domingo, 24 de julho de 2016

A origem dos Conrarias

Nos arredores de Coimbra há uma terriola chamada Conraria. É lá que está o principal hospital psiquiátrico da região centro, o Hospital Sobral Cid. E lá fica a Quinta da Conraria, a Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra.
Há umas décadas, a Quinta da Conraria era mesmo uma quinta agrícola. E foi lá que trabalhou um avô do meu sogro, bisavô na minha mulher, que não se chamava Conraria. E quando teve filhos, por gostar do nome Conraria, decidiu dar-lhes esse apelido (por acaso, deu só a alguns; a outros, não). Que eu saiba, Conraria enquanto apelido foi aí que nasceu. Por isso é tão raro. Até há alguns meses, não conhecia nenhuns outros Conrarias. Até estava convencido de que a nossa linhagem era única. Entretanto, graças ao Facebook, encontrei descendentes de um tio do meu sogro, que ainda não conheço pessoalmente, mas hei-de conhecer.
Tanto quanto sei, mas posso estar enganado, não há nenhum trisneto que tenha Conraria como último nome. Das trisnetas que existem, duas são minhas filhas. É um apelido que, com uma probabilidade razoável, desaparecerá. Mas, já sabem, sempre que virem um maluquinho, ou alguém com uma paralisia cerebral, é provável que tenha passado pela Conraria.

História gótica


97. Não se atreveu a fazer o sinal da cruz. Podia ser menos uma ajuda do que um obstáculo. E destes já tinha muitos.

George Takei

Revisitar a história, um dos episódios tristes dos EUA:


sábado, 23 de julho de 2016

Alienação

O Alfred e o Chopper foram passar o fim-de-semana a casa do pai, o que me permite fazer passeios a pé mais longos. Hoje de manhã, andei por uma rua que não costumo frequentar: a Braeburn, que tem casas e jardins enormes.

Enquanto passeava, ouvi o Governo Sombra, onde se falava de como andar à caça de Pokemons era uma forma de alienação. Até há uns dias, eu nem sabia o que era o Pokemon Go, tive de pedir explicações aos meus amigos via Facebbok, mas reconheço que também tenho andado meia-alienada, apesar de não jogar a nada. Este passeio foi uma forma de alienação.

Venham daí comigo visitar parte da minha vizinhança...

História gótica

96. "Mais ou menos", Ada. "Ou digamos assim", ainda Ada. "Se o Natal durasse mil e uma noites, há um diabinho de quem podemos esperar que nos entretenha.", Ada continuou.

Pode ser mais rápido e fácil do que se pensa

Kurt Lewin nasceu em Mogilno, na província prussiana de Posen (fica na actual Polónia). Morreu em 1947, em Newton, Massachussetts. Doutorou-se na Universidade Berlim. Foi um professor muito popular em Berlim, em especial junto do sector feminino, segundo rezam as crónicas. Os seus primeiros interesses diziam respeito à memória e à percepção e, por extensão, à psicologia da criança. Admirava Galileu e tentou pensar a psicologia em termos de física, adoptando as noções de campo de forças, sistemas de tensão, fontes de energia, etc. Em meados dos anos 30, com a ascensão do nazismo, este cientista judeu alemão fugiu para os EUA.
Lewin fez parte do grupo de centenas de cientistas e investigadores alemães que a partir dos anos 40 transformaram as universidades americanas, fazendo delas as melhores do mundo. Provavelmente, nunca um pequeno país (a Alemanha) havia tido uma influência cultural e científica desta dimensão sobre um país tão grande – os EUA, nunca é demais relembrá-lo, têm o dobro da área da Europa, se excluirmos destas contas a Turquia e a Rússia. Bem, talvez se possa comparar este fenómeno à influência cultural dos gregos sobre os romanos, mas deixemos isso para quem percebe mais do assunto.
Curiosamente, Lewin teve dificuldades em entrar na universidade de Cornell. Percebeu que, nessa altura, já vingava a máxima que regula a vida académica americana, to publish or to perish, publicar ou perecer. Começou a publicar os seus trabalhos e lá conseguiu colocação na Universidade do Iowa. Entretanto atraiu alguns dos seus antigos alunos e muitos outros estudantes brilhantes.
Lewin seguia a máxima: “Nada é mais prático do que uma boa teoria”. Na realidade, nunca se tornou um teórico de referência, mas lançou as bases de muitos desenvolvimentos teóricos que viriam a seguir. Nos anos 40, interessou-se pela investigação dos grupos, cunhando essa área como “dinâmica de grupo”.  Por exemplo, acho particularmente interessantes os seus estudos (e da sua equipa) sobre a liderança em grupos de escuteiros. Aplicando a observação participante, começou por comparar a liderança autoritária à democrática. Mais tarde, introduziu a liderança laxista (laissez-faire).
Conclusões? A liderança democrática era a que proporcionava maior satisfação e motivação aos membros do grupo. Todavia, a autoritária era a que levava a maior produção, apesar dos escuteiros se tornarem mais agressivos, inquietos, sem iniciativa, desconfiados e propensos a criar bodes expiatórios para todas as falhas e fracassos que surgiam. A liderança laxista era a que produzia piores resultados, tanto em termos de satisfação e motivação como de produção.
Outro dado curioso é a transição de um sistema para outro. Do laxista para o autoritário, os escuteiros ficavam assustados e perturbados. Mais interessante: a transição da liderança autoritária para a democrática (que era bem-vinda) demorava muito mais tempo a estabilizar que a inversa. Lewin explicou porquê: “a autocracia é imposta ao indivíduo, mas a democracia tem de ser por ele aprendida”.
Moral da história? Pode ser mais fácil e rápido passar de uma democracia para uma autocracia do que o inverso. Eu sei, eu sei, é apenas uma investigação sobre um grupo específico (escuteiros), mas vale sempre a pena relembrar estes estudos aos que nasceram ontem.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Lipstick on a pig

“I put lipstick on a pig,” he said. “I feel a deep sense of remorse that I contributed to presenting Trump in a way that brought him wider attention and made him more appealing than he is.” He went on, “I genuinely believe that if Trump wins and gets the nuclear codes there is an excellent possibility it will lead to the end of civilization.”

~ Tony Schwartz, o ghost writer de Donald Trump, citado na The New Yorker

As minhas amigas de Houston estão completamente horrorizadas com Donald Trump. Hoje telefonei a uma e ela dizia-me que eu tinha de ler este artigo acerca do fulano que escreveu "The Art of the Deal" para Trump. Pela minha parte, continuo a não perceber como é que o GOP nomeou o Trump. How the mighty have fallen!

O tal "perigo árabe e muçulmano"

Sobre o tal "perigo árabe e muçulmano", digo o que sei: os meus filhos têm amigos que são refugiados sírios. Alguns deles vieram numa daquelas horrorosas travessias de barco, e depois sabe-se lá como atravessando meia Europa. O que se diz por aí sobre o perigo muçulmano não tem nada a ver com o que vejo cá em casa, quando eles nos visitam. Pode haver terroristas entre os refugiados, pode haver pessoas que se deixem levar pelo transtorno. Mas os refugiados que nós conhecemos são gente de bem, gente boa, alguns deles profundamente traumatizados, e todos a sofrer imenso com a falta de perspectivas e a saudade de um país que já não existe.

Metê-los no saco "perigo árabe e muçulmano" é uma injustiça atroz.


Notícias de um ocidente humanista e cristão

Do ataque no comboio de Würzburg há duas cenas que não me saem da cabeça. A primeira, é o atacante ter reconhecido num dos passageiros uma mulher que trabalha no centro onde ele viveu quase um ano, e ter ido para outro compartimento. A segunda é uma voluntária desse centro a dizer na televisão, em horário nobre, que tinha muito boas recordações daquele rapaz, do tempo em que tinha trabalhado com ele, e que, não querendo de modo algum criticar a polícia, confessava que sentia tristeza pela sua morte.

A primeira cena vale o que vale, mas há aqui um homem tresloucado que, no momento em que está prestes a matar por ódio, consegue reconhecer quem lhe fez bem e poupar a vida dessa pessoa: o amor, ou a gratidão, podem ser maiores que a loucura e o ódio.
Este compartimento que foi poupado àquela violência louca porque ia nele uma mulher justa, digamos assim, lembra um pouco aquela discussão entre Deus e Abraão, quando Deus quer destruir Sodoma e Gomorra, e Abraão regateia com ele,  "se lá houver cinquenta justos, poupas a cidade? e se forem quarenta e cinco? e se forem trinta? e se forem dez, também a poupas?"
Naquele compartimento, bastou um.

A segunda cena é um daqueles momentos especiais da História: em vez de diabolizar o atacante, esta voluntária continua a ver nele uma pessoa, e a televisão escolhe passar em horário nobre palavras simples e plenas de humanismo, com grande poder pacificador. Imagino com que gratidão os muçulmanos e os refugiados que vivem neste país terão ouvido este testemunho. Em vez de fazer um discurso de medo que aumenta a desconfiança em relação a todos os muçulmanos, o que vimos nos dias seguintes ao atentado foi um esforço sério para compreender o que levou a este ataque e encontrar meios de evitar que outras pessoas em condições semelhantes se deixem levar pela loucura e pelo desespero. Os políticos não estão a iniciar uma linguagem bélica para combater o terrorismo - fala-se em melhorar o apoio a esses menores não acompanhados e informa-se sobre a sua extrema fragilidade, os traumas e a solidão.

A localidade onde o atacante viveu durante quase um ano reagiu com teimosia: agora vão ajudar ainda mais os refugiados, para que eles se possam realmente integrar, curar as feridas profundas que trazem da guerra e da travessia da Europa, e recomeçar a vida. Afinal de contas, dizem, nunca houve qualquer incidente com nenhum dos refugiados que lá vive (200, numa localidade de 11.000 habitantes), e não há motivo para desistir de ajudar quem precisa tanto, só porque aconteceu esta tragédia com um deles.

Em momentos destes vê-se que a Alemanha vive realmente a sua herança humanista e cristã.


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Guia de fotografia de verão

Caros leitores,
Para vosso benefício, nós aqui, na Destreza, achámos por bem produzir um tutorial de temas fotográficos que estão em voga neste momento, para que os vossos amigos no Instagram e no Facebook morram de inveja. Então vamos a isso...

Qual Condorcet qual carapuça, roubaram as presidenciais

1986, os resultados das eleições presidenciais não deixam dúvidas. Freitas do Amaral, apoiado pelo PSD+CDS, conseguiu 46% dos votos. Os restantes votos foram divididos por outros três.

Durante a campanha assistiu-se a uma luta fratricida entre Soares, apoiado pelo PS e Salgado Zenha, histórico do PS, mas que saiu em ruptura com Soares. A ruptura foi tão violenta que Zenha, em pleno debate, negou fazer parte da mesma família política de Soares, deixando este último chocado e sem palavras. Durante a campanha, quer Zenha quer Pintasilgo situaram-se à esquerda de Soares. 

Pensar que Soares tem hipóteses contra Freitas do Amaral numa segunda volta é, absurdo, como a maioria dos meus leitores sabe. Afinal, não há transferências automáticas de voto. Ainda por cima, há muitos comunistas que detestam Soares e nunca votarão nele. Entre um candidato burguês socialista e um burguês de direita, na melhor das hipóteses estarão indiferentes. Para os comunistas Soares é um traidor, nem de olhos tapados votam nele. Assim, as possibilidades de Soares captar os votos de Zenha são limitadíssimas, para não dizer inexistentes.

Os votos de Pintasilgo são também difíceis. Afinal, a política não é apenas uma linha que vai da esquerda para a direita. Tem diversas outras dimensões. Pintasilgo estava à esquerda, é verdade, mas era uma católica praticante assumida, muitas dos seus apoiantes eram pessoas ligadas à igreja que nunca votariam num ateu como Mário Soares. 

Qual Condorcet, qual single peaked preferences, qual carapuça! Freitas do Amaral tem a presidência no papo. Só uma besta intelectualmente desonesta pode por em causa que alguém que teve 46% dos votos é o preferido pela maioria. Prá Frente Portugal!

História gótica

95. À medida que procuravam entre os papéis rasgados aqueles que lhes interessavam, iam-se apercebendo de que não conseguiriam completar os fragmentos que transportavam consigo há tanto tempo.

Estados de negação

Os meus artigos no Observador que reacções mais indignadas a acaloradas geram são aquelas onde digo o óbvio.
Há uns meses, quando escrevi que as mulheres que se dedicavam de corpo e alma a ser mães eram, regra geral, menos produtivas no local de trabalho, recebi muitas reacções indignadas. Algumas apenas com insultos.
Ontem, foi por ter escrito que face à votação nas legislativas era razoavelmente evidente que a maioria dos votantes preferia Costa a Passos Coelho como primeiro-ministro.
A malta tem mesmo problemas que lhe chamem a atenção do óbvio. O que, diga-se, é muito divertido.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Editor's Note

Não tenho o hábito de ler The Huffington Post regularmente, mas hoje, por causa do vídeo do The Late Show with Stephen Colbert, aconteceu passar por lá. Reparei que, no final de todos os artigos relacionados com Donald Trump, há um "editor's note" que diz:


Fonte: The Huffington Post

No aviso, há links para cada uma das insinuações que faz. A Arianna Huffington não deve gostar muito de Donald Trump...

Olhó avião...