terça-feira, 19 de setembro de 2017

Criaturas metafísicas 79

Não há respostas. Não faço perguntas. É por isso.

as time goes by


  1. "Deixemo-nos de inconsequentes optimismos: sem a reestruturação da dívida pública não será possível libertar e canalizar recursos minimamente suficientes a favor do crescimento. "            --- Manifesto dos 74, Março de 2014.
  2. "Sem reestruturação da dívida, o Estado continuará enredado e tolhido na vã tentativa de resolver os problemas do défice orçamental e da dívida pública pela única via da austeridade."  --- Manifesto dos 74, Março de 2014.
  3. "Sem reestruturação da dívida (...) Subsistirá o desemprego a níveis inaceitáveis, agravar-se-á a precariedade do trabalho, desvitalizar-se-á o país em consequência da emigração de jovens qualificados, crescerão os elevados custos humanos da crise, multiplicar-se-ão as desigualdades, de tudo resultando considerável reforço dos riscos de instabilidade política e de conflitualidade social , com os inerentes custos para todos os portugueses."                                  --- Manifesto dos 74, Março de 2014.
  4. "os signatários argumentam que não há outras opções. A verdade é que há, a melhor opção é o Estado obter, numa primeira fase, saldos orçamentais primários positivos e, numa segunda fase, saldos orçamentais nulos. Juntando a isto algum crescimento económico e alguma inflação, mesmo que ténues, o nosso rácio de dívida pública entrará em rota descendente e sustentável."  --- Erros Manifestos, Março de 2014.
Para já, o bom senso, não é mais do que isso, prevaleceu. Mas a missa ainda vai no adro.

domingo, 17 de setembro de 2017

Livre 'to move forward’?

Tenho andado a rever na Netflix a série Mad Men e a reler A Mancha Humana de Philip Roth. Don Draper e Coleman Brutus Silk são duas personagens fascinantes. Draper talvez seja a personagem com maior densidade e complexidade de uma série de televisão, e que eu pensava que só era possível alcançar nos melhores romances. Com Silk, Philip Roth conta de forma genial uma história da América, sobre liberdade individual, racismo e muito mais (a mancha também se refere à do vestido de Monica Lewinsky).
    
Ambos queriam ser senhores do seu destino. Ambos representam a liberdade individual de perseguirem os seus sonhos sem ficarem reféns de uma qualquer ordem social ou racial pré-definida por convenções sociais. Ambos entendem que a sua origem social, no caso de Draper, e racial, no caso de Silk, é um obstáculo à realização dos seus sonhos nesta vida. Ambos mudam de identidade. Draper (de facto Dick Whitman) toma a identidade de um colega morto na Guerra da Coreia. Silk, um negro de olhos verdes e tez clara, que passa muitas vezes por branco, renega a família, casa com uma judia e identifica-se também como judeu. Draper e Silk conseguem os seus objectivos e tornam-se homens de sucesso nas suas profissões.

O lema de ambos é ‘move forward’ e muitas questões morais se colocam em relação às suas opções. Draper renega o irmão e este suicida-se. Silk renega a família, onde era muito amado, e parte o coração da mãe. O seu irmão mais velho viria a ser professor e o primeiro director negro de uma escola, e um activista dos direitos civis. Nunca perdoou Silk.

Draper e Silk apaixonam-se por mulheres loiras com ascendência nórdica. Impressiona a importância que os americanos continuam a dar aos seus antecedentes: negros, escandinavos nas diferentes variações, judeus, germânicos… Silk não revela a Steena Palson, de origem islandesa, sem nunca mentir, que é negro – como lhe disse o treinador de boxe, ‘se ninguém te fizer a pergunta, não tens de responder…’. Quando está suficientemente confiante no amor deles decide apresentá-la à família. No regresso a casa ela confessa-lhe que ‘não pode’ – os pais nunca aceitariam. A revelação da sua origem tirou-lhe o seu grande amor. Pouco tempo depois casaria com uma judia, com quem teria quatro filhos brancos (os deuses pareciam apoiar a sua decisão de se tornar branco) e assumiria a sua identidade de judeu até morrer, em 1998. No entanto, suprema ironia, uns anos antes tinha sido expulso da universidade, onde ensinou durante 40 anos e onde foi reitor, em resultado de uma acusação de racismo por duas alunas negras (que alguns atribuíram a antissemitismo…).

Também Draper decide nunca contar a Betty Hofstadt (uma espécie de ‘Grace Kelly’), de origem alemã, a sua verdadeira identidade. Porque sabia que ela nunca o aceitaria: filho de uma prostituta que morreu quando ele nasceu, criado na miséria pelo pai proxeneta e que mudou de identidade. O pai de Betty nunca o aceitou, por ser um homem sem família. Draper está constantemente a relembrar e a ser confrontado com o seu passado. Ele chegou onde não imaginava que pudesse chegar (nem sabia que era possível chegar). Tornou-se numa pessoa muito diferente, mas esse passado muito diferente continua a fazer parte dele. Às vezes só para marcar um caminho muito diferente a seguir. 

O toque de midas dos plagiadores

A primeira versão que eu conheci da "Mãe querida" era um pouco diferente e era cantada pelas ruas pelos estudantes da Universidade de Coimbra, ao ritmo da Orxestra Pitagórica: "Mão querida, mão querida / nunca me dizes que não / não há mulher nesta vida / melhor do que a minha mão."
Soube agora que o autor do original, "mãe querida" era Ricardo Landum. Os estudantes de Coimbra transformaram merda em ouro.
Mão querida, mão querida
Nunca me dizes que não
Não há mulher nesta vida
Melhor do que a minha mão
Feliz de quem não é maneta
Tem duas mãos para tocar corneta
Feliz de quem compreendeu
Que só uma mão é que dá prazer
Graças a Deus que eu tenho ainda
A minha mão para evitar a sida
Cinco dedinhos, pura magia
Que sensação ao acabar o dia
Mão querida, mão querida
Nunca me dizes que não
Não há mulher nesta vida
Melhor que a minha mão
Com a minha mão, posso fazer
Todos os dias se me apetecer
Corno eu não sou, nem vou ficar
Com a minha mão eu vou me casar
Juntos para sempre, até morrer
Levo para a cova para me entreter
Feliz de quem não é maneta
Tem duas mãos para tocar corneta
Mão querida, mão querida
Nunca me dizes que não
Não há mulher nesta vida
Melhor do que a minha mão

Uma condecoração justa

Não estará na altura de a Assembleia da República emitir uma nota de louvor à DBRS por altos serviços prestados à pátria? A nossa vida, hoje, seria muito pior sem a acção da DBRS.
Marcelo Rebelo e Sousa devia encomendar uma medalha para lhes dar.

Quando pessoas ligadas ao BE e à ala irresponsável do PS, como Galamba, Ferro Rodrigues, Francisco Louçã, com a companhia de alguns outros andavam a promover e a assinar manifestos a dizer que a dívida portuguesa não podia ser paga, a DBRS nunca deixou de acreditar em nós e na nossa vontade de pagar as dívidas.

Uma lata musical

Sobre os plágios de Tony Carreira e Ricardo Landum, quem me conhece sabe que não vejo grande drama no assunto. Não consigo perceber muito bem quem é que foi prejudicado, e não havendo vítima custa-me que haja crime. Há a questão moral, mas essa é uma questão diferente da penal. E não entendo por que anda o Ministério Público a gastar recursos com estas coisas.
Dito isto, ao ler a reportagem do Observador sobre o Tony Carreira, fiquei a saber que o Ricardo Landum ganhou contra Gusttavo Lima um processo em tribunal brasileira. Qual a acusação? Uso indevido de uma canção da sua autoria. Enfim... se a lata pagasse imposto, não havia défices.

sábado, 16 de setembro de 2017

Os ideialistas

Ora, bom fim-de-semana!

Decidi inventar uma palavra hoje e a minha palavra é "ideialista", que é um casamento entre "ideia" e "ideal". O que é um ideialista? É uma pessoa idealista que acha que, por ter ideias, todas elas obedecem a um ideal. Isto vem a propósito da proposta do Bloco de Esquerda de integrar o rendimento predial com os outros rendimentos para caçar mais impostos. No meu caso, eu acabaria por pagar menos impostos. Será que sou a única?

Quando alguém com assento no Parlamento decide fazer este tipo de propostas, eu gostaria que a Comunicação Social fizesse o seu dever e perguntasse ou investigasse algumas coisas pertinentes, como o número de pessoas afectadas, a sua situação financeira, quanto se estima que irá ser a receita de impostos da modificação proposta, etc.

Depois, ao mesmo tempo que o Bloco de Esquerda quer aumentar os impostos dos senhorios, o Governo anuncia que quer implementar um programa de arrendamento acessível, o Programa Reabilitar para Arrendar. Como é que isto é compatível exactamente? Parece-me que objectivo das duas coisas juntas é aumentar os impostos aos senhorios para que estes reabilitem prédios (será que os custos das obras são dedutíveis nos impostos?), mas baixem as rendas para pagar menos impostos.

Caros jornalistas, se vocês não têm capacidade para fazer perguntas e enquadrar a notícia no contexto actual, então não é preciso ninguém vos pagar porque não criaram valor nenhum. Afinal, ficaríamos igualmente servidos com um comunicado de imprensa dos "ideialistas" em questão.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

RIP Cassini

Hoje a Cassini disse adeus e autodestruiu-se...


Não percebi nada

"Catarina Martins entende que os ganhos com rendas de casa, ações e juros de contas a prazo também deviam ser tributados em sede de IRS para beneficiar a classe média.

O Bloco de Esquerda quer incluir rendimentos prediais e de capitais na tributação do IRS, abrangendo assim ganhos com rendas de casa, ações e juros de contas a prazo. A proposta está a ser negociada com o Governo, avançou a líder bloquista em entrevista à CMTV."


Fonte: Eco

Eu tenho rendimentos prediais em Portugal, declaro no IRS -- anexo F do Modelo 3 --, e pago imposto a uma taxa de 28% sobre esses rendimentos; já pago desde 2008, se a memória não me falha.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Uma arte

One art

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

~ Elizabeth Bishop

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Incompetência ou maluqueira?

É estranho que este caso da AutoEuropa se tenha tornado polarizante, mas é em Portugal e aí qualquer coisa serve. Há, no entanto, uma coisa que me diverte bastante, pois quem "defende" a posição dos trabalhadores da AutoEuropa diz uma coisa e faz outra.

Por exemplo, ontem no Prós e Contras discutiu-se o caso. O painel era constituído por pessoas que não trabalham um horário regular normal, aceitam participar em eventos profissionais fora do horário de expediente e sem compensação, ou seja, se fossemos a contar as horas que trabalham excederia as 40 horas por semana. E também trabalham aos fins-de-semana.

E é isto que eu acho engraçado: se trabalhar 40 horas por semana de Segunda a Sexta, durante o horário de expediente normal, é o ideal, porque é que estas pessoas que aparecem na TV, rádio, e escrevem nos jornais se sacrificam? Será que são incompetentes ou malucos?

domingo, 10 de setembro de 2017

O novo ano escolar


Desde o meu último post (Novidades na educação?) tenho acompanhado discretamente a evolução das decisões do Ministério sobre as alterações propostas, sem qualquer informação que não seja a que tem saído na comunicação social, a qual nem sempre prima quer pela objectividade quer pelo conhecimento fundamentado sobre o que analisa.

Ao aproximarmo-nos do inicio do ano escolar de 2017-2018 as notícias tornam-se mais explícitas. No Diário de Notícias de ontem um artigo de página inteira da autoria de Pedro Sousa Tavares tem como título “O ano em que um quinto das escolas reaprendem a ensinar”. No Expresso, também de hoje, Isabel Leiria intitula a sua prosa: “Sumário: Este ano vamos ensinar de forma diferente”.

Como sobreviver a Irma



  • Procurar abrigo num sítio interior da casa, como um armário de roupa -- o mesmo que para um tornado.
  • Afaste-se de janelas.
  • Certifique-se de que tem bons sapatos calçados -- durma com os sapatos calçados.
  • Se tem capacete meta-o na cabeça; faça o mesmo aos seus filhos.
  • Encha a banheira, baldes, tachos com água.
  • Se tiver botijas de gás, meta-as na garagem, mas não as leve para dentro de casa, nem as deixe na rua.
  • Tenha um machado, uma serra, ou um martelo para poder abrir o telhado, caso procure abrigo no sótão se a sua casa inundar -- com Harvey, a população foi desaconselhada a ir para o sótão; era preferível ir directamente para o telhado, mas não havia tanto vento como com Irma.


Uma confusão total

Há dois dias escrevi-vos que a projecção do percurso do furacão Irma tinha mudado mais para oeste. O que notei foi que, consistentemente, a tempestade ia muito mais para oeste do que os modelos previam, ou seja, o erro era consistentemente na mesma direcção, o que voltou a acontecer nos últimos dois dias. Esta tempestade tem várias características que podem levar a este tipo de erro: foi a tempestade mais forte observada na Atlântico e é muito maior do que a maior parte dos furacões, ou seja, não há dados históricos que ilustrem o comportamento de uma tempestade deste tipo. Hoje, o New York Times publicou um artigo que discute o carácter dinâmico das projecções do trajecto de Irma.

Por haver tanta incerteza relativamente a dados e por ser uma tempestade enorme que está em movimento constante, há um risco acrescido para a população que advém das decisões das autoridades. Inicialmente, a população da costa leste da Florida foi aconselhada a evacuar para oeste ou norte, só que essa acabou por ser também a direcção da tempestade, ou seja, com o benefício do que sabemos hoje, muitas das ordens de evacuação acabaram por enviar pessoas exactamente para as piores zonas.

As autoridades aconselharam a evacuação de cerca de 5.6 milhões de pessoas. Houve falta de gasolina, as pessoas estão cansadas de andar de um lado para o outro, muita gente está presa em auto-estradas, e há um sentimento de confusão total. Nas zonas evacuadas, as autoridades informaram que a população não devia contar com uma operação de salvamento durante a passagem da tempestade.

Ao contrário de Harvey, cujas inundações transformaram estradas em autênticos rios e era relativamente fácil ir recolher pessoas com um barco, com Irma, o problema será o vento e a subida temporária de maré: as estradas ficarão obstruídas com detritos, o que as deixará intransitáveis. Terão de se usar meios aéreos ou terá de se limpar as estradas antes de se poder ir ajudar a população que não evacuou para locais seguros; mas com uma tempestade do tamanho de Irma, não se sabe muito bem o que é um local seguro.

Neste momento, projecta-se que o centro de Irma passe entre S. Petersburgo e Tampa, ou seja, vai subir a costa oeste da Florida. Esta costa é menos desenvolvida do que a costa leste, mas com as constantes ordens de evacuação não se sabe se, de um dia para o outro, não terá ficado mais povoada. O Governador da Florida já se rendeu: disse que o mais importante agora era rezar pela Florida...

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Já mudou outra vez

Se estão a acompanhar as previsões do trajecto do Furacão Irma, devem ter notado que nas últimas seis horas mudou para oeste. Por um lado, isto é bom para Miami; mas, se Irma entrar no Golfo do México, onde as águas são mais quentes, poderá ficar mais forte, em vez de enfraquecer, subir a Florida pelo lado ocidental e atingir a chamada Panhandle da Florida (é a faixa mais ocidental do estado). Aguardemos a actualização das 20 horas do fuso horário oriental dos EUA, uma da manhã em Portugal continental.