quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O eixo do mal

Por estes dias, uma amiga minha comentou que estava a resistir à tentação de fazer piadinhas sobre a aparência física do Trump. Sugeri-lhe que não o faça, lembrei o velho ditado "não lutes com um porco: vocês os dois vão acabar sujos de lama e o porco vai adorar".

Sou óptima a dar conselhos aos outros... Mas, pelo meu lado, se penso na cerimónia de tomada de posse do Trump que vai ter lugar amanhã, deparo-me com um terrível impulso de Schadenfreude. Rebbeca Ferguson é convidada para cantar na cerimónia de tomada de posse de Trump, e responde que só o fará se a canção escolhida for Strange Fruit, hihihihi, embrulha essa, Trump. A única estrela que vai cantar a solo é Jackie Evancho, uma miúda de 16 anos que se revelou no "America's got talent" a cantar "o mio babino caro". Hihihi, foi o melhor que se arranjou para cantar o hino nacional à frente do Trump, hihihi, uma miúda de 16 anos. Para o Obama, foi a Aretha Franklin. Hihihi. E o baile, hehehehe, quero ver quem arranjam para cantar no baile. Quero ver se quem canta também se comove profundamente como a Beyoncé (quem não se lembra?), imagino o casal Trump a dançar na terrível exposição daquele palco: nos antípodas da graça, do à-vontade, da harmonia, da sensualidade e da alegria do casal Obama. Quero ver, hihihihi. Por falar em casal Trump: a Melania. Hihihihi, a Melania, coitadinha da Melania, hihihihi.

Portanto, é este o gelo fino sobre o qual corro o risco de avançar: pensar mal da Melania por causa do marido dela. Desclassificar a Jackie Evancho (cuja alegria e naturalidade em tempos me enterneceram) só porque ela vai cantar o hino nacional na cerimónia de tomada de posse. Sujar o debate das ideias políticas com incursões na área do aspecto físico de uma pessoa e da sua vida privada.

"O Trump liberta o filho da puta que há em ti", dizia há tempos o Lutz Brückelmann, falando do contributo de Trump para a aceitação e até o elogio de discursos públicos à margem da decência e da humanidade, agora vistos como sinal de corajosa frontalidade. Mas a acção destruidora do fenómeno Trump vai mais longe: como descubro também em mim, faz vir à tona os piores instintos de quem se queria pessoa civilizada. Isto está a correr muito mal. Tenho de meter os travões a fundo: pensar, escrutinar os impulsos, pensar de novo.

Tempos difíceis, estes, quando me sinto desapontada comigo própria, e suspeito que aqueles com quem mais me identifico ideologicamente também não estarão muito seguros dos seus valores.

Por exemplo: será que a ausência de estrelas do mundo do espectáculo na tomada de posse do Trump é realmente sinal de protesto de cada uma delas? Ou há algumas que só não foram porque temeram ser marginalizadas ou perseguidas pela máquina da qual dependem? Será que está em curso uma espécie de controlo de "actividades antiamericanas" entre pares? Outra questão preocupante: a independência do nosso pensar. Temo o dia em que o Trump diga algo sensato, e muitos desatem a contradizer apenas por reflexo condicionado.

Corremos o risco de nos afastarmos dos nossos melhores valores de tolerância, generosidade, respeito pela liberdade alheia. Estamos cada vez mais separados uns dos outros - "deploráveis", uns; "elitistas arrogantes", os outros.

O mais perigoso eixo do mal é esse que marca a distância intransponível entre nós e os outros - e é ele o mais eficaz vector de destruição da nossa sociedade. Por muito antagonizados que estejamos, vamos ter de arranjar maneira de nos reencontrarmos e entendermos. A nossa democracia tem de ser um lugar de coexistência pacífica na diferença. E não se trata de aprender a indiferença e o cinismo, não se trata de aceitar passivamente. Trata-se do trabalho difícil e exigente de encontrar as palavras certas para o diálogo.

A Jackie Evancho, a tal miúda de 16 anos que amanhã vai cantar o hino nacional americano, pode tornar-se um símbolo desse desafio. Ela - a única artista que aceitou actuar a solo na tomada de posse do Trump - tem uma irmã mais velha que nasceu com corpo de rapaz, e se empenha na defesa da dignidade dos transexuais. Na mesma família, uma pessoa colabora com Trump e a outra é perseguida por muitos dos eleitores deste presidente. Se eles conseguem o amor, o entendimento e o respeito, nós também havemos de conseguir.



We the people

Amanhã, no Washington Post, a Amplifier Foundation irá comprar páginas de publicidade onde publicará arte para a Marcha das Mulheres, que se realizará no Sábado. O objectivo da campanha no Kickstarter era de $60 mil, mas já ultrapassou mais de $1,3 milhões.



Limites de um mercado competitivo

A respeito do Obamacare, é comum ouvir-se que, se houver competição, os preços serão mais baixos e o que falta ao mercado de saúde do Affordable Care Act, vulgo Obamacare, é que, em vez de haver mais competição, ela está a diminuir. Quem diz estas coisas confunde causa com consequência. Se o mercado tiver muitos participantes inicialmente, pode ser uma consequência da competição no mercado que eventualmente haja menos competição. Basta que as seguintes condições se verifiquem, por exemplo:

Prostitutas é com eles

Uma informação útil, caso venha a ser inserida no Trivial Pursuit, da boca de Vladimir Putin: não há dúvida que a Rússia tem as melhores raparigas de moral duvidosa do mundo.

“I find it hard to believe that he [Donald Trump] rushed to some hotel to meet girls of loose morals, although ours are undoubtedly the best in the world”

~ Vladimir Putin, citado na Bloomberg

Portugal, a eterna metrópole

Na sequência da recente viagem de António Costa à Índia pude mais uma vez constatar a singularidade do complexo colonial português. A maioria dos países ex-colonizadores sente uma culpa característica ou, no máximo, uma indiferença relativamente às nações que no passado colonizou. Portugal, pelo contrário, sente ainda hoje um estranho orgulho no seu império passado. O mito criado por Salazar permanece vivo, de uma forma que ultrapassa a mudança de regimes ou ideologias políticas.

O dito mito assentava em dois ou três pressupostos básicos. A suposta capacidade inata e única dos Portugueses para colonizar. A ausência de racismo no processo de colonização. A invenção do “mulato”.  Salazar fez realmente muito bem o seu trabalho de construção da identidade nacional. Apesar da existência de alguns laços, especialmente económicos, com as colónias anteriores à instauração do Estado Novo, o Império enquanto símbolo da soberania, da razão de ser do regime político vigente, e da mitologia nacional aparece em toda a força com a edificação do Estado Novo.

Olhemos para alguns números. Num ensaio sobre o 25 de Abril, onde aborda a questão da descolonização, Vasco Pulido Valente cita números que apontam para um total de 15.000 (quinze mil) habitantes de Angola e Moçambique com origem na metrópole em 1910. No final da II Guerra Mundial, os números ascenderiam, então, a 70.000 habitantes brancos com origem na metrópole. De acordo com o autor, apenas com o início da guerra colonial houve, de facto, um aumento substancial do número de brancos de origem Portuguesa nas colónias. Os motivos para a ausência de um número alargado de colonos são, para o autor, bastante prosaicos. Os Portugueses não pretendiam emigrar para a África Portuguesa (o que correspondia a um degredo económico à época). Pretendiam, isso sim, emigrar para países ricos, onde pudessem, naturalmente, alcançar os seus sonhos materiais, e ver-se livres da pobreza abjeta que grassava em Portugal. Países como o Brasil, primeiro, e, mais tarde, França ou Alemanha. E, recentemente, o historiador económico Nuno Palma tem desenvolvido excelente trabalho económico, referente sobretudo aos séculos anteriores, que corrobora no essencial esta visão.  O “império colonial português” durou na verdade 20 anos (dos anos 50 aos anos 70), sendo que metade deste tempo foi em guerra para não se desintegrar. Por outras palavras, nós nem quando éramos metrópole éramos metrópole!

É, pois, frequente (e interessante) vermos peças jornalísticas – como as que se repetiram durante a última viagem do primeiro-ministro – a aludirem à forma como ainda hoje se sente de forma fortíssima (!) a presença portuguesa em Goa, Macau, África e no Brasil.

As peças jornalísticas da semana passada foram especialmente ridículas. Uma peça de uma estação de televisão aludia à emoção de se sentir Portugal do outro lado do mundo, nas ruas de Goa. Logo de seguida, entrevistada uma prima de António Costa, esta teve de falar em inglês, uma vez que não sabia português. O semanário Expresso apresentou uma entrevista ao Ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, onde este referia o habitual estribilho que Portugal deveria aproveitar estes fortíssimos laços culturais passados para se estabelecer como porta de entrada do investimento indiano na Europa. Esta expressão não será estranha para ninguém. Já todos ouvimos – inúmeras vezes – que Portugal deve aproveitar estes “laços” coloniais passados para se posicionar como porta de entrada na Europa para investidores Brasileiros, Angolanos, Indianos ou Chineses. Eu própria cheguei a aprender na escola e a debitar em testes – em pleno século XXI – que Portugal deveria aproveitar a sua posição atlântica e ser uma plataforma giratória entre a CPLP e a UE. Este é, pois, o grande desígnio geopolítico de Portugal!

No fundo, a expressão “porta de entrada” revela simplesmente que esta gente acha que Portugal deve continuar a ter um papel de metrópole a cumprir, onde os laços comerciais são exclusivos com Lisboa, que, depois, tirará benefícios de revenda os produtos e serviços das colónias. Manuel Caldeira Cabral, entre muitos outros, acha mesmo que um investidor milionário indiano – que não sabe português (nem a prima do Costa sabe!) – quando quer investir na Europa (por exemplo, na Polónia) deve primeiro fazer escala em Lisboa, em vez de ir directamente onde quer. Dizem-me, “sim, mas no caso dos investidores brasileiros ou angolanos, a língua é um facilitador importantíssimo”. Bem, eu lamento desiludir os meus leitores, mas creio que isso é igualmente uma fantasia.

Olhemos para o caso do Brasil. De facto, é o país onde mais se fala português. Mas, dada a sua independência tão mais anterior, percorreu uma história independente de Portugal que os Portugueses parecem esquecer. Foi, por exemplo, um fortíssimo destino de emigração de italianos, alemães, holandeses e japoneses, os quais contribuíram para o enriquecimento cultural, económico e social do país. Nas zonas mais ricas do país (nomeadamente nos estados do Sul), existem comunidades completamente bilingues, que mantêm laços culturais e económicos com os seus respectivos países de origem. Para além disso, qualquer pessoa com experiência em grandes universidades Americanas, testemunhará o enormíssimo número de Brasileiros que lá estudam e se preparam para tomar as posições de destaque no seu país de origem.

Por tudo isto, a ideia de que um investidor da elite Brasileira virá a Lisboa “picar o ponto”, e pedir a autorização à metrópole, para entrar no mercado Europeu, é simplesmente risível. Digamos que um país com uma Justiça em frangalhos, um código fiscal sem qualquer previsibilidade, impostos altos, e uma população pouco educada é de qualquer utilidade apenas porque fala a mesma língua parece-me no mínimo duvidoso.


Será isto culpa de uma propensão portuguesa para mitos, um trabalho de propaganda do Estado Novo muito bem feito, uma ausência de “julgamento” histórico e público do real papel das figuras e elites do Estado Novo (Adriano Moreira passa hoje no espaço público Português por um  “grande humanista”)? Falta ainda uma reflexão nacional sobre a extensão real do racismo nas colónias (recomendo, a este propósito, o magnífico livro de Isabela Figueiredo “Caderno de Memórias Coloniais”). Não sei.

As mortes ilegais

Primeiro o papel. A autorização. O concurso. O procedimento. A norma. "O que temos de exigir aos gestores é o cumprimento rigoroso das normas, fazendo o seu trabalho, que é salvar vidas." Depois, vamos salvar vidas. Depois. Nunca antes. Se morrer antes, foi uma morte que não cumpriu o procedimento. Uma morte ilegal, portanto.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

My two cents sobre a TSU-gate

1st cent - É oficial (pelo menos reconhecido pelo governo) que o aumento do salário mínimo foi excessivo e coloca dificuldades às empresas, sendo necessário dar-lhes um bónus para que não haja efeitos nefastos no desemprego.
2nd cent - O desconto na TSU não se aplica a novas contratações. Portanto, é também oficial, quem estiver desempregado que se foda.

What else

I have grown to see myself in the mirror
not recognizing who it was I was meant to be.
I recall the past with lingering details,
but the clarity I seek gets lost in the present.
What other people could have inhabited me?
You say "Go forth, search from within."
but there is nothing else that I wish to see.
My past is gone, a present unforeseen,
my future barely glimmers,
what else is there to be?

P.S. After reading James Schuyler

Um estado de espírito

É mais ou menos como Portugal...

As traseiras: notem o oleandro todo queimado do gelo que tivemos recentemente. 


À frente da casa: só metem água...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Preparos

Em Washington, D.C., prepara-se o dia da inauguração, esta Sexta-feira, de Donald Trump, que será inaugurado com um nível de aprovação muito baixo: cerca de 40%. Na rádio de manhã, disseram que há mais pedidos de autorização para a entrada de autocarros no Sábado do que na Sexta-feira, logo prevê-se níveis de protestos muito altos.

Especulava-se que o Presidente irá ter um discurso em que pede que o país se una, como fez no seu discurso de aceitação, mas o maior interesse será suscitado pelos tweets que se seguirão, pois, se for como antes, prevê-se que o Presidente acuse os media de incitar e organizar os protestos. Dizia o apresentador do programa de rádio 1A, que os protestos serão uma mostra da Primeira Emenda da Constituição, a que consagra a liberdade de expressão.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Uma noite normal

Um destes dias, num grupo fechado de pais com crianças diabéticas, pediram-me para escrever sobre a experiência da minha filha com a bomba minimed 640G, da Medtronic. Como pode ter interesse para mais pessoas que não estejam nesse grupo, reproduzo aqui o post.

A minha filha foi diagnosticada em Junho de 2016 a passar dos 7 para os 8 anos de idade, com DT1. Como tinha mais de 6 anos, ficámos com a ideia de que teria de esperar alguns anos pela bomba. Assim encomendámos, por nossa conta, a Minimed 640G com o GCM. Recebemos a bomba no dia 10 de Agosto, mas o sensor do GCM só veio em 29 de Setembro. Também quase desde o início desta aventura que temos o Libre como medidor contínuo. Ainda antes de ser autorizado em Portugal, íamos comprá-lo a Espanha.

Durante Agosto e Setembro, usámos a bomba em combinação com o Libre. Aí, sinceramente, não me parece que esta bomba seja diferente de qualquer outra bomba normal. É intuitiva e fácil de usar e melhora sensivelmente a nossa qualidade de vida quando comparado com as várias injecções diárias.
A cada refeição, indicamos quantos hidratos de carbono (ou quantos equivalentes) e a bomba automaticamente converte isso em unidades de insulina. Tem diversas modalidades de injecção (tudo de uma vez ou ao longo de um determinado tempo) que se ajusta de acordo com os valores de glicemia. Não me parece que isto seja muito diferente do que é feito com qualquer outra máquina. Tem uma vantagem que as outras máquinas não têm que é poder ser levada para a piscina. Mas, na verdade, a minha filha prefere quase sempre tirá-la.

Entre as refeições, vendo os valores do Libre, íamos ajustando a basal, aumentando ou diminuindo as doses (ou até suspendendo) consoante os valores estivessem em alta ou em queda.
Verdadeiramente, a grande diferença veio a partir do momento em que tivemos o GCM. A partir desse momento o Libre foi para a gaveta. Com o GCM a medir de 5 em 5 minutos os níveis de glicemia, a máquina consegue prever quando é que a criança vai entrar em hipoglicemia e, nesse caso, suspende a administração basal. Depois de os valores de glicemia estabilizarem e desaparecer o perigo, a máquina retoma a basal.

Por outro lado, a máquina tem uma série de alarmes, que podem ser desactivados se não os quisermos, que avisam quando os valores estão a subir (ou descer) muito depressa, ou quando passam um determinado valor. Por exemplo, a nossa máquina apita sempre que os valores estão acima de 250.

Durante a noite, o impacto é muito maior porque nos permite arriscar um pouco mais para garantir valores de glicemia baixos. O perigo das hipos é muito limitado. Quando a máquina prevê que passado meia hora os valores de glicemia vão ficar abaixo de 80, ela suspende a basal. E se caírem abaixo de 60 dispara uma sirene (esta é que podia tocar mais alto para ter a certeza de que nos acordava…). Estes são os valores que eu programei. A médica queria que em vez de 80 e 60 tivéssemos 90 e 70. Mas a minha experiência diz-me que é muito raro os valores caírem abaixo de 70 e quando caem, rapidamente sobem.

Ao contrário da maioria dos pais, eu quando verifico a meio da noite a glicemia, não é com medo de uma hipo, mas sim para ter a certeza de que os valores estão baixos. Se não estiverem baixos eu dou uma pequena dose de insulina extra para os baixar.

Hoje foi uma noite bastante normal e a Ana Laura acordou com 91, como podem ver na primeira foto. Tipicamente acorda com valores entre 90 e 110. No monitor, podem ver uma parte que está a laranja. Isso indica que a bomba esteve suspensa entre as 7h10m e as 8h20m. E fê-lo automaticamente para evitar que os valores caíssem abaixo de 80. E, na verdade, o valor mínimo desta noite foi 81, um pouco antes das 8 horas da manhã.

Na segunda foto, eu mostro como foi a noite desde as 3 da manhã. Eu acordei às 3h30m, por mero acaso, e aproveitei para ir ver os valores. Como estavam na casa dos 140, eu dei uma pequenina dose para os obrigar a baixar um pouco mais. Podem ver o que se passou a seguir. Rapidamente desceu para 120, onde se manteve até às 5.30, depois desceu para 100. Onde ficou até às 7, e depois ia descer para 80 (ou um pouco menos), mas a máquina suspendeu e evitou que os valores caíssem. Assim, quando acordou tinha 91.

Portanto, tanto quanto consigo perceber, sem usar o GCM, esta bomba é tão boa ou tão má como as outras. Umas terão os menus mais simples, ou mais fáceis de usar, outras darão para ligar a smartphones e coisas assim. Com o GCM, neste momento, esta será a máquina que nos permite gerir isto tudo com a maior eficácia possível. 

Já agora, no Natal, a Ana Laura comeu tudo o que quis e quando quis (diga-se que ela é muito pouco comilona). Simplesmente, sempre que comia dava a insulina correspondente. Se, por exemplo, quisesse amendoins, nós limitávamos a subir (bastante) a basal, para ela poder ir comendo sempre que quisesse. E, claro, confiávamos na máquina para suspender se fosse necessário ou apitar se os valores subissem demasiado.

Quando ela comia coisas cuja composição de hidratos de carbono e açúcares desconhecêssemos, como filhós, jirimus, ou assim, dávamos "a olho" e depois se os valores começassem a subir demasiado, imediatamente dávamos uma correcção. Se caíssem a máquina suspendia e se continuassem a cair, como ela gosta de passas de uva, era isso que comia.
Na última medição, a Ana Laura tinha uma HbA1c de 6,3%. Vamos medir novamente em daqui a 1 ou duas semanas. Depois dir-vos-ei os estragos do Natal.

A 670G ainda é melhor, mas como só está autorizada para maiores de 14 anos (e apenas nos Estados Unidos) para já não penso nessa

Criaturas metafísicas 31

1.      As três bruxas de Macbeth descreveram-lhe a sorte, em coro.

Um erro

Cícero, talvez o maior orador da Antiguidade, usava sempre uma técnica: centrava o discurso num ponto (ou pontos) em que ele realmente acreditava. Os argumentos racionais, a lógica, de pouco servem se o orador não acreditar convictamente no que diz. O que convence é a convicção, assim pensava este génio político.
Cícero que me perdoe, mas lembrei-me disto a propósito da posição oficial de Passos Coelho e do PSD relativamente à baixa da TSU acordada em sede de concertação social. É um erro político, porque Passos não acredita nos argumentos que está a apresentar e, por isso, não convence. Quando muito, convence os eleitores fiéis do partido e os que detestam a geringonça. Fora isso, não vai conquistar um voto que seja dos flutuantes. Pelo contrário. Vai afugentá-los. É uma jogada política descarada, com objectivos demasiado óbvios - entalar a geringonça. E a política para ser eficaz depende da perspicácia que esconde.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

em nome de quê?

Ontem estive na prisão da Stasi em Hohenschönhausen. A visita começou com um filme sobre a história da RDA e daquela que era a pior prisão da Stasi.
No pátio, em frente à maquete que mostra a área de acesso reservado (na foto, a área em branco), no centro da qual se encontra a prisão (cinzento), e as casas à volta (cinza), contam-nos que os guardas da prisão viviam nessas casas, e ainda vivem. E depois, como se não fosse nada, acrescentam: "mas entretanto já se habituaram ao facto de haver antigos prisioneiros a fazer as visitas guiadas, e já não vêm cá fazer distúrbios".



Nos mapas da RDA, esta zona estava marcada como terrenos baldios. E de certo modo continua a sê-lo, como pude verificar após a visita, quando procurava a casa Lemke, de Mies van der Rohe, que é nesse bairro. Enganei-me ao perguntar a direcção do museu a uma senhora que estava a entrar em casa: em vez de perguntar pela Oberssestraße, a rua da famosa casa do arquitecto, disse Genslerstraße, que é a rua da prisão. Estávamos a 300 metros do local, a senhora reconheceu perfeitamente o nome, mas não conseguiu dizer-me onde era.

Passámos da maquete do pátio para o edifício onde os soviéticos instalaram o primeiro campo prisional, no fim da guerra. Era na cave de uma antiga cozinha industrial, um sítio insalubre, húmido e sem janelas, a que chamam "o submarino". Os prisioneiros - desde os suspeitos de serem nazis aos que se opunham ao regime comunista - passavam semanas amontoados em quartos sem ventilação, com um balde a fazer de sanita e um estrado de madeira com palha onde dormiam na posição obrigatória: de costas, com as mãos em cima da barriga. A luz não se apagava nunca, e se um prisioneiro não estava a dormir na posição certa os guardas gritavam e batiam nas portas de modo a acordar todos os prisioneiros. Os interrogatórios eram feitos durante a noite - a tortura do sono era uma constante para todos.

A população também cai

Ao ler o último post do Zé Carlos, recordei-me que ainda não vos mostrei, nem falei do trabalho de Norwood Viviano, que tive oportunidade de ver na exposição Visions and Revisions: Renwick Invitational 2016, da Renwick Gallery, parte do Smithsonian American Art Museum, em Washington, D.C.

Uma das instalações de Viviano, Global Cities, ilustra a evolução da população de diferentes cidades do mundo durante vários milénios: no chão está desenhado um planisfério e, sobre as cidades principais, estão penduradas orbes de vidro cuja altura representa o tempo e a população é representada por círculos concêntricos que se sobrepõem.

À primeira impressão, as formas de vidro parecem naves extraterrestres que pairam sobre o mundo, mas na parede encontramos uma legenda em forma de gráfico, identificando o tempo no eixo vertical e as cidades pela forma da orbe ao longo do eixo horizontal.

A maior parte das cidades têm uma população que evolui numa forma parecida com um V, mas os lados não são lineares. A cidade mais interessante é Beijing, pois a sua população aumenta e diminui ao longo do tempo. Roma tem uma forma muito alta, em que se identifica um aumento -- o Império Romano -- e depois uma diminuição seguida de um ligeiro aumento durante os séculos mais recentes.

Tirei algumas fotos que vos deixo em baixo, mas podem ver imagens mais detalhadas na página de Internet do artista.