quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Dia 15

Que dia em cheio! A Theresa May levou pancada, o governo americano continua fechado, e soube que um poema do Álvaro de Campos/Fernando Pessoa foi parcialmente censurado num livro do décimo-segundo ano.

Esta última notícia recordou-mne de uma peça que apareceu numa revista de actualidades portuguesa, talvez a Sábado ou a Visão, já não me recordo. A peça tinha a ver com sexo e uma das pessoas entrevistadas era uma jovem que dizia que era precoce porque tinha perdido a virgindade aos 12 anos. Achei fantástico!

Aos 12 anos ela não tinha idade para dar consentimento para ter sexo, logo potencialmente estaríamos perante uma situação de abuso sexual, se o parceiro fosse muito mais velho do que ela. A peça não falava em nada disto, nem sequer o público se exaltou ou o Ministério Público foi investigar. Mas é importante proteger jovens de 17 ou 18 anos de uns versos do Álvaro de Campos...

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Dia 14

Os ânimos andam muito exaltados por estas bandas. Para além dos funcionários federais não terem recebido salário e o prazo para pagar as hipotecas deste mês acabar no dia 15, parece que nem o Congresso, nem o Presidente estão muito preocupados em encontrar uma solução. Amanhã, o William Barr, que é o fulano que o Presidente Trump nomeou para Attorney General, vai à entrevista de emprego no Senado. Estou curiosa por saber se vai seguir a mesma estratégia de Kavanaugh: ser mal-educado e projectar indignação.

Entretanto, o cerco em volta de Donald Trump continua a apertar, pois ficámos a saber que Trump teve uma reunião com Vladimir Putin em que não havia ninguém americano, nem a tradutora. Por falar em tradutora, não há detalhes oficiais das conversas de Donald Trump com Vladimir Putin porque Trump fica com os documentos dos tradutores e dá-lhes instruções para não partilharem o que ouviram com ninguém. É um bocado difícil de acreditar que ele seria ingénuo o suficiente para ter conversas que não devia ter através de um tradutor e achar que bastaria mandar calar a pessoa, mas até agora as pessoas que rodeiam Trump e o próprio têm demonstrado um nível de atrevimento tal que nos faz acreditar que tudo é possível.

O FBI continua a trabalhar apesar do governo fechado e este ano irão haver grandes desenvolvimentos nesta história porque não vão cair no erro de esperar pelos seis meses antes das próximas eleições. Não, o que tiver de ser feito irá ser feito este ano, até porque com a guerra das tarifas e o fecho do governo, a economia irá abrandar significativamente e o pessoal irá perder a paciência para aturar Donald Trump.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Dia 13

Enquanto passeava o Julian na vizinhança nova, um miúdo seguiu-me. Não deve ter mais de 10 anos e estava a andar de bicicleta, mas a certa altura notei que, sempre que olhava para trás, ele estava por perto; até quando entrei na serventia de acesso às garagens o vi. Já o vi antes, mas não sei se me tinha seguido também ou se hoje foi a primeira vez.

Primeiro fiquei um bocado apreensiva porque seguir é seguir, mas depois pensei que talvez estivesse curioso por causa do cão. Como tinha alguma pressa, não me deu jeito parar e conversar com ele; mas também estava um tempo frio e desagradável, que não convida a obséquios sociais.

Seria giro ser amiga de um miúdo daquela idade, pois podia ajudá-lo a praticar matemática ou até a ler, dado que a metro de Memphis tem alguns dos piores alunos do Tennesse (também tem os melhores, que são os que vivem em Germantwon). Só que os dias de hoje são um bocado assustadores e é um risco enorme ter uma criança lá em casa. Da próxima vez que o vir, meto conversa, mas fica por aí.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Dia 12

Confrontei-me com uma das minhas limitações: planos irrealistas. A minha intenção era fazer três viagens para levar coisas da casa velha para a casa nova, uma de manhã e duas de tarde. Apenas fiz uma e arrumei as coisas que mudei, mas também levei o Julian ao spa. É uma maneira muito ineficiente de fazer mudanças, tentar mudar as coisas mais pequenas sózinha e contratar a mudança das coisas maiores, como mobília e caixas de livros. Só que com uma casa cheia de caixas eu fico super-stressada e enojada comigo própria.

Lembro-me de uma das primeiras vezes que me mudei nos EUA, no final de um semestre de Primavera de 1998, de um quarto da residência. Era apenas um quarto, mas eu tinha acumulado plantas, velas, CDs, livros, etc. Os meus amigos diziam que eu tinha o quarto mais confortável da residência, sentiam-se em casa. Só que mudar a minha tralha toda é uma seca e nessa mudança lembro-me de pensar que tinha enlouquecido, depois de ver tanta caixa. É mais giro acumular, que é uma arte em que eu tenho licenciatura, mestrado, e doutoramento -- com distinção!

Ultimamente, tenho andado mais desapegada e já não compro tanto. Até já comecei a fazer a lista mental das coisas que já não me agradam. Hoje, enquanto empacotava coisas, encontrei algumas lembranças que comprei em Nova Iorque, quando visitei o Empire State Building. Ainda estavam no saco em que vieram, ou seja, mais valia não ter comprado nada. Talvez esteja a ser precipitada porque ter umas coisitas tipo enfeites de Natal, um postal, um iman para o frigorífico dá sempre jeito, pois quando vou visitar algum amigo distante, tenho sempre qualquer coisa para oferecer.

Então tenho andado ausente do mundo e mais focada em organizar a casa e tentar aclimatizar o meu cão ao novo sítio. Ele é outra razão pela qual não quero caixas espalhadas pela casa: cães e caixas não combinam bem.


sábado, 12 de janeiro de 2019

Dia 11

Continuamos com o governo americano fechado. Hoje os empregados federais deveriam ter recebido o primeiro salário do ano, mas tal não aconteceu. Uns pedem empréstimos pelo cartão de crédito, outros recorrem a dádivas de comida e primeiras necessidades, como fraldas, produtos de higiene, comida para cão, etc. A comunidade mormon é famosa por as famílias se organizarem de modo a terem comida armazenada suficiente para um período mínimo de três meses e uma das razão que mencionam é mesmo instabilidade política, os restantes não têm a vida tão bem planeada e esta situação é para eles uma grande confusão...

No final de Dezembro, John Kelly, o anterior Chief of Staff de Trump, deu uma entrevista ao Los Angeles Times em que defendeu o seu desempenho dizendo que o seu sucesso não era medido pelas coisas que fez, mas pelas coisas que o Presidente não fez. Efectivamente, vê-se que a administração está a entrar num caos semelhante ao que havia antes de John Kelly, só que entretanto houve tragédias e as pessoas precisam de receber apoio do governo ou porque perderam tudo o que tinham no fogo da Califórnia, ou porque o seu negócio foi atingido por um furacão, por exemplo.

Mesmo quem não é afectado directamente pelo shutdown, é afectado indirectamente. O serviço E-Verify, onde as empresas verificam que os candidatos a emprego têm autorização legal para trabalhar não está a funcionar, logo não se pode contratar novos empregados. Os argicultores que foram prejudicados pela guerra das tarifas de Trump e que iam ser compensados não estão a receber os subsídios. As empresas de consultoria que analisam os dados do governo não têm dados com que trabalhar; eu própria não posso actualizar as minhas estimativas porque não tenho dados novos.

Clinton também teve um shutdown de 21 dias, mas naquela altura, não havia tanta coisa que dependesse da capacidade do governo manter as coisas a funcionar por serviços digitais automáticos, para além de que havia a perspectiva que Clinton acabaria por promulgar uma lei que achasse ser melhor do que a que tinha vetado, mas que não fosse exactamente a sua primeira escolha. Com Trump não há essa certeza, pois ele muda de ideias a toda a hora e porque pode perfeitamente voltar a fechar o governo daqui a uns meses. O país está refém de um Presidente que acha que governar bem é aparecer na TV.

É mais do que certo que Trump acabou de cavar a sua sepultura: ou não irá ser o candidato republicano nas próximas eleições ou, se for, irá perder as eleições.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Dia 10

Mal consigo escrever porque o Julian está a lamber a minha mão esquerda incessantemente. Acalmou agora... Hoje ao terminarmos o passeio vespertino fomos abordados por uma vizinha que conduzia uma carrinha; tinha encontrado um cão e andava à procura do dono. Mandei-a consultar o NextDoor ou meter lá um anúncio. Era uma rapariga hispânica com um ligeiro sotaque acompanhada por uma senhora de mais idade que não chegou a dizer nada. Se calhar, nem devia falar inglês.

Elas partiram e, na esquina, encontrámos o meu vizinho Mike a passear dois cães, mas um não reconheci. Estranhei porque ele tem dois cães. O novo era o cão de outro vizinho que, fiquei a saber, está no hospital de Vanderbilt a ser operado a um cancro. Falei da vizinha da carrinha enquanto o Julian tentava aproximar-se do cão novo e, passados alguns minutos, o Mike disse, com uma voz emociada, que o Brownie, o outro cão dele, tinha morrido. Sentiu-se mal do Domingo e tiveram de o levar à urgência onde foram aconselhados a eutanasiá-lo. Coitado do Mike, estava mesmo perturbado.

Amanhã é o vigésimo-segundo dia do shutdown do governo americano, o que fará deste shutdown o mais longo até agora. Antes o record pertencia a um que aconteceu durante a presidência de Bill Clinton -- foi durante essa ocasião, em que muitos dos funcionários federais não estavam a trabalhar, que a Casa Branca decidiu usar estagiários e Clinton envolveu-se com uma delas. No shutdown do Trump não há estagiários na Casa Branca, mas há muitas pessoas chateadas no resto do país.

Uma das últimas notícias de hoje indica que a Casa Branca está a considerar usar fundos que tinham sido aprovados pelo Congresso, mas não chegaram a ser gastos em emergências, como furacões, cheias, e fogos, para construir a vedação na fronteira. Acho incrível que haja dinheiro que não tenha sido gasto em Porto Rico -- cerca de 3 mil pessoas morreram por causa do furacão Maria, como é que não gastaram o dinheiro todo?

Muitos dos prejudicados das políticas de Trump são as pessoas que votaram nele. Caíram na esparrela à primeira, mas acho difícil que o façam uma segunda vez...


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Viva o material!

O Jeff Bezos vai-se divorciar e ele é bom material: um homem rico e casado com um cérebro que gosta de ir para sul.


Dia 9

O Fresh Air de hoje foi sobre Spiro Agnew, o primeiro Vice-Presidente de Richard Nixon que estava envolvido numa teia de subornos e evasão fiscal. Apesar de ter cometido vários crimes, apenas foi acusado de um, que não contestou -- evasão fiscal. Esta leniência por parte da acusação foi negociada com a contrapartida de ele se demitir. Dado que naquela altura já se sabia que Nixon poderia ser impedido de ser Presidente, era importante que Agnew não estivesse no lugar de Vice-Presidente para assim não ascender à Presidência.

O caso, que se deu há 45 anos, levou-me a pensar no que se dirá acerca dos dias de hoje daqui a 45 anos. Fiquei também com a impressão de que há 45 anos o partido Republicano era muito mal frequentado, à semelhança de agora. Nada nos leva a crer que a situação melhore num futuro próximo.

Nos pulos breves que dei ao Facebook vi que o governo quer acabar com as propinas da universidade em Portugal, o que me fez recordar a época em que as propinas foram aumentadas nos anos 90. Um dos meus colegas da universidade -- ele era de outra faculdade -- era filho de um empresário, vestia roupa de marca, e só usava perfume Azzaro, que era bastante caro na altura. Quando as propinas foram aumentadas, foi aos serviços sociais pedir isenção porque o pai não tinha rendimentos suficientes.

Fiquei um bocado confusa quanto à estratégia de educação, pois há umas semanas atrasaram as bolsas dos estudantes mais carenciados do secundário. Antes tinham decidido dar manuais grátis, mas como não havia dinheiro para comprar tudo, muitos alunos não tinham por onde estudar. Agora abrem os cordões à bolsa, apesar de não terem dinheiro. O Mário Centeno no Governo Sombra dizia que as cativações não eram cativações porque aquele dinheiro não existia, logo não se podia cortar algo inexistente -- aparentemente, a sua inclusão no orçamento não sofre de problemas existênciais.

Ao final da tarde pensei em não ir à aula de yoga, mas depois achei que era mau faltar à primeira aula do ano. Fui e gostei muito. Uma das professoras disse-me que a minha postura tinha melhorado imenso desde que recomecei há menos de 6 meses, o que me fez feliz. Um dos meus objectivos das próximas semanas é encontrar o meu diário de yoga, que ainda está empacotado desde que saí de Houston. Como existe, foi cativado...




quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Dia 8

Dizia eu hoje a um colega que, na minha opinião, o objectivo do discurso de Trump da Sala Oval era aparecer nos noticiários. Aliás, neste momento vivemos num reality show. Um dia destes há uma crise a sério e o Congresso actua e retira o Presidente. Ou então ele morre durante o sono, tipo Antonin Scalia. O funeral deve ser interessante, tudo tem o seu lado interessante.



Discurso de Donald Trump na Sala Oval em directo



terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Frases famosas 85

Hoje cortaram mais três árvores na minha rua. Parece que assim ficam os passeios mais direitinhos, não há riscos de alguém tropeçar e processar a junta, não que ganhasse alguma coisa com isso.

Dia 7

O shutdown do governo americano continua. Nesta altura, já cortaram o acesso a alguns dos arquivos dos relatórios da USDA. Diz a Casa Branca que cada duas semanas de shutdown custa à economia americana 0,1% do crescimento do PIB, mas o Committee for a Responsible Federal Budget cita várias fontes que contabilizam a perda do crescimento do PIB em 0,1-0,2% por semana de fecho.

Não me parece que o Presidente Trump esteja muito interessado nessas coisas; afinal, com o governo fechado, o processo que tem contra ele em Tribunal acerca da cláusula dos emolumentos também está parado.

Enquanto Trump se preocupa com a fronteira com o México, os empregados da TSA, que tratam da segurança nos aeroportos, estão a meter baixa médica. Pode ser que algum terrorista tenha a ideia de vir para os EUA de avião, mas não é uma ideia muito inovadora.

O que vale é que Portugal está em boa forma e não há crise à vista, qual Brexit, qual Trump! A questão mais premente para o Presidente da República é a audiência do programa da Cristina qualquer-coisa (eu não tenho cabeça para decorar o nome de apresentadoras de TV portuguesas). Se a coisa ficar brava, ele pode sempre ir ao programa e despir-se, como fez o Billy Mack no "Love Actually". E já agora, aparecia na capa da revista Cristina nu para fazer pandan com o programa de TV.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Dia 6

Não tenho grande vontade de ir ao cinema, mas o meu cinema preferido, o Malco Ridgeway, que tem umas poltronas de cabedal super-confortáveis e onde dá para jantar, inclusive tomar um copo de vinho, deixa-me sempre tentada. Este ano há filmes que me interessam, como o "Vice", sobre o Dick Cheney, cujo realizador foi entrevistado recentemente no Fresh Air, onde um dos clips que passaram foi de Lynne Cheney a dar uma "pep talk" a um Dick bêbado e a tresandar a vómito. Aqui está a parte que me interessa:

Dia 5

Estou a mudar de casa. Por um lado é uma experiência excitante, por outro muito cansativa. E tenho de continuar a reverter à média: em média, mudo de casa cada 18 meses e já são 10 nesta casa e foram quatro anos na anterior. O Julian gosta da casa nova e adora poder passear sem haver folhas de árvores caídas por todo o lado como as há na actual vizinhança. O meu dia resumiu-se a passear o Julian, ter uma sessão com o personal trainer, e mudar algumas das minhas coisas de uma casa para a outra. Vou tentar ir arrumando as coisas na casa nova e só envolver o pessoal das mudanças para as coisas pesadas, como as mobília e algumas caixas que restam da mudaça anterior.

Para passar o tempo, pensei também nesta questão do Mário Machado, uma pessoa que eu desconhecia, mas que agora fiquei a conhecer. Fiquei eu e ficou muita gente porque se ele não tivesse ido ao programa do Manuel Luís Goucha, eu continuaria a ser ignorante -- benefício de ter uma mar entre mim e Portugal e de ser de um país que gosta de varrer as coisas para debaixo do tapete.

Há quem ache que não é valioso ter pessoas como Mário Machado na TV, mas eu acho que se não se conhecer estas histórias, corre-se o risco das coisas voltarem a acontecer outra vez. É importante que as pessoas saibam que há consequências para este tipo de comportamento e parece que a justiça funcionou e o homem passou uns anos na prisão. Ou talvez seja esse o problema: devia ter passado mais tempo ou se calhar nem devia ter saído.

Só que Portugal tem a mania que é um país modernaço, com penas leves, mas depois não se sabe muito bem o que se fazer com as pessoas quando elas saem da prisão. Qual é o objectivo de meter estas pessoas na prisão -- será castigá-las ou reabilitá-las? Ou será que estou a ver a coisa pelo prisma errado. O problema pode ser mesmo a justiça ter funcionado e ele ter ido parar à prisão. Se funcionou para o Mário Machado porque é que não funciona para o pessoal corrupto e criminoso que anda por aí? Ah, pronto, são inocentes porque ainda não foram a julgamento. É a resposta progressista do regime.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Dia 4

Hoje no trabalho um colega meu, que tem uma quinta onde faz reabilitação de terras agrícolas, mencionou que segundo os dados que tinha recolhido na sua propriedade, no ano passado choveu mais de 60 polegadas, que é mais de um metro e meio de chuva. É um bocado alto, mas já não me recordo de ver o sol. Tem andado nublado ou de chuva há muitos dias. Fiz uma busca no Google para ver se encontrava dados exactos, mas uma página da NOAA que parecia interessante foi afectada pelo shutdown governamental e tem um aviso.

Os relatórios que preciso no trabalho também não têm saído e o mercado de commodities anda a funcionar completamente às escuras. Acho que a única saída para este impasse político é o Congresso chegar a um acordo à prova de veto presidencial.

O shutdown de 2013 foram 17 dias, mas o Chuck Shummer disse que o Presidente Trump mencionou que este poderia ser indefinido e durar anos. Até seria engraçado vê-lo a tentar manter o governo fechado durante tanto tempo.