quarta-feira, 28 de junho de 2017

Perguntas sem resposta...

Acho que, amanhã, quando acordar, não vou ler as notícias. Cada dia é mais estranho do que o anterior. Valeu-me hoje a Bloomberg ter publicado um gráfico interactivo que indica quais as profissões que têm maior probabilidade de ser automatizadas e que me tem ocupado os momentos livres.

A de bartender tem 77%, o que não compreendi de todo. Então uma pessoa vai a um bar para descontrair e ter sempre alguém com quem falar de coisas banais -- o bartender é sempre o conversador de último recurso --, como é que faz isso com o robot? Já sei que posso ter uma conversa com a Siri do meu iPhone, mas ela nem acerta quando eu lhe peço para tocar os Wham! (OK, pronto, viva o progresso! Pedi agora e acertou, quando não me tinha acertado há uns meses.)

Para testar o meu ponto novamente, perguntei à Siri algo pessoal: "Are you gay?" Perguntei porque não sabia se havia de perguntar do namorado, namorada, marido, ou esposa. Responde-me a Siri, bruscamente: "We were talking about you, not me, Rita". Mas eu sei se sou gay ou não, logo não é um tópico que me interesse. (Também não estou a ser muito razoável, pois se fosse um bartender a sério não perguntaria isso, mas nos filmes o pessoal vai para os bares queixar-se dos parceiros e ocorreu-me que eu não sabia que parceiro teria a Siri e a palavra "gay" é mais curta do que a palavra "straight" e não pensei que a Siri levasse a mal.)

Tentei outro caminho e perguntei de forma politicamente correcta: "How's your significant other?" e ela responde-me "Who, me?" Nem faz sentido esta resposta! Mudei de assunto e fiz mais outra pergunta: "Would you like to be a bartender?" E responde-me ela "I really have no opinion." Com conversas deste nível, os bares robotizados irão à falência...

Se eu quiser que me inventem uma bebida, vou pedir ao robot? Mas que robot é que iria inventar o Sex on the Beach, Long Island Iced Tea, ou o Grasshopper? Perguntei à Siri se me podia inventar uma bebida e ela fez uma busca da pergunta no Bing e apresentou-me os resultados. Ficámos conversadas.

terça-feira, 27 de junho de 2017

O nosso falhanço

Antes de Pedro Passos Coelho falar no suposto suicídio, o Observador publicou um artigo no Sábado em que um senhor, funcionário municipal em Castanheira de Pera, disse que a Protecção Civil, a Segurança Social, e a PSP só prestaram serviços às vítimas entre as 14 horas e as 18. Fora desse horário não se pode estar deprimido, parece.

No programa de rádio Sinais, de Domingo, falava-se de uma reportagem publicada no JN (não sei se é Jornal de Notícias ou de Negócios) acerca das pessoas de Soito, que foram atingidas pelo fogo no ano passado e que ainda não receberam apoio. Também se mencionou que em Pedrógão Grande, o apoio psicológico não chegou, apenas havia apoio psico-social pedido pela própria autarquia e prestado por Fuzileiros.

Estamos a falhar como sociedade e os "erros" de PPC não são a causa do falhanço: são apenas um sintoma.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Trovoadas e dificuldades


What have I got to do to make you love me
What have I got to do to make you care
What do I do when lightning strikes me
And I wake to find that you're not there

What do I do to make you want me
What have I got to do to be heard
What do I say when it's all over
And sorry seems to be the hardest word

It's sad, so sad
It's a sad, sad situation
And it's getting more and more absurd
It's sad, so sad
Why can't we talk it over
Oh it seems to me
That sorry seems to be the hardest word



Luto

A minha avó morreu exactamente um mês antes de eu fazer 10 anos. Como era uma pessoa a quem eu era muito chegada, o meu pai deve ter tido um pequeno ataque de ansiedade por minha causa e os meus pais mandaram-me com a minha irmã para casa de umas primas da minha mãe, pois não queriam que eu estivesse exposta ao luto.

Só para verem o quão chegada eu era à minha avó, basta saberem que a minha primeira grande discussão com os meus pais, quando eu tinha uns sete anos, foi eu a argumentar que eu não era filha da minha mãe: dizia-lhes eu, com toda a veemência que se pode ter aos 7 anos e provavelmente com os olhos muito arregalados, prestes a engolir o mundo, como anos mais tarde me diria a minha mãe que eu faço quando discuto com alguém, que a minha avó é que era a minha mãe pois era a pessoa que cuidava de mim. Eu era filha da avó; não era filha da mãe...

Coitada da minha mãe; era um bocado injusto ter ouvido aquilo porque a minha avó adorava-me tanto que basicamente me tirou à minha mãe e a minha mãe, que andava tão stressada e não sabia para onde se virar, entre trabalho, marido, mãe, filha, e doença, não se intrometeu entre mim e a minha avó. Nesse luto, talvez ir para casa das primas tivesse ajudado a minha mãe também, pois durante alguns dias não precisava de se preocupar com as filhas, enquanto vivia o luto da perda da sua mãe. Não sei bem o que ela sentiu, mas agora que penso nisso, tenho pena de não lhe ter perguntado como é que foi o luto dela. Depois das pessoas morrerem, há tantas perguntas que aparecem e que ficam por responder. Também nunca lhe perguntei a sua cor preferida, mas acho que devia ser azul.

No ano a seguir, morreu o meu avô, mas eu não era a preferida dele e ele nem era muito próximo de mim, se bem que tivesse maior afinidade com a minha irmã, só que ela era uma criança muito mais feliz do que a macambúzia da Rita, que parecia viver um drama constante, separada do mundo real, em que as pessoas frequentemente lhe diziam que era triste e aborrecida, para além da banalidade de ter olhos e cabelos castanhos. (Os adultos dizem cada parvoíce às crianças que até as crianças percebem que os adultos são parvos.)

Apesar de morar connosco desde que ficara incapacitado de viver sozinho, os meus pais acharam que a morte do meu avô não me afligiria muito e pude ficar em casa e viver o luto da família, que consistia em a minha mãe vestir preto por uns dias e não se ligar a televisão, nem se tocar música. Lembro-me de a minha mãe e as vizinhas conversarem acerca do número de dias que era adequado para se observar o luto, mas não me recordo da resposta.

Os meus pais enganaram-se. Depois do meu avô morrer, ganhei uma fobia temporária e durante alguns anos não consegui tocar em nada que pertencia ao meu avô ou à minha avó. Tinha medo dos objectos das pessoas mortas, especialmente do chapéu que o meu avô tinha usado. Por vezes, ficava parada a olhar para as coisas e a pensar, com um ligeiro nó na garganta, que não lhes podia tocar. Nunca disse a ninguém na altura que tinha esse medo. Percebi desde cedo, que não convém partilhar os nossos medos com os outros, especialmente quando somos pequenos e as pessoas grandes parecem tão complicadas e não nos oferecem grandes evidências de saberem o que estão a fazer.

É muito difícil controlar a nossa reacção a tragédias porque não obedece à lógica e muitas vezes ilustram mais os nossos medos do que outra coisa. O que é a reacção normal? Às vezes nos funerais, vê-se as pessoas a chorar e a falar com os mortos. Isso aconteceu no funeral da minha mãe, em que uma das suas melhores amigas ficou muito emocionada e, a certa altura, encontrei-me entre o caixão da minha mãe e a amiga a consolá-la e achei um bocado estranho estranho estar ali a vê-la ter uma reacção que eu nunca teria. Muitas vezes não sei como reagir, mas tenho medo de reagir mal e então fico num estado de suspensão, à espera que as coisas mudem até me sentir mais confortável e à vontade para reagir.

No dia do enterro, a minha mãe estava no meio da sala, no mesmo sítio onde estivera a mãe dela. Eu lembro-me de estar ali com a minha avó e de pedir à minha mãe para me deixar ver a cara da minha avó. Mas com a minha mãe não consegui olhar para a sua cara; depois do enterro pensei que talvez tivesse sido um erro. Talvez eu aos nove anos, com a minha avó, que foi a minha primeira perda e o meu primeiro luto, tivesse tido uma reacção melhor do que a que tive 24 anos mais tarde...

Com a cobertura da tragédia de Pedrógão Grande, anda tudo com os nervos em franja, e não há reacções que agradem a toda a gente; é como se o país estivesse numa competição de luto, em que cada um acha que sofre mais e melhor a tragédia do que o outro. Talvez fosse bom que as pessoas pudessem ir para casa de uns primos espairecer, ou desligar a TV, os computadores, e telemóveis por uns dias. Será que não há uma regra de etiqueta que se aplique ao luto moderno?

Perdas e chuva

Nas piores horas ou quando preciso de voltar para algo que me dá algum conforto, volto sempre para a música de Tori Amos. Na obra há vários álbuns que falam de perdas. "Boys for Pele" tem a fúria e a calma da mulher que perde o seu amante; "From the Choirgirl Hotel" fala da perda de uma criança devido a aborto espontâneo, de nos sentirmos perdidas no casamento; o primeiro álbum "Little Earthquakes" é sobre a experiência de não ser criança, nem ser mulher, etc.

Hoje apeteceu-me ouvir Tori Amos, "Northern Lad", de "From the Choirgirl Hotel", talvez porque fala de perdas, mas também fala de chuva...

domingo, 25 de junho de 2017

O working man

O meu amigo E. vive em Oklahoma, onde o conheci na Oklahoma State University em 1995. Agora que me recordo, acho que passei o Thanksgiving the 1997 com ele e com a família em Ponca City. É uma das pessoas mais inteligentes que conheço, mas é péssimo a gerir a sua vida profissional. Tem um curso de História, gosta especialmente de história militar, escreve divinamente, tem um sentido de humor maravilhoso, extremamente cínico e irónico, há um toque de "darkness" no homem. Começou o mestrado, mas não terminou. Uma vez mostrei-lhe um paper de economia que eu tinha escrito e ele olhou para mim incrédulo, como se eu fosse um "cadáver intelectual", e disse-me que era a coisa mais aborrecida que alguma vez tinha lido. Não me esqueço do tom da sua voz e do incómodo que senti porque, para mim, o que eu tinha escrito era bom e interessante.

Os empregos que tem são blue collar, duros fisicamente, e, sendo ele obeso, comendo mal, e não se cuidando muito bem, já tem problemas no corpo. Tem artrite, de vez em quando desenvolve tendinite, etc. Diz-me sempre que é desta que vai fazer dieta, vai deixar de beber bebidas gaseificadas, vai fazer exercício, mas esses planos futuros nunca se materializam num presente. Meses atrás, recebi notícia de que, finalmente, os planos eram mesmo seguros, havia sucesso garantido, assim que melhorarasse de saúde. Nos três meses anteriores, ele que se queixa do estado papá, tinha ficado incapacitado e teve de pedir "food stamps" e Obamacare. Tinha de fazer uma operação ao ombro antes que Trump fosse presidente, mas não fez porque diz que o enganaram quando foi comprar seguro de saúde e não comprou um que estivesse dentro do Obamacare: ou seja, comprou um caro sem grandes benefícios.

O último emprego de que me falou foi um de principiante num talho, onde ficou menos de um ano. No emprego anterior, chateou-se com o gerente porque estava com problemas nos ombros e não o deixaram trocar de função. Despediu-se no momento, sem ter poupanças, alternativa de emprego, ou seguro de saúde. Quando conseguiu o emprego no talho, chateou-se porque não lhe deram um emprego melhor, mas ele nunca tinha trabalhado com carne. Eu disse-lhe que era um princípio, ele podia fazer disso aquilo que quisesse, se se investisse pessoalmente no emprego. Não fui muito simpática quando lhe disse isto porque ele está nesta situação por escolha própria. Um homem formado podia perfeitamente sair dali e ir ensinar no secundário ou regressar à universidade e fazer um mestrado.

Ficou chateado comigo e com a minha "straight talk", mas alguns dias depois regressou e disse que eu tinha feito bem em malhar nele. Decidiu que ia manter uma mente aberta no talho e que o objectivo dele era eventualmente estudar e, daqui a dois anos, submeter-se aos requisitos para ser inspector de carne na USDA. Achei um plano bom, até lhe disse mais tarde que, quando se candidatasse à USDA, podia dizer que, como tinha trabalhado mesmo no manuseio de carne, teria uma perspectiva mais rica de quais os problemas que podiam ocorrer e de como conversar com as pessoas nesses empregos. Ele achou que eu era genial e que devia ter mais pessoas como eu a falar com ele.

Mas ser genial com os amigos não adianta nada: ele ainda está na mesma situação, pois desistiu do talho...

sábado, 24 de junho de 2017

Respeito pela propriedade privada

Independentemente do que cada um pense sobre a proposta de quotas de género nos Conselhos de Administração das empresas cotadas, e todos sabem o que penso, deve ser assinalado que o Partido Comunista Português foi o único que respeitou a vontade dos donos das empresas ao não interferir nas nomeações dos seus Conselhos de Administração.

É um mundo interessante este em que, numa votação em que se tem de escolher entre a igualdade e o respeito pela propriedade privada, seja o PCP o único partido na assembleia a respeitar a propriedade privada.

Morder a bala

Às vezes, é preciso morder a bala ("bite the bullet"). As coisas não são o ideal, mas sobrevive-se...
http://www.humansofnewyork.com/post/137356399781/im-a-customer-engagement-program-operations

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Eu não sou comunista


Houve muita gente a querer explicar a crise da economia portuguesa só com os erros do Estado - apesar dos milhares de livros que saíram em todo o mundo sobre as falhas dos mercados. Na centro da minha explicação da crise estiveram sempre o Estado, o sistema financeiro e as empresas.
Agora defendi a nacionalização do SIRESP e voltaram-me a chamar comunista. 
Mas tudo isto tem explicação fácil: ignorância. 
Desculpem a arrogância, mas é mesmo assim.

Cuidem-se!

Depois de morrerem as 64 pessoas na consequência dos incêndios de Pedrógão Grande, o mínimo que se poderia fazer era investigar o que correu mal. Dado que não é a primeira vez que as coisas correm mal, o assunto já foi investigado antes e as falhas apontadas, ou seja, esta investigação não vai ter efeito nenhum; é apenas uma forma de fazer de conta de que algo está a ser feito pela segurança das pessoas, quando não há intenção nenhuma de seguir as recomendações.

Sendo assim, é mais honesto as pessoas terem noção de que o sistema falha e, quando falha, pode morrer alguém. Ou seja, cuidem-se e não contem com o estado português para vos salvar a vida de incêndios.


Call for papers 1




1.      Não fosse o mundo aquilo que é e não chamaríamos ninguém. Para nada e para lado nenhum.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

SIRESP: o país numa rede de interesses

Dado o ruído sobre a rede SIRESP, escrevi um artigo para o jornal ECO com base no meu conhecimento e  experiência como Secretário de Estado no Ministério da Administração Interna. Espero ter contribuído para uma discussão mais informada. Deixo aqui um trecho. Podem ler na íntegra aqui


Os problemas surgem logo na sua criação — ver, por exemplo, o artigo de Paulo Pena no Público (acesso condicionado). A opção por uma Parceria Público-Privada (PPP) foi um excelente negócio para os privados envolvidos. Os privados desta parceria são os suspeitos do costume: SLN/BPN (hoje Galilei, uma sociedade em liquidação com milhões de euros de dívidas ao Estado português), PT (que durante muitos anos fez grandes negócios por ajuste directo com o Estado Português) e, claro, o BES (neste caso através da sua parceria com a Caixa Geral de Depósitos na ESegur). Estes associados, conhecidos pelas suas ligações ao poder político representam o pior da promiscuidade no nosso regime económico e político, como hoje todos sabemos. Esta é sem dúvida uma das razões da má fama do SIRESP.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Tlaloc

Tlaloc, o deus azteca da chuva, foi uma das esculturas que vi no Dallas Museum of Art, na exposição "Mexico and Me", que visitei no Sábado.



Head of the rain god Tlaloc, Mixtec, Late Postclassic period, c. 1300-1500, ceramic, tufa, stucco, and paint, Dallas Museum of Art, gift of Mr. and Mrs. Stanley Marcus in memory of Mary Freiberg

Um autodidacta louco

Saint-Simon (1760-1825), Robert Owen (1771-1859), Charles Fourier (1772-1837) e Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) foram os principais teóricos ou doutrinadores socialistas pré-Marx, e que este não hesitou em classificar de utópicos, por contraponto ao seu pretenso socialismo científico. Na década de 30 do século XIX, a conotação da palavra socialismo era mais ou menos isto: um sistema inventado de sociedade que privilegiava o social contra o egoísta; o cooperativo contra o competitivo; a sociabilidade contra o interesse individual; o controlo social estrito sobre a acumulação e o uso da propriedade privada; a igualdade económica ou pelo menos compensações segundo o mérito. Na realidade, as várias espécies de socialismo entretanto desenvolvidas (cooperativo, comunitário, anárquico, científico, libertário, democrático, etc.) nunca perderam de vista estas referências originais.
Dito isto, as ideias dos primeiros doutrinadores socialistas eram muito diferentes. Por exemplo, o conde Saint-Simon aspirava a um planeamento estatal através da infiltração e da persuasão de uma elite científica dedicada. Os engenheiros e artistas (pensadores criativos) formulariam planos; os cientistas avaliariam a exequibilidade desses planos; os industriais e banqueiros ficariam encarregados da sua execução. Saint-Simon seria, mais tarde, acusado de elitismo por outros socialistas.
Por seu turno, Charles Fourier era o caso paradigmático do autodidacta louco. E talvez por isso me tenha despertado curiosidade. Caixeiro, tipógrafo, caixeiro viajante, apenas se podia dedicar aos seus estudos e escritos durante algumas horas à noite. Talvez a maior fantasia de Fourier fosse que o trabalho, além de socialmente vantajoso, podia ser agradável e ajustado ao carácter e desejos de cada indivíduo. Fourier via a famosa fábrica de alfinetes de Adam Smith, onde cada um faz a sua parte da tarefa cuidadosamente dividida, como uma ameaça para a natureza humana. O trabalho “agradável” deveria ser variado, feito em cooperação e produzir coisas bem-feitas e duradouras. As famílias deveriam viver em pequenas comunidades de modo a que todos se conhecessem uns aos outros. Ao mesmo tempo, essas comunidades deveriam ser suficientemente grandes para garantir a auto-suficiência e a diversidade de talentos.
Fourier queria impedir o alastramento do princípio industrial que considerava uma ameaça à individualidade autêntica e ao prazer do trabalho. Estava convencido de que o processo de produção cooperativo podia ser mais eficiente do que o processo capitalista urbano. Ficou sempre no ar uma ambiguidade sobre o problema de as suas comunidades simplesmente voltarem as costas ao Estado e à sociedade convencional. Todavia, Fourier vislumbrava, no futuro, confederações de comunidades nacionais e depois internacionais.
Fourier foi buscar muito a Rousseau, nomeadamente a convicção de que o homem comum (honesto e natural) era mais virtuoso do que o aristocrata (sofisticado e corrupto) ou o erudito (artificial e arrogante). O homem deve ser capaz de fazer tudo, o que era muito o ideal americano de Jefferson e Jackson. Em suma, a sociedade deveria ser reconstruída de forma a garantir isto. Seria reconstruída em falanstérios cooperativos de 1 600 pessoas que cultivavam cerca de cinco mil acres. Todos teriam acesso a edifícios comuns, com serviços comuns, incluindo restaurantes, creches e salas de recreio. As necessidades básicas estariam garantidas, mas as ostentações seriam banidas pela opinião pública.
Para sua desgraça, quando as suas ideias começaram a atrair as atenções, as pessoas faziam troça ou ignoravam as suas tortuosas descrições. Seja como for, o seu princípio geral, a que chamava alternadamente “harmonia”, “solidariedade”, Unitéisme, Collectisme, Sociantisme ou Mutualisme, era tratado com respeito por alguns. Este foi o verdadeiro começo do socialismo comunitário.
Curiosamente, no século XIX, a doutrina de Fourier teve mais impacto nos EUA do que na França ou na Grá-Bretanha. Houve, de facto, várias experiências de comunidades de trabalhadores. Nenhuma destas “nobres experiências” durou muito. Alguns autores estudaram este insucesso e apontaram causas: subcapitalização, direcção financeira incompetente e um excesso de intelectuais muito exigentes e avessos ao trabalho, ou simplesmente incompetentes.
Nesta história, há outro dado que me parece curioso. Regra geral, as comunidades religiosas duram mais tempo. Talvez o amor ou temor absorvente a Deus seja a melhor (ou a única) forma de garantir a unidade de comunidades isoladas, esperançadas numa vivência mais satisfatória.


“.... lições dos fogos florestais de 2005, em álbum fotográfico..."

Luciano Lourenço é o Director do Departamento de Geografia da Universidade de Coimbra e Presidente da Direcção da Escola Nacional de Bombeiros. De entre a sua vasta produção académica sobre a temática dos incêndios florestais (pode ser consultada aqui), encontrei o artigo "As mediáticas “mãos criminosas dos incendiários” e algumas das “lições dos fogos florestais de 2005”, em álbum fotográfico. Contributo para a desmistificação dos incêndios florestais em Portugal". Deste, retirei algumas fotos ilustrativas. Sem mais comentários.

Foto. 1 - Área residencial situada na interface urbano/florestal (por razões óbvias, a localização e identificação das fotografias não é suficientemente pormenorizada)



Foto. 2 - Materiais inflamáveis no interior de uma área residencial confinante com espaço florestal.
Foto. 3 - Materiais inflamáveis no interior de uma área residencial confinante com área florestal.
Foto. 4 - Bomba de gasolina com materiais altamente inflamáveis no interior de uma área florestal, sem qualquer faixa de protecção.
Foto. 5 - Faixa de protecção exterior a uma área residencial sem manutenção.
Foto. 6 - Casa confinante com área florestal sem faixa de protecção exterior.
Foto. 7 - Pequena exploração industrial confinante com área florestal sem faixa de protecção exterior.




Foto. 8 - Estabelecimento de ensino confinante com área florestal sem faixa de protecção exterior.
Foto. 9 - Parque de campismo no interior de plena área florestal, sem faixa de protecção exterior.



Foto. 10 - Rede de água sem pressão, o que deixa a boca de incêndio sem qualquer utilidade prática.



Foto. 11 - Edificações contíguas às residências e à floresta, sem faixa de protecção exterior e sem condições de defesa fácil, situações que dificultam o combate ao incêndio florestal.

Foto. 12 - Recursos avultados para protecção de habitações rodeadas por uma baixa carga de combustível.


Fot. 14 - Depósito de carros velhos, em parte colmatados por silvas, um pormenor da falta de ordenamento e que, em caso de incêndio florestal, obriga à dispersão de recursos para salvar sucata abandonada.

Fot. 15 - Camião abandonado junto a habitação inserida em meio florestal. Na presença de fogo, o perigo aumenta substancialmente. Uma situação perfeitamente evitável.



Foto. 16 - Materiais altamente inflamáveis, no interior de área residencial confinante com área florestal, sem qualquer faixa de protecção.

Foto. 17 - Recursos humanos, em precárias condições de segurança, hipotecados na defesa de sucata, em detrimento da defesa da floresta.




Foto. 18 - Acção de emergência, perante a aproximação de um incêndio florestal. Construção de uma faixa de interrupção de combustíveis nas imediações de uma habitação de fim de semana, situada no interior de uma área florestal.

Foto. 19 - Pormenor do ponto de início de um incêndio florestal, mostrando a respectiva causa: projecção de partículas a partir de uma queima de resíduos agrícolas adjacente a uma área florestal.


Foto. 20 - Condição física pouco adequada ao combate de incêndios florestais.



Uma condição necessária do socialismo democrático

A teoria socialista (a palavra "socialista" terá aparecido em 1827 e "socialismo" em 1835) começou como uma crítica à teoria dos salários da economia clássica de Adam Smith e Ricardo: dizia simplesmente que eles eram definidos injustamente nas economias de mercado. Antes de Marx, os principais teóricos e doutrinadores socialistas (Saint-Simon, Charles Fourier, Proudhon e outras figuras menores) estavam muito longe do poder intelectual e do prestígio literário dos economistas escoceses e ingleses do laissez-faire. De qualquer maneira, o socialismo, nas suas mil e uma variantes, foi, desde o início, uma reacção e crítica ao capitalismo e um desejo (e descrição) de uma ordem social melhor.
As desigualdades de remuneração e de poder são em princípio injustificáveis, a não ser que delas decorra algum benefício público evidente, que de outra forma não poderia existir. Este argumento é invocado, nomeadamente, por John Rawls na sua Theory of Justice. A eliminação das desigualdades injustificáveis é, geralmente, considerada uma das condições necessárias para o chamado socialismo democrático. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

As tragédias

Um dos quadros que vi no Dallas Museum of Art, na exposição "Mexico and Me", foi "As Duas Fridas" de Frida Kahlo, que ilustra a tragédia pessoal que a pintora sentiu ao separar-se de Diego Rivera. Na Frida vestida de trajes tradicionais mexicanos, temos um coração saudável, com veias que a unem à Frida vestida com roupas europeias. O coração da Frida europeia está destroçado, com uma veia cortada, que precisa de uma pinça para estancar o sangue. Neste quadro, acho interessante que seja a Frida europeia, a mais sofisticada, que esteja destroçada e em risco.

Depois de uma tragédia há uma parte de nós que morre e o resto tem de encontrar forma de continuar a viver apesar de tudo o que sucedeu. Ninguém se torna forte sem passar por tragédias: é esse o preço que se paga para ser forte. Às vezes, as pessoas ficam chateadas quando alguém é forte demais, dizem que é preciso ser mais sensível, mas não é a sensibilidade que permite que alguém sobreviva. É preciso ter cabeça fria, ser calculista, e não hesitar, coisas feias que, em tempos normais, as pessoas tentam suprimir.

Uma gargalhada assustadora

Ignazio Silone assistiu ao Comintern na década de 20 como delegado do partido comunista italiano. Um dia, numa comissão especial do executivo, discutia-se o ultimato de um sindicato britânico aos seus militantes. As secções locais que apoiassem o movimento minoritário dirigido pelos comunistas seriam expulsas. A situação era complicada, lamentava o representante do partido comunista inglês. Tanto a adesão aos princípios como a saída do sindicato poderiam levar à liquidação da minoria comunista. O delegado russo Piatnisky apresentou uma solução que lhe parecia tão óbvia como o ovo de Colombo. “As secções”, disse ele, “devem declarar que se submetem à disciplina exigida, e depois na prática fazem exactamente o contrário”. O comunista inglês replicou: “Mas isso seria uma mentira”. A sala irrompeu numa estrondosa gargalhada, que parecia não ter fim, sombria como as salas da Internacional Comunista. A anedota espalhou-se rapidamente por toda a cidade de Moscovo. A inacreditável e ingénua resposta do inglês foi imediatamente contada por telefone a Estaline e a importantes figuras do Estado, provocando por toda a parte novas ondas de galhofa.
Anos mais tarde, Silone diria que, na sua memória, esta tempestade de gargalhadas se sobrepôs a todos os discursos longos, pesados e opressivos que ouviu durante as reuniões da Internacional Comunista. A gargalhada transformou-se para o italiano numa espécie de símbolo. Geralmente, o riso está do lado da liberdade e tantas vezes a ironia lançada aos autocratas é a única forma de oposição possível. Mas aquela não era uma gargalhada saudável de homens livres. Era uma gargalhada trocista, a gargalhada do cinismo total, que não vê mais nada no mundo além do poder puro e simples.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Fiquei triste

Este fim-de-semana que passou fui a Dallas e Fort Worth visitar vários museus de arte. Ontem, quando acordei, tinha uma notificação da app do The Weather Channel acerca das fatalidades dos incêndios em Portugal e fiquei triste que Portugal esteja, mais uma vez, a arder e com tantas pessoas vítimas e ainda nem encetámos o verão. Pensei que, depois de no ano passado ter ardido tanta floresta, este ano as coisas corressem melhor, mas parece que não, pois ainda restam florestas bastante perigosas perto de zonas residenciais.

Contei às minhas companheiras de viagem que se solidarizaram com a desgraça nacional. Uma delas tem um irmão que é proprietário de um rancho no Kansas e contou-me que, durante a época de incêndios, o irmão tem sempre alguém de vigia, dia e noite, caso haja um relâmpago que atinja a vegetação, pois o rancho arderia todo se ninguém impedisse o fogo de se alastrar. Durante a época mais húmida, é normal fazer queimadas de prevenção.

Era bom que, dado que as eleições autárquicas se aproximam, os candidatos se comprometessem a fazer algo mais pela segurança das pessoas durante a época de incêndios. Mas comprometam-se, rodeiem-se de pessoas capazes, e cumpram.


sexta-feira, 16 de junho de 2017

O toque de "merdas"

Hoje, a Amazon anunciou que ia comprar a cadeia de mercearias Whole Foods. A Whole Foods teve bastante crescimento há uns anos, mas ultimamente tem estado estagnada e não tem conseguido atrair clientes para as suas lojas. Um dos problemas é que a estratégia da Whole Foods foi copiada e ampliada: agora é banal as mercearias e supermercados terem produtos biológicos, locais, de maior valor nutricional, etc. Também se assistiu à multiplicação de mercearias gourmet, entregas de frescos ao domicílio, serviços de assinatura de refeições (o cliente recebe os ingredientes necessários mais a receita para preparar as refeições em casa).

O Centeno inventou a roda!

"A política que hoje diz ter dado certo, defendeu [Mário Centeno], “foi durante bastantes meses denegrida, quer em direcção ao Governo, mas também prejudicando a imagem de Portugal”. Essas opiniões, continuou, “provaram ser enganadoras no sentido de que não mostravam um conhecimento da realidade portuguesa – e muitas vezes foram baseadas, na verdade, no preconceito”.
[...]
O governante [Mário Centeno] confirmou ainda que Portugal espera receber luz verde para antecipar mais 10.000 milhões de euros ao Fundo Monetário Internacional (FMI), contando fazer uma “amortização significativa” de mil milhões ainda durante este mês de Junho."


Fonte: Público, 6/16/2017

"Portugal vai reembolsar antecipadamente, já a 15 de Outubro, mais de 5.400 milhões de euros para abater na verba de 78 mil milhões concedidos pelo Fundo Monetário Internacional no âmbito do pedido de ajuda financeira internacional.

O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho esta tarde, em campanha no Alentejo."


Fonte: Rádio Renascença, 21/9/2015


Mas, efectivamente, Centeno tem razão, a política que segue foi bastante denegrida quando o PS estava na oposição. E andou Centeno a martelar os números e a inventar cenários parvos para depois se curvar à disciplina orçamental da Comissão Europeia. No entanto, a procissão ainda vai no adro. É que 2017 ainda não chegou ao fim...



quarta-feira, 14 de junho de 2017

Bipolaridade da violência

Quando há um tiroteio nos EUA, é tradicional o GOP reafirmar a importância de as pessoas terem acesso a armas para se defender. Quem fala em limitar o acesso a armas, inclusive a pessoas com deficiências mentais ou até físicas que as impeçam de manusear uma arma com segurança, é criticado pelo GOP por quererem um estado papá: são pessoas fracas, não sabem defender-se, e dependem do governo para tudo. Na sequência do tiroteio de hoje, desse lado da bancada não se ouve nada disso; ouve-se sim que precisamos de ir para além da divisão partidária e sermos solidários com as vítimas.

Mas Newt Gingrich e Donald Trump, Jr. já culparam a Esquerda e a Kathy Griffin, em particular, pelo tiroteio por ter incentivado as pessoas à violência com a foto da cabeça do Presidente Trump ensanguentada. Os bonecos do Obama enforcado parece que não incentivavam à violência; suponho que eram apenas um exercício de liberdade de expressão. Não sei se, em 2011, os Republicanos e a Direita se sentiram responsáveis pelo que aconteceu a Gabrielle Giffords, congressista Democrata que levou um tiro na cabeça.

Pela minha parte, não tenho ilusões: eu sei perfeitamente que posso levar um tiro a qualquer altura. Mas também sei que para morrer não é necessário que a causa seja um tiro.

Tiroteio

As notícias hoje de manhã estão a ser dominadas por um tiroteio em Alexandria, VA (ao pé de D.C.), que ocorreu durante a preparação para um jogo de baseball do pessoal do GOP que trabalha no Congresso. Cinco pessoas ficaram feridas, entre elas o terceiro membro mais importante dos Republicanos na Camâra dos Representantes: o Steve Scalise da Louisiana. Parece que o atirador, um homem de meia-idade, já está sob custódia da polícia. Estou com bastante curiosidade para saber o motivação da pessoa.

No outro dia, estavam a falar na rádio, aqui em Houston, acerca de duas propostas de lei que estão na legislatura no Texas: uma para reduzir a taxa de aquisição da primeira arma; a outra para aprovar financiamento para a compra de coletes anti-bala para a polícia (um à parte: isto é uma séria distorção dos incentivos económicos; seria mais justo e lógico aumentar a taxa de quem tem uma arma e usar a receita adicional para comprar os coletes anti-bala, do que ter pessoas que não têm arma a subsidiar os custos do comportamento de quem usa armas). Talvez depois disto haja uma nova proposta de lei, mas a nível nacional, para comprar coletes para os políticos.

Adenda: o WashPost acaba de identificar o atirador, como sendo um homem de 66 anos, inspector da construção civil, fã de Bernie Sanders.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Sessions live feed


Depois de Comey, Sessions

Hoje, Terça-feira, Jeff Sessions, o Attorney General dos EUA, irá testemunhar perante o Senate Intelligence Committee. Se ouviram o testemunho de James Comey, antigo director do FBI, que foi despedido por Trump, talvez consigam adivinhar a importância do que Sessions irá dizer. Aqui fica um pequeno resumo:
  • Comey disse que se recusou a declarar publicamente que o Presidente Trump não estava sob investigação pois um anúncio desse tipo necessitaria de ser posteriormente refutado caso o Presidente viesse a ser investigado pelo FBI
  • Na opinião de Comey, dado que os membros da campanha presidencial de Donald Trump estão sob investigação, é razoável presumir que, se o caso continuar a ser investigado, o próprio Presidente será alvo de escrutínio, pois ele é o responsável máximo pela sua própria campanha
  • Comey, cujo supervisor era Jeff Sessions, pediu a Sessions que não o deixasse sozinho com o Presidente
  • Tanto Comey, como a sua equipa, ocultaram informação a Jeff Sessions por presumir que este iria afastar-se voluntariamente da investigação da interferência da Rússia na campanha eleitoral
  • Quando perguntaram a Comey que informação havia acerca de Sessions que sugeria o seu futuro afastamento, Comey recusou-se a partilhá-la em público, mas disse que o faria à porta fechada
  • É esperado que alguém pergunte a Jeff Sessions publicamente o que é que ele fez que sugerisse ao FBI a ideia de que se iria afastar voluntariamente da investigação
  • Comey afirmou que geriu a investigação da interferência da Rússia na campanha de forma a que esta fosse parar às mãos de um "Special Counsel"
  • Robert Mueller, antigo Director do FBI, que precedeu James Comey, foi o nomeado "Special Counsel"
  • Quando perguntaram a Comey se o Presidente Trump tinha obstruído a justiça ao insinuar que que Comey devia parar de investigar Mike Flynn, Comey deferiu tal apreciação para o Special Counsel Mueller
  • Comey já havia dado todas as notas dos seus contactos com o Presidente a Robert Mueller, o que revela que na, opinião de Comey, o Presidente devia ser alvo de uma investigação de obstrução à justiça

sábado, 10 de junho de 2017

Peniche

"Peniche is a small fishing port where the ocean is whipped to froth on the rocky coast."

"The Land and People of Portugal", Raymond Wohlrabe and Werner Krusch 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A má fama dos portugueses

O antepenúltimo episódio do podcast Bloomberg Benchmark foi sobre a crise política no Brasil, que agora envolve o Presidente Michel Temer. Os dois apresentadores conversaram com Vivianne Rodrigues, uma jornalista brasileira da Bloomberg que trabalha em questões da América Latina.

A conversa abordou várias questões sobre corrupção e de como é possível que um país tão rico tenha uma classe política tão corrupta. A certa altura, um dos apresentadores, o Daniel Moss, cujo sotaque não consigo identificar de onde é, mas é de um país anglo-saxónico sem ser os EUA, pergunta a Vivianne se a razão do Brasil ser tão corrupto se deve a ter sido colonizado por portugueses.



What a coincidence!

Theresa May will be DUPed...

"Theresa May has said she will form a government with the support of the DUP, though it is not clear what kind of arrangement this will be.
Despite party leader Arlene Foster warning it would be difficult for the prime minister to stay in No 10, discussions are certainly going on behind the scenes.

The party has moved on to the political centre stage but most people will be in the dark about what it stands for.

The DUP website crashed on Friday morning after a surge of interest, and DUP was also one of the most searched terms on Google."


Source: BBC

Oops!

As facílimas:

Theresa May in dismay

May, the force is not with you


E agora, uma singela homenagem a Prince -- adivinhem o título, vá lá:

Little votes Corbyn didn't get

Sigh "of" the times 

Don't wanna be your voter

May don't matter 2night

Not so darling May

Never in May's life

I wouldn't vote for you

Seen that May girl?

I wish you Mayhem

The most clueless PM in the world

Why you wanna defeat me so bad

U did not get the vote

The ballad of Theresa May

May, U off!


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Contradição nos mercados

Ouvi a entrevista de Bill Gross no podcast da Business Surveillance e achei que havia muitas ideias interessantes. Diz ele que vivemos um período de baixa volatilidade que é anormal, o que tem repercussões na forma como se investe e se poupa. Gross explica que períodos de baixa volatilidade requerem baixo retorno (a volatilidade é uma medida de risco). No entanto, o mercado accionista apreciou bastante num curto espaço de tempo. Por exemplo, o S&P 500 apreciou 8,71% desde o início do ano e 14,85% nos últimos 12 meses, o que é, para além de anormal, insustentável.

Se isto fosse uma situação sustentável e de baixo risco, então nada impediria alguém de se endividar a baixas taxas de juro para investir no mercado accionista e aproveitar o diferencial entre as taxas de retorno da bolsa e as taxas de juro de empréstimos, o que aumentaria as taxas de juro até que se eliminasse esta oportunidade, pois cada vez seria mais difícil obter empréstimos para comprar as acções e apreciar o preço destas. Foi o que sucedeu com a crise dos empréstimos subprime.

Uma das preocupações actuais é mesmo o de haver empresas a endividar-se para financiar a compra das próprias acções, o que aumenta artificialmente o preço das acções -- satisfaz os accionistas e beneficia a administração, mas não melhora a performance da empresa -- e devia também aumentar a taxa de juro, travando a exequibilidade desta estratégia a longo prazo; mas as taxas de juro continuam bastante baixas. Gross acha que as baixas taxas de juro são culpa dos bancos centrais, que distorcem a percepção de risco.

Em períodos de taxas de juro baixas, há o risco de se aumentar a dívida além da capacidade de manutenção da mesma caso as taxas de juro aumentem. A estratégia aconselhada nestes períodos é refinanciar dívida antiga para aproveitar a baixa da taxa de juro, mas evitar a emissão de nova dívida para assim limitar os custos de manutenção da dívida caso as taxas de juro comecem a aumentar.

Gross é bastante pessimista, afirmando que vivemos um período de alto risco comparável ao de 2008, pois os investidores estão a pagar preços muito altos para o risco a que se estão a expor -- se o preço é muito alto, então é cada vez menos provável que consiga aumentar indefinidamente, logo os investidores sofrerão duplamente quando os preços pararem de aumentar (ou diminuírem) e as taxas de juro aumentarem, se financiaram a compra com emissão de dívida a curto prazo.

Comey live feed

Esta manhã -- tarde daí --, as televisões e a rádio estão a transmitir o testemunho de James Comey. Aqui está o live feed (perdão pelo atraso):


Costa e Ferreira

Não gosto do Gomes Ferreira (é assim que se chama, não é?). Na verdade, acho-o um imbecil. No entanto, um entrevistador de políticos não é um entrevistador de talk shows. Não está lá para facilitar, para tornar mais fluída a comunicação do entrevistado. É mesmo suposto as perguntas serem difíceis, desconfortáveis, contraditórias. Que exponham o entrevistado e o obriguem a estruturar o seu discurso não no ângulo que lhe dá jeito, mas no ângulo escolhido pelo entrevistador. É isto que estou habituado a ver no país que me acolhe. Sempre. Quando o entrevistado é bom e tem razão, a exposição acrescida a que é sujeito só o beneficia. Foi o caso de ontem, com o António Costa. Por isso, deixem lá de dizer que não foi uma entrevista, mas um debate. Isso é tudo treta. Foi uma entrevista, como as entrevistas devem ser.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Coincidências

O Santander anda muito nas notícias agora. Ontem, na Bloomberg, acerca da dívida ao consumo nos EUA lia-se isto:

"There are signs that lenders have started to pull back from lending to car buyers. The latest Federal Reserve survey of senior loan officers showed banks tightening standards for auto loans. Santander Consumer USA Holdings Inc., one of the nation’s biggest subprime auto lenders, said in April that it stopped allowing borrowers to make payments with credit cards."

Fonte: Bloomberg

The Art Life

Em Março de 2012, ajudei a financiar um documentário sobre David Lynch, no Kickstarter. O filme, que se chama David Lynch: The Art Life, estava para ser terminado em Maio de 2013, mas depois de adiamentos sucessivos, ficou concluído este ano. Tive oportunidade de ver o filme no Museu de Belas Artes, em Houston, no mês passado e fiquei bastante contente com o produto final e de ter feito parte deste projecto.

Surpreendeu-me que tanta gente fosse ver o filme; não sei se tanto interesse se deva à nova série do Twin Peaks. Pensando bem, talvez não seja de todo surpreendente, pois o objectivo dos produtores do documentário era angariar $30.000 em 2012 e acabaram por conseguir quase $180.000: só pessoas que contribuíram $1.000 foram 36, 6 pessoas deram $5000 cada, e alguém deu $10.000.

Eu apenas dei $50 e em troca recebo um DVD com o filme mais conteúdo exclusivo, o meu nome nos créditos do filme (em letra pequenina), e uma imagem digital de alta resolução de uma foto de David Lynch. Foi um óptimo investimento e hoje preenchi o inquérito, que enviaram ontem, com a minha informação para me enviarem o prometido.

Se estiverem interessados no documentário, sigam a página no Facebook para ver se está em exibição perto de vocês. Também podem ver no iTunes.


Programação

Contava o meu amigo Travis:


"A husband asked his programmer wife to go to the store to get a loaf of bread and, if they have eggs, get a dozen. She returned home with twelve loafs of bread."


terça-feira, 6 de junho de 2017

Ben Bernanke na Vox.com

Se tiverem um bocado, não percam a entrevista que Ben Bernanke deu, no mês passado, a Jim Tankersley a propósito da nova edição em capa mole do seu livro "The Courage to Act", que contém um posfácio do autor especialmente escrito para a ocasião.

"Over the course of a 75-minute interview, Bernanke pronounced the economy to be near full employment; worried about partisanship coloring confidence surveys; proclaimed slowdowns in productivity and economic mobility the great challenges of the era; assessed Trump’s tax and health care proposals; and riffed on the Laffer Curve and his newfound pleasure in blogging."

Fonte: Vox.com

We Are Still In!

Ontem, Michael Bloomberg submeteu uma carta a António Guterres a anunciar as intenções dos americanos relativamente ao acordo de Paris. O Facebook e a Google são duas das empresas que se juntaram ao esforço; há 125 cidades e 9 estados a bordo; "We Are Still In" já tem url e aparece nas buscas do Google, só falta fazerem a página de Internet. Tudo isto foi conseguido entre Sexta-feira passada e Segunda-feira.

Num dos episódios recentes do podcast da Anita no Trabalho, alguém dizia que o ritmo de trabalho dos americanos era de loucos. É, mas às vezes dá muito jeito...

Contos contrariados 11

Contos contrariados


11. Atrás das flores que vão sendo espalhadas pelo salão da casa e pelos corredores e saletas entra sua excelência a esposa amantíssima do presidente da câmara.

Externalidades

A magnólia da minha vizinha está em flor. Não sei se já cheiraram magnólias, daquelas que são fragrantes, mas cheiram tão bem que, hoje de manhã, quando passei em frente da árvore, apetecia-me ir buscar um banco e passar o dia lá em frente só para poder desfrutar o aroma. Esta magnólia fez-me recordar as velas flutuantes de cera que comprei em 1996, no Cracker Barrel, que tinham a forma e o aroma de magnólias. Comprei duas: uma para mim e outra para a minha mãe. Naquela altura, velas na bagagem não levantava suspeitas; depois de 11/9/2001, levar velas, cremes, exfoliantes com óleos, etc., dá sempre lugar a que nos revistem a mala e recebamos uma notinha da TSA, como se vendo a desarrumação ao abri-la não adivinhássemos o sucedido. 


Normalmente, cheirar as flores das magnólias é-me difícil porque as árvores são demasiado altas e os ramos mais baixos são cortados. Resigno-me, então, a usar o meu telefone e levantar os braços para tirar uma foto. Mas a magnólia da vizinha da frente é baixa e eu chego-me às flores que estão ao meu alcance e demoro uns segundos a cheirá-las, sempre que lá passo, e ainda ninguém me enxotou.


Nem toda a gente aprecia esta magnólia, pois a minha outra vizinha dizia-me que tinha de sugerir à dona da árvore cortar os ramos mais baixos para facilitar o trabalho do rapaz que corta a relva. Disse-lhe logo que nem pensar fazer isso porque, senão, fico sem acesso a uma das minhas externalidades preferidas. O rapaz safa-se bem com a externalidade dele. 













segunda-feira, 5 de junho de 2017

Poderia ser pior

"Through my role as the U.N. Secretary-General’s Special Envoy for Cities and Climate Change I will notify the Secretary-General and Climate Change Secretariat that U.S. cities, states, businesses, and others will aim to meet the U.S. commitment to reduce our emissions 26% below 2005 levels by 2025. We are already half-way there – and we can accelerate our progress further, even without any support from Washington.

My foundation, Bloomberg Philanthropies, will help coordinate the U.S. effort, which we are calling America’s Pledge, and together, we will submit a societal NDC – or nationally determined contribution – just as every other nation has done. Bloomberg Philanthropies has also committed to providing the $15 million that the UN Climate Change Secretariat will lose from Washington, to ensure that there is no disruption to its work. We will also fulfill the Paris Agreement’s reporting requirements, so the world can track our progress, just as they can with any other nation."


~ Michael Bloomberg, 2-6-2017

A pouco e pouco, a sociedade civil americana está a chegar-se à frente e o vácuo de liderança deixado pela administração Trump começa a ser ocupado. Michael Bloomberg, Enviado Especial da ONU para as Cidades e a Mudança Climática, está, através da sua fundação, Bloomberg Philanthropies, a fazer de liaison entre a comunidade internacional e as cidades, os estados, e as empresas americanas. É expectável que o papel da ONU ganhe importância na coordenação de esforços e na definição de um caminho a seguir, até porque as outras nações, ao opor-se ao Presidente Trump, terão um incentivo extra para que este esforço colectivo produza frutos.

Bloomberg está habituado a meter as mãos na massa e, enquanto Mayor de Nova Iorque, liderou a cidade durante uma administração republicana e uma democrata; melhor do que ninguém, pode identificar os limites do governo federal em situações de crise, pois estava no cargo quando eclodiu a crise financeira de 2008. Como é uma figura respeitada tanto por Republicanos, como por Democratas, pode ter algumas vantagens de negociação em estados liderados por governadores Republicanos e terá afinidades com os Mayors das grandes cidades americanas, muitos deles Democratas.


Apesar de tudo, poderia ser muito pior e não parece que os EUA estejam mal-entregues neste assunto.

Dobratella

Num blogue constantemente preocupado com a igualdade de género, a preservação cultural das minorias, e a dignificação dos desvalidos, a vitória do Sporting na Liga e na Taça de Portugal de futebol deve ser registada com agrado. E para quem gosta de futebol, o golo de Silva no Jamor (o do empate) é um fresco renascentista.

domingo, 4 de junho de 2017

Closed circuit

Saí há cerca de uma hora do cinema, que fica mesmo ao lado do estádio olímpico - onde houve um concerto dos Depeche Mode. Por causa do concerto, o metro estava à pinha. No altifalante, avisava-se que o comboio não ia parar em London Bridge, por causa de um "incidente policial". Houve quem ficasse chateado pelo incómodo - London Bridge é uma das estações de comboios mais importantes da cidade, e sem dúvida a mais importante a sul do rio -, mas a maioria ria-se e trocavam impressões sobre o concerto. Quase pareceria que não sabiam o que tinha acontecido. Mas sabiam. 

É difícil de traduzir para português, mas admito que eu próprio tenho uma tendência para racionalizar a coisa. Esta é uma cidade enorme, de 9 milhões de habitantes. No ano passado, houve mais de 10 mil esfaqueamentos na cidade. A estatística é o que é, e pode soar um pouco bruta. E é. Mas é preciso que a vida continue, sempre. É um cliché, claro, mas se a vida não continuar, não nos sobra nada. Onde estremeço nesta tentativa de racionalização é na tomada de consciência dos locais onde os ataques aconteceram. O meu local de trabalho nos últimos 3 anos e meio está para aí a 2 ou 3 minutos a pé do Borough Market e de London Bridge, fazendo com eles uma espécie de triângulo. A rua que agora está cheia de jornalistas é onde durante 2 anos apanhei diariamente o autocarro, e onde hoje apanho o comboio para ir e vir de casa. O Borough Market é onde vou beber copos com os colegas do trabalho. Estive lá ontem. Vauxhall, já agora, é no coração do bairro onde a comunidade portuguesa, sobretudo emigrada nos anos 70 e 80, vive. Chama-se Little Portugal. Fica mais longe. 

Outra coisa que poderá interessar aos jornalistas é que houve um filme há uns anos precisamente sobre um ataque terrorista em Borough Market.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

a/c Correio da Manhã

Isto é um serviço público da DdD. Gostaríamos de informar o Correio da Manhã que o Mexia que foi constituído arguido foi o António Mexia, um tipo moreno de óculos. Já o Pedro Mexia, que também foi condecorado por Cavaco Silva, mas não tem óculos, não é o Mexia arguido. Não se enganem nas fotos!

António Mexia -- é este o arguido

Pedro Mexia -- não é arguido

P.S. Piada conjunta da Rita e da Vera Maria Gouveia Barros.

We'll always have Paris...

Ontem, o Presidente Trump decidiu retirar os EUA do Acordo do Clima de Paris, mas isto não terá grandes repercussões negativas para o esforço de adaptação à Mudança Climática. A maior parte das empresas americanas já está ciente de que tem de se precaver e os estados americanos também têm essa mesma visão. À medida que Trump perde popularidade, as posições ideológicas a que ele se opõe tornar-se-ão mais populares e mais pessoas serão pró-ambiente, só porque são anti-Trump.

A longo prazo, nos EUA, o esforço de adaptação irá ser liderado pelos estados (e cidades) e não pelo governo federal americano, em especial pela Califórnia. A Califórnia já é o estado líder em termos de política ambiental -- é o laboratório experimental dos EUA -- e é também um dos estados em que há maior inovação. Os estados que levarão isto mais a sério são os do litoral. Se toda a inovação vier destes estados, é lá que se concentrará o crescimento económico, o que acelerará o êxodo populacional do Midwest e o seu empobrecimento.

Os estados ricos e os pobres afastar-se-ão cada vez mais um dos outros, em termos económicos, porque a política fiscal federal não será usada para aproximar os estados. Os EUA com Trump têm uma moeda comum, mas deixaram de ter uma política fiscal comum. Os europeus reconhecerão isto, pois este é o mesmo processo que foi desencadeado na União Europeia com a introdução do euro. E, se os europeus conseguem trabalhar assim, os americanos também conseguem.

As Terras e Pessoas de Portugal

Comecei a ler o livro que a minha amiga me enviou, o tal "The Land and People of Portugal", publicado em 1963, quarta edição revista. O livro é muito fácil de ler e a abundância de detalhes é deveras interessante.

Coisas esdrúxulas 5

Rígido, o precipício abre suas mandíbulas gélidas sob os frenéticos passos do fugitivo, trágico.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

A USDA

Fui agora à página de abertura da USDA na Internet e encontrei uma foto enorme com forças militares. Já uso a página do Departamento de Agricultura dos EUA há 20 anos e nunca encontrei nada assim. É assustador...

terça-feira, 30 de maio de 2017

Amigos assim...


Tudo é possível...

No Instagram há um grupo de pessoas que ajuda cães carlinos, também conhecidos por pugs. Os meus cães nos EUA são todos pugs e é por isso que me mantenho atenta ao que se passa com esta raça. Ontem, um pug de 9 meses foi salvo pela The Pug Queen. The Pug Queen é Izabella St. James, antiga Playboy Bunny, que viveu na Playboy Mansion entre 2002 e 2004, e entrava no reality show.

O pug, chamado Puggy, vivia no Irão onde foi mal-tratado. Quando o Puggy era bebé, fez xixi no tapete lá de casa; em troca, recebeu um pontapé que lhe partiu o pescoço e o deixou incapaz de andar. Para adoçar a coisa, parece que os donos só lhe davam arroz e iogurte e o cão ficou mal-nutrido. Ainda houve mais umas tropelias na vida deste cão, com novos donos, uma cirurgia falhada, e regresso aos donos antigos.

Surpreende-me que se saiba tanto detalhe sobre ele porque um dos capítulos finais da história é que o cão foi abandonado junto a uma auto-estrada em Teerão, no Irão, altura em que houve alguém de ascendência iraniana, que vive em Nova Orleães, que se indignou com a vida do animal e decidiu mesmo ir salvá-lo. No entanto, é um cão facilmente identificável por causa da deficiência física com que ficou depois de lhe terem partido o pescoço.

Quando o Puggy chegou ao aeroporto em Los Angeles, tinha a Rainha dos Pugs à sua espera, pessoas com cartazes, e uma equipa de TV local da cadeia ABC. Na Internet, há uma página a pedir doações para cuidar do Puggy -- lá podem ler a história do cão -- ; o objectivo era angariar $5.000, mas já tem mais de $11.500. Tudo é grande na América!

Alguém ir dos EUA ao Irão salvar um cão é obra, mas ir dos EUA do Trump ao Irão salvar um cão é para mim uma coisa muito mais impressionante. Parece que nem o Trump consegue derrotar o espírito americano! (E,sim, este pessoal é todo maluco...)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Piquenique

Ontem foi o piquenique dos expatriados portugueses aqui de Houston. Costuma haver dois por ano, um na Primavera e outro no Outono. Este teve um convidado muito especial porque o Armando Nascimento Rosa tem em exibição uma das suas peças aqui em Houston -- talvez tenham visto a notícia da Agência Lusa acerca da estreia -- e veio ao piquenique.

Como este fim-de-semana é prolongado devido ao Memorial Day, que se celebra hoje, muitas pessoas que costumam ir estavam ausentes, porque aproveitaram para viajar. Mesmo assim, havia mais de 20 adultos e muitas crianças pequenas. Surpreende-me ver pessoas de gerações anteriores à minha, mas há um contínuo de idades que sempre está presente. Para mim, estas alturas são bastante especiais porque, durante muitos anos, eu não conhecia ninguém português aqui com quem pudesse conviver; só depois de vir para Houston é que tive esse privilégio.

A comida costuma ser bastante tradicional e é uma altura em que me encho de admiração por toda a gente que cozinha tão bem os pratos tradicionais portugueses tão longe de Portugal. Havia vários pratos de bacalhau (eu fiz a meia-desfeita de bacalhau -- tive de estudar a receita porque não conhecia, mas achei um desafio giro), lombo de porco assado, salada fria de polvo (estava deliciosa!), bola de carne, etc. Não cheguei a provar tudo porque tive de guardar espaço para a sobremesa e tenho de vos dizer que me entusiasmei um bocado e esqueci-me de tirar uma foto para partilhar convosco.

A minha meia-desfeita de bacalhau, que foi servida numa taça da Bordallo Pinheiro
(tenho de comprar a ferramenta para fatiar ovos)


O prato com um sortido do que havia disponível
(sou um bocado desarrumada a servir-me)

domingo, 28 de maio de 2017

Desobediência civil

Como explica Hannah Arendt, a desobediência civil de um indivíduo isolado dificilmente provocará muito efeito. O indivíduo será olhado como um excêntrico, eventualmente interessante para observação, mas, regra geral, não suscitará preocupação. Os outros acharão por isso que não vale a pena tentar suprimi-lo. A desobediência civil só se torna significativa quando surge associada a um certo número de pessoas que têm uma comunidade de interesses.

Nem melhores, nem piores

Tem-se falado muito do perigo do populismo, mas pouco do chamado elitismo. O elitismo é uma espécie de populismo virado do avesso. Para os “elitistas”, a democracia é uma “hooligania”, dominada por escroques, ignorantes e estúpidos. O mundo caminharia assim para o abismo. É, por conseguinte, necessário proteger o povo de si próprio. Soluções? Entregar a política às elites, que, a bem do povo, governariam muitas vezes contra a vontade deste. E, como defendem alguns teóricos, só votariam, por exemplo, os que passassem num teste de literacia política. Nada disto me parece realista ou viável. De qualquer maneira, não há nenhuma razão para acreditarmos que as elites acertam mais do que o povo. Nem menos, já agora. Como explicavam, por exemplo, Maquiavel ou Hobbes, a natureza humana é a mesma, os instintos do povo e das elites são os mesmos. Nem melhores, nem piores.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Contas improváveis

Esta semana, Mário Centeno sugeriu numa entrevista à Reuters que era possível que a economia portuguesa crescesse mais de 3% em termos homólogos no segundo trimestre de 2017. Se isto se verificasse, passaríamos de uma taxa de 2,8% no primeiro trimestre, para uma de mais de 3% no segundo trimestre, ou seja, uma aceleração de pelo menos 0,2%.

Lembrei-me de ir ver os dados históricos e contar quantas vezes é que a variação homóloga do PIB acelerou do primeiro para o segundo trimestre. Construí o seguinte quadro sumário, a partir dos dados do INE:

Os desactualizados

Por acaso, hoje fui visitar a página de Internet do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra, e notei que havia uns links giros nos destaques que nos convidavam a olhar para os dados. Fui ver do que se tratava; mas, em ambos os casos, os únicos dados disponíveis eram os de 2012.

Pergunto-me por que razão é que se gasta dinheiro a fazer estas coisas, se não é para continuar? Mais valia estarem quietos. Ou será que quem faz a manutenção da página de Internet não reparou que a página está quase cinco anos desactualizada? E notem que a desactualização tanto acontece com governos de Esquerda, como de Direita.

Outro pessimista

Mick Mulvaney, o Director do Office of Management and Budget apresentou esta semana a proposta de orçamento do Presidente Trump. A reacção mais crítica veio de Mark Sanford, Representante da Carolina do Sul e Republicano. Tive oportunidade de ouvir parte do que ele disse quando estava a ouvir as notícias na rádio e concordo com a sua apreciação dos dados.

O Huffington Post relata a intervenção de Sanford:
"Sanford offered some basic history to challenge Mulvaney’s assumptions. For starters, he noted that the average economic expansion in all U.S. history lasts about 58 months. The current expansion begun under President Barack Obama has been underway for 94 months. The Trump budget, Sanford noted, assumes that will continue uninterrupted for an additional 214 months.

“This budget presumes a Goldilocks economy, and I think that’s a very difficult thing on which to base a budget,” Sanford said. He also noted that the Bible cautions against building a house on sand.

Sanford took specific aim at the unemployment, growth and inflation rates the budget relies on.

“Can you guess the last time we had an unemployment rate of 4.8 percent, growth at 3 percent, and inflation held at 2 percent?” Sanford asked. “It’s never happened,” he answered, when Mulvaney didn’t.

After pointing to other assumptions in the budget that have never happened, Sanford argued that to get the growth rates assumed by the budget, it would take a return to economic and demographic circumstances that haven’t existed since the 1950s and 1960s. That was when women were entering the workforce, highways were being expanded, appliances were first flooding the markets, productivity was skyrocketing, and the Baby Boomers were going to work, rather than retiring en masse.

“Even if we went to 1990 numbers, we would only see one-quarter of what is necessary to achieve 3 percent growth,” Sanford said.


Fonte: Huffington Post

A reacção de Mulvaney foi descrita na CNBC:
"Mulvaney defended the White House's projection earlier in the hearing, saying he was "stunned" about widespread doubts that the U.S. can achieve — and maintain — 3 percent growth. He argued that people would have to be "pessimistic" to assume such a level of expansion is "somehow unreasonable.""

Fonte: CNBC

E se fossem à merda?

Hoje há greve outra vez, mas é uma greve que dá jeito a todos. A Geringonça que governa o país ainda não arranjou maneira de resolver os conflitos entre os partidos do Governo sem causar greves. Eu não sei em que universo opera esta gente ignóbil, mas o mais lógico e o que nos venderam foi que era possível governar sem greves, se estes partidos estivessem no governo, porque podiam ameaçar retirar o apoio ao PS, que era uma arma supostamente muito poderosa. Afinal não era arma nenhuma porque eles acham-se desarmados.

Diz a Joana Mortágua: "A reposição de rendimentos e de direitos do trabalho que está a ser feita por este Governo é importante e devia ser feita de forma mais profunda e mais rápida, [...] a luta dos trabalhadores ajuda a este objectivo para que o Governo entenda que temos uma pressão social forte para avançar". Não percebi, mas tenho a impressão que a Joana também não sabe o significado do que disse.

Por estes dias, a minha paciência anda curta. Há pouco mais de duas semanas, foi encontrada, ao meu pai, uma massa nos intestinos que precisava de ser analisada, mas houve dois dias dias de greve e depois o dia de ponte por causa do Papa. Nessa altura, na madrugada de 11 de Maio, o meu pai sofreu um acidente isquémico transitório e teve de ser levado para as urgências. Teve azar! Esta semana teria dado mais jeito.

Vão à merda, caros governantes.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Quando se deve errar?

Uma vez, um modelo meu errou duas semanas seguidas. Depois do segundo erro, sugeriram-me se não havia uma variável que eu pudesse usar de forma a diminuir esse erro específico. Não me parecia. O erro anterior tinha sido na direcção oposta, logo o meu modelo não estava a fazer um erro sistemático: uns eram positivos, outros eram negativos, como devia ser e não houve nenhum evento captado por uma variável a que eu tivesse acesso, que pudesse antecipar aquele segundo erro e o anterior. Não fiz nada ao modelo. Na semana seguinte, o modelo acertou exactamente, e a mesma pessoa que me tinha sugerido mudar o modelo, deu-me os parabéns por ter acertado.

Na minha profissão, conto errar perto de 100% do tempo, mas preocupa-me o tamanho dos meu erros e a direcção dos mesmos. Há alturas em que, por haver informação muito mais limitada, os meus erros irão ser grandes e eu espero que sejam; à medida que mais informação fica disponível, os meus erros têm de ser menores; mas não podem ser sistemáticos. Também me interessa a evolução das variáveis, a maneira como interagem umas com as outras -- as coisas passarem o teste de cheiro, como dizia um antigo chefe meu.

Há erros que são desejáveis. Por exemplo, alguém que vai ao médico e o médico diz "Se você não fizer X, Y, e Z, vai provavelmente morrer dentro de dois anos." Qual o objectivo do médico: acertar na projecção a todo o custo ou errar de propósito? Em economia encontramos o mesmo tipo de problema: há previsões que são feitas para não se concretizarem.

Chateia-me um bocado quando as pessoas dizem que sou pessimista. Um bom economista tem de ser pessimista por natureza, pois uma das nossas funções é gerir risco, logo temos de estar sempre à procura de coisas que possam correr mal; ninguém se importa quando as coisas correm bem. Para além disso, muitas vezes, quando as coisas vão para o torto, descobre-se que muita gente comprometeu a sua integridade profissional, ou seja, erraram quando tinham informação suficiente para não o fazer.

Há certos erros que devem ser tolerados; outros não.