terça-feira, 19 de novembro de 2019

Investir por amor

Estava a ouvir o Conversas Cruzadas e achei que a questão do englobamento do rendimento das rendas não ficou devidamente esclarecida porque quando falaram na comparação internacional foi enquadrada em termos de taxas marginais de imposto. Essa abordagem está errada quando se compara com os EUA. Como vos expliquei no post anterior, nos EUA, os senhorios pagam imposto sobre a renda líquida, ou seja, o lucro que fizeram nesse ano na exploração da propriedade. Como sou residente nos EUA, tenho de declarar a minha actividade como senhoria em Portugal ao Internal Revenue Service, nos EUA. E também a declaro à AT, em Portugal, obviamente.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A generosidade

Sérgio Vasques, antigo Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, é citado no Eco, pois considera que uma taxa de 28% sobre as rendas é generosa. Ora só o será se o senhorio tiver recebido o imóvel de herança em óptimo estado de conservação, pois assim tem receitas, mas poucas ou nenhumas despesas. Em muitos casos, não compensa ser senhorio e colocar a propriedade a arrendar quando se tem de pagar 28% de imposto sobre a renda líquida.

Já tive várias propriedades que arrendei nos EUA e o regime aqui é muito mais generoso. Da renda posso deduzir 100% dos custos com juros, manutenção, obras, impostos locais, seguro, despesas de gestão e publicidade, e amortização do valor da propriedade. O imposto de rendimento incide sobre a renda líquida destes custos. Depois quando vendo a propriedade, o imposto sobre a mais valia incide sobre o valor da venda líquido dos custos de venda, das perdas acumuladas, e do valor não-amortizado da propriedade.

O regime americano parece-me ser justo, pois considera todos os custos de ter uma propriedade arrendada e o imposto incide sobre a renda líquida desses custos, que é efectivamente o lucro que o proprietário tem.

Tenho uma propriedade em Portugal que arrendo e tenho de pagar mais de 450 euros em IRS. A mesma propriedade no regime fiscal americano acumula uma perda -- tenho de a declarar nos EUA, pois os americanos exigem que o faça. Usei as perdas da propriedade em Portugal para reduzir as receitas das propriedades americanas. Agora já não tenho propriedades de investimento nos EUA pois foram vendidas, logo as minhas perdas acumulam de ano para ano.

Um dia destes, vendo a propriedade portuguesa só para não ser tão favorecida pela generosidade dos 28%; depois deixo de pagar impostos aí.

Por falar em generosidade portuguesa, há mais de um ano recebi três papeis da Autoridade Tributária por via do meu procurador fiscal. Devo menos de três euros em juros, disseram-me. De onde vêm esses juros? Ora, a companheira do meu inquilino pediu-me para ser adicionada ao contrato. Quando modifiquei o contrato, a AT devolveu-me os 20 euros que eu tinha pago quando declarei o contrato original e depois cobrou-me 20 euros mais juros pelo contrato modificado, sendo que a devolução dos 20 euros foi usada para amortizar o novo valor do contrato, ou seja, agora só devo os juros.

Não percebi a lógica da coisa, ainda por cima porque houve três papelinhos diferentes que alguém numa repartição das Finanças decidiu produzir por causa disto. Ainda pensei em ir às Finanças na última vez que fui a Portugal perguntar quem tinha sido o idiota que perdeu um tempão a fazer aquilo, mas depois pensei que não devia ser tão generosa com o meu tempo.



terça-feira, 12 de novembro de 2019

Caixote do lixo

Ao discutir com um amigo facebookiano o abandono do bebé no caixote do lixo argumentei que um caixote do lixo é um sítio bastante frequentado e, como tal, a probabilidade da criança ser encontrada viva é bastante alta, só tem o problema de ser considerado um sítio sujo. Depois comecei a pensar no que é um caixote do lixo.

Para muita gente, um caixote do lixo é um sítio onde nós vamos deixar coisas que já não queremos ou que não têm utilidade, mas para outras pessoas, os caixotes do lixo são locais onde vão buscar coisas, inclusive comida, que normalmente associamos a locais limpos. Por exemplo, em Nova Iorque o movimento freegan é bastante popular e neste movimento, as pessoas procuram por comida em caixotes do lixo.

Não estou a defender que se deixem recém-nascidos em caixotes do lixo, mas há alternativas bem piores.

domingo, 10 de novembro de 2019

Um hotel ambientalista

Em Cambridge, estou num hotel da cadeia Hilton, em cujo programa de fidelização de clientes participo. Quando entrei no quarto fizeram-me uma proposta ambientalista: se eu estivesse aqui mais de duas noites, que estou, poderia prescindir do serviço de limpeza de quartos o que pouparia recursos ao ambiente porque não me mudariam as toalhas, nem me fariam a cama. Em troca, dar-me-iam 1000 pontos no programa de fidelização.

Fiquei a pensar neste negócio durante horas porque é um enorme dilema moral. É que se a empregada não vem cá fazer a cama, então há também menos trabalho, logo o Hilton paga menos em salários. Por outro lado, a taxa de desemprego está a níveis muito baixos, mas não é uniforme para toda gente, logo sei lá se estas pessoas têm facilidade em arranjar emprego.

Eu que sou ambientalista, decidi não salvar o ambiente. É a vida, não se pode ter tudo.

O Ídolo Eterno

Como está frio em Memphis, vim dar um pulo a Boston/Cambridge onde a coisa é mais suportável. É a segunda vez que visito. A primeira vez que cá vim foi em 2000, pois queria ir a Portugal mas os voos de Oklahoma para Lisboa custavam mais de $1200, o que excedia um mês da minha bolsa de estudo. Então tive a brilhante ideia de vir de carro até Boston e apanhar um avião para Lisboa, via Londres por cerca de $600.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Casa agradável

O aquecimento central está avariado. Tudo começou quando um dia cheguei a casa e senti um cheiro a queimado tão estranho que chamei os bombeiros. Chegaram em menos de cinco minutos, apesar de eu ter telefonado para o número que não era de emergência. Senti um bocado de vergonha em ver tanta gente a ter trabalho por minha causa, mas pago impostos à cidade e ao condado, um pouco mais de $2100 a cada um, logo para alguma coisa devem servir.

Depois de visitarem o sótão no meu quarto, os bombeiros disseram-me que um motor de qualquer coisa tinha avariado. Quando se foram embora, fui à página de Internet da empresa que fez a garantia da casa e meti um pedido para enviarem alguém para fazer as reparações. Paguei $75. A garantia da casa foi comprada pela antiga dona, mas acho que não vou renovar. Custa mais de $600 por ano.

Ao outro dia recebi um telefonema de uma empresa que trata de ar-condicionados e sistemas de aquecimento para marcar uma hora para o técnico cá vir. No dia combinado apareceu o Fabian, que não conseguiu fazer nada porque não tinha a peça necessária, dado que o meu sistema não é muito comum. Na segunda visita, durante a tarde desta Segunda-feira que passou, também não conseguiu arranjar porque faltava outra peça.

Entretanto arrefeceu um bocado e não é anormal eu acordar com a temperatura dentro de casa a 15 graus centígrados. Bem sei, bem sei, quem dera a muita gente em Portugal ter este problema, mas eu já não estou habituada. Eis que hoje o meu chefe começa a falar do tempo que está para vir com alguns colegas. Para a semana, a temperatura mínima vai descer até aos -8C. Devido a conflitos de calendário não dá para marcar para o Fabian cá vir antes de Quinta-feira da semana que vem.

Telefonei à companhia da garantia da casa alarmada com o tempo, mas disseram-me que a empresa a quem eles deram o trabalho, a empresa do Fabian, só pode cá vir na Segunda-feira, que não dá para mim. Apesar de já terem a peça, o meu caso não tem alta prioridade porque a minha casa tem dois sistemas de aquecimento, dado que tem 253 metros quadrados. Então disse-lhes que ia telefonar a outra pessoa, ao que me responderam que não pagariam essa reparação. E eu disse-lhes que se acontecesse alguma coisa à casa também não me pagariam, logo é capaz de ser mais barato prevenir do que remediar.

Mais outro telefonema, desta vez para a minha agente imobiliária a ver se ela tinha alguém que me recomendasse. Deu-me o contacto de um senhor que mora perto de mim e que se disponibilizou a visitar a minha casa imediatamente. Saí do trabalho à pressa e cheguei dois minutos antes do técnico. Foi ver o sistema do primeiro andar e estava a funcionar bem. Já o do rés-do-chão precisa da tal peça, a que a outra empresa já tem.

Perguntei-lhe que risco corria com a temperatura a descer tanto e respondeu-me que os canos só rebentariam se estivessem temperaturas negativas por mais de 3 dias, mas podia deixar as torneiras a pingar e não haveria problema. Mas quanto custa a tal peça, perguntei-lhe. Respondeu-me que era muito cara, uns $300, o que para mim não é caro se me dá paz de espírito. Ofereceu-se a encontrar-me uma e a vir colocá-la amanhã, entretanto dirigia-se à porta da frente da casa e apressei-me a acompanhá-lo à saída.

Depois de lhe abrir a porta disse-lhe que não fazia ideia porque estávamos ali, dado que ele tinha entrado pela garagem que fica nas traseiras. Ah, também não sabia, disse que me tinha seguido, mas eu é que o tinha seguido, e olhou em redor, enquanto me dizia que a casa era muito agradável, tinha cores bonitas. Parecia em transe a admirar a casa.

Fomos para as traseiras e perguntei-lhe quanto lhe devia. Respondeu-me que nada, que tinha feito um favor à minha agente imobiliária. Mas tem a certeza, olhe que eu vivo numa casa agradável e tenho dinheiro para lhe pagar, argumentei. Ah não, não era preciso e se encontrasse uma peça, viria colocá-la amanhã. Por fim, disse adeus e que teve muito gosto em conhecer-me.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Viva, viva!

Os Nationals ganharam a World Series! Estou um bocadito triste porque os Astros perderam, mas os Nationals andaram pela TV esta semana porque, quando o Presidente Trump os foi ver jogar contra os Houston Astros em Washington, D.C. (os Nationals são de lá), o público desatou a cantar "Lock him up!"


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Mais vale

Mais vale a busca infeliz do que um destinozinho de pseudo-felicidade, que nos reduz a uma coisa rasa, frívola, e inconsequente. Alimente-se a ilusão e procure-se a profundidade que nos afoga em emoções e desejos impossíveis. Sinta-se plenamente, mesmo sem sentido algum porque nada tem ou pode ter sentido. Nada pode ser sentido a não ser aquilo que buscamos indefinidamente.

~ 25/3/2016

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Variedade de sotaques

Não sei se já vos tinha dito, mas depois de viver em Houston, onde a NPR passa programas de notícias a toda a hora, fiquei completamente sem paciência para ouvir música clássica na rádio. Prefiro mesmo estar a ouvir notícias. Não imaginam o quão anormal isto é porque a minha mãe chateava-me imenso de eu não ler jornais, nem ver o telejornal, e só ligava a filmes e música pop. Trinta anos depois e sou o completo oposto, se bem que não vejo TV, a não ser que esteja no ginásio no treadmill.

As estações locais membros da NPR, National Public Radio, normalmente estão situadas em universidades americanas. Por exemplo, havia uma na Oklahoma State University onde eu estudei (era a KOSU) e outra na Universidade do Arkansas onde trabalhei (a KUAF). Em ambas, passavam notícias logo de manhã, mais ou menos das 6 da manhã à 9 e depois a partir das 15 horas. O tempo entre estes dois blocos era consumindo por música clássica. Esta é a fórmula da estação principal da NPR aqui em Memphis, a WKNO, mas, como vos disse no outro dia, têm mais dois canais de HD (alta definição, será?).

O terceiro canal, o tal que passa a BBC World service, é o que me mantém mais calma. Para além de eu achar completamente sublime que se ouça tantos sotaques diferentes de inglês numa só rádio -- ele há os britânicos, os americanos, os indianos, os africanos, australianos, etc., e também há pessoas que falam inglês como segunda língua, que é o meu caso, -- aprende-se imenso de história, arte, cultura, economia, etc. Por falar em economia, sempre que eu ouço o Tim Harford, que é o Undercover Economist, fico completamente em êxtase. Ele tem um inglês tão lindo, que podem ouvir no programa da BBC, 50 Things That Made the Modern Economy.

Este fim-de-semana, um dos programas falava sobre se a matemática apenas descrevia a realidade ou se era uma coisa que existia e nós a descobríamos. É uma questão filosófica bastante interessante e, se os vosso filhos sabem inglês, aconselho vivamente a que partilhem este programa, o Crowd Science, com eles. Hoje, à hora de almoço passaram outro programa muito bom, o People Fixing Things, em que falaram de jogos online que têm uma componente lúdica, mas também servem para avançar a ciência, pois são usados para descobrir coisas como novas proteínas. Um dos entrevistados, bastante optimista, dizia que os computadores ao terem a capacidade de fazer as tarefas repetitivas, libertavam os humanos para pensar em problemas mais interessantes e criativos. A economia do futuro, dizia ele, era a economia pensante -- thinking economy.

Já não vivo em Portugal há mais de 20 anos, não faço ideia do que se ouve na rádio, mas acho que não há programas deste género. Aliás, até tenho dúvidas que em Portugal os apresentadores de rádio tenham uma grande variedade de sotaques e pontos de vista. E é pena, pois há bastantes países no mundo que falam português com sotaque diferente do nosso--bem, do vosso, porque me dizem bastantes vezes que o meu sotaque quando falo português já não é português.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Actualização de Garrett

“Foge, cão, que te fazem Barão! Para onde, se me fazem Visconde?”
~ Almeida Garrett

Não andes acordado, que te fazem Secretário de Estado! Mas eu mal o olho pisco e querem me fazer Ministro.

sábado, 19 de outubro de 2019

História Ambiental

Já disse aqui várias vezes que a área que escolhi para o meu mestrado e depois para o doutoramento foi problemas ambientais. Na altura, segunda metade da década de 90, apesar de se começar a falar bastante em ambiente em Portugal, principalmente por causa da CEE, a única cadeira dedicada ao ambiente na FEUC era Direito Ambiental.

Não sei se havia alguma universidade em Portugal onde fosse possível estudar economia e ambiente, mas mesmo que houvesse, eu não tinha dinheiro para ir estudar fora de Coimbra, nem sequer tinha notas, logo a solução era mesmo emigrar. E como adoro inglês, foi ouro sobre azul poder viver num país onde tenho o enorme luxo de poder falar e escrever a minha língua predilecta todos os dias.

Uma das melhores coisas que há nos EUA é os programas de rádio da National Public Radio. Em Memphis, a estação local da rede da NPR tem três canais em HD. Os primeiros dois alternam programação de música clássica e programas informativos ou de tópicos mais ligeiros; o terceiro canal tem quase sempre a emissão da BBC World Service.

Na BBC costumo ouvir diariamente o BBC Witness History, com o qual aprendo imenso: demora cerca de 10 minutos e é sobre um tema histórico. Esta semana, têm estado a passar episódios sobre História Ambiental. Se ouvirem estes últimos cinco episódios, ficarão bastante informados acerca de alguns dos tópicos mais importantes sobre como aprendemos o que sabemos sobre o ambiente.

Quando comecei a estudar nos EUA, era bastante idealista e lembro-me de ter dito ao meu orientador que o ambiente tinha de ser sempre preservado, mas ele disse-me que não. Havia um equilíbrio, mas esse equilíbrio não era um ambiente sem actividade humana. Ou seja, onde há raça humana ou outra raça qualquer, haverá sempre modificação do ambiente; nem sempre essa modificação é sustentável no curto prazo, mas a longo prazo, as espécies que abusam do ambiente acabam por sofrer reduções na taxa de sobrevivência.

Os últimos 100 anos são caracterizados por um enorme sucesso no aumento da sobrevivência da raça humana, mas o que é desconhecido é a população mundial de equilíbrio. Sabemos, no entanto, que é inferior à população actual.

Recomendo dois episódios desta semana: um sobre Norman Borlaug e o seu trabalho na selecção de espécies agrícolas resistentes a doenças e com maior rendimento agrícola através do uso de fertilizantes químicos, que foi tópico da minha cadeira de Conservação de Solos e Água. Estima-se que o trabalho de Borlaug tenha permitido a sobrevivência de mil milhões de pessoas, quase um sétimo da população mundial. O outro sobre Charles Keeling, que foi o primeiro cientista a medir a acumulação de dióxido de carbono na atmosfera, tendo este trabalho sido iniciado nos anos 50.




quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Contagem final

Ora, hoje são 16 de Outubro, que era o dia até ao qual iam contar os votos dos emigrantes. A ver se amanhã os jornais portugueses falam do final da contagem oficial dos votos. Já sabemos que nós emigrantes somos as ovelhas negras aí do burgo, mas a ver se o pessoal disfarça melhor porque parece mal serem tão mal-educados.


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Pela vizinhança

Um casal de vizinhos que mora perto de mim tem um enorme horror aos Democratas e frequentemente me explica que o partido Democrata não tem qualquer ideia do que os Estados Unidos são. Os meus vizinhos têm mais de 80 anos e são do tempo em que os Democratas eram o partido dos negros, da classe trabalhadora branca, e dos segregacionistas do sul dos EUA.

sábado, 12 de outubro de 2019

Feliz para sempre

Segundo o que relatam os jornais, depois do debate na RTP, André Ventura cumprimentou todos os representantes de partidos, mas Joacine Katar Moreira recusou-se a apertar-lhe a mão. Ele diz que ela lhe disse para desaparecer; ela diz que lhe disse adeus e levantou a mão. Nas redes sociais, ele pergunta aos seguidores se irá ter de aturar este "tipo de gente" por quatro anos; Joacine por seu lado diz que daqui para a frente lhe irá oferecer o tratamento do silêncio.

Os membros do Parlamento português representam os cidadãos portugueses e não os seus eleitores. Como tal, penso que o mais prudente não é evitarem-se, mas pedirem desculpa um ao outro porque dá ideia que reagiram a sangue quente. Ele deve ter ficado ofendido de ela não lhe ter apertado a mão novamente; ela não deve ter querido ofendê-lo, pois já o tinha cumprimentado antes.

Os dois deviam demonstrar serem pessoas maduras e fazer um favor a Portugal: dão um beijinho, fazem as pazes, e dizem que têm muitas opiniões diferentes, mas irão ultrapassar este mal-entendido e trabalharão um com o outro quando houver oportunidade.

E Portugal viveria feliz para sempre...

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Abstencionista e ausente

Desde há umas semanas, nos grupos de Facebook frequentados por emigrantes portugueses, notou-se um enorme interesse em participar nas últimas eleições. As pessoas perguntavam umas às outras como podiam votar, se já tinham recebido o boletim de voto, se tinham tido problemas em enviar por correio, se o boletim tinha sido devolvido, etc.

Parece que o governo português decidiu enviar boletins de voto com um envelope de retorno, em que a morada do remetente e do destinatário no envelope estavam pré-preenchidos na face do envelope e alguns correios não percebendo de como encaminhar a carta, devolveram para o remetente. Foi o que se pagou com alguns votos enviados do Reino Unido. Aliás os correios de sua majestade estavam a investigar o que se passava com os votos portugueses. Depois também houve problemas porque o envelope de retorno era pré-pago e alguns correios não o reconheceram. A modos que há uma petição "Também somos portugueses" que visa que o Parlamento passe uma lei que facilite o voto aos emigrantes.

Mas será que vale a pena? Os emigrantes tinham até 6 de Outubro para enviar os votos pelo correio, o que é difícil de comprovar porque um envelope pré-pago não leva carimbo, e os votos teriam de chegar a Lisboa até 16 de Outubro. Hoje são 9 de Outubro e o Presidente da República já indicou ontem que quer indigitar o Primeiro Ministro porque os votos já estão contados. Ainda por cima, Marcelo Rebelo de Sousa apelou ao voto antes da eleição e agora, pela sua atitude, apela a que não se contem os votos restantes. Depois quem não vota, os chamados abstencionistas, são maus.

Eu não votei. Quando contactei o consulado para pedir um boletim de voto lamentaram, mas já tinham enviado o boletim e já era tarde para actualizar a morada -- temos de o fazer 60 dias antes das eleições. Eu não sabia do prazo, logo não actualizei a tempo. O engraçado é que na Primavera passada os senhores da Autoridade Tributária enviaram-me um email a mandar-me limpar o pinhal porque era obrigatário os donos limparem os pinhais. Só que eu não sou dona de nenhum pinhal; mas sou recenseada, logo sou eleitora, logo porque é que o mesmo governo que me manda limpar um pinhal que eu não tenho, não me pode mandar actualizar a morada a tempo e horas?

Não se preocupem comigo, que sei cuidar muito bem de mim, pois para além de abstencionista, decidi ser ausente. Já não vou a Portugal desde Junho do ano passado, apesar de ter 30 dias úteis de férias por ano e também tenho direito a dois feriados flutuantes, quer dizer, que posso tirar quando me apetece, então 32 dias úteis livres por ano (são mais de seis semanas) na América, onde o capitalismo reina em força.

Desde a ultima vez que fui a Portugal, já fui a Nova Iorque três fins-de-semana longos, Washington, D.C., por duas semanas, Houston dois fins-de-semana longos, Nashville fim-de-semana longo, e agora vou passar um fim de semana longo a Bentonville, AR, para visitar o Crystal Bridges Museum, e depois vou passar um fim-de-semana longo em Miami, em Dezembro, e o meu hotel vai ser mesmo na praia--cheguei a dizer-vos que em Nova Iorque fiquei no Hotel Roosevelt uma vez e noutra fiquei no Park Lane, que é mesmo em Central Park, é só atravessar a rua?

Ou seja, desde que estive em Portugal, já gastei bem mais de 10 mil euros em viagens e Portugal não recebeu nada.