sexta-feira, 6 de março de 2015

Uma pessoa assim dava...

Estava a ler esta entrevista do Giambattista Valli no NYT e, depois de ler as respostas, pensei: "era tão bom clonar este tipo para Primeiro Ministro de Portugal". Nem precisava do clone ficar homem; podia ser mulher. Mas alguém que pensasse assim:
Sometimes people ask, “Who’s your muse?” and I always say the only muse I have is curiosity. I’m very curious about everything.
Alguém que falasse de Portugal nestes termos porque nós também somos uma mistura do passado luxuoso e do moderno sóbrio:
I wanted it to be something that you get in, and you’re charmed by the past, but at the same time you feel it is so contemporary. It’s important because it’s an expression of my clothes: What is the universe of Giambattista Valli, what’s the style, what’s the approach? It’s a synthesis of my mind, to mix Italian design from the ’50s with parquet Versailles and contemporary mirrored furniture. In the moment that everything is so global, I thought it was so modern in a way to have something that was, like, one of a kind.
E visse a gestão do país assim:
I’m an independent, so I have to follow up all the administration things, budget things, legal things, commercial side. I have always two hats — even more than two hats. Sometimes it’s like being Yves Saint Laurent/Pierre Bergé in one. Or Giancarlo Giammetti and Valentino in one. It’s a little bit like Jekyll and Mr. Hyde. But it’s what I like, too, because sometimes I think that fashion designers, they lose the point of doing the business through clothes.
Em suma, alguém que soubesse casar a alma artística e criativa de Portugal passado-presente-futuro com o pragmatismo de fazer dinheiro para garantir uma vida confortável para os portugueses.

Tragédia vs. Fado

Diz o nosso ilustre Primeiro Ministro que é distraído e tem falta de dinheiro e por isso o SNAFU (situation normal: all fucked up) dos seus impostos. Acontece a muito boa gente.

No outro dia, cheguei a casa e não havia electricidade. Telefonei à companhia e eu, distraída como sou, tinha enviado o pagamento do gás à companhia e de electricidade, e o de electricidade à companhia de gás. Claro que era fim de verão e o ar condicionado estava ligado, logo pagar a electricidade era muito mais importante e caro do que o gás. Auto-insultei-me para ver se me emendava: dizia eu "Rita, não sejas estúpida, podias ter matado os cães com calor." Não resultou muito bem, pois distraí-me outra vez: como tinha crédito com a companhia do gás, durante uns meses não era preciso enviar dinheiro e depois esqueci-me de reactivar o pagamento a tempo e horas. É verdade, gosto de subsidiar a América com as minhas distracções.

Decidi enviar um pagamento automático à companhia do gás todos os meses e já tinha pedido à companhia de electricidade para retirarem automaticamente o pagamento da minha conta bancária. Por uns meses vou safar-me, até decidir mudar de casa e ter de mudar tudo outra vez. Estatisticamente falando, mudo de casa em média cada 18 meses; o meu máximo é cinco anos na mesma casa e o mínimo é seis meses. Preciso mesmo de atinar, porque há um custo associado a mudar frequentemente. Se não acreditam, perguntem aos gregos: mudaram de governo a torto e a direito e, em troca de tanta mudança, conseguiram exactamente o quê? Ou seja, o nosso Primeiro Ministro tem a minha simpatia na área das distracções; já o discurso de moralidade perfeita, não aprecio.

No Público, diz-se que António Costa, que provavelmente irá ser o nosso próximo Primeiro Ministro, diz que Pedro Passos Coelho abusou da imunidade política por causa das dívidas à Segurança Social. Dá a ideia que Passos Coelho devia à Segurança Social e, para não pagar, decidiu tornar-se Primeiro Ministro e assim ficar imune. Isto parece um enredo digno de Hollywood--demonstra muita imaginação em tentar perceber a análise custo-benefício que passou na cabeça de Pedro Passos Coelho. E é surpreendente! Sim, é surpreendente que haja tanta imaginação para peripécias políticas, mas para se governar Portugal não há imaginação nenhuma.

Manuel Alegre ainda sugere que é necessário pedir a demissão ao Primeiro Ministro. Não percebi a lógica. Expliquem-me então qual o benefício de nós dizermos ao mundo que o Primeiro Ministro se vai demitir, por ser distraído e ter falta de dinheiro, quando o seu mandato está próximo do fim? Não seria menos destrutivo para a imagem de Portugal dizer que gostaríamos que Pedro Passos Coelho não concorresse nas próximas eleições?

E já agora, que tal começar uma tradição em que, quem quer ser Primeiro Ministro de Portugal, mostra toda a sua papelada dos rendimentos e impostos dos últimos cinco ou dez anos, e tudo é analisado até ao mais ínfimo detalhe? Não acham boa ideia, Manuel Alegre e António Costa?

A tragédia é uma tradição grega, não a queiram fazer portuguesa. Nós até temos fados bem-dispostos...

quinta-feira, 5 de março de 2015

Lost in translation

Uma vez perguntei ao Jose Julian Cao se havia muitos perus no Peru. Ele respondeu-me que não, mas que havia muitas galinholas (ou coisa qualquer assim) na Venezuela. E eu perguntei-lhe o que é que isso tinha a ver, e ele respondeu-me que pensava que eu estava interessado em quaisquer aves não voadoras. Aí eu perguntei-lhe se venezuela era o nome de alguma uma espécie de galinhas em espanhol. Ele respondeu-me que não. E eu perguntei-lhe se ele era parvo ou se se estava a fazer de parvo. Ele perguntou-me porquê. E eu respondi que estava a perguntar se o Peru tinha muitos perus por causa do nome. Aí, ele pergunta-me o que é que Peru tem a ver com peru.

Ao fim de algum tempo, conseguimos perceber que peru em espanhol era 'pavo' e que 'pavo' em português era peru, mas que Peru é Peru em todas as línguas.

Re: Miséria moral

Um amigo meu enviou-me vários emails a propósito da trapalhada fiscal do nosso Primeiro Ministro. Os emails reflectem mais ou menos o que o Zé Carlos disse no último post, que atravessamos um período de miséria moral. A minha resposta aos emails do meu amigo foi esta: "Os teus pressupostos estão errados". Ele não percebeu e perguntou-me porquê. Eu reiterei a resposta que Pedro Passos Coelho nos tem dado: "A perfeição não existe". E depois veio a resposta que não se trata de perfeição; trata-se de crimes. Mas essa não é verdadeiramente a questão, na minha opinião.

A existência de miséria moral em Portugal é independente de nós sabermos que Pedro Passos Coelho ou António Costa não pagaram os impostos devidos. Ela existia antes de isto aparecer na Comunicação Social. Estes casos apenas levantam a questão de legitimidade moral destas pessoas para governar Portugal e exigir dos restantes portugueses uma moralidade superior à que eles exibem, como mencionou o Luís. Mas o inverso também pode ser explorado: os portugueses são conhecidos como pessoas que têm uma clara preferência pela evasão fiscal, logo se calhar os governantes reflectem a moralidade do povo que os elegeu. Sendo assim, não é de estranhar que a Assembleia da República passe legislação que despenaliza a evasão fiscal ao fim de um certo tempo, como foi o caso do que aconteceu com Pedro Passos Coelho, em que as suas responsabilidades fiscais prescreveram, ou que acontece no regime RERT, em que dinheiro que está fora do país em contas off-shore pode entrar pagando taxas de impostos reduzidas.

Regressando à questão dos pressupostos, que é um bocado como Alfred Hitchcock dizia: o crime perfeito existe e é tão perfeito que ainda ninguém o descobriu; estas situações existem, logo o pressuposto da perfeição moral tem de ser posto de parte. A nossa escolha é entre um regime em que estas falhas morais existem e não são descobertas ou um regime em que as falhas existem e são descobertas. Eu prefiro o segundo regime: prefiro um regime em que a miséria moral acontece e eu sei dela. Mas também prefiro que nesse regime haja o seguinte:

  • Uma comunicação social que descubra estas coisas a tempo e horas e as relate defendendo os interesses do público. É estranho que se descubra que Pedro Passos Coelho não paga impostos e depois se descubra que António Costa parece que também não. E que conveniente que as eleições estão à porta... Eu sei que as pessoas gostam de futebol e no futebol o golo de uma equipa anula a vantagem do golo da outra equipa; mas Portugal não é um jogo de futebol e os portugueses não precisam de mais circo; precisam de mais pão, de mais substância. Não precisamos de competições de mediocridade.
  • A prescrição de certos actos ilegais deve ser um sistema de excepção e não um de regra--tem de haver consequências para os actos ilegais e essa deve ser a regra. Logo, se contemplamos que certos actos possam prescrever, temos de assegurar que há fiscalização e procedimento legal adequado para que sejam muito poucos os actos que prescrevem.
  • Uma máquina partidária que nos trate com mais respeito. Como é que uma pessoa chega a líder de um partido sem que ninguém dentro do partido tenha feito uma investigação a sério do seu background, especialmente de como ganhou a vida e dos impostos que pagou ou que deve? Isto é, os partidos têm de assegurar que nos propõem pessoas com um mínimo de fibra moral.
Eu aceito que haja miséria moral, mas não aceito que esta não seja minimizada.

Miséria moral

Não sou dos que consideram os “incumprimentos” de Passos Coelhos em relação à segurança social, entre 1999 e 2004, um fait-divers. Pelo contrário. O exemplo deve vir de cima. Para mais, este governo aumentou brutalmente os impostos e a máquina fiscal mostra-se absolutamente implacável, aplicando coimas desproporcionadas e penhorando os bens do cidadão comum sem contemplações. Numa democracia a sério, daquelas que Passos Coelho tanto parece admirar, isto era motivo suficiente para a queda do governo. Mas ver o recluso 44 acusar, a partir do estabelecimento prisional de Évora, Passos Coelho de estar “perto da miséria moral” é quase hilariante. Um ex-PR ministro na cadeia e o actual envolvido impunemente em trapalhadas é, isso sim, um sinal da miséria moral a que chegou o regime.

Vender Portugal

Li um artigo acerca dos planos do nosso Vice-Primeiro Ministro Paulo Portas de duplicar o número de turistas alemães em Portugal. Na entrevista, o Dr. Paulo Portas diz isto:
No âmbito da estratégia de promoção turística na Alemanha, uma das apostas estratégicas é a comunicação 'online', adiantou ainda o vice-primeiro-ministro. "Acho que mais vale uma estratégia digital, uma presença na Internet maciça, menções a Portugal nos líderes de opinião que influenciam as pessoas nas suas decisões, e que sejamos escolhidos como o melhor destino para viajar por revistas de alta qualidade na área do turismo, do que um 'outdoor' que mostre apenas a luz e o sol que temos", afirmou.
Apoiado, mas reparem que ele não diz muito bem o que vende Portugal ao estrangeiro. Há assim uma ideia muito vaga-- a Internet vende!--mas nada de concreto. Acho que ainda estamos a pensar em como é que vamos partir esta noz. Eu como sou muito opinada, tenho umas ideias que gostaria de partilhar.

Por exemplo, ele fala em líderes de opinião, o que eu acho muito bem. A irmã dele, a Catarina Portas, é uma líder de opinião. Foi considerada pela revista Monocle uma das pessoas mais "trendy" do mundo (a Jenna Lyons adora a Monocle, que é uma revista inglesa--as coisas triviais que vocês aprendem comigo...). Foi ela que começou com a taradice dos pássaros por causa das andorinhas da Bordallo Pinheiro. E isto dos pássaros foi Hitchcockiano porque eles, como no filme, atacaram em todo o lado, ainda se encontram esses motivos aqui nos EUA, mas não tanto como antes. Já repararam que a Catarina Portas era irmã do Paulo Portas quando ele chegou ao governo?

No outro dia falei-vos da Mónica Pinto, não falei? O blogue da Mónica Pinto já apareceu em revistas alemãs. A sério! Olhem aqui. Mas seria super-giro ver um livro dela à venda numa livraria americana. E a Cláudia Casal, que eu adoro, também já teve fotos dela em revistas estrangeiras. A minha casa está cheia de fotos da Cláudia Casal e já sou cliente dela há vários anos: eu compro na loja dela na etsy e ela também está na Society 6. E a Cláudia, que tem uma história incrível, até tem um guia turístico de Lisboa online e já houve turistas estrangeiros que foram a Lisboa para serem fotografados por ela. E, como estas bloggers, há muito mais. As mulheres portuguesas estão em força na blogoesfera e muitas delas têm um sentido estético extremamente apurado. São mesmo muito boas e têm uma imagem muito internacional, como por exemplo a Constança Cabral, do Saídos da Concha. A propósito, já comprei o livro dela, só tenho pena que não tenham feito um livro em inglês para eu poder oferecer às minhas amigas que não falam português.

Por falar em livros, vou contar-vos uma história que me aconteceu em Setembro do ano passado, quando eu fui a Portugal. Durante a minha visita em Coimbra, visitei o Edifício Chiado, onde está instalada a colecção Telo de Morais. É uma coisa deslumbrante. Fiquei muito feliz; no entanto, senti um ligeiro ataque de ansiedade porque eu estive ali duas horas e não entrou mais ninguém para ver a colecção. E já sabem que a economista Rita nunca está verdadeiramente de férias, logo a certa altura eu estava a contabilizar o custo da minha visita na minha cabeça e deve ter muitos zeros à direita porque aquilo é muito caro de se construir e manter.

À saída, vi que tinham catálogos da exposição e quis comprar, até porque achei que seria uma prenda óptima para eu trazer para oferecer à minha supervisora, que é americana e gosta muito de arte. Não havia catálogos em inglês. Estava tudo em português. Achei um bocado estranho--a tal coisa da visão oportunista passar ao lado de alguém, ainda por cima com tanto licenciado em inglês e francês desempregado... De qualquer das formas comprei dois catálogos. Eu gosto muito de fazer compras em museus: ajuda-se uma boa causa e dá-se prendas educativas.

Quando saí do edifício, estavam dois turistas a olhar para o prédio, que é deslumbrante. Para quem não conhece, o Edifício Chiado em Coimbra é um prédio da arquitectura do ferro, como a Torre Eiffel, em Paris, as pontes D. Luís e D. Maria Pia, e a estação de S. Bento, no Porto. Estavam então os turistas especados a olhar para o edifício, com uma expressão confusa porque não entendiam o que era aquilo, e estava eu cheia de adrenalina porque quando visito museus fico assim--muito excitada--, e dirijo-me a eles e digo "You have to go inside and see the exhibit! It is simply breathtaking..." O que vale é que eu não tenho sotaque português quando falo em inglês, e as pessoas pensam que eu sou americana. Sendo assim, se os assustei, eles irão pensar que foi uma americana maluca que o fez e até nem estarão enganados de todo. E depois fui pela Rua Ferreira Borges, para gastar a adrenalina.

Nem sei se entraram ou não, mas reparei que não havia nada no exterior do edifício que informasse um estrangeiro que se podia visitar o interior nem que era um museu. Quando fui à Igreja de Santa Cruz, também em Coimbra, prestar a minha homenagem ao D. Afonso Henriques, não havia nada em inglês que indicasse que ali estava o nosso primeiro rei. Eu fiquei deprimida com a Igreja de Santa Cruz, pois não estava decorada como antigamente. Suponho que agora já não é usada para serviços religiosos e por isso não é mantido o esplendor que tinha no interior. Quando fui à Sala da Cidade em Coimbra, aconteceu a mesma coisa: estava eu e um outro senhor e mais ninguém, apesar da cidade estar cheia de turistas.

Perante isto, não é estranha a ideia do Dr. Paulo Portas de que devíamos ser conhecidos por outras coisas para além da luz e do sol, mas é um bocado difícil se as coisas não estão devidamente identificadas e convidam a pessoa a entrar. Mesmo assim, nem sempre se pode entrar: recordo-me de uma vez na Universidade de Coimbra encontrar uns turistas que queriam ir visitar o edifício que tinha uma cúpula bonita e estava dentro de uma muralha--pois, era a prisão, tive de os informar que esse não era para eles.

Mas não pensem que eu ataco apenas estrangeiros, também ataco portugueses. Uma das minhas últimas vítimas é o escritor António Gil. Ainda não consegui comprar um livro de poesia dele porque muitos, como o A Céu Aberto, que era o que eu realmente queria, estão esgotados. Suponho que só o último está disponível. E também não posso oferecer os poemas dele a ninguém fora de Portugal porque ainda ninguém se lembrou que poderia ser um bom negócio traduzi-los. E por isso já mandei emails ao Gil a perguntar como é que era, porque é que eu não posso comprar as coisas dele? Durante a minha visita à Livraria Lello, no Porto, encontrei um livro de poemas do Eugénio de Andrade bilíngue, em português e francês, e comprei-o para oferecer a uma amiga minha americana e é professora de francês numa escola particular em Dallas. Ela e eu temos um pacto: um dia eu mostro-lhe Portugal e ela mostra-me a França.

Os poetas Robert Browning e Elizabeth Barrett Browning eram fãs da poesia portuguesa, chegando ela a publicar um dos mais celebrados livros de poemas de amor em inglês: Sonnets from the Portuguese, em 1850. O Robert chamava à Elizabeth "My little Portuguese" e os poemas de Camões eram apreciados por ambos, ou seja, naquela altura a poesia portuguesa já era traduzida e conhecida lá fora. Hoje em dia, com a Internet, com tanta gente que fala outras línguas desempregada, não se traduzem muitas obras portuguesas, especialmente poesia, para além dos autores já conceituados, como Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, António Lobo Antunes, José Saramago. Ah, mas eu tenho um dos livros do José Rodrigues dos Santos em inglês... (Há sempre excepções às regras.) E notem que esta foi uma das conclusões do estudo do César Hidalgo, no qual participou o português Bruno Gonçalves: a influência da língua portuguesa (e de Portugal) seria maior se houvesse mais conteúdo original português traduzido para outras línguas.

Suponho que o que eu quero dizer é que, para além de tentar trazer mais pessoas, também podíamos fazer muito mais negócio com as coisas que já temos em Portugal. Andamos sempre à caça do que não temos, quando o que temos é mal aproveitado.

E deixo-vos com o poema mais famoso--o 43--da Elizabeth Barrett Browning, do Sonnets from the Portuguese, que decerto já ouviram:

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of being and ideal grace.
I love thee to the level of every day’s
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for right;
I love thee purely, as they turn from praise.
I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood’s faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints. I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life; and, if God choose,
I shall but love thee better after death.

terça-feira, 3 de março de 2015

Um fardo para os portugueses

Não percebi...

Das medidas propostas por António Costa, encalhei logo nesta:
2.1) Actualizar a Carta Agrícola de Portugal, para que definidos os locais de melhor resultado de produção se evitem os excessos, que originam desequilíbrios dos preços, permitindo apoiar essas produções.
Quer isto dizer que eu não percebi a lógica de como isto irá funcionar no mercado. Vou explicar a minha deficiência de compreensão para que talvez um de vós me possa esclarecer como é que isto é melhor para Portugal.

Na produção agrícola, há uma tremenda incerteza e risco. A piada que se usa é que os agricultores adoram risco, são "risk lovers" na gíria economicista. Parte do risco vem do preço dos inputs, como fertilizantes, que são o resultado do que se passa no mercado mundial e estão ligados ao mercado da energia porque a urea, um fertilizante que fornece nitrogénio, é produzida com gás natural. Quando o milho começou a ser usado para fazer etanol nos EUA, o mercado de fertilizantes ficou ainda mais ligado ao mercado de energia porque o milho consome muito nitrogénio--e também há a óbvia ligação de o etanol ser energia. Quem usa água subterrânea para irrigar os campos, também consome energia para extrair a água. Em Portugal, também temos de ter em conta que os preços de energia para transportar os produtos têm impostos altos.

Mas a maior parte da componente de risco vem da meteorologia, isto é, quando o tempo é bom, a produção agrícola é muito boa e o excesso de produto no mercado deprecia os preços. Em anos de mau tempo com secas ou demasiada chuva, parte da produção fica comprometida e a escassez melhora o preço, isto é, os produtores que sofrem menos perdas conseguem ter melhor retorno. Mas o tempo é acima de tudo uma grande incógnita. Sabe-se lá o tempo que vai fazer dois meses depois de se plantar as sementes...

O retorno de um agricultor depende de duas coisas: o custo de produzir o produto e o preço ao qual o produto é vendido. Quando o agricultor decide o que plantar, tem melhor informação acerca do custo, mas o preço final a que o produto vai ser vendido é desconhecido. Os agricultores são normalmente price-takers, um agricultor não consegue influenciar o preço de mercado. Como fazemos parte da União Europeia, temos também de ter em atenção os preços internacionais, pois o preço de um produto em Portugal não pode ser muito mais alto do que o preço dos produtos noutros países. A lei do preço único, em que os preços diferem no espaço e no tempo pelo custo de transporte e armazenagem, tem de ser observada.

No entanto, o risco do preço pode ser mitigado por várias vias. Por exemplo, nos produtos em que há mercados de contratos de futuros, o produtor pode vender a sua colheita antecipadamente. Isto reduz o risco de perda monetária, mas também pode reduzir o potencial de ganho em anos em que há escassez e os preços no mercado spot seriam muito altos. O objectivo dos contratos de futuros é reduzir a incerteza, isto é, eliminar as caudas da distribuição probabilística dos preços, eliminam-se os preços muito maus, mas também os preços muito benéficos porque sendo os produtores price-takers é virtualmente impossível que consigam ficar sempre a ganhar ao mercado. Outra forma de mitigação de risco pode ser o uso de seguros agrícolas, muitas vezes estes são subsidiados pelo estado, em que quando as perdas da colheita excedem um certo valor, o seguro é activado desde que o agricultor não tenha sido negligente na gestão da colheita. Ainda uma outra forma de gerir o lucro na agricultura é o agricultor fazer um contrato antecipado com alguém que usa o produto, por exemplo, um produtor de batatas poderia vender a sua colheita a um processador de batatas ou a uma empresa que vendesse batatas ao público.

Relativamente aos custos, há que ter em atenção os custos variáveis e os custos fixos. Os custos variáveis são os inputs, onde os produtores agrícolas são também price-takers. Nos custos fixos, que são custos de curto prazo, inclui-se, por exemplo, a maquinaria, a os custos da terra, os edifícios, etc. Para os custos fixos é muito importante o volume de produção para que o produtor consiga obter economias de escala, isto é, dividir estes custos por uma quantidade maior de forma a que o peso dos mesmos no custo final seja o mais pequeno possível.

Perante todos estes factos, a solução que António Costa propõe traduz-se essencialmente em criar uma condição permanente de escassez em Portugal para garantir preços altos para os agricultores. Só que preços altos para os agricultores portugueses são preços altos para os consumidores e processadores e distribuidores portugueses no mercado aberto da União Europeia. Isto implica que é uma medida impossível porque o mercado iria fazer arbitragem de produto e os produtos agrícolas estrangeiros entrariam em Portugal e depreciariam os preços. Portugal é um price-taker--se António Costa ainda não entendeu isto, não reúne as condições mínimas para ser Primeiro Ministro de Portugal. E depois há a tal história dos custos fixos, pois ao reduzir a escala de produção, os produtores estão a aumentar o custo por unidade. E ao ter uma produção reduzida a um custo superior ao preço de mercado mundial, os produtos portugueses não seriam muito atractivos para serem exportados. Portugal só consegue crescer se conseguir exportar mais! Como é que isto ainda não está interiorizado em todos os candidatos a Primeiro Ministro?!?

Quais seriam propostas muito mais sensatas para a agricultura portuguesa? Uma seria identificar produtos que têm escassez no mercado mundial, por exemplo, os produtos gourmet, como os cereais antigos, os legumes e frutas menos conhecidos e que têm procura cada vez maior, e educar os produtores de quais as colheitas mais vantajosas. Outra seria desenvolver serviços de apoio para os agricultores poderem tomar decisões mais educadas e fazerem gestão de risco, por exemplo, ter boas bases de dados de preços de produtos e inputs, bons orçamentos de produção para os diferentes produtos e regiões de Portugal; outras ainda seriam incentivar o diálogo entre os agricultores e a indústria processadora e distribuidora, ter em atenção as necessidades da agricultura quando se planeia infraestrutura, desenvolver bons planos de gestão de água e solos, etc. Também se deveria pensar em desenvolver campanhas de diferenciação do produto e educação dos consumidores. Em suma, conhecer bem o mercado em que operamos e pensar fora da caixa.

RE: Pode um homem que tenha falhado o pagamento de impostos no passado ser primeiro-ministro de Portugal?

Carlos Guimarães Pinto pergunta: Pode um homem que tenha falhado o pagamento de impostos no passado ser primeiro-ministro de Portugal?
A pergunta mais relevante seria antes: Pode um homem que na Assembleia da República impôs impostos aos outros, com pesadíssimas penalizações, fugir aos impostos e, enquanto primeiro-ministro, fazer da moralidade todo um programa político?

segunda-feira, 2 de março de 2015

Da perplexidade que me apetece...

Estava aqui a pensar que o que me apetecia mesmo era que o PM Tsipras ficasse perplexo. Sabem, daquela perplexidade que aconteceria se o PM Passos Coelho fizesse um comunicado aos media internacionais a dizer o seguinte (vou escrever em inglês porque é internacional):
"I, as the Prime Minister of Portugal, fully understand the difficulties that the Prime Minister of Greece faces because many of his challenges are quite similar to the ones I faced in 2011. I am thankful that the people of Portugal cooperated with my government to put our nation on a more stable path and to ensure that we would not have to live through a neverending crisis. Even my political opponent agrees that Portugal is much better today than when his party left office voluntarily. I also would like to point out that, since 2011, Portugal's GDP dropped less than 4%, while Greece's dropped 18%.

We are now in a position to assist the government and people of Greece to overcome their own challenges. We invite the Prime Minister of Greece to visit Portugal so that we can share with him the lessons we have learnt and the tools that we have developed throughout our tenure. We wish nothing but the best for Greece, its people, and its government, and we remain fully engaged to do what is best for our two nations and for the European Union."

E com isto, eu ficaria tão perplexa, que o meu queixo cairia com 100% de probabilidade!

Live long and prosper, queridos gregos...

O oportunismo...

A propósito do comentário do Manuel Cabral acerca das qualificações dos trabalhadores portugueses, recordei-me de um rapaz que eu conheci em 2009 ou 2010, quando eu trabalhava na Universidade do Arkansas. O César Hidalgo é um rapaz do Chile, nascido em 1979, que tem um doutoramento em Física da Universidade de Notre Dame, nos EUA. Antes disso tinha estudado Física na Pontificia Universidad Católica de Chile. Talvez alguns de vós já tenham encontrado o nome dele porque ele foi mencionado num artigo no Público acerca da influência de uma língua no mundo. A Revista Wired, em 2012, considerou que Cesar Hidalgo é uma das 50 pessoas "that could change the world." O que o distingue dos outros é a sua originalidade quando olha para dados. Por exemplo, ele cria arte com representações gráficas de dados. Mas também cria representações gráficas da densidade entre variáveis em países diferentes, etc. Actualmente, o César é o director do Macro Connections Group no MIT.

Conheci-o porque ele foi convidado para apresentar um seminário no Departamento de Economia onde eu trabalhava. Depois do seminário, o convidado de honra, os estudantes e os professores foram todos para um bar na Dickson St. para conversar. Durante a conversa ele disse uma coisa que não me saiu da cabeça e frequentemente penso nela. Ele disse que não tinha aprendido nada de física durante o seu doutoramento nos EUA. Todo esse conhecimento tinha sido adquirido quando ele tinha estudado no Chile. O que os EUA lhe tinham ensinado foi a ver o mundo de forma a que a teoria que ele tinha aprendido pudesse ser aplicada de uma forma criativa.

Aqui há uns anos, depois do colapso financeiro, uma das histórias que passou na NPR era sobre um modelo desenvolvido por Ben Bernanke nos anos 80, o modelo chamava-se "financial accelerator". As previsões desse modelo indicavam que os EUA iam entrar em crise. Nessa história há uma parte que eu acho engraçada e que sublinhei para vós:

Bernanke's computer model is called the "financial accelerator." It's now in the office of Mark Gertler, an economics professor at New York University, who worked on it with Bernanke decades ago. You might expect a model of the economy to look like a video game, with avatars and a virtual trading floor. But when asked to show off the financial accelerator, Gertler turns to his computer and starts printing out paper.

That's because he and Bernanke worked on equations, not computer programs. "For that, we have highly intelligent and ambitious graduate students," Gertler says.

A investigação pesada nos EUA depende actualmente dos estudantes estrangeiros, mas antes disso dependia de cientistas estrangeiros que vieram para os EUA como refugiados. As universidade americanas têm uma visão oportunista do mercado.

Uma das minhas antigas alunas da cadeira de econometria que eu leccionei na Universidade dos Arkansas é do Sri Lanka e, depois de terminar o curso e regressar para o seu país, pediu-me ajuda para encontrar um programa de mestrado nos EUA e para organizar a sua candidatura e o financiamento dos estudos. Como ela terminou o curso recentemente, eu decidi escrever-lhe para ver como as coisas tinham corrido. No email, ela disse que tinha arranjado emprego, pois durante o curso tinha tido um estágio dentro da universidade, o que lhe deu oportunidade de encontrar um emprego de consultoria no governo local de Nova Iorque, e depois disso encontrou um emprego normal.

Diz ela que pessoas que tinham acabado o curso um ano e seis meses antes dela ainda não tinham emprego. O seu conhecimento de estatística aplicada com SAS e Stata ajudou-a bastante--esta parte fez-me orgulhosa porque as minhas recomendações foram todas no sentido de ela ter um bom background nesta área e conseguir estágios. E depois ela mencionou uma coisa que aprendeu na cadeira do primeiro ano de Microeconomia do Andy Horowitz--uma curiosidade, o Andy fala português porque se apaixonou pelo Rio de Janeiro e decidiu aprender. Ele disse: "It's not about where you have absolute advantage; it's about where you have comparative advantage." É a teoria de David Ricardo, que até tinha ascendência portuguesa.

E agora pergunto-vos o seguinte:

  • Temos nós em Portugal uma visão oportunista do mercado?
  • Será que exploramos as áreas onde temos vantagens comparativas ou esperamos que vantagens absolutas nos caiam do céu?
  • Quando Álvaro Santos Pereira mencionou que devíamos olhar para coisas usando uma visão oportunista do mercado, o que é que o país lhe fez?
  • Quando o nosso governo olhou para todos os licenciados portugueses, tiveram uma visão oportunista do mercado?
  • Quando António Costa olhou para as cheias na baixa de Lisboa, teve uma visão oportunista do mercado?
  • Quando a Grécia elegeu um governo maluco, tiveram os nossos governantes uma visão oportunista do mercado?
"Eppur si muove!"

Os olhos também comem!

Um dos blogues portugueses mais bonitos é o da Mónica Pinto, o Pratos e Travessas. A Mónica é uma fotógrafa e food stylist magnífica, ao nível de uma Martha Stewart ou de uma Donna Hay. Na minha opinião, a melhor revista de culinária do mundo em termos de design é a Donna Hay Magazine e as fotos da Mónica Pinto estão ao nível dessa revista. Os textos do blogue, a maneira de ser da autora, e a sua sensibilidade são verdadeiramente inspiradores e ela consegue captar a atenção de muitos leitores e imprensa internacionais porque para além de escrever em português, também escreve em inglês.

A Mónica Pinto é uma "taste maker": ela cria uma história em redor da comida que confecciona e, ao vermos as suas imagens e lermos a história, sentimos que, por uns instantes, somos transportados para o mundo que ela criou. É um mundo onde o passado, o presente, e o futuro intersectam. É um mundo onde nós queremos ficar e sentir as coisas que ela nos conta. É um mundo cujo potencial monetário dentro e fora de Portugal seria grande, se houvesse alguém com visão para casar a economia com a fantasia.

Foto: Mónica Pinto, Pratos e Travessas

domingo, 1 de março de 2015

Que filme...

Aqui há uns meses, decidi que me ia inscrever no Netflix para não ficar totalmente à margem da cinematografia. Como não tenho leitor de DVDs, a não ser no computador, só vejo filmes digitais no iPad. Obviamente que sou preguiçosa, pois não custa muito arranjar um leitor de DVDs e ligar aquilo à TV, que eu ligo para aí duas vezes por ano. A app da Netflix no iPad não é nada de especial, é muito má até, e o catálogo de filmes é muito limitado. Por exemplo, não tem "The Dreamers" do Bertolucci, que é um dos meus filmes preferidos. Filmes de David Lynch não há, mas isso é por culpa dele.

Quando decido ver um filme, tenho sempre imensa dificuldade em encontrar alguma coisa que me agrade porque eu estou farta dos filmes de Hollywood. Normalmente vejo filmes estrangeiros ou independentes. A certa altura, o algoritmo do Netflix decidiu que eu gosto de filmes com muito sexo, especialmente lésbicos. A parte do sexo não me incomoda muito, se bem que se for um filme só de sexo pode limitar bastante o enredo, mas não percebo porque é que tem de ser filmes lésbicos. Porque é que não sugerem mais filmes com homossexualidade masculina ou filmes heterossexuais? Mas o que eu gostava mesmo era de filmes interessantes, com ou sem sexo. E nem há filmes portugueses para eu lá ver. Porque é que os nossos políticos quando mandaram emigrar as pessoas, não mandaram também alguém criar um serviço de vídeo na Internet para os portugueses no estrangeiro poderem consumir filmes portugueses? Ou será que há um e eu ainda não conheço?

A propósito de sexo, um dos meus filmes preferidos é "Sex, Lies, and Videotape". Gosto tanto que eu, quando estava em Portugal, às vezes, via-o muitas vezes, para aí uma por semana durante vários meses seguidos. A minha irmã até implicava comigo de eu só ver aquilo. Há outro filme que eu sou capaz de ver duas e três vezes seguidas e era o que eu fazia quando estava a tirar o doutoramento e ficava com a neura. É o "Legally Blonde", que até é um filme de Hollywood. Há uma cena neste filme que é o máximo: quando ela se veste de Playboy Bunny e vai à festa e se encontra com o ex-namorado. Quando a Elle diz "I'm never gonna be good enough for you, am I?" eu farto-me de rir. De repente, dá-se uma viragem total na moça e ela diz: "I'll show you how valuable Elle Woods can be!"

E é isso! Só nos falta aquele momento em que nós, com rabo de coelhinha(o) ou não--e estamos quase na Páscoa!--, decidimos demonstrar o quão valiosa(o)s somos...

When the House of Cards is built in Sesame Street

Diferença de opinião...

O Carlos Duarte num dos meus últimos posts disse-me que a Sampedro não está interessada em criar um estilo de vida. Está interessada em vender lençóis e toalhas para hotéis. Qual é a implicação disto? É simples: não se quer vender um produto diferenciado, quer vender-se uma commodity. Como eu vos disse no outro dia acerca da agricultura, não há grande dinheiro a fazer em commodities. A maior companhia do mundo é a Apple; não é a IBM. O dinheiro faz-se em produtos diferenciados, como insinuou o Zé Carlos no post "Uma distinção em desuso". Em Portugal ainda não se percebeu uma coisa simples: não há reformas nem salários a nível da Europa do norte enquanto as pessoas continuarem a olhar para si próprios, para os outros, e para o que fazem como se o produto do seu trabalho estivesse apenas a satisfazer necessidades básicas. As reformas e os salários são uma consequência, não são uma causa, do desenvolvimento.

Este ano vai fazer 20 anos que eu vim estudar para os EUA num programa de intercâmbio. Eu podia ter-me candidatado ao Erasmus, mas não o fiz porque a competição era mais do que muita, e a minha probabilidade de ser aceite era mais pequena. Um dia vi um anúncio para um programa de intercâmbio com os EUA e decidi candidatar-me a esse. O meu objectivo em sair de Portugal era um de diferenciação: eu queria que esta experiência no meu CV me diferenciasse dos meus colegas. Quando cá cheguei, passados uns meses, os meus amigos aqui diziam: "Rita, devias ficar nos EUA e fazer um mestrado." Nos EUA, eu trabalhei em part-time, a ganhar o salário mínimo, que na altura era $5.25/hora, como "Student Assistant" no gabinete de Relações Internacionais da universidade. Antes de regressar a Portugal, falei com o meu gerente no gabinete, que é um homem extraordinário e que foi o meu primeiro mentor nos EUA. Eu disse-lhe que estava a pensar tirar um mestrado e ele deu-me o plano de acção: (1) vais falar com os teus professores e dizer as tuas intenções para eles terem uma melhor ideia de quem tu és e poderem escrever cartas de recomendação em teu nome; (2) vais falar com os departamentos aos quais te queres candidatar para eles terem nos arquivos o teu nome e para já terem uma ideia de quem tu és quando te considerarem para o programa; e (3) tens de te informar dos procedimentos para fazeres o exame GRE em Portugal e como te vais preparar para o exame.

Regressei a Portugal, terminei a licenciatura, e candidatei-me a empregos em Portugal, pois não sabia se ia ser aceite para o mestrado ou não e depois também havia a questão de financiamento. Tive uma entrevista para uma posição numa empresa de cerâmica em Montemor-o-velho, se não estou em erro. Durante a entrevista ficou claro que a posição para a qual me estava a candidatar era uma de secretária, isto é, os gerentes quando viam o meu CV viam uma commodity, não viam um produto diferenciado. O salário não era suficiente para eu sair de casa dos meus pais, nem sequer comprar um carro. Para ter o meu primeiro emprego eu teria de, basicamente, subsidiar a empresa. Hoje em dia nada mudou, não andam aí a propor estágios não-remunerados? E mais, ao mesmo tempo que se diz que as mulheres deveriam ter mais filhos, há mulheres portuguesas que trabalham mais de 30 horas por semana por menos do que o salário mínimo e os potenciais patrões dizem-lhes que a expectativa é de que tenham um marido para ajudar nas contas da casa. Não estou a inventar, isto foi-me contado em primeira mão. Não entendo como é que o Ministério das Finanças, de tão sofisticado que é, não apanha estes patrões espertalhões que se aproveitam da infelicidade alheia para subsidiar a sua gestão incompetente.

Mas voltando à minha história pessoal: julgo ficar claro na vossa cabeça que, em Portugal, eu sou uma commodity; nos EUA eu sou um produto diferenciado. Não havia qualquer diferença entre eu aí e eu aqui. A diferença estava nos outros, não em mim. Na altura eu pensei: se é para ser secretária, então eu vou para os EUA ser secretária enquanto tiro o mestrado. Vou diferenciar-me ainda mais. E vim. Mas eu tenho um defeito muito grande: eu vivo para aí 20 anos à frente do resto das pessoas. Eu fui a dois bancos em Portugal perguntar se ofereciam crédito para estudar no estrangeiro. Claro, que ficaram a olhar para mim, hoje em dia não é assim tão anormal. Na altura, o tópico que me interessava era o ambiente e eu vim para os EUA estudar a economia de recursos e problemas ambientais em 1997. Pois é, ninguém aí sabia o que isso é. A julgar pelas políticas de ambiente actuais, também não sabem hoje. O que me valeu é que, durante o meu mestrado, o meu orientador disse-me que eu devia fazer um doutoramento. Eu respondi-lhe à portuguesa: eu não sou suficientemente boa, i.e., eu sou uma commodity. Ele disse-me: "tu és uma das melhores alunas do departamento, se tu não és material para doutoramento, não há esperança para todos os outros". Para o meu orientador eu era um produto diferenciado. E eu fiquei e lá fiz o doutoramento, que até foi a coisa mais gira que eu fiz, porque entretanto apaixonei-me por econometria e tirei uma especialização em estatística para além do doutoramento--diferenciei-me ainda mais, com a agravante de isto ser antes de toda a gente ter ficado obcecada com "big data". Ou seja, mesmo nos EUA eu diferenciei-me antes do mercado de trabalho estar preparado para mim. Eu sou como o poema do Robert Frost: tomo sempre o caminho que é o menos seguido pelos outros. Nem sempre o mercado de trabalho está preparado para mim e, por isso, a minha carreira é muito mais volátil do que a carreira de quase todos os amigos. E já recusei vários empregos estáveis e aceitei empregos arriscados.

Na última vez que mudei de emprego, arrisquei mais uma vez. Eu tinha um emprego estável em Memphis, tudo estava certinho, e eis que uma pessoa para quem eu tinha trabalhado antes, me oferece uma posição em Houston. Durante meses foi extremamente difícil pensar em mudar de cidade outra vez--note-se que eu já vou no meu quarto estado nos EUA. Perguntei a mim própria muitas vezes "Rita, o que é que te define? Gostas de risco ou és avessa ao risco?" E sempre eu chegava à mesma conclusão: "Eu gosto de risco." Eu não sou uma commodity, eu sou um produto diferenciado e como tal o meu percurso não pode ser igual ao das outras pessoas. E, outra vez, eu tomei a estrada menos caminhada pelos outros e mudei de cidade.

Quando eu discordo de como as coisas são feitas em Portugal, muita gente me diz que eu não conheço Portugal, que as coisas não são como eu julgo que elas são. É claro que as coisas não são como elas deveriam ser: Portugal esteve a menos de um mês de entrar numa bancarrota completa--isso não é uma situação normal. Eu conheço Portugal perfeitamente. Eu sei que as coisas não deveriam ser como elas são. Mas, há mais de 20 anos, que eu espero que os meu adorados portugueses aprendam o que Portugal deveria ser e deixem de se resignar com o que Portugal é. É essa a nossa história: não conhecem Viriato, Afonso Henriques, D. João IV, Fernão de Magalhães, a Padeira de Aljubarrota? Ser português é construir um país que é diferente, vencer a adversidade, e não ser resignado. Ser português não é ser uma commodity; é ser diferenciado.