segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Sobre nada

[Um post que era para ser uma coisa e acabou por ser outra. E comecei a escrever isto há dois anos, para aí...]

Adoro estar sozinha. Não sinto grande falta de pessoas e sou extremamente selectiva com os meus amigos -- há amigos e conhecidos. Como sou muito má a manter contacto à distância com conhecidos, esses acabam por se esquecer de mim, o que me satisfaz muito. Mas de vez em quando, há pessoas que se aproximam de mim e pedem-me a opinião sobre coisas, tipo coisas importantes como percursos de carreira. É um grande erro pedir-me conselhos ou esperarem uma opinião minha, se não querem uma resposta frontal.

Por exemplo, uma amiga minha uma vez conversava comigo acerca da visão que ela tinha para a sua vida. Na altura, tinha pouco mais de 30 anos, ganhava $41.000/ano, poupava 4%, era divorciada, tinha dois filhos, e achava que se ia reformar aos 55 anos. Eu disse-lhe que não ia. Mesmo para se reformar aos 65, aquilo eram poupanças insuficientes. As poupanças dela nem dariam para comprar um seguro de saúde, quanto mais viver confortavelmente aos 55 anos. Ficou chocada quando eu disse aquilo, mas eu achei cruel ficar calada e deixar que ela alimentasse uma ideia completamente divorciada da realidade. Há pessoas que têm sonhos; há outras que têm fantasias que requerem universos alternativos onde as leis normais da física não se aplicam. As fantasias não nos adiantam muito no mundo real -- a não ser que vocês se chamem J.R.R. Tolkien ou J.K. Rowling. OK, vou ser generosa hoje: se se chamarem Stephenie Meyer, são capazes de ganhar a vida fantasiando.

Quando acordei tinha uma email de um rapaz português muito tímido a perguntar se devia pedir um empréstimos para ir fazer um mestrado para Lisboa. É uma pessoa tímida, sem garra, inseguro, mas que acha que tem direito a ter um emprego interessante que o satisfaça. Ninguém nasce com esse direito. Ter um emprego que nos satisfaça é uma decisão nossa. Vocês encontram duas pessoas com o mesmo emprego e uma acha que tem um emprego de merda e outra que têm um emprego maravilhoso. A atitude que temos quando trabalhamos é nossa e reflecte-se no nosso trabalho.

No meu emprego anterior, trabalhámos num projecto em que a minha responsabilidade era analisar os dados e tentar encontrar suporte quantitativo para o projecto. Um dia entrei no gabinete de um dos VPs e disse-lhe que tinha encontrado resultados interessantes. Comecei a explicar e o VP interrompeu-me e disse "Wow, you really like what you're doing. Your eyes sparkle when you talk about it!" Quando fui entrevistada para um outro emprego emprego, a minha chefe, que já me conhecia de um emprego anterior, fez-me uma pergunta acerca de como eu escolho a metodologia adequada para fazer a análise. Comecei a explicar. Ela interrompeu-me e disse: "That's it! That's what I want. I want that fire..." Ela queria o meu entusiasmo.

Eu não nasci a amar números; sempre amei mais as palavras do que os números. Mas à medida que cresci, encontrei uma certa forma de beleza nos números e acabei por gostar muito. Mais do que uma inclinação natural, o meu entusiasmo pelo que eu faço é mais um produto de eu gostar de aprender e ter aversão a ficar intelectualmente parada -- é uma das minhas fobias. E é também um produto da liberdade que temos nos EUA para ser o que queremos ser. Há alguns parâmetros guia, mas acima de tudo, as pessoas com quem estudei e com quem trabalhei sempre me encorajaram a não ter medo de arriscar e querer mais. Progredir é uma coisa desejável. Não quero com isto dizer que todos os sítios onde trabalhei foram óptimos, mas há sempre alguém que nos inspira e nos carrega ao colo quando as coisas ficam piores. Mas o fio condutor é sempre o mesmo: trabalhar dentro da realidade e trabalhar-nos a nós próprios para crescermos profissionalmente.

Às vezes, dizem-me que eu nunca teria sucesso em Portugal e por isso emigrei. Não faço ideia se sim ou não porque não posso voltar atrás e re-viver a minha vida. Portugal tem para mim uma grande desvantagem: é um país extremamente cansativo onde as pessoas não se importam de despender grande esforço em vão. Eu sou uma pessoa com um nível baixo de energia e não posso dar-me ao luxo de a desperdiçar. Quando decido fazer alguma coisa, dou tudo o que tenho, logo não tenho intenção nenhuma de falhar. Se vir que não há hipótese de ganhar, ou aplico-me mais, ou desisto imediatamente logo no início.

Os inícios para mim são importantes porque há em mim uma constante luta interna: por um lado, preciso de uma estratégia para poder gerir o meu esforço, o que requer saber como as coisas funcionam e com o que posso esperar; por outro lado, preciso que o percurso seja suficientemente aberto para que eu coleccione oportunidades, ou seja, preciso de ir abrindo portas pelo caminho, coisas que mais tarde poderão ser exploradas. Portugal não me permite crescer assim. Não há grandes oportunidades e as pessoas não abrem portas: estão constantemente a cortar percursos futuros, ou seja, não é um país para mim. Em termos de informação, também não é um país muito claro porque as regras estão constantemente a ser mudadas e não há como planear a médio e longo prazo e é um país extremamente inflexível.

Há seis anos, tive oportunidade de ensinar durante um ano. A maior parte dos meus alunos eram caloiros e não eram da área de economia. Num exame final, uma das minhas alunas terminou em 30 minutos, em vez de levar as duas horas. Quando ela entregou, perguntei-lhe se tinha a certeza. Ela disse que sim. Quando as notas saíram, teve um D e veio falar comigo para ver se eu lhe podia subir a nota. Não achei justo, mas ela explicou-me o que tinha sucedido.

Ela era mãe de duas crianças, o namorado estava em Itália porque era militar. Os pais às vezes ajudavam-na com os garotos mas no dia do exame não tinham podido. Ela fez o exame em 30 minutos porque a filha estava à espera dela, pois não tinha tido ninguém com quem a deixar. Precisava de uma nota de C ou melhor porque estava prestes a ser expulsa da universidade por ter tido demasiadas notas baixas a muitas cadeiras. Havia cadeiras em que ela não tinha entregado os trabalhos todos ou tinha faltado ao exame final e, como tal, tinha Fs, Ds, Is (cadeiras incompletas em que o trabalho ainda não tinha sido entregue). A Universidade estava prestes a ter uma reunião para decidir se ela ira continuar ou se ia ser expulsa. Naquela altura estava em "academic probation".

Fiquei muito chateada que ela estivesse naquela situação, mas não sabia muito bem como a poderia ajudar. Disponibilizei-me a escrever uma carta à universidade a interceder por ela e encorajei-a a ir falar com o Dean da faculdade dela. Expliquei-lhe que ela tinha esperado demasiado tempo e que não era assim que os EUA funcionavam. Ela devia ter pedido ajuda logo no início. Se ela me tivesse explicado as suas circunstâncias, podíamos ter marcado o exame para outro dia, ou a filha dela podia ter ficado dentro da sala, em vez de na rua, etc.

A reunião deu-se e decidiram expulsá-la, mas disseram-me que ela ainda podia desfazer a decisão. Podia ir falar com os professores das cadeiras em que estava em apuros e perguntar se podia terminar o trabalho ou repetir o exame (caso da minha cadeira) e, se os professores trabalhassem com ela, e ela se esforçasse por melhorar o aproveitamento escolar, então as notas melhorariam e a decisão da universidade ficaria sem efeito.

Deixei-a repetir o exame, dado que a universidade tinha dito que essa era uma prerrogativa minha e ela melhorou a nota. Ela também foi falar com os outros professores e conseguiu completar as outras cadeiras ou melhorar as notas e a decisão ficou sem efeito. Veio falar comigo outra vez a agradecer. E eu expliquei-lhe mais uma vez como os EUA funcionam: quando nós estamos em apuros, normalmente, há alguém que nos pode ajudar. Quando essa pessoa fica ao corrente da nossa situação, o normal é que se disponibilize a ajudar-nos ou a guiar-nos, mas nós temos de encontrar essa pessoa chave.

No caso dela, logo no início e antes da situação escalar, ela devia ter falado com os professores para que estes tivessem trabalhado com ela, pois o sistema é muito flexível e as pessoas estão dispostas a trabalhar connosco. Ela finalmente percebeu e ficou contente porque, como tudo se resolveu em seu favor, achou que não tinha falhado os filhos. Eu disse-lhe que era importante que ela ensinasse os filhos a pedir ajuda logo no início, antes dos problemas se agravarem.

Depois deste episódio, pensei seriamente em mim. Como é que ela, tendo nascido nos EUA, não se conseguia desenvencilhar e eu transplantada de Portugal sabia orientar-me razoavelmente bem? Suponho que é uma questão de atitude. Quando eu cheguei, em 1995, tive noção imediatamente que precisava de ajuda e ou pedia ou as pessoas ofereciam-me ajuda -- mesmo agora sou assim. Há alunos internacionais que não pedem ajuda. Por exemplo, um colega meu de doutoramento que era da Coreia do Sul, uma vez deixou de ir às aulas durante uma semana. Telefonei-lhe a perguntar o que se passava. Estava doente, mas não avisou o professor. Fui eu que alertei o professor da causa da ausência do aluno e o professor disse-me que a responsabilidade de fazer isso era dele; não era minha.

Como no início eu fazia parte do programa de intercâmbio da universidade, o Office of International Programs estava sempre a ajudar-me e a orientar-me. Também ajudava que eu trabalhava lá em part-time, mas mesmo aos alunos que não trabalhavam lá, havia uma sistema formal de apoio que acompanhava o aluno e tentava maximizar a sua probabilidade de sucesso. Por exemplo, quando a universidade se enganou na minha conta das propinas e taxas que eu tinha de pagar à universidade, foi uma das orientadoras do OIP que pegou na minha papelada e reviu tudo, clarificando o que eu devia e não devia. Trabalhar nesse gabinete foi muito útil porque eu vi o sistema a funcionar de dentro.

Vou-vos dar outro exemplo. No final do primeiro semestre em que eu estudei aqui, enganei-me a ver a data e a hora do exame final de duas cadeiras. Estudei para o exame de Managerial Economics, que pensei ser na Terça-feira e não estudei muito para International Trade, que pensei ser na Quinta-feira. Quando cheguei à sala não estava lá a minha turma e apercebi-me do meu erro. Fui falar com o professor de International Trade e disse-lhe o que me tinha acontecido e expliquei que podia fazer o exame, mas a minha nota não seria muito boa. Ele disse que o melhor que podia fazer por mim era deixar-me fazer o exame na Quinta-feira. Concordei, agradeci, e fui para casa estudar. Fiquei admirada que tivesse sido tão fácil sair da embrulhada onde me tinha enfiado.

As pessoas podem dizer o que quiserem da América, mas é um país onde tudo pode acontecer. E assim como acontecem coisas más, também podem acontecer coisas muito boas, desde que a pessoa não desista.





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