sábado, 18 de maio de 2019

Chocou-me, pronto

Ao contrário de muita gente, não tenho problemas com telemóveis no quarto. Não me incomoda nada passar uns minutos a ver fotos no Instagram antes de dormir, até porque me relaxa imenso. Não é, portanto, surpreendente que o meu despertador seja o meu telemóvel. O único problema com isto são as notificações que se vê assim que acordamos. Por exemplo, na Quarta-feira acordei às 6 da manhã como habitual, vou a desligar o despertador e vejo que, no NextoDoor há uma vizinha que se diz estar meio-abananada porque ouviu tiros durante a noite, mais propriamente às 2:30 da manhã, será que mais alguém tinha ouvido...

Não ouvi nada, mas uma outra vizinha ouviu e a troca de impressões já tinha começado. Uma disse que tinha visto dois corpos e a polícia por todo o lado e que a notícia já estava no Twitter, mas fui procurar e a polícia não tinha dito nada. Foi uma TV que deu a notícia porque entretanto recebo um SMS de um colega que diz que ficou doente e não podia ir trabalhar, quando lhe contei do tiroteio, disse-me que tinha visto na TV, fui ver o canal de TV no Twitter e lá estava.

Consultei o mapa porque pela descrição da vizinha, o local onde a coisa se tinha passado parecia-me bastante próximo, aliás fiquei com a impressão de que era ao pé do parque que tem o chão coberto de musgo--é uma coisa simplesmente divina. Tirei umas fotos de nuvens lá perto dois dias antes do tiroteio. Recordo-me também que algumas semanas depois de me mudar para esta vizinhança, houve um miúdo de bicicleta que me seguiu por essa zona. Na altura fiquei incomodada, mas agora o que me incomodava era pensar que, se calhar, a criança tinha uma tragédia à porta.

Mandei calar a minha imaginação porque, às Quartas-feiras, temos reunião de risco no trabalho, que começa às 8 em ponto, e como o colega não podia ir, quem tinha de fazer os preparativos era eu. Durante o dia fui consultando o NextDoor para ver se havia novidades, mas passadas algumas horas houve outro tiroteio, que não foi bem tiroteio. Um homem suicidou-se a tiro num parque, o parque que eu tinha visitado pela primeira vez há umas duas semanas. É um local tão agradável, com um trilho curto, mas rodeado de árvoredo denso, um riacho que serpenteia pela floresta, um parque de merendas com baloiços para as crianças. No fim de semana passado, como estava frio, andei a investigar se este parque seria um bom sítio onde tentar encontrar cogumelos morel porque encontrei lá vários sítios com mandrágora americana (mayapple) e os cogumelos crescem em circunstâncias semelhantes.

No NextDoor, uma senhora que passeia cães ficou indignada que se fosse andar ao tiros num sítio com miúdos, especialmente com uma escola primária ao pé, mas um outro vizinho que conhecia a vítima pedia compreensão e recato. A vítima era um amigo dele, um homem que andava atormentado, e que deixava orfã uma criança ainda pequena. Tentei pensar nesse homem; no mundo perfeito da minha imaginação ele teria encontrado algum consolo na beleza daquele parque, ter-se-ia acalmado e retornado a casa para encarar mais um dia, sem que nada de mal lhe tivesse acontecido. Entristece-me que o parque não tivesse tido esse efeito nele.

Continuei a minha rotina, que inclui ouvir os podcasts portugueses para não me esquecer de como falar português. No Governo Sombra tinham um clip da ida do Joe Berardo à Comissão Parlamentar de Inquérito, o tópico mais importante do momento em Portugal. Nunca tinha ouvido o Berardo a falar e surpreendeu-me um bocado a falta de desenvoltura verbal, mas o que me chocou mesmo foram as perguntas que os deputados lhe fizeram porque demonstram ignorância e falta de preparação. Será que os deputados conhecem a lei portuguesa? Não parece que saibam que as empresas em Portugal gozam de um enquadramento legal que limita a responsabilidade dos proprietários/sócios. Como é que questionam o homem sem perceber os detalhes do empréstimo e a lei que o rege? Ainda por cima, esperam que o Berardo lhes explique e se auto-incrimine.




domingo, 12 de maio de 2019

Um malandreco, outro mauzito

Que semana tão atarefada. O país acalmou depois da birra do ilustre PM, que anda a ver se arranja um pretexto para se demitir. Coitadito do nosso malandreco preferido, a única coisa original que disse recentemente é que não há dinheiro. Isso já tinha dito o Vítor Gaspar há mais de seis anos.

Sem plataforma eleitoral, nem estratégia de governação, o melhor é mesmo António Costa tentar sair agora enquanto o leite ainda não azedou. E com o Marcelo Rebelo de Sousa a perder popularidade, ainda vai a tempo de andar a fazer comentário pela TV e depois ser candidato do PS às próximas Presidenciais.

Entretanto, encontrámos um assunto muito mais interessante há coisa de dois dias. O Joe Berardo, outro génio à portuguesa, foi prestar declarações à Comissão Parlamentar de Inquérito e portou-se mal. Ele é tão mauzito, que merece tareia. Ou talvez não, pois tem acesso a telemóveis e a sua reabilitação é quase certa. Aliás, deve ser essa a causa de ele não ter tido um acto de contrição em frente dos deputados.

Que queriam os deputados não se sabe ao certo. Afinal, mudaram alguma legislação como consequência de comissões parlamentares de inquérito passadas? Quando há declarações falsas, alguém é preso? No decorrer da investigação descobrem-se alguns factos que permitam ao ministério público avançar com uma acusação? E há algum plano para recuperar o dinheiro perdido dos bancos ou para arranjar um enquadramento legal que permita que casos destes não se repitam?

Dizem-nos que as eleições estão para breve...




segunda-feira, 6 de maio de 2019

Nova ou velha

Em Coimbra há duas estações principais de comboio a que na cidade costumamos chamar "estação nova" e "estação velha".
O nome oficial delas é Coimbra A e Coimbra B.
Apesar de saber disso, evidentemente, sempre que se falava em A ou B eu confundia-me e não sabia se estavam a falar na nova ou da velha. Houve até alguns desencontros desagradáveis.
Até que um amigo me mandou um berro dizendo: "B de belha". Não confundi mais.

Acobardou-se.

Aproveitem que isto não vai para a frente e discutam que tipo de carreiras especiais querem na Função Pública.
Depois de tudo o que se passou, talvez esteja na altura de reconhecer de vez que não faz sentido carreiras com progressões (quase) automáticas. Caso contrário passamos a vida a congelar a carreiras.

sábado, 27 de abril de 2019

Primeira cobaia

Duarte Lima vai finalmente ser preso -- já vai tarde, mas não nos zanguemos com o atraso na justiça portuguesa porque vamos ter uma cobaia para testar a introdução de telemóveis na prisão. Não acham que o Duarte Lima merece um telemóvel? Ele até toca piano.

Vá, não sejam forretas e dêem-lhe um iPhone! Assim ele pode refilar com os moços do PSD que só se lembraram de o expulsar agora que ele vai ser preso. Antes, quando ele foi condenado, não era premente. Com o seu telemóvel, Duarte Lima pode argumentar que a reabilitação está a correr muito bem e estará prontinho para novas aventuras cor-de-laranja quando sair daqui a 6 anos.

E viverão felizes para sempre!

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Um cão era melhor

Segundo me contam, o telemóvel é um mecanismo de reinserção de presos na sociedade. Na Wikipédia em inglês, dizem-me que é controverso porque os presos podem usar o telefone para intimidar testemunhas, cometer crimes, planear fugas ou até outros crimes. Uma outra fonte de controvérsia é, nas prisões que permitem telemóveis, os custos exorbitantes dos mesmos que beneficiam as próprias prisões.

Não se percebe muito bem como é que havendo telemóveis com fartura em Portugal -- mais de um per capita -- ainda há criminosos. Então não seria esperado que, se pessoas com telemóveis estivessem bem inseridas na sociedade, então não cometeriam crimes?

Mas talvez não seja o telemóvel em si, mas os amigos e família com quem o preso contactaria. Só que mais uma vez encontramos o mesmo problema: se estas pessoas fossem eficazes a inserir a pessoa na sociedade, então a pessoa nunca teria cometido um crime.

Frequentemente, os criminosos sofrem de disturbios mentais e necessitam de cuidados médicos especializados; o telemóvel não os vai ajudar, mas dá a ilusão que o governo se preocupa, quando na realidade não faz nada por estas pessoas.

Afinal, o que é um criminoso em Portugal e por que razão se prende uma pessoa? Portugal é um país com um regime penal considerado leve. Há crimes hediondos cujos autores nem vão para a prisão porque lhes atribuem penas curtas, que acabam por ser suspensas. Ou seja, quem vai para a prisão normalmente deve ter cometido algo bastante grave e, se o fez, é porque a pessoa é incapaz de auto-inibir comportamentos altamente indesejáveis. O telemóvel desinibe as pessoas: basta ler algumas conversas de SMS para perceber que o potencial das coisas descambarem é alto. E se for um telemóvel com Internet ainda pior.

Depois há a situação dos familiares e amigos, que receberiam as chamadas. Será que estas pessoas também não sofreram elas próprias com o crime e não têm direito a algum resguardo? Ou têm obrigação de tomar conta de presos pelo telefone a qualquer hora do dia?

É desejável que se sigam políticas de reinserção de presos, mas gostaria que me indicassem estudos que concluam que o uso de telemóveis facilita esse propósito.

Porque é que não decidiram dar um cão aos presos? Esses programas funcionam mesmo. Nos EUA, há vários prisões que usam cães para reabilitar pessoas encarceradas. Ver aqui, aqui, e aqui, por exemplo.

De regresso

Ora viva! Estou de regresso à minha terrinha, depois de duas semanas de férias, onde fui a Washington, DC (pela quarta vez), e dei um salto a Nova Iorque (a minha terceira visita). Gostei muito da viagem a NYC porque nunca tinha andado num autocarro numa viagem de longa-duração nos EUA, pois normalmente desloco-me de avião ou carro. São cerca de 362 Km (saí de Bethesda, MD, e fui até Manhattan); o regresso demorou 4 horas, na saída demorámos quase 5 porque apanhámos imenso trânsito, dado que saímos às 17:40 horas, que é a hora de ponta. O bilhete custou $37 para cada lado e quando entramos no autocarro oferecem-nos garrafas de água.

Em Washington, DC, fui efectivamente à National Gallery of Art--West Wing, onde vi a exposição do Tintoretto, como sugeriu o Rui Fonseca num comentário ao post anterior, mas a minha galeria preferida é a 3, onde estão as esculturas de Rodin e Degas. Apesar de não ser a minha primeira visita, fiquei tão emocionada que quase chorei. Para quem desconhece a NGA, são dois edifícios e a ala ocidental tem arte até 1900.

Na ala leste da NGA exibem arte a partir de 1900 e há dois sítios que me encantam: a galeria onde estão os movimentos franceses do pós-impressionismo: Nabis, Fauvismo, Expressionismo e as galerias no topo do edifício que têm Alexander Calder, Barnett Newman, e Mark Rothko. Escusado será dizer que quando cheguei à galeria de Rothko estava tão emocionada que chorei mesmo a sério. Cresci tanto a olhar para as peças dele quando vivia em Houston, que é como se estivesse à frente de um espelho ou talvez de uma máquina do tempo.

Em DC, para além da National Gallery of Art, fui à Phillips Collection, ao Hirshhorn Museum, à Renwick Gallery, às Freer/Sackler Galleries, à National Portrait Gallery, que fica no mesmo edifício que o American Art Museum, ao jardim de escultura da NGA, ao jardim de escultura do Hirshhorn, ao cemitério de Arlington, e ao Belmont-Paul Women's Equality National Monument. Passeei à beira do rio Potomac para apreciar as cerejeiras em flor e visitei o Washinton Monument, o Lincoln Monument, e o National World War II Memorial.

Fui ao edifício do United States Department of Agriculture para o lançamento do relatório WASDE (quando os relatórios saem, somos fechados numa ala do edifício que fica completamente isolada do exterior, i.e., janelas, ninguém tem telemóvel, e nem há ligação de Internet) e antes de lá ir estive a fazer tempo no Wharf, que foi recentemente desenvolvido. É um espaço encantador, com mercado de peixe, resturantes, cafés, esplanadas, marina, e lojas à beira-rio, decorado com muitos vasos cheios de flores magníficas, que tive a sorte de poder apreciar no seu auge.

Nesta viagem, também visitei Baltimore, MD, onde nunca tinha estado e onde fomos comer marisco. Tem um Conservatório/Jardim Botânico muito engraçado e a zona à beira-rio também é muito agradável. Baltimore foi uma cidade muito rica, mas perdeu importância e entrou em decadência. Na Virginia, fomos fazer o trilho do Difficult Run, que é um dos tributários do Potomac River, e visitei o Great Falls Park, que é uma das zonas com maior biodiversidade do mundo--as quedas do Potomac são impressionantes e há também uma componente histórica muito interessante.

Em Nova Iorque só estive dois dias, mas visitei Central Park, a 5th Avenue, o Metropolitan Museum of Art (a entrada custa $25, mas se conhecerem alguém que seja membro e tiverem a informação de membro da pessoa podem entrar sem pagar), o Museum of Modern Art, o Jewish Museum, a Neue Galerie ($22 bilhete normal), e a Morgan Library.

Se gostam de visitar museus e planeiam vir aos EUA, DC é capaz de ser preferível a Nova Iorque. Ambas têm colecções de arte fantásticas, mas em DC quase todos os museus são grátis; em NYC, alguns são grátis um dia por semana ou durante algumas horas. Também notei desta vez que estive em Nova Iorque que havia muito mais filas para entrar. DC é mais calma, apesar de alguns museus serem super-difíceis de se conseguir entrar. Eu queria ir ao African-American Museum, mas é preciso obter um passe e estavam esgotados (os passes são grátis).

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Pesadelo

Enquanto visitava o cemitério de Arlington hoje à tarde, vi as notícias do acidente na Madeira. A minha primeira impressão foi que tinha percebido mal do que se tratava, mas não, é mesmo a sério. Não sei o que pensar porque estou com medo de pensar nos familiares das vítimas a chegarem a Lisboa e encontrarem a cidade sem transportes por causa da greve que afecta o abastecimento de combustíveis. Espero que alguém no Governo tenha a ideia de arranjar transportes e apoio para as vítimas e suas famílias de forma a que elas estejam resguardadas da confusão que possa existir na cidade. Que grande pesadelo...

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Muitos mimos

Tenho saudades do meu cão; já não o vejo há 10 dias. Ontem telefonei para o hotel a perguntar se estava bem e parecia que sim, só tinha um bocadinho de prisão de ventre. Quando a moça atendeu o telefone e eu lhe perguntei do Julian, o bouledogue francês, ela soube imediatamente de quem se tratava, o tom de voz mudou, notei logo que tinha afeição pelo meu pequenito.

Hoje de manhã telefonou-me porque o meu Morceguinho ainda não tem as idas ao quarto de banho normalizadas. Depois de conversar com ela, decidimos que ele não ia passar tanto tempo no recreio com os outros cachorrinhos porque fica muito excitado com a brincadeira; reduzimos o tempo para meia hora por dia.

Amanhã vou telefonar outra vez, mas mais para o final do dia, para ver se ele está melhor. Sempre senti alguma preocupação com os meus bichinhos quando estou longe deles, mas depois do Alfred morrer, fiquei muito mais ansiosa. Quando a Stella morreu, fiquei triste, mas foi algo que senti que tinha chegado a altura. O Alf foi diferente.

Sempre tinha imaginado que iria cuidar dele até chegar a altura, mas ele morreu de morte natural sem que necessitasse de grandes cuidados. Senti que não fiz tudo o que podia ter feito por ele e no entanto o Alf era um cão que gostava de cuidar de toda a gente, mas não dava trabalho nenhum. Sinto que ele não gostaria de ter dado trabalho.

Quando for buscar o Morceguinho, vou estragá-lo com mimos!





terça-feira, 16 de abril de 2019

Contra-ciclo

Ontem fiquei um bocado preocupada com Notre-Dame. Acreditei -- ou talvez fosse um acto de fé -- que os bombeiros conseguissem salvar a estrutura e, apesar de algumas perdas, que alguns mais pessimistas dizem ser incalculáveis, não sucumbiu totalmente.

A minha atitude pessoal é ser pessimista quando as coisas estão bem, isto é, preocupo-me com o que pode correr mal, e optimista quando as coisas correm mal, pois quase sempre se pode fazer alguma coisa para melhorar quando estamos perante o pior. Por isso, se ao longo de 800 anos tinha de arder, arder agora, quando a tecnologia de combate aos fogos está avançada, os bombeiros estão bem treinados, os conservadores de arte também, etc., não é o pior que podia ter acontecido.

Notre-Dame não só irá ser recuperada, como iremos descobrir bastantes coisas acerca da sua construção. Os franceses irão ser confrontados com escolhas difíceis, mas é um povo que está habituado a fazê-las. Entre 1844 e 1864, Notre-Dame foi sujeita a uma restauração que na altura foi bastante controversa.

Em 2014, o Museum of Fine Arts Houston, fez um exposição com as fotografias de Charles Marville, que tive oportunidade de visitar. No início dos anos 1860s, Marville foi nomeado fotógrafo oficial de Paris e documentou o projecto de reconstrução da cidade, quando a cidade medieval foi arrasada para dar lugar a uma urbe planeada e modernizada.

Aqui vos deixo uma foto do pináculo de Notre-Dame tirada por Charles Marville, que está disponível no espólio da Biblioteca do Congresso americano. Ontem o pináculo caiu, mas brevemente irá ser re-erguido.



Um-dó-li-tá

Diz o meu PR de Portugal:
“Caro Presidente Macron, meu Amigo:

Uma dor que nos trespassa o olhar e logo nos marca a alma, Paris sempre Paris ferida na sua Catedral em chamas, um símbolo maior do imaginário coletivo a arder, uma tragédia francesa, europeia e mundial.

De Lisboa um abraço sentido,
Marcelo Rebelo de Sousa”


Diz o meu PR dos EUA:


Eu não daria cavaco

Continuo a não perceber a fixação com Cavaco Silva. Eu compreendo que ele não consegue estar calado quando lhe colocam um microfone à frente, mas para que é que insistem?

Achei deplorável a forma como lidaram com o envelhecimento de Mário Soares e agora estou a achar o mesmo da forma como não largam Cavaco Silva. Cavaco Silva não faz parte da oposição, logo por que razão não o deixam em paz? Alguém perguntou ao Reagan o que achava do Bush e do Clinton? E a Sra. Thatcher também se pronunciou acerca dos PMs que a sucederam?

quinta-feira, 11 de abril de 2019

HeLa

Hoje de manhã, não sei por que carga de água pensei na Henrietta Lacks. Foi uma mulher muito importante, mas por uma razão muito triste. Tinha ascendência Afro-Americana e era mãe de cinco filhos; em 1951, foi diagnosticada com cancro cervical, tendo morrido nesse mesmo ano, aos 31 anos. As suas células de cancro, que foram recolhidas numa biópsia têm uma característica única: reproduzem-se infinitamente em placas de Petri. Sem a autorização de Henrietta, as suas céclulas começaram a ser usadas para investigação médica e são hoje uma das linhas de células mais importantes.

À tarde fui à National Portrait Gallery e, na Galeria onde estão os retratos dos Presidentes, há uma secção acerca da luta pelos direitos civis e encontrei um retrato d Henrietta Lacks, que aqui vos deixo juntamente com o texto explicativo. Se querem ler mais, há o livro que foi publicado há uns anos e que é mencionado abaixo. Na altura da publicação, em 2010, o Fresh air teve uma entrevista com a autora que podem encontrar aqui.



quarta-feira, 10 de abril de 2019

Quando nem os livros são nossos aliados.

Depois de resistir a berreiros, chantagens e ameaças, finalmente consigo fazer com que a minha filha se sente a ler em vez de ir para a PlayStation.
Ao fim de uma hora, chama-me para me mostrar esta passagem:

Já percebi

Não é que eu esteja grandemente preocupada com as nomeações de Cavaco--parece que ele já não é PM--, mas estava a pensar porque é que agora era importante voltar a haver tantas notícias acerca das nomeações dele. Eu percebo que não gostam do Cavaco, ele não se lembra de quem nomeou, e é muito mais fácil culpar o Cavaco pelos males de Portugal (Síndrome de D. Sebastião) do que exigir de governantes actuais que sejam mais competentes. Desculpem lá rebentar a vossa bolha de felicidade, mas défice não é medida de bom desempenho na economia. Se fosse, não seria necessário haver cativações. Elementar, meus caros...

Mas continuamos sem explicar a necessidade de voltar a investigar a governação de Cavaco e suponho que é porque não existe LexisNexis das notícias portuguesas. O LexisNexis é uma base de dados de notícias, legislação, e informação sobre empresas que existe nos EUA. Já existe há muitos anos, lembro-me de a usar há mais de 15 anos, quando andava a fazer doutoramento. Antes disso, nas bibliotecas, havia jornais em microfilme, que eu também usei. Faltando isso, procurava-se uma biblioteca que tivesse o que nós queríamos e a bibliotecária mandava pedir a uma biblioteca que tivesse que enviassem um fax ou um email com a fotocópia.

Aposto que ninguém digitalizou os jornais da altura do Cavaco e agora temos de lerpar com todas as notícias más daquele governo para que assim possam ficar arquivadas no Google. É isso, não é?

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Sorte, portanto

Ia para dizer umas piaditas acerca do nepotismo de antes vs. o de agora, mas não me parece que contribua para o meu dia. Para mim, o dever de um cidadão é duvidar de políticos, ou seja, é fazer aos políticos o que a sociedade faz às mulheres: tratá-los como incompetentes até prova em contrário. Efectivamente, é uma manifestação do meu gene português avariado. Em Portugal, todo o homem que chega ao topo é um génio. Ui, que sublime habitarmos o mesmo espaço e tempo de tal gente...

Adiante, que ainda me dizem que o período está para me vir. Ora, acordei às 3:45 da manhã, depois de uns dias cheios de stress. No trabalho, deixei instruções detalhadas de como actualizar as minhas coisas para a equipa não andar às cegas, mas o meu colega olhava para mim de soslaio, sorrindo, e a dizer "It ain't gonna happen!" Eu repsondo que o que ele faz com aquilo é problema dele; o meu é deixar o meu trabalho em ordem. É apenas uma maneira de gerir o meu nível de stress.

Por falar em nível de stress, tenho tendência para a paranóia e pensar no que corre mal. Por exemplo, ontem ao jantar deixei instruções com uma amiga do que fazer se eu morrer e o meu cão ficar no hotel de cães órfão. Ai, era por isto que eu não queria ter mais cães. É que com a idade, não é só o gene português que anda avariado, é tudo o resto que me compõe, mas uma coisa que funciona cada vez melhor é a profunda necessidade de controlar tudo.

Talvez para me redimir das minhas obsessões, cultivo também o papel de controladora falhada, pois ainda não fiz os impostos, o prazo termina no dia 15, e não estou em casa. Vou ter de submeter um pedido de extensão do prazo, mas é preciso saber quanto me retiveram na fonte e depois fazer uma estimativa de quanto devo. Ontem não encontrei o formulário W2 que contém o total de rendimento e retenções.

Outra coisa que ainda funciona bem é o facto de me recordar com bastante lucidez que guardei o dito, como sempre faço todos os anos. Se calhar, quando chegar à idade do Prof. Cavaco--79 anitos, que num homem em Portugal é muita fruta, então a esperança média de vida em 1960 dos homens nem chegava a 61 anos -- já nem disso, que aconteceu há menos de 3 meses, me lembro. Mas tenho uma boa desculpa: mudei de casa, disso lembro-me bem.

No aeroporto, quase que fui a última a embarcar no avião porque devia ter saído de casa mais cedo. O ideal teria sido acordar às 3:30, mas, pronto, não correu mal. Já não me recordava a última vez que tinha viajado na American Airlines e nunca o tinha feito de Memphis, ou seja, não fazia ideia onde ficavam as portas de embarque. Se soubesse de antemão que eram ao lado das da United, teria ido pelo outro portão de segurança que é mais pequenino e aconchegante e quase que não tem gente.

Em vez disso, segui as instruções e fui pelo portão principal. Não é que me caiu o queixo quando vi tanta gente? "Fogo, é Domingo, o que é que estão a fazer no aeroporto?!? Não deviam estar a aperaltar-se para a missa? Vão todos acabar no inferno!" pensei eu, enquanto tentava imaginar promessas eficazes para não perder o avião. Desisti porque, primeiro, teria de encontrar Deus e eu não tenho paciência para a caça. Restava-me enfrentar a adversidade e, nestas alturas, o meu mote é: se é para falhar, falhas dando o teu melhor.

Correu tudo bem e eu até parecia uma máquina viajante bem oleada, em vez de uma mãe de cão à beira de um ataque de nervos. Não faço ideia como é que as pessoas com filhos os deixam crescer, ficar independentes, e tal, porque eu duvido que conseguisse e, no entanto, acho mal quando os pais não ensinam os filhos a ser independentes. Por exemplo, na preparação da minha viagem, tentei arranjar alguém para ficar lá em casa com o meu cão, mas a rapariga a quem perguntei disse-me que eu vivia muito longe e ela achava que não conseguia dar conta do recado porque ia gastar muito em gasolina. Ela ainda vive com a mãe e o normal é os alunos sairem de casa para a faculdade.

Ofereci $350 por duas semanas e ia deixar-lhe $100 extra se ela precisasse de levar o Julian à creche (custa $16 por visita até seis horas), caso não tivesse oportunidade de ir a casa algum dia. Depois de ela dizer que não estava inclinada para aceitar, disse-lhe que, se ela quisesse ficar com o namorado lá, eu não me opunha. Ou seja, por duas semanas, tinha de fazer como se vivesse em minha casa e fazer de conta que o meu cão era o dela. Recusou sem fazer contra-oferta que, nos EUA, é completamente estranho, pois gostam muito de negociar. E não achei assim tão pouco dinheiro, pois é metade de uma renda de um apartamento em algumas zonas.

Essa moça anda na faculdade a tirar o curso de psicologia. A primeira vez que a conheci, achei-a normal; bem, nem lhe liguei muito, mas pareceu-me uma pessoa competente. Na segunda vez, em casa de uma amiga comum, onde eu, ela, e a mãe tinhamos ido jantar, descubro que ela tem uma fobia qualquer e não consegue comer em público, nem sequer em frente do namorado. Não é um problema muito sério, diz ela, e quando foi ao psicólogo achou melhor focar-se nas questões que tem com o pai. Apeteceu-me descompor a mãe por estar ali serena a ouvir isto e não ter noção das implicações que aquilo tinha para a filha, mas trinquei a língua e pensei em campos verdejantes.

Quando vim para os EUA, uma das coisas mais interessantes que observei foi que, na universidade, uma das actividades organizadas era ensinar os alunos a comer de faca e garfo, mas era uma coisa voluntária, ia quem queria. O objectivo era prepará-los para as entrevistas de emprego que muitas vezes envolvem almoços ou jantares de negócios. É claro que abrangendo o corpo estudantil uma grande diversidade social e étnica, muitos alunos estariam em desvantagem em situações que envolvam etiqueta à mesa, daí a necessidade de uma workshop deste tipo.

É tão óbvio, que muitas pessoas descuram este aspecto da preparação dos jovens; mas por muito bom que seja o elevador social, não adianta grande coisa a quem é entrevado e não consegue lá entrar. Ah, apanharam-me, confesso que o meu plano maquiavélico era apanhar a rapariga sozinha e explicar-lhe como funciona a América, dizer-lhe que era importante que ela falhasse naquele aspecto da sua vida, mas também falhei. A nossa amiga comum, que tinha achado ser uma óptima ideia oferecer-lhe esta oportunidade, até porque ela e a mãe vivem uma vida bastante frugal, ficou como eu, sem compreender o que se passa na cabeça desta jovem, que é incapaz de fazer um sacrifício temporário para ganhar algum dinheiro extra.

Mas ela não é única; há muitas pessoas assim e não se consegue ajudar quem não se ajuda a si próprio. Felizmente tenho sorte por não ser assim e a sorte é tanta que quando cheguei ao meu destino fui passear com uma amiga e um pássaro fez caca em cima de mim. Ah, pá, desta promessa eu não me tinha lembrado. Só pode ser sorte, portanto!



sexta-feira, 5 de abril de 2019

Cabeças pensantes, népia

Vou correr o risco de parecer que estou a defender o indefensável, como me dizem frequentemente, mas o meu objectivo não é tanto defender, mas usar alguns conhecimentos de história e estatística para enquadrar o problema. Então cá vai: acho completamente idiota estarem a comparar o nepotismo do Governo de Cavaco Silva com o de António Costa.

Não é que eu seja a favor de nepotismo, mas somente em 1986 é que a escolaridade mínima em Portugal atingiu o nono ano de escolaridade. A geração dos meus pais, que é a geração de Cavaco Silva, só precisava de ter o exame da quarta classe. Cavaco Silva formou governo no final de 1985, com uma população bàsicamente analfabeta, não tinha muito por onde escolher.

Ou seja, não me choca--notem que digo que não me choca; não digo que acho bem--que tivesse sido preciso recorrer a familiares naquela altura, pois o número de pessoas com nível de educação superior era baixo e ainda por cima casavam-se uns com os outros. Mesmo assim, a comunicação social, em especial o Independente, criticou Cavaco Silva pela prática.

Agora, passámos os últimos 30 anos a gastar fortunas a educar a população, a incentivar pessoas a ir para a faculdade, até nos dizem que temos a geração mais educada de sempre, logo, já não se justifica ter de se recorrer a maridos, esposas, primos, cães, gatos, etc.

Ainda por cima, com todas as facilidades que temos hoje em adquirir informação, demorámos quase quatro anos a descobrir e a decidir que se calhar não era boa ideia. E nem o PCP, nem o BE acharam mal.

Temos canudos, mas não temos cabeças pensantes...

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Eles e elas

Passei as últimas semanas a trabalhar num texto para a Capital Mag, que foi publicado hoje. O texto é sobre o papel das mulheres na política portuguesa, mas gostaria de deixar mais umas ideias acerca da forma como nós interagimos com homens fora da esfera pessoal.

Como mulher que há mais de 20 anos convive profissionalmente numa área de homens, estou bastante agradecida aos muitos homens que me treinaram. A única forma de nós sermos boas profissionais é sermos treinadas por bons profissionais. Se a profissão é liderada por homens, então o nosso sucesso depende deles. Quanto mais depressa assumirmos isto, mais depressa subimos na profissão.

Não pensem que as quotas são tudo porque quando há poucas mulheres, o fracasso de uma tem muito mais peso na forma como a sociedade vê as restantes do que o fracasso de um homem. As quotas só fazem sentido se há mulheres competentes para assumir os cargos; se é para selecionar mulheres incompetentes, não nos ajuda. Posto isto, as quotas não podem ser só no topo, têm de começar nos níveis profissionais mais baixos para as mulheres poderem progredir na carreira.

Uma mulher competente sabe o papel que tem na sociedade e sabe que o sucesso da próxima geração depende do seu esforço pessoal e da impressão que dá. Eu sei que não é justo que elas tenham de sentir que têm de ser melhores e mais responsáveis do que eles, mas de todas as injustiças que há no mundo, esta é mais parecida com um privilégio: afinal, temos oportunidade de singrar numa área que escolhemos por vontade própria. Foi por isto que muitas mulheres e homens lutaram, há que honrar o seu esforço.

domingo, 31 de março de 2019

O mundo material


Os virgens e a Madonna

Com este episódio do cavalo, ganhei mais respeito pela Madonna e perdi respeito pelos portugueses. Em pouco tempo, a Madonna ilustrou exactamente como Portugal funciona: nuns sítios predomina o favorzinho a qualquer custo, noutros o desfavor; os critérios são completamente aleatórios e ao sabor dos autarcas. Eis Portugal no seu melhor.

Lamento informar os meus caríssimos conterrâneos que tudo tem um preço, mas a decisão de o pagar é que não é sempre afirmativa. É óbvio que a Madonna não iria achar piada a que lhe dissessem "Não", invocando as razões que foram invocadas e da forma como foi feito. Reparem que em "Like a Virgin", vídeo filmado em Veneza em 1984, numa altura em que a artista não tinha o estatuto que tem hoje, há um leão "à solta".

Se querem atrair investimento internacional, têm de aprender a trabalhar com o mínimo de profissionalismo. É legítimo que achem que o risco de levar um cavalo para um palácio é elevado, mas expliquem o vosso ponto de vista de forma a que as pessoas vos entendam, ou seja, metam um preço na coisa. Digam que querem que a equipa da Madonna apresente pareceres técnicos reconhecidos internacionalmente de que a actividade em questão não irá causar danos. Depois exijam que ela obtenha um seguro que cubra todos os danos que possam acontecer, deixando a propriedade em condição semelhante à encontrada. Digam também que querem ver o orçamento de obras em caso de danos tipo "worst case scenario" e querem que tais obras envolvam especialistas de renome internacional e materiais de qualidade equivalente à que tem a propriedade.

Obviamente, se o custo da actividade for muito elevado, a seguradora irá dizer não a Madonna. Se o risco for comportável, todos os cuidados serão tidos para que os danos sejam minimizados. Que eu saiba, a Madonna não é conhecida por destruir propriedades a seu bel prazer, logo do ponto de vista dela a forma como agiram é basicamente um insulto pessoal porque não há fundamento técnico, apenas impressões pessoais.

E agora vamos lá a ver quantos palácio não andam por aí a cair aos pedaços sem a ajuda de Madonna e as virgens ofendidas de Portugal andam aí a engonhar, a eleger políticos que mantêm o país estagnado, sem que se crie riqueza para os manter...

Adenda: Outro aspecto a considerar com o cavalo e a Madonna é a segurança da artista. Imagine-se que o chão efectivamente se partia e a artista se magoava. Quem era responsável? O dono da propriedade. Ainda bem que o Basílio Horta disse não, não é? Não, não é, porque ele disse não porque lhe deu na telha. Podia ser uma pessoa que lhe desse para dizer sim, como foi o caso de Fernando Medina com o estacionamento em Lisboa. E duvido que, se he dissessem sim, incluíssem uma cláusula no contrato a dizer que se desresponsabilizavam de todos os acidentes que acontecessem a Madonna enquanto na propriedade.

Ter Madonna em Portugal é um enorme risco porque se lhe acontece alguma coisa, ela mete um processo em tribunal por danos e convenhamos que ela vale muito dinheiro. Imaginem que ela acaba em frente de juizes tipo Neto de Moura et al. como vítima. Ia ser giro, ia...

Portugal não é um país preparado para assumir este tipo de risco, nem sequer os responsáveis se apercebem que têm de se precaver contra os mesmos. As coisas não correm pior porque a probabilidade de desastres é baixa por definição, mas a lei dos grandes números não perdoa.






sábado, 30 de março de 2019

Uma lamparina sff

Enviaram-me o esclarecimento do Professor Marcelo -- que por sinal é o nosso ilustre PR -- a propósito dos conflitos de interesse do executivo e eu, na minha ingenuidade, pensei que ele nos ia explicar porque raio não puxa as orelhas ao Primeiro Ministro. Não é ele o guardião da Constituição da República Portuguesa, a tal que diz que "Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária."

Como é que o artigo primeiro -- e outros haverá, decerto -- da CRP é compatível com um governo que selecciona pessoas com base em laços familiares? Serão esses critérios normais numa sociedade que se diz "livre, justa, e solidária"? A mim parece-me algo mais parecido com o que se pratica na Máfia, que tem critérios de justiça diferentes do que se querem em sociedades saudáveis.

Afinal, o dito esclarecimento era em defesa própria, a dizer que não tinha sido favorecido pela família. Nós já tínhamos reparado que o MRS tinha sido elegido por voto popular com maioria absoluta, não por predilecção do PM António Costa, mas parece que o próprio MRS, que frequentemente é denotado como um génio da política, ainda não tinha reparado.

Das duas uma: ou Marcelo Rebelo de Sousa sofre do Síndrome de Asperger ou é profundamente incompetente. Génio não é, mas que apetece dar-lhe uma lamparina, apetece...



quinta-feira, 28 de março de 2019

Que estranha forma de vida

Não sei qual é mais estranho: que António Costa achasse que ninguém se importaria com os laços familiares dentro do executivo ou que só se tenha descoberto agora que havia coisas menos recomendáveis neste governo, que até tinha muita gente em comum com os governos de José Sócrates. Como diz o povo: à primeira caem todos, à segunda cai quem quer.

quarta-feira, 27 de março de 2019

O desaparecimento de Madeleine McCann

“The Disappearance of Madeleine McCann” é um polémico documentário da Netflix. A história é conhecida. A 3 de maio de 2007, Madeleine, uma menina inglesa de três anos, desapareceu. Os pais, Gerry e Kate McCann, estavam a jantar, com um grupo de casais amigos, desde as 20h30, num restaurante de Tapas do resort Ocean Club, na Praia da Luz (Portimão). De acordo com os testemunhos, de 20 em 20 minutos, alguém do grupo dava uma vista de olhos pelos diferentes miúdos deixados sozinhos a dormir. Era uma rotina que seguiam há uma semana.  Às 21h30, foi declarado o desaparecimento. As autoridades policiais chegariam ao local horas depois. Passaram quase 12 anos e o mistério continua. Não acredito na tese, defendida, desde quase o início, pelo inspector Gonçalo Amaral de que foram os pais que, por acidente ao sedá-la (os pais sempre negaram que sedassem os filhos), mataram a filha e depois encenaram um rapto.
Verdade que, aqui e acolá, transparece no documentário um certo desprezo e paternalismo dos ingleses em relação aos portugueses - somos pobres, os polícias andavam mal-vestidos, eram poucos profissionais, gostavam era de grandes almoçaradas, como, aliás, logo à época vários jornais britânicos acusaram. Acho até que têm razão nalgumas críticas aos métodos da Polícia Judiciária, que nós, na altura, gostávamos de acreditar que era a melhor do mundo - sempre achei uma treta sem pés na cabeça a tese de que os portugueses têm falta de auto-estima; nós somos "os melhores do mundo", como não se cansa de dizer o nosso querido e muito amado "Presidente dos afectos".

Dito isto, passado todo este tempo, continuam a chocar-me algumas coisas. Como é que os pais deixaram três crianças com menos de três anos a dormir sozinhas num quarto, enquanto jantavam tranquilamente num restaurante a dezenas de metros de distância? Pelos vistos, é uma prática normal entre os britânicos. Não há volta a dar. Este é um comportamento considerado bárbaro pelos nossos padrões, e ainda bem. Segundo, impressiona-me o impulso dos pais - um casal de médicos de Leicester - de chamar de imediato a comunicação social - ao que parece, antes de chamarem as próprias entidades policiais. Há muito a dizer sobre isto. Parece-me, antes de mais, um sinal de uma sociedade corrompida durante muito tempo por um jornalismo tablóide e por uma classe política rendida ao espectáculo e aos faits-divers – eram os anos áureos de Tony Blair e do seu amigo Rupert Murdoch. Quem se envolve com os media está a enfiar a cabeça na boca de um tigre com dentes bem afiados. Os heróis passam a vilões num piscar de olhos. Apresentados numa primeira fase como vítimas pela comunicação social, os McCann rapidamente foram vilipendiados e achincalhados por meio mundo. Por azar, esta tragédia coincidiu com o advento das redes sociais, onde os trolls puderam aliviar-se de todo o seu ódio em cima do casal. Hoje, os McCann devem estar arrependidos dessa imprudência. Ainda por cima. em vez de ajudar, os media podem antes ter - nalgumas fases, pelo menos - prejudicado a investigação.
Entretanto, os McCann processaram vários órgãos de comunicação social e apelaram a um debate sobre o papel dos media na sociedade. Há 100 anos, o jornalista e analista norte-americano Walter Lippmann explicou que os jornalistas se interessam por aquilo que acham que interessa ao seu público. Neste particular, nada mudou. O público quer boas histórias, e não se pode desiludir o público.


domingo, 24 de março de 2019

Irrevogável, a sério

Uma coisa que noto na minha interacção com os portugueses é que não têm noção do tempo em que vivem. Hoje em dia está tudo documentado e nada do que dizemos ou fazemos na Internet será apagado. Há pessoas que nem precisam de andar na Internet para terem a sua vida documentada, é o caso de políticos. Posto isto, acho curioso que não se tenha noção do nosso lugar na história--como é que cada um de nós quer ser lembrado daqui a 100 anos?

Portugal continua a sua tendência de decadência, houve apenas um interregno proporcionado pelos fundos comunitários, mas o empobrecimento vai acelerar por causa da dinâmica da população. Não só se empobrecerá porque a taxa de natalidade é baixa, como se irá empobrecer porque os jovens mais qualificados e que têm opção de sair, irão sair porque hoje em dia trabalhamos ao nível planetário.

Um dia, Portugal será um "case study" sobre o empobrecimento acelerado e nesse dia, quando a capacidade analítica for mais bem avançada do que o é hoje, tudo o que os portugueses publicam online será vasculhado para se tentar construir o porquê da coisa. Ir-se-ão encontrar as patetices do Presidente da República a dizer que as mulheres portuguesas são as melhores do mundo, um Primeiro Ministro que enche o Governo de famílias porque depois de ter criado uma alvo para a participação das mulheres, não soube criar um processo que investisse na formação e promoção delas, deferindo tal tarefa para pais e maridos, partidos que se dizem pró-mulheres e nunca tiveram uma mulher líder, etc.

Pode-se dizer que o nosso passado passará a ser irrevogável, mas a sério...

sábado, 23 de março de 2019

Vida preciosa, amor raro

Isto do pessoal do PS ser tão fofinho e andarem todos tão emparelhados, que até Aristofanes deve estar a dar pulos de alegria, dá-nos uma boa desculpa para ouvir o Girl and Boys do Prince. É que a vida é tão preciosa, queridos, e o amor tão raro!

I love you baby, I love you so much,
Maybe we can stay in touch
Meet me in another world, space and joy,
Vous êtes très belle, mama, girls and boys

Life is precious baby, love is so rare...



sexta-feira, 22 de março de 2019

The End!

O Robert Mueller terminou a sua investigação das ligações de Donald Trump à Rússia e submeteu o relatório final à consideração de William Barr, o recém-nomeado Attorney General, que indicou que talvez consiga dizer qualquer coisinha acerca do realtório este fim-de-semana.

Há quem especule que o relatório em si não será tão bombástico como muitas pessoas gostariam que fosse, mas o que muita gente esquece é que à medida que se desenrolava a investigação, Robert Mueller reencaminhava indícios que mereciam ser investigados mais aprofundamente para outros gabinetes, como o Attorney General de Nova Iorque. Ou seja, a procissão ainda vai no adro e, ao contrário da investigação de Mueller que se insere no âmbito do governo federal americano, uma investigação do estado de Nova Iorque fica fora do alcance do Presidente, que apenas pode perdoar crimes federais.

Outra coisa significativa acerca do alcance dos poderes do Presidente em bloquear o relatório tem a ver com a invocação de sigilo presidencial. O Presidente só pode invocar sigilo presidencial acerca de coisas que se passaram após se tornar Presidente, mas grande parte da investidação tinha a ver com coisas que se tinham passado durante a campanha presidencial e durante o período de transição que antecedeu a tomada de posse.

Estamos todos em pulgas, claro!


Feliz dia da poesia...

Quer dizer, para mim ainda é; para vocês já foi...

Light breaks where no sun shines
Dylan Thomas, 1914 - 1953


Light breaks where no sun shines;
Where no sea runs, the waters of the heart
Push in their tides;
And, broken ghosts with glow-worms in their heads,
The things of light
File through the flesh where no flesh decks the bones.

A candle in the thighs
Warms youth and seed and burns the seeds of age;
Where no seed stirs,
The fruit of man unwrinkles in the stars,
Bright as a fig;
Where no wax is, the candle shows its hairs.

Dawn breaks behind the eyes;
From poles of skull and toe the windy blood
Slides like a sea;
Nor fenced, nor staked, the gushers of the sky
Spout to the rod
Divining in a smile the oil of tears.

Night in the sockets rounds,
Like some pitch moon, the limit of the globes;
Day lights the bone;
Where no cold is, the skinning gales unpin
The winter’s robes;
The film of spring is hanging from the lids.


Light breaks on secret lots,
On tips of thought where thoughts smell in the rain;
When logics dies,
The secret of the soil grows through the eye,
And blood jumps in the sun;
Above the waste allotments the dawn halts.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Um descanso

"Rosen: So the solution to unconscious bias is to bring men and women together?

Ginsburg: Well the more women—this is something that Justice [Sandra Day] O’Connor often said, that women of our age should get out there and make a good show, and that will encourage other women, and the more women that are out there doing things the better off all of us will be."

Fonte: The Atlantic

No Dia Internacional da Mulher, as minhas colegas que estão todas num outro lado da sala porque pertencem a equipas em que há muitas mulheres disseram-me que eu tinha de ir passar um bocadinho de tempo ao lado delas porque no meu lado são só homens. Pois são, eu já tinha reparado, só que quando estou no meu lado da sala, a falar com os colegas, esqueço-me que estou no meio de homens.

Aliás, para mim é desconfortável estar ao pé de mulheres. Perguntam se tenho filhos, quando digo que não, dizem-me que ainda vou a tempo. Depois também há a questão do que eu como; não é que eu coma pouco, nem seja muito magra, mas sou mais pequena do que o resto das senhoras e elas têm curiosidade em saber o que como. Os homens não me perguntam coisas destas e é um descanso enorme. Só é preciso eu saber quem são o Tiger Woods e o Cristiano Ronaldo, mas isso é cultura geral.

Portanto, minhas caras mulheres, arranjem mais empregos com homens, mas olhem que não se namora no trabalho. Por uma questão de higiene, não se mistura negócios com prazer.

Pilinhas

Saiu outro ranking de pilinhas para animar a malta e partilhar no Facebook: "Portugal é o segundo país da UE com estradas com mais qualidade", ficou entalado entre os Países Baixos e a França. Dado que Portugal está estagnado há 25 anos, o que é que os portugueses fazem exactamente com as estradas tão boas que têm? Se não criam valor mensurável para a economia, servem para quê -- aumentar a dívida?

sábado, 16 de março de 2019

Por falar em investigação

Na Quarta-feira, estava no carro muito concentrada em ir para a aula de yoga, quando ouço a Audie Cornish, na NPR, anunciar que vai entrevistar a Cary Aspinwall. OMG, eu sei quem é, eu sei quem é!!! Ela estudou jornalismo na Oklahoma State University e foi colega do meu ex-marido, aliás trabalharam no jornal da escola juntos.

Então, a grande Cary Aspinwall é jornalista de investigação no Dallas Morning News, já foi finalista do prémio Pulitzer, e, na sequência da queda do primeiro avião 737 Max da Lion Air, fez uma peça sobre as queixas que os pilotos americanos tinham acerca dos problemas que tiveram para pilotar o avião, queixas essas que foram submetidas à base de dados federal que é administrada pela FAA (Federal Aviation Agency), apesar de ser mantida pela NASA.

Ah, e haver jornalismo assim em Portugal -- era bom, era...
Ah, e haver mais mulheres na rádio em Portugal -- era bom, era...

Adenda:
O meu computador, que deve ser uma maçã podre, não me deixa comentar no post com a minha conta do Google. Agradeço desde já a simpatia de me darem uma lista de mulheres tão exaustiva. Quanto ao segundo comentário acerca da AOC, não aprecio muito as ideias dela e tenho especial cepticismo acerca da teoria monetária moderna, que acho uma coisa que não tem lógica, dada a forma como os governos gastam dinheiro. Aliás, já houve bastantes países que estragaram a economia por causa de financiar gastos públicos com política monetária.

Tristeza e alívio

Como talvez saibam, não tenho filhos. Houve muitas razões para não ter, mas uma delas era um medo terrível que sofressem ou que causassem mal a alguém. É ilógico, bem sei, mas muitas vezes acontece uma desgraça e a primeira coisa que sinto ao saber dela é um enorme alívio por não ter filhos.

Esta semana houve o tiroteio numa escola em S. Paulo no Brasil e, para mim, que vivos nos EUA, não é anormal abrir as notícias e saber de um tiroteio, mas senti uma imensa pena. Tenho uma amiga brasileira que está grávida e quando soube da notícia pensei imediatamente nela, nas vítimas, e nas suas famílias.

Há dois dias houve uma notícia que me deu um resquício de esperança que talvez as coisas melhorem. O Tribunal Supremo do Connecticut produziu uma sentença em que permite às vítimas do tiroteio de Sandy Hook e suas famílias processar as empresas que produzem armas. Apesar de haver uma protecção federal destas empresas, o tribunal concluiu que as suas técnicas de marketing não estavam abrangidas por esta protecção.

Depois acordei na Sexta-feira, e vi a dimensão do tiroteio na Nova Zelandia. Senti tristeza pelas vítimas e alívio por não ter filhos.

sexta-feira, 15 de março de 2019

i de investigação

A DdD soube de fonte segura que o Jornal i, depois de descobrir que Pedro Passos Coelho passou do regime parcial (50%) para o de tempo inteiro (100%) e de ter sido "aumentado" 800 euros para 2000 euros totais (Passos Coelho foi aumentado em 800 euros pelo ISCSP depois de passar a "tempo integral"), quando tem de trabalhar o dobro do tempo, irá dedicar uma edição especial ao excelente jornalismo de investigação que produz a propósito de PPC. As peças que estão a ser trabalhadas incluem:
  • Passos Coelho ignora pergunta de aluno
  • Aluno reprova cadeira de Passos Coelho
  • Passos Coelho contribui para o aquecimento global
  • Passos Coelho compra uma pastilha e não dá número de contribuinte
  • Passos Coelho não usa sempre roupa interior de fabrico nacional
  • Jantar queimado por Passos Coelho
  • Passos Coelho falha buraco do urinol
  • Passos Coelho não baixa tampo da sanita
  • Passos Coelho desliga despertador e adormece
  • Passos Coelho recusa-se a engordar para ficar fofinho como António Costa

terça-feira, 12 de março de 2019

Empregos garantidos

Ora digam lá se isto não lembra o efeito da função pública no mercado de trabalho em Portugal:

"Competition from these government-sponsored jobs would have an initially healthy result. It would force private companies to raise wages and increase benefits in order to keep up with the government. But as private-sector jobs improved, activists’ notion of what constitutes a good job would increase, and they would call for steadily higher wages and benefits for government work. Eventually this would exceed private companies’ ability to pay, so the job guarantee would come to represent the benchmark in the labor market and make up an ever-larger slice of the economy.

This would reduce productivity, since government jobs would likely generate less real value than private-sector jobs. Economists have found evidence that the beneficiaries of short-term government jobs tend not to go on to find work in the private sector after the programs end, suggesting that guaranteed jobs would be low-productivity work. As activists forced government wages and benefits higher, the private sector would find itself deprived of cooks, janitors, housekeepers, cashiers and the other people who make a modern economy run. In a worst-case scenario, this would be a one-way ratchet to a peculiarly dysfunctional form of communism.

So although a job guarantee could potentially be a good thing, politics seem likely to make it bad. A better idea is to use private-sector employment subsidies to encourage companies to hire more unemployed and underemployed workers -- an approach that the data suggests is much more effective in terms of building long-term worker skills. Additionally, a combination of wage subsidies, minimum wages and increased worker bargaining power could help private-sector workers capture a bigger share of the value they create."

Fonte: Noah Smith, Bloomberg

domingo, 10 de março de 2019

Não é verdade, pois não?

Estou a duvidar da minha sanidade mental. Vi agora que uma mulher e sua filha apareceram carbonizadas numa viatura num aparente suicídio da mãe, que dizem sofria de uma depressão. Isto sucede na mesma semana em que a cabeça de outra mulher apareceu numa praia, e outras duas mulheres foram mortas pelos companheiros. Foi uma semana negra para as mulheres e, se calhar, até há alguma outra notícia que me escapa...

Perante isto, Catarina Martins acusa António Costa de agir como Passos Coelho por causa da eterna crise no sistema financeiro português -- será que ela se esqueceu que faz parte da Geringonça, logo é co-responsável? Marcelo Rebelo de Sousa elogia António Costa por causa do seu legado-- qual legado: Tancos, incêndios, ou 5 mulheres encontradas mortas numa semana? Ah, e ontem foi o dia Internacional da Mulher e o pessoal foi manifestar-se para depois ir votar no PS, BE, e PCP.

Como é que a morte de cinco mulheres numa semana em circunstancias tão anormais não domina as notícias? Como é que as pessoas não estão a discutir a segurança das mulheres, mudar a lei para dar penas mais pesadas a agressores, para clarificar o que é violência, melhorar os serviços de saúde para acompanhar perturbações mentais, como? Qual é o papel de uma mulher em Portugal, o de vítima?




quarta-feira, 6 de março de 2019

Fake news

Hoje no Here and Now estavam a falar de uma peça que acabou de ser publicada na New Yorker acerca das práticas da Fox News na cobertura da campanha e agora da Presidência de Donald Trump. Uma das coisas que a peça revela é que Trump recebeu perguntas da entrevista com Megyn Kelly com antecedência. Algo parecido aconteceu no lado dos Democratas durante a campanha para a eleição, quando se descobriu que Donna Brazile lhes tinha enviado as perguntas de um debate na CNN -- ela foi imediatamente despedida.

Note-se que nada disto são crimes, mas violam o código de ética e deontologia do jornalismo e, ao contrário do que os portugueses pensam, os americanos são muito obcecados com este tipo de coisas. Pode haver lapsos ocasionais, mas quando são descobertos tem de haver consequências e cai o céu e a trindade quando há práticas abusivas consistentes. Os EUA são um país muito litigioso e não seguir o código de ética pode convidar processos em tribunal e limitar o uso da liberdade de expressão como mecanismo de defesa. A um meio de comunicação dá-se muito mais latitude para usar nomes e descrever situações do que a uma pessoa particular ou a uma empresa que não faça parte da comunicação social. Há sempre um exercício de comparação entre o interesse de o público saber e o direito à privacidade e bom nome.

Por exemplo, O Washington Post está a ser processado pela família do jovem que ficou famoso por causa do confronto entre os índios nativos americanos e os estudantes da escola católica e vai ter de provar que o objectivo da sua cobertura noticiosa era apenas o de informar e não tinha quaisquer outras intenções, nem foi feito por malícia.

A propósito deste processo em Tribunal, Donald Trump, que é especialista em jornalismo, já deu o seu parecer: houve violação dos princípios deontológicos de jornalismo e foi fake news. Em Portugal, também há uma especialista em jornalismo e fake news, a Elisa Ferreira, que, para além de ser Vice-Presidente do Banco de Portugal, foi convidada para dirigir o Público por um dia. Talvez ela queira escrever uma peça sobre o caso do Washington Post, já que não parece que o Banco de Portugal lhe dê muito trabalho.

sábado, 2 de março de 2019

Colagens

Não me recordo se vos disse, mas dei a minha TV a um dos moços que mudou a minha mobília. Não faz grande diferença, excepto sexta-feira à noite, que era quando muitas vezes via um filme no Netflix. Agora vejo no computador, mas tenho algumas saudades de um écran grande. Ontem, quase que vi alguma coisa no Netflix, mas deu-me a preguiça e fui ver as Histórias do Instagram. Uma das pessoas que sigo é a Sara Toufali, da Black and Blooms, que é basicamente sobre roupa e decoração do lar.

(E agora os apoiantes da Joana Bento Rodrigues gritam "'Tás a ver? É mulher, gosta de roupa e de decoração do lar!" E os detractores suspiram "Ó Rita, tem vergonha! Porque não aproveitas o cérebro para outra coisa melhor?")

Acho o caso da Sara Toufali interessante porque o blogue/Instagram não é muito antigo e ganhou projecção rapidamente depois de ela decidir adoptar um estilo mais boémio, que lhe permitiu fazer parcerias com marcas e também conhecer outras bloguers mais estabelecidas. Ou seja, parte é sorte, parte é ela ter um bom sentido estético, e outra parte é networking.

Então, ontem, nas histórias dela apareceu um link para uma peça da Domino, uma revista de decoração americana, em que ela fala sobre azulejos autocolantes. Quando li, quase que caí da cadeira. Então não é que o primeiro azulejo se chama "Porto"? Quando visito Portugal, é comum ver coisas decoradas com motivos de azulejos portugueses, mas são muito kitsch e não me agradam.

A Bleucoin, que é a empresa indiana que os produz, organizou a colecção por países e regiões: Itália, Portugal, Marrocos, Turquia, Europa... Os azulejos portugueses são mesmo giros. Ora vejam:

Isto não é o da Joana...

Gostaria de acrescentar umas coisas à discussão sobre aquela peça da Joana Bento Rodrigues. Encontrei a peça através de um amigo meu que a partilhou no Facebook e fiquei um bocado chateada com o comentário de alguém que eu não conhecia, que perguntava como é que o Observador publicava uma coisa daquelas. Só por ter lido aquilo apeteceu-me logo ser a favor da Joana porque argumentar a favor da censura é um primeiro sinal de que a coisa é mais complexa do que parece. Depois, vi que havia muita gente contra, ou seja, a JBR tornou-se no underdog aí do sítio e eu, como boa americana que sou, tenho de torcer pelo underdog.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Dia 56

O escândalo do relatório da CGD parece que foi há muito tempo porque, como o nosso ilustre Primeiro Ministro já estava farto da cobertura mediática desfavorável, reformou o governo, o que nos permitiu descobrir que uma das qualidades que aprecia nas mulheres é a capacidade de elas o acalmarem. É uma característica tão importante, que até as promove a Ministras.

Fiquei um bocado intrigada com o Ministro Vieira da Silva, esse mesmo, o pai da Ministra Vieira da Silva -- o nosso governo é tão caseirinho e fofinho. Como é que um homem com o nível de educação que ele tem educa a filha para ser uma profissional que é descrita como "trabalhadora", "dedicada", e acalma o chefe? Eu esperava que uma Ministra fosse elogiada pelo seu conhecimento da área, a sua capacidade de liderança, pensamento fora da caixa, etc. Afinal, não; tem as características ideais para ser secretária e casar com o patrão, como era comum há umas décadas.

Mas a indignação maior parece que está a acontecer com o facto de o Observador ter publicado a peça da Joana Bento Rodrigues que decidiu defender as mães e donas de casa e que acha que estas devem ter representação política -- um conceito revolucionário em Portugal, se bem que os argumentos usados sejam tão estererotipados que cheiram um bocado a mofo. De imediato se seguiram várias peças a refutar os argumentos que ela apresentou. É estranho que, de repente, tenham aparecido várias mulheres de Direita que acham que têm pontos de vista tão válidos que não se inibem de dar a sua opinião em público. Ainda por cima têm vida profissional, são casadas, têm filhos, ou seja, são todas iguais.

No meio disto tudo, penso nas jovens portuguesas que andam à procura de modelos de comportamento, o que os anglosaxónicos chamam de "role models": será que irão escolher a profissional que acalma ou a profissional que irrita?

P.S. Parabéns ao Observador por ter dinamizado a discussão do papel das mulheres na sociedade e as ter inspirado para se pronunciarem.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

IRRA

Em Portugal, as pessoas têm dificuldade em entender a natureza do que é um conflito de interessa e a necessidade de, por iniciativa própria, os divulgar e se afastarem de situações em que os mesmos possam ocorrer. No estrangeiro, este tipo de comportamento é mal-visto.

Não é de estranhar que se comecem a encontrar almas lusas no estrangeiro que se emaranham em situações de conflito de interesses, mas que os próprios não sabem gerir. Tal é detrimental não só para a reputação do país, como para a reputação profissional dos portugueses que trabalham no estrangeiro e se esforçam por se comportar de acordo com regras de ética e boas práticas profissionais e legais.

Como sou pessoa interessada na boa reputação de Portugal, dado que sou uma expatriada portuguesa a residir do estrangeiro onde exerço profissão (primeira declaração de interesse), venho por este meio propor a criação de um imposto que sirva para dissuadir portugueses prevaricadores. Este imposto, o IRRA -- Imposto de Reabilitação da Reputação Alheia --, incide sobre quem ofenda a boa reputação profissional dos portugueses no estrangeiro e as suas receitas serão utilizadas para financiar os cuidados de saúde de expatriados que regressem ao país e que nunca tenham prevaricado.

Segunda declaração de interesse: Não é certo que eu regresse, logo não é certo que eu seja beneficiada pelo IRRA.



terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Dia 55

Ainda no seguimento da conversa do 54, passa-se o seguinte: o meu rabo anda mais redondinho, quando o normal é ser achatado sem forma nenhuma; atribuo esta mudança às minhas aulas com o personal trainer. Aliás, na nossa última aula disse-me "You look really small today". Olha que grande avaria, pensei, e respondi-lhe "I look small every day." Pouco mais de metro e meio, filhos! Clarificou: "You look skinny!"

Ah, caramba!!! E agora, hein, já viram este dilema: será que sou mulher objecto feminista ou mulher bem-cuidada anti-feminista? Marquem-me uma consulta com a Dra. Joana, senão não saio deste imbróglio...

Dia 54

Quando digo que não sou feminista, os meu amigos americanos ficam chocados porque me consideram uma grande feminista. Só que o feminismo hoje em dia encalhou num porto em que todas as mulheres devem ser uniformes, com carreiras excitantes, vidas sociais activas, filhos super-inteligentes, parceiros que mudam fraldas, malucas na cama, etc. Eu acho muito cansativo ser tudo isso a toda a hora. O mundo está formatado para os homens e pouquíssimos homens conseguem realizar-se na profissão, na família, e como indivíduos e os que conseguem tiveram uma grande ajuda do factor sorte.

Depois, há outra coisa que me chateia, querer que toda a gente seja boa a tudo dificulta-me a vida. Uma vez tive um colega que trabalhava part-time, mas era o principal responsável pelos filhos, o que ele adorava. Dava-lhe mais prazer falar de cuidar do cão e da prole do que de falar de coisas do trabalho e era uma seca ter de trabalhar com ele porque atrasava-se nas tarefas, não fazia coisas que devia ter feito, etc. E a conversa matava-me de tédio. Ou seja, acho perfeitamente desejável que algumas pessoas se especializem em cuidados domésticos e puericultura, enquanto que os respectivos parceiros têm uma vida profissional fora de casa. Desde que o casal esteja de acordo na definição das responsabilidade, devemos apoiar e respeitar a diversidade de papeis.

Quando li a peça da Joana Bento Rodrigues no Observador, concordei com 80% do que ela disse, mas achei que foi muito infeliz na forma como argumentou até porque ela não pratica o que prega. É médica, que não é uma profissão fácil, requer um enorme investimento de tempo e dedicação, e não tem ares de ser submissa, à espera que o marido seja o ganha-pão que lhe proporcione uma vida confortável. Aliás, não só anda metida na política, como ainda lhe deu na telha de escrever uma peça para o Observador (o Público era capaz de não a ter publicado). Ainda por cima, tem uma aparência cuidada, até se maquilha, como diz que fazem as mulheres objecto.

Mesmo assim, visto de outro prisma, ela está a dar umas boas dicas às mulheres: filhas, se é para vocês ficarem em casa a tratar dos miúdos, exijam que o marido maximize o que traz para casa. Não se contentem com dois tostões, nem se casem com homens medíocres. Isto é divisão de tarefas, não é facilitar a vida a preguiçosos. E também dá um aviso aos homens: se querem boas mães para os vossos filhos, contribuam para o orçamento familiar.

A verdadeira igualdade só será atingida quando for tão natural uma mulher ficar em casa com os filhos, como um homem, como fazer o outsourcing do serviço, ou como decidir não ter filhos. Todas as escolhas são legítimas, desde que sejam o produto da vontade de cada um. Quanto ao resto, de as mulheres gostarem de se apresentar bonitas, bem vestidas, etc., é verdade. Aliás, quando queremos agradar a uma mulher até é comum comprar-lhe joalharia ou perfume e ela não leva a mal, nem nos corre à vassourada. Mas cá entre nós, se me comprarem uma garrafa de gin, eu prefiro...

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Dia 53

Choveu quase todo o dia, por vezes uma chuva intensa, com pingos inclinados que riscavam a paisagem. Ao fim da manhã demos um salto ao Lowe's para comprar filtros de ar e água para o frigorífico. O Julian ia no cesto de compras, mas a sua impaciência crescia visivelmente e pôs-se de pé, como se assim visse melhor onde estava. Ou talvez o objectivo foi que o vissem melhor. Os transeuntes, que disfarçavam um sorriso quando o viam, começaram a aproximar-se e a meter conversa. Uns queriam fazer-lhe festas e ele, um vendido por uma carícia seguia-lhes a mão quando paravam.

Quando chegámos à caixa, estava completamente irrequieto e oferecia-se às pessoas que lhe falavam, como se a chamá-las. Às tantas saltou do cesto e ficou pendurando pela coleira de segurança para horror de uma senhora que estava ao pé de nós e que imediatamente se ofereceu para ficar com ele ao colo enquanto eu terminava de pagar. A supervisora das caixas também veio para lhe fazer festas, perguntar o nome, e babar-se toda. À saída projectou a voz para se despedir: "Bye Julian! Come back and see us..."

De sonso este cão não tem nada. Suspeito que fugiu dos donos que tinha porque uma amiga minha encontrou-o na rua um fim-de-semana, foi ter à porta dela. Passou dois dias cheio de mimo, mas estava tão excitado por ter atenção que não parava quieto. Na Segunda-feira, recebi uma mensagem dela a perguntar se eu queria um cão porque ela já tinha dois. Querer não queria, mas o pseudo-ultimato que ela me deu foi que ou era eu, ou era o abrigo de cães, porque já tinha tentado encontrar os donos, mas não viu ninguém à procura dele na Internet, nem na rua.

Um buldogue francês não combina bem com um abrigo de cães, nem combina com anúncios à procura de dono. São cães caros e agora estão na moda, ou seja, é provável que alguém se identificasse como dono só para ficar com o cão e o vender. respondi-lhe que ficava com ele, mas que primeiro tinhamos de o levar ao veterinário e marquei consulta para essa tarde.

Quando o vi pela primeira vez, o barulho da sua respiração parecia o de uma automotora e eu só conseguia pensar que ia detestar o cão por ser tão barulhento. O meu silêncio--onde e quando é que eu ia encontrar novamente o meu silêncio? Mas era necessário lidar com a situação e o pragmatismo racionalizava a coisa: "Depois pensas nisso, não vale a pena sofrer por antecipação."

Ele pode ser francês, mas não cheirava a eau de toilette. Os ouvidos estavam todos inchados e cheios de pus e fermento, o que o fazia cheirar mal e lhe dava um tom rosado à pele. Talvez fosse devido a alergias sazonais, disse a médica. As unhas super-compridas, estavam quase a enfiar-se nas almofadas dos pés. Deduzi que o cão nunca era passeado e a facilidade com que se aliviava dentro de casa indicava que o tinham treinado para usar tapetes higiénicos. Um cão avariado é o cão perfeito para mim e foi assim que fiquei com ele.

Depois de começar a passear duas vezes por dia, deixou de ser barulhento e hiper-activo; afinal, até é um cão calmo. Aprendeu a ir ao quarto-de-banho na rua e não gosta de andar por sítios sujos: evita a lama e as poças de água. Gosta muito de roer a chupeta de cão, o que me facilita a vida porque lava os dentes. No início, não parava quieto quando entrava no carro, agora meto-lhe o cinto de segurança e aguarda até chegarmos ao destino. Adora fazer passeios e se me vê a ir para a garagem vai para a porta do carro.

Chamo-lhe morceguinho, ele dá-me lambidelas na cara, e é tudo um bocado surpreendente porque o Julian comporta-se como se eu tivesse sido sempre a humana da vida dele, mas por vezes ainda tenho dificuldade em perceber que ele é o meu cão.




sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Dia 52

Nem a propósito, a Maria João Marques escreveu uma peça sobre a fraca visibilidade que a Direita portuguesa dá às mulheres. É estranho que assim seja porque, antes de mais, é um enorme retrocesso: houve bastantes mulheres importantes na Direita portuguesa. E depois demonstra que muitos homens portugueses têm sérios problemas em entender coisas básicas de matemática, pois é impossível ganhar uma eleição sem mulheres e, mesmo que os homens da Direita pensem que sem a concorrência delas fica mais para eles, esquecem-se do facto de elas serem boas a criar valor. Como a economia portuguesa está, no melhor dos casos, estagnada ou, no pior, a encolher, é surprendente que haja pessoas que pensam que é mais importante proteger a distribuição do bolo do que arranjar maneira de aumentar o tamanho do mesmo.

A Christine Lagarde, numa entrevista ao Marketplace emitida hoje, fez uns comentários interessantes acerca da participação das mulheres em lugares de chefia. Disse ela:
[...] the IMF now recognizes that the role of women in the economy can be macro critical, and therefore warrants our focus, our attention, our research capacity and our policy recommendations.

What we have done very recently — I just want to mention two numbers for you — is a thorough study on the banking sector to see how many women were in executive boards or boards. Twenty percent only are women. How many women are CEOs or chairmen of banks? Two percent. And then we tried to correlate the solidity of banks with the number of women sitting on the board. And it's very interesting to see that those banks which have a significant number of women on their board are stronger, are less likely to file for insolvency, have bigger capital buffers, have less nonperforming loans and are less risky."

Fonte: Christine Lagarde em entrevista ao Kay Ryssdal no Marketplace, 21/2/2019

Eu não vos dizia que a CGD -- e quem diz CGD diz a banca portuguesa -- precisava de umas avózinhas?


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Dia 50

Quando andei na faculdade a tirar o curso de economia -- ai Deus Meu, comecei o curso há quase 29 anos, para onde é que foi o tempo? --, ensinaram-nos que 5% era a taxa natural de desemprego. Naquela altura era muito difícil observar taxas de desemprego pelos 5%, mas agora é bastante comum. O mercado de trabalho está mais flexível: é fácil montar um negócio online e com oportunidades de emprego tipo Uber, arranjar uma ocupação não depende do resultado de uma entrevista com o patrão, mas da nossa vontade de nos inscrevermos.

A taxa de desemprego, em Portugal, ainda não está nos 5%, mas o Ministro da Administração Interna pensa que está baixíssima, com o país a precisar de 50 a 75 mil imigrantes por ano, pelo menos. Não sei onde é que ele pensa que vai desencantar tanta malta porque nem os refugiados gostam de ficar muito tempo em Portugal. Até a mim não me apetece aí ir e já estou a planear alternativas à minha reforma em Portugal. Vou para aí fazer o quê, servir de alvo para os burlões? Não, obrigada.

É chato não ter ninguém com quem falar português, nem há livros audio -- uma inovação que nunca chegou a Portugal --, mas convenhamos que o Facebook foi inventado por um americano para a minha conveniência. E há um rapaz brasileiro que tem uma conta no Instagram que é espectacular: nas histórias, ele lê contos, poemas, fala de livros, etc. É o Paulo Roberto Farias, que é actor e escritor.

Há um outro detalhe importante: os americanos gostam muito de mim. Por exemplo, fui ao banco fazer o empréstimo para comprar a minha casa e as senhoras que trataram da papelada ficaram super-impressionadas comigo porque eu era uma pessoa muito responsável, uma mulher com boas poupanças, tinha a papelada toda em ordem e sabia o que tinha e não tinha, e até lhes dei a comprovação de emprego sem elas sequer terem de me pedir. Não esperava tanta admiração pelo que fiz, pensei que era o normal que se esperaria de quem vai ao banco, mas elas elogiaram-me tanto que até fiquei um bocado acanhada.

Ah, uma curiosidade. Então, logo na primeira reunião, a senhora avisou-me logo: se prestares informações falsas, ficas em sarilhos. Obviamente, que não presto -- eu sou portuguesa, mas não sou portuguesa. Ter uma senhora assim na CGD teria dado jeito há uns anitos, mas também o enquadramento legal não ajuda, dizem-me. (Esta senhora que me atendeu já era avózinha, o marido tinha-se reformado e ela era o ganha-pão da família. Super-simpática e até me disse para eu passar pelo Banco para a cumprimentar, sempre que estivesse nas redondezas. Nunca na vida uma senhora com esta idade teria um emprego semelhante num banco português.)

Voltando à taxa de desemprego de Portugal, em 2018, estabilizou em 6,7%. Gostaria de saber qual o plano para lidar com esses 6,7%. Bem sei que poderia ir falar com o João Cerejeira, que até foi entrevistado recentemente pelo Público, mas era mais giro se os membros do Governo falassem com mais profundidade do assunto, quem sabe podiam produzir um relatóriozito a explicar o que acham do desemprego português e que ideias têm para melhorar a situação. Estamos em ano de eleições, não é? A altura ideal para apresentar propostas giras.





terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Dia 49

Hoje não trabalhei porque foi feriado, mas como o senhor das reparações trabalhava, pedi-lhe para vir cá a casa continuar os arranjos e pendurar alguns dos cortinados. Durante o almoço falámos da família e dos tempos que vivemos. Ele nasceu em 1963 e tinha um pai abusivo, a quem a mãe deixou. Contou-me isto porque eu tinha dito que uma das diferenças entre os EUA e Portugal é que nos EUA, até recentemente, quando as pessoas chegavam aos 18 anos o normal era saírem de casa dos pais e irem à sua vida; já em Portugal, o normal é ficar com os pais até se casar e as pessoas casam-se tarde, se se chegam a casar.

O meu argumento era que o sistema americano era superior, pois os jovens tinham a independencia cedo, mas também estavam na idade de cometer erros e os pais os podiam ajudar, ou seja, havia um período de transição entre ser-se jovem e ser-se adulto. Ah, mas o problema agora, dizia-me ele, era que as pessoas tinham filhos, mas esperavam que o sistema cuidasse deles. Os pais não passam tempo com os filhos e têm a expectativa de a escola cuidar dos miúdos. Eu concordei, mas o facto é que hoje em dia há muitas crianças que estão a ser criadas pela mãe, com o pai ausente, e é muito difícil que uma pessoa só consiga dar conta do recado.

Foi aí que ele me contou que tinha crescido num lar assim, pois a mãe deixou o pai por causa deste não a tratar bem. Mas devia ter sido uma época muito díficil para se viver, os anos 60, porque estávamos em plena luta contra a segregação, respondi-lhe. É um estereótipo presumir que os homens negros são pais ausentes e, caramba, há tantos pais brancos que não dão conta do recado e não têm de lidar com serem vítimas de racismo. Não estou a justificar o injustificável, mas tento colocar-me na situação dos outros para tentar apreciar o seu ponto de vista.

A família que ele construiu é completamente diferente: tem uma família "normal", com esposa e dois filhos, um com 15 e outro com 18. O de 15 telefonou durante o almoço porque queria que o pai desse boleia a um amigo que tinha ido passar a noite lá a casa, enquanto ele (o filho de 15) ia brincar com outros amigos. O pai discordou e explicou-lhe: o amigo era convidado dele e tinha feito o favor de o ir visitar para lhe fazer companhia, logo o mínimo que tinha de fazer era levar o amigo a casa. Concordei com o pai, era falta de educação largar o míudo para ir ter com outros.

Continuámos a conversa e ele conta-me que vê o ter crescido com um pai abusivo, cujo comportamento acabou por separar a família, como uma bênção porque foi o que fez com que quisesse dar outro rumo à sua vida. Mas não foi linear, recordam-se que no outro dia ele me tinha dito que durante algum tempo tinha sido sem-abrigo.

Os humanos são uns animais um bocado estranhos: há alguns que precisam de adversidade para ter sucesso e outros que perante a adversidade só conseguer ter insucesso. Com tal dicotomia, é muito difícil tentar chegar a uma sociedade perfeita.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Dia 48

O Brock Long demitiu-se da FEMA (Federal Emergency Management Agency), depois de um pequeno escândalo em que se soube que ele usava o carro oficial para viagens a casa, o que instigou uma investigação. Já vos falei do Brock Long antes a propósito de tempestades que atingiram os EUA. Mas as verdadeiras manchas do seu desempenho são o furacão Maria, que atingiu Porto Rico e causou a morte de mais de três mil pessoas, número que só foi admitido cerca de um ano depois, e o furacão Michael, cujo número de fatalidades ainda não sabemos ao certo.

O fulcro da questão não é o Brock Long em si, mas o seu mau desempenho. Houve coisas que correram bem quando estava em funções, por exemplo, acho que a resposta ao furacão Harvey foi bastante boa, mas dada a inconsistência de resultados, é credível que a responsabilidade desse sucesso se deva mais ao governo local de Houston e do Texas, do que à FEMA.

Frequentemente penso no conceito de sucesso e do que significa ser bom. Para se saber se alguém é bom, é necessário que haja repetição e adversidade, ou seja, temos de observar a pessoa em várias circunstâncias e, idealmente, essas cirscunstâncias são caracterizadas por serem difíceis. A repetição serve para controlar o factor sorte e a adversidade para controlar a maior probabilididade que está associada a resultados em torno da média.

Estas ideias são bastante pertinentes na selecção de pessoas que se quer num Conselho de Administração; o ideal é mesmo alguém que tenha uma riqueza de experiências e que se tenha distinguido consistentemente em situações adversas. A razão é muito simples: queremos pessoas com capacidade de pensar e imaginar os extremos de risco a que a entidade está sujeita. Assim, essa pessoa faz as perguntas necessárias e conduz as investigações que acha pertinentes. E tendo um grupo de pessoas com estas características num Conselho de Administração, conseguimos controlar o risco e minimizar a probabilidade de resultados negativos.

Em Portugal não se pensa assim porque os resultados desastrosos que a banca tem obtido demonstram que as pessoas que são nomeadas para os Conselhos de Administração não agem de forma a minimizar o risco; ser membro é mais uma questão de honra do que de dever. Até penso que devem achar que a probabilidade das coisas correrem mal é tão baixa que não vale a pena estar a perder tempo com isso; só que quando se conclui tal coisa estamos a inferir fora da amostra. O facto de as coisas más não aconteceram tão frequentemente não é tanto que sejam tão improváveis, mas mais o resultdo de ser-se negligente, cometer-se ilegalidades, etc. serem comportamentos eles próprios improváveis.



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Dia 45

Quem acompanhar a imprensa popular especializada em economia, já deve ter notado que uma das questões que mais vem à baila é o timing da próxima recessão americana. Como eu mencionei aqui há uns largos meses, até mais de um ano, se não me engano, se o período de expansão se prolongar para além de Julho de 2019, este terá sido o mais longo período de expansão da economia americana. Há vários modelos que estimam a probabilidade de uma recessão nos próximos 12 meses e estas vão dos 20% até mais de 50%.

A propósito disto, hoje o Paul Krugman disse uma coisa muito engraçada na Bloomberg: “Our current Treasury Secretary is no Hank Paulson!” Ou seja, a pessoa que é responsável por definir a política fiscal americana não é tão boa como passados detentores do cargo. E dado que a política monetária não tem tantas balas como tinha antigamente, pois as taxas de juro ainda estão historicamente baixas e a Reserva Federal ainda tem um balanço bastante sobrecarregado, a situação é preocupante e merece escrutínio. Por isso se fala nela.

Portugal encontra-se num barco ainda pior. Na próxima recessão, a política monetária europeia será ainda mais fraca do que a americana porque as taxas de juro estão mais baixas na Europa, para além de que é direccionada para o Bloco euro e não para países específicos, e muita da dívida pública já é detida pelo BCE. Do lado da política fiscal, temos a dívida pública portuguesa bastante alta comparada com o tamanho da economia e as instituições não funcionam, logo os governos aproveitam situações de crise para gastar dinheiro em coisas que não produzem valor para a economia, mas que permitem a muita gente com o cartão partidário ganhar uns trocos à conta do erário público. Nada nos leva a crer que o futuro próximo seja diferente do passado recente, até porque o PS governou na crise anterior e parece que irá governar na próxima.

Com certeza percebem, então, quais as pergunta mais pertinentes que os governantes portugueses deveriam estar a tentar responder:
  1. Qual a forma de estímulo da economia portuguesa quando esta entrar em recessão?
  2. Qual a garantia de que os fundos de estímulo não serão desviados para favorecer os corruptos do costume?

Estas duas questões deveriam monopolizar a discussão em volta das próximas eleições, mas já sabemos que ninguém passará troco. Por alguma razão discutimos hoje os pecados da última crise, em vez de como minimizar os da próxima.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Dia 44

Na aula de yoga de hoje, a minha professora, que foi aluna do Iyengar, iniciou a nossa instrução a falar dos oito ramos de yoga. O primeiro é o Yama, que tem a ver com ética -- é a nossa conduta moral e social. Yoga devia ser obrigatório em Portugal porque a ética anda pelas ruas da amargura. Imagine-se que, hoje em dia, há grande indignação por eventos que ocorreram há tanto tempo que legalmente já devem ter prescrito, ao mesmo tempo que muitas das pessoas envolvidas continua a sua actividade profissional, como se nada se tivesse passado. Ninguém se recusa, se demite, ou é demitido. E será que não fizeram uns coisitas mais recentes que mereçam ser investigados e submetidos à justiça sem haver o risco de prescrição? Daqui a 10 ou 15 anos, teremos a nossa resposta.

Em 2011, uma jornalista de investigação, a Suki Kim, infiltrou-se na Coreia do Norte onde viveu durante seis meses, fingindo ser uma professora de inglês numa universidade frequentada pelos filhos das elites. Fê-lo porque tinha um contrato para escrever um livro sobre como é viver lá e porque entrevistar pessoas e visitar como turista não dão uma visão realista, pois as pessoas são treinadas para mentir: a sua sobrevivência depende da sua capacidade de mentir e mentir tem uma conotação diferente da que toma nas sociedades ocidentais. Visto assim, parece que Portugal ainda vive sob o espectro de uma ditadura porque finge-se indignação quando é conveniente, finge-se que as instituições funcionam, finge-se que os políticos irão redimir-se um dia destes, finge-se que há jornalismo a sério, etc.

Olafur Hauksson, que era um mero comissário de polícia de uma cidade pequena quando a Islândia sucumbiu à crise financeira, diz que sentiu que tinha o dever de servir o país e candidatou-se ao posto de investigador da crise -- ninguém mais se candidatou, mas a Islândia tinha menos de 315.500 pessoas em 2008. A equipa de investigação tinha apenas cinco pessoas, mas cresceu e chegou a exceder 100. Em 2012 houve a primeira condenação; até agora conseguiram quase 40. Diz ele que os políticos se sentiram obrigados a ter uma investigação. Portugal tem uma população 33 vezes superior à da Islândia e, se havia alguém com sentido moral de investigar as falcatruas lusas, essa pessoa deve ter emigrado.

Parece que a única obrigação que existe no nosso rectângulozinho é apoiar ladrões, daqueles que "roubam, mas fazem"...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Dia 42

Saltei um, o 41, mas 42 é o ano em que a minha mãe nasceu e ela é pertinente para esta história. Se fosse viva, estaria a perguntar-me como é que eu ainda não tinha feito nada, mas nada pode ser feito. Nada pode ser feito contra a morte, mesmo que haja lendas africanas em que se conte que lembrar-nos nos mortos os mantenha naquele estado de semi-vivos, entre a vida e a morte. Essa lenda deu aso a um livro de Kevin Bruckheimer, "The Brief History of the Dead." A breve história dos mortos, mas o que é breve é a vida, aquela coisa em que um dia estamos e no outro estivemos.

Ela esteve até Sábado, dia em que morreu. Não conheci a pessoa, era uma amiga virtual, mas trocámos algumas mensagens. Recordo-me de uma em que pediu ajuda para um projecto que o filho tinha na escola, que era relacionado com economia; noutra vez, perguntou-me se eu me disponibilizava para apoiar o filho que uma amiga que vinha fazer um programa de intercâmbio nos EUA, se fosse preciso. Parece tão recente e foi ha tanto tempo. Tinha sensivelmente a minha idade, um aniversário que se celebrava a 6 de Fevereiro. Mas, no dia 9 de Fevereiro irá celebrar-se outro aniversário: o da morte, é um daqueles aniversários em que eu penso porque um dia é o nosso e eu tenho tendência mórbidas. E logo calhou hoje um amigo meu no Facebook perguntar se era sinal de depressão pensar tanto na morte. Não, não é sinal de depressão; é sinal de inteligência, respondo-lhe.

Se querem que vos diga, sabia que estava doente, mas não liguei muito até há uns dias em que postou qualquer coisa no Facebook e senti alguma urgência. Senti calafrios, vontade de chorar, e, nesse dia, quase que me apeteceu ir para casa, não queria estar no trabalho, mas resisti, pensei que fosse uma das minhas pequenas paranóias. Pensei no pouco que poderia fazer para apoiá-la. É difícil apoiar alguém quando estamos longe, ainda por cima, na nossa condição virtual, apenas podemos marcar a nossa presença. Dizer que estamos a pensar na pessoa, que estamos a torcer por ela, os lugares comuns do costume por muito sentidos que sejam.

Mas não é suficiente e sabe a pouco. Que mais poderá ser feito estando no outro lado do mundo... Pedi a morada para enviar um postal de melhoras, mas achei mais célere enviar algo que estivesse já em Portugal. Talvez os correios fossem mais rápidos, mas a dúvida assalta os pensamentos--os CTT são uma porcaria, não dá para contar com eles para nada. Mas, mesmo assim, contactei uma amiga a perguntar se podia enviar umas bolachas e um postal em meu nome. Era para seguir hoje e este fim-de-semana fiquei de enviar o texto para o postal, o que fiz ontem.

Hoje também soube que era tarde demais, tinha morrido no Sábado. Penso nos filhos, tão novos, no marido, na mãe. A ideia de perder um filho persegue-me, acho uma das coisas mais horrorosas, mas morrer e causar dor a um filho também não fica atrás. À filha ela começou a tricotar uma camisola que não conseguiu acabar. Cá em casa também há um projecto inacabado. Antes de morrer, a minha mãe decidiu que ia fazer-me uma colcha em crochet. Estes projectos não são projectos em si, são tentativas de lançar uma âncora, de se iludir que não podem partir sem terminar o que se propuseram a fazer, de se agarrar à vida. Talvez terminar criar um filho seja o projecto herculíneo, que requer demasiado, mas um crochet, uma tricot parece tão mais fácil, qualquer um pode pensam as pessoas que sentem que o fim se aproxima.

Uma vez postei umas fotos do meu quarto: nas mesinhas de cabeceira e nas estantes tinha algumas peças do crochet da minha mãe. E esta amiga virtual viu as fotos e pediu imagens mais detalhadas, também gostava de crochet. De todos os lavores, o crochet é para mim o mais efusivo. Nunca consegui que o meu ponto fosse consistente, nem sequer consegui terminar um projecto. Depois da minha mãe morrer, tentei terminar a colcha, mas pouco progresso houve.

Estou a ouvir a Natalie Merchant. Quando morre alguém, apetece ouvi-la. Lá fora chove, como choveu no fim-de-semana. É um conforto. Quando a minha mãe morreu e fui à morgue esperar que preparassem o corpo também chovia. Quando uma parte do nosso mundo termina, as coisas mais insignificantes é que nos podem manter ligados à vida. Não para sempre, mas por algum tempo.

Que descanse em paz.