terça-feira, 31 de julho de 2018

Génios et al.

Ora, tenho andado a praticar aritmética e a minha última descoberta é que 2018 menos 4 são 2014, que parece ser o ano em que os manos Robles decidiram comprar aquele prediozito, livrar-se dos inquilinos, e fazer obras. Nessa altura, o Presidente da CML era o actual PM Costinha, aquele génio político que nós admiramos e que só saiu de lá em Abril de 2015.

O mano Robles já se demitiu, mas agora não se demitam vocês do vosso papel de cidadãos e exijam respostas:
  • em que circunstâncias os manos Robles compraram o prédio?
  • qual a razão de a Segurança Social ter vendido o prédio por um valor tão baixo?
  • qual a análise de risco que foi feita para conceder o empréstimo para a compra do prédio e custo das obras?
  • como é que os manos Robles incentivaram os inquilinos a sair do prédio tão rapidamente?
  • como é que as licenças foram aprovadas tão rapidamente na CML?
  • o caso Robles é excepção ou regra na CML?
  • qual o valor do prédio declarado para efeitos de IMI?

Coisas assim... Andem lá, não sejam preguiçosos!

Até o Ben Bernanke levou tampa quando foi ao banco tentar renegociar o empréstimo da casa e ele cobrava $400 mil por discurso e tinha sido Presidente da Reserva Federal. E isto num país que elege o Trump para Presidente!

Banha de cobra branca

segunda-feira, 30 de julho de 2018

domingo, 29 de julho de 2018

Hope

It would be all too easy to start this post with "Hope is the thing with feathers", but that is exactly what occurred to me, after I realized that hope is when your Starbucks baristas do not call you M'am one morning -- a rather elusive definition. I am sure that it was not planned because all women are usually treated as M'am, as that is the norm in this part of the country, but I am hoping that maybe it was the fact that a woman in a Moon Taxi t-shirt and flip-flops on a Sunday morning should not be called M'am. Certainly, the next time I go to Starbucks during the week because I forgot to buy yogurt for breakfast, or I do not feel like eating anything for lunch, but I still have to eat and thus I roam to the place where I am most at ease, I will be called M'am. I realize the contradiction, but then I will be dressed for work and when I'm in my work attire, being a M'am is probably not a bad thing.

The other day, at that Starbucks, where I go to every Sunday morning for breakfast, as if it were a religious experience, one of the baristas asked me what I did: was I studying or working. I was practicing my Portuguese, I told him: I try to read a bit and then I also write. I wondered later why it would matter in what language I write or read when I answer a question about what I am doing? Furthermore, why is it that I want Portuguese when I am in the U.S. and English when I am in Portugal? I must conclude that I do not want to belong, to be defined by the place where I am and the easiest way to rebel is to go through the day in a foreign language when I can perfectly function in the native language of the people around me.

And so hope is that someone does not define me by how they define others.

Unicórnios à portuguesa

O Ricardo Robles pediu um empréstimo há quatro anos para comprar um prédio, que tinha um valor total de 347 mil euros, a meias com a irmã em que banco? Há quatro anos era 2014 e seria importante saber que análise de risco o banco fez para justificar este empréstimo; conhecermos o banco também nos diria se teve intervenção do estado, em que situação o banco está, etc.

Trata-se de um apartamento de 85 m2 com cinco divisões, na Avenida Praia da Vitória (zona nobre de Lisboa) cujo valor patrimonial é de 65.700 euros. No entanto, ao contrário do que acontece com os restantes imóveis declarados por Ricardo Robles, não é declarado ao TC qualquer empréstimo para a compra do apartamento.
~ Sol, 7/28/2018

Agora sabemos que tem um outro apartamento no centro de Lisboa que vale 65,7 mil euros. Sabem dizer-me onde posso encontrar uma coisa destas à venda, que deve ser mais parecida com um unicórnio do que com um apartamento? É que eu também queria comprar um se existisse... (Eu percebo que o valor declarado pode não corresponder ao valor de venda, uma das idiosincrasias do sistema de impostos português.)

O caso de Ricardo Robles é parecido com o caso de Sócrates: gasta muito mais dinheiro do que os seus rendimentos justificam. Quantos mais haverá como eles? Será por isso que não nos querem revelar a lista de devedores da CGD?

sábado, 28 de julho de 2018

INTJ

Quando estava em Liverpool, fui jantar com dois colegas, um deles escocês, com um sotaque muito forte, mas uma pessoa super-divertida. Depois recordei-me que tinha tido uma conference call com ele e com o resto da equipa e eu lhe tinha feito uma pergunta à qual ele tinha respondido "That is a brilliant question!" O meu chefe, que também estava na chamada, deu uma gargalhada sonora. Alguns dos colegas olham para mim e dizem-me que não percebem nada do que eu digo porque reparo em coisas que lhes passam ao lado: "You're way up there", pois é, ando um bocado nas núvens.

No jantar, o colega escocês perguntou-me que tipo de personalidade era a minha. É INTJ e, pronto, está explicado, diz-me ele. Cerca de 2% da população é INTJ, mas em mulheres, o INTJ é raro: apenas 0.8% da população são mulheres INTJ (há 16 tipos de personalidade, logo se fossem distribuídos uniformemente, 6,25% da população cairia em cada tipo e, nesse caso, deveria haver um pouco mais de 3,125% de mulheres INTJ porque mais de 50% da população são mulheres).

Os INTJ são os que esperam sempre o pior, curiosos, calculistas e planeiam a longo prazo como se a vida fosse um tabuleiro de xadrez, são simultaneamente idealistas e cínicos, arrogantes, muito sarcásticos e têm um humor negro, reprimem as emoções, não gostam de conversa fiada e preferem amizades com mais profundidade, são completamente incompetentes romanticamente, e têm muitas contradições que na cabeça deles não as são. Ah, e desistem do que gostam... Uns tipos supimpa, portanto!

Uma das minhas contradições pessoais é gostar tanto de Portugal e, no entanto, ter saído. E passo muitas vezes a perguntar-me" "mas que se passa contigo, Rita, porque é que és assim? Se gostas tanto, porque é que não estás lá?" Eu sei a resposta, claro. Uma das razões é Portugal ser demasiado homogéneo: as pessoas são incentivadas a não sair muito dos eixos. E vocês dizem-me "Mas, Rita, olha este Robles, que saiu dos eixos e comprou o tal apartamento barato para o vender caro?!?" Meus caros, o Robles teria saído dos eixos se não tivesse feito nada de mal.

É normal, em Portugal, quem está em posições de poder aproveitar-se delas e isso é tolerado pela população, é o paradoxo "Rouba, mas faz!" Conflitos de interesse é a norma e os portugueses bem podem ir para o Facebook dizer "Este país não é para gente honesta.", mas há quanto tempo se passa isto e ninguém faz nada para mudar o sistema? Nem sequer votam.

Ultimamente, tenho andado com aspirações políticas e penso que, quando me reformar, vou para Portugal candidatar-me a Presidente da Câmara de um sítio qualquer, mas depois noto que é o meu INTJ a falar. O mundo em que os INTJ vivem é muito fantasioso e perfeito, muito acima da realidade, e a realidade é que, em Portugal, ninguém me elegeria para Presidente da Câmara de nenhum lado: não sou desonesta, nem suficientemente incompetente, e não sou trafulha para usurpar o poder. E, pronto, já desisti...







sexta-feira, 27 de julho de 2018

Souvenir

All I need is
Co-ordination
I can't imagine
My destination
My intention
Ask my opinion
But no excuse
My feelings still remain

~ OMD, Souvenir

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Má memória

Um dos meus colegas americano, talvez uns 15 anos mais velho do que eu, na Sexta-feira, lamentava-se da sua fraca memória, não se recordava de nada do que lhe tinha acontecido há muito tempo. O que é muito tempo não sei, mas eu gabava-me que me lembrava da infância, em particular de alguns episódios bastante traumáticos que me aconteceram, como quando deixei de me poder balançar dos braços dos meus pais por ficar demasiado alta. Era uma das coisas que eu mais gostava de fazer e assim, de um momento para o outro, acabou sem qualquer aviso. Não mais recuperei dessa perda...

Mais recentemente, ainda me recordo das minhas leituras na escola e comecei a pensar nelas hoje quando ouvia o Governo Sombra durante o meu passeio vespertino. À medida que ouvia o programa fiquei com um sabor muito amargo porque me senti completamente anormal. Eles falavam de Eça de Queiroz, Almeida Garrett, e Camilo Castelo Branco, os grandes da nossa literatura, mas eu não percebi o destaque. Depois comecei a elencar na minha cabeça quem eu tinha lido, se bem que, quando eu era miúda, o que me torturava um bocado era exactamente o que eu não lia: Cesário Verde, Camilo Castelo Branco, Antero de Quintal, Alexandre Herculano... Bem sei que poderia ter lido por conta própria, mas sinceramente não me ocorreu porque estava mais interessada em ler a Just Seventeen e a Smash Hits.

Que li eu, então? (Antes de começar a minha lista, tenho de vos dizer que fiz o ensino secundário em três escolas diferentes e frequentei a área C.) No sétimo ano, lemos o "Romance da Raposa" de Aquilino Ribeiro. Não achei grande piada, mas lembro-me da minha professora de português me elogiar nas aulas porque notou que eu tinha lido o livro. Não compreendi o porquê de voltar a ler Aquilino Ribeiro no oitavo ano com "O Malhadinhas", que também não apreciei por aí além, mas tenho ambos estes livros aqui comigo. (Há mistérios que desconheço apesar de ter sido parte integrante dos mesmos.) No oitavo ano, também lemos "A Crónica dos Bons Malandros" do Mário Zambujal -- muito giro e não sei por que razão não trouxe esse livro comigo.

Já o nono ano foi dedicado a Gil Vicente e a Camões (sonetos e Lusíadas); não me recordo de muito mais do que isso. No décimo ano foi mais Lusíadas e Os Maias do Eça. Gostei muito d'Os Maias e desenvolvi uma pequena paixoneta pelo Ega: "Je suis Mephisto..." Também tenho cá e está na minha lista de livros que tenho de voltar a ler.

No décimo-primeiro ano, lemos "As Viagens na Minha Terra" de Garrett. Não me tocou por aí além, apenas achei curiosa a ideia de alguém cegar por ter chorado demasiado. Não me recordo de lermos mais nenhum livro, apenas textos avulso do nosso livro de leitura. No décimo-segundo ano não tive português, mas em inglês lemos alguns textos de Shakespeare e "The Great Gatsby" do F. Scott Fitzgerald. Um dos meus primos em segundo-grau leu "The Pearl" de Steinbeck, em vez do Gatzby, e decidi também ler durante as férias.

Não me senti prejudicada por ter de ler estas coisas; pelo contrário, se o ensino fosse apenas aquilo de que gostávamos, então, sim, penso que seríamos prejudicados. E para mim seria livros da Disney, do Cebolinha, e revistas de música pop. Por acaso, li vários livros da Sophia de Mello Breyner Andresen por iniciativa própria.

Penso que é curioso que não tenhamos lido autores não-portugueses nas aulas de Português, mas a coisa que achei mesmo deficiente no ensino da nossa língua materna foi a escrita criativa. Na escola primária, gostava muito era de escrever e senti grande falta quando deixámos de fazer as nossas redacções, mas eu também já estava farta de escrever sobre os mesmos tópicos: o Outono, o Inverno, a Primavera, as Férias, o Natal, etc. A PGA para mim até foi um grande prazer.

Vir estudar para os EUA e ir à livraria da universidade e encontrar "n" livros que nos ensinavam a escrever e ter aulas em que tínhamos de fazer relatórios sobre artigos ou sobre tópicos relevantes à cadeira era para mim ouro sobre azul. Quando fiz a tese de doutoramento, um dos meus professores perguntou-me quantos rascunhos tinha feito. Eu respondi que aquele era o primeiro e ele disse-me que eu tinha jeito para aquilo. Aliás, nos EUA, os meus professores achavam que eu escrevia bem e compreendia o que lia.

Em Portugal não era e não é assim: não tenho jeito para nada, nem para esquecer que li Mário Zambujal.

domingo, 22 de julho de 2018

Arte longa, vida breve

Não é diferente do que aconteceu em Houston de, no início, não ter pessoas com quem ir a museus. Talvez essa seja a situação ideal -- não ter pessoas -- porque todos nós temos um ritmo diferente de ver as coisas e acho intrusivo que tenhamos de convergir para um ritmo comum. Quer dizer, não julgo intrusivo da parte dos outros, mais da minha parte porque sou bastante lenta e deambulo bastante, mas também sou bastante acomodatícia, logo adapto-me bem ao ritmo dos outros.

Uma amiga perguntou-me, na Sexta-feira, o que ia fazer no fim-de-semana e respondi-lhe que ia ao Brooks, um dos museus de Memphis, o qual apenas visitei uma vez, quando houve uma exposição de gravuras do Salvador Dalí; interessava-me ver as de "Alice no País das Maravilhas". Da colecção permanente, apenas me recordava de um quadro de William-Adolphe Bouguereau. Gosto do trabalho dele, especialmente de "O Primeiro Beijo", em que Cupido beija Psique, versão infantil. Esse quadro se fosse feito hoje, seria um escândalo. A mitologia é um escândalo, como a escultura de "O Rapto de Proserpina", de Bernini, que à primeira vista parece deslumbrante -- como é possível a um pedaço de mármore parecer mais vivo do que a maioria das pessoas que se encontra na rua? Mas depois há os que, quando sabem do que se trata, acham uma desgraça, como se fosse um elogio à violência contra as mulheres.

É uma visão um bocado optimista que apenas as mulheres fossem alvo de violência. A mitologia é, acima de tudo, muito democrática e o que não falta é violência contra homens, mulheres, e crianças. Se calhar estas histórias revertem de um tempo em que o mundo era extraordinariamente violento e talvez a história oral não servisse de ode à violência, mas de alerta contra a violência: se não te portas bem, os deuses castigam-te; se és muito atraente, os deuses cobiçam-te... Conclusão, não dês nas vistas e talvez te safes.

A arte serve de memória colectiva, de reflexão. Nem tudo o que parece é e, por vezes, há coisas que são umas coisas agora e tornam-se coisas diferentes mais tarde. Ou talvez o que as coisas são não tenha nada a ver com as coisas em si, mas sim connosco. Fui ao Dixon depois do Brooks e no jardim há uma escultura de Rodin: os três homens que estão no topo de "As Portas do Inferno". São figuras de homens fisicamente fortes, mas contorcidos em dor. O que me cativa são as suas mãos: seis mãos e quase todas têm os dedos como que a formar uma mudra. A procura da paz interior, mesmo quando tudo em redor os oprime.

Mas talvez seja só eu que veja isto e quando Hipócrates disse que a arte é longa e a vida curta, não estava a falar do tempo que dura uma versus a outra, mas sim da multitude de experiências de uma e de outra: a nossa vida está reduzida a ser vista à luz da nossa experiência; já a arte é vista pela experiência de cada um, e qualquer uma peça inspira algo muito mais longo do que qualquer uma vida.




Foi só oral...

Clinton: "I did not have sexual relations with that woman."
Trump: "[...] your favorite President did nothing wrong!"

sábado, 21 de julho de 2018

Four great motives

I think there are four great motives for writing, at any rate for writing prose. They exist in different degrees in every writer, and in any one writer the proportions will vary from time to time, according to the atmosphere in which he is living. They are:

(i) Sheer egoism. Desire to seem clever, to be talked about, to be remembered after death, to get your own back on the grown-ups who snubbed you in childhood, etc., etc. It is humbug to pretend this is not a motive, and a strong one. Writers share this characteristic with scientists, artists, politicians, lawyers, soldiers, successful businessmen — in short, with the whole top crust of humanity. The great mass of human beings are not acutely selfish. After the age of about thirty they almost abandon the sense of being individuals at all — and live chiefly for others, or are simply smothered under drudgery. But there is also the minority of gifted, willful people who are determined to live their own lives to the end, and writers belong in this class. Serious writers, I should say, are on the whole more vain and self-centered than journalists, though less interested in money.

(ii) Aesthetic enthusiasm. Perception of beauty in the external world, or, on the other hand, in words and their right arrangement. Pleasure in the impact of one sound on another, in the firmness of good prose or the rhythm of a good story. Desire to share an experience which one feels is valuable and ought not to be missed. The aesthetic motive is very feeble in a lot of writers, but even a pamphleteer or writer of textbooks will have pet words and phrases which appeal to him for non-utilitarian reasons; or he may feel strongly about typography, width of margins, etc. Above the level of a railway guide, no book is quite free from aesthetic considerations.

(iii) Historical impulse. Desire to see things as they are, to find out true facts and store them up for the use of posterity.

(iv) Political purpose. — Using the word ‘political’ in the widest possible sense. Desire to push the world in a certain direction, to alter other peoples’ idea of the kind of society that they should strive after. Once again, no book is genuinely free from political bias. The opinion that art should have nothing to do with politics is itself a political attitude.



~ George Orwell: ‘Why I Write’
First published: Gangrel. — GB, London. — summer 1946.
Reprinted:
— ‘Such, Such Were the Joys’. — 1953.
— ‘England Your England and Other Essays’. — 1953.
— ‘The Orwell Reader, Fiction, Essays, and Reportage’ — 1956.
— ‘Collected Essays’. — 1961.
— ‘Decline of the English Murder and Other Essays’. — 1965.
— ‘The Collected Essays, Journalism and Letters of George Orwell’. — 1968.

Vestir-se e despir-se

No sítio onde trabalho há um código de vestuário: temos de nos apresentar de forma profissional. No entanto, ninguém liga muito à letra do que é aparência profissional. Há algumas senhoras que se vestem como teenagers e um dos meus passatempos é olhar para elas e ver que artista pop gostavam quando eram novas. Por exemplo, houve uma senhora, que já não vejo há tempo, que se vestia e tinha um corte de cabelo como a Tiffany, aquela que cantava "I think we're alone now..." Outras são mais modernas e em vez de música talvez sigam blogues de moda, nos quais mangas com folhos e ombros descobertos estão muito em voga.

O que eu gosto mesmo é saias compridas e também ando entusiasmada com vestidos e bastante cor. Não aprecio fatos, nem saias travadas, o que é problemático quando vou a entrevistas de emprego. Por exemplo, para a entrevista para este emprego, que foi em Fevereiro -- Inverno, portanto --, levei umas calças de fazenda de lã, uma camisola de caxemira, e um casaco comprido de fazenda de lã vermelho com flores brancas (um tecido italiano). Quando uma amiga minha me viu depois da entrevista disse-me que nunca se vestiria assim para uma entrevista, preferia ir de preto. Eu suponho que, se eu vestisse uma coisa da qual eu não gostasse, ficaria mal-humorada e tal iria reflectir-se na minha cara durante a entrevista. Em vez disso, como adoro aquele casaco e faz-me mesmo tão feliz, suponho que conversar comigo quando visto se torna mais agradável.

Esta semana no trabalho algumas das coisas que usei foram um vestido maxi amarelo que adoro; um vestido curto de seda, muito colorido, combinado com umas calças de perna larga; uma saia maxi com folhos com uma túnica de malha. São tudo peças das quais eu gosto muito e me fazem sorrir. Os meus colegas devem pensar que eu sou meio-maluca com as minhas escolhas; ou talvez não, porque frequentemente ouço comentários a dizer que gostam de uma peça ou outra que eu estou a usar.

No entanto, fiquei surpreendida com um comentário que não esperava. Uma colega perguntou se eu andava à procura de homem. Fiquei tão desconcertada com aquela observação, com aquele sabor amargo na boca -- não acho que ser mulher seja uma limitação, mas é como se algumas mulheres vivessem em função dos homens. E dizerem-me isto logo a mim que sou tão arrogante e narcisista e gosto tanto de ser assim.

Para além disso, uma mulher deve vestir-se para ela e despir-se para os outros.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Vontade de desistir

Está a trovejar lá fora e tivemos um alerta de calor -- amanhã irá ser pior, com a temperatura a chegar aos 40 graus. Mas hoje pensei que talvez fosse bom começar a organizar os meus livros, só que apetece-me desistir. Coloco-os nas prateleiras e penso que não pertencem ali porque em Houston eu tinha-os num sítio diferente. E, às vezes, olho para alguns livros que ainda estão juntos como estavam na casa anterior e por, um segundo, penso que regressei.

Comprei outro livro de Eugénio de Andrade no mês passado; mas, quando vou ao quarto onde tenho os livros de poesia para o arrumar, não encontro os outros. Não, os livros do Eugénio de Andrade estão sempre no meu quarto -- os meus preferidos dormem comigo, sem paredes entre nós, e a uns passos de uma carícia.

Nesta última viagem a Portugal comprei mais livros, muitos mais do que conseguirei ler, mas dá-me um enorme conforto pensar que, se eu morresse de repente, iria ficar um monte de livros em português nos EUA. Seria talvez o meu melhor legado...

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Ternura

Depois de escrever o último post, apeteceu-me ouvir o Telepatia da Lara Li. O que é que tem uma coisa a ver com a outra? Nada, mas a minha cabeça funciona assim e eu gosto. Não sei se já vos tinha dito que há uns anos, vi "O Lugar do Morto" no YouTube e gostei muito. (Podem falar mal dos americanos, mas viva a tecnologia americana, mesmo quando a UE a multa.) Depois de ver o teledisco, fui procurar a Ana Zanatti no Google porque nem sabia se ainda era viva. Encontrei a entrevista que deu ao Observador em 2016 e fiquei a saber do livro que escreveu, "O Sexo Inútil"; tenho de comprar um dia que vá a Portugal.

Um dos tópicos abordados na entrevista é o afecto em público entre casais homossexuais, o que até é uma questão bastante premente agora, depois de um casal de homens ter sido agredido em Coimbra há dias. Mas não era de Portugal que vos queria falar. Há uns meses, depois de ir ao massagista, atravessei um parque de estacionamento aqui em Memphis (área de Cordova) para ir a um restaurante vietnamita (o normal teria sido ir de carro, mas eu gosto de viver perigosamente). Pelo caminho passei à frente de um cinema e vi um casal de homens acariciar-se em público. Bem sei que devia ser uma coisa normal à qual eu não fosse sensível, mas emocionou-me poder presenciar tal acto e senti-me orgulhosa que se sentissem à vontade de o fazer à minha frente; é como se eu fizesse parte da sua cumplicidade. Isto no Tennessee, que é Republicano que se farta. Ah, e eram dois homens negros. Mesmo lindo, pessoas...

Conservação de livros

Em 1999, o meu orientador decidiu que eu devia fazer uma cadeira de Conservação de Solo e Água e foi com essa cadeira que completei o mestrado de Economia Agrária na Primavera de 2000. Era a terceira cadeira esquisita que ele me mandava fazer: primeiro foi Ecologia e quando ele me mandou matricular-me na dita fiquei horrorizada porque eu já não tinha Fisico-Química desde o oitavo ano. Ainda por cima, eu fui para Economia porque não dava mesmo nada para Fisico-Química e agora saia-me o tiro pela culatra.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Kingdom ROI

No meu passeio a pé de hoje, ouvi o último podcast do This American Life, "If you build it, will they come". Um dos segmentos no programa é sobre start ups de igrejas e durante a descrição deste movimento falou-se em Kingdom return on investment.

Ainda me estou a rir... Não há povo mais engraçado do que o americano!

terça-feira, 17 de julho de 2018

Linguagem corporal

Como eu vivo nos EUA há tanto tempo, acho natural que os americanos sorriam por tudo e por nada: it's the American way. Até há artigos na imprensa acerca do porquê demos americanos sorrirem tão frequentemente. A explicação tem a ver com os EUA serem um país de emigrantes em que, como muita gente não falava a mesma língua, o uso de comunicação não-verbal foi exacerbado para ultrapassar as barreiras da língua e criar maior confiança entre as pessoas. Já pessoas de países com maior homogeneidade da população não tendem a sorrir tanto.

Hoje algo muito estranho aconteceu: houve um encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin e quando os dois apareceram juntos para a conferência de imprensa, Putin sorria e Trump estava macambúzio. Na rádio falava-se da linguagem corporal do Presidente Trump, que dava uma má impressão dos EUA e denotava-se este evento como um dos pontos mais baixos da Presidência americana.

E para além da linguagem corporal, há o que Trump disse, que nesta altura do campeonato já nem nos devia surpreender, mas ele teve a desfaçatez de dizer mal dos serviços secretos americanos -- querem diria que chegaríamos a este ponto com um Presidente republicano? A coisa correu tão mal, que já acusam Trump de traição, como é o caso de John Brennan, antigo Director da CIA quando Obama era Presidente:

Três bêbados

Para algumas pessoas, a única razão pela qual alguém perde o equilíbrio é por estar bêbado. Aliás a lógica é mesmo o Juncker bebe muito, logo perdeu o equilíbrio porque bebeu. Só que correlação não é causalidade e é preciso um bocadinho mais do que ver a pessoa a cambalear e saber que ela bebe para concluir que cambaleou porque bebeu.

Por exemplo, eu bebo o ocasional copo de vinho, talvez uns três por semana e também cambaleio. Será que cambaleio porque bebo três copos de vinho seguidos? Não, cambaleio de vez em quando porque tenho a tensão arterial baixa; é raro beber três copos de vinho seguidos.

Pior, pior, é o meu cão. Há uns anos quando nos mudámos para uma casa que tinha escadas, perdeu o equilíbrio e veio aos trambolhões pelas escadas abaixo. Calhou ter descido as escadas a correr, o que ele não sabia fazer porque nunca tinha vivido numa casa com escadas -- andava entusiasmado a tentar que o irmão o perseguisse e subia e descia escadas para lhe escapar. Mas, claro, já sei que haverá algumas almas que pensam que o meu cão é um grande bêbado: tem uma mãe que bebe, logo também deve beber...

domingo, 15 de julho de 2018

Geografia da alma

Depois de anos a mudar de sítio, de casa, já aprendi a não deixar que o sítio onde estou seja uma grande restrição. Só que esta última mudança tem um travo diferente. Há vezes, como ontem, em que penso que tenho de ir à livraria e na minha cabeça a livraria que aparece é a que fica a 10 horas de carro, não é a que fica a minutos. E depois penso que não estou ao pé de Rothkos, Magrittes, Twomblys, nem de instalações de James Turrell...

Esta semana um colega meu levou uma maçã verde para o gabinete e eu pensei em Le fils de l'homme e deu-me uma nostalgia enorme. No gabinete de Houston, tinha uma maçã verde de esponja (um brinquedo anti-stress) que encontrei no parque de estacionamento na mesma altura em que havia um programa de exposições sobre o Magritte no Menil. À noite, as nuvens eram claras e as árvores negras contrastavam contra o céu, como em L'Empire des lumières.

Nada é o que parece e talvez seja essa a minha realidade: o corpo está num sítio, a alma em outro, como se a minha vida fosse um quadro surrealista...

sábado, 14 de julho de 2018

Genifique-se!

Ultimamente tenho andado a considerar a genialidade de António Costa, o nosso ilustre PM, da qual não estou convencida. Como gosto muito de experiências, tenho andado bastante feliz porque vamos realmente saber se é génio ou não brevemente. Se as tarifas de Trump seguirem em frente, combinadas com política fiscal americana expansionista, e política monetária contraccionista da Reserva Federal e do BCE, iremos ter uma bela crise pela frente. Se Costa estiver no poder, irá ter de navegar por águas bastante conturbadas e será um espectáculo giro de se ver.

É fácil parecer ser génio quando tudo está a nosso favor, mas é quando as coisas estão contra nós que se mede a genialidade. Esperemos que ele coopere e queira mesmo demonstrar ser génio, indo com tanta sede ao pote perante a perspectiva de um segundo mandato como foi no primeiro.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Pena do gato

Tenho observado que muitas pessoas em Portugal ficaram escandalizadas com o dinheiro que o Barack Obama cobra por discursos. Há várias coisas que não percebo nesta reacção, como, por exemplo, porquê ficar chateado com o Obama quando o Obama foi convidado, avançou um preço, e esse preço foi aceite. Acho que se é para ficar chateado com alguém é com as pessoas que o convidaram e que não conseguiram verbalizar a importância da ida do homem de forma convincente.

Uma segunda coisa que as pessoas parecem não compreender é que não foi o cidadão Barack Obama que foi convidado; ele foi convidado porque é o ex-Presidente dos EUA e, nos EUA, o pessoal ganha melhor do que em Portugal. Ah, e coiso, mas é muito dinheiro. Efectivamente, é muito dinheiro até porque em Portugal ser pobre é uma virtude e os ricos são mauzitos.

Durante a campanha da Hillary Clinton para Presidente, um dos "escândalos" foi mesmo ela ganhar muito dinheiro a fazer palestras para o pessoal de Wall St. Ou, se calhar, vocês lêem o que eu escrevo aqui e, no post onde eu falei do dinheiro da Hillary, recordam-se de eu ter falado do Ben Bernanke, que também ganha um balúrdio a fazer palestras: $400 mil (e, no entanto, vai ao banco e recusam-lhe um empréstimo para refinanciar a casa). Ou seja, é normal.

O que não é normal é as pessoas em Portugal não serem muito curiosas acerca do que acontece ao dinheiro do Obama. O Barack Obama está a construir uma Biblioteca Presidencial, que será diferente do que têm sido as bibliotecas presidenciais até agora. A dele irá ser financiada pela Fundação Obama e está a ser construída na zona sul de Chicago, uma parte desfavorecida da cidade, com o intuito de a dinamizar.

Bem sei, tiveram pena do gato, não fosse a curiosidade matá-lo...

domingo, 8 de julho de 2018

Até Deus

Arthur Miller escreveu uma peça de teatro, "The Crucible", sobre os julgamentos por bruxaria que ocorreram em Salem, Massachussetts, em 1692 e 1693. O objectivo da obra era fazer um paralelo entre esse episódio trágico da história dos EUA (note-se que os julgamentos precedem a fundação do país) e a perseguição de comunistas levada a efeito pelo governo americano (finais da década de 40 e década de 50). Apesar da natureza cíclica da história, há sempre o mesmo desfecho: as coisas más pertencem ao passado e há quem acredite que não são passíveis de se repetirem.

Há uma frase na peça de Miller da qual eu gosto muito: "Until an hour before the Devil fell, God thought him beautiful in Heaven." (Uma hora antes do Diabo sucumbir, no Céu, Deus achava-o belo.) Não é só que as coisas corram mal de um momento para o outro, quando antes corriam tão bem que nada nos levava a crer que a mudança estivesse prestes a acontecer, é também que até Deus, com a sua capacidade de omnisciência, é incapaz de adivinhar a tragédia. E se ele não consegue, que esperança podemos ter nós, comuns mortais?

sábado, 7 de julho de 2018

Tennessee Whiskey

Saí à rua no feriado para ver se havia correio. Tinha ideia que também tinha ido à caixa do correio no dia anterior e não fazia sentido ir outra vez, mas de vez em quando, anda a carteira a entregar correio depois das 8 da noite, logo valia a pena ver. Ao lado da minha casa, no passeio, encontrei a minha vizinha, uma senhora já reformada que, em part-time, toma conta de uma pessoa de idade avançada que vive sozinha: passa com ela cerca de quatro horas por dia. Não parece que precise do emprego, mas diz que adora fazê-lo. Esta minha vizinha é uma senhora muito agradável, muito carinhosa, e está sempre a oferecer-se para me ajudar caso eu precise. Trata-me por "sweetheart" e conversa sempre comigo quando me vê, normalmente quando sai à rua para passear os seus dois cachorritos e eu saio à rua para fazer a minha caminhada diária.

Era isso mesmo que ela fazia, ao fim do dia, no 4 de Julho. Estava muito calor e, em Memphis, o nível de humidade aumenta com o pôr-do-sol porque durante o dia os raios de luz ajudam a controlar. Perguntou-me se eu estava bem porque já não me via há tempo, mas depois lembrou-se que lhe tinha dito que ia estar fora de férias e em trabalho. O meu jardim está bem cuidado, o que ela menciona amiúde, porque o dela frequentemente espera pelo filho ter vontade de aparar a relva. Já o meu está à vontade do meu vizinho da frente que, poucos dias depois de eu me mudar, se ofereceu para cuidar dele por $45 de cada vez, um preço que é ridiculamente baixo, mas que ele avançou reticentemente com medo de eu achar caro. Uma vez tentei dar-lhe $50 e, na vez seguinte, ele só aceitou $40.

Estes encontros com a minha vizinha também servem para pôr a bisbilhotice em dia, apesar de eu ainda não conhecer muitos dos vizinhos. Será que eu tinha ouvido o tiroteio recente, pergunta-me. É assim uma pergunta um bocado desconcertante, mas nesse dia, com o fogo de artifício e o consumo de cerveja, etc., por acaso tinha pensado que era um boa dia para andar aos tiros a alguém. Mas não era desse dia que ela falava, era de há umas semanas, de dois carros que tinham entrado na nossa rua numa perseguição que também envolvia tiroteio. Ao todo, ela dizia que tinham sido disparados 25 tiros, com cartuchos vazios em frente da casa dela e alguns tiros que atingiram uma casa do outro lado da rua da minha -- não a casa do meu vizinho jardineiro porque eu vivo num cruzamento.

Parece que, em frente da minha casa, os únicos vestígios foram as marcas das rodas de um dos carros na relva -- eu pensei na altura que tinha sido o camião do lixo. Já a casa do outro lado da rua não teve tanta sorte: várias balas atingiram a parede, passaram pelos tijolos e houve até uma que passou a menos de 15 cm de um bebé de seis meses. Por uns segundos fiquei um bocadinho atordoada. Olhava para a casa do vizinho e para a minha casa, que está pintada de amarelo claro e é bastante comprida, e calculava as probabilidade de não acertarem nela.

Nesse dia, onde estava eu? Ah, estava no quarto a dormir porque isto foi a meio da noite. Dois dias mais tarde, ainda a ruminar sobre o assunto, a coluna do LA-C, no Observador, ganhou um outro sabor: "Se os guarda-redes ficassem muitas vezes quietos no centro, então o avançado nunca chutaria para o centro, dado que isso seria uma defesa quase certa." Dormia eu na minha cama, quietinha, no centro de um tiroteio e, por sorte, os atiradores faziam como os jogadores de futebol e atiravam para o que estava ao lado da minha casa.

Em redor das paredes do meu quarto, no jardim, há árvores enormes, talvez com mais de 40 anos, de troncos grossos e que pensei darem jeito para protecção contra tiros aleatórios. E que mobília tinha eu contra a parede exterior, que está virada contra a rua, no meu quarto? Nada de substancial agora. Tive a brilhante ideia de retirar de lá o armário de roupa, mas se calhar devia voltar a decorar o quarto tendo em conta esta nova informação.

Quando terminei a conversa com a minha vizinha, conclui que até não era mau de todo. Ninguém tinha sido ferido e a polícia sabia, logo agora iriam haver mais patrulhas da polícia pela vizinhança: é a situação ideal. E, se isso não é suficiente para me descansar, há sempre Tennessee Whiskey...


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Momentos lâmpada

No primeiro dia que estive em Liverpool, fui passear pela cidade depois do trabalho. Queria encontrar um sítio giro para jantar, mas debatia-me entre ir a um sítio tradicional ou a algo mais moderno. Acabei por ir ao The Alchemist porque achei a decoração moderna e a meu gosto, só que o menu não tinha grande travo a comida tradicional inglesa. Bola para a frente, pensei. Comi um peixe e acompanhei com Pinot Grigio e depois uma sobremesa.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Nada de novo

Estou aqui a pensar no mercado accionista americano. Não encontro grande motivo nos fundamentais da economia para poder apreciar muito mais, mas depois penso nas bolhas. O que são bolhas? São situações em que aparecem compradores quando o mercado esta em níveis acima do que aconselhariam os fundamentais, logo estes compradores são pessoas que têm fé que subirá ainda mais. Se muitos acreditarem ao mesmo tempo, as coisas materializam-se.

Ultimamente, sinto um bocado de pânico quando ouço dizer que não conseguem ver o topo ou que as coisas estão óptimas, como se a expansão, que já vai longa, pudesse durar indefinidamente. Mas depois penso é sempre assim. O ciclo de negócio é isso mesmo, um ciclo, as coisas repetem-se, as pessoas cometem os mesmos erros, não há nada de novo...

terça-feira, 3 de julho de 2018

Proteccionismo

Quando vim estudar para os EUA pela primeira vez, em 1995, tive duas cadeiras onde estudávamos case studies da economia americana: Economics of Industries e Managerial Economics. Em ambas as cadeiras um dos case studies era o da indústria automóvel nos anos 80. As empresas americanas pressionaram o governo para implementar medidas proteccionistas que limitassem o efeito da importação de carros japoneses que, para além de serem mais eficientes em combustível, eram menos poluentes e tinham também melhor qualidade porque avariavam com menos frequência. Em 1981, os EUA negociaram a implementação de quotas que limitavam a importação de carros japoneses e que duraram até 1985.

A curto prazo, as empresas domésticas americanas beneficiaram, mas a longo prazo, os japoneses seguiram uma estratégia de maximização do valor dos carros exportados para os EUA, focando-se mais no sector de carros mais caros e de luxo, que são mais lucrativos; ou seja, foram atrás dos clientes mais afluentes enquanto que os clientes pobres só tinham acesso a marcas americanas. Para além disso, os japoneses abriram fábricas de montagem de automóveis nos EUA e assim subverteram a política das quotas.

Como devem calcular, os efeitos foram desastrosos, até porque as empresas americanas aproveitaram esta vantagem das quotas para não investir com tanto afinco em qualidade, nem eficiência de combustível, adiando assim o progresso tecnológico. Este case study foi ensinado como um alerta para os malefícios do proteccionismo e as pessoas da minha geração que estudaram gestão e economia nos EUA estão familiarizadas com o mesmo. Muitas destas pessoas estão hoje em dia a trabalhar em empresas, logo têm alguns conhecimentos para avaliar os efeitos das medidas proteccionistas desta administração.

Notem, também, que nunca a economia americana esteve tão interligada com a economia do resto do mundo como está hoje. Os americanos especializaram-se em actividades de valor acrescentado mais alto e fizeram o outsourcing do resto. Esta evolução não surgiu porque dava prejuízo ou porque era motivada pelas empresas estrangeiras, mas sim exactamente o oposto: era mais lucrativa e foi perseguida pelos próprios americanos. Tentar revertê-la com medidas proteccionistas terá necessariamente de ter um custo para a economia americana.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

The Angel Series

Francesca Woodman








Permanência

"Reflect what you are, in case you don't know"

Estava a ler um livro onde se cita este verso do Lou Reed. Acho muito limitativo saber o que se é. O que não somos é infinito, o que somos tem um caracter finito. Toda a minha vida se reduz a descobrir o que não sou e a fugir de um estado de permanência do ser.

domingo, 1 de julho de 2018

Viagem sem rumo

Estou no avião e nada poderá ser publicado imediatamente, mas a cabeça fervilha com ideias de coisas para vos contar. Corro o risco de, quando chegar a terra, me encontrar com a minha maior inimiga — a procrastinação — e adiar ad eternum o meu relato. Como a eternidade não mais chegará, nunca alguém lerá o que vos quero escrever. Trouxe o computador porque queria mesmo escrever mais, mas acabei por não escrever quase nada, a não ser algumas linhas no diário de papel. Acho que nunca vos disse que comprei um computador de propósito para ser mais flexível porque o iPhone e o iPad deixaram de funcionar com o Blogger. Só dá para usar pelo Safari, mas mesmo assim não funciona muito bem.