domingo, 15 de julho de 2018

Geografia da alma

Depois de anos a mudar de sítio, de casa, já aprendi a não deixar que o sítio onde estou seja uma grande restrição. Só que esta última mudança tem um travo diferente. Há vezes, como ontem, em que penso que tenho de ir à livraria e na minha cabeça a livraria que aparece é a que fica a 10 horas de carro, não é a que fica a minutos. E depois penso que não estou ao pé de Rothkos, Magrittes, Twomblys, nem de instalações de James Turrell...

Esta semana um colega meu levou uma maçã verde para o gabinete e eu pensei em Le fils de l'homme e deu-me uma nostalgia enorme. No gabinete de Houston, tinha uma maçã verde de esponja (um brinquedo anti-stress) que encontrei no parque de estacionamento na mesma altura em que havia um programa de exposições sobre o Magritte no Menil. À noite, as nuvens eram claras e as árvores negras contrastavam contra o céu, como em L'Empire des lumières.

Nada é o que parece e talvez seja essa a minha realidade: o corpo está num sítio, a alma em outro, como se a minha vida fosse um quadro surrealista...

sábado, 14 de julho de 2018

Genifique-se!

Ultimamente tenho andado a considerar a genialidade de António Costa, o nosso ilustre PM, da qual não estou convencida. Como gosto muito de experiências, tenho andado bastante feliz porque vamos realmente saber se é génio ou não brevemente. Se as tarifas de Trump seguirem em frente, combinadas com política fiscal americana expansionista, e política monetária contraccionista da Reserva Federal e do BCE, iremos ter uma bela crise pela frente. Se Costa estiver no poder, irá ter de navegar por águas bastante conturbadas e será um espectáculo giro de se ver.

É fácil parecer ser génio quando tudo está a nosso favor, mas é quando as coisas estão contra nós que se mede a genialidade. Esperemos que ele coopere e queira mesmo demonstrar ser génio, indo com tanta sede ao pote perante a perspectiva de um segundo mandato como foi no primeiro.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Pena do gato

Tenho observado que muitas pessoas em Portugal ficaram escandalizadas com o dinheiro que o Barack Obama cobra por discursos. Há várias coisas que não percebo nesta reacção, como, por exemplo, porquê ficar chateado com o Obama quando o Obama foi convidado, avançou um preço, e esse preço foi aceite. Acho que se é para ficar chateado com alguém é com as pessoas que o convidaram e que não conseguiram verbalizar a importância da ida do homem de forma convincente.

Uma segunda coisa que as pessoas parecem não compreender é que não foi o cidadão Barack Obama que foi convidado; ele foi convidado porque é o ex-Presidente dos EUA e, nos EUA, o pessoal ganha melhor do que em Portugal. Ah, e coiso, mas é muito dinheiro. Efectivamente, é muito dinheiro até porque em Portugal ser pobre é uma virtude e os ricos são mauzitos.

Durante a campanha da Hillary Clinton para Presidente, um dos "escândalos" foi mesmo ela ganhar muito dinheiro a fazer palestras para o pessoal de Wall St. Ou, se calhar, vocês lêem o que eu escrevo aqui e, no post onde eu falei do dinheiro da Hillary, recordam-se de eu ter falado do Ben Bernanke, que também ganha um balúrdio a fazer palestras: $400 mil (e, no entanto, vai ao banco e recusam-lhe um empréstimo para refinanciar a casa). Ou seja, é normal.

O que não é normal é as pessoas em Portugal não serem muito curiosas acerca do que acontece ao dinheiro do Obama. O Barack Obama está a construir uma Biblioteca Presidencial, que será diferente do que têm sido as bibliotecas presidenciais até agora. A dele irá ser financiada pela Fundação Obama e está a ser construída na zona sul de Chicago, uma parte desfavorecida da cidade, com o intuito de a dinamizar.

Bem sei, tiveram pena do gato, não fosse a curiosidade matá-lo...

domingo, 8 de julho de 2018

Até Deus

Arthur Miller escreveu uma peça de teatro, "The Crucible", sobre os julgamentos por bruxaria que ocorreram em Salem, Massachussetts, em 1692 e 1693. O objectivo da obra era fazer um paralelo entre esse episódio trágico da história dos EUA (note-se que os julgamentos precedem a fundação do país) e a perseguição de comunistas levada a efeito pelo governo americano (finais da década de 40 e década de 50). Apesar da natureza cíclica da história, há sempre o mesmo desfecho: as coisas más pertencem ao passado e há quem acredite que não são passíveis de se repetirem.

Há uma frase na peça de Miller da qual eu gosto muito: "Until an hour before the Devil fell, God thought him beautiful in Heaven." (Uma hora antes do Diabo sucumbir, no Céu, Deus achava-o belo.) Não é só que as coisas corram mal de um momento para o outro, quando antes corriam tão bem que nada nos levava a crer que a mudança estivesse prestes a acontecer, é também que até Deus, com a sua capacidade de omnisciência, é incapaz de adivinhar a tragédia. E se ele não consegue, que esperança podemos ter nós, comuns mortais?

sábado, 7 de julho de 2018

Tennessee Whiskey

Saí à rua no feriado para ver se havia correio. Tinha ideia que também tinha ido à caixa do correio no dia anterior e não fazia sentido ir outra vez, mas de vez em quando, anda a carteira a entregar correio depois das 8 da noite, logo valia a pena ver. Ao lado da minha casa, no passeio, encontrei a minha vizinha, uma senhora já reformada que, em part-time, toma conta de uma pessoa de idade avançada que vive sozinha: passa com ela cerca de quatro horas por dia. Não parece que precise do emprego, mas diz que adora fazê-lo. Esta minha vizinha é uma senhora muito agradável, muito carinhosa, e está sempre a oferecer-se para me ajudar caso eu precise. Trata-me por "sweetheart" e conversa sempre comigo quando me vê, normalmente quando sai à rua para passear os seus dois cachorritos e eu saio à rua para fazer a minha caminhada diária.

Era isso mesmo que ela fazia, ao fim do dia, no 4 de Julho. Estava muito calor e, em Memphis, o nível de humidade aumenta com o pôr-do-sol porque durante o dia os raios de luz ajudam a controlar. Perguntou-me se eu estava bem porque já não me via há tempo, mas depois lembrou-se que lhe tinha dito que ia estar fora de férias e em trabalho. O meu jardim está bem cuidado, o que ela menciona amiúde, porque o dela frequentemente espera pelo filho ter vontade de aparar a relva. Já o meu está à vontade do meu vizinho da frente que, poucos dias depois de eu me mudar, se ofereceu para cuidar dele por $45 de cada vez, um preço que é ridiculamente baixo, mas que ele avançou reticentemente com medo de eu achar caro. Uma vez tentei dar-lhe $50 e, na vez seguinte, ele só aceitou $40.

Estes encontros com a minha vizinha também servem para pôr a bisbilhotice em dia, apesar de eu ainda não conhecer muitos dos vizinhos. Será que eu tinha ouvido o tiroteio recente, pergunta-me. É assim uma pergunta um bocado desconcertante, mas nesse dia, com o fogo de artifício e o consumo de cerveja, etc., por acaso tinha pensado que era um boa dia para andar aos tiros a alguém. Mas não era desse dia que ela falava, era de há umas semanas, de dois carros que tinham entrado na nossa rua numa perseguição que também envolvia tiroteio. Ao todo, ela dizia que tinham sido disparados 25 tiros, com cartuchos vazios em frente da casa dela e alguns tiros que atingiram uma casa do outro lado da rua da minha -- não a casa do meu vizinho jardineiro porque eu vivo num cruzamento.

Parece que, em frente da minha casa, os únicos vestígios foram as marcas das rodas de um dos carros na relva -- eu pensei na altura que tinha sido o camião do lixo. Já a casa do outro lado da rua não teve tanta sorte: várias balas atingiram a parede, passaram pelos tijolos e houve até uma que passou a menos de 15 cm de um bebé de seis meses. Por uns segundos fiquei um bocadinho atordoada. Olhava para a casa do vizinho e para a minha casa, que está pintada de amarelo claro e é bastante comprida, e calculava as probabilidade de não acertarem nela.

Nesse dia, onde estava eu? Ah, estava no quarto a dormir porque isto foi a meio da noite. Dois dias mais tarde, ainda a ruminar sobre o assunto, a coluna do LA-C, no Observador, ganhou um outro sabor: "Se os guarda-redes ficassem muitas vezes quietos no centro, então o avançado nunca chutaria para o centro, dado que isso seria uma defesa quase certa." Dormia eu na minha cama, quietinha, no centro de um tiroteio e, por sorte, os atiradores faziam como os jogadores de futebol e atiravam para o que estava ao lado da minha casa.

Em redor das paredes do meu quarto, no jardim, há árvores enormes, talvez com mais de 40 anos, de troncos grossos e que pensei darem jeito para protecção contra tiros aleatórios. E que mobília tinha eu contra a parede exterior, que está virada contra a rua, no meu quarto? Nada de substancial agora. Tive a brilhante ideia de retirar de lá o armário de roupa, mas se calhar devia voltar a decorar o quarto tendo em conta esta nova informação.

Quando terminei a conversa com a minha vizinha, conclui que até não era mau de todo. Ninguém tinha sido ferido e a polícia sabia, logo agora iriam haver mais patrulhas da polícia pela vizinhança: é a situação ideal. E, se isso não é suficiente para me descansar, há sempre Tennessee Whiskey...


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Momentos lâmpada

No primeiro dia que estive em Liverpool, fui passear pela cidade depois do trabalho. Queria encontrar um sítio giro para jantar, mas debatia-me entre ir a um sítio tradicional ou a algo mais moderno. Acabei por ir ao The Alchemist porque achei a decoração moderna e a meu gosto, só que o menu não tinha grande travo a comida tradicional inglesa. Bola para a frente, pensei. Comi um peixe e acompanhei com Pinot Grigio e depois uma sobremesa.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Nada de novo

Estou aqui a pensar no mercado accionista americano. Não encontro grande motivo nos fundamentais da economia para poder apreciar muito mais, mas depois penso nas bolhas. O que são bolhas? São situações em que aparecem compradores quando o mercado esta em níveis acima do que aconselhariam os fundamentais, logo estes compradores são pessoas que têm fé que subirá ainda mais. Se muitos acreditarem ao mesmo tempo, as coisas materializam-se.

Ultimamente, sinto um bocado de pânico quando ouço dizer que não conseguem ver o topo ou que as coisas estão óptimas, como se a expansão, que já vai longa, pudesse durar indefinidamente. Mas depois penso é sempre assim. O ciclo de negócio é isso mesmo, um ciclo, as coisas repetem-se, as pessoas cometem os mesmos erros, não há nada de novo...

terça-feira, 3 de julho de 2018

Proteccionismo

Quando vim estudar para os EUA pela primeira vez, em 1995, tive duas cadeiras onde estudávamos case studies da economia americana: Economics of Industries e Managerial Economics. Em ambas as cadeiras um dos case studies era o da indústria automóvel nos anos 80. As empresas americanas pressionaram o governo para implementar medidas proteccionistas que limitassem o efeito da importação de carros japoneses que, para além de serem mais eficientes em combustível, eram menos poluentes e tinham também melhor qualidade porque avariavam com menos frequência. Em 1981, os EUA negociaram a implementação de quotas que limitavam a importação de carros japoneses e que duraram até 1985.

A curto prazo, as empresas domésticas americanas beneficiaram, mas a longo prazo, os japoneses seguiram uma estratégia de maximização do valor dos carros exportados para os EUA, focando-se mais no sector de carros mais caros e de luxo, que são mais lucrativos; ou seja, foram atrás dos clientes mais afluentes enquanto que os clientes pobres só tinham acesso a marcas americanas. Para além disso, os japoneses abriram fábricas de montagem de automóveis nos EUA e assim subverteram a política das quotas.

Como devem calcular, os efeitos foram desastrosos, até porque as empresas americanas aproveitaram esta vantagem das quotas para não investir com tanto afinco em qualidade, nem eficiência de combustível, adiando assim o progresso tecnológico. Este case study foi ensinado como um alerta para os malefícios do proteccionismo e as pessoas da minha geração que estudaram gestão e economia nos EUA estão familiarizadas com o mesmo. Muitas destas pessoas estão hoje em dia a trabalhar em empresas, logo têm alguns conhecimentos para avaliar os efeitos das medidas proteccionistas desta administração.

Notem, também, que nunca a economia americana esteve tão interligada com a economia do resto do mundo como está hoje. Os americanos especializaram-se em actividades de valor acrescentado mais alto e fizeram o outsourcing do resto. Esta evolução não surgiu porque dava prejuízo ou porque era motivada pelas empresas estrangeiras, mas sim exactamente o oposto: era mais lucrativa e foi perseguida pelos próprios americanos. Tentar revertê-la com medidas proteccionistas terá necessariamente de ter um custo para a economia americana.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

The Angel Series

Francesca Woodman








Permanência

"Reflect what you are, in case you don't know"

Estava a ler um livro onde se cita este verso do Lou Reed. Acho muito limitativo saber o que se é. O que não somos é infinito, o que somos tem um caracter finito. Toda a minha vida se reduz a descobrir o que não sou e a fugir de um estado de permanência do ser.

domingo, 1 de julho de 2018

Viagem sem rumo

Estou no avião e nada poderá ser publicado imediatamente, mas a cabeça fervilha com ideias de coisas para vos contar. Corro o risco de, quando chegar a terra, me encontrar com a minha maior inimiga — a procrastinação — e adiar ad eternum o meu relato. Como a eternidade não mais chegará, nunca alguém lerá o que vos quero escrever. Trouxe o computador porque queria mesmo escrever mais, mas acabei por não escrever quase nada, a não ser algumas linhas no diário de papel. Acho que nunca vos disse que comprei um computador de propósito para ser mais flexível porque o iPhone e o iPad deixaram de funcionar com o Blogger. Só dá para usar pelo Safari, mas mesmo assim não funciona muito bem.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Indignação

Tenho visto muita pessoas no Facebook chocadas com a decisão da Administração Trump de separar os imigrantes ilegais das crianças que encontram com eles e que, na esmagadora maioria, são seus próprios filhos. Acho estranho que estejam indignados ou que julguem esta acção da Administração como prova final que os americanos são um povo moralmente degenerado. Note-se que Donald Trump já tem um longo historial de políticas ofensivas e de insultos, logo pouco ou nada nos devia surpreender.

Depois não percebo a conclusão que as pessoas tiram. Perante um governante que usa a lei de forma inovadora para fazer coisas que muitos consideram intoleráveis -- suponho que esta longa descrição é um eufemismo para tirano --, acho que os americanos, mais do que qualquer outro povo, já demonstraram mais do que uma vez estar à altura do desafio:
  • foram para a rua em manifestações a nível nacional mais do que uma vez;
  • processam o Presidente e as instituições que acham estar a violar a lei americana;
  • a acção dos Tribunais mitiga alguns dos impactos das políticas da Administração Trump;
  • a imprensa está a investigar as políticas seguidas e a divulgar as suas consequências e também investiga as acções da família Trump;
  • está a decorrer uma campanha em massa para mobilizar os eleitores para votar contra os Republicanos nas eleições de Novembro;
  • houve também uma enorme campanha para incentivar os cidadãos, especialmente as mulheres e as minorias a candidatar-se a cargos públicos;
  • os jovens americanos estão civicamente activos e lutam contra a política de porte de armas;
  • o Presidente está a ser alvo de investigações oficiais e pode correr o risco de impeachment -- em princípio os resultados serão divulgados em Setembro;
  • há pessoas que já foram presas preventivamente e outras que se deram como culpadas como resultado destas investigações;
  • e, finalmente, tudo isto foi conseguido em menos de ano e meio da Administração Trump.
Tudo isto é do conhecimento público e para mim é motivo de admiração -- um país enorme e heterogéneo como os EUA é capaz de inspirar os cidadãos a tentarem mudar o sistema. Olho para isto e penso: se os americanos conseguem isto, como é que os portugueses mais homogéneos e num país bem mais pequeno não conseguem sequer fazer pressão para Portugal melhorar? Porque é que o nível de abstenção eleitoral em Portugal aumenta cada vez mais e ninguém tenta combater esse fenómeno? O tempo que passam a pensar no Trump pensem em Portugal. Deixem os americanos cuidar do Trump e tentem precaver-se para os riscos que a experiência americana pode ter para Portugal. Depois não culpem os americanos -- acho que todos já temos noção de que a probabilidade de isto acabar mal não é negligenciável. Mas tudo isto porque vos queria recomendar algo. Relativamente ao caso específico da separação das famílias, sugiro que leiam ou ouçam esta peça da National Public Radio que tenta descortinar facto de ficção.

sábado, 16 de junho de 2018

Calor caloroso

Não fazia ideia que Portugal e Espanha se debatiam ontem, até os meus colegas me chamarem a atenção que "eu" estava a jogar. Levantei-me para ver o que se passava e aproximei-me da TV onde normalmente passa o canal da Bloomberg. Perguntava-me um colega se eu não era fã de futebol e eu disse que não, ao que ele me pergunta se eu não tinha vivido em Portugal. Olha, vivi, mas claramente sou uma portuguesa meio-desnaturada. Mas nesse exacto momento o Cristiano Ronaldo marca o segundo golo e o Cristiano Ronaldo eu conheço.

O que o meu colega estava a fazer era mesmo a chatear-me porque tinha lido a notícia que o Cristiano Ronaldo ia para a prisão, o que me repetia várias vezes e eu não compreendia o que ele dizia -- afinal é pena suspensa, ele tinha-se esquecido dessa parte. E ainda por cima, dizia-me, ia pagar $20 milhões de dólares. Ah, essa parte eu percebo: isso é troco para o CR7. Perguntei ao meu colega se ele tinha noção de quanto ganhava o CR. Lá foi ao nosso amigo Google e concluiu o mesmo que eu: é troco, mas também descobriu que o Floyd Mayweather, que é um boxer americano semi-reformado, ganha mais do que o CR7.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Pessoal, mas transmissível ,,, (2)



Regresso ao continente (expressão tipicamente açoriana…) dez dias depois de ter vivido uma experiência única. Fui obrigado a uma reflexão exigente para interpretar racionalmente esta comemoração de quarenta e poucos ex-alunos de um curso liceal terminado há cinquenta anos e para a qual fui convidado como seu professor, embora para a quase totalidade delas e deles não mais tivéssemos tido qualquer contacto. Se alguns desses alunos ainda vivem no Faial, outros vieram de ilhas vizinhas (Pico, S. Jorge, Terceira, Flores) e outros de bem mais longe - não falo de Lisboa, mas de Toronto, por exemplo! A simpatia, carinho, as manifestações de amizade para comigo, evocando o passado, foram tão sinceras que me tocaram profundamente.

domingo, 10 de junho de 2018

Tempos difíceis

Estou profundamente triste. Soube na Sexta-feira à noite, que o meu orientador de mestrado e doutoramento tinha falecido há uma semana. De vez em quando menciono-o aqui, mas devia escrever algo mais substancial porque era uma pessoa extraordinária e, se não tivesse sido ele, a minha vida teria sido muito diferente, mas agora não consigo ainda. A família não disse como morreu, mas, uma vez, quando a minha vida estava numa reviravolta e ele soube-o através de uma amiga em comum, enviou-me um longo email preocupado comigo. Dizia-me que eu não devia ter vergonha de pedir ajuda, se achasse que não aguentava a pressão. Ele também já tinha pedido quando atravessava tempos difíceis. Espero que este não tenha sido um tempo difícil para ele...

Foi uma semana de tempos difíceis para algumas pessoas, duas delas muito famosas. No fim-de-semana passado, perdemos a Kate Spade, que era um ícone da moda americana. A Kate Spade nasceu no Kansas, uma de seis crianças, estudou em Austin, Texas, mas a marca que criou é muito identificada com as grandes metrópoles como Nova Iorque, Paris e Londres: a rapariga que compra Kate Spade é jovem de espírito, viaja, gosta de cor, coisas bonitas, e sabe o que quer na vida. As carteiras da Kate Spade vêm acompanhadas de sacos protectores de pó, com uma frase inspiradora estampada: "She tucked her coral lipstick away and floated back to the party". A Kate Spade sofria de depressão e, depois de ter batalhado durante vários anos, decidiu não regressar à festa.

Passámos a semana a tentar digerir esta notícia, falando de suicídio, de como está a aumentar nos EUA -- em 17 anos, o número de suicídios aumentou 30% --, especialmente entre os mais jovens e, na Sexta-feira de manhã, soubemos que também tínhamos perdido o Anthony Bourdain. Muitas pessoas em Portugal não reconhecem o nome, mas ele fala, quer dizer falava, ainda não estou habituada à ideia, muito em Portugal e tem sido um grande campeão da cozinha portuguesa.

Era comum mencionar que tinha trabalhado para um português quando era chefe executivo do restaurante Les Halles, em Nova Iorque, e a sua sopa preferida era caldo verde. Ficava sempre emocionada quando o via dizer isso em entrevistas. O normal naquela altura era pensar em portugueses que viviam em Nova Iorque como sendo pessoas que tinham profissões de ranking mais baixo, mas aqui estava ele, um dos melhores chefes dos EUA, a falar de ter trabalhado para um português, José Meirelles, com orgulho. E também falava com orgulho dos tempos em que lavava pratos na cozinha de um restaurante.

Bourdain era, acima de tudo, um grande humanista, que usava os seus programas de televisão para reduzir as relações entre pessoas ao elemento mais básico da nossa evolução: partilhar uma refeição. Não é difícil imaginar que, desde há milhares de anos, essa é a forma com que celebramos a amizade e a boa-vontade que temos para com os outros. É tão elementar e, no entanto, esquecemo-lo tão facilmente.





sexta-feira, 8 de junho de 2018

O Homo Deus ao virar da esquina

Tenho andado a ver a excelente série The handmaid’ tale, baseada no livro com o mesmo nome de Margaret Atwood, publicado em 1985 e que ainda não li. A América é agora Gilead. Num futuro não muito distante, o mundo é atacado por uma epidemia de infertilidade. As mulheres são remetidas às tarefas do lar. As servas servem de "barrigas de aluguer" às elites estéreis. Todo este retrocesso civilizacional, toda esta desumanidade são feitos em nome de Deus. Talvez hoje esta história pareça  mais credível do que nos anos 80, quando os EUA eram vistos como um baluarte e um farol dos direitos humanos por contraponto à União Soviética, esse império do mal. Aliás, nos tempos que correm, a ficção distópica ganha um novo fôlego. Autores como Zamiatine, Aldous Huxley, George Orwell, Philip K. Dick, J. G. Ballard, Ray Bradbury, Kurt Vonnegut e Isaac Asimov estão na ribalta. Em todos eles, o futuro surge como um lugar mal frequentado e pouco recomendável. Assustador e arrepiante, por vezes. São traçados cenários apocalípticos.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Expliquem lá

Gostaria que alguém me explicasse de forma a que eu entendesse a necessidade de modificar o design do passaporte português. Não percebo porque é que o estado gasta recursos a estragar uma coisa que funcionava bem: fizeram alguma coisa mal e o novo passaporte não funciona bem com os leitores electrónicos; é mesmo português progredir regredindo. Ah e é feio para burro! Estou a pensar se, quando o meu perder a validade, quero gastar dinheiro numa coisa tão feia que mal uso...

terça-feira, 5 de junho de 2018

Uma velha crença

Foi George Orwell quem cunhou o termo “novilíngua” (newspeak) no seu arrepiante retrato de um estado totalitário em "1984". A novilíngua ocorre sempre que a função fundamental da linguagem – descrever a realidade – é substituída pela função rival que é a de exercer poder sobre a realidade. Mas o aprisionamento da linguagem pela esquerda é muito anterior a Orwell. Como relembra Roger Scruton no seu “Tolos, impostores e incendiários”, tudo começou com a revolução francesa e os seus slogans. A partir daí, nunca mais a esquerda dispensou os rótulos para estigmatizar os inimigos. A lista é extensa. Fascista, social fascista, revisionistas, negacionistas (este é mais recente), desviacionistas, esquerdistas infantis, socialistas utópicos, etc.. Um marco importante nesta história é o II congresso do partido trabalhista social-democrata russo de 1904. O grupo catalogado como mencheviques (minoria) era na realidade a maioria. A cristalização da mentira e o seu sucesso convenceram os comunistas de que podiam mudar a realidade com palavras. Se gritarmos muitas vezes “fim do capitalismo”, o capitalismo acaba. Se insistirmos muito na revolução do proletariado, o proletariado acabará por se erguer das brumas e defenestrar o inimigo, os "burgueses”. E por aí fora. No fundo, o politicamente correcto é mais uma expressão dessa crença no poder das palavras que sempre acompanhou a esquerda. 

Um dia assim...

Acordei cedo, antes das quatro da manhã, e não consegui voltar a dormir. Resignei-me a levantar-me às 5 da manhã porque acordo sempre esganada de fome. Antes de ir trabalhar fui ao Starbucks beber um café, mas numa caneca a sério para não criar lixo. Aproveitei e dei uma olhadela no barista giro que lá trabalha -- é doce e não tem calorias, parece-me bem!

Trabalhei das 8 às 18, mas consegui vir almoçar a casa; aliás tinha de ir a algum sítio porque não levei comida para o escritório. A manhã correu tão rapidamente com reuniões que cheguei às 13h30m, ainda sem almoçar, a perguntar-me para onde tinha ido o tempo.

Quando regressei do almoço e me sentei à secretária, vi que uma joaninha tinha entrado comigo. Tirei uma foto enquanto pensava como é que iria salvar o pobre bicho. Embrulhei-a numa toalha de papel, mas ela escapou e começou a passear nas costas da minha mão. Meti a outra mão em forma de concha sobre ela e ela escapou outra vez. Tentei com a outra mão e obtive o mesmo resultado. Caminhei rápido e consegui chegar à rua. Preparava-me para tirar uma foto, mas ela levantou voo e eu levantei a cabeça e acompanhei o seu voo a a sorrir. Achei incrível que não tivesse levantado voo enquanto eu a levava para a rua. Talvez confiasse que eu a levasse por bons caminhos.

Regressei ao edifício e a recepcionista, que conversava com o segurança, perguntou-me se tinha levado a joaninha para a rua. Sim, sim, levei, claro! Começou a falar de lagartos, dos quais tem medo, e eu puxei do telefone e mostrei a minha colecção de fotos de anoles do Texas. Tantas vezes que tive de andar à caça deles dentro de casa para os levar para a rua, senão morriam com certeza. Tornei-me uma profissional da segurança dos anoles, mas houve um que não consegui apanhar a não ser dias depois, quando já estava desidratado. Acho que morreu, coitado.

Quando regressei do trabalho, depois de jantar, fui passear e ouvir o Governo Sombra. Encontrei uma minhoca gorda no passeio -- tive de a salvar. Procurei um pauzinho e com ele levei-a para a relva. Era tão rechonchudinha que era uma pena que morresse. Encontrei bastantes cadáveres delas pelo caminho, já ressequidos, nem para comida de pássaro devem servir. Quando chove, como ontem, elas acabam muitas vezes no passeio. Fico sempre desgostosa quando as vejo já tarde demais.Perdi a conta de quantas minhocas salvei, mas uma vez salvei uma que era carnívora -- hammerhead worm --e predadora das minhocas boas (parece que estão a invadir a França) e levei um raspanete de uma amiga americana: "You're not supposed to save those!" Oops...

sábado, 2 de junho de 2018

Na Floresta

Recordo-me frequentemente de uma aula de Microeconomia avançada, durante o doutoramento, em que o nosso professor, um homem intelectualmente muito elegante e que gostava de análise comparativa estática, tendo até publicado um livro pequenino sobre o assunto, nos dizer uma coisa que parecia tão óbvia e, no entanto, acho tão profunda. Discutíamos o pressuposto de os agentes maximizarem o lucro e ele disse-nos que muitas vezes era impossível verificar os pressupostos directamente, mas que podíamos avaliar se estavam correctos estudando as implicações da teoria. Se as implicações do pressuposto da maximização do lucro estão ausentes da realidade, então não encontramos suporte para esse pressuposto. Isto é tão óbvio, mas tão óbvio, e, mais grave ainda, foi-me ensinado em Matemática no décimo ano, quando aprendi lógica: se A implica B, não-B implica não-A, que me sinto um bocado pateta por ter demorado tanto tempo para interiorizar o conceito e ligar os pontos, como dizia o Steve Jobs.

Conto-vos isto porque, no mês passado, a equipa do Jimmy Kimmel Live fez um pequeno inquérito de rua a perguntar às pessoas se podiam nomear o título de um livro e depois seleccionou os que não conseguiam e fez uma pequena montagem com o intuito de mostrar o quão ignorante os americanos são. O vídeo tornou-se viral e tomei conhecimento quando o vi partilhado por uma portuguesa no Facebook, que dizia que, "ao menos, nós [portugueses] lemos". Talvez eu tenha amigos estranhos, mas os meus amigos americanos quando partilham alguma coisa deste tipo é normalmente coisas que dão uma má impressão dos americanos: coisas que os americanos fazem mal ou coisas que os estrangeiros fazem bem e com a qual os americanos deviam aprender. Os americanos têm um sentido de auto-crítica muito apurado, basta ver o sucesso de Jimmy Kimmel, Stephen Colbert, etc.

Mas não, nós não lemos todos porque a taxa de literacia em Portugal, em 2015, era de 95,7%. No sítio onde eu cresci, todas as mulheres mais velhas do que a minha mãe eram analfabetas, mas mesmo mulheres da idade da minha mãe não sabiam ler. Uma das minhas amigas de infância, um ano mais nova do que eu, foi retirada da escola porque reprovou no sétimo ano e foi para aprendiz de cabeleireira. Não sei se ela lê, mas duvido que leia algo sofisticado. Ela até se interessava mais por maquilhagem e saltos altos desde sempre; mas ao menos sabia meter os sapatos corretamente nos pés e ajudava-me a meter os meus sapatos porque eu, aos 6 anos, ainda não sabia, nem sabia fazer os laços aos atacadores, nem sabia dizer a palavra frigorífico e ainda hoje confundo direita e esquerda. Com estas dificuldades todas, o melhor era mesmo emigrar para um país onde não se lê para ficar em boa companhia.

Há situações que se encontram nos EUA que são extremas, como aquele professor do secundário que confessou mal saber ler e escrever; ou as histórias de atletas das universidades americanas serem praticamente analfabetos. No entanto, devem ser contrastadas com o outro extremo: os EUA são um país onde se faz investigação de ponta e que consegue atrair as pessoas mais capazes de todo o mundo para estudar e trabalhar nas suas universidades. Algum do melhor jornalismo do mundo é feito nos EUA e os americanos compram livros suficientes para a Amazon ter tido o sucesso que tem, desde que começou com um Jeff Bezos a vender livros numa garagem.

De que vale a alguém saber ler se, ao ver um vídeo partilhado no Facebook, é incapaz de reconhecer que o vídeo foi montado de forma a dar uma ideia enviesada da situação? Não mostraram todas as entrevistas, apenas as que apoiavam a tese inicial -- é o chamado enviesamento de selecção que, por sua vez, alimenta o enviesamento de confirmação de quem vê este tipo de coisas sem sequer o questionar.

Por falar em questionar, quando eu andava no décimo-primeiro ano, na cadeira de Filosofia, de que eu não percebia nada, passámos algum tempo a estudar o Discurso do Método, de Descartes, no qual um dos conceitos fundamentais é o da dúvida, o de questionar o que vemos antes de formarmos uma opinião. Depois da barraca que foram as eleições americanas, do papel das redes sociais na propagação de notícias falsas, de sabermos recentemente das acções da Cambridge Analytica, parece que não aprendemos nada.

Há um estudo do Pew Research Center acerca dos hábitos de leitura dos americanos e os resultados indicam que um americano médio lê cerca de 12 livros por ano e que esta média se tem mantido estável desde 2012. Um outro estudo do National Endowment for the Arts, que começou a recolher dados há mais de 30 anos, mostra que os americanos estão menos interessados em literatura (ficção, peças de teatro, e poesia) do que antes. Note-se que não-ficção não é considerada literatura pelo NEA, logo não contariam espólios de cartas, diários, biografias, ensaios, etc. Adeus Anais Nïn, Joan Didion, diários de Miguel Torga, ensaios biográficos do Pedro Mexia... Não leio nada de jeito, está visto!

Se eu fosse interpelada numa rua e me pedissem um título de um livro, não sei se teria uma resposta inteligente. Não sou uma leitora voraz porque leio muito lentamente, aliás, sou lenta em quase tudo. Um dos meus colegas de trabalho disse-me esta semana que eu presto muita atenção a detalhes: concentro-me nas árvores e esqueço-me da floresta. Ah, podia tentar lembrar-me do título "Na Floresta"...

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Pessoal, mas transmissível


Hesitei uns momentos antes de começar a escrever este texto. Vai ser tão pessoal que ao partilhá-lo como que perco alguma coisa dele. Mas esse risco corri-o quando encetei “A Memória Flutuante”; seria, portanto, pouco lógico que guardasse só para mim o que vou narrar.

Eternidade...

Fiquei um bocado triste que se usasse a questão da eutanásia para ganho político. É verdade que todos têm direito à vida, mas não há vida sem morte e é uma falsa ideia achar que ser contra a eutanásia é ser a favor da vida. As pessoas não são eternas e vão morrer com certeza absoluta; o que não é sabido é quando irá ocorrer a morte e a que tipo de sofrimento estarão sujeitas.

Parece-me um bocado arbitrário ser contra a eutanásia ao mesmo tempo que não se questiona o direito do doente recusar tratamento, apressando assim a sua própria morte, uma prática que é perfeitamente legal. Uma outra coisa que não se vê em Portugal são os processos em tribunal por más práticas médicas que causem a morte, o que seria perfeitamente expectável se os portugueses valorizassem tanto o direito de os doentes terem uma vida o mais longo possível.

Mas por que razão me surpreendo eu com mais um circo? Não há uma tradição de debate sério em Portugal e, se os portugueses compreendessem o conceito "compare e contraste", o país estaria muito melhor do que o que está.

Vamos à música...






terça-feira, 29 de maio de 2018

domingo, 27 de maio de 2018

Lapsos de razão...

O episódio dos "lapsos" de António Costa no Parlamento recorda-nos o milagre das rosas, quando D. Dinis, o tal rei que mandou plantar o pinhal de Leiria, suspeitando que D. Isabel tinha pão para ir dar aos pobres, pergunta à rainha o que levava no regaço e ela responde-lhe "São rosas, meu senhor." Já no caso de António Costa, "São lapsos, meus senhores!" Com sorte e mais uns milagrezinhos, um dia destes, o nosso ilustre PM é elevado a santo.

Não se percebe bem por que levou quase dois anos para a comunicação social descobrir as tais "incompatibilidades" que milagrosamente se transformaram em "lapsos", percebe-se menos que toda a gente fique muito surpreendida por um governo formado com pessoal do governo de Sócrates cometer "lapsos", e ainda (!) -- relembrando o 1, 2, 3 do Carlos Cruz antes de ele cometer "lapsos" -- nos é menos compreensível que se trate este caso como se fosse apenas um de conjectura.

Será que, em dois anos, não houve tempo suficiente para o Ministro Siza Vieira cometer mais uns "lapsos" que realmente demonstrem que foi mal-intencionado no que fez, em vez de se andar por aí a falar como se não se pudesse descobrir se o homem é "vigarista ou burro", como dizia o RAP no Governo Sombra?

Deixem, deve ser um "lapso de razão" meu esperar que esta notícia e outras semelhantes venham com mais carninha no osso. Ah, mas os meus lapsos são apenas momentâneos...




quarta-feira, 23 de maio de 2018

Então expliquem lá...

Isto de o PM Costa decidir andar a comprar e a vender casa, enquanto em funções, é um bocado complicado. Não se percebe muito bem se quando ele comprou precisava de casa; mas, se precisava de casa durante uns meses apenas, não faz sentido comprar e assumir o risco de mais tarde ter de suportar o custo da casa sem ter necessidade dela. Por outro lado, o PM também não trabalha em construção civil e vive da recuperação de casas, logo temos de concluir que a decisão de compra e venda da casa num espaço tão curto de tempo foi mais oportunista do que outra coisa.

Só que há um aspecto bicudo nisto tudo: sendo Primeiro-Ministro, António Costa tem acesso a informação privilegiada acerca da economia antes do resto do pessoal, logo há questões de ética que devem ser exploradas. Se não sabem como abordá-las, sugiro uma revisão de toda a comunicação social acerca dos conflitos de interesse de Donald Trump na Presidência dos EUA.

Temos também de nos perguntar como é que António Costa formou a decisão de compra e venda. Sempre que nós compramos ou vendemos alguma coisa estamos a fornecer informação ao mercado. Que tipo de informação forneceu António Costa? Será que ao decidir vender naquela altura, ele tinha a convicção de que não conseguiria um preço melhor do que o que obteve? Nesse caso, está convencido que a economia não vai crescer o suficiente para acreditar que os preços irão continuar a aumentar.

Uma das explicações para uma compra e venda tão rápida é ele ter chegado à conclusão que afinal não precisava do apartamento. Isto é um bocado problemático porque em termos de finanças pessoais uma compra deste tipo é uma coisa bastante séria, que deve ser bem estudada e ponderada. Se o PM se engana assim com o dinheiro dele, imaginem o que não fará com o dinheiro dos outros. Pois, mas não perdeu dinheiro, dizem os defensores do PM Costa. E eu digo-vos: decidam-se, meus caros, porque ou ele se enganou e comprou quando não devia, logo foi precipitado, ou foi muito esperto e, nesse caso, comprou e vendeu de propósito para fazer dinheiro.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Indignação, viste-a?

Achei delicioso que o Primeiro Ministro de Portugal se dedique a especulação imobiliária, enquanto em funções. Não acho nada mal que se especule, mas convenhamos que parece mal a um governante fazê-lo. Quando Portugal entrar em recessão e o Bloco de Esquerda começar a dizer mal de especuladores, espero que trinquem a língua e tenham vergonha na cara porque, afinal, apoiam o governo de um fulano que especula.

É por estas e por outras que eu prefiro que o PSD governe -- quando fazem coisas parvas, caem-lhes todos em cima, como deveria ser sempre. Já com o PS, há carta branca, e a indignação aparece aos poucochinhos e só daqui a 10 anos é que a coisa parece mesmo mal. Será que depois de terem levado tanto tempo a abandonar Sócrates, os socialistas não teriam aprendido a lição e ficado mais alerta? Parece que não. Siga para bingo...

Resposta da adivinha

Olhem, há uma coisa chamada Google! Como é que um país de pessoal que descobriu meio planeta não tem curiosidade de procurar a resposta à minha adivinha? Isto de vos educar acerca da América dá muito trabalho e não parece ser muito recompensador. Mas, prossigamos, porque eu ando na minha fase masoquista e quem corre por gosto não cansa... (E também me sinto responsável por vos preparar para serem bons imigrantes nos EUA, caso precisem de emigrar!)

Era uma referência a uma canção de Prince, que era de Minneapolis, do filme "Under the Cherry Moon". É assim:
"Why can't I fly away in a special sky
If I don't find my destiny soon
I'll die in your arms, under the cherry moon
I want to live life to the ultimate high
Maybe I'll die young like heroes die
Maybe I'll kiss you in some wild, special way
If nobody kills me or thrills me soon
I'll die in your arms under the cherry moon."

A escultura da cereja na colher está no Jardim de Escultura de Minneapolis e é um dos ícones da cidade.


Ainda Wayzata, MN

Claro que há mais fotos. Acham mesmo que eu não tiraria fotos dos voluntários a trabalhar no jardim? Notem que, como vos disse no outro post, a cidade foi recentemente modernizada, com edifícios antigos a serem reabilitados, abertura de comércio mais caro, e mais restaurantes locais. Se se recordam da faxada do Starbucks, que partilhei convosco no post anterior, é aparente pelo seu aspecto único, i.e., diferente de outros Starbucks, que a cidade tem regras apertadas quando à aparência exterior do comércio.

domingo, 20 de maio de 2018

Foi mesmo o Lago Minnetonka

Passei esta última semana em Wayzata, no Minnesota, e foi a primeira vez que visitei este estado. Como é que se pronuncia Wayzata? É juntar as palavras "why" e "zeta" com sotaque americano e chegam lá; é uma palavra que é derivada do dialecto Lakota Sioux e que significa "costa norte" porque fica na margem do Lago Minnetonka. Lembram-se no filme Purple Rain, quando The Kid diz a Apollonia que tem de se purificar no Lago Minnetonka e ela despe-se e salta no lago onde estão, e ele diz-lhe qualquer coisa parecida com "Hey, wait a minute... that ain't Lake Minnetonka!"



Então, passei a semana a passear na margem do Lago Minnetonka depois de sair do trabalho. À noite, quando o tempo o permite, a cidade, que tinha menos de 3700 habitantes no censo de 2010, fica muito animada e o pessoal sai todo para a rua para ir comer fora e desfrutar algum tempo nas esplanadas. Lembrou-me bastante do estilo de vida de Portugal e, tive bastante sorte porque o tempo esteve tão bom, que todos os colegas me diziam que eu tinha escolhido a semana ideal. Se tivesse ido há duas semanas, haveria frio.

(Nota: este post tem muitas fotos)

Adivinha

Uma das qualificações para se ser bem integrado nos EUA é conseguir acompanhar as referências culturais tão caras aos americanos. Conseguem adivinhar esta?


"I'll die in your arms, under the cherry spoon..."

sábado, 19 de maio de 2018

Pois era...

Andam por aí umas confusões em Portugal por causa de desporto, futebol, claro, porque não existe mais nenhum desporto em Portugal. É um bocado pateta tudo isto porque dá a ideia que, no século XXI, Portugal ainda não tem mecanismos para lidar com estas coisas. Por isso, o PM Costa, aquele génio do costume, acha que se deve criar mais um organismo público, que irá fazer exactamente o quê, não percebi. Policiar os jogadores para que não sejam mais vítimas de violência? Educar os cidadãos para não serem brutos?

Ao menos, perante situações difíceis, o Pedro Passos Coelho oferecia soluções mais eficazes: emigrem.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Sustentabilidade Ambiental com Emprego


O novo relatório da Organização Internacional do Trabalho, “Perspetivas Sociais e Laborais do Mundo 2018: Sustentabilidade Ambiental com Emprego” apresenta dados encorajadores quanto ao impacto que uma potencial transição para sustentabilidade ambiental possa ter nos níveis e na qualidade de emprego a nível global.



Embora o abrandar do aquecimento global implique a destruição de postos de trabalho em alguns sectores da economia no curto prazo, no total o relatório estima que a transição para uma economia mais sustentável leve a um aumento líquido de 24 milhões de postos de trabalho a nível global até 2030.

O relatório aponta também para a urgência do cumprimento dos objectivos definidos no Acordo de Paris de 2015 - o aumento contínua das temperaturas globais levará a que as horas de trabalho a nível global diminuam em 2% até 2030 devido ao stress calórico (i.e, devido ao nível das temperaturas ser demasiado elevado para que trabalhadores em sectores como a agricultura possam trabalhar em segurança durante parte do dia).

O estudo concentra-se em três cenários de transição para uma economia (mais) sustentável: i) uma maior aposta economia circular (baseada na reciclagem e re-utilização de materiais); ii) um maior investimento em energias renováveis; e iii) a transição para práticas agrícolas mais sustentáveis.

No que toca a garantir que esta transição seja socialmente justa e que leve a uma melhoria na quantidade e qualidade do emprego, existem várias dimensões da ação política que podem ter um papel determinante. Exemplos de medidas nas áreas de Segurança Social, Diálogo Social, Desenvolvimento de Qualificações ou Legislação Laboral e Ambiental apresentados no relatório demonstram potenciais instrumentos e medidas que possam garantir que esta indispensável transição para a economia verde decorra de mão em mão com uma crescente justiça social para todos.

Para mais informações, podem seguir o link: https://www.ilo.org/weso-greening/



Floricultura 42

O meu nome não é Alice, mas não é só ela que corre atrás de um coelho branco, eu também tenho corrido.

domingo, 13 de maio de 2018

Chá no Cemitério

Apesar de ainda não ter partilhado convosco as fotos, uma das coisas mais giras que fiz em Houston foi visitar o Cemitério Glenwood. Quando ouvi na WKNO, o serviço de rádio público local de Memphis, de que iria haver uma actividade no Cemitério Elmwood fiquei curiosa porque não conhecia os cemitérios de Memphis, nem sequer sabia da existência de Elmwood.

sábado, 12 de maio de 2018

Bem bom!

Noticia o Dinheiro Vivo que Portugal está de parabéns: está tudo joia porque nunca houve tanta gente a levar 3 mil euros líquidos ou mais para casa! São 37,5 mil pessoas numa população de 10 milhões. Wow...

Uma amiga minha brasileira dizia-me no outro dia que achava que ganhava muito bem no Brasil com um salário anual equivalente a 47 mil dólares, mas depois veio visitar os EUA e achou que ganhava era mal. Aqui, levava para casa mais de 120 mil, mais bónus que podia ir até 50% do salário, mais contribuições para a conta poupança-reforma, e pagava muito menos impostos. Quando a vir, vou dizer-lhe que bom, bom, era ir para Portugal!

Por falar em bom, a Comissão Europeia prevê um crescimento para Portugal de 2,3% para 2018 -- é espectacular, não acham? Imaginem que é pouco mais do que o crescimento médio da economia desde 2000, logo estamos mesmo no bom caminho.

Não percebem?!? Eu explico: o que é uma média? Intuitivamente, é o ponto em que os pontos acima da média compensam exactamente os pontos abaixo. Se no pico do ciclo económico nós crescemos um pouquinho acima da média, então quando chegar a próxima recessão, não podemos crescer abaixo de para aí 2%, porque, senão, estragamos a média!

E agora apetece-me ouvir as Doce, a minha banda portuguesa preferida de quando eu tinha 10 anos. Bem Bom -- isso mesmo!


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Teoria dos circos

Estou completamente surpreendida pelo tamanho da discussão que vai em Portugal acerca do último artigo de opinião da Fernanda Câncio, mas já percebi o mal de que padeço: é que eu esqueço-me que ela foi a namorada de José Sócrates. Como é que posso ser tão esquecida? É simples: morreu a minha mãe por aquela altura e eu tinha outras coisas em que pensar e a vida sexual do PM português não me parecia pertinente. Ou seja, só há para aí três anos é que soube, mas não fiz grande esforço em dar grande importância a tal facto. Convenhamos que pensar em Sócrates e amor ao mesmo tempo não faz muito sentido porque ele não tem amor a ninguém. A Fernanda foi mais uma das pessoas que ele usou para chegar onde quis, mas isso na minha cabeça até é sinal de respeito por ela porque de todos os jornalistas em Portugal, Sócrates sentiu necessidade de se envolver com Fernanda Câncio. I rest my case...

Outra coisa que não entendo é o atraso de grande parte da população em enfrentar os factos acerca de Sócrates e do partido que permitiu que existisse um Sócrates. O resto do pessoal ele não levou para a cama, logo que desculpa resta? Vejamos o caso de Donald Trump: ainda nem há dois anos que está em funções nos EUA e, para além das manifestações populares, já há vítimas políticas no Partido Republicano. Por exemplo, Paul Ryan, o porta-voz da Câmara de Representantes já anunciou que não iria voltar a candidatar-se. Em Portugal, não sei de ninguém importante que tenha visto a sua carreira política comprometida por causa de José Sócrates, a não ser o próprio e só ao fim deste tempo todo.

Tomemos António Costa, o actual Primeiro Ministro, que ocupou um cargo importante no partido e no Governo durante o tempo de Sócrates. Sofreu alguma coisa por ter havido um Sócrates e ele estar ao lado? O que eu vejo é toda a gente gabar a inteligência política de António Costa apesar de ele também não ter visto nada, nem feito nada, para impedir Sócrates, e note-se que não viu nada numa capacidade profissional, que é muito diferente de não ver nada porque se envolveu amorosamente com a pessoa. Claramente um sinal de inteligência -- olhem, querem saber? O Pedro Passos Coelho é que tinha razão: o melhor é mesmo emigrar porque ser inteligente aí não é propriamente um bom sinal.

Mas este exemplo é muito mais rico do que pensam porque António Costa é meio-irmão de Ricardo Costa, que ocupa um lugar importante na comunicação social portuguesa, ou seja, também ele tem alguém cujo julgamento profissional compete com o papel que ocupa na esfera privada. Será que, daqui a 10 anos, quando o país encontrar algo de errado com a governação de António Costa -- repare-se que haverá algo porque há sempre --, também se irá fazer um circo em redor de Ricardo Costa, como agora se faz em torno de Fernanda Câncio?

terça-feira, 8 de maio de 2018

Gumption

gumption
[guhmp-shuh n]

noun, Informal.
1. initiative; aggressiveness; resourcefulness:
With his gumption he'll make a success of himself.
2. courage; spunk; guts:
It takes gumption to quit a high-paying job.
3. common sense; shrewdness.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Cúmplices ou alheados

Os portugueses conseguem falar muito eloquentemente de um governo que entrou no poder há mais de 10 anos e no qual estavam pessoas corruptas, como se mostrarem-se indignados agora adiantasse alguma coisa. E o presente? Gostaria de ver uma avaliação da situação actual mediante o que agora é mais claro e límpido do que a água do Luso: como é que há políticos que andam por aí como se não soubessem de nada na altura e ainda continuam em posições de relevo?

Se este pessoal sabia e não disse nada, foi cúmplice; se teve oportunidade, mas não viu nada, é completamente alheado. Querem-me dizer que um país na situação de Portugal fica bem governado com uma elite política composta de pessoas que, ou são cúmplices de corruptos, ou vivem na lua? E já agora, como é que se pode discutir estes casos de corrupção que se passaram há tanto tempo, sem que as pessoas se perguntem "o que é que se passa agora que iremos descobrir daqui a 10 anos?" Não seria de exigir que a comunicação social fosse um bocadinho mais célere nestas coisas?

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Mais verde...

No Sábado, fui à Dixon Gallery and Gardens, em Memphis. Apesar de já lá ter ido várias vezes, nunca tido passeado a sério pelo jardim, o mais que tinha feito tinha sido visitar a estufa em Janeiro passado, altura em que estava aberta uma exposição de amarílis -- um dia destes mostro-vos essas fotos. Uma das vezes em que tinha tentado visitar, era Maio, e uma amiga minha tinha-me vindo visitar em Memphis, mas chovia a potes e limitamo-nos a visitar o museu e deixámos o jardim para outra altura, que nunca chegou a materializar-se.

Enquanto passeava pelo jardim, não pude deixar de recordar a última vez que visitei o Jardim da Sereia, em Coimbra, depois da vegetação ter sido cortada porque apresentava riscos para a segurança dos transeuntes. Fiquei tão traumatizada, que nunca mais lá fui e até tenho medo de passar naquela área -- não por ter medo de ser atacada, mas por ter ficado horrorizada com a conservação do espaço, perdão, com a destruição... Note-se que este jardim, o Dixon, é completamente vedado e fora das horas de visita é protegido por guardas e completamente vedado, ao contrário do Jardim da Sereia que tem acesso livre.

Por coincidência, no Sábado à noite, passou na PBS um programa sobre a construção do Central Park, em Nova Iorque, que foi desenhado por Frederick Law Olmsted. Na altura, o projecto foi um pouco polémico, até porque foi o primeiro jardim daquele tipo nos EUA. Pode parecer macabro, mas antes de haver jardins públicos neste país, era comum as pessoas irem passear para os cemitérios aos fins de semana. Aliás, os cemitérios antigos são bastante arborizados e espaços muito agradáveis.

Antes de sair de Houston, tive oportunidade de participar numa visita guiada do cemitério Glenwood que é qualquer coisa do outro mundo. Foi a primeira vez que pensei que gostaria de morrer nos EUA, se pudesse ser enterrada ali (uma campa custa à volta de $10.000.) Imaginem que até encontrei uma antiga campa de família, cujo apelido era Pereira. Sim, sim, tirei fotos, mas ainda não tive oportunidade de partilhar convosco. Há visitas guiadas a Glenwood quatro vezes por ano e espero voltar a Houston de forma a poder completar a série.

Ah! Mas dizia eu que pensei em Central Park quando estava nos Jardins do Dixon. A razão é simples: o Dixon também tem uma zona aberta de relvado, que fica nas traseiras da Galeria (esta é uma antiga residência) e essa zona ampla foi uma inovação de Central Park. Apesar de parecer que, em partes, a vegetação é natural, todo o espaço é planeado e nota-se que há zonas que estão em construção, à espera de ser plantadas com os seus novos habitantes. Deixo-vos algumas fotos das partes que não estavam em construção. Fica para outra altura as esculturas e o trabalho em curso.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Verde sobre azul...

Domingo, de manhã:
Depois de uma semana miserável de chuva intensa e um céu cinzento, eis que este fim-de-semana, o sol deu um ar da sua graça e podemos apreciar o verde das folhas recém-aparecidas nas árvores. Hoje vou à caça de mais verde, mas estas árvores são as das traseiras da minha casa, quando se olha para o céu, à saída do quarto principal (como é que se diz master bedroom em português?)


sábado, 28 de abril de 2018

Desconforto

Ando um bocado chateada com a imobiliária da qual arrendo a casa. Pedi para que me limpassem o jardim antes de eu me mudar e não o fizeram, pedi outra vez depois de me mudar e nada. As folhas do outono já estão a apodrecer e aquilo parece-me uma grande confusão. Na cozinha, as tomadas não funcionavam. Mandaram um rapaz da manutenção muito simpático que não conseguiu arranjar e disse que tinham de chamar um electricista-mestre. Veio o mestre, arranjou a cozinha e agora não funciona a tomada da máquina de lavar roupa, que funcionava perfeitamente antes.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Um vaidoce não dava tanta comichão

Sinto-me dividida. Por um lado, gostaria de ver Portugal a ser melhor mais bem gerido e a crescer, por outro lado penso que, se calhar, por ser assim, lá se vai aguentando há mais de 900 anos. De uma forma ou outra, arranja-se maneira de continuar na mesma como a lesma: pessoas incompetentes no governo.

Isto a propósito de todo o circo em redor de José Sócrates-- ele é sociopata, não é? Já penso isso dele há muito tempo, antes de ele admitir ser vaidoso e só ser essa a razão que se dedicou à política. Será que isso é apenas a opinião dele? Deus nos livre de haver alguém que ache que quer fazer algo pelo país, uma pessoa de boa índole, que goste de Portugal e dos portugueses: um "vaidoce", em vez de um vaidoso.

Depois pensei que ao menos com o PSD o Miguel Relvas não vai voltar a ser ministro, mas reconsiderei. Se há sítio onde um fulano como o Relvas ia a ministro outra vez seria em Portugal. Ele ainda anda por aí, como se fosse uma pessoa respeitável, com quem os outros têm orgulho de se associar.

Bem, mas quando a esmola é muita, o santo desconfia e eu ando para aqui desconfiada de toda esta imprensa em torno de Sócrates quase sete anos depois de ele sair do Governo. Porquê agora? É altura da comichão dos sete anos (seven year itch) ou é ele a ser vaidoso porque má imprensa é sempre melhor do que nenhuma imprensa...


quarta-feira, 18 de abril de 2018

Frases famosas 84

Ricardo Coração de Leão voltou das cruzadas para um reino arruinado pela sua teimosia em pelear nelas.

domingo, 15 de abril de 2018

Notícias

Acabei de levar um raspanete da minha vizinha em Houston por não ter escrito durante mais de uma semana. Quer dizer, eu comecei a escrever na Sexta-feira passada, mas não cheguei a terminar e, consequentemente, a enviar o email. Ontem decidi mesmo deixar de procrastinar e fui comprar um computador novo para poder escrever mais facilmente, mas ainda tenho de ligar a Internet lá em casa.

Quando eu era miúda achava que era tão glamoroso mudar de casa porque nos filmes americanos era tão comum haver sempre alguém que tinha acabado de mudar. Mas agora, depois de ter mudado de casa mais de 10 vezes desde que vim para os EUA, as mudanças já não parecem tão interessantes. Não há como evitar o nojo que sinto ao ver quantas coisas acumulei e, no fim, reverto sempre ao mesmo pensamento: tens isto porquê?

Não consegui re-encaminhar o correio da morada antiga, a primeira vez que tal me aconteceu. Desta vez, os correios enviaram uma carta para a morada nova com um código para meter online, só que eu não tinha feito a inscrição na página dos correios quando mandei parar o correio e, quando fiz a inscrição para meter o código, usei a morada nova e disseram-me que o código não era compatível com a minha informação. O progresso é uma coisa fantástica, tão fantástica que agora funciona pior do que antes. Vou ter de resolver esta confusão pelo telefone e não me apetece nada falar com ninguém ao telefone.

Ainda não liguei o meu plano de poupança reforma no emprego novo porque também envolve um telefonema, nem mudei a morada nos bancos, nem nos seguros, nem escolhi médico, nem dentista, não registei o carro, não me registei para votar... Ainda estou na fase em que me apetece hibernar durante uns meses e só entrar na civilização quando me apetecer, mas o mundo não quer esperar por mim.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Podíamos partilhar um giro

Ainda não liguei a Internet na casa nova, nem desliguei na casa de Houston, logo escrevo-vos do Starbucks. Bem sei que é um desperdício de dinheiro, mas ter de telefonar à AT&T e ter de aturar aquele pessoal também não me traz grande ganho, nem me poupa dinheiro. Este acesso condicionado leva-me a escrever posts na minha cabeça que nunca publico. E são bastante giros, mas somem-se no éter...

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O primeiro (e provavelmente último) Quizz da Destreza!!!

É com muito prazer e preguiça que mais uma vez demonstro o porquê de ser o membro mais novo (e menos activo) deste blog, desta vez com uma iniciativa plena de originalidade, informação e, acima de tudoo resto, estupidez!

Senhores e senhoras, meninos e meninas, comunas e fascistas, o primeiro (e talvez último):

QUIZZ DA DESTREZA

O jogo é simples e funciona da seguinte forma: Vão ser apresentadas quatro citações, para as quais o leitor tem que escolher uma de duas opções relativas à sua autoria. Se acertar todas (ou se pelo menos tiver pachorra para chegar ao fim deste post - hey, fazer scroll down não vale!), terá acesso a uma conclusão sobre o futuro governativo do nosso estimado país à beira mar plantado de fazer inveja ao professor Karamba e capaz de rivalizar em grau de fiabilidade com as projecções dos resultados das eleições americanas de 2016 ou o mais recent post no facebook da Maya! Aqui vamos:


Declaração Número Um:


"Por razões profissionais, por compromissos que assumi, não tenho disponibilidade para o que essas funções exigem."

Opção A): Durão Barroso, aquando do convite para se tornar o presidente da Comissão Europeia em 2014.
Opção B): Fernando Alexandre, em entrevista ao Observador em 2018, sobre a possibilidade de fazer parte do grupo de “porta-vozes” ou “coordenadores” temáticos de Rui Rio.


Declaração Número Dois:


"E em Portugal valoriza-se pouco o conhecimento. Valoriza-se os títulos, sejam reais ou inventados."

Opção A): José Socrates, em 2007, quando questionado sobre a validade da sua licenciatura.

Opção B): Resposta de um professor associado da Universidade do Minho a um entrevistador do Observador em 2018.


Declaração Número Três


"Acho errado que se diga que não há aumentos dos salários dos funcionários públicos. É preciso explicar isso."

Opção A): Pedro Passos Coelho, em 2013, quando questionado sobre a continuidade das medidas de austeridade.


Opção B): Um dos co-autores da Destreza, ao ser entrevistado pelo Observador este ano.



Declaração Número Quatro


"Na Função Pública (...) os funcionários têm de ter aumentos se a economia crescer"

Opção A): António Costa, aquando do anúncio do aumento dos salários da função pública no início de 2018 no seguimento da trajectória positiva da economia portuguesa.

Opção B): O meu professor de macro do segundo ano da licenciatura, numa entrevista ao Observador no outro dia, que só tive tempo para ler hoje.



Se escolheu a opção A) em todas as declarações, lamento informa-lo que sofre de uma patologia grave de nome técnico "viver no mundo da lua". Se respondeu B) a todas elas, no entanto, deve neste momento finalmente perceber porque é que a atitude financeira mais sensata a tomar neste momento é apostar todas as suas poupanças em como o Fernando Alexandre nunca mais na vida põe os pés no governo. You heard it here first folks. De nada!

50 anos

Escrevo-vos de Memphis, TN, e penso que tive muita sorte em poder estar aqui e sentir toda esta energia que paira sobre a cidade. Celebra-se hoje, 4 de Abril de 2018, os 50 anos do assassinato do Reverendo Martin Luther King, Jr., alvejado na varanda do Motel Lorraine, em Memphis, TN. Na comunicação social, o aniversário desta tragédia domina as notícias e os discursos que marcam a data exultam o povo para que seja mais participativo e, especialmente, que vote nas eleições deste ano.

Depois da mobilização dos jovens, com o tiroteio na escola da Florida, os adultos incentivam a juventude a fazer-se ouvir -- os adultos falharam, está na altura deles, os mais jovens, nos mostrarem o caminho, e os pais levam os filhos a marchas e manifestações para que aprendam que a sua voz é o mecanismo que constrói a sociedade. As palavras de MLK no seu último discurso, proferido a 3 de Abril de 1968, e que é conhecido por "I've been to the mountaintop", recebe hoje uma atenção redobrada:


Podem ler o discurso na sua íntegra na Internet; é considerado um discurso profético, no qual o Reverendo King falou da sua mortalidade:


"Well, I don't know what will happen now. We've got some difficult days ahead. But it really doesn't matter with me now, because I've been to the mountaintop.

And I don't mind.

Like anybody, I would like to live a long life. Longevity has its place. But I'm not concerned about that now. I just want to do God's will. And He's allowed me to go up to the mountain. And I've looked over. And I've seen the Promised Land. I may not get there with you. But I want you to know tonight, that we, as a people, will get to the promised land!

And so I'm happy, tonight.

I'm not worried about anything.

I'm not fearing any man!

Mine eyes have seen the glory of the coming of the Lord!!!"



Mas deixo-vos com a minha parte preferida do discurso:

"Let us rise up tonight with a greater readiness. Let us stand with a greater determination. And let us move on in these powerful days, these days of challenge to make America what it ought to be. We have an opportunity to make America a better nation. And I want to thank God, once more, for allowing me to be here with you."



sexta-feira, 30 de março de 2018

Quem continua a desdenhar...

O longo processo de venda dos terrenos da antiga feira popular, em Entrecampos, intriga-me. É defeito profissional. E fico mais intrigado a cada notícia que leio nos jornais. 

Em 2015, saiu um artigo que dizia que os potenciais participantes no leilão organizado pela Câmara Municipal de Lisboa ameaçavam – publicamente - não participar por causa do “excessivo” preço mínimo exigido. Nessa altura, escrevi aqui que isso me soava a (clássica) estratégia de condicionar o vendedor. Se todos os potenciais compradores anunciarem que não participam num processo de venda a menos que o vendedor mude as condições, o poder do vendedor fica aparentemente reduzido: ou aceita o que os compradores querem, ou arrisca-se a não ter participação no leilão. Claro que o vendedor podia – e devia – ter seguido em frente com o processo de venda, esperando que pelo menos um dos compradores mandasse às urtigas o que disse e viesse na mesma ao leilão. Isso – mandar às urtigas o que disse anteriormente – não é, pelo menos em teoria, implausível: se todos os compradores disserem que se abstêm de participar, um deles poderá ter o incentivo de, à socapa, vir à mesma ao leilão e comprar os terrenos a preço da chuva. A questão é que Portugal é um país pequeno, onde existe um número muito reduzido de empresas que participam sucessivamente neste tipo de compras, e de vendas, ao Estado. Também por causa disso, nenhuma dessas empresas deverá terá grande interesse em dar parte de fraca num processo de venda, deitando a perder o poder negociar conjunto que, de outro modo, poderá continuar a beneficiar com as outras empresas do setor. 

Existem no entanto várias formas de o vendedor aumentar o número de potenciais compradores, reduzindo assim o poder negociar dos suspeitos dos costume. Uma questão maior é que o terreno é enorme, e está numa zona central da cidade. É provável que apenas empresas de grande dimensão estejam interessadas em comprar este terreno. Uma compra deste tipo custa muito dinheiro, e exige meios de financiamento próprios, ou acesso privilegiado aos mercados financeiros. Além disso, a posterior construção nos terrenos e a venda parcelar, em apartamentos ou escritórios, exige escala, quer na construção, quer no retalho. Claro que vários potenciais compradores pequenos podem tentar coordenar-se e vir juntos ao leilão, cada um ficando depois com uma parte do todo. Mas esse tipo de acordos é de difícil concretização. Desde a definição de quem paga o quê, até ao acordo do tipo de construção que cada um deles poderá fazer, o mais provável é que nunca saia das intenções. Perante isto, o vendedor pode optar por vender parcelarmente os terrenos. Em vez de vender o bloco como objeto único, divide-o em vários lotes e disponibiliza-los simultanemanete no leilão. Assim, na eventualidade de existirem vários compradores pequenos interessados em lotes individuais, estes não sofrerão do problema de terem de coordenar a sua participação conjunta. Convencendo-os a participar, aumentava-se a concorrência no leilão e diminua-se o poder negociar dos grandes compradores em impor as condições da venda. Aparentemente, mais de dois anos depois, parece ser precisamente intenção da câmara dividir o terreno em lotes

O curioso da notícia, no entanto, é, tal como em 2015, aparentar ter sido escrita sob o ponto de vista dos tais suspeitos dos costume. Novamente, é dito que grandes compradores estão pouco interessados em vir ao leilão, nas condições sugeridas pela Câmara. Ora isso não faz nenhum sentido. É perfeitamente natural que as grandes empresas só queiram vir ao leilão se conseguirem comprar o terreno na sua totalidade, não querendo arriscar sair de lá com alguns, mas não todos, os lotes disponíveis. Por exemplo, poderão querer construir um edifício que ocuparia três dos lotes, pelo que ganhar um ou dois lotes não lhe serviria de nada. Mas, num leilão bem desenhado – e isso é crucial aqui -, nada os impedirá de licitar pela totalidade ou pelo número de lotes que quiserem, sem risco de ganhar menos do que isso. Isso faz-se permitindo licitações em pacote. Uma licitação em pacote é uma licitação combinada, ou conjunta, por um determinado número de lotes. Se sair vencedora, quem a fez ganha todos os lotes incluídos no pacote. Se não for vencedora (porque a soma das licitações feitas sobre cada lote individual é superior), o licitante não ganha nada. Não há – novamente, num leilão bem desenhado – qualquer risco de um licitante ganhar apenas um número de lotes para os quais não tem valor. E, assim sendo, não há nenhuma razão para os grandes compradores não virem ao leilão. 

Novamente, parece apenas conversa de quem quer tentar convencer a Câmara a mudar as condições do leilão para benefício próprio. É apenas pena que os jornalistas não consigam ver para além disso. Mas já seria uma tragédia se a Câmara também não conseguisse.

domingo, 25 de março de 2018

O acto de matar

The Act of Killing (2012) de Joshua Oppenheimer e de um anónimo é o documentário mais perturbante que vi até hoje. Oppenheimer filma encenações dos próprios carrascos das execuções que fizeram 50 anos antes na Indonésia. Em 1965-1966, o general Shuarto, apoiado pelos EUA, comandou um golpe para derrubar os comunistas. Fala-se no massacre de 1 milhão de comunistas, muitos de origem chinesa. Os carrascos são hoje heróis nacionais e muitos estão no poder. Mataram com as próprias mãos centenas e centenas de comunistas. Não se vê qualquer arrependimento do que fizeram. Estavam a salvar o país e hoje fariam tudo na mesma. O regime continua, aliás, a louvá-los e a homenageá-los sem cessar. Muitos não escondem inclusive o prazer que as matanças lhes davam. Brincam com o sofrimento das vítimas. A personagem principal, Anwar Congo, um gangster (significa homem livre, dizem eles amiúde) muito temido nessa época, no fim diz sentir-se um bocado mal. As encenações das execuções trouxeram-lhe de volta os mortos e esse não era um sentimento agradável para ele. Ao mesmo tempo, muitos desses carrascos parecem pessoas simples, normais, alegres, gostam de cantar e dançar. O que me perturbou foi perceber que, vivessem eles noutro contexto, e teriam sido, provavelmente, apenas uns tipos porreiros, bons pais de família e cidadãos exemplares.
Foi isto que Hannah Arendt percebeu quando, no início dos anos 60, assistiu ao julgamento de “Eichmann em Jerusalém”. Eichmann era um homem bastante inteligente e, ao mesmo tempo, profundamente estúpido na medida em que não era capaz de perceber o que se passava com as pessoas à sua volta. O seu pensamento reduzia-se a clichés, que são o conforto do mal como escreveria Arendt. A banalidade do mal é isso. A suspensão do pensamento, a superficialidade. A mente povoada de lugares-comuns torna os seres humanos mais propensos a ceder ao mal. Eichmann era um tipo vulgar, como muitos que conhecemos. Não era um ser demoníaco, como muitos o preferiam pintar. Arendt descobriu uma coisa terrível. Uma das origens do mal é a superficialidade, a estupidez e os lugares-comuns que lhe estão atrelados. À época, essa "descoberta" perturbou imenso, em especial a comunidade judaica, e Arendt pagou um preço elevado. Foi ostracizada. Quase 60 anos depois, a forte intuição de Arendt continua a perturbar. The Act of Killing é uma prova disso.




sábado, 24 de março de 2018

O FB e a descoberta da pólvora

Em 2012, vários colaboradores da campanha de Barack Obama contaram que utilizaram dados do FB de milhões de eleitores susceptíveis de serem convencidos a votar no seu candidato. Na altura, esta revelação não chocou ninguém. Há muito que se sabe que as campanhas mais sofisticadas utilizam esses dados para fazerem propaganda indivíduo a indivíduo. Estas operações podem ser, de facto, decisivas nos resultados eleitorais. As diferenças marginais são importantes porque na maioria dos países existem 4 a 10% de eleitores flutuantes (swing voters). Isto é ou não um perigo para a democracia? Talvez. Mas o meu ponto é que há por aí muita hipocrisia numa das indignações do momento. Ou então esta gente andava toda a dormir.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Mais um

A grande notícia de hoje para a economia foi a Reserva Federal ter aumentado a taxa de juro outra vez, já vai no sexto aumento desde a recessão. Jerome Powell, o novo Chairman da Reserva Federal, indicou que este ano haverá pelo menos três aumentos, tendo o de hoje sido o primeiro. Veremos se conseguirão manter o plano e se haverá um quarto.

Não sabemos é quando, e se, estes aumentos nos EUA irão levar a aumentos no lado da União Europeia. É que diferenciais nas taxas de juro entre países levam a movimentos de capitais ao nível internacional que servem para atingir um novo equibrio. Pelo sim, pelo não, paguem os cartões de crédito e tenham uns trocos extra para a hipoteca...

terça-feira, 20 de março de 2018

Aos alunos da FEUC

Caros alunos da FEUC,

Tal como vocês, estudei na FEUC e posso, mais de 20 anos depois de ter terminado a licenciatura, assegurar-vos de que a educação que recebi na altura me permitiu competir no mercado de trabalho internacional e atingir um certo nível de sucesso. Quero com isto dizer-vos que é uma boa escola, que pode ser usada como plataforma para uma carreira profissional gratificante. Mas devemos estar cientes que uma universidade não serve para ensinar a regurgitar; serve, sim, para dotar os alunos de ferramentas que lhes permitam avaliar problemas criticamente e procurar soluções e, por isso, uma parte do sucesso da vossa educação depende da vossa vontade de usar o que aprendem.

Há, no entanto, uma área em que a FEUC é fraca e que é em questões de ética, pois de vez em quando convida pessoas para ensinar que exibem deficiências nessa área, que são previamente conhecidas. Gostaria de vos falar do último caso e que é o convite ao ex-Primeiro Ministro José Sócrates para discutir o tema “O Projecto Europeu Depois da Crise Económica”, no dia 21 de Março, às 14h, no auditório da FEUC. Como é do conhecimento público, José Sócrates publicou vários trabalhos sob o seu nome, que não eram da sua autoria. 

No contexto de uma universidade, um aluno que plagie cronicamente pode estar sujeito a ser expulso, logo por que razão uma pessoa com este comportamento é convidada para ser um ponto de referência na vossa educação? Para além disso, José Sócrates exibe deficiências técnicas na compreensão da economia que, também elas, são do conhecimento público, logo que tipo de conhecimento poderá ele oferecer-vos?


Dado o investimento em termos de tempo e dinheiro que têm de fazer, é vossa responsabilidade exigir que a FEUC vos proporcione oradores com um mínimo de qualidade. Cabe por isso a vós o papel de fazer perguntas pertinentes tanto à escola, como ao orador, e manifestar um nível de exigência que seja compatível com a educação que querem receber, pois está em causa a vossa futura reputação profissional.



quinta-feira, 15 de março de 2018

Campanha da vassoura

A DdD soube de fonte segura que Rui Rio está a considerar iniciar uma campanha da vassoura. O objectivo da campanha é triplo: por um lado pretende assegurar aos camaradas que votaram nele que ainda está disposto a dar um banho de ética ao PSD, nem que seja à vassourada; por outro, precisa de um lembrete porque reconhece que ninguém, muito menos ele, vai para novo; e ainda ajudaria a economia nacional.

Sendo assim, o plano é pedir aos caríssimos portugueses que lhe mandem vassouras biodegradáveis para proceder à limpeza do partido: se as vassouras forem ubíquas na sua proximidade, Rui Rio não se esquecerá do que tem de fazer e os portugueses podem também fazer uso de uma vassoura para lhe lembrar, com umas bordoadas bem aplicadas. Finalmente, como Portugal tem matas por todo o lado, o aumento da produção de vassouras biodegradáveis iria permitir ao país usar o material de limpar as ditas, o que contribui para o desenvolvimento das zonas rurais, a redução de externalidades negativas, e maior segurança no território português.

Aguardamos s ansiosamente o lançamento oficial da campanha da vassoura...

terça-feira, 13 de março de 2018

Houve progresso?

Então, o Feliciano já foi corrido do PSD? Esta é a prova de fogo de Rui Rio e acho bem que se distancie desta malta. Se querem que vos diga, sinto um profundo nojo. Eu, para arranjar um emprego onde vivo, tenho de me sujeitar a uma investigação criminal, a exames de urina para ver se consumo estupefacientes, a referências profissionais, e a investigações do meu crédito pessoal e eu passo a isso tudo com muito orgulho. Eu tenho vergonha na cara, meus caros, e sinto um enorme peso nos meus ombros: sou uma pessoa que é portuguesa e vive no estrangeiro e não quero conspurcar o meu nome, nem o nome do meu país. E estes gajos que andam nos partidos aí nem um CV sem mentiras conseguem ter e ainda envergonham o país no estrangeiro.

E ainda -- porque isto parece uma competição de safadeza --, olhem para esta ordinarice: o júri da tese de mestrado do Feliciano -- um fulano do PSD, um ex-Secretário de Estado do PS, e uma ex-Ministra do PS -- diz que é grave o que ele fez. A sério, o que ele fez é grave? E o que vocês não fizeram não é grave? Foi-vos dada a responsabilidade de avaliar as credenciais académicas de uma pessoa e nem o estatuto do aluno conseguiram verificar. É preciso ter lata! Como é que esta gente tem emprego?

domingo, 11 de março de 2018

Escolasticamente pobres

Não percebo se há uma fixação em Portugal com o grau de professor universitário ou se o público, em geral, inclusive os jornalistas, é ignorante em assuntos universitários e em princípios básicos de jornalismo.

Por exemplo, depois da confusão em redor do estatuto de Pedro Passos Coelho, confrontamo-nos com outra situação em que a palavra "professor" é usada de forma errada e até o nome da universidade erram. Há tantos erros na peça, que eu nem sei quem disse o quê.

Lê-se na peça da agência Lusa publicada no Expresso acerca de Feliciano Barreiras Duarte, o seguinte:
'Em causa está o estatuto de "visiting Scholar" da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que o secretário-geral do PSD retirou entretanto do seu currículo.'
e
'Um dia depois de o semanário Sol ter noticiado que Feliciano Barreiras Duarte teve de retificar o seu currículo académico para retirar o item que o indicava como professor convidado (visiting scholar) na Universidade de Berkeley, na Califórnia, Estados Unidos, o novo secretário-geral do PSD veio justificar-se em declarações ao Diário de Notícias.'

Em primeiro, scholar não se traduz como professor. Segundo, a Universidade de Berkeley não existe; existe a Universidade da Califórnia, que tem um campus em Berkeley, que é um de 10 diferentes. Terceiro, o estatuto de visiting scholar não existe na Universidade da California-Berkeley; o que existe são os estatutos de Visiting Researcher Scholar, que é reservado a pessoas com doutoramento, e Visiting Student Researcher, reservado a pessoas que são estudantes numa universidade que não a UC-Berkeley.

Isto está tudo explicado na página de Internet da universidade, logo por que razão o jornalista não investiga o assunto antes de escrever na peça uma informação que induz em erro o leitor?

sábado, 10 de março de 2018

Limites de adaptação

Foi no Sábado passado que apanhei um Uber para ira para o aeroporto e depois vir para Memphis, talvez tenha sido um Lyft, já não me recordo. O condutor era um rapaz da Venezuela, que trabalha num banco, onde faz originação (é assim que se diz?) de novos empréstimos e, segundo me disse, o negócio está bom. É esquisito que alguém que tem um emprego que parece bom ainda faça biscates pelo meio, mas é comum haver empregos part-time nos EUA e acho que agora com a Uber e Lyft muito mais pessoas têm. Ou talvez não, pode ser que haja maior visibilidade e isso turve a minha impressão. Por exemplo, num prédio onde vive uma amiga minha, um dos senhores da recepção é professor primário durante a semana e trabalha no prédio ao fim-de-semana. E depois há as senhoras que vendem Mary Kay, Avon, Stampin' Up, etc.

Sempre que conheço alguém da Venezuela pergunto como vão as coisas por lá. É verdade que há as notícias, mas o testemunho directo também é importante, especialmente hoje em dia quando o noticiário compete com entretenimento. Não estão muito bem, disse-me ele. Fala-se em eleições, mas os resultados são o que interessa ao governo. Os jovens que podem saem e há um envelhecimento da população. Era preciso que houvesse uma revolução, mas eu disse-lhe que as revoluções não costumam ser feitas por idosos. Exactamente, responde ele e rimo-nos ambos. Passámos a viagem de quase 40 minutos a rir.

Até há pouco tempo, ele tinha uma namorada na Venezuela, o que fazia com que visitasse com bastante frequência: cada seis meses. Mas as coisas complicaram-se porque distância e amor não combinam sempre e depois para ela vir para aqui há os vistos, o processo de imigração, etc. Teria de se casar para a poder trazer. Perguntei-lhe se ele tinha a certeza que ela gostava dele e ele não me pareceu muito convencido, para além de me dizer que o pai dele perguntava, em tom retórico, por que razão não tinha ele arranjado uma rapariga simpática nos EUA. Ele chegou a pensar em regressar, mas tem uma filha pequena nos EUA, que ele quer visitar todas as semanas logo sair ficou fora de questão. Achei bem.

Na última visita, levou um smart phone para o pai. Contava usá-lo enquanto lá estava, mas foi assaltado quando ia na rua com o pai e o tio, com o telefone no bolso das bermudas. Um fulano numa mota topou que era um smartphone deu meia-volta e roubou-o. Perguntei-lhe se as pessoas se vestiam assim ou se ele tinha ido para lá armar-se em americano. Vestem-se assim, garantiu-me. O pai não ficou triste, pois gosta de andar com o telefone baratucho a que chamam de barata, como o insecto. Uma vez o pai foi assaltado; quando o ladrão viu o telefone, devolveu-o e agora o episódio é contado com humor pelo pai, aliás ele diz-me que o pai é muito bem humorado. A mãe tem um smartphone, mas só o usa em casa.

A vida está difícil, mas os pais parecem estar bem; só não há dinheiro para ir de férias e é perigoso andar na rua. Isto trouxe-me à ideia os relatos de um amigo meu português que viveu em S. Paulo, no Brasil. Aconteceu-lhe ir jantar a um restaurante e quando saiu o carro não estava onde o tinha estacionado porque tinha sido roubado. Pensei na confusão que seria, mas ele disse-me que era normal: ia-se à polícia para ir buscar um papel para a seguradora e davam a indemnização pelo carro. Mesmo quando foi raptado durante algumas horas, o meu amigo não ficou afectado. Não aconteceu nada, para além de ser raptado. Não levaram muito dinheiro.

Para mim é estranho, mas suponho que quando vocês vêem notícias de tiroteios no EUA devem sentir esta estranheza: como é que alguém vive assim? Vive-se assim porque temos uma capacidade imensa de nos adaptarmos, mas há coisas que acho que não consigo.

http://www.humansofnewyork.com/post/171706138581/they-came-to-our-house-first-because-its-closest