domingo, 15 de julho de 2018

Geografia da alma

Depois de anos a mudar de sítio, de casa, já aprendi a não deixar que o sítio onde estou seja uma grande restrição. Só que esta última mudança tem um travo diferente. Há vezes, como ontem, em que penso que tenho de ir à livraria e na minha cabeça a livraria que aparece é a que fica a 10 horas de carro, não é a que fica a minutos. E depois penso que não estou ao pé de Rothkos, Magrittes, Twomblys, nem de instalações de James Turrell...

Esta semana um colega meu levou uma maçã verde para o gabinete e eu pensei em Le fils de l'homme e deu-me uma nostalgia enorme. No gabinete de Houston, tinha uma maçã verde de esponja (um brinquedo anti-stress) que encontrei no parque de estacionamento na mesma altura em que havia um programa de exposições sobre o Magritte no Menil. À noite, as nuvens eram claras e as árvores negras contrastavam contra o céu, como em L'Empire des lumières.

Nada é o que parece e talvez seja essa a minha realidade: o corpo está num sítio, a alma em outro, como se a minha vida fosse um quadro surrealista...

sábado, 14 de julho de 2018

Genifique-se!

Ultimamente tenho andado a considerar a genialidade de António Costa, o nosso ilustre PM, da qual não estou convencida. Como gosto muito de experiências, tenho andado bastante feliz porque vamos realmente saber se é génio ou não brevemente. Se as tarifas de Trump seguirem em frente, combinadas com política fiscal americana expansionista, e política monetária contraccionista da Reserva Federal e do BCE, iremos ter uma bela crise pela frente. Se Costa estiver no poder, irá ter de navegar por águas bastante conturbadas e será um espectáculo giro de se ver.

É fácil parecer ser génio quando tudo está a nosso favor, mas é quando as coisas estão contra nós que se mede a genialidade. Esperemos que ele coopere e queira mesmo demonstrar ser génio, indo com tanta sede ao pote perante a perspectiva de um segundo mandato como foi no primeiro.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Pena do gato

Tenho observado que muitas pessoas em Portugal ficaram escandalizadas com o dinheiro que o Barack Obama cobra por discursos. Há várias coisas que não percebo nesta reacção, como, por exemplo, porquê ficar chateado com o Obama quando o Obama foi convidado, avançou um preço, e esse preço foi aceite. Acho que se é para ficar chateado com alguém é com as pessoas que o convidaram e que não conseguiram verbalizar a importância da ida do homem de forma convincente.

Uma segunda coisa que as pessoas parecem não compreender é que não foi o cidadão Barack Obama que foi convidado; ele foi convidado porque é o ex-Presidente dos EUA e, nos EUA, o pessoal ganha melhor do que em Portugal. Ah, e coiso, mas é muito dinheiro. Efectivamente, é muito dinheiro até porque em Portugal ser pobre é uma virtude e os ricos são mauzitos.

Durante a campanha da Hillary Clinton para Presidente, um dos "escândalos" foi mesmo ela ganhar muito dinheiro a fazer palestras para o pessoal de Wall St. Ou, se calhar, vocês lêem o que eu escrevo aqui e, no post onde eu falei do dinheiro da Hillary, recordam-se de eu ter falado do Ben Bernanke, que também ganha um balúrdio a fazer palestras: $400 mil (e, no entanto, vai ao banco e recusam-lhe um empréstimo para refinanciar a casa). Ou seja, é normal.

O que não é normal é as pessoas em Portugal não serem muito curiosas acerca do que acontece ao dinheiro do Obama. O Barack Obama está a construir uma Biblioteca Presidencial, que será diferente do que têm sido as bibliotecas presidenciais até agora. A dele irá ser financiada pela Fundação Obama e está a ser construída na zona sul de Chicago, uma parte desfavorecida da cidade, com o intuito de a dinamizar.

Bem sei, tiveram pena do gato, não fosse a curiosidade matá-lo...

domingo, 8 de julho de 2018

Até Deus

Arthur Miller escreveu uma peça de teatro, "The Crucible", sobre os julgamentos por bruxaria que ocorreram em Salem, Massachussetts, em 1692 e 1693. O objectivo da obra era fazer um paralelo entre esse episódio trágico da história dos EUA (note-se que os julgamentos precedem a fundação do país) e a perseguição de comunistas levada a efeito pelo governo americano (finais da década de 40 e década de 50). Apesar da natureza cíclica da história, há sempre o mesmo desfecho: as coisas más pertencem ao passado e há quem acredite que não são passíveis de se repetirem.

Há uma frase na peça de Miller da qual eu gosto muito: "Until an hour before the Devil fell, God thought him beautiful in Heaven." (Uma hora antes do Diabo sucumbir, no Céu, Deus achava-o belo.) Não é só que as coisas corram mal de um momento para o outro, quando antes corriam tão bem que nada nos levava a crer que a mudança estivesse prestes a acontecer, é também que até Deus, com a sua capacidade de omnisciência, é incapaz de adivinhar a tragédia. E se ele não consegue, que esperança podemos ter nós, comuns mortais?

sábado, 7 de julho de 2018

Tennessee Whiskey

Saí à rua no feriado para ver se havia correio. Tinha ideia que também tinha ido à caixa do correio no dia anterior e não fazia sentido ir outra vez, mas de vez em quando, anda a carteira a entregar correio depois das 8 da noite, logo valia a pena ver. Ao lado da minha casa, no passeio, encontrei a minha vizinha, uma senhora já reformada que, em part-time, toma conta de uma pessoa de idade avançada que vive sozinha: passa com ela cerca de quatro horas por dia. Não parece que precise do emprego, mas diz que adora fazê-lo. Esta minha vizinha é uma senhora muito agradável, muito carinhosa, e está sempre a oferecer-se para me ajudar caso eu precise. Trata-me por "sweetheart" e conversa sempre comigo quando me vê, normalmente quando sai à rua para passear os seus dois cachorritos e eu saio à rua para fazer a minha caminhada diária.

Era isso mesmo que ela fazia, ao fim do dia, no 4 de Julho. Estava muito calor e, em Memphis, o nível de humidade aumenta com o pôr-do-sol porque durante o dia os raios de luz ajudam a controlar. Perguntou-me se eu estava bem porque já não me via há tempo, mas depois lembrou-se que lhe tinha dito que ia estar fora de férias e em trabalho. O meu jardim está bem cuidado, o que ela menciona amiúde, porque o dela frequentemente espera pelo filho ter vontade de aparar a relva. Já o meu está à vontade do meu vizinho da frente que, poucos dias depois de eu me mudar, se ofereceu para cuidar dele por $45 de cada vez, um preço que é ridiculamente baixo, mas que ele avançou reticentemente com medo de eu achar caro. Uma vez tentei dar-lhe $50 e, na vez seguinte, ele só aceitou $40.

Estes encontros com a minha vizinha também servem para pôr a bisbilhotice em dia, apesar de eu ainda não conhecer muitos dos vizinhos. Será que eu tinha ouvido o tiroteio recente, pergunta-me. É assim uma pergunta um bocado desconcertante, mas nesse dia, com o fogo de artifício e o consumo de cerveja, etc., por acaso tinha pensado que era um boa dia para andar aos tiros a alguém. Mas não era desse dia que ela falava, era de há umas semanas, de dois carros que tinham entrado na nossa rua numa perseguição que também envolvia tiroteio. Ao todo, ela dizia que tinham sido disparados 25 tiros, com cartuchos vazios em frente da casa dela e alguns tiros que atingiram uma casa do outro lado da rua da minha -- não a casa do meu vizinho jardineiro porque eu vivo num cruzamento.

Parece que, em frente da minha casa, os únicos vestígios foram as marcas das rodas de um dos carros na relva -- eu pensei na altura que tinha sido o camião do lixo. Já a casa do outro lado da rua não teve tanta sorte: várias balas atingiram a parede, passaram pelos tijolos e houve até uma que passou a menos de 15 cm de um bebé de seis meses. Por uns segundos fiquei um bocadinho atordoada. Olhava para a casa do vizinho e para a minha casa, que está pintada de amarelo claro e é bastante comprida, e calculava as probabilidade de não acertarem nela.

Nesse dia, onde estava eu? Ah, estava no quarto a dormir porque isto foi a meio da noite. Dois dias mais tarde, ainda a ruminar sobre o assunto, a coluna do LA-C, no Observador, ganhou um outro sabor: "Se os guarda-redes ficassem muitas vezes quietos no centro, então o avançado nunca chutaria para o centro, dado que isso seria uma defesa quase certa." Dormia eu na minha cama, quietinha, no centro de um tiroteio e, por sorte, os atiradores faziam como os jogadores de futebol e atiravam para o que estava ao lado da minha casa.

Em redor das paredes do meu quarto, no jardim, há árvores enormes, talvez com mais de 40 anos, de troncos grossos e que pensei darem jeito para protecção contra tiros aleatórios. E que mobília tinha eu contra a parede exterior, que está virada contra a rua, no meu quarto? Nada de substancial agora. Tive a brilhante ideia de retirar de lá o armário de roupa, mas se calhar devia voltar a decorar o quarto tendo em conta esta nova informação.

Quando terminei a conversa com a minha vizinha, conclui que até não era mau de todo. Ninguém tinha sido ferido e a polícia sabia, logo agora iriam haver mais patrulhas da polícia pela vizinhança: é a situação ideal. E, se isso não é suficiente para me descansar, há sempre Tennessee Whiskey...


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Momentos lâmpada

No primeiro dia que estive em Liverpool, fui passear pela cidade depois do trabalho. Queria encontrar um sítio giro para jantar, mas debatia-me entre ir a um sítio tradicional ou a algo mais moderno. Acabei por ir ao The Alchemist porque achei a decoração moderna e a meu gosto, só que o menu não tinha grande travo a comida tradicional inglesa. Bola para a frente, pensei. Comi um peixe e acompanhei com Pinot Grigio e depois uma sobremesa.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Nada de novo

Estou aqui a pensar no mercado accionista americano. Não encontro grande motivo nos fundamentais da economia para poder apreciar muito mais, mas depois penso nas bolhas. O que são bolhas? São situações em que aparecem compradores quando o mercado esta em níveis acima do que aconselhariam os fundamentais, logo estes compradores são pessoas que têm fé que subirá ainda mais. Se muitos acreditarem ao mesmo tempo, as coisas materializam-se.

Ultimamente, sinto um bocado de pânico quando ouço dizer que não conseguem ver o topo ou que as coisas estão óptimas, como se a expansão, que já vai longa, pudesse durar indefinidamente. Mas depois penso é sempre assim. O ciclo de negócio é isso mesmo, um ciclo, as coisas repetem-se, as pessoas cometem os mesmos erros, não há nada de novo...

terça-feira, 3 de julho de 2018

Proteccionismo

Quando vim estudar para os EUA pela primeira vez, em 1995, tive duas cadeiras onde estudávamos case studies da economia americana: Economics of Industries e Managerial Economics. Em ambas as cadeiras um dos case studies era o da indústria automóvel nos anos 80. As empresas americanas pressionaram o governo para implementar medidas proteccionistas que limitassem o efeito da importação de carros japoneses que, para além de serem mais eficientes em combustível, eram menos poluentes e tinham também melhor qualidade porque avariavam com menos frequência. Em 1981, os EUA negociaram a implementação de quotas que limitavam a importação de carros japoneses e que duraram até 1985.

A curto prazo, as empresas domésticas americanas beneficiaram, mas a longo prazo, os japoneses seguiram uma estratégia de maximização do valor dos carros exportados para os EUA, focando-se mais no sector de carros mais caros e de luxo, que são mais lucrativos; ou seja, foram atrás dos clientes mais afluentes enquanto que os clientes pobres só tinham acesso a marcas americanas. Para além disso, os japoneses abriram fábricas de montagem de automóveis nos EUA e assim subverteram a política das quotas.

Como devem calcular, os efeitos foram desastrosos, até porque as empresas americanas aproveitaram esta vantagem das quotas para não investir com tanto afinco em qualidade, nem eficiência de combustível, adiando assim o progresso tecnológico. Este case study foi ensinado como um alerta para os malefícios do proteccionismo e as pessoas da minha geração que estudaram gestão e economia nos EUA estão familiarizadas com o mesmo. Muitas destas pessoas estão hoje em dia a trabalhar em empresas, logo têm alguns conhecimentos para avaliar os efeitos das medidas proteccionistas desta administração.

Notem, também, que nunca a economia americana esteve tão interligada com a economia do resto do mundo como está hoje. Os americanos especializaram-se em actividades de valor acrescentado mais alto e fizeram o outsourcing do resto. Esta evolução não surgiu porque dava prejuízo ou porque era motivada pelas empresas estrangeiras, mas sim exactamente o oposto: era mais lucrativa e foi perseguida pelos próprios americanos. Tentar revertê-la com medidas proteccionistas terá necessariamente de ter um custo para a economia americana.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

The Angel Series

Francesca Woodman








Permanência

"Reflect what you are, in case you don't know"

Estava a ler um livro onde se cita este verso do Lou Reed. Acho muito limitativo saber o que se é. O que não somos é infinito, o que somos tem um caracter finito. Toda a minha vida se reduz a descobrir o que não sou e a fugir de um estado de permanência do ser.

domingo, 1 de julho de 2018

Viagem sem rumo

Estou no avião e nada poderá ser publicado imediatamente, mas a cabeça fervilha com ideias de coisas para vos contar. Corro o risco de, quando chegar a terra, me encontrar com a minha maior inimiga — a procrastinação — e adiar ad eternum o meu relato. Como a eternidade não mais chegará, nunca alguém lerá o que vos quero escrever. Trouxe o computador porque queria mesmo escrever mais, mas acabei por não escrever quase nada, a não ser algumas linhas no diário de papel. Acho que nunca vos disse que comprei um computador de propósito para ser mais flexível porque o iPhone e o iPad deixaram de funcionar com o Blogger. Só dá para usar pelo Safari, mas mesmo assim não funciona muito bem.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Indignação

Tenho visto muita pessoas no Facebook chocadas com a decisão da Administração Trump de separar os imigrantes ilegais das crianças que encontram com eles e que, na esmagadora maioria, são seus próprios filhos. Acho estranho que estejam indignados ou que julguem esta acção da Administração como prova final que os americanos são um povo moralmente degenerado. Note-se que Donald Trump já tem um longo historial de políticas ofensivas e de insultos, logo pouco ou nada nos devia surpreender.

Depois não percebo a conclusão que as pessoas tiram. Perante um governante que usa a lei de forma inovadora para fazer coisas que muitos consideram intoleráveis -- suponho que esta longa descrição é um eufemismo para tirano --, acho que os americanos, mais do que qualquer outro povo, já demonstraram mais do que uma vez estar à altura do desafio:
  • foram para a rua em manifestações a nível nacional mais do que uma vez;
  • processam o Presidente e as instituições que acham estar a violar a lei americana;
  • a acção dos Tribunais mitiga alguns dos impactos das políticas da Administração Trump;
  • a imprensa está a investigar as políticas seguidas e a divulgar as suas consequências e também investiga as acções da família Trump;
  • está a decorrer uma campanha em massa para mobilizar os eleitores para votar contra os Republicanos nas eleições de Novembro;
  • houve também uma enorme campanha para incentivar os cidadãos, especialmente as mulheres e as minorias a candidatar-se a cargos públicos;
  • os jovens americanos estão civicamente activos e lutam contra a política de porte de armas;
  • o Presidente está a ser alvo de investigações oficiais e pode correr o risco de impeachment -- em princípio os resultados serão divulgados em Setembro;
  • há pessoas que já foram presas preventivamente e outras que se deram como culpadas como resultado destas investigações;
  • e, finalmente, tudo isto foi conseguido em menos de ano e meio da Administração Trump.
Tudo isto é do conhecimento público e para mim é motivo de admiração -- um país enorme e heterogéneo como os EUA é capaz de inspirar os cidadãos a tentarem mudar o sistema. Olho para isto e penso: se os americanos conseguem isto, como é que os portugueses mais homogéneos e num país bem mais pequeno não conseguem sequer fazer pressão para Portugal melhorar? Porque é que o nível de abstenção eleitoral em Portugal aumenta cada vez mais e ninguém tenta combater esse fenómeno? O tempo que passam a pensar no Trump pensem em Portugal. Deixem os americanos cuidar do Trump e tentem precaver-se para os riscos que a experiência americana pode ter para Portugal. Depois não culpem os americanos -- acho que todos já temos noção de que a probabilidade de isto acabar mal não é negligenciável. Mas tudo isto porque vos queria recomendar algo. Relativamente ao caso específico da separação das famílias, sugiro que leiam ou ouçam esta peça da National Public Radio que tenta descortinar facto de ficção.