terça-feira, 19 de novembro de 2019

Investir por amor

Estava a ouvir o Conversas Cruzadas e achei que a questão do englobamento do rendimento das rendas não ficou devidamente esclarecida porque quando falaram na comparação internacional foi enquadrada em termos de taxas marginais de imposto. Essa abordagem está errada quando se compara com os EUA. Como vos expliquei no post anterior, nos EUA, os senhorios pagam imposto sobre a renda líquida, ou seja, o lucro que fizeram nesse ano na exploração da propriedade. Como sou residente nos EUA, tenho de declarar a minha actividade como senhoria em Portugal ao Internal Revenue Service, nos EUA. E também a declaro à AT, em Portugal, obviamente.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A generosidade

Sérgio Vasques, antigo Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, é citado no Eco, pois considera que uma taxa de 28% sobre as rendas é generosa. Ora só o será se o senhorio tiver recebido o imóvel de herança em óptimo estado de conservação, pois assim tem receitas, mas poucas ou nenhumas despesas. Em muitos casos, não compensa ser senhorio e colocar a propriedade a arrendar quando se tem de pagar 28% de imposto sobre a renda líquida.

Já tive várias propriedades que arrendei nos EUA e o regime aqui é muito mais generoso. Da renda posso deduzir 100% dos custos com juros, manutenção, obras, impostos locais, seguro, despesas de gestão e publicidade, e amortização do valor da propriedade. O imposto de rendimento incide sobre a renda líquida destes custos. Depois quando vendo a propriedade, o imposto sobre a mais valia incide sobre o valor da venda líquido dos custos de venda, das perdas acumuladas, e do valor não-amortizado da propriedade.

O regime americano parece-me ser justo, pois considera todos os custos de ter uma propriedade arrendada e o imposto incide sobre a renda líquida desses custos, que é efectivamente o lucro que o proprietário tem.

Tenho uma propriedade em Portugal que arrendo e tenho de pagar mais de 450 euros em IRS. A mesma propriedade no regime fiscal americano acumula uma perda -- tenho de a declarar nos EUA, pois os americanos exigem que o faça. Usei as perdas da propriedade em Portugal para reduzir as receitas das propriedades americanas. Agora já não tenho propriedades de investimento nos EUA pois foram vendidas, logo as minhas perdas acumulam de ano para ano.

Um dia destes, vendo a propriedade portuguesa só para não ser tão favorecida pela generosidade dos 28%; depois deixo de pagar impostos aí.

Por falar em generosidade portuguesa, há mais de um ano recebi três papeis da Autoridade Tributária por via do meu procurador fiscal. Devo menos de três euros em juros, disseram-me. De onde vêm esses juros? Ora, a companheira do meu inquilino pediu-me para ser adicionada ao contrato. Quando modifiquei o contrato, a AT devolveu-me os 20 euros que eu tinha pago quando declarei o contrato original e depois cobrou-me 20 euros mais juros pelo contrato modificado, sendo que a devolução dos 20 euros foi usada para amortizar o novo valor do contrato, ou seja, agora só devo os juros.

Não percebi a lógica da coisa, ainda por cima porque houve três papelinhos diferentes que alguém numa repartição das Finanças decidiu produzir por causa disto. Ainda pensei em ir às Finanças na última vez que fui a Portugal perguntar quem tinha sido o idiota que perdeu um tempão a fazer aquilo, mas depois pensei que não devia ser tão generosa com o meu tempo.



terça-feira, 12 de novembro de 2019

Caixote do lixo

Ao discutir com um amigo facebookiano o abandono do bebé no caixote do lixo argumentei que um caixote do lixo é um sítio bastante frequentado e, como tal, a probabilidade da criança ser encontrada viva é bastante alta, só tem o problema de ser considerado um sítio sujo. Depois comecei a pensar no que é um caixote do lixo.

Para muita gente, um caixote do lixo é um sítio onde nós vamos deixar coisas que já não queremos ou que não têm utilidade, mas para outras pessoas, os caixotes do lixo são locais onde vão buscar coisas, inclusive comida, que normalmente associamos a locais limpos. Por exemplo, em Nova Iorque o movimento freegan é bastante popular e neste movimento, as pessoas procuram por comida em caixotes do lixo.

Não estou a defender que se deixem recém-nascidos em caixotes do lixo, mas há alternativas bem piores.

domingo, 10 de novembro de 2019

Um hotel ambientalista

Em Cambridge, estou num hotel da cadeia Hilton, em cujo programa de fidelização de clientes participo. Quando entrei no quarto fizeram-me uma proposta ambientalista: se eu estivesse aqui mais de duas noites, que estou, poderia prescindir do serviço de limpeza de quartos o que pouparia recursos ao ambiente porque não me mudariam as toalhas, nem me fariam a cama. Em troca, dar-me-iam 1000 pontos no programa de fidelização.

Fiquei a pensar neste negócio durante horas porque é um enorme dilema moral. É que se a empregada não vem cá fazer a cama, então há também menos trabalho, logo o Hilton paga menos em salários. Por outro lado, a taxa de desemprego está a níveis muito baixos, mas não é uniforme para toda gente, logo sei lá se estas pessoas têm facilidade em arranjar emprego.

Eu que sou ambientalista, decidi não salvar o ambiente. É a vida, não se pode ter tudo.

O Ídolo Eterno

Como está frio em Memphis, vim dar um pulo a Boston/Cambridge onde a coisa é mais suportável. É a segunda vez que visito. A primeira vez que cá vim foi em 2000, pois queria ir a Portugal mas os voos de Oklahoma para Lisboa custavam mais de $1200, o que excedia um mês da minha bolsa de estudo. Então tive a brilhante ideia de vir de carro até Boston e apanhar um avião para Lisboa, via Londres por cerca de $600.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Casa agradável

O aquecimento central está avariado. Tudo começou quando um dia cheguei a casa e senti um cheiro a queimado tão estranho que chamei os bombeiros. Chegaram em menos de cinco minutos, apesar de eu ter telefonado para o número que não era de emergência. Senti um bocado de vergonha em ver tanta gente a ter trabalho por minha causa, mas pago impostos à cidade e ao condado, um pouco mais de $2100 a cada um, logo para alguma coisa devem servir.

Depois de visitarem o sótão no meu quarto, os bombeiros disseram-me que um motor de qualquer coisa tinha avariado. Quando se foram embora, fui à página de Internet da empresa que fez a garantia da casa e meti um pedido para enviarem alguém para fazer as reparações. Paguei $75. A garantia da casa foi comprada pela antiga dona, mas acho que não vou renovar. Custa mais de $600 por ano.

Ao outro dia recebi um telefonema de uma empresa que trata de ar-condicionados e sistemas de aquecimento para marcar uma hora para o técnico cá vir. No dia combinado apareceu o Fabian, que não conseguiu fazer nada porque não tinha a peça necessária, dado que o meu sistema não é muito comum. Na segunda visita, durante a tarde desta Segunda-feira que passou, também não conseguiu arranjar porque faltava outra peça.

Entretanto arrefeceu um bocado e não é anormal eu acordar com a temperatura dentro de casa a 15 graus centígrados. Bem sei, bem sei, quem dera a muita gente em Portugal ter este problema, mas eu já não estou habituada. Eis que hoje o meu chefe começa a falar do tempo que está para vir com alguns colegas. Para a semana, a temperatura mínima vai descer até aos -8C. Devido a conflitos de calendário não dá para marcar para o Fabian cá vir antes de Quinta-feira da semana que vem.

Telefonei à companhia da garantia da casa alarmada com o tempo, mas disseram-me que a empresa a quem eles deram o trabalho, a empresa do Fabian, só pode cá vir na Segunda-feira, que não dá para mim. Apesar de já terem a peça, o meu caso não tem alta prioridade porque a minha casa tem dois sistemas de aquecimento, dado que tem 253 metros quadrados. Então disse-lhes que ia telefonar a outra pessoa, ao que me responderam que não pagariam essa reparação. E eu disse-lhes que se acontecesse alguma coisa à casa também não me pagariam, logo é capaz de ser mais barato prevenir do que remediar.

Mais outro telefonema, desta vez para a minha agente imobiliária a ver se ela tinha alguém que me recomendasse. Deu-me o contacto de um senhor que mora perto de mim e que se disponibilizou a visitar a minha casa imediatamente. Saí do trabalho à pressa e cheguei dois minutos antes do técnico. Foi ver o sistema do primeiro andar e estava a funcionar bem. Já o do rés-do-chão precisa da tal peça, a que a outra empresa já tem.

Perguntei-lhe que risco corria com a temperatura a descer tanto e respondeu-me que os canos só rebentariam se estivessem temperaturas negativas por mais de 3 dias, mas podia deixar as torneiras a pingar e não haveria problema. Mas quanto custa a tal peça, perguntei-lhe. Respondeu-me que era muito cara, uns $300, o que para mim não é caro se me dá paz de espírito. Ofereceu-se a encontrar-me uma e a vir colocá-la amanhã, entretanto dirigia-se à porta da frente da casa e apressei-me a acompanhá-lo à saída.

Depois de lhe abrir a porta disse-lhe que não fazia ideia porque estávamos ali, dado que ele tinha entrado pela garagem que fica nas traseiras. Ah, também não sabia, disse que me tinha seguido, mas eu é que o tinha seguido, e olhou em redor, enquanto me dizia que a casa era muito agradável, tinha cores bonitas. Parecia em transe a admirar a casa.

Fomos para as traseiras e perguntei-lhe quanto lhe devia. Respondeu-me que nada, que tinha feito um favor à minha agente imobiliária. Mas tem a certeza, olhe que eu vivo numa casa agradável e tenho dinheiro para lhe pagar, argumentei. Ah não, não era preciso e se encontrasse uma peça, viria colocá-la amanhã. Por fim, disse adeus e que teve muito gosto em conhecer-me.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Viva, viva!

Os Nationals ganharam a World Series! Estou um bocadito triste porque os Astros perderam, mas os Nationals andaram pela TV esta semana porque, quando o Presidente Trump os foi ver jogar contra os Houston Astros em Washington, D.C. (os Nationals são de lá), o público desatou a cantar "Lock him up!"


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Mais vale

Mais vale a busca infeliz do que um destinozinho de pseudo-felicidade, que nos reduz a uma coisa rasa, frívola, e inconsequente. Alimente-se a ilusão e procure-se a profundidade que nos afoga em emoções e desejos impossíveis. Sinta-se plenamente, mesmo sem sentido algum porque nada tem ou pode ter sentido. Nada pode ser sentido a não ser aquilo que buscamos indefinidamente.

~ 25/3/2016

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Variedade de sotaques

Não sei se já vos tinha dito, mas depois de viver em Houston, onde a NPR passa programas de notícias a toda a hora, fiquei completamente sem paciência para ouvir música clássica na rádio. Prefiro mesmo estar a ouvir notícias. Não imaginam o quão anormal isto é porque a minha mãe chateava-me imenso de eu não ler jornais, nem ver o telejornal, e só ligava a filmes e música pop. Trinta anos depois e sou o completo oposto, se bem que não vejo TV, a não ser que esteja no ginásio no treadmill.

As estações locais membros da NPR, National Public Radio, normalmente estão situadas em universidades americanas. Por exemplo, havia uma na Oklahoma State University onde eu estudei (era a KOSU) e outra na Universidade do Arkansas onde trabalhei (a KUAF). Em ambas, passavam notícias logo de manhã, mais ou menos das 6 da manhã à 9 e depois a partir das 15 horas. O tempo entre estes dois blocos era consumindo por música clássica. Esta é a fórmula da estação principal da NPR aqui em Memphis, a WKNO, mas, como vos disse no outro dia, têm mais dois canais de HD (alta definição, será?).

O terceiro canal, o tal que passa a BBC World service, é o que me mantém mais calma. Para além de eu achar completamente sublime que se ouça tantos sotaques diferentes de inglês numa só rádio -- ele há os britânicos, os americanos, os indianos, os africanos, australianos, etc., e também há pessoas que falam inglês como segunda língua, que é o meu caso, -- aprende-se imenso de história, arte, cultura, economia, etc. Por falar em economia, sempre que eu ouço o Tim Harford, que é o Undercover Economist, fico completamente em êxtase. Ele tem um inglês tão lindo, que podem ouvir no programa da BBC, 50 Things That Made the Modern Economy.

Este fim-de-semana, um dos programas falava sobre se a matemática apenas descrevia a realidade ou se era uma coisa que existia e nós a descobríamos. É uma questão filosófica bastante interessante e, se os vosso filhos sabem inglês, aconselho vivamente a que partilhem este programa, o Crowd Science, com eles. Hoje, à hora de almoço passaram outro programa muito bom, o People Fixing Things, em que falaram de jogos online que têm uma componente lúdica, mas também servem para avançar a ciência, pois são usados para descobrir coisas como novas proteínas. Um dos entrevistados, bastante optimista, dizia que os computadores ao terem a capacidade de fazer as tarefas repetitivas, libertavam os humanos para pensar em problemas mais interessantes e criativos. A economia do futuro, dizia ele, era a economia pensante -- thinking economy.

Já não vivo em Portugal há mais de 20 anos, não faço ideia do que se ouve na rádio, mas acho que não há programas deste género. Aliás, até tenho dúvidas que em Portugal os apresentadores de rádio tenham uma grande variedade de sotaques e pontos de vista. E é pena, pois há bastantes países no mundo que falam português com sotaque diferente do nosso--bem, do vosso, porque me dizem bastantes vezes que o meu sotaque quando falo português já não é português.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Actualização de Garrett

“Foge, cão, que te fazem Barão! Para onde, se me fazem Visconde?”
~ Almeida Garrett

Não andes acordado, que te fazem Secretário de Estado! Mas eu mal o olho pisco e querem me fazer Ministro.

sábado, 19 de outubro de 2019

História Ambiental

Já disse aqui várias vezes que a área que escolhi para o meu mestrado e depois para o doutoramento foi problemas ambientais. Na altura, segunda metade da década de 90, apesar de se começar a falar bastante em ambiente em Portugal, principalmente por causa da CEE, a única cadeira dedicada ao ambiente na FEUC era Direito Ambiental.

Não sei se havia alguma universidade em Portugal onde fosse possível estudar economia e ambiente, mas mesmo que houvesse, eu não tinha dinheiro para ir estudar fora de Coimbra, nem sequer tinha notas, logo a solução era mesmo emigrar. E como adoro inglês, foi ouro sobre azul poder viver num país onde tenho o enorme luxo de poder falar e escrever a minha língua predilecta todos os dias.

Uma das melhores coisas que há nos EUA é os programas de rádio da National Public Radio. Em Memphis, a estação local da rede da NPR tem três canais em HD. Os primeiros dois alternam programação de música clássica e programas informativos ou de tópicos mais ligeiros; o terceiro canal tem quase sempre a emissão da BBC World Service.

Na BBC costumo ouvir diariamente o BBC Witness History, com o qual aprendo imenso: demora cerca de 10 minutos e é sobre um tema histórico. Esta semana, têm estado a passar episódios sobre História Ambiental. Se ouvirem estes últimos cinco episódios, ficarão bastante informados acerca de alguns dos tópicos mais importantes sobre como aprendemos o que sabemos sobre o ambiente.

Quando comecei a estudar nos EUA, era bastante idealista e lembro-me de ter dito ao meu orientador que o ambiente tinha de ser sempre preservado, mas ele disse-me que não. Havia um equilíbrio, mas esse equilíbrio não era um ambiente sem actividade humana. Ou seja, onde há raça humana ou outra raça qualquer, haverá sempre modificação do ambiente; nem sempre essa modificação é sustentável no curto prazo, mas a longo prazo, as espécies que abusam do ambiente acabam por sofrer reduções na taxa de sobrevivência.

Os últimos 100 anos são caracterizados por um enorme sucesso no aumento da sobrevivência da raça humana, mas o que é desconhecido é a população mundial de equilíbrio. Sabemos, no entanto, que é inferior à população actual.

Recomendo dois episódios desta semana: um sobre Norman Borlaug e o seu trabalho na selecção de espécies agrícolas resistentes a doenças e com maior rendimento agrícola através do uso de fertilizantes químicos, que foi tópico da minha cadeira de Conservação de Solos e Água. Estima-se que o trabalho de Borlaug tenha permitido a sobrevivência de mil milhões de pessoas, quase um sétimo da população mundial. O outro sobre Charles Keeling, que foi o primeiro cientista a medir a acumulação de dióxido de carbono na atmosfera, tendo este trabalho sido iniciado nos anos 50.




quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Contagem final

Ora, hoje são 16 de Outubro, que era o dia até ao qual iam contar os votos dos emigrantes. A ver se amanhã os jornais portugueses falam do final da contagem oficial dos votos. Já sabemos que nós emigrantes somos as ovelhas negras aí do burgo, mas a ver se o pessoal disfarça melhor porque parece mal serem tão mal-educados.


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Pela vizinhança

Um casal de vizinhos que mora perto de mim tem um enorme horror aos Democratas e frequentemente me explica que o partido Democrata não tem qualquer ideia do que os Estados Unidos são. Os meus vizinhos têm mais de 80 anos e são do tempo em que os Democratas eram o partido dos negros, da classe trabalhadora branca, e dos segregacionistas do sul dos EUA.

sábado, 12 de outubro de 2019

Feliz para sempre

Segundo o que relatam os jornais, depois do debate na RTP, André Ventura cumprimentou todos os representantes de partidos, mas Joacine Katar Moreira recusou-se a apertar-lhe a mão. Ele diz que ela lhe disse para desaparecer; ela diz que lhe disse adeus e levantou a mão. Nas redes sociais, ele pergunta aos seguidores se irá ter de aturar este "tipo de gente" por quatro anos; Joacine por seu lado diz que daqui para a frente lhe irá oferecer o tratamento do silêncio.

Os membros do Parlamento português representam os cidadãos portugueses e não os seus eleitores. Como tal, penso que o mais prudente não é evitarem-se, mas pedirem desculpa um ao outro porque dá ideia que reagiram a sangue quente. Ele deve ter ficado ofendido de ela não lhe ter apertado a mão novamente; ela não deve ter querido ofendê-lo, pois já o tinha cumprimentado antes.

Os dois deviam demonstrar serem pessoas maduras e fazer um favor a Portugal: dão um beijinho, fazem as pazes, e dizem que têm muitas opiniões diferentes, mas irão ultrapassar este mal-entendido e trabalharão um com o outro quando houver oportunidade.

E Portugal viveria feliz para sempre...

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Abstencionista e ausente

Desde há umas semanas, nos grupos de Facebook frequentados por emigrantes portugueses, notou-se um enorme interesse em participar nas últimas eleições. As pessoas perguntavam umas às outras como podiam votar, se já tinham recebido o boletim de voto, se tinham tido problemas em enviar por correio, se o boletim tinha sido devolvido, etc.

Parece que o governo português decidiu enviar boletins de voto com um envelope de retorno, em que a morada do remetente e do destinatário no envelope estavam pré-preenchidos na face do envelope e alguns correios não percebendo de como encaminhar a carta, devolveram para o remetente. Foi o que se pagou com alguns votos enviados do Reino Unido. Aliás os correios de sua majestade estavam a investigar o que se passava com os votos portugueses. Depois também houve problemas porque o envelope de retorno era pré-pago e alguns correios não o reconheceram. A modos que há uma petição "Também somos portugueses" que visa que o Parlamento passe uma lei que facilite o voto aos emigrantes.

Mas será que vale a pena? Os emigrantes tinham até 6 de Outubro para enviar os votos pelo correio, o que é difícil de comprovar porque um envelope pré-pago não leva carimbo, e os votos teriam de chegar a Lisboa até 16 de Outubro. Hoje são 9 de Outubro e o Presidente da República já indicou ontem que quer indigitar o Primeiro Ministro porque os votos já estão contados. Ainda por cima, Marcelo Rebelo de Sousa apelou ao voto antes da eleição e agora, pela sua atitude, apela a que não se contem os votos restantes. Depois quem não vota, os chamados abstencionistas, são maus.

Eu não votei. Quando contactei o consulado para pedir um boletim de voto lamentaram, mas já tinham enviado o boletim e já era tarde para actualizar a morada -- temos de o fazer 60 dias antes das eleições. Eu não sabia do prazo, logo não actualizei a tempo. O engraçado é que na Primavera passada os senhores da Autoridade Tributária enviaram-me um email a mandar-me limpar o pinhal porque era obrigatário os donos limparem os pinhais. Só que eu não sou dona de nenhum pinhal; mas sou recenseada, logo sou eleitora, logo porque é que o mesmo governo que me manda limpar um pinhal que eu não tenho, não me pode mandar actualizar a morada a tempo e horas?

Não se preocupem comigo, que sei cuidar muito bem de mim, pois para além de abstencionista, decidi ser ausente. Já não vou a Portugal desde Junho do ano passado, apesar de ter 30 dias úteis de férias por ano e também tenho direito a dois feriados flutuantes, quer dizer, que posso tirar quando me apetece, então 32 dias úteis livres por ano (são mais de seis semanas) na América, onde o capitalismo reina em força.

Desde a ultima vez que fui a Portugal, já fui a Nova Iorque três fins-de-semana longos, Washington, D.C., por duas semanas, Houston dois fins-de-semana longos, Nashville fim-de-semana longo, e agora vou passar um fim de semana longo a Bentonville, AR, para visitar o Crystal Bridges Museum, e depois vou passar um fim-de-semana longo em Miami, em Dezembro, e o meu hotel vai ser mesmo na praia--cheguei a dizer-vos que em Nova Iorque fiquei no Hotel Roosevelt uma vez e noutra fiquei no Park Lane, que é mesmo em Central Park, é só atravessar a rua?

Ou seja, desde que estive em Portugal, já gastei bem mais de 10 mil euros em viagens e Portugal não recebeu nada.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Ufa!

Safamo-nos de boa, vamos ter um PM genial outra vez, e que acha bem bater em velhinhos para defender a honra, logo temos um homem honrado. Mas o mais importante é ser genial porque, no fim de Outubro, o Reino Unido pode sair da UE e, soubemos há poucos dias que a administração Trump vai impor tarifas de 25% a centenas de produtos portugueses--logo os EUA, com os quais Portugal tem um excedente comercial. Mas não há-de ser nada, temos um génio ao leme e um Cristiano Ronaldo das Finanças na retaguarda.

Hmmm, será que o génio já sabe?

domingo, 6 de outubro de 2019

A última das liberdades

"Everything can be taken from a man but one thing: the last of the human freedoms—to choose one’s attitude in any given set of circumstances, to choose one’s own way."

~ Viktor Frankl, Austrian neurologist and psychiatrist as well as a Holocaust survivor.

Descubra as diferenças

Cidadão confronta Boris Johnson, Primeiro Ministro do Reino Unido

Cidadão confronta António Costa, Primeiro Ministro de Portugal

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

À espera da resposta certa

Os empresários portugueses têm, ao longo do último ano, exibido publicamente uma peculiar dificuldade em perceber porque é que não conseguem recrutar trabalhadores em número suficiente. O primeiro artigo de que me recordo de ler sobre o assunto foi sobre o setor da hotelaria e da restauração, especificamente no Algarve. Mais recentemente, sai novo artigo, desta vez citando empresários do setor florestal, que se queixavam que “nem com salários de mil euros” conseguiam encontrar trabalhadores suficientes. Já esta semana, apareceu mais um artigo, novamente citando os empresários da hotelaria e restauração, mas agora de todo o país.  

É verdade que não é a primeira vez que portugueses fazem uma pergunta com resposta óbvia, e que isso faz notícia. Há sempre o exemplo de Cavaco, que um dia perguntou o que era preciso fazer para que nascessem mais crianças. O curioso não é que fazer uma pergunta óbvia seja notícia - o facto de um empresário assumir que desconhece noções básicas de Economia merece ser notícia -, mas que a pergunta continue a ser feita, que continue a ser notícia, e que ninguém lhes responda.

A explicação de primeira aula de Microeconomia para este fenómeno é muito simples: Um empresário que procura trabalhadores, mas os trabalhadores não querem trabalhar para ele, terá de subir o salário. Se não conseguir subir o salário, e se o seu negócio não sobrevive sem esses trabalhadores, então não são os trabalhadores que estão a menos: é o negócio que está a mais. Tudo isto é relativamente simples, não é? Então o que é que os empresários não compreendem? 

Se calhar os gestores não percebem mesmo nada de Economia. Isso é uma das primeiras coisas que se ensinam nas faculdades de Economia - ainda antes, se calhar, daquela lição sobre os salários. Mas não é lá muito plausível - ao contrário da teoria dos salários. Uma explicação mais convincente é que sabem a resposta, mas não gostam dela. Eu também sei porque é que tenho um Clio, e não um Maserati, mas preferia outra resposta. Em vez de ser sincero comigo próprio e com os demais, podia, por exemplo, querer que alguém pagasse uma parte do Maserati, de modo a que o pudesse comprar ao preço do Clio. Só que não há muita gente que alinhe nisso. 

Conscientes disso, os empresários prefeririam que outros pagassem os salários que eles não querem pagar. Que o governo baixasse impostos, ou que aumentasse os subsídios, para os salários mais baixos. Ou que se reduzissem as prestações sociais, para que os trabalhadores fossem obrigados a aceitar trabalhar por menos.  Deteriorar as condições laborais e sociais, ou atribuir subsídios a atividades onde já há tanta oferta, não soa lá grande ideia, pois não? Os empresários concordam que não soa. Daí continuarem a fazer a pergunta errada, à espera que alguém lhes dê a resposta certa. 

domingo, 29 de setembro de 2019

Histórias de sobreviventes

Na página de YouTube da FEMA (Federal Emergency Management Agency) há um vídeo sobre histórias de sobreviventes de desastres, que achei bastante útil. A jornalista aconselha a nos informarmos para tentarmos compreender as nossas reacções em situações extremas e também para treinarmos o nosso corpo para funcionar em autopiloto nestas situações. Vale a pena ver.

Já sabe?

O Furacão Lorenzo acabou de intensificar para categoria 5, nas últimas horas. Como esta tempestade vai passar perto dos Açores daqui a uns dias, alguém se certifica que o nosso ilustre Primeiro Ministro sabe do que está para vir? É que quando as coisas correm mal, ele nunca sabe de nada, logo convém informar antes.

Fica aqui o link para a página do National Hurricane Center com o percurso projectado da tempestade. E também vos deixo o link para os avisos que o NHC emitiu e está a emitir para o Lorenzo. Se têm família na área, convém entrar em contacto e acompanharem a situação. Uma tempestade deste tamanho não têm precedente nesta região e não se sabe mesmo o que poderá acontecer, logo o melhor é terem planos de contingência. Têm até Terça-feira para se preparar.

Aqui está a lista de preparativos aconselhada pela Cruz Vermelha Internacional (em inglês).

O governo americano aconselha as famílias a fazerem um plano, cujas indicações podem consultar neste link (em inglês).


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Coisa curiosa


Passei os últimos três dias a estudar os dados de produção agrícola e comércio internacional do Usbequistão. Não foi o mercado todo, mas lá andei pela Internet à caça de informação. Andei tão concentrada que um colega meu tocou na minha cadeira e dei um salto. Os meus colegas gozam muito comigo porque, apesar de estarmos num espaço comum, quando estou a trabalhar é difícil ligar ao que se passa em meu redor e quando me chamam não ouço.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

A paixão pela ignorância

Quando Mário Soares era Presidente da República e Cavaco Silva Primeiro Ministro, houve um episódio curioso em que o país ficou escandalizado porque Cavaco Silva não lia a imprensa, enquanto que Mário Soares a lia logo de manhã por várias horas e até lia o Le Monde, isto numa altura em que nem havia jornais na Internet. Cavaco Silva, apesar de doutorado no Reino Unido, era assim considerado um energúmeno.

Naquela altura, a maior parte dos adultos não era educada por aí além e, de acordo com o Censo de 1991, mais de um em cada 10 portugueses era analfabeto. Muitos jornalistas nem curso superior na área tinham, pois era uma profissão em que se começava como aprendiz e o conhecimento era passado dos profissionais mais velhos para os mais jovens. Entretanto, a taxa de analfabetismo caiu para 5,2% no Censo de 2011, mas em 2021, decerto que ainda será mais baixa. Esta evolução da população deveria indicar uma exigência ainda maior para com os políticos. Só que a qualidade dos políticos certamente está muito aquém do que se esperaria.

Catarina Martins vai para debates televisivos sem se preparar minimamente, e quando digo minimamente é generosidade da minha parte, até estou a pensar em menos do que o mínimo, pois há muito que nível de escolaridade mínimo obrigatório deixou de ser a escola primária. A propósito, quando contei o episódio da evaporação das barragens a um amigo americano, ele disse-me que, quando encontra americanos que dizem coisas desse tipo, os aconselha a arranjarem um advogado e a processarem a escola que frequentaram, pois foram ludibriados: "deprived of the education that they are entitled to."

Esta semana temos outro lapso na educação dos políticos, pois o Primeiro-Ministro decidiu inventar acerca do mercado imobiliário. Será que não intriga ninguém que um ex-Presidente da Câmara de Lisboa e um ex-Ministro da Administração Interna não perceba nada de imobiliário urbano? Demonstrou que não está a par do que se passa em outras cidades internacionais, claramente não percebe o que se passa em Lisboa, não discutiu o assunto com especialistas, e não é capaz de falar sobre diferentes propostas que tenham sido pensadas.

A única coisa que lhe veio à cabeça é dizer que se o mercado não se auto-regula, o estado tem de regular. O mercado autoregula-se bem: quando há excesso de procura, ou seja a oferta é insuficiente, o preço sobe e regula o acesso ao recurso do lado da procura, mas o preço mais alto também serve de incentivo para que haja maior oferta. O preço é um mecanismo de ajuste e parece que o mercado de Lisboa funciona muito bem.

O que não funciona são políticas que deixam o resto do país às moscas e incentivam as pessoas a ir viver para Lisboa, pois isso aumenta a procura. E também não funciona políticas que penalizam os senhorios, pois isso diminui a oferta. Alguém que é Primeiro-Ministro deveria saber isto de cor e salteado.

António Guterres foi para o governo a falar na paixão pela educação, mas o certo é que hoje em dia se paixão alguma há, só pode ser pela ignorância.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Massas crédulas e cínicas

As chamadas massas, um fenómeno surgido no século XIX com as grandes cidades, são constituídas por indivíduos desenraizados, atomizados, desconectados, solitários. Além disso, no século XX, como sublinhou Hannah Arendt, tornou-se evidente que as massas eram também, de forma aparentemente paradoxal, crédulas e cínicas. Num mundo em constante mudança e incompreensível para o comum dos mortais, as massas chegaram a um ponto em que acreditavam em tudo e em nada, achavam que tudo era possível e nada era verdadeiro. Uma mistura explosiva. A propaganda das massas descobriu que o seu público estava sempre disposto a acreditar no pior, por mais estapafúrdio que fosse. Os chefes totalitários perceberam, correctamente, que os seus públicos engoliam as maiores aldrabices sem protestar. Podiam mentir descaradamente num dia e serem desmentidos com factos irrefutáveis no dia a seguir. Não havia problema. É aqui que entra em cena o cinismo das massas. Em lugar de abandonarem o chefe que lhes havia mentido, as massas diriam que sempre souberam que a afirmação do chefe era falsa e admirá-lo-iam pela grande esperteza táctica. Hannah Arendt escreveu estas coisas nos anos 50 a pensar nos totalitarismos. Hoje, vivemos em democracias, mas as suas intuições estão mais actuais do que nunca.


Economia desencantada

Nota prévia: este poema é estatisticamente insignificativo com 1% de grau de desconfiança.

Um por cento de mil pessoas
não são dez
mas um bocadinho pequenino
infinitesimal
de todos nós.

A nossa vida é uma estimativa
rodeada de graus de desconfiança
e probabilidades tão importantes
que muitas vezes são frações
minúsculas
de quase nada.

O nosso lavor é feito de números
e projeções esperançadas
muitas vezes questionadas
inconclusivamente confirmadas.

O nosso trabalho não é ajudar o próximo
é apenas um palpite educado
um esforço desencantado
de ajudar 1% de todos os outros
que no fundo são quase nenhum
e, na melhor das hipóteses,
representam apenas um bocadinho mais do que ninguém.


Dili, Setembro de 2019

sábado, 14 de setembro de 2019

Evaporação para leigos

O ciclo da água é matéria da escola primária, que parece que agora se chama primeiro ciclo. Nele aprendemos todas as vias e formas em que a água circula no planeta Terra. A EPAL tem um gráfico giro na sua página de educação infantil:

sábado, 7 de setembro de 2019

Uma dick na Dicklândia

Enquanto eu dormia, a Joana Amaral Dias, que é a MILF (mãe irresistível, logo fodível) de Portugal, decidiu que a melhor maneira de educar os homens a não lhe enviar dick pics por mensagem privada é tornar estas mensagens públicas para que assim as namoradas, esposas, etc., dos ditos homens lhes tratem da saúde. Ou seja, torna-se o espaço público português numa Dicklândia e assim livramo-nos de todos e de todas as dicks.

domingo, 1 de setembro de 2019

Histórias

No evento de ontem da minha vizinhança, uma festa ao ar livre num dos pequenos parques da nossa aldeia de mais ou menos 100 casas, confessei a uma vizinha que tinha a minha casa ainda desorganizada e nem todas as divisões estavam mobiladas. Ela respondeu que na casa dela também não estavam todos os quartos mobilados, mas há uns três anos ela tinha decidido adoptar o minimalismo e gostava muito de não ter muita tralha, isto porque já se tinha mudado umas seis vezes e dava muito trabalho mudar tudo. Depois sugeriu-me que comprasse mobília na Restoration Hardware. Mas não há em Memphis, disse-lhe; mas há em Nashville, respondeu-me. E há online.

Na altura senti o universo parar porque fiquei sem resposta imediata, mas ocorreu-me dizer que gostava mais da Pottery Barn. Realmente, gosto mais da Pottery Barn e não é que desgoste da Restoration Hardware, mas aquele estilo não é o meu, nem sequer se encaixa bem no meu porque eu gosto de tralha, gosto de livros, de louças, de muita cor, e o RH é um estilo beige monocromático. A mobília é enorme e parece-me pouco confortável porque sou muito pequena.

Ir a uma loja e comprar toda a mobília também não se coaduna com a minha ideia de viver porque gosto de coleccionar coisas e de ter uma história para o que tenho. Onde é que arranjaste esse banco, Rita? Fui eu que fiz no sétimo ano, na aula de madeira. E essa secretária estilo mid-century modern? Um Sábado, em Fayetteville, por volta de 2005, regressava do Farmer's Market, quando vi que uma vizinha estava a ter um "garage sale". Fui lá ver o que tinha e comprei a secretária por $40, é Drexel de 1957. Anos mais tarde vi online que a dita secretária é um design de John Van Koert e cheguei a vê-la à venda por mais de $2000 porque entretanto o estilo mid-century modern entrou em voga...

Há umas semanas, quando estava a montar as cadeiras para a varanda, uma outra vizinha minha passava na rua e convidei-a para vir cá a casa para ver como estava. Foi por volta da altura de em que decorei o quarto de hóspedes à pressa porque ia ter visitas. Quando essa vizinha entrou no quarto, que é super-colorido, mas há uma atmosfera serena, ficou um pouco pensativa e disse-me que estava a tomar nota mental de como eu tinha organizado o espaço porque estava muito acolhedor.

Nesse quarto guardo a maior parte dos livros de poesia que tenho. Na parece há uma aguarela que uma amiga minha me fez depois de ambas lermos o livro Succulent Wild Woman e há um quadro com dois cisnes que eu bordei a meio-ponto no sétimo ano e que foi exposto na escola depois de terminar o trimestre. Na cama está uma colcha em crochet feita pela tia da minha mãe. Depois de eu a trazer, há mais de 15 anos, a minha mãe perguntou-me se usava a colcha e respondi-lhe que não, era demasiado pequena para a minha cama. Ralhou comigo porque devia ter dito alguma coisa para se poder aumentar.

Em vez de aumentar, a minha mãe pediu-me as medidas da cama e começou a fazer-me outra colcha, mas morreu antes de a terminar. Tentei continuar o trabalho, mas não tenho muita paciência para o crochet e o meu ponto não é tão consistente como o da minha mãe. Na estante do quarto de hóspedes há uma caixa que tem uma etiqueta que diz crochet e onde guardo as agulhas da minha mãe, as linhas, e o princípio da colcha.

A minha casa está cheia de histórias e não é só por eu ter muitos livros, as coisas têm histórias, umas curtas, outras mais longas. Não há muitas histórias para contar quando se vai ao RH comprar toda a mobília; há apenas a história original: eu gostava muito de tralha, mas há uns três anos adoptei o estilo minimalista.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Farol ou canário

No dia 20 de Agosto, o Financial Times publicou uma pequena notícia acerca dos imigrantes em Portugal. A peça, escrita por Peter Wise, dizia que o país estava com falta de mão-de-obra, especialmente a qualificada, e o que valia em muitos sectores eram os imigrantes e cito: os filipinos, nepaleses, asiáticos, brasileiros... Pessoas que ajudavam o país a andar para a frente porque com esta restrição populacional será difícil o país crescer acima da média da UE.

Isto é generosidade do Sr. Wise porque em Portugal estar abaixo da média é um grande desempenho, senão o país não estaria "estagnado" há uns 20 anos. Mas há que observar que num país em que os cidadãos dominassem minimamente a língua que usam diariamente, "estagnado" não seria bem a palavra adequada porque implica que os portugueses estariam na mesma, mas se a roupa que se usa está mais velha, perde-se mais tempo para ir ao médico, e os telemóveis e carros que se compram não são tão sofisticados, não se está estagnado, está-se a empobrecer.

Esse artigo também falava do programa Regressar do governo, que diz ser um programa muito generoso, deve ser por causa do 6,5 mil euros em benefícios fiscais que dá para aliciar os portugueses a regressar. No outro dia estavam a discutir esse programa num grupo de emigrantes portugueses no Facebook do qual pertenço. Muitas pessoas achavam o montante ridículo, mas aquela malta é quase toda emigrada nos EUA e aqui tudo custa muito dinheiro porque se ganha melhor do que aí e paga-se relativamente menos em impostos. Ou seja, como me diz frequentemente uma amiga minha emigrada no Reino Unido: Portugal é bom para se passar férias, não para trabalhar.

A notícia mais recente sobre Portugal no FT diz que o país tem um futuro brilhante pela frente e vai ser o farol para o resto da Europa. A metáfora mais adequada é capaz de ser a do canário na mina, dado o avançado envelhecimento da população, dívida pública elevada, e a chata da corrupção, que serve para canalizar dinheiro para sectores não produtivos da economia, ao mesmo tempo que asfixia os que poderiam gerar crescimento.

O artigo do FT termina com uma frase fantástica: "Portugal must have a clearer vision for its future direction and economic strategies." Agora que vocês estão prestes a votar, expliquem lá que visão e estratégia económica cada partido oferece para o país. Os partidos não têm plataformas políticas, os jornalistas não estão interessados em fazer perguntas, e o resto dos comentadores discutem sondagens e projecções de resultados eleitorais, como se a política fosse um desporto em que se contam golos.

Mas gosto de puzzles e, de vez em quando, aparece uma peça: em Fevereiro, o Público publicava o seguinte a propósito da ligação Coimbra-Lousã:

"Para o primeiro-ministro António Costa, o atraso explica-se com a necessidade de “garantir o financiamento da solução” prevista. Isto porque “a história das últimas décadas está cheia de projectos, designadamente neste corredor, que seguramente eram encantadores, mas que pura e simplesmente não eram viáveis”. Era preciso “desenhar o modelo” e “negociar em Bruxelas, no quadro da reprogramação” de fundos comunitários."

Fonte: Público, 4/Fev/2019

Ou seja, o líder do PS acha que vai manter o país à custa de fundos comunitários da UE e o Financial Times acha que a UE é capaz de não ter grandes razões para estar contente com o futuro, logo tem comprometida a capacidade de gerar fundos comunitários. Vá, usem lá as celulazinhas cinzentas para ver se a bota bate com a perdigota...




quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Coimbra

No Domingo, com o propósito de ir à procura de um livro de poesia para a minha colecção de Everyman's Library Pocket Poets, fui ao Barnes and Noble, uma rede de livrarias americana. Eu e as livrarias é um perigo porque saí de lá com mais de $100 exercendo extrema contenção e depois de já ter comprado uns quatro livros este mês. Bem sei, bem sei, que o pior é quando mudo de casa.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Uma enorme pena

Muita pena que não tenhamos um Presidente da República que tenha noção do cargo que ocupa e que não tenha defendido a Constituição no episódio da greve. Bem sei que prescindiu do salário, mas, que raio, precisa de fazer mais do que aparecer nas fotos e dar abraços. E dar entrevistas na praia de calções de banho ridiculariza a Presidência.

Como as eleições estão à porta, tenho uma sugestão: que tal tornar público que não dará posse a governos que violam a Constituição? Até o Professor Cavaco obrigou a Geringonça a assumir que não iria violar os compromissos externos antes de lhe dar posse. Infelizmente, esqueceu-se de de pedir à Geringonça que honrasse a Constituição, mas o Professor Marcelo está a tempo de o fazer.

domingo, 18 de agosto de 2019

Estudos étnicos

Estudos étnicos é uma área que só é dada na faculdade, mas a Califórnia quer que os alunos K-12 (pré-escola até décimo-segundo ano) tenham estudos étnicos e anda a tentar desenvolver um currículo para a área. Só que é difícil porque vivemos num período em que ser factual não combina com ser politicamente correcto e muitos dos tópicos são tudo menos politicamente correctos. E há também o problema de ser um tópico com uma enorme carga política.

Para além disso, os EUA têm uma longa história de ostracisarem pessoas de certos grupos. Houve os irlandeses, os alemães, os chineses, os japoneses... e, claro, os negros e os americanos nativos. O Ron Elving publicou no mês passado uma pequena lista de ofendidos.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A minha quota-parte

Nas últimas semanas, estive a trabalhar numa peça acerca do uso de quotas para corrigir discriminação. Hoje, o Público disponibilizou online o que eu escrevi.

Das coisas que li em Portugal acerca de quotas nos EUA, achei que havia uma lacuna enorme de conhecimento da história dos EUA do século XX, o que me deixa perplexa, pois se há sociedade que disponibiliza conhecimento de borla, é decerto a americana. Por isso escrevi esta peça.

No que escrevi tentei comparar o contexto americano e o português porque não é boa ideia copiar políticas americanas sem perceber o porquê de elas existirem. O Brasil fazê-lo faz mais sentido do que Portugal, pois os EUA e o Brasil são ambos antigas colónias. Mesmo assim, o contexto é diferente, pois a mistura de raças e etnias é mais comum no Brasil do que nos EUA.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O Douro em Memphis

No Sábado fui às Dixon Galleries and Gardens e, por acaso, encontrei lá o Douro pelas mãos da Elizabeth Alley.










Mais provas de aportuguesamento

Foi surpreendente que esta semana se tivesse falado tanto em “gun control”; tanto, tanto, que até Mitch McConnell, o líder Republicano, disse que o Senado teria de discutir a questão em Setembro (mas pessoalmente acho que isto só lá vai se houver mais uns tiroteios entretanto) e o Presidente Trump também admitiu que algo teria de ser feito.

Eis que ontem Jeffrey Epstein se suicidou e, de um momento para o outro, todas as atenções se focaram em como é que uma coisa destas podia ter acontecido a alguém que, depois da sua primeira tentativa de suicídio, estava supostamente sob vigilância constante numa prisão em Nova Iorque, prisão esta sob a jurisdição do Department of Justice, cujo Attorney General é William Barr.

“Supostamente” é a palavra de ordem porque tiraram Epstein da vigilância anti-suicídio, o que é estranho dado que ele tinha insistido muito em ficar sob prisão domiciliária, o que facilitaria uma tentativa. E depois houve a primeira tentativa, logo havia fortes suspeitas de que não seria a única.

Entretanto, a aura em torno do falecido dissipa-se. Afinal não era um génio da alta finança; pelo contrário, um dos seus primeiros clientes, Leslie Wexner, CEO da L Brands, a companhia dona da Victoria’s Secret diz que Epstein lhe fez evaporar 46 milhões de dólares, que depois reaveu porque Epstein fez uma doação para a organização com fins de caridade de Wexner — digam lá se não é conveniente? Wexner não informou as autoridades que Epstein era um "bocadito" ladrão. Para além disso, Epstein também comprou a preço de “amigo” pelo menos um avião, uma mansão em Nova Iorque, e outra mansão em Iowa, que eram de Wexner e família.

Ficou também claro que a antiga namorada de Epstein, Ghislaine Maxwell, foi promovida a sua melhor amiga e aparentemente ajudava a recrutar vítimas para o ex-namorado; até fazia a simpatia de as instruir na técnica de broche e outros prazeres sexuais apreciada por Epstein. (Ah, mulheres fofinhas, aquelas que estão atrás de homens deste calibre...)

Ghislaine foi educada nas escolas elite do Reino Unido, pois era filha de Robert Maxwell, imigrante checoslovaco no Reino Unido, antigo membro do Parlamento britânico e dono do Mirror Group, que detinha o Daily Mirror, e que desviou dinheiro dos fundos de pensão das empresas que geria para evitar a falência — faz-nos pensar acerca da qualidade da imprensa, quando os proprietários se enfiam nestas tramóias.

Uma outra filha da elite, a Abigail Disney -- sim, sim, pseudo-irmã do Rato Mickey --, tem andado na comunicação social a advogar impostos mais altos para os ricos porque diz que o universo em que estes se movimentam pertence a uma realidade paralela com regras que não têm nada a ver com as que regem o universo dos comuns mortais. Confere. A meu ver, se os ricos não se apercebem que lhes roubaram $46 milhões, não há grande perda para a humanidade se começarem a pagar mais impostos.

Pela Internet circulam fotos de Epstein com pessoas como os Trump, os Clinton, Príncipe Andrew, etc. Os liberais acham que Epstein morreu para proteger Trump, pois tiveram negócios juntos, inclusive a aquisição de Mar-a-Lago parece ter sido financiado com a ajuda de Epstein. Os conservadores vêem na morte de Epstein mais uma tramóia do “deep state”, pois é claro que Epstein iria comprometer os Clinton. (O “deep state” é aquela força tão poderosa, que fez tudo para que Hillary Clinton ganhasse a presidência americana. Super-competente, portanto.)

Os Republicanos não sabem para onde se virar, mas ontem o Ben Sasse, um senador Republicano do Nebraska, achou por bem enviar uma carta a William Barr a pedir satisfações. Ontem, Sábado. Depois, armado em Joe Berardo, publica a carta na Internet para todos verem, certamente antes de Barr lhe ter posto a vista em cima. Aguardemos que William Barr se arme em Ferro Rodrigues e denuncie esta falta de respeito para com as instituições.

Isto tudo parece digno da República Portuguesa, mas eu bem digo que os EUA se aportuguesaram.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Members of the press, WTF?

A semana passada começou, na Segunda-feira, com um tiroteio num Walmart em Southaven, MS, aqui mesmo ao lado de Memphis, TN, no qual morreram duas pessoas. O autor era um empregado frustrado da loja.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Auto-contradição

Estava a ler um comentário ao post do Zé Carlos ao qual achei muita piada porque é muito frequente a auto-contradição em Portugal. ATAV acha a esquerda moralmente superior porque é tolerante, pois supostamente defende mulheres e minorias, ao mesmo tempo que escreve demonstrando ter uma repugnância -- ou será um ódio -- a quem considera de direita. O ensino da língua portuguesa é muito deficiente.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Sem palavras

Penso que se contarmos todo o tempo que vivi em Memphis, já tenho cerca de 4,5 anos; no entanto, hoje foi a primeira vez que fui ao Lorraine Motel, o sítio onde Martin Luther King, Jr. foi alvejado, e que agora é o National Civil Rights Museum. É uma experiência muito estranha porque não me escapa que faço parte do povo que inventou a rota de comércio triangular, pelo qual se comercializava escravos, sobre a qual aprendemos muito relaxadamente no oitavo ano, nas aulas de história.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Identidade: uma palavra incontornável e perigosa

No ocidente, durante quase todo o século XX, os partidos situaram-se num espectro da esquerda à direita – comunistas, socialistas, social-democratas, democratas-cristão, liberais, conservadores. O desejado grau de intervenção do Estado e o empenho na igualdade ou na liberdade individual serviam para situar os partidos (e as pessoas) mais à esquerda ou mais à direita. Como é sabido, esta classificação ou arrumação tem óbvias limitações e falhas – desde logo, há uma discussão interminável sobre os conceitos de igualdade e liberdade e sobre a compatibilidade entre os dois. E, no entanto, é uma classificação útil. As pessoas precisam de opostos para pensarem e para se posicionarem.
A credibilidade do socialismo marxista caiu nas ruas da amargura quando deixou de ser possível ignorar ou disfarçar o que se passava em regimes grotescos como a União Soviética. Há muito que a própria social-democracia começou a ser questionada. A crise de 1973 mostrou que, afinal, o crescimento económico não era eterno e sem crescimento o Estado-Providência, como antes se dizia, fica sob ameaça. Além disso, tornaram-se evidentes alguns dos efeitos perversos de prestações sociais generosas, como os desincentivos à procura de emprego e ao empreendedorismo. A esquerda começou então a voltar-se para as reivindicações identitárias. Como acontece há décadas, a tendência nasceu nos EUA e, lentamente, foi alastrando pelo resto do ocidente. 

A identidade é um conceito moderno. “Quem sou eu, afinal?” não era uma questão que atormentasse os indivíduos em sociedades rurais, em que todos viviam em pequenas comunidades com valores bem estabelecidos. A questão da identidade emergiu em sociedades urbanas, desenraizadas, com indivíduos isolados e solitários. No século XVIII, há já uma extensa literatura sobre a relação do indivíduo com uma sociedade opressora – Jean-Jacques Rousseau é talvez o exemplo mais conhecido. Em suma, a questão da identidade tornou-se incontornável.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Recordando…


Há  sessenta  anos, no dia 29 de Julho  de 1959, completei  a  licenciatura  em  Ciências  Históricas e Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com a defesa da tese que para o efeito elaborara: A arqueologia do  Concelho de Torres Vedras. Contribuição para o seu estudo até à época Lusitano-Romana. Era  o primeiro  final da minha  vida  escolar – voltaria  à escola mais vezes – mas esse primeiro passo ficou bem gravado na minha memória.

Para quem não saiba – e muitos não saberão – vou dizer em que consistia uma licenciatura nesses anos 50 do século XX. A entrada na Universidade dependia da aprovação de um dos cursos terminais do ensino liceal, de sete anos, que estavam agrupados em alíneas. A alínea d) era a que conduziria ao curso que eu escolhera, a alínea e) dava acesso a Direito e a f) aos muitos cursos da Faculdade Ciências ou Engenharias. Quem obtivesse a média de 14 valores, entrava directamente na Universidade; quem não a alcançasse teria de fazer um exame de admissão.

No caso do meu curso, ele consistia em quatro anos de “cadeiras”, como se dizia então, umas anuais, outras semestrais. Ao todo eram 26 – 13 de matérias de História e 13 de matérias de Filosofia. Todas elas tinham exames de frequência e final – provas escritas, as orais eram muito raras – e havia uma época de recurso para quem reprovasse no final do ano (ou quisesse melhoria de nota). Terminadas todas as cadeiras com aprovação, o aluno teria, para obter o grau de licenciado, de elaborar uma tese original com tema de sua escolha e defendê-la perante um júri que tinha, alem disso, a tarefa de interrogar oralmente o candidato em quatro matérias: História de Portugal, História das Civilizações, História da Filosofia Moderna e Contemporânea e Psicologia. Havia ainda uma prova escrita prévia de Lógica…

Depois dos quatro anos do curso, o ano seguinte era reservado para a elaboração da tese e preparação dos exames. Em rigor, quem quisesse poderia requerer o exame no 4º ano, mas como se compreende era uma tarefa muito difícil, ainda que não impossível: o Doutor Oliveira Marques fê-lo (creio que em 1958). Eu nem sequer considerei a hipótese! O tema da tese que escolhi exigia muito trabalho no exterior, quer em museus, colecções particulares, quer em bibliotecas e mesmo em trabalho de campo. Eu tinha-me rendido à arqueologia pré-histórica e por isso procurei fazer um trabalho exaustivo, que acabou por ficar materializado em dois grossos volumes – um de texto e outro de gravuras, o primeiro com 294 páginas e o segundo com 99.


Foi precisamente há sessenta anos, neste dia 29, que defendi a minha tese. O arguente foi o Prof. Manuel Heleno, que era o professor catedrático da área, e as coisas correram bem, sendo menores as objecções feitas ao que escrevera. O resultado não correspondeu inteiramente ao que desejava, mas a culpa não foi da tese, mas de uma prova que me correu francamente mal, a de História de Portugal. Não quero desculpar-me, mas a Professora Virgínia Rau devia ter dormido mal na noite anterior e resolveu brindar-me com questões que me deixaram literalmente a “ver navios”… Em suma, tive 14 valores como nota final de licenciatura.

Mesmo assim festejei. Alcançara o diploma que me permitiria trabalhar como professor. Mas acalentava, confesso, a possibilidade de continuar a estudar e evoluir em arqueologia. Tal não aconteceu – são outras histórias que nem vale a pena recordar aqui. Dois meses depois, iniciava a minha carreira como professor no Liceu Nacional de Santarém. A arqueologia continuou a ser um hobby, durante alguns anos, e depois foi substituída pelo empenho total nas coisas da educação.  

Perdoe-se-me esta evocação muito pessoal. Mas sessenta anos é mesmo muito tempo, e os velhotes gostam destas coisas…

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Possibilidades

Como o nosso ilustre PM acha que se governa não governando, incentivo os meus ilustres conterraneos lusos a exigir que se eleja um@ PM fofinh@ nas próximas eleições. Não, fofinh@ não quer dizer obeso; fofinh@ quer dizer um cão ou um gato jeitoso, ou um homem atencioso e bem-parecido. E também pode ser uma mulher incompetente para que possamos começar a preencher as quotas femininas.

Agora continuar como está, é dejá vu a mais.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Os recursos desumanos

“O problema afeta praticamente todas as regiões do país e todos os sectores. É preciso pessoal qualificado nas áreas das tecnologias de informação e comunicação, na indústria, na agricultura, no turismo, na construção civil.”

Pedro Siza Vieira, Ministro Adjunto da Economia, Expresso, 20/7/2019

Permitam-me discordar. De há uns tempos para cá, os governos portugueses só vêem tecnologia como uma ferramenta de cobrança de impostos. Os restantes ministérios não usam tecnologia. Por exemplo, no início do ano, o Ministério das Finanças enviou emails a informar os contribuintes que tinham de limpar as matas de que eram proprietários. Ficamos logo a saber que o ministério ao qual compete administrar o território não tem recursos para cumprir a sua missão e sabemos que o estado ainda não sabe quem tem matas, logo como é que vai castigar os prevaricadores? Se forem ver as páginas de Internet de outros ministérios, encontram links partidos, coisas desatualizadas, etc.

Esta fixação em saber o que as pessoas gastam online para cobrar os impostos leva a que o público no geral desconfie das novas tecnologias para efeitos produtivos, i.e., que contribuam para o crescimento da economia. Há sítios em Portugal onde as lojas passaram a negociar apenas em dinheiro. Agora que os bancos cobram um balúrdio para ter uma conta, levantar dinheiro, etc., para já não falar na falta de confiança que todos os buracos bancários inspiram, mais incentivo há para evitar a economia virtual. Se o Facebook permitir mesmo às pessoas guardar dinheiro em libras facebookianas ou se aparecer um outro mecanismo semelhante, temo que os bancos portugueses fiquem sem parte dos seus depósitos.

domingo, 21 de julho de 2019

Discriminação de sardinhas e outros

Há uns anos, uma amiga portuguesa ofereceu-me algumas sardinhas da Bordallo Pinheiro. Tenho o guitarrista e a fadista, que são vendidos em conjunto, e o marco de correio e o postal, que são individuais. Calhou no outro dia ir ao Target (é uma loja tipo Continente, mas não vende tantos produtos frescos) e na secção de saldos encontrei um peixe de cerâmica branco decorado com desenhos a azul, que me recordou de Portugal, e que serve para decorar a borda dos vasos de plantas (tem uma cavidade na parte de baixo para ser montado no vaso). Como também tinha um burado na parte de baixo pensei imediatamente que podia pendurar na parece ao lado das minhas sardinhas e foi o que fiz.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Fruta estranha

"Southern trees bear a strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees

Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh

Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop"


Assunto quente

Neste momento, o assunto mais quente nos EUA é o caso do billionário Jeffrey Epstein, que é acusado de abuso sexual de menores. É difícil ouvir falar do assunto sem nos contorcermos com desconforto e parece que nem tudo se sabe, pois há questões acerca de como ele se tornou tão rico e também há ligações a pessoas bastante poderosas ou famosas, como Kevin Spacey, Bill Clinton, e Donald Trump.

O caso veio à baila devido a uma investigação do Miami Herald, que foi publicada em Novembro acerca de uma investigação das autoridades na Florida, em 2007, na sequência da qual as autoridades federais se preparavam para acusar Epstein, mas que não tinha sido levada a termo por ter sido negociado um acordo em termos muito favoráveis para Epstein.

Em 2003, a jornalista Vicky Carter, escreveu um exposé sobre Epstein para a Vanity Fair, que não chegou a ser publicado na sua versão original. Ontem, no Morning Edition, Carter falou da interferência de Epstein na publicação da peça e de os relatos das vítimas terem sido eliminados porque, em troca, Epstein ofereceu fotos para a publicação da peça.

Graydon Carter, o editor da Vanity Fair, em defesa própria disse que, na altura, não tinha confiança no trabalho de Carter. Fiquei muito chateada que tenha oferecido uma razão tão porca -- ela era incompetente --, quando sabemos hoje que a incompetência ou cobardia foi dele. Cá para mim, ainda acaba por se demitir um dia destes porque este não deve ter sido o seu único "lapso".

terça-feira, 9 de julho de 2019

Risco pessoal

Ontem, o Twitter decidiu sugerir para minha apreciação um monte de tuítes xenófobos e racistas. Suponho que tenho de agradecer ao Público por ter inspirado tanta generosidade. Perguntava alguém no Twitter se gostaríamos de ter ciganos como vizinhos porque parece que ter ciganos vizinhos é mau. Não é; aliás, eu cresci numa vizinhança em que havia uma família cigana composta de uma senhora viúva e doente crónica que tinha dois filhos. A minha mãe dizia-me que era muito boa pessoa e como a senhora cigana vendia roupa na feira, de vez em quando comprávamos algumas peças. Mesmo quando a família se mudou para outra vizinhança continuámos a ir visitá-la para comprar roupa.

Se é disto que têm medo, podem ficar descansados porque nada nos aconteceu apesar da proximidade. No entanto, há males bem piores no mundo e também havia na vizinhança onde cresci. Por exemplo, tive um vizinho pedófilo, que já tinha estado preso por ter violado alguém, mas que entretanto se exibia em público ou quando apanhava alguma criança só aproveitava a ocasião. Depois havia um polícia que se embebedava e batia na mulher, mas não era o único homem que o fazia. Homens que batiam em mulheres em Portugal era o pão nosso de cada dia e, infelizmente, não é uma espécie em vias de extinção. E até aposto que não sou a única pessoa que cresceu numa vizinhança com pessoas deste calibre, que nem eram ciganas.

Eu percebo que há ciganos maus, mas também percebo que há não-ciganos piores -- não, isto não é um caso de "whataboutistmo", é mesmo um caso de avaliação de risco pessoal -- e cada indivíduo deve responder pelos actos que comete, em vez de culparem toda uma etnia. Por falar em pessoas más, no ano passado, a ONU publicou um estudo em que concluía que o lar é o sítio mais perigoso para uma mulher: em todo o mundo, das 87 mil mulheres vítimas de homicídio, cerca de 50 mil morreram por causa do seu parceiro ou de um familiar, ou seja, quase seis mulheres por hora, em média. Acham mesmo que era de ciganos que estas vítimas deviam ter medo?




quarta-feira, 3 de julho de 2019

Elisa destemida

No dia 30 de Junho, a Elisa Martinuzzi assinou uma peça na Bloomberg acerca do bailout do banco italiano Monte Paschi e especula que Mario Draghi não terá dito tudo o que era pertinente acerca do caso. Quando a intervenção no banco se deu, Mario Draghi trabalhava no banco central italiano.

Esta discussão sobre o que sabia e não sabia Mario Draghi e o que ele disse vs. o que não disse recordaram-me as polémicas em redor de Victor Constâncio, quando este estava no Banco de Portugal, que voltámos a visitar nas últimas semanas, mas achei estranho que tendo Constâncio o cargo que tem no BCE a imprensa estrangeira não tenha noticiado nada. É como se as notícias portuguesas não chegassem ao mundo.

Na peça da Elisa, achei engraçada esta passagem, que sublinhei no excerto seguinte:
"The financial shockwaves set off by the collapse of Lehman Brothers Holdings Inc. in September 2008 placed added pressure on Monte Paschi. The bank took to masking its burgeoning losses with a series of complex derivatives deals. Those transactions were hidden from public view until I later reported on them. Once they were disclosed, Monte Paschi had to restate its accounts twice.

In response, Italian prosecutors filed criminal charges against the bank, alleging market manipulation and regulatory obstruction, and two trials are ongoing. Prosecutors are seeking jail sentences for a group of former employees, including the ex-chairman and general manager. The lender itself reached a plea bargain."

Fonte: Elisa Martinuzzi, Bloomberg

Fresquinha

Tenho uma notícia fresquinha para vós: o NYT acaba de publicar uma notícia em que relata vários casos de alegadas violações em que os juízes do Tribunal de Família deram opiniões à portuguesa e o mais engraçado disto é que um deles tem mesmo sobrenome Silva. Não é precioso?

Em 2017, ao Juiz Troiano (FYI, também é um sobrenome engraçado porque Trojan é uma marca de preservativos famosa nos EUA), que tem cerca de 70 anos e está reformado, mas que ocasionalmente preside a casos, foi apresentado o caso de um rapaz de 16 anos que, numa festa, violou uma rapariga também com 16 anos que na altura estava visivelmente inebriada e algo incapacitada, demonstrando dificuldade de andar e falar.

O rapaz filmou o acto e partilhou o vídeo com amigos, tendo mesmo enviado uma mensagem em que dizia "When your first time having sex was rape". Durante meses, o rapaz mentiu à rapariga acerca do que tinha acontecido, ao mesmo tempo que continuava a partilhar o vídeo e foi assim, pelo vídeo, que ela percebeu a dimensão do ocorrido, se bem que no dia a seguir à festa tivesse dito à mãe que suspeitava que tinha sido vítima de algo sexual.

O Juiz disse que o menino estava equivocado, aquilo não era violação porque para ser violação era preciso o acto ser tipo entre desconhecidos e o violador apontatar uma arma à vítima, coisas assim é que seguiam para tribunal com julgamento com júri. Qual quê, considerava o juiz, aquele moço vinha de boas famílias, tinha boas notas, e era escuteiro; efectivamente um rapaz deste calibre não só vai para a universidade, como é capaz de ir para uma boa universidade. O "Prosecutor" (Representante do Ministério Público) devia ter explicado à vítima e à família dela que uma aciusação destas não se fazia porque ia destruir a vida do rapaz.

Um outro caso referidona peça foi o que calhou à Juiza Marcia Silva, em 2017. Este é muito bom, ora vejam: um rapaz de 16 anos "atacou sexualmente" uma rapariga de 12, mas a juiza Silva concluiu que o rapaz não devia ser julgado como adulto porque, àparte de a rapariga ter perdido a virgindade, o Ministério Público não tinha argumentado que mais nada de mal lhe tinha acontecido -- não vos soa familiar?

Ambas as decisões, proferidas em Tribunais de Família na Nova Jérsia, foram sujeitas a recurso e foram repudiadas pelo tribunal de recurso, que permitiu que os acusados fossem julgados como adultos. No primeiro caso, o juiz de primeira instância foi instruído a não favorecer jovens de "boas famílias". No segundo, foi argumentado que uma criança de 12 anos não tem idade para dar consentimento (um à parte: todos os estados nos EUA definem uma idade de consentimento; na Nova Jérsia é 16 anos, mas a lei contempla sexo entre jovens com menos de 16 ser de mutuo acordo se tiverem idades próximas, ou seja, o indivíduo mais novo tem pelo menos 13 anos e o outro não tem mais de 17), logo presume-se imediatamente estar-se perante uma potencial violação -- esta é a leitura mais óbvia da lei.

(Outro à parte: relativamente ao conceito de "ter sexo aos 12 anos", já aqui mencionei uma vez ter ficado surpreendida quando li um artigo numa revista portuguesa sobre mulheres precoces em que uma rapariga admitia ter perdido a virgindade aos 12 anos com um rapaz muito mais velho do que ela, 18 anos, se a memória me serve bem, como se ter sexo aos 12 anos fosse normal ou sequer permitido pela lei portuguesa. A rapariga achava que era sinal de maturidade.)

O artigo também menciona um outro caso que se passou na Califórnia com o juiz Aaron Persky. Depois de o Juiz Persky ter condenado um estudante de Stanford a seis meses de prisão por ter violado uma mulher inconsciente, o juiz foi "recalled" pelos eleitores (fizeram uma eleição para o destituir do posto). Em alguns estados, os juizes são eleitos, em vez de nomeados.




quinta-feira, 27 de junho de 2019

Para ouvir e ver

Este fim-de-semana, no dia 30 de Junho, vai decorrer o Desfile do Orgulho, traduzo assim o Pride Parade, em S. Francisco. Vai ser o maior desfile de sempre porque este ano celebram-se os 50 anos dos tumultos de Stonewall (Stonewall Riots), que se passaram em Nova Iorque em que a comunidade LGBTQ entrou em conflito com a polícia, despois desta ter invadido a Stonewall Inn em 28 de Junho de 1969. Este evento foi um marco significativo na luta pelos direitos da comunidade LGBTQ.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Futuro próximo

O futuro próximo vai ser largamente determinado pelo que acontece nos EUA. Se seguem o mercado accionista americano, devem ter percebido que o chamado bull market foi interrompido. Desde que o Presidente Trump começou a dicutir tarifas de comércio internacional que o mercado desce, depois sobe, depois desce, mas não consegue ultrapassar os máximos que atingiu.

Os indicadores económicos da economia americana perderam o fôlego do corte nos impostos e desde o shutdown de 2018/19 que não dá para perceber se as coisas estão tão bem como indicam nuns meses ou tão mal como indicam em outros. Para além disso, quando a taxa e desemprego está a mínimos de décadas é difícil imaginar de onde virá a mão-de-obra necessária para alimentar a expansão, pois se quem está fora do mercado ainda não entrou, é porque deve ter alguma limitação.

A dinâmica do comércio internacional também contribui para a confusão: como as empresas e os consumidores não sabiam quando estariam sujeitos a tarifas, assim que se aperceberam das intenções da administração americana alguns anteciparam compras para tentar evitar ter de pagar tarifas, ou seja, apesar da imposição de tarifas ser uma política desaceleradora da actividade económica, a curto prazo pode ter o efeito contrário e acelerar.

Depois há as eleições presidenciais daqui a menos de 18 meses, que irão criar uma confusão enorme na comunicação social, pois é esse o modus operandi de Donald Trump. Só que desta vez o efeito surpresa não estará do lado dele e se em 2016 ele era o underdog, agora é a pessoa que está no poder e como passou os últimos anos a insultar e a passar políticas que prejudicam os eleitores que votaram nele, é natural que tenha dificuldade em convencê-los.

Nem tudo é negativo, pois a Reserva Federal tem alguma margem para actuar, só que como o Presidente acha que as taxas e juro deveriam ser cortadas para estimular a economia, há alguns problemas que se levantam. O primeiro é que um corte iria levar a que se questionasse a independência do Banco Central. E depois se a economia está com baixo desemprego e a taxa de crescimento anda em torno da média, a única verdadeira razão para actuar seria para tentar criar mais inflação, coisa que a Reserva Federal costuma engonhar.

Se a economia americana ainda está a expandir, então em Julho esta será a expansão mais longa da história dos EUA. Se pelo contrário a recessão já começou, então poderá levar vários meses, talvez mais do que um ano, até que o NBER faça o anúncio, mas se entretanto as taxas de juro forem cortadas, então teremos clara indicação de que estamos em recessão.

Quem acompanha as notícias internacionais, já deve ter reparado que há duas coisas das quais se fala muito: uma é o efeito das alterações climáticas e a outra é a quantidade de resíduos plásticos no oceano. Para além de políticos da ala conservadora americana terem deixado de questionar as alterações climáticas, as companhias petrolíferas mundiais também já tornaram público o seu apoio a políticas para gestão das emissões de carbono.

No lado dos plásticos, formou-se há menos de um ano um consórcio global de empresas que têm o objectivo de melhorar a tecnologia de reciclagem de plásticos e a sua infraestrutura. Claro que tal esforço coincidiu com a China ter deixado de comprar residuos plásticos para reciclar. Para além disso, começam a haver start ups que têm o objectivo de reiventar a cadeia de produção/distribuição de forma a reduzir ou eliminar o consumo de plásticos, como por exemplo a Loop, que está a estudar o uso de embalágens de aço reutilizáveis para embalar shampoo, gelados, cereais de pequeno almoço, etc.

O mundo está a mudar rapidamente e apesar da Administração Trump tentar relaxar a legislação ambiental, são as próprias empresas que resistem e tentam estar um passo à frente dos consumidores. É que na era digital, as empresas que se portam mal correm o risco de serem ostracizadas a nível global. Para além disso, já deu para perceber que é só uma questão de tempo até haver um esforço mundial para lidar com as grandes questões ambientais.

Não sei se Portugal está preparado para as mudanças que por aí vêm, até porque não se ouve ninguém dicutir temas sérios da actualidade. Até é duvidoso que os políticos portugueses saibam o que se passa no resto do mundo.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

As que irritam

“A seriedade intelectual de Natália [Correia] levava-a a não omitir erros (injustiças, desvarios) cometidos pelos que lhes eram próximos. Não hesitou, por isso, em distanciar-se, no ano de 1975, da (sua) esquerda, de demarcar-se do feminismo que, na Primeira República, levou as mulheres a apoiarem Afonso Costa na trágica decisão de atirar Portugal para o matadouro da Primeira Guerra Mundial.

«Incompreensível essa atitude, sobretudo por parte de vultos como Ana de Castro Osório, que criou a Comissão Feminina pela Pátria, ou como Adelaide Cabete que lançou a Cruzada das Mulheres Portuguesas em apoio de tamanha infâmia! E isso depois de Afonso Costa ter impedido as mulheres de votar, uma vergonha! Elas comportaram-se, afinal, de maneira não muito diferente da das senhoras do Movimento Nacional Feminino, que actuaram nas guerras coloniais do fascismo».

A seu lado, o historiador Oliveira Marques sorria. Saltando sobre o tempo, logo Natália investia contra as mulheres que, em cargos de decisão, «se comportam hoje pior do que os homens», ultrapassando-os no que eles «têm de mais brutal».
Em vez de «praticarem a superioridade do feminino, como a afectuosidade, a sensibilidade, não, parecem travestis! Vejam-se, por exemplo, as atitudes implacáveis das que dirigem departamentos de recursos humanos em empresas com processos de despedimentos de trabalhadores. Grotescas!» As «carpideiras do vitimismo feminino» irritavam-na igualmente.”

Excerpt From: Fernando Dacosta. “O Botequim da Liberdade.” Apple Books. https://books.apple.com/us/book/o-botequim-da-liberdade/id703484323

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Mudança

Depois de algumas semanas em que me senti bastante cansada, percebi que a culpa era dos chocolates. Foi assim: no trabalho, nós temos chocolates de graça, mas eu como sou meia-esquisita também tenho os meus quadradinhos de chocolate e menta que comia como snack diário. Normalmente, comia uns dois... ou três... ou quatro porque pares é melhor para não ficar nenhum pedaço sozinho e não eram assim tantas calorias, mas também não tinha valor nutricional. Notei que para além de cansada, as minhas articulações doíam, então decidi parar e não é que melhorei e me sinto com mais energia?

Deu jeito a minha mudança porque entretanto recebi uma mensagem de uma amiga a perguntar se não ia ficar por Memphis durante o Verão porque gostaria de visitar porque estavam a caminho da costa do Alabama e era uma boa oportunidade de eu conhecer o filho dela, que tem quatro anos. Perguntei-lhe para quando era a visita e era em menos de uma semana. Oh diabo, tive de andar a organizar o andar lá de cima onde ficam os quartos de hóspedes.

Por acaso, a última vez que estive em Fayetteville, AR, onde ela vive, foi em 2013, logo nessa altura estava ela grávida e apenas lhe entreguei as coisas do baby shower. Até j;a me tinha esquecido destes detalhes, mas durante a visita ela mencionou ao filhote as coisas que eu tinha dado: fiz um cobertores de flanela, outro de pelúcia e flanela (a sério, costurei eu mesma), bordei uns macacões de algodão, etc. É estranho, mas ultimamente não me apetece fazer estes trabalhos manuais. Por sorte, já não tenho amigos com descendência a caminho.

Mas fiquei orgulhosa de mim própria por ser uma amiga tão dedicada. Aliás, os meus amigos aqui têm uma boa impressão minha e acham que o resto dos portugueses são como eu: inteligentes, trabalhadores, atenciosos. Tenho uma lista de pessoas que querem que eu os leve a Portugal e alguns já me ameaçaram de que não passo de 2020 sem os levar. Felizmente, os meus amigos não leram o blogue do Francisco Seixas da Costa, onde se diz que pessoas como eu que emigraram, ainda por cima para as Américas, e têm opiniões formadas acerca do país e que não se inibem de o criticar nunca fizeram nada pelo país. Parece que bons portugueses são aqueles que não querem a mudança porque mudar Portugal é mau.

Bem sei que o Francisco Seixas da Costa também andou pelo mundo, mas era diplomata, não era emigrante. Mas a diplomacia é uma das formas pelas quais se efectua mudança, logo por que razão não nos explica o Francisco porque dedicou uma vida inteira a tentar mudar as relações de Portugal com o estrangeiro? Não seria melhor ter deixado tudo ficar como estava?

E por falar em ficar como estava, como é que se pode criticar a mudança ao mesmo tempo que se elogia uma revolução? Uma revolução é uma das mudanças mais profundas que pode acontecer a um país com a agravante de que a maior parte das revoluções não são pacíficas. Aliás, há a ideia de que as coisas depois de Abril de 74 foram um mar de cravos em Portugal, mas não foram. Ao contrário do que escreve o Francisco, nem sequer houve liberdade para quem foi preso e torturado sem ter sido acusado de um crime e houve centenas de presos nesta situação.

Como é que alguém com o currículo de Francisco Seixas da Costa escreve coisas que não são factuais, nem observam as regras mais básicas de lógica, e ninguém da comunicação social lhe aparece à frente e lhe pede explicações?

Não pensem que Portugal não muda porque alguém não quer. Tudo muda e a mudança é inerente à vida. A única escolha que temos é decidir se queremos mudar por necessidade ou voluntariamente. Se por necessidade, as mudanças são nos impostas e não controlamos os resultados; se formos pela via da mudança voluntária, podemos eliminar situações indesejáveis e posicionarmo-nos para criar novas oportunidades. De qualquer das formas, na mesma não ficamos de certeza absoluta.












sábado, 18 de maio de 2019

Chocou-me, pronto

Ao contrário de muita gente, não tenho problemas com telemóveis no quarto. Não me incomoda nada passar uns minutos a ver fotos no Instagram antes de dormir, até porque me relaxa imenso. Não é, portanto, surpreendente que o meu despertador seja o meu telemóvel. O único problema com isto são as notificações que se vê assim que acordamos. Por exemplo, na Quarta-feira acordei às 6 da manhã como habitual, vou a desligar o despertador e vejo que, no NextoDoor há uma vizinha que se diz estar meio-abananada porque ouviu tiros durante a noite, mais propriamente às 2:30 da manhã, será que mais alguém tinha ouvido...

Não ouvi nada, mas uma outra vizinha ouviu e a troca de impressões já tinha começado. Uma disse que tinha visto dois corpos e a polícia por todo o lado e que a notícia já estava no Twitter, mas fui procurar e a polícia não tinha dito nada. Foi uma TV que deu a notícia porque entretanto recebo um SMS de um colega que diz que ficou doente e não podia ir trabalhar, quando lhe contei do tiroteio, disse-me que tinha visto na TV, fui ver o canal de TV no Twitter e lá estava.

Consultei o mapa porque pela descrição da vizinha, o local onde a coisa se tinha passado parecia-me bastante próximo, aliás fiquei com a impressão de que era ao pé do parque que tem o chão coberto de musgo--é uma coisa simplesmente divina. Tirei umas fotos de nuvens lá perto dois dias antes do tiroteio. Recordo-me também que algumas semanas depois de me mudar para esta vizinhança, houve um miúdo de bicicleta que me seguiu por essa zona. Na altura fiquei incomodada, mas agora o que me incomodava era pensar que, se calhar, a criança tinha uma tragédia à porta.

Mandei calar a minha imaginação porque, às Quartas-feiras, temos reunião de risco no trabalho, que começa às 8 em ponto, e como o colega não podia ir, quem tinha de fazer os preparativos era eu. Durante o dia fui consultando o NextDoor para ver se havia novidades, mas passadas algumas horas houve outro tiroteio, que não foi bem tiroteio. Um homem suicidou-se a tiro num parque, o parque que eu tinha visitado pela primeira vez há umas duas semanas. É um local tão agradável, com um trilho curto, mas rodeado de árvoredo denso, um riacho que serpenteia pela floresta, um parque de merendas com baloiços para as crianças. No fim de semana passado, como estava frio, andei a investigar se este parque seria um bom sítio onde tentar encontrar cogumelos morel porque encontrei lá vários sítios com mandrágora americana (mayapple) e os cogumelos crescem em circunstâncias semelhantes.

No NextDoor, uma senhora que passeia cães ficou indignada que se fosse andar ao tiros num sítio com miúdos, especialmente com uma escola primária ao pé, mas um outro vizinho que conhecia a vítima pedia compreensão e recato. A vítima era um amigo dele, um homem que andava atormentado, e que deixava orfã uma criança ainda pequena. Tentei pensar nesse homem; no mundo perfeito da minha imaginação ele teria encontrado algum consolo na beleza daquele parque, ter-se-ia acalmado e retornado a casa para encarar mais um dia, sem que nada de mal lhe tivesse acontecido. Entristece-me que o parque não tivesse tido esse efeito nele.

Continuei a minha rotina, que inclui ouvir os podcasts portugueses para não me esquecer de como falar português. No Governo Sombra tinham um clip da ida do Joe Berardo à Comissão Parlamentar de Inquérito, o tópico mais importante do momento em Portugal. Nunca tinha ouvido o Berardo a falar e surpreendeu-me um bocado a falta de desenvoltura verbal, mas o que me chocou mesmo foram as perguntas que os deputados lhe fizeram porque demonstram ignorância e falta de preparação. Será que os deputados conhecem a lei portuguesa? Não parece que saibam que as empresas em Portugal gozam de um enquadramento legal que limita a responsabilidade dos proprietários/sócios. Como é que questionam o homem sem perceber os detalhes do empréstimo e a lei que o rege? Ainda por cima, esperam que o Berardo lhes explique e se auto-incrimine.




domingo, 12 de maio de 2019

Um malandreco, outro mauzito

Que semana tão atarefada. O país acalmou depois da birra do ilustre PM, que anda a ver se arranja um pretexto para se demitir. Coitadito do nosso malandreco preferido, a única coisa original que disse recentemente é que não há dinheiro. Isso já tinha dito o Vítor Gaspar há mais de seis anos.

Sem plataforma eleitoral, nem estratégia de governação, o melhor é mesmo António Costa tentar sair agora enquanto o leite ainda não azedou. E com o Marcelo Rebelo de Sousa a perder popularidade, ainda vai a tempo de andar a fazer comentário pela TV e depois ser candidato do PS às próximas Presidenciais.

Entretanto, encontrámos um assunto muito mais interessante há coisa de dois dias. O Joe Berardo, outro génio à portuguesa, foi prestar declarações à Comissão Parlamentar de Inquérito e portou-se mal. Ele é tão mauzito, que merece tareia. Ou talvez não, pois tem acesso a telemóveis e a sua reabilitação é quase certa. Aliás, deve ser essa a causa de ele não ter tido um acto de contrição em frente dos deputados.

Que queriam os deputados não se sabe ao certo. Afinal, mudaram alguma legislação como consequência de comissões parlamentares de inquérito passadas? Quando há declarações falsas, alguém é preso? No decorrer da investigação descobrem-se alguns factos que permitam ao ministério público avançar com uma acusação? E há algum plano para recuperar o dinheiro perdido dos bancos ou para arranjar um enquadramento legal que permita que casos destes não se repitam?

Dizem-nos que as eleições estão para breve...




segunda-feira, 6 de maio de 2019

Nova ou velha

Em Coimbra há duas estações principais de comboio a que na cidade costumamos chamar "estação nova" e "estação velha".
O nome oficial delas é Coimbra A e Coimbra B.
Apesar de saber disso, evidentemente, sempre que se falava em A ou B eu confundia-me e não sabia se estavam a falar na nova ou da velha. Houve até alguns desencontros desagradáveis.
Até que um amigo me mandou um berro dizendo: "B de belha". Não confundi mais.

Acobardou-se.

Aproveitem que isto não vai para a frente e discutam que tipo de carreiras especiais querem na Função Pública.
Depois de tudo o que se passou, talvez esteja na altura de reconhecer de vez que não faz sentido carreiras com progressões (quase) automáticas. Caso contrário passamos a vida a congelar a carreiras.

sábado, 27 de abril de 2019

Primeira cobaia

Duarte Lima vai finalmente ser preso -- já vai tarde, mas não nos zanguemos com o atraso na justiça portuguesa porque vamos ter uma cobaia para testar a introdução de telemóveis na prisão. Não acham que o Duarte Lima merece um telemóvel? Ele até toca piano.

Vá, não sejam forretas e dêem-lhe um iPhone! Assim ele pode refilar com os moços do PSD que só se lembraram de o expulsar agora que ele vai ser preso. Antes, quando ele foi condenado, não era premente. Com o seu telemóvel, Duarte Lima pode argumentar que a reabilitação está a correr muito bem e estará prontinho para novas aventuras cor-de-laranja quando sair daqui a 6 anos.

E viverão felizes para sempre!

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Um cão era melhor

Segundo me contam, o telemóvel é um mecanismo de reinserção de presos na sociedade. Na Wikipédia em inglês, dizem-me que é controverso porque os presos podem usar o telefone para intimidar testemunhas, cometer crimes, planear fugas ou até outros crimes. Uma outra fonte de controvérsia é, nas prisões que permitem telemóveis, os custos exorbitantes dos mesmos que beneficiam as próprias prisões.

Não se percebe muito bem como é que havendo telemóveis com fartura em Portugal -- mais de um per capita -- ainda há criminosos. Então não seria esperado que, se pessoas com telemóveis estivessem bem inseridas na sociedade, então não cometeriam crimes?

Mas talvez não seja o telemóvel em si, mas os amigos e família com quem o preso contactaria. Só que mais uma vez encontramos o mesmo problema: se estas pessoas fossem eficazes a inserir a pessoa na sociedade, então a pessoa nunca teria cometido um crime.

Frequentemente, os criminosos sofrem de disturbios mentais e necessitam de cuidados médicos especializados; o telemóvel não os vai ajudar, mas dá a ilusão que o governo se preocupa, quando na realidade não faz nada por estas pessoas.

Afinal, o que é um criminoso em Portugal e por que razão se prende uma pessoa? Portugal é um país com um regime penal considerado leve. Há crimes hediondos cujos autores nem vão para a prisão porque lhes atribuem penas curtas, que acabam por ser suspensas. Ou seja, quem vai para a prisão normalmente deve ter cometido algo bastante grave e, se o fez, é porque a pessoa é incapaz de auto-inibir comportamentos altamente indesejáveis. O telemóvel desinibe as pessoas: basta ler algumas conversas de SMS para perceber que o potencial das coisas descambarem é alto. E se for um telemóvel com Internet ainda pior.

Depois há a situação dos familiares e amigos, que receberiam as chamadas. Será que estas pessoas também não sofreram elas próprias com o crime e não têm direito a algum resguardo? Ou têm obrigação de tomar conta de presos pelo telefone a qualquer hora do dia?

É desejável que se sigam políticas de reinserção de presos, mas gostaria que me indicassem estudos que concluam que o uso de telemóveis facilita esse propósito.

Porque é que não decidiram dar um cão aos presos? Esses programas funcionam mesmo. Nos EUA, há vários prisões que usam cães para reabilitar pessoas encarceradas. Ver aqui, aqui, e aqui, por exemplo.