quarta-feira, 24 de abril de 2019

De regresso

Ora viva! Estou de regresso à minha terrinha, depois de duas semanas de férias, onde fui a Washington, DC (pela quarta vez), e dei um salto a Nova Iorque (a minha terceira visita). Gostei muito da viagem a NYC porque nunca tinha andado num autocarro numa viagem de longa-duração nos EUA, pois normalmente desloco-me de avião ou carro. São cerca de 362 Km (saí de Bethesda, MD, e fui até Manhattan); o regresso demorou 4 horas, na saída demorámos quase 5 porque apanhámos imenso trânsito, dado que saímos às 17:40 horas, que é a hora de ponta. O bilhete custou $37 para cada lado e quando entramos no autocarro oferecem-nos garrafas de água.

Em Washington, DC, fui efectivamente à National Gallery of Art--West Wing, onde vi a exposição do Tintoretto, como sugeriu o Rui Fonseca num comentário ao post anterior, mas a minha galeria preferida é a 3, onde estão as esculturas de Rodin e Degas. Apesar de não ser a minha primeira visita, fiquei tão emocionada que quase chorei. Para quem desconhece a NGA, são dois edifícios e a ala ocidental tem arte até 1900.

Na ala leste da NGA exibem arte a partir de 1900 e há dois sítios que me encantam: a galeria onde estão os movimentos franceses do pós-impressionismo: Nabis, Fauvismo, Expressionismo e as galerias no topo do edifício que têm Alexander Calder, Barnett Newman, e Mark Rothko. Escusado será dizer que quando cheguei à galeria de Rothko estava tão emocionada que chorei mesmo a sério. Cresci tanto a olhar para as peças dele quando vivia em Houston, que é como se estivesse à frente de um espelho ou talvez de uma máquina do tempo.

Em DC, para além da National Gallery of Art, fui à Phillips Collection, ao Hirshhorn Museum, à Renwick Gallery, às Freer/Sackler Galleries, à National Portrait Gallery, que fica no mesmo edifício que o American Art Museum, ao jardim de escultura da NGA, ao jardim de escultura do Hirshhorn, ao cemitério de Arlington, e ao Belmont-Paul Women's Equality National Monument. Passeei à beira do rio Potomac para apreciar as cerejeiras em flor e visitei o Washinton Monument, o Lincoln Monument, e o National World War II Memorial.

Fui ao edifício do United States Department of Agriculture para o lançamento do relatório WASDE (quando os relatórios saem, somos fechados numa ala do edifício que fica completamente isolada do exterior, i.e., janelas, ninguém tem telemóvel, e nem há ligação de Internet) e antes de lá ir estive a fazer tempo no Wharf, que foi recentemente desenvolvido. É um espaço encantador, com mercado de peixe, resturantes, cafés, esplanadas, marina, e lojas à beira-rio, decorado com muitos vasos cheios de flores magníficas, que tive a sorte de poder apreciar no seu auge.

Nesta viagem, também visitei Baltimore, MD, onde nunca tinha estado e onde fomos comer marisco. Tem um Conservatório/Jardim Botânico muito engraçado e a zona à beira-rio também é muito agradável. Baltimore foi uma cidade muito rica, mas perdeu importância e entrou em decadência. Na Virginia, fomos fazer o trilho do Difficult Run, que é um dos tributários do Potomac River, e visitei o Great Falls Park, que é uma das zonas com maior biodiversidade do mundo--as quedas do Potomac são impressionantes e há também uma componente histórica muito interessante.

Em Nova Iorque só estive dois dias, mas visitei Central Park, a 5th Avenue, o Metropolitan Museum of Art (a entrada custa $25, mas se conhecerem alguém que seja membro e tiverem a informação de membro da pessoa podem entrar sem pagar), o Museum of Modern Art, o Jewish Museum, a Neue Galerie ($22 bilhete normal), e a Morgan Library.

Se gostam de visitar museus e planeiam vir aos EUA, DC é capaz de ser preferível a Nova Iorque. Ambas têm colecções de arte fantásticas, mas em DC quase todos os museus são grátis; em NYC, alguns são grátis um dia por semana ou durante algumas horas. Também notei desta vez que estive em Nova Iorque que havia muito mais filas para entrar. DC é mais calma, apesar de alguns museus serem super-difíceis de se conseguir entrar. Eu queria ir ao African-American Museum, mas é preciso obter um passe e estavam esgotados (os passes são grátis).

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Pesadelo

Enquanto visitava o cemitério de Arlington hoje à tarde, vi as notícias do acidente na Madeira. A minha primeira impressão foi que tinha percebido mal do que se tratava, mas não, é mesmo a sério. Não sei o que pensar porque estou com medo de pensar nos familiares das vítimas a chegarem a Lisboa e encontrarem a cidade sem transportes por causa da greve que afecta o abastecimento de combustíveis. Espero que alguém no Governo tenha a ideia de arranjar transportes e apoio para as vítimas e suas famílias de forma a que elas estejam resguardadas da confusão que possa existir na cidade. Que grande pesadelo...

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Muitos mimos

Tenho saudades do meu cão; já não o vejo há 10 dias. Ontem telefonei para o hotel a perguntar se estava bem e parecia que sim, só tinha um bocadinho de prisão de ventre. Quando a moça atendeu o telefone e eu lhe perguntei do Julian, o bouledogue francês, ela soube imediatamente de quem se tratava, o tom de voz mudou, notei logo que tinha afeição pelo meu pequenito.

Hoje de manhã telefonou-me porque o meu Morceguinho ainda não tem as idas ao quarto de banho normalizadas. Depois de conversar com ela, decidimos que ele não ia passar tanto tempo no recreio com os outros cachorrinhos porque fica muito excitado com a brincadeira; reduzimos o tempo para meia hora por dia.

Amanhã vou telefonar outra vez, mas mais para o final do dia, para ver se ele está melhor. Sempre senti alguma preocupação com os meus bichinhos quando estou longe deles, mas depois do Alfred morrer, fiquei muito mais ansiosa. Quando a Stella morreu, fiquei triste, mas foi algo que senti que tinha chegado a altura. O Alf foi diferente.

Sempre tinha imaginado que iria cuidar dele até chegar a altura, mas ele morreu de morte natural sem que necessitasse de grandes cuidados. Senti que não fiz tudo o que podia ter feito por ele e no entanto o Alf era um cão que gostava de cuidar de toda a gente, mas não dava trabalho nenhum. Sinto que ele não gostaria de ter dado trabalho.

Quando for buscar o Morceguinho, vou estragá-lo com mimos!





terça-feira, 16 de abril de 2019

Contra-ciclo

Ontem fiquei um bocado preocupada com Notre-Dame. Acreditei -- ou talvez fosse um acto de fé -- que os bombeiros conseguissem salvar a estrutura e, apesar de algumas perdas, que alguns mais pessimistas dizem ser incalculáveis, não sucumbiu totalmente.

A minha atitude pessoal é ser pessimista quando as coisas estão bem, isto é, preocupo-me com o que pode correr mal, e optimista quando as coisas correm mal, pois quase sempre se pode fazer alguma coisa para melhorar quando estamos perante o pior. Por isso, se ao longo de 800 anos tinha de arder, arder agora, quando a tecnologia de combate aos fogos está avançada, os bombeiros estão bem treinados, os conservadores de arte também, etc., não é o pior que podia ter acontecido.

Notre-Dame não só irá ser recuperada, como iremos descobrir bastantes coisas acerca da sua construção. Os franceses irão ser confrontados com escolhas difíceis, mas é um povo que está habituado a fazê-las. Entre 1844 e 1864, Notre-Dame foi sujeita a uma restauração que na altura foi bastante controversa.

Em 2014, o Museum of Fine Arts Houston, fez um exposição com as fotografias de Charles Marville, que tive oportunidade de visitar. No início dos anos 1860s, Marville foi nomeado fotógrafo oficial de Paris e documentou o projecto de reconstrução da cidade, quando a cidade medieval foi arrasada para dar lugar a uma urbe planeada e modernizada.

Aqui vos deixo uma foto do pináculo de Notre-Dame tirada por Charles Marville, que está disponível no espólio da Biblioteca do Congresso americano. Ontem o pináculo caiu, mas brevemente irá ser re-erguido.



Um-dó-li-tá

Diz o meu PR de Portugal:
“Caro Presidente Macron, meu Amigo:

Uma dor que nos trespassa o olhar e logo nos marca a alma, Paris sempre Paris ferida na sua Catedral em chamas, um símbolo maior do imaginário coletivo a arder, uma tragédia francesa, europeia e mundial.

De Lisboa um abraço sentido,
Marcelo Rebelo de Sousa”


Diz o meu PR dos EUA:


Eu não daria cavaco

Continuo a não perceber a fixação com Cavaco Silva. Eu compreendo que ele não consegue estar calado quando lhe colocam um microfone à frente, mas para que é que insistem?

Achei deplorável a forma como lidaram com o envelhecimento de Mário Soares e agora estou a achar o mesmo da forma como não largam Cavaco Silva. Cavaco Silva não faz parte da oposição, logo por que razão não o deixam em paz? Alguém perguntou ao Reagan o que achava do Bush e do Clinton? E a Sra. Thatcher também se pronunciou acerca dos PMs que a sucederam?

quinta-feira, 11 de abril de 2019

HeLa

Hoje de manhã, não sei por que carga de água pensei na Henrietta Lacks. Foi uma mulher muito importante, mas por uma razão muito triste. Tinha ascendência Afro-Americana e era mãe de cinco filhos; em 1951, foi diagnosticada com cancro cervical, tendo morrido nesse mesmo ano, aos 31 anos. As suas células de cancro, que foram recolhidas numa biópsia têm uma característica única: reproduzem-se infinitamente em placas de Petri. Sem a autorização de Henrietta, as suas céclulas começaram a ser usadas para investigação médica e são hoje uma das linhas de células mais importantes.

À tarde fui à National Portrait Gallery e, na Galeria onde estão os retratos dos Presidentes, há uma secção acerca da luta pelos direitos civis e encontrei um retrato d Henrietta Lacks, que aqui vos deixo juntamente com o texto explicativo. Se querem ler mais, há o livro que foi publicado há uns anos e que é mencionado abaixo. Na altura da publicação, em 2010, o Fresh air teve uma entrevista com a autora que podem encontrar aqui.



quarta-feira, 10 de abril de 2019

Quando nem os livros são nossos aliados.

Depois de resistir a berreiros, chantagens e ameaças, finalmente consigo fazer com que a minha filha se sente a ler em vez de ir para a PlayStation.
Ao fim de uma hora, chama-me para me mostrar esta passagem:

Já percebi

Não é que eu esteja grandemente preocupada com as nomeações de Cavaco--parece que ele já não é PM--, mas estava a pensar porque é que agora era importante voltar a haver tantas notícias acerca das nomeações dele. Eu percebo que não gostam do Cavaco, ele não se lembra de quem nomeou, e é muito mais fácil culpar o Cavaco pelos males de Portugal (Síndrome de D. Sebastião) do que exigir de governantes actuais que sejam mais competentes. Desculpem lá rebentar a vossa bolha de felicidade, mas défice não é medida de bom desempenho na economia. Se fosse, não seria necessário haver cativações. Elementar, meus caros...

Mas continuamos sem explicar a necessidade de voltar a investigar a governação de Cavaco e suponho que é porque não existe LexisNexis das notícias portuguesas. O LexisNexis é uma base de dados de notícias, legislação, e informação sobre empresas que existe nos EUA. Já existe há muitos anos, lembro-me de a usar há mais de 15 anos, quando andava a fazer doutoramento. Antes disso, nas bibliotecas, havia jornais em microfilme, que eu também usei. Faltando isso, procurava-se uma biblioteca que tivesse o que nós queríamos e a bibliotecária mandava pedir a uma biblioteca que tivesse que enviassem um fax ou um email com a fotocópia.

Aposto que ninguém digitalizou os jornais da altura do Cavaco e agora temos de lerpar com todas as notícias más daquele governo para que assim possam ficar arquivadas no Google. É isso, não é?

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Sorte, portanto

Ia para dizer umas piaditas acerca do nepotismo de antes vs. o de agora, mas não me parece que contribua para o meu dia. Para mim, o dever de um cidadão é duvidar de políticos, ou seja, é fazer aos políticos o que a sociedade faz às mulheres: tratá-los como incompetentes até prova em contrário. Efectivamente, é uma manifestação do meu gene português avariado. Em Portugal, todo o homem que chega ao topo é um génio. Ui, que sublime habitarmos o mesmo espaço e tempo de tal gente...

Adiante, que ainda me dizem que o período está para me vir. Ora, acordei às 3:45 da manhã, depois de uns dias cheios de stress. No trabalho, deixei instruções detalhadas de como actualizar as minhas coisas para a equipa não andar às cegas, mas o meu colega olhava para mim de soslaio, sorrindo, e a dizer "It ain't gonna happen!" Eu repsondo que o que ele faz com aquilo é problema dele; o meu é deixar o meu trabalho em ordem. É apenas uma maneira de gerir o meu nível de stress.

Por falar em nível de stress, tenho tendência para a paranóia e pensar no que corre mal. Por exemplo, ontem ao jantar deixei instruções com uma amiga do que fazer se eu morrer e o meu cão ficar no hotel de cães órfão. Ai, era por isto que eu não queria ter mais cães. É que com a idade, não é só o gene português que anda avariado, é tudo o resto que me compõe, mas uma coisa que funciona cada vez melhor é a profunda necessidade de controlar tudo.

Talvez para me redimir das minhas obsessões, cultivo também o papel de controladora falhada, pois ainda não fiz os impostos, o prazo termina no dia 15, e não estou em casa. Vou ter de submeter um pedido de extensão do prazo, mas é preciso saber quanto me retiveram na fonte e depois fazer uma estimativa de quanto devo. Ontem não encontrei o formulário W2 que contém o total de rendimento e retenções.

Outra coisa que ainda funciona bem é o facto de me recordar com bastante lucidez que guardei o dito, como sempre faço todos os anos. Se calhar, quando chegar à idade do Prof. Cavaco--79 anitos, que num homem em Portugal é muita fruta, então a esperança média de vida em 1960 dos homens nem chegava a 61 anos -- já nem disso, que aconteceu há menos de 3 meses, me lembro. Mas tenho uma boa desculpa: mudei de casa, disso lembro-me bem.

No aeroporto, quase que fui a última a embarcar no avião porque devia ter saído de casa mais cedo. O ideal teria sido acordar às 3:30, mas, pronto, não correu mal. Já não me recordava a última vez que tinha viajado na American Airlines e nunca o tinha feito de Memphis, ou seja, não fazia ideia onde ficavam as portas de embarque. Se soubesse de antemão que eram ao lado das da United, teria ido pelo outro portão de segurança que é mais pequenino e aconchegante e quase que não tem gente.

Em vez disso, segui as instruções e fui pelo portão principal. Não é que me caiu o queixo quando vi tanta gente? "Fogo, é Domingo, o que é que estão a fazer no aeroporto?!? Não deviam estar a aperaltar-se para a missa? Vão todos acabar no inferno!" pensei eu, enquanto tentava imaginar promessas eficazes para não perder o avião. Desisti porque, primeiro, teria de encontrar Deus e eu não tenho paciência para a caça. Restava-me enfrentar a adversidade e, nestas alturas, o meu mote é: se é para falhar, falhas dando o teu melhor.

Correu tudo bem e eu até parecia uma máquina viajante bem oleada, em vez de uma mãe de cão à beira de um ataque de nervos. Não faço ideia como é que as pessoas com filhos os deixam crescer, ficar independentes, e tal, porque eu duvido que conseguisse e, no entanto, acho mal quando os pais não ensinam os filhos a ser independentes. Por exemplo, na preparação da minha viagem, tentei arranjar alguém para ficar lá em casa com o meu cão, mas a rapariga a quem perguntei disse-me que eu vivia muito longe e ela achava que não conseguia dar conta do recado porque ia gastar muito em gasolina. Ela ainda vive com a mãe e o normal é os alunos sairem de casa para a faculdade.

Ofereci $350 por duas semanas e ia deixar-lhe $100 extra se ela precisasse de levar o Julian à creche (custa $16 por visita até seis horas), caso não tivesse oportunidade de ir a casa algum dia. Depois de ela dizer que não estava inclinada para aceitar, disse-lhe que, se ela quisesse ficar com o namorado lá, eu não me opunha. Ou seja, por duas semanas, tinha de fazer como se vivesse em minha casa e fazer de conta que o meu cão era o dela. Recusou sem fazer contra-oferta que, nos EUA, é completamente estranho, pois gostam muito de negociar. E não achei assim tão pouco dinheiro, pois é metade de uma renda de um apartamento em algumas zonas.

Essa moça anda na faculdade a tirar o curso de psicologia. A primeira vez que a conheci, achei-a normal; bem, nem lhe liguei muito, mas pareceu-me uma pessoa competente. Na segunda vez, em casa de uma amiga comum, onde eu, ela, e a mãe tinhamos ido jantar, descubro que ela tem uma fobia qualquer e não consegue comer em público, nem sequer em frente do namorado. Não é um problema muito sério, diz ela, e quando foi ao psicólogo achou melhor focar-se nas questões que tem com o pai. Apeteceu-me descompor a mãe por estar ali serena a ouvir isto e não ter noção das implicações que aquilo tinha para a filha, mas trinquei a língua e pensei em campos verdejantes.

Quando vim para os EUA, uma das coisas mais interessantes que observei foi que, na universidade, uma das actividades organizadas era ensinar os alunos a comer de faca e garfo, mas era uma coisa voluntária, ia quem queria. O objectivo era prepará-los para as entrevistas de emprego que muitas vezes envolvem almoços ou jantares de negócios. É claro que abrangendo o corpo estudantil uma grande diversidade social e étnica, muitos alunos estariam em desvantagem em situações que envolvam etiqueta à mesa, daí a necessidade de uma workshop deste tipo.

É tão óbvio, que muitas pessoas descuram este aspecto da preparação dos jovens; mas por muito bom que seja o elevador social, não adianta grande coisa a quem é entrevado e não consegue lá entrar. Ah, apanharam-me, confesso que o meu plano maquiavélico era apanhar a rapariga sozinha e explicar-lhe como funciona a América, dizer-lhe que era importante que ela falhasse naquele aspecto da sua vida, mas também falhei. A nossa amiga comum, que tinha achado ser uma óptima ideia oferecer-lhe esta oportunidade, até porque ela e a mãe vivem uma vida bastante frugal, ficou como eu, sem compreender o que se passa na cabeça desta jovem, que é incapaz de fazer um sacrifício temporário para ganhar algum dinheiro extra.

Mas ela não é única; há muitas pessoas assim e não se consegue ajudar quem não se ajuda a si próprio. Felizmente tenho sorte por não ser assim e a sorte é tanta que quando cheguei ao meu destino fui passear com uma amiga e um pássaro fez caca em cima de mim. Ah, pá, desta promessa eu não me tinha lembrado. Só pode ser sorte, portanto!



sexta-feira, 5 de abril de 2019

Cabeças pensantes, népia

Vou correr o risco de parecer que estou a defender o indefensável, como me dizem frequentemente, mas o meu objectivo não é tanto defender, mas usar alguns conhecimentos de história e estatística para enquadrar o problema. Então cá vai: acho completamente idiota estarem a comparar o nepotismo do Governo de Cavaco Silva com o de António Costa.

Não é que eu seja a favor de nepotismo, mas somente em 1986 é que a escolaridade mínima em Portugal atingiu o nono ano de escolaridade. A geração dos meus pais, que é a geração de Cavaco Silva, só precisava de ter o exame da quarta classe. Cavaco Silva formou governo no final de 1985, com uma população bàsicamente analfabeta, não tinha muito por onde escolher.

Ou seja, não me choca--notem que digo que não me choca; não digo que acho bem--que tivesse sido preciso recorrer a familiares naquela altura, pois o número de pessoas com nível de educação superior era baixo e ainda por cima casavam-se uns com os outros. Mesmo assim, a comunicação social, em especial o Independente, criticou Cavaco Silva pela prática.

Agora, passámos os últimos 30 anos a gastar fortunas a educar a população, a incentivar pessoas a ir para a faculdade, até nos dizem que temos a geração mais educada de sempre, logo, já não se justifica ter de se recorrer a maridos, esposas, primos, cães, gatos, etc.

Ainda por cima, com todas as facilidades que temos hoje em adquirir informação, demorámos quase quatro anos a descobrir e a decidir que se calhar não era boa ideia. E nem o PCP, nem o BE acharam mal.

Temos canudos, mas não temos cabeças pensantes...

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Eles e elas

Passei as últimas semanas a trabalhar num texto para a Capital Mag, que foi publicado hoje. O texto é sobre o papel das mulheres na política portuguesa, mas gostaria de deixar mais umas ideias acerca da forma como nós interagimos com homens fora da esfera pessoal.

Como mulher que há mais de 20 anos convive profissionalmente numa área de homens, estou bastante agradecida aos muitos homens que me treinaram. A única forma de nós sermos boas profissionais é sermos treinadas por bons profissionais. Se a profissão é liderada por homens, então o nosso sucesso depende deles. Quanto mais depressa assumirmos isto, mais depressa subimos na profissão.

Não pensem que as quotas são tudo porque quando há poucas mulheres, o fracasso de uma tem muito mais peso na forma como a sociedade vê as restantes do que o fracasso de um homem. As quotas só fazem sentido se há mulheres competentes para assumir os cargos; se é para selecionar mulheres incompetentes, não nos ajuda. Posto isto, as quotas não podem ser só no topo, têm de começar nos níveis profissionais mais baixos para as mulheres poderem progredir na carreira.

Uma mulher competente sabe o papel que tem na sociedade e sabe que o sucesso da próxima geração depende do seu esforço pessoal e da impressão que dá. Eu sei que não é justo que elas tenham de sentir que têm de ser melhores e mais responsáveis do que eles, mas de todas as injustiças que há no mundo, esta é mais parecida com um privilégio: afinal, temos oportunidade de singrar numa área que escolhemos por vontade própria. Foi por isto que muitas mulheres e homens lutaram, há que honrar o seu esforço.

domingo, 31 de março de 2019

O mundo material


Os virgens e a Madonna

Com este episódio do cavalo, ganhei mais respeito pela Madonna e perdi respeito pelos portugueses. Em pouco tempo, a Madonna ilustrou exactamente como Portugal funciona: nuns sítios predomina o favorzinho a qualquer custo, noutros o desfavor; os critérios são completamente aleatórios e ao sabor dos autarcas. Eis Portugal no seu melhor.

Lamento informar os meus caríssimos conterrâneos que tudo tem um preço, mas a decisão de o pagar é que não é sempre afirmativa. É óbvio que a Madonna não iria achar piada a que lhe dissessem "Não", invocando as razões que foram invocadas e da forma como foi feito. Reparem que em "Like a Virgin", vídeo filmado em Veneza em 1984, numa altura em que a artista não tinha o estatuto que tem hoje, há um leão "à solta".

Se querem atrair investimento internacional, têm de aprender a trabalhar com o mínimo de profissionalismo. É legítimo que achem que o risco de levar um cavalo para um palácio é elevado, mas expliquem o vosso ponto de vista de forma a que as pessoas vos entendam, ou seja, metam um preço na coisa. Digam que querem que a equipa da Madonna apresente pareceres técnicos reconhecidos internacionalmente de que a actividade em questão não irá causar danos. Depois exijam que ela obtenha um seguro que cubra todos os danos que possam acontecer, deixando a propriedade em condição semelhante à encontrada. Digam também que querem ver o orçamento de obras em caso de danos tipo "worst case scenario" e querem que tais obras envolvam especialistas de renome internacional e materiais de qualidade equivalente à que tem a propriedade.

Obviamente, se o custo da actividade for muito elevado, a seguradora irá dizer não a Madonna. Se o risco for comportável, todos os cuidados serão tidos para que os danos sejam minimizados. Que eu saiba, a Madonna não é conhecida por destruir propriedades a seu bel prazer, logo do ponto de vista dela a forma como agiram é basicamente um insulto pessoal porque não há fundamento técnico, apenas impressões pessoais.

E agora vamos lá a ver quantos palácio não andam por aí a cair aos pedaços sem a ajuda de Madonna e as virgens ofendidas de Portugal andam aí a engonhar, a eleger políticos que mantêm o país estagnado, sem que se crie riqueza para os manter...

Adenda: Outro aspecto a considerar com o cavalo e a Madonna é a segurança da artista. Imagine-se que o chão efectivamente se partia e a artista se magoava. Quem era responsável? O dono da propriedade. Ainda bem que o Basílio Horta disse não, não é? Não, não é, porque ele disse não porque lhe deu na telha. Podia ser uma pessoa que lhe desse para dizer sim, como foi o caso de Fernando Medina com o estacionamento em Lisboa. E duvido que, se he dissessem sim, incluíssem uma cláusula no contrato a dizer que se desresponsabilizavam de todos os acidentes que acontecessem a Madonna enquanto na propriedade.

Ter Madonna em Portugal é um enorme risco porque se lhe acontece alguma coisa, ela mete um processo em tribunal por danos e convenhamos que ela vale muito dinheiro. Imaginem que ela acaba em frente de juizes tipo Neto de Moura et al. como vítima. Ia ser giro, ia...

Portugal não é um país preparado para assumir este tipo de risco, nem sequer os responsáveis se apercebem que têm de se precaver contra os mesmos. As coisas não correm pior porque a probabilidade de desastres é baixa por definição, mas a lei dos grandes números não perdoa.