terça-feira, 17 de maio de 2022

Invasão procura-se

Hoje saiu o índice de preços de vendas por atacado para Abril da economia alemã, que cresceu 23.8% comparado com o período homólogo de 2021. Em Março tinha crescido 22.6%. É um máximo desde 1968 e, apesar de não ser tão importante como os preços a retalho, é um número que assusta um bocado. 

Estou preocupada com Portugal porque tem um política que é adequada a tempos fartos na Alemanha. Para além da inflação, há também a necessidade dos europeus gastarem mais dinheiro em defesa e decerto que reconstruir a Ucrânia também irá custar uns trocos. 

Ou seja, o PM Costinha tem de começar a estudar técnicas de marketing para poder sacar mais dinheiro.  Também pode continuar a ser mal-educado e, se conseguir provocar os espanhóis de forma a que eles invadam Portugal, basta copiar as técnicas do Zelensky.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Terramotos

"So you found a girl
Who thinks really deep thoughts
What's so amazing about really deep thoughts?
Boy, you best pray that I bleed real soon
How's that thought for you?"

~ Tori Amos, Silent All These Years

Há, em Portugal, umas almas incomodadas com a Ucrânia ter ganhado a Eurovisão: que não foi por mérito, mas sim por motivo político. Pronto, não vale a pena estarem tristes. Vou-vos dar música a sério, que tem mérito e também mete política, religião, sociologia, filosofia, sexo...

É isso mesmo! O Rick Beato a falar sobre o Little Earthquakes, o álbum da Tori Amos que fez 30 anos em Fevereiro. Foi um dos primeiros CDs que comprei depois de vir para os EUA permanentemente, apesar de, na altura, pensar que a minha estadia ia ser temporária.  

 


quinta-feira, 12 de maio de 2022

Saudosismo

Vi mesmo agora que Portugal foi apurado para a Eurovisão com uma canção chamada "Saudade, saudade." Eu entendo que pessoas como eu, emigrantes e pobres de espírito, cultivem este saudosismo, mas o pessoal do Continente (não do hipermercado), que é tão sofisticado, faria melhor em tratar do futuro e usar o passado apenas como referência, não ponto de chegada. Depois recordo-me, como dizia a um amigo português hoje ao telefone, que os portugueses nem topam que têm um hino que elogia a emigração: heróis do mar, não heróis que ficam em terra.

Por falar em elogios aos portugueses, acabei de ler um livro sobre agricultura no Minho no século XX, chamado "Today There is No Misery". O autor é de antropologia e sociologia rural e apresentou um levantamento do que era viver no Minho rural, especificamente em Pedralva. Pelo caminho, avaliou as receitas propostas por economistas, engenheiros agrários, e governantes, das quais foi crítico. Concordei com bastante do que disse; aliás, os americanos, com o seu pragmatismo e obsessão em validar os argumentos através de dados, são sempre uma boa fonte de argumentos interessantes.

Tenho a felicidade de conhecer e ter bastantes amigos americanos que viveram os tempos da Depressão dos anos 30 e me contam como era a vida naquela altura. Mesmo na minha família americana, a minha ex-sogra, ainda tinha muitos dos hábitos de cozinha que tinha aprendido da mãe. Certas zonas de Portugal, quase até aos anos 70 eram bem pior do que a Depressão americana, o que impressiona bastante. Famílias a ter de dar os filhos para servir em casas mais abastadas porque não tinham como os sustentar, consumo de vinho porque era a única forma de obterem hidratos de carbono e calorias... Quase todo o trabalho em zonas rurais servia para não se morrer de fome. 

Foram tempos duríssimos, mas na altura havia alguma saudade de quando as coisas eram tão más que as pessoas eram forçadas a se ajudarem mutuamente. Esse espírito de entre-ajuda e sobrevivência parece ter ficado no passado, mas restam as canções a elogiar a saudade.

  

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Estás aqui, estás a campar

No seguimento do rascunho da decisão do SCOTUS que poderá repelir Roe vs. Wade, começa-se a ver nas redes sociais um movimento de apoio ao acampamento, traduzido livremente como: Olha, se precisares de acampar noutro estado, levo-te a acampar num estado amigo de acampamentos, não te faço perguntas sobre o teu acampamento, nem conto a ninguém que acampaste.  

Quando eu me portava mal, ou até quando havia o mínimo indício que eu me pudesse portar mal, a minha mãe dizia-me, meio-zangada, meio-divertida ,"estás aqui, estás a campar", que era código para eu desistir da malandragem. Ironia, das ironias, calhou os americanos decidirem que a melhor metáfora para as nossas circunstâncias era o acampamento. 

Desde ontem, já recebi várias mensagens de SMS a pedir para apoiar a causa, que consiste em assinar uma petição, só que para a submeter pedem uma contribuição monetária para a organização. Não é por nada, mas há aqui um enorme risco moral. É que esta gente ganha mais com a questão do aborto no limbo, do que com o caso arrumado, logo é vantajoso manter as mulheres reféns.

Até o Michael Bloomberg já escreveu um editorial a defender que a solução era legislativa e o Senado a devia arrumar de vez. Note-se que, sem as tramóias do Bloomberg nas eleições, o Biden não teria sido o candidato democrata. Um dos argumentos em favor do Biden, era mesmo a sua capacidade de passar legislação no Congresso: quando o Obama precisou de passar o Affordable Care Act, encarregou o Biden de facilitar o processo legislativo.

Para contrariar o marketing negativo, saiu hoje a notícia que vamos ter a primeira mulher negra LGBTQ no cargo de Porta-Voz da Casa Branca. Coincidência que tal aconteça mais de um ano após o Biden ser Presidente e no dia a seguir à fuga de informação do SCOTUS. Até tivemos direito a um abraço entre a futura porta-voz e a actual, apesar de nos andarem sempre a avisar que ainda estamos em tempos pandémicos e há que ter cuidado. 

No que diz respeito à guerra, a Administração informa a imprensa que tem andado a ajudar os ucranianos e o submarino russo foi ao ar, perdão, ao fundo, com a ajuda dos meus queridos governantes. Ontem tínhamos aprendido que os americanos andavam a ajudar os russos a encontrar e alvejar os generais russos. Uma guerra dá sempre jeito para ficarmos mais informados, especialmente antes de irmos campar.


quarta-feira, 4 de maio de 2022

Nós, as idiotas

Anda uma grande confusão, deste lado do Atlântico, porque houve uma fuga de informação no SCOTUS de um rascunho de uma decisão que potencialmente poderá repelir a decisão de Roe vs. Wade,  a tal que permite que as mulheres tenham acesso ao aborto. Ficou tudo muito eriçado com tamanha afronta, especialmente do lados dos Democratas, aquele partido que, neste momento, detém a maioria no Congresso e até tem a Casa Branca.  

Ou seja, se se interessassem tanto pelos direitos das mulheres já teriam legislado em favor do aborto com o Obama ou com o Biden, dado que ambas as administrações tiveram maiorias no Congresso. Se não legislaram, calem-se agora; não nos façam de idiotas.

Biden já decidiu que vai candidatar-se a outro termo e eu já decidi que não só não voto nele, como desejo que seja derrotado. Houve mais transformação social com o Trump do que está a haver com o Biden e, para cúmulo dos cúmulos, ainda tivemos de levar com a saída desastrosa do Afeganistão. Venha o próximo.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Pandemia quê?

Com as notícias focadas 24/7 na Guerra Rússia-Ucrânia e na inflação, a pandemia está cada vez mais marginalizada. Onde estou, ainda há pessoas que usam máscara quando em recintos fechados, mas cada vez se vê menos. Os restaurantes têm ainda menos ou quase nenhuns mascarados, mas nota-se que alguns estabelecimentos têm muito menos movimento do que tinham pré-pandemia. Ainda há muitas pessoas que preferem encomendar e ir buscar ou pedem entrega ao domicílio. 

Esta semana, um tribunal federal repeliu o uso obrigatório de máscara em aviões e outros transportes públicos, mas a Administração Biden já iniciou o processo de apelo da decisão. Há também algum receio que não se consiga monitorizar o desenvolvimento da pandemia, agora que as pessoas têm acesso a testes em casa, logo os resultados dos testes não são reportados. 

Ou seja, entrámos numa de preso por ter cão e preso por não ter, dado que a própria Administração facilitou o acesso a testes no domicílio. Já estamos no terceiro ano de pandemia, as pessoas já deviam saber como se comportar e como gerir o risco do vírus. É um bocado paternalista e redutor achar que somos todos uns incapazes.  


sexta-feira, 8 de abril de 2022

Uma biologia horrorosa

Nunca uma guerra decorreu tão perto de nós, estando nós tão distantes. O tio de uma amiga minha não consegue parar de ver as imagens destes horrores. Tem 87 anos e nasceu na Polónia. Quando era criança teve de andar de país em país por causa da guerra, até que chegou às mãos dos americanos e veio para os EUA. Imaginamos que as imagens que lhe chegam agora têm algo de familiar, mas ele nunca disse a ninguém o que viu quando era jovem. Se calhar pensava que pertencia a um passado longínquo que jamais se repetiria.

Um dos meus amigos mais próximos desde há 25 anos é da ex-USSR. No Facebook, recorda que, quando tinha 17 anos, viu um tanque soviético atropelar uma ambulância soviética. Pediu explicações ao pai para o que viu, mas o pai não lhe disse nada. O que poderia ele dizer, se o acto falava por si? Este meu amigo evoca este episódio a propósito de uma menina de 9 anos que foi violada na Ucrânia por 11 soldados. russos. Como é que 11 jovens diferentes cometem um acto destes, pergunta-se ele? 

Há uma parte da nossa biologia que é completamente horrorosa. 

terça-feira, 5 de abril de 2022

Catch-22 histórico

Uma amiga minha russa, que conheci há quatro anos, fala-me sempre do alto nível de educação dos russos, do apreço pela cultura, pela beleza, o estudo da literatura, da arte... É tudo elevado na Rússia e como é que um povo desta suposta sensibilidade se reduz a esta brutalidade passa-me completamente ao lado. 

Há cinco anos, passei a passagem de ano no meio de pessoas da ex-USSR. As senhoras de idade soviéticas, em particular, gostam sempre muito da minha cara e naquela festa não foi diferente; claro, que também são grande defensoras do regime soviético, logo as suas preferências não abonam muito a meu favor, mas adiante. Para além de mim, estavam umas 20 pessoas de três gerações diferentes e de vários países: Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia, Geórgia... Toda a gente se entendia em russo, menos eu, que me limito a reconhecer palavras como privyet, spaciba, e pajalsta. Pelo menos, sou uma pessoa educada.

Foi uma noite muito pacífica apesar do copioso consumo de vodka: comeram, cantaram, jogaram jogos--eu também consegui jogar porque algumas coisas tinham a ver com reconhecer músicas e, em anos 80 e 90, sou craque. Eles todos olhavam para mim com admiração por eu me conseguir orientar nos jogos e até cantei uma canção em português e, se me lembro correctamente, foi o "O amor" dos Heróis do Mar, porque o tópico era amor. 

Achei que tinha representado bem Portugal junto dos cidadãos da Europa de Leste, mas confesso que de vez em quando olhava para eles e tentava perceber se algum era um espião de Putin. Podia ser uma pequena paranóia minha, depois de crescer a ver filmes como o No Way Out, com o Kevin Costner, mas talvez não fosse exagero meu porque depois viemos a saber que os russos tinham andado a fazer "campanha" pró-Trump. 

Nessa viagem, a amiga com quem eu estava tinha-me levado uma semana antes ao monumento da fome-genocídio da Ucrânia, em Washington, D.C., que marca um evento que eu desconhecia até então, mas ela educou-me: desde então os ucranianos têm uma pequena horta onde cultivam comida, como se se preparassem para um evento semelhante ao que aconteceu há quase 90 anos. E eis que chegámos à inevitabilidade histórica, mas desta vez ter uma pequena horta de pouco ou nada serve. 

Também não servirá daqui a uns anos, quando a Rússia atacar outra vez. Sim, porque a maior parte dos russos, aquele povo tão educado e sensível, não tem ideia do que se passa e estarão prontos para seguir o próximo lunático quando o seu nível de vida piorar com as sanções a que estão a ser sujeitos. Claro que, se não forem castigados, o resultado é o mesmo porque haverá sempre um lunático que achará por bem tentar a sorte de novo porque não aconteceu nada ao primeiro. Se isto não é um Catch-22 histórico...  

sábado, 2 de abril de 2022

A propósito da liberdade

 E também dos tempos que vivemos:

“Yes, that rebirth is in all our hands. It is up to us if the West is to inspire resisters to the new Alexander the Greats who must once more secure the Gordian knot of civilization that has been torn apart by the power of the sword. To accomplish this, we must all run every risk and work to create freedom. It is not a question of knowing whether, while seeking justice, we will manage to preserve freedom. It is a question of knowing that without freedom, we will accomplish nothing, but will lose, simultaneously, future justice and the beauty of the past. Freedom alone can save humankind from isolation, and isolation in its many forms encourages servitude. But art, because of the inherent freedom that is its very essence, as I have tried to explain, unites, wherever tyranny divides. So how could it be surprising that art is the chosen enemy of every kind of oppression?”


Excerpt From

Create Dangerously

Albert Camus & Sandra Smith

https://books.apple.com/us/book/create-dangerously/id1458259955

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sexta-feira, 18 de março de 2022

Contra dicção, da má e dita dura

Tendo vivido no estrangeiro toda a minha vida adulta, mas continuando a assumir as minhas origens lusitanas, acabo por ser uma pseudo-embaixadora de Portugal, que dá o país a conhecer a quem nunca lá pôs os pés e, se calhar, não porá. Nesta minha actividade involuntária, umas das perguntas que me fazem é o porquê de Portugal não ser parte de Espanha. Eu respondo simplòriamente que já foi--entre 1580 e 1640 estava sob a alçada dos Filipes de Espanha, mas depois disso nunca mais porque somos diferentes, resumo eu, dado que há bastante divergência entre uma paella e um arroz à valenciana, ou não fosse Espanha feminino e Portugal masculino.  

Isto veio-me à cabeça quando a Rússia decidiu continuar a sua incursão pela Ucrânia o mês passado porque um amigo meu português perguntou-me logo se os portugueses se empenhariam em se erguer contra um invasor. Não, foi a minha resposta. A forma como nos protegemos de invasores não é pela força. Quando os franceses tentaram invadir, o governo de Portugal foi para o Brasil, que tecnicamente era Portugal, e a defesa do continente ficou ao cuidado dos ingleses. No século seguinte, não é de admirar, então, que a Ditadura tenha durado tanto, que praticamente caiu de podre e, quando já se vislumbrava outra, para se defender contra os excessos do PREC chamaram-se os americanos. Mais tarde, foi a vez de se chamar os europeus: uma das razões invocadas para se aderir à CEE era mesmo proteger o país de si próprio, de forma a se manter em suposta democracia. 

No mês que vem vamos comemorar a virtude do povo lusitano em se auto-determinar contra a Ditadura que durou quase meio-século. Pelo meio, vozes que defenderão a revolução de Abril também se erguerão pela invasão de Fevereiro porque russos e ucranianos é tudo a mesma coisa, comem todos salada russa temperada com maionese e com presunto em vez de atum. Mormente, defender ditadores russos que atacam inimigos políticos em Inglaterra é tão válido como atacar ditadores portugueses que engodam inimigos políticos até Espanha para os matar. Não há contradicão, desde que uma diferente dicção indique a coisa que é má e dita dura, da que é virtuosa e deveras pura.

 

terça-feira, 15 de março de 2022

Impasse moral

Depois de quase três semanas de guerra, a Rússia não consegue dominar a Ucrânia, mas também não sai em retirada. Há duas teorias acerca de como proceder. Uma é que tem de haver uma forma de Putin sair disto sem ser humilhado perante os russos de forma a continuar no poder. Se ele suspeitar que pode perder tudo, então pode muito bem causar ainda mais estragos. A outra é que o ocidente devia juntar forças e dominar os russos até que fosse claro quem saía vitorioso e não seria a Rússia e muito menos Putin -- aliás, convinha que ele fosse despachado porque sabe-se lá o que poderá fazer na sua próxima incursão megalomaníaca.

Tudo isto é muito bem argumentado, mas a realidade tem sempre muito mais nuance do que a estratégia. Os EUA são uma potência militar, só que a história recente demonstra que ter dominância militar não só não é suficiente para dominar o adversário, como o apoio do público americano é caprichoso -- note-se que o apoio dos europeus também não é muito melhor. Ficamos então reduzidos à eterna contradição moral de que não há melhor forma de conseguir solidariedade do que imagens de destruição, feridos, e mortos: os ucranianos precisam de continuar a sofrer para que o ocidente apoie a sua causa. 

segunda-feira, 7 de março de 2022

Podia ser pior

Até agora, a única surpresa no conflito Russa-Ucrânia foi a rapidez com que a opinião pública internacional se mobilizou para apoiar a Ucrânia, não só em termos de apoio moral, mas também através de transferências criativas de fundos. Nas redes sociais, as pessoas organizaram-se para acolher os refugiados russos, ultrapassando os limites burocráticos normais. No Airbnb, pessoas de todo o mundo fazem reservas de casas na Ucrânia como forma de transferir dinheiro rapidamente para os ucranianos. As organizações não-lucrativas também mobilizaram esforços rapidamente. Por exemplo, demorou um dia para a World Central Kitchen activar os esforços na Ucrânia para alimentar refugiados. Este é, sem dúvida, o maior valor das redes sociais e da Internet e já tinha sido evidenciado aquando da retirada desastrosa dos americanos do Afeganistão.

Talvez a maior arma que existe contra Putin seja a da informação, pois o apoio do povo russo depende do enquadramento dos factos e por isso Putin não só bane as redes sociais que não controla, como o Parlamento russo modificou a legislação para contemplar penas de prisão para quem disseminar informação que contradiz a versão oficial. Esse é o seu ponto fraco e quanto mais o conflito se arrastar, mais difícil será justificar o número de mortos russos, mais a versão que os militares russos em campo dão às suas famílias directamente como a conversa de um soldado russo com a sua mãe momentos antes de morrer ou ucranianos a recolher soldados russos e a facilitarem o seu contacto com a família. Os telemóveis são uma das armas mais poderosas que existe hoje em dia.  

De acordo com um relatório de fontes europeias e americanas noticiado pelo NYT, o governo chinês pediu à Rússia que adiasse a operação na Ucrânia para depois dos Jogos Olímpicos de Inverno, mas como em 2008, a Rússia invadiu a Geórgia durante os Jogos Olímpicos de Verão, que se realizaram em Beijing, o que não agradou aos oficiais chineses, talvez nem fosse preciso um acordo explícito. A China tem mantido uma postura neutra neste conflito, mas nos últimos anos tinha havido uma aproximação entre a Rússia e a China. A economia russa é mais pequena do que a economia do Texas, logo não há grande vantagem para os chineses sacrificarem as suas relações com o ocidente para ficar ao lado da Rússia. 

Até agora os EUA seguiram uma estratégia que evitasse o conflito directo com os russos, retirando antecipadamente forças armadas americanas da Ucrânia e avisando o resto do mundo dos riscos. Se Putin quisesse humilhar os EUA, a forma mais fácil teria sido não invadir e assim os americanos teriam sido caracterizados como uns exagerados -- o tal exagero que levou a que invadissem o Iraque sob George W. Bush. Ao não entrar em conflito directo com os russos, os americanos também limitam a máquina da propaganda de Putin, pois não há fotos de americanos a atacar russos. 

Os erros passados dos americanos serviram de guia para o actual conflito: para além da invasão do Iraque, queria evitar-se uma situação parecida com a da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, um falhanço estratégico de JFK em 1961 que levou a que a Rússia ganhasse mais influência em Cuba e tivesse mísseis nucleares apontados directamente aos EUA em 1962. Em vez disso, há décadas que a Europa e os EUA não estavam tão alinhados em termos de política internacional. 

sábado, 5 de março de 2022

Mudem de grafia

Kyiv é a capital da Ucrânia em ucraniano. Kiev é a capital da Ucrânia em russo.

Por razões óbvias, temos de eliminar a grafia do agressor.



sexta-feira, 4 de março de 2022

Em parafuso...

O mundo, neste momento, divide-se entre os que cultivam a esperança e os que se entregam à loucura. Pragmatismo e cabeça fria valem ouro, dada a sua raridade. 

Fui completamente apanhada de surpresa, ontem, quando um amigo meu me disse que tinha estado a falar com a família em Portugal a despedir-se por causa do ataque à central nuclear. Talvez a memória seja curta, mas quando tivemos a explosão em Fukushima (2011), aprendemos que os efeitos, apesar de maus, não seriam tão gravosos quanto se pensava.  

Mas e Chernobyl (1986), perguntam vocês, que até foi na Ucrânia? Esse sim, foi muito mau, mas aconteceu antes da queda do muro de Berlim, quando o que se passava na USSR ainda estava envolto em nevoeiro. Depois, por ter sido tão mau e por quem ter sofrido mais terem sido os ucranianos, sabemos que estes tomaram medidas de segurança para que a história não se voltasse a repetir.  Os ucranianos têm memória longa, já aqui falei sobre isso em 2016. Mesmo assim, o resto do mundo -- que inclui Portugal -- tem obrigação de ajudar os ucranianos com coisas mais concretas do que posts esperançosos no Instagram e Facebook.

Há um completo vazio de liderança política em Portugal, apesar de termos tido eleições um mês antes do início da invasão e da clara predilecção dos portugueses por bazucas. António Costa está MIA, como é normal sempre que as coisas vão para o torto. Marcelo preocupa-se em oferecer telefonemas de afecto ao presidente russo, o que lhe garante cobertura de primeira página. Rui Rio, que teoricamente é o líder do maior partido da oposição costuma deferir para António Costa porque, por admissão própria, é incapaz de oferecer melhor. 

Nos partidos minoritários da Esquerda portuguesa, o PCP acusa os EUA de serem a causa do problema -- quem lê o que os comunistas escrevem pensaria que foram os americanos que anexaram a Crimeia em 2014. O Bloco de Esquerda, que normalmente é a cúspide do humanismo em Portugal, absteve-se da votação ao empréstimo à Ucrânia no Parlamento Europeu. Com amigos destes, ninguém precisa de inimigos. 

Portugal que tem uma posição geográfica privilegiada entre os EUA e a Europa comporta-se como se fosse completamente irrelevante no plano estratégico mundial. Povo desnaturado, que nem em situações da maior gravidade se sabe erguer e lutar por uma causa nobre.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Assistência

  “When you part from your friend, you grieve 
not;
    For what you love most in [her] may be 
clearer in [her] absence, as the mountain to the
climber is clearer from the plain.” 

   ~ Kahlil Gibran, “The Prophet”

Ontem assisti a uma morte. Não sei bem o que sinto, não é tristeza, nem propriamente um vazio, apenas que estive presente até ao fim. Já esperávamos que a mãe da minha vizinha viesse a falecer, mas não sendo da família, não contava acompanhar o processo tão de perto. Só que não é propriamente verdade que não seja da família porque logo no início, quando conheci a senhora, ela perguntou-me acerca da minha família. Quando lhe disse que não tinha família nos EUA (pelo menos não de sangue), imediatamente me respondeu, mal me conhecendo, que daí para a frente a família dela seria a minha família. E foi assim que fui adoptada por mais uma família americana.

Durante quase dois anos, acompanhei-a de perto e tentei estar presente. No que me foi possível, prestei a minha ajuda: fiz-lhe companhia, conversei com ela, joguei jogos, tentei fazê-la sorrir usando humor, que ela apreciava muito, cozinhei para ela, etc. Ontei, segurei-lhe a mão, fiz-lhe festas no braço, e assisti à sua etapa final. A minha vizinha, que é a sua filha mais nova, estava do outro lado, ajudando-a. A filha mais velha, do mesmo lado que eu, tentava comfortá-la, segurando-lhe a cabeça, beijando-lhe a testa, e conversando com ela, dizendo-lhe que a amávamos.

Antes da minha visita, levei o Julian a passear e comecei a ouvir o álbum Aun, de Christian Fennesz, cuja música me tinha acompanhado noutras perdas. Durante o passeio telefonei à minha vizinha para ver como estavam as coisas. Não muito bem, disse-me, e dirigi-me a casa dela assim que terminei. A mãe estava com os olhos abertos, respirando com dificuldade. Tentei fazer-lhe festas e conversar com ela: estava muito frio na rua e as minhas mãos estavam frias, só lhe podia tocar sobre o cobertor, expliquei. Sentei-me numa cadeira ao lado dela e conversei com as filhas e até foi animado.

Há dias, noutro passeio com o Julian, encontrámos um porco preto enorme no jardim de um vizinho: estava deitado nuns cobertores e até tinha uma taça de comida. Era tão grande que pensei que aquilo era muito bacon, contava eu à irmã da minha vizinha, que não acreditava porque não é legal ter animais agrícolas dentro da cidade. Mas estava lá, eu até tinha tirado duas fotografias, afirmei. Então mostra-me, dizia ela, e eu apresentei as minhas provas e ela continuou admirada, mas convencida. Depois falámos de viagens que eu tinha planeadas e de outros assuntos que já se remeteram ao esquecimento. 

A irmã da minha vizinha entrava e saía do quarto, e houve alguns momentos de silêncio. No ar, senti um odor estranho, que me era desconhecido. Já há muito que não cheirava algo que me incomodasse tanto; quando era miúda era extremamente sensível a odores, mesmo perfumes agradáveis, mas fortes, causavam-me vómitos. Aquilo que cheirei ontem era quase desse calibre; era a úlcera de Kennedy: a pele, que é um órgão, começava a falhar.

Enquanto eu e a minha vizinha estávamos sozinhas no quarto, a mãe deu dois suspiros repentinos e levantámo-nos para a assistir. O coração quase que não se ouvia e apenas respirou mais umas três vezes, já a filha mais velha tinha regressado. Nós apenas assistimos e tentámos dar todo o conforto possível. Assistir à morte de alguém deve ser um dos primeiros sinais de civilização. Decerto que, nos nossos primórdios, poucos sobreviviam até à velhice e quase todos acabavam por ser comidos por predadores.