quinta-feira, 19 de julho de 2018

Ternura

Depois de escrever o último post, apeteceu-me ouvir o Telepatia da Lara Li. O que é que tem uma coisa a ver com a outra? Nada, mas a minha cabeça funciona assim e eu gosto. Não sei se já vos tinha dito que há uns anos, vi "O Lugar do Morto" no YouTube e gostei muito. (Podem falar mal dos americanos, mas viva a tecnologia americana, mesmo quando a UE a multa.) Depois de ver o teledisco, fui procurar a Ana Zanatti no Google porque nem sabia se ainda era viva. Encontrei a entrevista que deu ao Observador em 2016 e fiquei a saber do livro que escreveu, "O Sexo Inútil"; tenho de comprar um dia que vá a Portugal.

Um dos tópicos abordados na entrevista é o afecto em público entre casais homossexuais, o que até é uma questão bastante premente agora, depois de um casal de homens ter sido agredido em Coimbra há dias. Mas não era de Portugal que vos queria falar. Há uns meses, depois de ir ao massagista, atravessei um parque de estacionamento aqui em Memphis (área de Cordova) para ir a um restaurante vietnamita (o normal teria sido ir de carro, mas eu gosto de viver perigosamente). Pelo caminho passei à frente de um cinema e vi um casal de homens acariciar-se em público. Bem sei que devia ser uma coisa normal à qual eu não fosse sensível, mas emocionou-me poder presenciar tal acto e senti-me orgulhosa que se sentissem à vontade de o fazer à minha frente; é como se eu fizesse parte da sua cumplicidade. Isto no Tennessee, que é Republicano que se farta. Ah, e eram dois homens negros. Mesmo lindo, pessoas...

Conservação de livros

Em 1999, o meu orientador decidiu que eu devia fazer uma cadeira de Conservação de Solo e Água e foi com essa cadeira que completei o mestrado de Economia Agrária na Primavera de 2000. Era a terceira cadeira esquisita que ele me mandava fazer: primeiro foi Ecologia e quando ele me mandou matricular-me na dita fiquei horrorizada porque eu já não tinha Fisico-Química desde o oitavo ano. Ainda por cima, eu fui para Economia porque não dava mesmo nada para Fisico-Química e agora saia-me o tiro pela culatra.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Kingdom ROI

No meu passeio a pé de hoje, ouvi o último podcast do This American Life, "If you build it, will they come". Um dos segmentos no programa é sobre start ups de igrejas e durante a descrição deste movimento falou-se em Kingdom return on investment.

Ainda me estou a rir... Não há povo mais engraçado do que o americano!

terça-feira, 17 de julho de 2018

Linguagem corporal

Como eu vivo nos EUA há tanto tempo, acho natural que os americanos sorriam por tudo e por nada: it's the American way. Até há artigos na imprensa acerca do porquê demos americanos sorrirem tão frequentemente. A explicação tem a ver com os EUA serem um país de emigrantes em que, como muita gente não falava a mesma língua, o uso de comunicação não-verbal foi exacerbado para ultrapassar as barreiras da língua e criar maior confiança entre as pessoas. Já pessoas de países com maior homogeneidade da população não tendem a sorrir tanto.

Hoje algo muito estranho aconteceu: houve um encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin e quando os dois apareceram juntos para a conferência de imprensa, Putin sorria e Trump estava macambúzio. Na rádio falava-se da linguagem corporal do Presidente Trump, que dava uma má impressão dos EUA e denotava-se este evento como um dos pontos mais baixos da Presidência americana.

E para além da linguagem corporal, há o que Trump disse, que nesta altura do campeonato já nem nos devia surpreender, mas ele teve a desfaçatez de dizer mal dos serviços secretos americanos -- querem diria que chegaríamos a este ponto com um Presidente republicano? A coisa correu tão mal, que já acusam Trump de traição, como é o caso de John Brennan, antigo Director da CIA quando Obama era Presidente:

Três bêbados

Para algumas pessoas, a única razão pela qual alguém perde o equilíbrio é por estar bêbado. Aliás a lógica é mesmo o Juncker bebe muito, logo perdeu o equilíbrio porque bebeu. Só que correlação não é causalidade e é preciso um bocadinho mais do que ver a pessoa a cambalear e saber que ela bebe para concluir que cambaleou porque bebeu.

Por exemplo, eu bebo o ocasional copo de vinho, talvez uns três por semana e também cambaleio. Será que cambaleio porque bebo três copos de vinho seguidos? Não, cambaleio de vez em quando porque tenho a tensão arterial baixa; é raro beber três copos de vinho seguidos.

Pior, pior, é o meu cão. Há uns anos quando nos mudámos para uma casa que tinha escadas, perdeu o equilíbrio e veio aos trambolhões pelas escadas abaixo. Calhou ter descido as escadas a correr, o que ele não sabia fazer porque nunca tinha vivido numa casa com escadas -- andava entusiasmado a tentar que o irmão o perseguisse e subia e descia escadas para lhe escapar. Mas, claro, já sei que haverá algumas almas que pensam que o meu cão é um grande bêbado: tem uma mãe que bebe, logo também deve beber...

domingo, 15 de julho de 2018

Geografia da alma

Depois de anos a mudar de sítio, de casa, já aprendi a não deixar que o sítio onde estou seja uma grande restrição. Só que esta última mudança tem um travo diferente. Há vezes, como ontem, em que penso que tenho de ir à livraria e na minha cabeça a livraria que aparece é a que fica a 10 horas de carro, não é a que fica a minutos. E depois penso que não estou ao pé de Rothkos, Magrittes, Twomblys, nem de instalações de James Turrell...

Esta semana um colega meu levou uma maçã verde para o gabinete e eu pensei em Le fils de l'homme e deu-me uma nostalgia enorme. No gabinete de Houston, tinha uma maçã verde de esponja (um brinquedo anti-stress) que encontrei no parque de estacionamento na mesma altura em que havia um programa de exposições sobre o Magritte no Menil. À noite, as nuvens eram claras e as árvores negras contrastavam contra o céu, como em L'Empire des lumières.

Nada é o que parece e talvez seja essa a minha realidade: o corpo está num sítio, a alma em outro, como se a minha vida fosse um quadro surrealista...

sábado, 14 de julho de 2018

Genifique-se!

Ultimamente tenho andado a considerar a genialidade de António Costa, o nosso ilustre PM, da qual não estou convencida. Como gosto muito de experiências, tenho andado bastante feliz porque vamos realmente saber se é génio ou não brevemente. Se as tarifas de Trump seguirem em frente, combinadas com política fiscal americana expansionista, e política monetária contraccionista da Reserva Federal e do BCE, iremos ter uma bela crise pela frente. Se Costa estiver no poder, irá ter de navegar por águas bastante conturbadas e será um espectáculo giro de se ver.

É fácil parecer ser génio quando tudo está a nosso favor, mas é quando as coisas estão contra nós que se mede a genialidade. Esperemos que ele coopere e queira mesmo demonstrar ser génio, indo com tanta sede ao pote perante a perspectiva de um segundo mandato como foi no primeiro.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Pena do gato

Tenho observado que muitas pessoas em Portugal ficaram escandalizadas com o dinheiro que o Barack Obama cobra por discursos. Há várias coisas que não percebo nesta reacção, como, por exemplo, porquê ficar chateado com o Obama quando o Obama foi convidado, avançou um preço, e esse preço foi aceite. Acho que se é para ficar chateado com alguém é com as pessoas que o convidaram e que não conseguiram verbalizar a importância da ida do homem de forma convincente.

Uma segunda coisa que as pessoas parecem não compreender é que não foi o cidadão Barack Obama que foi convidado; ele foi convidado porque é o ex-Presidente dos EUA e, nos EUA, o pessoal ganha melhor do que em Portugal. Ah, e coiso, mas é muito dinheiro. Efectivamente, é muito dinheiro até porque em Portugal ser pobre é uma virtude e os ricos são mauzitos.

Durante a campanha da Hillary Clinton para Presidente, um dos "escândalos" foi mesmo ela ganhar muito dinheiro a fazer palestras para o pessoal de Wall St. Ou, se calhar, vocês lêem o que eu escrevo aqui e, no post onde eu falei do dinheiro da Hillary, recordam-se de eu ter falado do Ben Bernanke, que também ganha um balúrdio a fazer palestras: $400 mil (e, no entanto, vai ao banco e recusam-lhe um empréstimo para refinanciar a casa). Ou seja, é normal.

O que não é normal é as pessoas em Portugal não serem muito curiosas acerca do que acontece ao dinheiro do Obama. O Barack Obama está a construir uma Biblioteca Presidencial, que será diferente do que têm sido as bibliotecas presidenciais até agora. A dele irá ser financiada pela Fundação Obama e está a ser construída na zona sul de Chicago, uma parte desfavorecida da cidade, com o intuito de a dinamizar.

Bem sei, tiveram pena do gato, não fosse a curiosidade matá-lo...

domingo, 8 de julho de 2018

Até Deus

Arthur Miller escreveu uma peça de teatro, "The Crucible", sobre os julgamentos por bruxaria que ocorreram em Salem, Massachussetts, em 1692 e 1693. O objectivo da obra era fazer um paralelo entre esse episódio trágico da história dos EUA (note-se que os julgamentos precedem a fundação do país) e a perseguição de comunistas levada a efeito pelo governo americano (finais da década de 40 e década de 50). Apesar da natureza cíclica da história, há sempre o mesmo desfecho: as coisas más pertencem ao passado e há quem acredite que não são passíveis de se repetirem.

Há uma frase na peça de Miller da qual eu gosto muito: "Until an hour before the Devil fell, God thought him beautiful in Heaven." (Uma hora antes do Diabo sucumbir, no Céu, Deus achava-o belo.) Não é só que as coisas corram mal de um momento para o outro, quando antes corriam tão bem que nada nos levava a crer que a mudança estivesse prestes a acontecer, é também que até Deus, com a sua capacidade de omnisciência, é incapaz de adivinhar a tragédia. E se ele não consegue, que esperança podemos ter nós, comuns mortais?

sábado, 7 de julho de 2018

Tennessee Whiskey

Saí à rua no feriado para ver se havia correio. Tinha ideia que também tinha ido à caixa do correio no dia anterior e não fazia sentido ir outra vez, mas de vez em quando, anda a carteira a entregar correio depois das 8 da noite, logo valia a pena ver. Ao lado da minha casa, no passeio, encontrei a minha vizinha, uma senhora já reformada que, em part-time, toma conta de uma pessoa de idade avançada que vive sozinha: passa com ela cerca de quatro horas por dia. Não parece que precise do emprego, mas diz que adora fazê-lo. Esta minha vizinha é uma senhora muito agradável, muito carinhosa, e está sempre a oferecer-se para me ajudar caso eu precise. Trata-me por "sweetheart" e conversa sempre comigo quando me vê, normalmente quando sai à rua para passear os seus dois cachorritos e eu saio à rua para fazer a minha caminhada diária.

Era isso mesmo que ela fazia, ao fim do dia, no 4 de Julho. Estava muito calor e, em Memphis, o nível de humidade aumenta com o pôr-do-sol porque durante o dia os raios de luz ajudam a controlar. Perguntou-me se eu estava bem porque já não me via há tempo, mas depois lembrou-se que lhe tinha dito que ia estar fora de férias e em trabalho. O meu jardim está bem cuidado, o que ela menciona amiúde, porque o dela frequentemente espera pelo filho ter vontade de aparar a relva. Já o meu está à vontade do meu vizinho da frente que, poucos dias depois de eu me mudar, se ofereceu para cuidar dele por $45 de cada vez, um preço que é ridiculamente baixo, mas que ele avançou reticentemente com medo de eu achar caro. Uma vez tentei dar-lhe $50 e, na vez seguinte, ele só aceitou $40.

Estes encontros com a minha vizinha também servem para pôr a bisbilhotice em dia, apesar de eu ainda não conhecer muitos dos vizinhos. Será que eu tinha ouvido o tiroteio recente, pergunta-me. É assim uma pergunta um bocado desconcertante, mas nesse dia, com o fogo de artifício e o consumo de cerveja, etc., por acaso tinha pensado que era um boa dia para andar aos tiros a alguém. Mas não era desse dia que ela falava, era de há umas semanas, de dois carros que tinham entrado na nossa rua numa perseguição que também envolvia tiroteio. Ao todo, ela dizia que tinham sido disparados 25 tiros, com cartuchos vazios em frente da casa dela e alguns tiros que atingiram uma casa do outro lado da rua da minha -- não a casa do meu vizinho jardineiro porque eu vivo num cruzamento.

Parece que, em frente da minha casa, os únicos vestígios foram as marcas das rodas de um dos carros na relva -- eu pensei na altura que tinha sido o camião do lixo. Já a casa do outro lado da rua não teve tanta sorte: várias balas atingiram a parede, passaram pelos tijolos e houve até uma que passou a menos de 15 cm de um bebé de seis meses. Por uns segundos fiquei um bocadinho atordoada. Olhava para a casa do vizinho e para a minha casa, que está pintada de amarelo claro e é bastante comprida, e calculava as probabilidade de não acertarem nela.

Nesse dia, onde estava eu? Ah, estava no quarto a dormir porque isto foi a meio da noite. Dois dias mais tarde, ainda a ruminar sobre o assunto, a coluna do LA-C, no Observador, ganhou um outro sabor: "Se os guarda-redes ficassem muitas vezes quietos no centro, então o avançado nunca chutaria para o centro, dado que isso seria uma defesa quase certa." Dormia eu na minha cama, quietinha, no centro de um tiroteio e, por sorte, os atiradores faziam como os jogadores de futebol e atiravam para o que estava ao lado da minha casa.

Em redor das paredes do meu quarto, no jardim, há árvores enormes, talvez com mais de 40 anos, de troncos grossos e que pensei darem jeito para protecção contra tiros aleatórios. E que mobília tinha eu contra a parede exterior, que está virada contra a rua, no meu quarto? Nada de substancial agora. Tive a brilhante ideia de retirar de lá o armário de roupa, mas se calhar devia voltar a decorar o quarto tendo em conta esta nova informação.

Quando terminei a conversa com a minha vizinha, conclui que até não era mau de todo. Ninguém tinha sido ferido e a polícia sabia, logo agora iriam haver mais patrulhas da polícia pela vizinhança: é a situação ideal. E, se isso não é suficiente para me descansar, há sempre Tennessee Whiskey...


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Momentos lâmpada

No primeiro dia que estive em Liverpool, fui passear pela cidade depois do trabalho. Queria encontrar um sítio giro para jantar, mas debatia-me entre ir a um sítio tradicional ou a algo mais moderno. Acabei por ir ao The Alchemist porque achei a decoração moderna e a meu gosto, só que o menu não tinha grande travo a comida tradicional inglesa. Bola para a frente, pensei. Comi um peixe e acompanhei com Pinot Grigio e depois uma sobremesa.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Nada de novo

Estou aqui a pensar no mercado accionista americano. Não encontro grande motivo nos fundamentais da economia para poder apreciar muito mais, mas depois penso nas bolhas. O que são bolhas? São situações em que aparecem compradores quando o mercado esta em níveis acima do que aconselhariam os fundamentais, logo estes compradores são pessoas que têm fé que subirá ainda mais. Se muitos acreditarem ao mesmo tempo, as coisas materializam-se.

Ultimamente, sinto um bocado de pânico quando ouço dizer que não conseguem ver o topo ou que as coisas estão óptimas, como se a expansão, que já vai longa, pudesse durar indefinidamente. Mas depois penso é sempre assim. O ciclo de negócio é isso mesmo, um ciclo, as coisas repetem-se, as pessoas cometem os mesmos erros, não há nada de novo...