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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Ou Zeus porque Odisseia, sei lá

Na última quinta-feira, votei nas eleições primárias do Tennessee e, como não votei antecipadamente, tive de ir à igreja onde voto (já sei o que vocês estão a pensar: a tal coisa do estado laico, rebeubéu pardais ao ninho...). O voto antecipado pode ser feito em vários locais (ùltimamente tenho ido à Tennessee Shakespeare Company), mas o do próprio dia tem de ser mesmo no nosso local de voto que, no meu caso, é uma igreja, mais propriamente o centro cívico da dita.

Um detalhe engraçado: Calhou que nesse dia vesti roupa azul e só reparei nisso quando cheguei a casa. Quando atravessei o parque de estacionamento estava um monte de gente com propaganda eleitoral a pedir para eu votar neles, e eu ia ali a pensar se eles conseguiam adivinhar para que lado eu tendia, dado que mulher branca em Memphis tende a ser republicana. Talvez tenham lido a mensagem subliminal da minha indumentária antes mesmo de eu a ter entendido.

Na mesa de voto, mostrei a minha carta de condução e assinei os papeis para votar--é preciso assinatura e verificação da mesma. Depois perguntaram-me que boletim queria, se Democrata, se Republicano, e se queria votar com papel e lápiz ou na máquina. Escolhi o Democrata e voto em máquina. Como foram eleições primárias, apenas se escolhia os candidatos do partido que iam concorrer nas eleições intercalares e, desta vez, achei melhor votar nos canditatos democratas; há dois anos, pedi o boletim republicano para votar contra Trump porque achava mais eficaz tentar derrotá-lo nas primárias e, no Tennessee, dá para sermos troca-tintas e podemos escolher em que lado votar em vez de termos de votar no partido previmente declarado aquando de nos registrarmos como eleitores.

Agora os resultados que eu achei giros: Os candidatos que foram selectionados pelos partidos republicano e democrata para governador do Tennessee são ambos mulheres por obra e graça do Espírito anti-Trump ou universo ou Buda ou Zeus porque Odisseia, sei lá: A Marsha Blackburn, que de todo não aprecio (ela é senadora no Congresso dos EUA pelos republicanos e frequentemente tenho vergonha do que diz e faz), e a Jerri Green que é democrata e de Memphis e serve no Memphis City Council. (Note-se que eu vivo em Memphis, que foi o primeiro sítio onde a decisão do Supremo Tribunal dos EUA, que eliminou um distrito com maioria negra na Louisiana, foi usada para partir Memphis, cujo distrito 9 era dois-terços democrata, em três distritos de maioria republicana, pois o voto urbano foi diluído com o rural.)

Depois há uma catrefada de candidatos independentes, quase todos homens. Ora o Tennessee é republicano, logo a Marsha é a que tem a vantagem e provavelmente será a que ganha. Se tal acontecer não muda nada, pois o Bill Lee, que é o governador actual também é republicano, pro-Trump como ela, e é tão bom que o Tennessee é dos estados mais pobres da União, para além do homem ser natural de Franklin, que é terra do KKK.

Mas regojizemo-nos porque as eleições intercalares irão ser curiosas pois, apesar de Jerri ser normalmente nome de mulher, também pode ser entendido como nome de homem, dado que muitos americanos não sabem soletrar (no Starbucks, frequentemente sou Reda), mas Marsha é claramente nome de mulher. E depois há a catrefada de homens independentes que pode diluir o voto na Marsha, ou seja, o efeito Kamala, mas duvido que haja qualquer diluição no voto da Jerri.

Uma das minhas melhores amigas votou Trump há dois anos e está mais do que arrependida, tão arrependida que votou Democrata e, pmais uma vez or obra e graça do Espírito anti-Trump ou universo ou Buda ou Zeus porque Odisseia, sei lá, convenceu o marido que é anti-Trump, mas tende mais para o lado republicano, a votar azul. E efectivamente o voto democrata ganhou mais participação no Tennessee do que o voto republicano nestas eleições, logo aguardemos com interesse as intercalares.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Cocktail da semana para nos distrairmos

Há quatro dias, o Rahm Emanuel deu uma entrevista ao Ian Bremmer, do Eurasia Group, em que indicava que há dois navios russos cheio de petróleo a caminho de Cuba e esse vai ser o teste de Trump: será que vai deferir para o Putin, será que não? Os navios chegam amanhã, Segunda-feira, logo falta apenas umas horitas para sabermos.

Ultimamente, Trump não tem ligado muito a Putin, o que me leva a crer que arranjou maneira de fazer dinheiro sem ter de construir hoteis em Moscovo. Por outro lado, se Putin tinha algo que comprometesse Trump, os ficheiros do Epstein devem empatar com tal coisa. Ainda por cima porque andam aqui a brincar com os emails, mas o verdadeiro tesourso está nos vídeos pois o Epstein tinha a casa toda sob vigilância de video, até os quartos de banho.

Depois há os detalhes de que a guerra no Irão não está a correr muito bem para os EUA, e certos aeroportos estão uma confusão porque o pessoal da TSA não está a ser pago devido ao fecho parcial do governo, e alguns não aparecem no trabalho, logo Trump precisa de coisas para distrair o pessoal--aliás, o ataque ao Irão foi isso mesmo, uma distração dos ficheiros do Epstein, que correu tão mal que até publicaram mais ficheiros para tentar distrair do fracasso do ataque ao Irão.

É necessário arranjar uma distração nova, o que, se Rahm Emanuel esta correcto, irá ser uma intervenção em Cuba. Nesse caso, sugiro o cocktail Cuba Libre, que é apenas rum branco, sumo de lima, coca-cola, gelo, e uma fatia de lima. Usem Coca-Cola adoçada com açúcar e não xarope de milho. Pela minha parte, tenho mesmo de ir à loja comprar uma garrafa de Veuve Clicquot, a ver se o One Beautiful Big Obituary sai mais depressa...

P.S. Trump também sugeriu que vai mandar pessoal do ICE para os aeroportos fazer o trabalho da TSA. Também é uma boa distração, especialmente se os malucos do ICE começarem aos tiros no aeroporto.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Eu, boa pessoa? Não.

Então este fim-de-semana os EUA atacaram o Irão e decerto que daqui a uns meses atacam Cuba, pois parece ser essa a ideia de como mudar o foco de atenção dos ficheiros do Epstein. A meu ver, não há nada nos ficheiros que não se suspeite ou até saiba. É óbvio que ele teve sexo com menores e é irrelevante para quem votou nele porque quem votou nele acha que esse voto ainda é justificado. No outro dia falei com uma vizinha minha é psicóloga e que votou nele e que me dizia que as raparigas de 16 anos dos ficheiros do Epstein deviam ter tido alguma culpa. Eu fiquei calada porque nesse exacto momento a única coisa que me passou pela cabeça foi "What a fucking idiot!" A mulher é burra, do mais idiota que existe, e eu já tenho idade suficiente para ter aprendido que não vale a pena falar com quem não tem capacidade intelectual para mais. E dá-me nojo porque é uma mulher madura que não se sente responsável por proteger crianças de 16 anos e até menos de homens maduros e nojentos. Só sinto asco ao quadrado.

Na semana passada, a minha empregada veio a minha casa e acabei a dar-lhe um sermão no meu portunhol aldrabado. Quando Trump foi eleito, ela postou no Instagram uma foto em frente à Trump Tower em Chicago, eu disse-lhe que era um dia triste para os EUA, ela disse-me que Deus mete e tira reis. Eu fui aos arames e passei longas semanas a imaginar que a despedia, mas contive-me, apesar de ter ficado desgostosa. Então na semana passada lembrei-a da foto que tinha postado e do que eu lhe tinha dito e ela, que imigrou ilegalmente para os EUA, disse-me que ele era a melhor alternativa porque era contra os gays e transsexuais e que os outros iam transformar os jovens em gays e transexuais.

Eu dei a minha opinião: sempre houve gays e ninguém é transformado em gay ou transsexual, as pessoas nascem assim e não é saudável viver numa sociedade em que pessoas gays e transsexuais são perseguidas. Claro que não a convenci. Eu devia era ter-lhe perguntado se ela era Deus ou Jesus para andar a julgar os outros, mas não me lembrei na altura. Ou devia ter lido a Bíblia para ter competência para citar um evangelho qualquer, mas não tenho interesse, talvez um dia lá chegue porque li recentemente a Ilíada e a Odisseia e há histórias semelhantes nos três textos. No final, aconselhei-a, como sempre faço, a ter cuidado porque se o ICE a apanha, é deportada, apesar de ela já estar regularizada. Mas cá dentro penso que, se a apanharem, ela continua a ser apoiante dele (ou será adepta) e, se fosse cidadã e pudesse votar até continuaria a votar nele. Se acontecer, em Portugal, dir-se-ia bem feita, nos EUA dir-se-ia "It couldn't have happened to a better person".

Mas eu, boa pessoa? Definitivamente, não.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Carta a uma centenária em 25 de Janeiro de 2026

Dear J.,

I hope you are doing well, or at least as best as can be considering our common political nightmare. More than a foot of snow has fallen outside and I have spent two days at home with a roaring fire and a flock of birds outside eating from the feeders. Now, just like almost six years ago, as we entered the pandemic, I look at the birds and feel that they are safer and have more freedom than we do. I am so saddened and sickened every time I read the news.

In your last email, you asked if I had gone to any of the demonstrations and I have not. I have been volunteering with the Master Gardeners, and donating food to food banks. I have also started to exclude Trump voters from my life. I continue to listen to Martin Luther King, James Baldwin, and Toni Morrison, as I find them the most comforting as we push through these most disturbing times. You have also lived through many dire times before and they somehow ended in one way or another, but always at great cost to many involved, either through suffering or through loss of life.

This shameful time will also reach an end, although I struggle to see a way in which I will be able to trust and feel compassion for the folks that have voted to support this level of violence. Somewhere in my mind I think that people like me and you are owed some sort of contrition from the GOP voters, but it is useless. No amount of contrition will right this wrong and I cannot find in me any kindness to extend to these voters. In fact, I actually feel epicaricacy when I hear that people that I know voted for this President have lost their jobs or have suffered any ill event.

Since yesterday, when I heard the details of the death of Alex Pretti, I have been contemplating that the Universe or God, or whatever it is that unites everything in this world, has a peculiar sense of humor. White people are being hunted down much like minorities have been for centuries; although this is not new. Less than two centuries ago, many people did not have rights, so it was an illusion that we thought that condition had been overcome.

However, this reality not only feels like an experiment, but it is also a way for Americans to look at themselves in the mirror. So many times, the U.S. has supported this type of action in other countries, and even in the U.S., a century ago, Mexicans were hunted down by the Texas Rangers, and then there are the Blacks and how much they have had to endure. We finally have gone through all the minorities and so now it is the turn of the whites to be the victims.

For the last 10 weeks, I have been reading the Odyssey, and before that I read the Iliad. The amount of violence in these two foundational books of our civilization feels disturbingly like the present, even though I wish we were much further removed from that way of being. However, I am happy that I have found some nice people in the online classes. The next book that I may take a class on is Ovid’s Metamorphoses, but I have not enrolled yet.

A few days ago, I found some inspiration to start going through my many stacks of papers and things that I need to donate. I have not made much progress, but I am happy to have started. The reason that I had been procrastinating was because, in Houston, as soon as I had my house organized and comfortable, I ended up having to move, so I have been afraid that that may happen again with this house.

How has this storm worked out for you? I hope you haven’t spent too much time watching the news. I am so sorry that I am not in very good spirits today. The narcissus and daffodils have started to sprout and soon we will have flowers. I also planted more than 100 tulips, so I look forward to being able to show you photos of their blooms. By the way, the Dixon Gallery and Gardens (a local museum) is celebrating 50 years today and they planted 650 thousand tulips this year. It should be amazing to visit in 5-6 weeks, so get ready to be bombarded with photos of tulips.

I love you dearly and send my best to S.,

Rita

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Um ano sangrento

Com o novo ano, as actividades do ICE intendificaram-se significativamente. Tenho saído pouco de casa, e tenho evitado a zona da Baixa de Memphis, logo não vi ainda ninguém do ICE, mas este fim-de-semana calhou ir ao Lowe's (uma loja tipo Leroy Merlin) comprar uns sacos de solo para vasos e umas lâmpadas e vi uma patrulha da National Guard a andar pela loja. Fiquei estupefacta porque não estava mesmo à espera de encontrar meia-dúzia de jovens fardados. Pelo menos, estes são treinados e devem ter o mínimo de bom senso, dado que muitos são alunos universitários que se inscrevem para servir em troca de financiamento para pagar os estudos. Já os do ICE contratam qualquer idiota que respira, aliás se calhar nem é preciso respirar porque não fazem background check, fazem um teste de drogas, mas não ligam ao resultado, e mesmo que a pessoa não preencha os formulários contratam na mesma--este foi o relato de uma jornalista que se candidatou, não fez seguimento do processo, falhou o teste de droga porque tinha consumido marijuana legal menos de uma semana antes, e, mesmo assim, foi contratada. Disseram-lhe que ia passar uns meses a processar papelada, mas depois vão meter toda a gente a patrulhar as ruas americanas com armas. "Patrulhar" é eufemismo para ameaçar e torturar.

O projecto piloto de todo este teatro está a acontecer no Minnesota, especialmente em Minneapolis. Se cresceram em Portugal nos anos 90, decerto se recordam do Beverly Hills 90210, no qual a Brenda e o Brandon, os gémeos que protagonizam a série, são oriundos do Minnesota e têm grandes preocupações sociais e morais. E é mais ou menos assim que é o pessoal do Minnesota, mas devo acrescentar que têm um sentido de humor meio estranho ou inexistente. Quando alguém diz uma piada, não se riem e quando alguém faz uma pergunta, ninguém responde. Depois passam grande parte do tempo num frio horroroso, e no verão têm de aturar melgas quase do tamanho de uma laranja.

Não é portanto de admirar que, depois da Renée Nicole Good ter sido assassinada em Minneapolis, o pessoal tenha saído à rua em protesto; com o ICE a intensificar a violência, ainda mais pessoas erguem a voz e cada vez se vê mais homens brancos heterossexuais a juntarem-se ao movimento--imagine-se que até o podcaster Josh Rogan já comparou o ICE à GESTAPO. Mas há um aspecto lúdico: não deixa de ter piada que os que defendem os métodos autoritários de Trump sejam os mesmos que estejam preocupados com o Irão, a Venezuela, etc., como se dissessem "A minha ditadura é melhor do que a tua..."

Todos os dias aprendemos coisas novas acerca das acções do ICE, que agora até prende cidadãos americanos e não devolvem os pertences pessoais que confiscam às pessoas quando as prendem--os documentos, as jóias, a carteira, o telemóvel, as chaves do carro, etc. Não interessa se a pessoa fez alguma coisa de mal, se está em casa ou no carro, se é americana, se é deficiente, homem, mulher, criança, etc. Até os índios nativos americanos prendem e tentam deportar porque têm um tom de pele mais moreno. Vivemos num estado de completa ilicitude e isto só tem tendência a piorar.

A 30 de Janeiro, acaba o financiamento do Department of Homeland Security que controla o ICE. É certo que o Congresso não irá aprovar uma lei de financiamento, logo teoricamente o ICE deveria parar de trabalhar quando o governo fechar, mas o mais provável é Trump desviar dinheiro de outros departamentos para financiar o ICE. Depois em Maio, quando o Jerome Powell sair da Reserva Federal e o Trump nomear um maluco incompetente, a política monetária irá ser super-expansionista e o dólar deve cair a pique. Entretanto, estão a ser publicados os relatórios trimestrais de resultados financeiros das empresas cotadas na bolsa e não me parece que as coisas sejam famosas, a não ser que a companhia esteja envolvida em construção de centros de AI, prisões, ou equipamento de guerra.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Nem de propósito

Saiu há minutos notícia no NYT de que o suspeito do atentado da Brown e do ataque ao professor do MIT Nuno Loureiro é um homem português de 48 anos, que foi encontrado morto num armazém, tendo-se suicidado a tiro. O suspeito foi estudante da Brown entre 2000 e 2001, de nome Claudio Neves Valente.

Estou duplamente chocada, não só pela perda do Nuno Loureiro, mas também que um antigo estudante internacional português tivesse feito tal coisa. E receio a eventual reacção de Trump.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

A Resistência ergue-se

Ontem tivemos eleições e os resultados foram favoráveis aos Democratas. Não considero isto uma "grande" vitória porque sítios como Nova Iorque e Califórnia são bastante favoráveis a Democratas, mas há maior empenho da população em votar logo podemos contar com maior participação eleitoral até esta situação de Trump se resolver. A Administração já está meio atrapalhada e querem reabrir o governo para dar uma vitória a Trump--anunciaram mesmo agora que vão cancelar/adiar voos em 40 dos aeroportos com maior tráfego aéreo, e nem estão a esperar que os controladores aéreos entrem em baixa médica. O objectivo é pressionar os Democratas, mas estes não vão ceder, tal como não cederam em 2018/19. O preço da reabertura do governo este ano é a continuação dos subsídios do Affordable Care Act que apoia a compra de seguro médico pelas pessoas com menos recursos.

Sempre que há alguma situação que deixa a Administração ficar mal-vista, a Administração manufactura uma crise. No seguimento da Marcha "No Kings", a ala leste da Casa Branca foi demolida, logo o preço das eleições de ontem vai ser o caos no transito aéreo, pelo menos, porque as coisas estão a intensificar. As redes sociais estão cheias de vídeos e de casos de pessoas que foram detidas por ICE, que descrevem situações aberrantes de violação de direitos humanos, para já não falar dos constitucionais. Um cidadão irlandês residente nos EUA foi detido porque se parecia com alguém latino. Durante a sua estadia, viu um homem que também estava detido queixar-se de dores no peito, não lhe foi dada a devida atenção médica e alguns dias depois a pessoa teve um ataque cardíaco e caiu no chão. O irlandês acabou por ser deportado, apesar de nunca ter estado ilegal.

Na Califórnia, Gavin Newsom, o governador, enviou um vídeo a um jornalista de uma intervenção da ICE que deteu um homen num parque de estacionamento e deixaram o seu filho bebé no banco de trás do carro. Depois os agentes da ICE levaram o carro com o bebé; horas mais tarde o homem foi libertado porque era americano e o bebé foi reunido com a família. O Newsom estava a tremer a falar do caso com o jornalista. Em Chicago, grupos de mulheres americanas andam com apitos a alertar as vizinhanças sempre que encontram agentes da ICE, algumas perseguem os carros da ICE nos seus próprios carros, outras oferecem as suas lojas como sítio seguro para quem precise de abrigo dos agentes. Há advogados a relatar o que se passa nos tribunais e dar o seu testemunho das violações da administração. Há padres de diversas denominações a dar sermões a criticar a Administração, etc.

Apesar de tudo, não está a correr mal. Nota-se que o Trump é a figura pública, mas o esforço de "purificação da sociedade" é do Stephen Miller, enquanto que o Russell Vought está encarregado de destruir o funcionamento do governo federal. Estes são metódicos e competentes, mas a maior parte do resto da Administração é trapalhona, mas quer apresentar resultados rápidos e depressa e bem há poucos quem. Se fossem mais pacientes e metódicos, estaríamos em pior situação.

Há várias ideias que são bastante queridas aos americanos: o final feliz, o preferir o "underdog" a quem tem poder, a ideia de que qualquer pessoa pode ser chamada a ser um herói, o triunfo do bem sobre o mal, etc. Se tinha de acontecer, não é mau de todo que este ressurgimento das ideias fascistas esteja a ter maior expressão primeiro nos EUA porque os americanos são um povo que está disposto a resistir. A angariação de fundos para apoiar causas, o insistir que a sociedade civil se empenhe em financiar a educação, a cultura, e a saúde, e dedique parte do seu tempo livre a voluntariado, uma sociedade civil afluente e que não dependa totalmente do estado, e mais recentemente a invenção das redes sociais, a ideia do cidadão jornalista, etc.--tudo isso são armas de resistência, caso o governo se vire contra o povo e é o que nos vale agora. É mesmo "We the people".

domingo, 26 de outubro de 2025

Há sempre os jacarés

Neste momento, os EUA são uma ditadura. O Presidentenão obedece a lei e não tem limites ao poder, pois o Congresso recusa-se a controlá-lo. O Supremo Tribunal de Justiça também lhe tem dado o benefício da dúvida e não censura as suas acções, pelo menos em primeira apreciação. Mas mesmo que censurase, nem ele, nem as pessoas que estão na administracão se preocupam em obecer à lei. ICE, a entidade que controla a imigração dos EUA, foi instruída para recolher toda a gente que possa ser um imigrante ilegal (gente "castanha"), mas cidadão americanos, alguns até veteranos militares, já foram apreendidos e passaram mais do que um dia na prisão. O Supremo Tribunal indicou que a apreensão de cidadãos americanos é permissível porque supostamente seriam libertados "prontamente"--o que é "prontamente", um dia, dois dias, uma semana?

A Administração indica que 400 mil imigrantes ilegais já foram deportados este ano. O que é ser imigrante ilegal? Há pessoas que estão legais nos EUA, que nunca estiveram ilegais, mas a quem a Administração retira o visto, logo passam a ilegais e são deportados. É normal, "agentes" da ICE irem a centros comerciais e prédios de apartamentos e apanharem pessoas, colocarem-nas num camião, por vezes um camião de mudanças alugado, sem atender à segurança durante o transporte de quem apreendem, e levarem-nas para prisões privadas, onde são mal alimentadas e não têm acesso a cuidados de saúde (um dos meus amigos em Houston foi deportado recentemente, e soube pela família que era acordado às 5h30 da manhã para tomar o pequeno almoço e depois tinha outra refeição às 15h, a comida era de má qualidade, e não davam água suficiente para o manter hidratado; apesar de ele ser diabético, não tinha acesso a insulina). Também ouvi relatos de que nem sempre são agentes da ICE, porque supostamente há um programa em que a administração paga $1.500 por pessoa apreendida que for entregue. O meu amigo, apesar de ilegal, pagava impostos, tinha comprado uma casa recentemente, e tinha iniciado o processo para se legalizar há anos.

O objectivo é deportar um milhão de pessoas até ao final do ano, logo o Presidente está prestes a substituir os reponsáveis pela ICE para acelerar o processo. Uma das pessoas próximas do Presidente (infelizmente chama-se Laura) até já sugeriu que há 6,6 milhões de jacarés com fome. (Ironicamente, sempre achei que o crime perfeito era ir à Louisiana ou à Florida e dar a vítima de comer ao jacarés--é no que dá ver documentários sobre gangs violentos).

Em algumas cidades, a Guarda Nacional foi acionada (já chegou a Memphis), supostamente para combater crime. A Guarda Nacional é uma força de reserva, muitos jovens inscrevem-se porque lhes pagam as propinas e taxas de frequentar a universidade; em troca esses jovem oferecem um fim-de semana por mês para se treinarem e, em caso de emergência, são activados. Normalmente, as emergências que os activam são prosaicas--um pós-furacão, tornado, ou inundação, mas também podem ser despoletadas para "manter a ordem". Depois há as forças militares propriamente ditas. O Secretário à frente do Departamento da Guerra, é o Pete do WhatsApp, aconselhou o topo das forças militares a tratarem o território nacional como treino para intervenções militares, ou seja, usarem força bruta.

Obviamente, parte da população está horrorizada e outra parte encantada com tal exibição de força. A marcha "Não há Reis" foi um sucesso, com 7 a 8 milhões de pessoas a participarem por todo o país. Foi este o tópico da conversa durante alguns dias até que o Presidente decidiu destruir a ala leste da Casa Branca e deixou-se de falar da marcha.

É imperativo que a Europa emita um alerta aos seus cidadãos: os EUA neste momento não são um país seguro onde viajar. As coisas estão a deteriorar-se muito rapidamente e os países europeus vão ter de decidir qual a melhor maneira de confrontar os EUA quando os seus cidadãos começarem a ser apreendidos. Notem que ser deportado pelos EUA não é trivial, o Supremo Tribunal autorizou que os EUA deportem pessoas para terceiros países e há acordos entre os americanos e alguns dos países mais inseguros do mundo (por exemplo, o Sudão do Sul) que permitem deportar pessoas para lá, independentemente de os países de origem destas pessoas se disponibilizares para os receber de volta--os americanos nem contactam os países de origem dos deportados. E há sempre os jacarés.

domingo, 12 de outubro de 2025

É a economia agrária, estúpido!

Estamos na segunda semana do apagão do governo americano. Só para referência, o último durou 35 dias e também ocorreu com o Trump--em Dezembro de 2018 e Janeiro de 2019. Como nem só de apagões vive a malta, na Sexta-feira, Trump anunciou que ia cobrar tarifas à China--outra vez! A justificação foi a China ter imposto mais restrições à exportação de minerais raros, que são necessários para a manufactura de processadores de computadores, baterias, etc.

Com o apagão governamental, os americanos deixaram de ter acesso a muitos dos serviços que o governo oferece, especialmente em gestão de risco. A maior parte das entidades governamentais deixou de publicar dados da economia americana e também não estão a recolher todos os dados do costume, logo vai ser difícil ter ideia de como as coisas estão na realidade, mas mesmo que os dados estivessem a ser recolhidos, toda a análise está calibrada para um funcionamento da economia que já não existe porque Trump destruiu parte dos estabilizadores automáticos da economia. O exemplo mais flagrante é o da agricultura.

Os EUA são um dos principais produtores de commodities do mundo (em agricultura, que é a área que conheço melhor, produzem carne de frango, porco, e vaca, trigo, milho, soja, óleo de soja, farelo de soja, arroz, algodão, etc.), mas recentemente foram ultrapassados pelo Brasil em bastantes áreas. A China é o maior importador de commodities do mundo e o maior comprador de commodities americanas, menos este ano porque o Trump impôs-lhes tarifas outra vez e a China deixou de comprar. A primeira vez foi em 2018, o que fez com que os preços das commodities afundasse, mas esse episódio foi interrompido pela pandemia e Trump conseguiu negociar um acordo com a China que requeria que a China comprasse um certo montante de commodities agrícolas, o que fez com que os preços recuperassem. Nessa altura, a China não tinha grande opção por causa da pandemia, mas também porque quando o resto do mundo estava em lockdown, a China estava aberta, logo necessitava de matéria prima para abastecer o resto do mundo (caso do algodão).

Apesar de Biden continuar a mesma política comercial com a China, o acordo comercial de Trump tinha um prazo limitado e expirou sem que outro fosse negociado. Então a ideia de Trump neste segundo mandato era que ao "implicar" com a China, iria acontecer o mesmo que no primeiro e a China iria capitular e acabar por comprar as commodities americanas. Só que nos últimos cinco anos, a China aproximou-se a América do Sul, especialmente do Brasil, e também reactivou relações comerciais com a Austrália, que também produz algumas commodities, e com isto os EUA perderam algum poder de negociação, logo desde Abril deste ano, os preços das commodities têm estado em queda. Por sua vez o Brasil continuou a aumentar a sua produção de commodities e o custo de produção do Brasil é inferior ao dos EUA, logo o Brasil tem margem para fazer face a descidas de preço.

Quando os preços ficam muito baixos, os agricultores americanos têm a opção de emprestar o produto ao governo federal em troca de financiamento e quando os preços recuperam, os agricultores saldam o empréstimo e vendem o produto a preços de mercado que já estão mais favoráveis. A existência destes empréstimos faz com que os preços das commodities dificilmente desçam abaixo do pagamentos do empréstimo. Acontece que o governo federal está fechado (por coincidêcia, até estamos na altura em que os produtores começam a colher o produto), logo não dá para emprestar ao governo, o que faz pressão nos preços e limita o acesso dos agricultores a capital para fazer face às suas despesas.

A China pode esperar porque as colheitas australiana, brasileira e argentina surgem no mercado antes da americana, já os agricultores americanos não e as falências já começaram. Também já começaram os telefonemas ao membros do Congresso a reclamar e Trump já disse que vai haver um pacote de apoio aos agricultores, mas não tão generoso como o do primeiro mandato. Claro que, no primeiro mandato, Trump não despediu os empregados do governo federal como está a fazer agora. Mesmo que ele queira dar dinheiro aos agricultores, é provável que quando chegar altura de fazer os pagamentos não tenha ninguém para os processar.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Nove meses

Entrámos no décimo mês do ano e para mim tem sido meio-montanha russa. O ano começou com o AVC do meu pai e a minha visita de urgência a Portugal. Isto significou que perdi a minha primeira aula para a certificação de Master Gardener e achei que a probabilidade de conseguir terminar o curso era quase nula porque se faltássemos a mais de duas aulas reprovávamos. Então em Março quando tive de ir ao Brasil em trabalho quase que tive de faltar a mais outra aula, mas regressei a um Sábado de manhã e fui directamente do aeroporto para a aula, que era uma visita guiada do Jardim Botânico. Consegui então terminar as aulas semanais perdendo apenas uma.

Depois em Abril tivemos o exame que foi outra fonte de stress, mas correu bem. Faltava depois terminar as horas de voluntariado: 20 horas de serviço comunitário, mais 20 de voluntariado para o serviço de Extensão da Universidade do Tennessee, e depois mais 8 horas de educação continuada (palestras, seminários, aulas online), que tinham de ser terminadas antes do início de Agosto para podermos participar na cerimónia de graduação a 21 de Agosto. Ainda dei mais um pulo a Portugal em Junho/Julho para ver o meu pai e ir a um casamento.

Consegui completar todos os requisitos e terminar a certificação de jardinagem, mesmo a tempo de ir ao Texas em visita de trabalho para avaliar a colheita de algodão. Cheguei ao hotel, fiz o check-in, e fui dar uma volta a pé para andar 10,000 passos. Estava quase a regressar ao hotel quando vejo que a minha irmã tinha enviado várias mensagens. O meu pai tinha acabado de falecer. "Quando vens?" perguntou ela, "Não vou" respondi.

Não queria ir ao funeral, não valia a pena, tudo o que podia fazer pelo meu pai estava feito, e tanto eu como ele não gostamos de funerais. Depois a logística do regresso ia ser um pesadelo: tinha de regressar a Memphis para pegar o passaporte e poder sair do país, depois arranjar um voo de emergência para ir a Portugal, fazer as malas, e passar uns três dias a andar às voltas com viagens não era o que eu queria fazer naquela altura. Para além disso, quando o vi em Junho sabia que era a última vez que estava com ele. E quando falei com ele alguns dias antes de ele morrer, pedi-lhe para ele morrer. Já não podíamos fazer nada por ele, o corpo estava demasiado gasto e ele não estava numa situação confortável. Disse-lhe que estavamos bem, que ele não precisava de se preocupar connosco, mas que estávamos preocupados com ele porque sabíamos que estava a sofrer.

Apesar do alívio que senti ao receber a notícia, era-me difícil pensar nele e não chorar, e não disse a quase ninguém. Passei três dias a medir o algodão com um colega que não sabia do que se passava comigo; no carro, de vez em quando começava a chorar, mas não o suficiente que ele se apercebesse. No último dia, perguntou-me se eu queria ir jantar. Não queria, tinha de terminar de preparar o relatório da visita para a reunião do dia seguinte. Apresentei os resultados e desculpei-me porque tinha de sair para ir para o aeroporto. Depois à noite, peguei o meu sobrinho no aeroporto que vinha passar quase três semanas comigo e finalmente disse no trabalho o que tinha acontecido. Deram-me três dias de folga e fomos a Nova Orleães, que é um sítio em que a fronteira entre a vida e a morte é bem esbatida--e tem boa comida.

Concumitantemente, o reino de terror do Trump adensa-se. Para além da incerteza que ele criou em termos de funcionamento da economia com as tarifas que são, mas não são, o governo federal deixou de cumprir leis e faz o que lhe dá na telha. Daqui a uns dias, irá haver um intervenção militar em Memphis, supostamente para reduzir o crime, mas é óbvio que é uma desculpa para caçar pessoas que eles não gostam e as meter na prisão. Mesmo cidadões americanos têm sido presos por engano, mas nem sei, e tirando as aventuras com o meu sobrinho e as viagens de trabalho, tenho passado bastante tempo em casa. Quando saio à rua levo o meu passaporte americano.

No trabalho esta semana, dizia aos meus colegas que receava ser presa, e eles acham que estou a exagerar. Só pessoas más estão a ser presas, asseguravam. Por enquanto, a maioria das pessoas presas são imigrantes ilegais ou pessoas que eles não querem que fiquem nos EUA, mas ainda a procissão vai no adro. Conheço algumas pessoas que estão ilegalmente nos EUA, e um deles foi preso. Tive alguma esperança que com o tempo fosse libertado, mas depois de ouvir um dos episódios mais recentes do This American Life, acho que o mais provável é a pessoa morrer na prisão porque é diabético e não lhe estão a dar comida adequada, nem medicamentos, ou deportarem-no. Se tivermos sorte, vai para o país de origem, senão, ainda acaba num país africano dos mais pobres.

É difícil acreditar que isto é a realidade porque há uma certa aura de normalidade nos dias: o sol brilha, os vizinhos cumprimentam-se, o pássaros cantam. Por coincidência, em 1995 ou 1996, li um livro de Arthur Miller chamado Focus, que é sobre um homem que não é judeu, mas acha que se parece judeu e então tem imenso medo de ser identificado como judeu. É adequado para os tempos que correm na América. A Heather Cox Richardson, uma historiadora americana, diz que as circunstâncias actuais não são únicas na história e que os EUA já ultrapassaram crises semelhantes antes e penso que sim, esta loucura irá ser ultrapassada.

Num discurso recente, o primeiro ministro do Canadá, Mark Carney, citou Leonard Cohen na canção Anthem: "There is a crack, a crack in everything | That's how the light gets in". E há alguns raios de luz, como o episódio do Kimmel; os americanos têm poder de compra e houve um número suficiente que cancelou a subscrição dos canais da Disney para a companhia voltar a trás. Estou convenciada que o desmoronamento desta loucura vai ser despoletado por motivos económicos. Quando começa a doer no bolso, os americanos entram nos eixos.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Aceleração

Os últimos dias têm sido um rodopio de "notícias" com o caso Epstein, sugestões que Jerome Powell (Presidente da Reserva Federal) pode ser demitido por fraude (dizem que as obras na Reserva Federal têm um custo demasiado alto), o cancelamento de The Daily Show do Stephen Colbert, a insuficiência crónica venal de Trump, Trump vai processar o Wall Street Journal, o vídeo falso de Obama a ser preso que Trump postou, etc. Tudo isto em menos de uma semana e ainda temos notícias mais antigas como as inundações do Texas, em que supostamente a pessoa responsável por verificar que os anúncios de emergência meteorológica chegavam ao público alvo tinha sido aposentada por DOGE e não havia sido contratado um substituto.

A parte que me parece mais interessante é a da doença de Trump porque é muito raro a Casa Branca ser transparente no que diz respeito a doenças presidenciais, mas talvez a aparente transparência tenha sido uma necessidade depois do fiasco Biden. Também há a questão de o discurso de Trump estar cada vez mais incoerente, por exemplo, não se recorda que Powell foi nomeado por ele mesmo e não por Biden.

O facto de Trump ter adiado as tarifas comprou algum tempo para a economia, mas os dados mais recentes indicam que a actividade ecoómica está a esfriar, apesar do mercado accionista estar em máximos históricos, e a inflação pode ter acelerado. O dólar também enfraqueceu bastante o que retira poder de compra aos americanos. Foi anunciado que os EUA vão começar a pedir $250 de caução para quem precisa de visto para entrar no país, o que irá enfraquecer o turismo e as viagens de negócios ainda mais se for mesmo implementado--este valor acresce ao custo de obtenção de visto.

E ainda não tivemos um furação a atingir o continente americano, mas é uma questão de tempo até ele chegar -- entre Trump e as catástrofes naturais, vivemos com uma faca ao pescoço.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Montanha ou roleta

O ambiente nos EUA continua de cortar à faca. Apesar das frequentes notícias anti-Trump na comunicação social, o tópico é evitado entre amigos e conhecidos, como se o mundo fosse um pouco bipolar.

Há duas semanas estive em Portugal para visitar o meu pai e ir a um casamento; hoje a moça que faz as minhas unhas perguntou-me que tal tinha sido ao atravessar a fronteira para entrar nos EUA. Entrei pelo aeroporto de Houston que não recomendo e foi um erro meu ter marcado a viagem por lá, mas Newark está com capacidade reduzida por causa de ter poucos controladores aéreos. As filas em Houston costumam ser maiores e o pessoal da fronteira não é tão simpático, mas nem me fizeram nenhumas perguntas desta vez, apenas mostraram uma cara de frete. Em Janeiro, quando entrei também por lá ainda Biden presidia, também houve filas enormes e o agente da TSA (Transportation Security Administratio) perguntou-me o que eu tinha comprado: são livros, meu senhor, porque rosas não deixam entrar, devia ter-lhe respondido, mas não é aconselhável usar de sarcasmo na fronteira, então só disse que tinha comprado livros.

Respondi à rapariga que não me tinha acontecido nada, e que não, nem sequer viram o conteúdo do meu telefone, que ela queria saber. Antes da viagem comentei com um colega meu que tinha receio de atravessar a fronteira, e ele disse-me: "não tens nada que recear, pagas impostos." Ah pois pago e não me incomoda pagar porque os impostos são o que se paga por se viver numa sociedade civilizada, como dizia o Oliver Wendell Holmes, Jr., apesar de que chamar às nossas circunstâncias actuais uma sociedade civilizada implica uma enorme ginástica mental.

De vez em quando penso se devia andar com o passaporte dentro do país -- isto recorda-me um episódio que se passou com o meu primo em Lisboa quando ele estava com o meu pai nos longínquos anos 80. Apareceu um polícia e pediu a identificação do meu primo que devia ter menos de 18 anos na altura. Como ele não trazia bilhete de identidade, foi levado para a esquadra e o meu pai teve de ir levar-lhe a identificação. Há uns três anos apanhei uma multa de excesso de velocidade aqui perto de casa--ia a 63 Km/h numa área de velocidade máxima de 48 km/h (sou mesmo perigosa) e aconteceu que, nesse dia tinha deixado a carteira em casa e não levava a carta de condução. Na minha ingenuidade, perguntei ao polícia se podia ir buscar, que morava mesmo perto e ele disse que não havia problema, ele ia ver no computador. Lá viu e lá apenas multou, sem que me levasse para a esquadra ou me penalizasse por não ter a carta de condução comigo. Mas isto era no tempo em que os lacaios do Musk ainda não tinham andado a brincar com as bases de dados.

Os dois temas "fracturantes", como se gosta de dizer em Portugal, da actualidade americana são as inundações do Texas e agora os documentos do caso Epstein. Normalmente, os americanos são extremamente generosos, especialmente na face de tragédias, mas instalou-se um clima de "tiveram a realidade em que votaram" e muita gente recusa-se a contribuir para os peditórios de apoio às vítimas. No caso do Epstein, parece-me que há uma ilusão de que é desta que o movimento MAGA se desentende e quiçá se desintegra, mas acho que não tem qualqer efeito. Uma das minhas melhores amigas votou Trump não porque o quisesse, mas porque não queria Kamala, pois não queria que os transsexuais que estão presos tivessem acesso a cirurgias para mudar de sexo. O marido não quis votar Trump e votou no RFK Jr., apesar de este já ter desistido da corrida. Ela agora diz que Trump é completamente louco. Ah pois, agora não há nada a fazer senão aguentar a montanha russa, ou será roleta russa?

terça-feira, 10 de junho de 2025

Escalação

Los Angeles está a ferro e fogo com confrontos e protestos contra o ICE (Immigration and Customs Enforcement). Há manifestações de apoio por todas as grandes cidades. Este fim-de-semana, Trump nacionalizou a National Guard da California e ameaçou o governador da Califórnia (Gavin Newsom) de prisão. Há meras horas Trump também enviou 700 marines para Los Angeles e, há minutos, saíram notícias de que Trump vai enviar mais dois mil tropas da National Guard. Gavin Newsom ameaçou Trump de deixar de enviar dinheiro ao governo federal. A Califórnia é um dos estados que paga mais do que o que recebe, logo sem as suas remessas as contas do governo federal irão deteriorar-se significativamente.

A última vez que o país esteve assim foi há 60 anos, quando LBJ nationalizou a National Guard do Alabama para proteger os manifestantes pró-direitos civis em Selma, Alabama. Mas a causa actual do Presidente não é virtuosa como a de LBJ. Vivemos um capítulo negro da história dos EUA, mas isso já sabíamos.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

PEEC

 O processo entrópico em curso (PEEC) continua e recomenda-se e até tem alguns episódio cómicos. Há semanas, o Walmart informou Trump que não podia adiar aumentar os preços para sempre por causa da guerra das tarifas e Trump "aconselhou-os" a engolir o aumento de custos. A luta contra Harvard também continua, com a suspensão, na semana passada, de admissão de alunos internacionais. Em poucas horas, apareceram várias notícias a especular que talvez o filho de Trump se tenha candidatado a Harvard e tenha sido desconsiderado e o presidente se estivesse a vingar. Hoje, a administração Trump cancelou o agendamento de entrevistas para vistos escolásticos, o que afecta todas as universidades que tenham alunos ou docentes internacionais a quem precisem de dar visto.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Quase carapaus

Na sexta-feira passada, a Administração Trump decidiu lançar o isco de como correriam as coisa se Trump despedisse Jerome Powell. Perante a possibilidade, os mercados reagiram negativamente e o dólar continuou a cair. É cada vez mais consensual que o estatuto dos EUA e do dólar como refúgio dos investidores está muito abalado e talvez destruído por uns bons anos, se é que alguma vez o volte a recuperar. Na terça-feira, a Casa Branca veio meter água na fervura indicando que os EUA já têm alguns acordos comerciais quase firmados com o Japão, e a Índia, mas sem grandes detalhes--ou seja, uns acordos algo por alto. Scott Bessent também ajudou a acalmar os mercados dizendo que era óbvio que os EUA e a China se acabariam por entender porque eram as maiores economias do mundo, etc. E finalmente, de tarde, lá veio o anúncio de que Jerome Powell não ia ser despedido, o que apaziguou ainda mais os deuses do mercado.

Na economia real, os portos de Los Angeles e Long Beach, na Califórnia, estão a perder bastante volume vindo da China em reacção ao anúncio da guerra das tarifas. As pequenas empresas estão completamente em pânico porque dependem da manufactura chinesa para as suas vendas. Trump cancelou a isenção de taxas alfandegárias dee pacotes que entram nos EUA com valor inferior a $800 (isenção de minimis) e a DHL deixou de aceitar pacotes de valor superior a $800 destinados aos americanos porque agora estão sujeitos a uma maior burocracia. (Isto não vos lembra a saga de enviar pacotes do estrangeiro para Portugal?)

A cereja no topo do bolo são as últimas estimativas de crescimento do PIB para a economia americana e mundial: a americana é esperada crescer 1.8%, em vez dos 2.7% estimados em Janeiro. Imaginem a matemática disto! O primeiro trimestre, que teve um Janeiro bastante optimista, é esperado ter um crescimento do PIB negativo, o segundo trimestre parece que também vai ser negativo por causa da guerra comercial, dificuldades na fronteira que mandam os turistas para trás, medo de voar dentro dos EUA, despedimentos na função pública, e agora também no sector privado, etc. As únicas notícias positivas são aumento de vendas de carros e outros itens para evitar as tarifas., que tem um efeito bastante temporário. Resumindo, para a estimativa se concretizar, o segundo semestre tem de bombar para colmatar o crescimento perdido e ainda adicionar o que falta, o que é bastante improvável.

A única coisa que faz parar esta administração são as más notícias da economia, do dólar, e da bolsa e, por sorte, houve a falta de visão de começar pela parte mais destrutiva e depressiva, em vez de alimentar a bolha da bolsa com cortes de impostos e aumento da dívida. Quanto às questões sociais, o que Trump faz apenas serve para alimentar a base e não dá para fazer oposição porque são questões que fragmentam a opinião pública. O Clinton tinha razão: a única forma de ganhar apoio é pela economia. 

Há no entanto alguma luz ao fim do túnel: os tribunais e o SCOTUS não parece que estão dispostos a dar uma carta branca permanente à Administração. E a sociedade civil também não: Trump tentou tirar financiamento a Harvard, se a universidade não largasse certas práticas consideradas "woke" ou anti-semíticas. Harvard recusou, Trump cancelou o financiamento de 2.3 mil milhões de dólares e ameaçou retirar o estatuto de entidade com fins não-lucrativos. Harvard acabou por processar a Administração Trump, mesmo depois de esta ter dito que a carta que tinha sido enviada a Harvard não era final e tinha sido enviada em erro

É um pouco misteriosa a razão pela qual a Administração decidiu recuar nas exigências a Harvard, mas a universidade tem um "endownment" de 53.2 mil milhões de dólares, e decerto que parte deve estar investida em dívida pública americana. Na semana passada, os jornalistas começaram a especular estratégias de como a universidade poderia resistir a Trump. No final, a estratégia adoptada foi a tradicional: os tribunais. Tem algum risco, mas se funcionar também cria precedente que pode ajudar outras instituições.

Imaginem se nos EUA tudo dependesse de financiamento público, mas não houvesse independência das instituições como acontece em muitos países. Estaríamos mais fritos que carapaus.


segunda-feira, 7 de abril de 2025

Ainda a Segurança Social Americana

Para além de terem despedido pessoal na Social Security Administration, a Administração Trump decidiu que não vai pagar benefícios via cheque (sim, ainda havia pessoas que os recebiam). Foi levantada a questão de as pessoas não serem informadas que não vão receber, mas a Administração acha que quem recebe via cheque está a cometer fraude, logo obviamente que não irá reclamar. Os benefícios da Segurança Social (as reformas) são na maior parte pagas na segunda, terceira, e quarta quartas-feiras do mês dependendo da altura do mês em que as pessoas nasceram, respectivamente,  1-10, 11-20, ou 21-31. Ou seja, daqui a dois dias vamos ver se alguém reclama de não ter recebido o dito cheque.   

Se ainda não se aperceberam, este tipo de comportamento é completamente anti-americano. Normalmente, coisas deste tipo são planeadas com muita antecedência e os interessados são informados de mudanças para não causar transtornos às pessoas e estas terem tempo amplo para planear a vida. É por isso que ainda havia pessoas que recebiam por cheque porque, obviamente, não lhes era mais fácil receber por outra via.

sábado, 5 de abril de 2025

A vermos grego

Agora entrámos mesmo na dinâmica de uma Administração Trump, com ele a todo o gás em direção ao abismo ao mesmo tempo que metade do país lida com a situação através de comédia ou da ridicularização dos acontecimentos.

No caso das tarifas a comédia tem sido fenomenal, não só porque Trump impôs tarifas a ilhas sem habitantes humanos, mas também atingiu uma ilha com apenas uma base militar com pessoal americano e britânico. O James Surowiecki, que eu acho um dos melhores escritores de peças de opinião sobre a economia, descortinou a metodologia de Trump que, aparentemente, é algo que é sugerido pelos algoritmos de inteligência artificial (isto da inteligência artificial merecia um post, mas tenho andado preguiçosa). 

Em resposta ao Gotcha, a administração divulgou uma fórmula matemática manhosa cheia de letras gregas, em que dois dos parâmetros se cancelam e no fim ficamos apenas com o rácio do défice comercial dos EUA com um país dividido pelo volume de exportações de bens desse país para os EUA--esse rácio é o que Trump denota de tarifas e outras barreiras comerciais actuais cobradas aos EUA, mas obviamente que não é tarifa nenhuma.

Quanto ao valor lúdico do caos actual, acho que estamos conversados. Resta apenas dar uns passos atrás e ver o contexto mundial de forma objectiva. Em 2024, a economia americana representava 26% do PIB mundial--é enorme, apesar de a proporção já ter sido mais alta. Ao contrário do que os europeus pensam, o nível de vida americano é bastante alto e consome muitos recursos. 

Por exemplo, no outro dia, tive um jantar da minha vizinhança e uma das organizadoras dizia que, para facilitar a vida à senhora onde o jantar se iria realizar, ela ia comprar pratos, copos, e talheres de plástico, daqueles a imitar vidro e cerâmica que depois se deitam fora, para assim não se ter de lavar loiça. Super-comum nos EUA. Há famílias que só comem de pratos descartáveis, apesar de toda a gente ter máquina de lavar louça. E isto é apenas um exemplo de muitos. Para além de ser péssimo para o ambiente é mau para a alocação mundial de recursos--grande parte da economia mundial serve as preferências americanas, mas as políticas de Trump irão ajudar a modificar algum deste comportamento. 

Estas políticas apesar de péssimas para os americanos não têm necessariamente de ser más para o resto do mundo porque os americanos ao perderem poder de compra irão colocar menos pressão nos recursos mundiais, o que deflaciona os preços para o resto do mundo, dado que a economia americana era tão grande e irá encolher imenso. Se Trump avançar com tudo o que ele já começou, não me admiraria se encolhesse mais de 10% e, se calhar, 20% é ser conservador. 

O capital já está a fugir para a Europa depois de anos em que saía da Europa para alimentar a bolsa americana. Desde que a Europa aja de forma fria e contida, irá atrair capital, investimento e turismo. E com as modificações da política de imigração americana, a Europa também tem a oportunidade de atrair cérebros e mão-de-obra (bem sei, os portugueses têm horror a imigrantes porque são xenófobos: a população portuguesa mal tem aumentado, ou seja, os que entram compensam os que saem; o que há é mais pessoas em algumas cidades porque a infraestrutura é má em sítios mais pequenos, mas é natural que tal seja temporário).  Não nos podemos esquecer que os americanos beneficiaram imenso, no século passado, da fuga de cientistas e outros quadros superiores da Europa para os EUA. Agora o oposto pode acontecer. Há bastante potencial para a Europa crescer mais depressa e o euro ficar mais forte como moeda de reserva.

Há uma enorme nuvem na economia mundial que é a questão das criptomoedas. Acho provável que à medida de as pessoas entram em pânico, haverá mais fuga de capitais desses "activos" que apenas têm valor especulativo, o que pode causar uma séria crise financeira mundial para além dos problemas que o Trump já está a criar.

Como se dizia durante a crise subprime: as crises são oportunidades. Pena que Portugal nem governo tenha. Se continuar assim, fica ainda mais atrasado.

domingo, 30 de março de 2025

Suspense

A queda do domínio económico dos EUA soma e segue. O nível de incerteza está ao rubro e os métodos tradicionais de gestão de risco são, no mínimo, desadequados. Vale a pena destacar a Segurança Social, que está um caos. A Administração Trump já indicou que tal não é problemático e que quem se queixa de não receber dinheiro se calhar cometia fraude--daqui a uns dias, vamos ver quem não recebe o mês de Abril. 

Em meados de Abril vai também ser finalizada a lista de pessoal que será eliminado da função pública federal, ou seja, vão recomeçar os despedimentos em massa e, naturalmente, à medida que as coisas deixam de ser feitas, veremos se realmente despediram pessoas "supérfluas" ou não. Para ajudar a festa, no sector privado, algumas empresas também planeiam despedimentos e até há uma página de Internet que está a fazer a compilação dos layoffs do governo federal e de empresas de tecnologia. 

Em termos de política de imigração também já houve progresso: como não era suficiente assediar imigrantes ilegais, agora a administração decidiu ir atrás dos imigrantes legais. Pelas redes sociais multiplicam-se vídeos a informar os cidadãos de quais os seu direitos e qual a melhor forma de agir se forem interpelados por agentes da autoridade. Não me surpreenderia no mínimo se também começassem a ir atrás de cidadãos americanos naturalizados, dado que já falaram em retirar a cidadania a quem nasceu nos EUA, logo tem cidadania americana, mas é filho de imigrantes ilegais. 

No século passado, os EUA "repatriaram" cidadãos americanos de ascendência mexicana nos anos 30; prenderam em campos de internamento cidadãos americanos de ascendência japonesa nos anos 40; depois também houve a perseguição de comunistas por McCarthy nos anos 50; e, claro, há ainda o tratamento de cidadãos americanos de ascendência africana, que ainda deixa muito a desejar. Ou seja, nada do que se passa agora é anormal; até poderíamos argumentar que o anormal foi o período de "relativa paz ou progresso social" interrompido por Trump. 

domingo, 9 de março de 2025

Fase do bisturi

Passámos da fase do serrote à fase do bisturi porque o pessoal não "gostou" do que ele estava a fazer porque acharam o exercício demasiado aleatório. Claro que se ele não tivesse feito nada, estas pessoas diriam que o governo federal não criava valor nenhum e tudo o que fazia era desperdício, logo corte-se à vontade, que foi a campanha de Trump. 

A fase do bisturi é mais perigosa do que a do serrote porque não é tão visível. É como aquelas pessoas que um dia acordam e notam que têm uma dorzita e, vão a ver, e roubaram-lhes vários orgãos ou enfiaram-lhes um quilo de drogas no abdómen com ajuda de um bisturi. Se lhes tivessem serrado um braço com um serrote era mais visível e ainda dava para ir ao hospital tentar salvar a coisa. Mas a ignorância dá conforto a muita gente, por isso é assim que vamos para a frente, às cegas.

A última estimativa do PIB do primeiro trimestre, datada de 6 de Março, continua negativa, mas em vez de se estimar diminuir 2.8% versus 2024T4, melhorou para -2.4%, que é o que eu chamaria de "dead cat bounce". No dia 17 actualiza outra vez e já começam a aparecer dados de Fevereiro, pois sai o Advance Retail Sales (vendas a retalho preliminares) de Fevereiro; sai também a actualização das vendas e os níveis de inventário de Janeiro. E depois actualiza outra vez no dia 18. 



terça-feira, 4 de março de 2025

Nem o zero nos salva!

Saiu mais uma actualização da estimativa do PIB americano na Segunda-feira e a taxa de crescimento baixou de -1,5% to -2,8%. Parte do efeito tem a ver com muitas empresas estarem na expectativa de nova guerra comercial e começaram logo a preparar-se para essa eventualidade, mas também é verdade que Trump e Musk não perderam muito tempo para iniciar hostilidades para com a economia americana. 


"The GDPNow model estimate for real GDP growth (seasonally adjusted annual rate) in the first quarter of 2025 is -2.8 percent on March 3, down from -1.5 percent on February 28. After this morning’s releases from the US Census Bureau and the Institute for Supply Management, the nowcast of first-quarter real personal consumption expenditures growth and real private fixed investment growth fell from 1.3 percent and 3.5 percent, respectively, to 0.0 percent and 0.1 percent." 

Fonte: Atlanta Fed

Tenho de confessar outra vez a enorme admiração que tenho pela forma como os EUA estão organizados: é mesmo "a government of the people for the people." Em poucos dias é informação pública os resultados do que eles estão a fazer, os media estão a funcionar, os dados estão a sair, e os mercados estão a começar a reagir, apesar do enorme ataque que está a ser feito ao governo federal. E daqui a uns dias, quando as pessoas começarem a ver as contas de investimento e poupança-reforma a diminuir, os telefones em Washington não vão parar. Duvido que os membros do Congresso consigam regressar aos seus estados sem serem assaltados por um milhão de perguntas, isto se não forem corridos a tiro. Afinal, as armas servem para alguma coisa. Eu sou contra o uso de armas, mas quem com o ferro fere com o ferro será ferido. É como o Einstein dizia: "God does not play dice with the universe" e nós também somos parte do universo.

E por falar em jogos, o Gary Kasparov publicou uma peça de opinião super-interessante na revista The Atlantic, na qual diz que a pressa de Musk e Trump revela um calculismo perigoso. Eu acho que a preferência pela rapidez é mais circunstancial do que calculada e é inata a estes dois personagens: o Trump porque está interessado em criar atenção 24/7, pois era isso que lhe dava dinheiro nos reality shows; o Musk também já agia assim de antemão como ficou bem ilustrado pelo seu desempenho no Twitter. Se eles tivessem agido de forma mais lenta e calculada, os efeitos do que estavam a fazer seriam menos claros e penso que seria bem mais perigoso. 

O NYT publicou um artigo acerca de como surgiu o DOGE que também recomendo e onde sugere que Musk quer substituir o governo por Inteligência Artificial. Só que ele está a despedir e a eliminar muitas funções que recolhem dados que depois se tornam públicos. O governo americano presta ajuda a cidadãos e empresas, mas em troca exige que estes lhe forneçam dados--muitas pessoas desconhecem este pequeno, mas bastante importante detalhe. Sem dados públicos não há IA e é por isso que é mais fácil para a IA ser treinada em letras do que em economia. Os livros estão muito melhor organizados e disponíveis do que os dados de economia. 

Mas Musk já cometeu este erro antes: Musk tinha acesso a bastante informação que era publicada no Twitter e que podia ser minada, mas como alienou os utilizadores, estes sairam ou deixaram de publicar, logo o valor do Twitter como prestador de informação diminuiu. Agora está prestes a fazer uma coisa semelhante com os dados do governo federal.

É bom que eles partam tudo. Por um lado, porque assim é mais provável que não aguentem o barco durante quatro anos a fazer coisas destas, logo livramo-nos de boa. Depois, o mundo está mais bem preparado para uma crise, pois durante a crise sub-prime muitos bancos centrais em todo o mundo contrataram pessoas com enfoque em macroeconomia e modelos que simulam a economia, logo ao menos a nível da política monetária há talento com década e meia de experiência que nos pode guiar nestes tempos tão incertos.  Depois, isto vai doer tanto que é natural que os Democratas sejam eleitos durante 8 anos e construam um sistema novo, como aconteceu quando Hoover perdeu a reeleições e Roosevelt foi eleito por dois termos consecutivos. Vale a pena ler sobre a governação de Hoover. E sim, estou a contar com este episódio levar a uma depressão da economia.