domingo, 1 de setembro de 2019

Histórias

No evento de ontem da minha vizinhança, uma festa ao ar livre num dos pequenos parques da nossa aldeia de mais ou menos 100 casas, confessei a uma vizinha que tinha a minha casa ainda desorganizada e nem todas as divisões estavam mobiladas. Ela respondeu que na casa dela também não estavam todos os quartos mobilados, mas há uns três anos ela tinha decidido adoptar o minimalismo e gostava muito de não ter muita tralha, isto porque já se tinha mudado umas seis vezes e dava muito trabalho mudar tudo. Depois sugeriu-me que comprasse mobília na Restoration Hardware. Mas não há em Memphis, disse-lhe; mas há em Nashville, respondeu-me. E há online.

Na altura senti o universo parar porque fiquei sem resposta imediata, mas ocorreu-me dizer que gostava mais da Pottery Barn. Realmente, gosto mais da Pottery Barn e não é que desgoste da Restoration Hardware, mas aquele estilo não é o meu, nem sequer se encaixa bem no meu porque eu gosto de tralha, gosto de livros, de louças, de muita cor, e o RH é um estilo beige monocromático. A mobília é enorme e parece-me pouco confortável porque sou muito pequena.

Ir a uma loja e comprar toda a mobília também não se coaduna com a minha ideia de viver porque gosto de coleccionar coisas e de ter uma história para o que tenho. Onde é que arranjaste esse banco, Rita? Fui eu que fiz no sétimo ano, na aula de madeira. E essa secretária estilo mid-century modern? Um Sábado, em Fayetteville, por volta de 2005, regressava do Farmer's Market, quando vi que uma vizinha estava a ter um "garage sale". Fui lá ver o que tinha e comprei a secretária por $40, é Drexel de 1957. Anos mais tarde vi online que a dita secretária é um design de John Van Koert e cheguei a vê-la à venda por mais de $2000 porque entretanto o estilo mid-century modern entrou em voga...

Há umas semanas, quando estava a montar as cadeiras para a varanda, uma outra vizinha minha passava na rua e convidei-a para vir cá a casa para ver como estava. Foi por volta da altura de em que decorei o quarto de hóspedes à pressa porque ia ter visitas. Quando essa vizinha entrou no quarto, que é super-colorido, mas há uma atmosfera serena, ficou um pouco pensativa e disse-me que estava a tomar nota mental de como eu tinha organizado o espaço porque estava muito acolhedor.

Nesse quarto guardo a maior parte dos livros de poesia que tenho. Na parece há uma aguarela que uma amiga minha me fez depois de ambas lermos o livro Succulent Wild Woman e há um quadro com dois cisnes que eu bordei a meio-ponto no sétimo ano e que foi exposto na escola depois de terminar o trimestre. Na cama está uma colcha em crochet feita pela tia da minha mãe. Depois de eu a trazer, há mais de 15 anos, a minha mãe perguntou-me se usava a colcha e respondi-lhe que não, era demasiado pequena para a minha cama. Ralhou comigo porque devia ter dito alguma coisa para se poder aumentar.

Em vez de aumentar, a minha mãe pediu-me as medidas da cama e começou a fazer-me outra colcha, mas morreu antes de a terminar. Tentei continuar o trabalho, mas não tenho muita paciência para o crochet e o meu ponto não é tão consistente como o da minha mãe. Na estante do quarto de hóspedes há uma caixa que tem uma etiqueta que diz crochet e onde guardo as agulhas da minha mãe, as linhas, e o princípio da colcha.

A minha casa está cheia de histórias e não é só por eu ter muitos livros, as coisas têm histórias, umas curtas, outras mais longas. Não há muitas histórias para contar quando se vai ao RH comprar toda a mobília; há apenas a história original: eu gostava muito de tralha, mas há uns três anos adoptei o estilo minimalista.

1 comentário:

  1. Eu também sou dos que gosta que as coisas contem histórias. Sobretudo as casas.
    A minha casa conta a história da família: esta parte é a mais antiga; este quarto foi feito quando nos nasceu o filho mais novo; esta casa de banho nasceu quando a inha sogra já não podia subir escadas, etc. etc.. O mesmo se passa com as árvores: esta foi enxertada pelo meu sogro; aquela tem mais de 100 anos - a avó da minha mulher que morreu com mais de 90 diz que ela já era uma árvore grande quando ela era menina; esta comprei-a na feira, etc..
    Concluindo, também não gosto de modernices. Gosto de conforto, de modernices não.

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