fascinação por Mr. Darcy atingiu o climax com Colin Firth, quando este protagonizou a série de seis episódios da BBC, em 1995. A cena mais famosa é aquela em que Mr. Darcy sai do lago e dá de caras com Elizabeth Bennett, que se passeia sem ter noção de que ele está perto. Podem vê-la aqui. Colin Firth foi tão revolucionário nesse papel que ele apareceu como Darcy outra vez nos filmes do Diário de Bridget Jones, baseados nos livros que, sim, incluem o Mark Darcy para fazer referência à novela de Jane Austen. E o Colin Firth e o lago voltaram a encontrar-se em "Love Actually" onde ele protagonizava uma das histórias ao lado da Lúcia Moniz. Lembro-me de, no décimo ano, uma colega minha de explicação de matemática ter visto Colin Firth no filme "Valmont" e ter ficado completamente apanhada por ele. Eu li "As Ligações Perigosas" e vi o filme "Dangerous Liaisons" e fiquei apanhada pelo Valmont de John Malkovich; mas o Colin Firth é como o vinho da Madeira: fica cada vez melhor com a idade. O meu sonho é mesmo um Colin Firth: eu queria que um bartender inventasse um cocktail chamado "Colin Firth" para que eu pudesse entrar num bar e dizer "I'd like a Colin Firth, please!" Ou entrar na Pensão Amor, em Lisboa, e ir ao bar e pedir "Um Colin Firth, se faz favor..." Acho que seria glorioso. Em vez disso, como ainda não há Colin Firths, peço um gin e tónica com lima, com limão não é tão bom. De preferência, o gin é Bombay Saphire, mas o Tanqueray original faz um gin e tónica fantástico.

De regresso ao sexo... Há uma coisa nos homens que eu admiro bastante: quando eles estão com uma mulher, são muito bons a ensiná-la o que lhes dá prazer. Dizem para ela os tocar de certa forma ou guiam a mão dela ou o corpo dela. O inverso não é necessariamente verdade: muitos homens não querem receber instruções das mulheres e dizem coisas como "Eu sei o que estou a fazer." ou, se ela se estimula a ela própria, dizem "Esse papel é meu." No meio primeiro ano de faculdade nos EUA, há quase 20 anos, assisti a uma cena entre dois amigos meus que estavam a ter um caso. Ela dizia que o tamanho do pénis não era de todo relevante porque nem todas as mulheres conseguiam ter um orgasmo apenas por penetração; ele insistia que sim, que a penetração era o suficiente. (Digo-vos que a minha vida numa universidade americana no meio do Bible Belt era muito mais interessante em termos de conversas do que a minha vida em Portugal, na altura). Ela tinha razão. A cena de "When Harry Met Sally" em que a Sally diz que é perfeitamente possível a uma mulher simular o orgasmo sem que o homem se aperceba é clássica e ilustra exactamente isso: elas muitas vezes não se satisfazem, mas em vez de remediar a situação, fingem que se satisfizeram. E a propósito, "I'll have what she's having..."

As mulheres não são completamente inocentes nesta história porque muitas delas não conhecem o próprio corpo, nem sabem o que as excita. As "50 Sombras de Grey" são apenas uma desculpa para elas se explorarem a si próprias, é como se o livro lhes tivesse dado permissão para tentar coisas novas e para conversar com os parceiros sobre o assunto--o livro é uma bengala. Mas isto não é a primeira vez que acontece. Quando a pílula foi lançada nos EUA, algumas mulheres iam a bares e tomavam a pílula em público, à frente de homens, para lhes dar a informação que elas estavam interessadas em sexo descomprometido e estavam preparadas. A pílula era a bengala.

Não concordo com a asserção de Lucy Pepper de que a pornografia se tornou viral por causa deste livro. Pelo contrário, o livro é uma manifestação de um fenómeno que é maior do que o livro. Basta pensar que o Tumblr está cheio de pornografia e essa foi uma das questões mais discutidas quando a Yahoo o decidiu adquirir. Hoje em dia há estudantes universitárias que abertamente se identificam como actrizes de pornografia, como Belle Knox na Universidade de Duke. E antes do "Crepúsculo" ou das "50 Sombras de Grey", já uma prostituta inglesa tinha usado o pseudónimo "Belle de Jour" para assinar um blogue sobre os seus encontros profissionais e as preferências sexuais dos seus clientes. ("Belle de Jour" é o título do filme de Luis Buñuel, de 1968, sobre uma dona de casa que se aborrece e decide tornar-se prostituta.) Esse blogue foi iniciado em 2003 e deu azo a livros e séries televisivas. Note-se que essa mulher, Brooke Magnanti, é hoje doutorada--há cada vez uma linha mais tenue entre o subversivo de antigamente e o normal de hoje. No Brasil, houve um blogue de uma prostituta, a Bruna Surfistinha, que deu em filme também. No que diz respeito ao sado-masoquismo, em 2005 um bancário francês, Édouard Stern, que mantinha uma relação sado-masoquista com a sua amante, foi assassinado por esta a tiro e o caso foi suficientemente acompanhado pelos media que um filme inspirado nele saiu em 2013.

Ou seja, como canta o Joe Jackson, numa canção genial, "às vezes a vida é mais estranha do que a ficção". As "50 Sombras de Grey" são o espelho de uma realidade alternativa que se torna agora normal.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Não há cu para o novo Acordo Ortográfico

O Reitor do ISCTE chama-se Luís Reto. Antes do acordo, sempre que alguém fizesse uma piada com o seu apelido, Reto podia responder: ah, você está a gozar, mas é um ignorante; esse leva 'c', o meu nome não...
Agora, ficou sem palavras. Dramático.

A estratégia da capoeira (Ou uma resposta à Estratégia de Portugal)

No post anterior, a Rita expôs as que consideram ser as opções estratégicas de Portugal face ao caso grego e que se resumem a três: ficar calado, alinhar com a Alemanha ou defender uma solução controlada para a crise.

Acho podemos concordar que este "chicken game" começou por parte da Grécia. Ou, melhor, do seu actual governo. Eu não percebo muito de grego (apesar de ser a língua em que Econometria era leccionada), mas consta-me que Syriza será a abreviatura de Synaspismós Rizospastikis Aristerás, que se traduz para Coligação da Esquerda Radical. Eu sei que em política as palavras adquirem um significado diferente do habitual. [Não, não vou relembrar a irrevogável demissão de Paulo Portas, porque essa foi mesmo definitiva: ele não voltou a ser o Ministro dos Negócios Estrangeiros.] Basta ver que o partido que, no parlamento português, mais à direita se senta chama-se CDS-PP, sendo o C de Centro... No entanto, durante a campanha eleitoral - que nós sabemos que está cheia de figuras de estilo e que também não deve ser levada muito literalmente - o Syriza fez bastante jus ao radicalismo do seu nome. E as primeiras acções já na qualidade de governo não nos fizeram achá-los mais moderados (e não, não é por conta da falta de gravatas). Isto para não mencionar o facto de o ANEL, com quem fizeram aliança, também não serem propriamente uns tipos comedidos. Com declarações contraditórias - sobretudo as proferidas para consumo interno vis-à-vis as feitas para demais membros da União Europeia - e anúncios inflamados, o novo governo grego não nos deixou tranquilos. 

Sobre a opção "ficar calado" não tenho dúvida de que não defende os nossos interesses. Pareço, portanto, estar de acordo com a Rita. Mas creio que não, porque os meus motivos são diferentes. Diz ela que, se a nossa estratégia for má, ao menos o silêncio impede os nossos adversários (que são quem, já agora? os mercados que nos financiam a 2,5% a 10 anos?!) de reconhecerem a nossa incompetência. Eu tenho uma amiga que diz, com grande sabedoria, que a imaginação suprime a falta de informação. E eu acrescento que essa supressão se faz pela admissão do pior cenário (ou não fôssemos nós maioritariamente avessos ao risco). Ora, e aqui estou de acordo com a Rita, há, na União Europeia, tipicamente, dois tipos de países e nós estamos no lote que inclui a Grécia. Portanto, ficar caladinho era mais de meio caminho andado para se especular que nós andaríamos com iguais tentações renegociais (aparentemente, para António Costa, cedemos a elas), o que me parece uma péssima estratégia. 

Relativamente, às duas outras opções apresentadas, alinhar com a Alemanha (e Alemanha é aqui, claramente, uma sinédoque) ou defender um compromisso entre ambas as partes, eu não vejo que sejam realmente duas alternativas. Acho que não estaremos a ser injustos se dissermos que a Alemanha não tem sido hábil a lidar com esta crise - e, sobre isso, devíamos perguntar porque tem de ser ela a gerir o assunto: não existem instituições supranacionais para o efeito?! Mas passaríamos a sê-lo, julgo, se a acusássemos de ser indiferente ao euro. Não obstante, ser ela, sem dúvida, quem menos teria a perder com um regresso às moedas nacionais. Menos a perder, sublinho. Porque não haveria vitoriosos num cenário de saída da Grécia da moeda única, com esta, possivelmente, a desaparecer e o projecto europeu a ir atrás. E este cenário de contágio não pode ser descartado, embora estejamos hoje munidos de mais ferramentas para o evitar. Acontece que o contágio também pode provir de uma solução de demasiada condescendência com a Grécia. Ceder à chantagem que esta tem feito é dar luz verde a comportamentos de risco moral e alimentar movimentos extremistas, à direita e à esquerda, por essa Europa fora. Daí que, depois de a Grécia ter cantado de galo, os restantes Estados-membro não podiam fazer de galinha.

Manuela Ferreira Leite à presidência

Ontem ouvi o Pedro Adão e Silva, do Partido Socialista e usualmente conotado com a corrente socrática, a tentar lançar a candidatura de Ferreira Leite à presidência. Nem é que eu ache a ideia muito má, não é isso, mas caramba. Teria sido útil apoiar a Manuela Ferreira Leite em 2009, quando Sócrates vivia em estado de negação e Ferreira Leite era realista. Agora é tarde, agora também ela vive em estado de negação.

Para quem gosta de rever estas coisas, deixo aqui o debate entre José Sócrates e Ferreira Leite em 2009. Todo o debate é muito instrutivo. Desde a discussão sobre o TGV às autoestradas e às portagens.



No Facebook, uma amiga disse em comentário a este vídeo: 
Foi precisamente nessas eleições que passei a concordar que cada povo tem o Governo que merece. A malta queixa-se que os programas eleitorais não são cumpridos, mas a verdade é que promessas em campanha que não sejam o canto da sereia não colhem votos. Um partido não é muito diferente de um fabricante de detergentes: tem um produto e o seu objectivo é vendê-lo. Os eleitores querem que lhes atirem areia para os olhos? Areia terão. Mas, depois, não se queixem que estão cegos. A Democracia é uma coisa muito bonita e eu gosto muito dela.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Estratégia de Portugal

Na União Europeia há dois tipos de países: os países que são refúgio de crises e os países que são abandonados durante crises. A Alemanha é um país de refúgio; Portugal e Grécia são países a abandonar. Fazer esta distinção é extremamente importante, pois a consequência desta realidade é que Portugal e Alemanha têm interesses opostos quando há situações de crise. O Sr. Tsipras e o Sr. Varoufakis, os quais muita gente em Portugal acha que são burros e estúpidos, têm noção desta distinção e são hábeis a usá-la para controlar a mensagem da crise actual.

Note-se que a Grécia vai ficar sem dinheiro com probabilidade 100%; a única incógnita é o dia em que tal irá acontecer. A Grécia até agora não anunciou uma estratégia de crescimento; mas, pela retórica do Sr. Varoufakis, sabemos que tem uma estratégia de manutenção de pobreza, como eu referi anteriormente.

Na semana passada, a intenção da Alemanha era deixar a Grécia enfraquecer ao ficar sem dinheiro, para lidar com os gregos. (Reparem que isto aconteceu a Portugal: em 2011, por não termos pedido ajuda mais cedo e termos esperado até o estado português ficar quase sem dinheiro, ficámos com muito pouco poder de negociação com a Troika.) Esta solução, que é uma solução descontrolada, é a que minimiza os custos da tragédia grega para a Alemanha, pois os custos são repartidos por todos os países da UE independentemente de estes estarem em melhor ou pior situação. Se ainda não repararam, a Alemanha está numa situação melhor do que Portugal. Daí o artigo da Bloomberg a dizer que, em caso de default da Grécia, Portugal seria o país que mais sofreria. O corolário evidente é que Portugal não pode ter a mesma estratégia da Alemanha.

Quais são as opções estratégicas de Portugal?

  • Ficar calado e não revelar a sua preferência: esta solução não defende os interesses de Portugal, mas tem a vantagem de não revelar aos nossos adversários se nós temos estratégia ou não e, no caso de termos, a qualidade da mesma, i.e., se tivermos uma estratégia má, os nossos adversários não sabem que nós somos incompetentes.
  • Seguir e apoiar a estratégia da Alemanha: esta estratégia, que é o óptimo para a Alemanha, maximiza as perdas de Portugal. Ao seguirmos esta estratégia também revelamos aos nossos adversários que nem temos noção que estamos a escolher o que é pior para nós. E ainda tem a desvantagem de poder haver fuga de capitais e de trabalhadores de Portugal em direcção à Alemanha, pois a Alemanha é um país de refúgio quando a crise se agrava e Portugal é um país a abandonar.
  • Defender uma solução controlada para a crise: uma estratégia deste tipo seria do agrado da Irlanda e há muitas opções. Poder-se-ia tentar coordenar esforços com os outros países fracos da UE para pressionar os países que estão em melhor situação a permitirem um acordo novo, em que os custos de uma reestruturação da dívida grega (e/ou de mais países) seriam repartidos entre os países da UE de forma a que os mais ricos absorvam perdas mais do que proporcionais às dos mais pobres. Alternativamente, poder-se-ia dar mais tempo à Grécia e incluir no acordo exigências para que esta reforme a sua economia e siga uma estratégia de crescimento, ao mesmo tempo que a UE a mantinha debaixo de olho para se garantir que o acordo era seguido--a UE tem falhado sempre na área de supervisão. Até agora, ainda não ouvimos nem o Sr. Tsipras nem o Sr. Varoufakis dizer como é que a Grécia vai produzir mais e exportar mais; a única coisa que nos dizem é que precisam de mais tempo.
O tempo é igual para toda a gente, só que alguns escolhem geri-lo melhor do que outros. Em Portugal escolhe-se discutir o cachecol Burberry do Ministro Varoufakis.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Um S. Valentim azul

"O branco absorve o azul até que o azul se torna o branco absoluto. O teu branco: é esta a única razão do azul."

Eduardo Prado Coelho, A Razão do Azul

No voo de regresso aos EUA, na última vez que fui a Portugal, por acidente fiquei sentada ao lado de um italiano falador. Digo por acidente porque aquele lugar não era o meu, mas como quando entrei no avião alguém se tinha sentado no meu lugar, eu ofereci-me para tomar o lugar da outra pessoa. O italiano falador vivia em Nova Iorque, mas era de Milão, cidade que tinha visitado antes de passar por Lisboa por dois dias. Quando ele me disse a duração da paragem em Lisboa, presumi que fosse para negócios. Rapidamente ele acrescentou que tinha ido em lazer, que havia qualquer coisa na luz de Lisboa... Era por causa da calçada, explicou-me ele. A reflexão da luz no branco da calçada e dos prédios criava a luz de Lisboa.

Muitas vezes, quando olho para o céu e o horizonte nos EUA tenho saudades do azul de Portugal: do céu, do mar, dos azulejos, dos rios que serpenteiam as cidades... Talvez seja por isso que eu tenha começado em Oklahoma, depois fui para o Arkansas, de lá para o Tennessee, e agora o Texas. Vou para leste, para perto do azul do Atlântico, apesar do azul da parte do Golfo do México onde me encontro não ser de todo especial. Mas a vida é uma maratona, não é um sprint, e eu sei qual é a cor que me guia.

Há, em Lisboa, um quarto azul. Fica dentro do Centro Cultural de Belém, na colecção Berardo de Arte Contemporânea. É uma instalação de luz de James Turrell, um artista americano. Parece estranho que num edifício que de fora parece ser de pedra maciça alguém se tenha lembrado de construir um quarto azul, como se quisessem levar o fora para dentro, como se quisessem dar ao edifício um coração azul. Nesse quarto as paredes de fora são brancas. A instalação é difícil de encontrar porque ao olhar-se as paredes brancas em que uma delas tem uma entrada, é difícil de imaginar o que elas escondem. É preciso estar atento e ser curioso.

Amanhã é dia de S. Valentim. Se tiverem oportunidade, escolham alguém especial e levem essa pessoa a visitar o coração azul: entrem nele, partilhem a experiência, coleccionem memórias.

Seios vs. Mamas

No meu último post, "Acerca de Lingerie" um dos nossos simpáticos leitores, sugeriu que eu devesse usar a palavra "mamas" em vez de "seios", pois era mais correcta do ponto de vista da anatomia. Identifico aqui uma divergência entre a forma como eu escrevo e a forma como as pessoas pensam que eu deveria escrever. Talvez isto se deva ao facto de eu ter sido casada com um jornalista e muitas vezes assisti a e participei em conversas acerca do que é uma notícia e o que é um peça de opinião e o que deveria ser o estilo de escrita de uma e de outra. Eu aqui escrevo peças de opinião e, por isso, não me limito a relatar a mecânica dos factos e dos acontecimentos, pois dou-vos acima de tudo a minha perspectiva, que vocês são livres de considerar ou não. A outra consequência de isto ser a minha opinião é que eu posso escrever de forma muito mais íntima e posso construir muito mais camadas de informação que alguns de vós irão captar, outros não. Um amigo meu costuma dizer que eu "não dou ponto sem nó".

Comecemos por dissecar o título do último post, "Acerca de lingerie". O que é lingerie? É um tipo de roupa interior feminina. Se fôssemos a construir um diagrama Venn, veríamos que o conjunto da lingerie está totalmente contido no conjunto da roupa interior, mas não é o mesmo conjunto, ou seja, toda a lingerie é roupa interior, mas nem toda a roupa interior é lingerie. O que é que distingue a lingerie da outra roupa interior? A lingerie é roupa interior que é mais sensual e, quando uma mulher a usa, ela sente-se mais sexy, mais especial. Quando eu vos dou este título, estou implicitamente a dizer que quero construir um post mais para o sensual do que para o funcional. No post eu usei a palavra "seio" porque estava a reforçar o espírito do que eu queria transmitir. Não é anatomicamente correcta, mas eu não vos queria dar uma visão totalmente funcional do corpo de uma mulher.

Eu não tenho grande carinho pela palavra "mamas" porque não cria no meu cérebro ideias que me dão prazer--eu sou extremamente hedonista. A verdade é que eu não escrevo para vós; eu escrevo para mim porque me dá prazer. Ou como diz a Erica Jong, eu escrevo para "seduzir o meu demónio". "Mamas" tem conotações que não são sensuais: cancro da mama é uma coisa que assusta, dar de mamar a um bebé não é um acto sensual, fazer uma mamografia--que eu vejo como sendo uma sanduíche onde se recheia duas placas com uma mama--é chato e doloroso para mim, ir na rua aos 15 anos e ser assediada por homens que me dizem "Que belas mamas, chupava-tas todas!" não foi uma coisa que me tenha dado grande prazer, etc.

Vejam lá se isto vos dá prazer:

Parou de comer e fitou-o com uma expressão insinuante. «Sabe qual é a minha maior fantasia de cozinheira?»
«Hã?»
«Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas.»
Tomás quase se engasgou com a sopa.
«Como?»
«Quero fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas», repetiu ela, como se dissesse a coisa mais natural do mundo.

José Rodrigues dos Santos, Codex 632

A mim não me deu nenhum. Até acho uma fantasia um bocado estranha para uma mulher, mas como eu não tenho fantasias muito estranhas, talvez a limitação esteja em mim.

Quando a minha professora da escola primária me ensinou a escrever, ela deu-me algumas regras básicas, que incluíam "Não sejas repetitiva na escolha das palavras que usas." e "Não inicies muitas frases da mesma maneira.". Suponho que o que ela estava a dizer-me era que eu devia prestar atenção ao som do que escrevia para que a minha escrita não fosse monótona. Eduardo Prado Coelho, em "A Razão do Azul", lamentava-se de as pessoas terem deixado de ligar à poesia e, hoje em dia, haver uma clara predilecção pela ficção. Na poesia, o som que as palavras têm e o seu ritmo são extremamente importantes. Nós somos acima de tudo um país de poetas, a meu ver; mas ultimamente o Portugal que os outros imaginam e o Portugal que eu imagino são coisas muito diferentes. Mas voltemos à escrita. Há alguns escritores--não poetas--cuja escrita tem um ritmo e uma sonoridade extremamente evocativa, como é o caso de Laura Hillenbrand, mas são raros os que o conseguem. Para mim o som das palavras, os movimentos dos lábios e da língua que fazemos ao dizê-las em voz alta são cruciais e, muitas vezes, quando leio algo que me agrada, recito-o em voz alta várias vezes para sentir o som a sair da minha boca e para que a memória de o dizer fique guardada no meu corpo para além de ficar na minha cabeça. Talvez isto se deva ao facto de eu passar grande parte do meu dia a falar inglês e, nas poucas oportunidades que tenho de falar português, talvez nem uma vez por mês, eu sinto a língua portuguesa no meu corpo.

A palavra seio é, para mim, muito sugestiva de prazeres carnais, assim como o é usar lingerie. Comece-se pelo facto de seio e sexo serem palavras 75% parecidas: apenas uma letra em quatro é diferente. Os puristas dir-me-ão que não têm a mesma raiz, nem sequer significados parecidos; mas, para mim isso é irrelevante, pois começam ambas com "s" e terminam com o som "u". Repararam que, quando criam o som "u" com a vossa boca, o franzir dos vossos lábios é parecido com o franzir que fazem quando se preparam para dar um beijo a alguém? E o "s" que é uma letra de forma sinusoidal, tal como a parte de trás do corpo de alguém nu, que visto de perfil cria um longo "s"? Por fim há o som do "s" e nós em português somos ricos em palavras que pintam imagens na nossa cabeça: o seio, o sexo, a sedução, a sensualidade, a sensação, o sentir sede da boca de alguém, o sabor do sal do corpo do outro na nossa língua... Ler "Os Maias" com Carlos a pensar nos seios de Maria Eduarda dá-nos uma sensação completamente diferente da que teríamos se ele pensasse nas suas "mamas":

"A sua resistência a uma noite de amor, prolongando-se assim, ameaçava ser grotesca: ao mesmo tempo o calor de voluptuosidade que emanava daquele seio, arfando junto dele e por ele, ia-o amolecendo lentamente."

Eça de Queiroz, Os Maias

Mas não fiquemos por aí. A Rosa Lobato de Faria escreveu um poema extraordinário, "Primeiro a tua mão sobre o meu seio", onde o seio é o princípio e o fim da acção--notem o uso da palavra roçar, que também tem o som "s".
Primeiro a tua mão sobre o meu seio

Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé - o meu - sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama

Por fim o sono calmo, que não é
Senão ternura, intimidade, enleio:
O meu pé descansando no teu pé,
A tua mão dormindo no meu seio.

Rosa Lobato de Faria, Cem Poemas Portugueses no Feminino

Alguns de vós agora devem estar a pensar que é estranha toda esta produção linguística; será que quando um homem está a ter sexo comigo ele apenas fala em seios, não fala em mamas? É claro que fala em mamas (se for português e se gostar de falar durante o acto), mas nessa altura o que me dá prazer não é apenas o que ele me diz, é também o que ele faz: o que me dá prazer é tê-lo dentro de mim, no seio do meu corpo.

P.S. Obrigada ao LA-C pela sugestão do texto do José Rodrigues dos Santos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Uma verdade axiomática

A santidade da vida do cristianismo faz parte da herança hebraica. O hebraísmo já se havia distinguido claramente da atitude dos antigos, a saber: o desprezo pelas privações impostas ao homem pela vida no trabalho árduo; o costume de enjeitar os filhos indesejados; a convicção de que a vida sem saúde não merece ser vivida (de modo que na Antiguidade se considerava, por exemplo, que o médico desvirtuava a sua vocação ao prolongar a vida quando era impossível restaurar a saúde); a nobreza do suicídio quando alguém desejava abandonar uma vida flagelada.

O cristianismo foi mais longe do que o hebraísmo. Por exemplo, o homicídio no Decálogo, por comparação com outras transgressões, não assume a importância que hoje lhe atribuímos - curiosamente, para os cristãos, o suicídio é um pecado ainda mais grave do que o homicídio.

Os danos causados pela dúvida cartesiana ao cristianismo foram devastadores. Talvez em nenhum outro sector a dúvida cartesiana se mostrou mais destrutiva. Como explicou Max Weber, a perda da “certeza da salvação” (da certeza, não da crença) é constitutiva da era moderna - e esta foi apenas uma das várias certezas que se perderam, a “certeza da verdade” é outra, por exemplo.

Apesar dos efeitos da dúvida cartesiana, a vida continuou a ser um bem supremo na era moderna. Durante séculos, nem os mais ousados e radicais críticos do cristianismo se atreveram a colocar em questão esta “verdade axiomática”. Não admira que continue a ser tão difícil discutir a eutanásia. Até que ponto se justifica manter alguém vivo artificialmente, em dor e sofrimento, contra a sua própria vontade? O “Manifesto em defesa de uma morte livre” de Miguel Real é um contributo importante para essa discussão.