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sábado, 5 de abril de 2025

A vermos grego

Agora entrámos mesmo na dinâmica de uma Administração Trump, com ele a todo o gás em direção ao abismo ao mesmo tempo que metade do país lida com a situação através de comédia ou da ridicularização dos acontecimentos.

No caso das tarifas a comédia tem sido fenomenal, não só porque Trump impôs tarifas a ilhas sem habitantes humanos, mas também atingiu uma ilha com apenas uma base militar com pessoal americano e britânico. O James Surowiecki, que eu acho um dos melhores escritores de peças de opinião sobre a economia, descortinou a metodologia de Trump que, aparentemente, é algo que é sugerido pelos algoritmos de inteligência artificial (isto da inteligência artificial merecia um post, mas tenho andado preguiçosa). 

Em resposta ao Gotcha, a administração divulgou uma fórmula matemática manhosa cheia de letras gregas, em que dois dos parâmetros se cancelam e no fim ficamos apenas com o rácio do défice comercial dos EUA com um país dividido pelo volume de exportações de bens desse país para os EUA--esse rácio é o que Trump denota de tarifas e outras barreiras comerciais actuais cobradas aos EUA, mas obviamente que não é tarifa nenhuma.

Quanto ao valor lúdico do caos actual, acho que estamos conversados. Resta apenas dar uns passos atrás e ver o contexto mundial de forma objectiva. Em 2024, a economia americana representava 26% do PIB mundial--é enorme, apesar de a proporção já ter sido mais alta. Ao contrário do que os europeus pensam, o nível de vida americano é bastante alto e consome muitos recursos. 

Por exemplo, no outro dia, tive um jantar da minha vizinhança e uma das organizadoras dizia que, para facilitar a vida à senhora onde o jantar se iria realizar, ela ia comprar pratos, copos, e talheres de plástico, daqueles a imitar vidro e cerâmica que depois se deitam fora, para assim não se ter de lavar loiça. Super-comum nos EUA. Há famílias que só comem de pratos descartáveis, apesar de toda a gente ter máquina de lavar louça. E isto é apenas um exemplo de muitos. Para além de ser péssimo para o ambiente é mau para a alocação mundial de recursos--grande parte da economia mundial serve as preferências americanas, mas as políticas de Trump irão ajudar a modificar algum deste comportamento. 

Estas políticas apesar de péssimas para os americanos não têm necessariamente de ser más para o resto do mundo porque os americanos ao perderem poder de compra irão colocar menos pressão nos recursos mundiais, o que deflaciona os preços para o resto do mundo, dado que a economia americana era tão grande e irá encolher imenso. Se Trump avançar com tudo o que ele já começou, não me admiraria se encolhesse mais de 10% e, se calhar, 20% é ser conservador. 

O capital já está a fugir para a Europa depois de anos em que saía da Europa para alimentar a bolsa americana. Desde que a Europa aja de forma fria e contida, irá atrair capital, investimento e turismo. E com as modificações da política de imigração americana, a Europa também tem a oportunidade de atrair cérebros e mão-de-obra (bem sei, os portugueses têm horror a imigrantes porque são xenófobos: a população portuguesa mal tem aumentado, ou seja, os que entram compensam os que saem; o que há é mais pessoas em algumas cidades porque a infraestrutura é má em sítios mais pequenos, mas é natural que tal seja temporário).  Não nos podemos esquecer que os americanos beneficiaram imenso, no século passado, da fuga de cientistas e outros quadros superiores da Europa para os EUA. Agora o oposto pode acontecer. Há bastante potencial para a Europa crescer mais depressa e o euro ficar mais forte como moeda de reserva.

Há uma enorme nuvem na economia mundial que é a questão das criptomoedas. Acho provável que à medida de as pessoas entram em pânico, haverá mais fuga de capitais desses "activos" que apenas têm valor especulativo, o que pode causar uma séria crise financeira mundial para além dos problemas que o Trump já está a criar.

Como se dizia durante a crise subprime: as crises são oportunidades. Pena que Portugal nem governo tenha. Se continuar assim, fica ainda mais atrasado.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Gente fina, finalmente!

No Sábado, fui fazer mais 3,5 horas de voluntariado no Victory Garden de Collierville; no total éramos 22 voluntários. (Preciso de completar 40 horas antes de Agosto para ter a certificação de Master Gardener.) Plantámos cebolas, alface, couve, nabos, rabanetes, e acelga suíça. Enquanto trabalhávamos, estávamos em amena cavaqueira: era o tempo que anda estranho com tempestades frígidas anuais que destroem árvores, arbustos, e outras plantas perenes; o sítio em que tínhamos nascido; os estados em que já tínhamos vivido, há quanto tempo estávamos em Memphis; se era melhor água da chuva armazenada ou fresca para regar (não chegámos a acordo), etc. 

Uma das voluntárias teve um neto recentemente: um bebé que nasceu quatro semanas prematuro e que passou cinco dias em cuidados intensivos, mas já está em casa. A avó mencionou várias vezes (eu ouvi-a pelo menos duas) que estava com receio de apanhar sarampo e transmitir ao neto,  pois estava prestes a apanhar o avião para o ir visitar em Boston. Para quem não sabe, os EUA estão com um surto de sarampo que começou em Lubbock, West Texas, numa comunidade menonita que não vacina as crianças. Entretanto, mais pessoas apanharam um pouco por todo o país, e uma das crianças até já morreu, mas é difícil saber a verdadeira dimensão do problema por causa de Trump et al. 

Acho extremamente provável que se desencadeie um número bastante maior de casos, o que seria bastante sério para os americanos porque há muitas pessoas que nunca tiveram ou não estão vacinadas. É o preço de se ser mais desenvolvido do que Portugal: eu fui vacinada e, mesmo assim, tive porque quase todos os miúdos tinham naquela altura e as mães até queriam que tivessem. A minha mãe não fez esforço nenhum para eu ter e a minha avó, que cuidava de mim, nem gostava que eu brincasse com outras crianças, logo é um bocado misterioso como apanhei. O certo é que o médico disse que ainda bem que eu estava vacinada porque foi bastante forte. A boa notícia é que agora estou imune. 

Com o pessoal ainda saturado da pandemia COVID, poucas pessoas andam a ligar aos casos de sarampo. A notícia actual de maior importância é o falhanço de um acordo entre os EUA e a Ucrânia. Apesar de eu ser americana, não apoio a posição dos EUA e fiquei feliz que a Europa tivesse finalmente mostrado alguma capacidade de liderança. Num ápice, os europeus reuniram-se, comprometeram-se a gastar mais dinheiro para ajudar a Ucrânia, e até disseram que o objectivo era terminar com a guerra para poderem entrar em acordo com os EUA. Faz lembrar aquela definição de diplomacia: 'Diplomacy is the art of telling people to fuck off in such a way they look forward to the journey.' Gente fina é outra coisa! 


quinta-feira, 13 de outubro de 2022

SOS, Greta

Há uma semana, os membros da OPEC decidiram cortar a produção de petróleo em dois milhões de barris por dia, como forma de dar suporte ao preço do barril de petróleo. Os EUA têm contribuído para a pressão de baixa do preço, pois desde o início do Verão a Administração Biden tem retirado petróleo da Reserva Estratégica de Petróleo americana, como forma de contrariar a subida no preço de gasolina, que entretanto já começou a subir

Para além disso, os americanos têm exportado mais petróleo do que importam, o que também contribui para o controle do preço mundial de crude.  Neste momento, o volume de petróleo na Reserva Estratégica está a níveis de 1985. Brevemente, é provável que o governo americano tenha de comprar petróleo para a Reserva, o que, combinado com os cortes da OPEC, poderá contribuir para o aumento do preço de energia. Por sorte, a procura tem estado bastante deprimida

Depois de anos a tentar conseguir apoio para indústrias ditas verdes, que supostamente baixam as emissões de carbono para a atmosfera, os americano lá, passaram há coisa de dois meses, a legislação IRA (Inflation Reduction Act), camuflada de lei para controle da inflação. Esta lei é consistente com o que as diferentes administrações americanas, tanto de esquerda como de direita, têm andado a fazer desde os anos 70: a tentar isolar-se de choques nos preços da energia, pois consideram a política energética uma questão de segurança nacional. 

Só que as novas tecnologias têm o potencial de perturbar as indústrias exportadoras de países como a Alemanha, Suécia, Japão, Reino Unido, etc., todos aliados dos EUA, e que estão furiosos com a nova lei. É irónico que a Alemanha, que frequentemente faz campanha em prol do ambiente, agora não queira mudar. Talvez a Greta venha em socorro do Biden...


  

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Já não é plano

Há uns anos, o Thomas Friedman escrevia que o mundo era plano, que o comércio internacional aproximava as nações e derrubava barreiras. Com a pandemia, o que era plano é agora cheio de obstáculos, que dificultam o movimento de mercadorias. As cadeias de distribuição, que estavam construídas para um mundo com poucas barreiras estão a ser reconstruídas de forma a haver mais redundância. As empresas querem localizar as suas operações mais perto dos clientes e querem minimizar o risco político. 

Para além das empresas que saíram da Rússia por causa da má publicidade e também das sanções, o capital parece estar também a fugir da China. Por um lado, a política de zero-casos Covid seguida pela China aumenta o risco de interrupções na produção; por outro, há quem se questione se a China não poderá invadir a Ilha Formosa, numa acção que teria consequências semelhantes às que assistimos após a invasão da Ucrânia. 

Quem se queixava dos aspectos negativos do comércio internacional deve congratular-se, pois vai poder observar o que é um mundo menos integrado, que é como quem diz, um mundo de preços mais altos. Se a Europa já empobrecia quando as coisas corriam bem, há a possibilidade real de que poderá empobrecer ainda mais. A Alemanha estava construída para crescer à custa da energia barata da Rússia, da protecção militar dos EUA, e de taxas de juro baixas. Podia beneficiar do euro mais barato, mas com energia cara, isso não a ajuda.

Mas, não é tudo mau, pode ser que as coisas corram bem, pois isto é também uma oportunidade de reavaliar o projecto europeu e de o orientar para ser sustentável. É pena que Portugal seja tão pessimamente governado porque isto podia fazer toda a diferença para gerar crescimento para o país. O mais provável é que empobreça mais depressa.


quinta-feira, 21 de julho de 2022

Reabertura

Hoje, Quinta-feira, o gasoduto Nord Stream 1 vai reabrir, mas com capacidade reduzida. A Rússia diz que está com problemas para enviar gás à Europa porque umas das turbinas que foi para o Canadá para ser reparada não regressou devido às sanções contra a Rússia -- é essa a justificação da redução da capacidade, mas é duvidoso. Se a capacidade fosse a do costume, os europeus iriam tentar armazenar algum produto para o inverno o que diminuiria a margem de manobra da Rússia. O certo é que a Rússia já tinha reduzido a capacidade antes, logo apenas envia alguma coisa para continuar a ter influência.

Os EUA também estão limitados na exportação porque houve um fogo em 8 de Junho em Freeport, no Texas, num terminal de liquidificação de gás natural, o que reduziu a capacidade de exportação dos EUA em 17%. Inicialmente, pensava-se que levaria uns três meses para que o terminal voltasse a entrar em actividade, mas a Energy Information Administration dos EUA indicou num relatório desta semana que só para 2023 é que a capacidade regressará ao normal. Os dados de exportações de Junho dos EUA saem em Agosto, altura em que saberemos qual o impacto do fogo no comércio internacional, mas, este ano, cerca de dois terços dos envios de Freeport eram destinados à Europa. 

Em 2022, a Europa é o principal importador de gás natural americano e Portugal tem importado bastante, o que é o mais cauteloso. Perante a conjuntura actual, é preferível ter a mais do que ter falta. Mas esperemos que, quando chegar o inverno, os portugueses tenham dinheiro para pagar a conta do gás.  

terça-feira, 17 de maio de 2022

Invasão procura-se

Hoje saiu o índice de preços de vendas por atacado para Abril da economia alemã, que cresceu 23.8% comparado com o período homólogo de 2021. Em Março tinha crescido 22.6%. É um máximo desde 1968 e, apesar de não ser tão importante como os preços a retalho, é um número que assusta um bocado. 

Estou preocupada com Portugal porque tem um política que é adequada a tempos fartos na Alemanha. Para além da inflação, há também a necessidade dos europeus gastarem mais dinheiro em defesa e decerto que reconstruir a Ucrânia também irá custar uns trocos. 

Ou seja, o PM Costinha tem de começar a estudar técnicas de marketing para poder sacar mais dinheiro.  Também pode continuar a ser mal-educado e, se conseguir provocar os espanhóis de forma a que eles invadam Portugal, basta copiar as técnicas do Zelensky.

segunda-feira, 7 de março de 2022

Podia ser pior

Até agora, a única surpresa no conflito Russa-Ucrânia foi a rapidez com que a opinião pública internacional se mobilizou para apoiar a Ucrânia, não só em termos de apoio moral, mas também através de transferências criativas de fundos. Nas redes sociais, as pessoas organizaram-se para acolher os refugiados russos, ultrapassando os limites burocráticos normais. No Airbnb, pessoas de todo o mundo fazem reservas de casas na Ucrânia como forma de transferir dinheiro rapidamente para os ucranianos. As organizações não-lucrativas também mobilizaram esforços rapidamente. Por exemplo, demorou um dia para a World Central Kitchen activar os esforços na Ucrânia para alimentar refugiados. Este é, sem dúvida, o maior valor das redes sociais e da Internet e já tinha sido evidenciado aquando da retirada desastrosa dos americanos do Afeganistão.

Talvez a maior arma que existe contra Putin seja a da informação, pois o apoio do povo russo depende do enquadramento dos factos e por isso Putin não só bane as redes sociais que não controla, como o Parlamento russo modificou a legislação para contemplar penas de prisão para quem disseminar informação que contradiz a versão oficial. Esse é o seu ponto fraco e quanto mais o conflito se arrastar, mais difícil será justificar o número de mortos russos, mais a versão que os militares russos em campo dão às suas famílias directamente como a conversa de um soldado russo com a sua mãe momentos antes de morrer ou ucranianos a recolher soldados russos e a facilitarem o seu contacto com a família. Os telemóveis são uma das armas mais poderosas que existe hoje em dia.  

De acordo com um relatório de fontes europeias e americanas noticiado pelo NYT, o governo chinês pediu à Rússia que adiasse a operação na Ucrânia para depois dos Jogos Olímpicos de Inverno, mas como em 2008, a Rússia invadiu a Geórgia durante os Jogos Olímpicos de Verão, que se realizaram em Beijing, o que não agradou aos oficiais chineses, talvez nem fosse preciso um acordo explícito. A China tem mantido uma postura neutra neste conflito, mas nos últimos anos tinha havido uma aproximação entre a Rússia e a China. A economia russa é mais pequena do que a economia do Texas, logo não há grande vantagem para os chineses sacrificarem as suas relações com o ocidente para ficar ao lado da Rússia. 

Até agora os EUA seguiram uma estratégia que evitasse o conflito directo com os russos, retirando antecipadamente forças armadas americanas da Ucrânia e avisando o resto do mundo dos riscos. Se Putin quisesse humilhar os EUA, a forma mais fácil teria sido não invadir e assim os americanos teriam sido caracterizados como uns exagerados -- o tal exagero que levou a que invadissem o Iraque sob George W. Bush. Ao não entrar em conflito directo com os russos, os americanos também limitam a máquina da propaganda de Putin, pois não há fotos de americanos a atacar russos. 

Os erros passados dos americanos serviram de guia para o actual conflito: para além da invasão do Iraque, queria evitar-se uma situação parecida com a da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, um falhanço estratégico de JFK em 1961 que levou a que a Rússia ganhasse mais influência em Cuba e tivesse mísseis nucleares apontados directamente aos EUA em 1962. Em vez disso, há décadas que a Europa e os EUA não estavam tão alinhados em termos de política internacional. 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

O conquistador

Depois de dizer que queria defender o direito de duas províncias ucranianas se manterem independentes, o Sr. Putin decidiu invadir a Ucrânia. Em 2014, tinha decidido anexar a Crimeia; em 2008, optou por dar cabo da Geórgia. Ou seja, acha-se um grande conquistador, à semelhança de nós portugueses. 

A Europa não fez nada para o impedir, pelo contrário, andou a aliciar a Ucrânia com uma possível entrada para a UE, o que levou à anexação da Crimeia. Concomitantemente, os americanos foram criticados por só saberem usar e abusar do seu poder militar, logo os EUA não têm nenhuma vantagem em interferir nas manobras de Putin, apenas avisam de que a situação não é muito boa. E daqui a nada começam a oferecer vistos aos refugiados.

Com ou sem invasão, Biden só vai durar um termo, logo nada mudou nos EUA. Siga para bingo...


quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Apertar o cinto

Durante uma conversa com um amigo meu, calhou falar na necessidade de os europeus apertarem o cinto, o que o meu amigo achava não ser difícil porque já estão habituados. Até podiam não fazer férias. Não sou tão optimista pela simples razão de os europeus já andarem a apertar o cinto há muitos anos e, mesmo assim, necessitam de se endividar e continuar a apertar o cinto cada vez mais. Depois há a agravante de o apertar o cinto ser cada vez mais difícil. Se se aperta muito, começa-se a partir alguns ossos.

Uma forma de apertar o cinto é pela imigração, pois acaba por reduzir os salários praticados no país para onde se emigra, o que permite produzir bens e serviços a custos mais reduzidos. Quem emigra recebe melhores salários do que no país de origem e quem vive no país receptor é beneficiado pelos custos mais baixos das coisas. A teoria é gira, mas a prática é mais complexa; no entanto, os ingleses são seres supimpas e fizeram o favor de ilustrar o conceito com o Brexit.

Mesmo assim, há sempre o receio de que estas coisas na Europa alimentem os nacionalismos e a instabilidade social e a paz que tem havido não perdure muito mais. Nota-se que a geração actual não tem grande conhecimento do preço da paz. Esse também foi outro tópico que falámos: ignora-se bastante a história e mesmo em termos de ensino, a qualidade do conteúdo está desactualizada.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Vai abrir

Passou um bocado despercebida, mas a administração Biden anunciou na Segunda-feira que vai suspender as restrições de entrada nos EUA a pessoas da UE (e do Reino Unido) que estejam vacinadas. O plano é normalizar as coisas em Novembro, o que, suponho, dá algum tempo para avaliar como a Europa se ajusta à rentrée em termos de pandemia.

Estou bastante curiosa para ver como é que os portugueses vão reagir a isto, dado que no início da pandemia vi muitas pessoas a pedir informações nos grupos do Facebook acerca de como emigrar para os EUA. Perante tanta insistência em obter informação, a minha hipótese é que muitos irão sair -- ou então já saíram para outras paragens.

O desemprego americano recuperou bastante desde o início da pandemia: chegou a estar quase nos 15% e agora encontra-se em 5,2%. Há um enorme desajuste no mercado de trabalho que está a fazer pressionar os salários mais baixos para aumentarem porque não há muitos trabalhadores interessados nos empregos disponíveis, nem os patrões conseguem encontrar empregados com qualificações que desejam, ou seja, os emigrantes terão bastantes oportunidades.

A União Europeia não está a recuperar tão rápido como se deseja. Só para se ter uma ideia, de acordo com uma publicação da União Europeia, em que usaram preços correntes convertidos para euros para calcular a porção do PIB mundial que cabia aos EUA e à UE, e passo a citar o original:

In 2018, the United States accounted for a 24.0 % share of the world’s GDP. Although the United States’ share in 2018 was 0.9 percentage points less than it had been in 2008, it moved ahead of the EU-27 whose share fell from 25.6 % in 2008 to 18.6 % in 2018. Note these relative shares are based on current price series in euro terms, reflecting market exchange rates.

Se usarmos os números do Banco Mundial, com as séries ajustadas pela paridade do poder de compra e a preços constantes em dólares internacionais de 2017, em 2008, a UE detinha 19,12% do PIB mundial; em 2019, estava em 15,25%; e em 2020, estima-se ter estado em 14,8%.

É uma tempestade perfeita.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Os surpreendidos

A eleição de Barack Obama inaugurou um novo paradigma na política internacional americana, mas talvez a mudança até tenha ocorrido durante a presidência de George W. Bush. Depois do falhanço das intervenções no Iraque e no Afeganistão, os americanos perderam o apetite por intervenções via conflitos bélicos, mas continuaram a apoiar intervenções humanitárias, que já vinham da presidência de Clinton. Por exemplo, o governo Bush teve algum sucesso na luta contra o virus do SIDA, que fez parte de um investimento crescente até 2010 em África (saúde, desenvolvimento, e segurança), e as tranferências para a América Latina continuaram uma trajectória ascendente de 1996 até aos cortes orçamentais da Grande Recessão.

Em termos de intervenções militares é que houve uma clara retracção: não houve intervenção na Síria depois do uso de armas químicas em 2013, contrariando a linha vermelha que Obama traçou em 2012; ficaram de lado quando o avião da Malásia foi abatido sobre solo ucraniano (2014); no mesmo ano, depois da Crimeia ser anexada à Rússia, também abdicaram de interferir. No seguimento da eleição de Donald Trump, a política não mudou em nada. O assassinato de Jamal Khashoggi, em 2018, veio à luz do dia por via do governo da Turquia, uma situação deveras confrangedora tanto para os países europeus, como para os EUA, que não demonstraram interesse em que se soubesse a verdade. A única missão mais arriscada ainda foi a caça a bin Laden, cujo assassinato foi bastante cirúrgico e não causou um novo conflito.

Ou seja, a saída do Afeganistão é congruente com a política international americana dos últimos 10 anos. Que os países europeus tenham saído antes e não tenham evacuado os seus cidadãos mais os trabalhadores locais que os auxiliavam é um falhanço dos europeus, não é um falhanço dos americanos; os americanos ficaram para trás a tratar da segurança tanto de americanos, como dos outros. Obviamente que o planeamente e execução da saída americana tresanda a incompetência e não é aceitável o que os americanos fizeram. Só que também não é aceitável que os europeus venham dizer que foram apanhados de surpresa por uma América que já anda em modo "não me meto mais nisto" há uns 10 anos.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Elisa destemida

No dia 30 de Junho, a Elisa Martinuzzi assinou uma peça na Bloomberg acerca do bailout do banco italiano Monte Paschi e especula que Mario Draghi não terá dito tudo o que era pertinente acerca do caso. Quando a intervenção no banco se deu, Mario Draghi trabalhava no banco central italiano.

Esta discussão sobre o que sabia e não sabia Mario Draghi e o que ele disse vs. o que não disse recordaram-me as polémicas em redor de Victor Constâncio, quando este estava no Banco de Portugal, que voltámos a visitar nas últimas semanas, mas achei estranho que tendo Constâncio o cargo que tem no BCE a imprensa estrangeira não tenha noticiado nada. É como se as notícias portuguesas não chegassem ao mundo.

Na peça da Elisa, achei engraçada esta passagem, que sublinhei no excerto seguinte:
"The financial shockwaves set off by the collapse of Lehman Brothers Holdings Inc. in September 2008 placed added pressure on Monte Paschi. The bank took to masking its burgeoning losses with a series of complex derivatives deals. Those transactions were hidden from public view until I later reported on them. Once they were disclosed, Monte Paschi had to restate its accounts twice.

In response, Italian prosecutors filed criminal charges against the bank, alleging market manipulation and regulatory obstruction, and two trials are ongoing. Prosecutors are seeking jail sentences for a group of former employees, including the ex-chairman and general manager. The lender itself reached a plea bargain."

Fonte: Elisa Martinuzzi, Bloomberg

quarta-feira, 22 de março de 2017

Jeroen Dijsselbloem, o frustrado

"Na crise do euro, os países do norte da UE mostraram-se solidários com os países em crise. Enquanto social-democrata, considero a solidariedade extremamente importante. Mas quem a exige, também tem deveres. Não posso gastar todo o meu dinheiro em aguardente e mulheres e a seguir ir pedir-lhe apoio".

Jeroen Dijsselbloem, traduzido por Helena Ferro de Gouveia, publicado no mural do LA-C

Não percebo por que razão os portugueses enfiaram a carapuça de gastarem o dinheiro em mulheres e aguardente. É que o Jeroen apenas disse que era um moço que precisava de pedir apoio, mas tinha vergonha de o pedir se antes tivesse gastado dinheiro em mulheres e aguardente. É óbvio que não se referia aos portugueses; se se referisse, não mencionaria aguardente, mas sim vinho.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Finlândia e Escócia

A Primeira-Ministra escocesa, Nicola Sturgeon, anunciou que, a partir de 1/1/2017, a Escócia, à semelhança da Finlândia, irá entregar uma caixa com bens básicos (roupas, fraldas, ferramentas de manutenção da higiene do bebé, preservativos para os pais, etc.) para o primeiro ano de vida de um bebé aos novos pais.

O programa não terá um alcance nacional imediatamente, mas irá começar a ser implementado em áreas piloto. O programa finlandês já dura há 80 anos e tem tido bastante sucesso. Uma curiosidade: a caixa de cartão onde os produtos vêm é usada pelos pais como berço do bebé durante os primeiros tempos. Na Finlândia, o programa é visto como um símbolo de que todas as crianças são iguais, independentemente dos recursos dos pais. Na Escócia, um dos objectivos do programa é mesmo uniformizar o início de vida das crianças, i.e., tentar colmatar as diferenças entre crianças de pais abastados e crianças de pais mais necessitados.

Achei o artigo do Independent acerca deste programa fascinante.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A disputa transatlântica

Os EUA vão multar o Deutsche Bank devido ao papel que teve na crise financeira de 2008, pois foi um dos bancos que andou a vender MBS (mortgage-backed securities). Parte do combustível que alimentou a crise do subprime veio da Europa porque muitos bancos europeus queriam os retornos das MBS, dado que presumiam que o risco era pequeno: se as coisas fossem ao ar contavam com o governo americano os amparar. Por enquanto, não se sabe muito bem quanto irá ser o valor final da multa que o Deutsche Bank terá de pagar; houve um número astronómico anunciado ($14 mil milhões), mas isso irá ser negociado -- o número de ontem já era $5,4 mil milhões.

Mas não é tudo. O Deutsche Bank está também a ser investigado por outra razão pelo Departamento de Justiça dos EUA e pela Financial Conduct Authority do Reino Unido: a agência do banco em Moscovo ajudou à fuga de capital da Rússia através de "mirror trades":
"A company would buy securities from Deutsche Bank in Moscow for rubles at the same time as another entity owned by the same people in an offshore place like Cyprus, would sell the same shares for dollars via Deutsche Bank’s London office. The shares would then be transferred between the entities, completing the circle. The trades spirited money out of Russia at $10 million to $15 million a clip, according to the report. The end-users of the service weren’t revealed. Mirror trades, which aren’t illegal, can be used to aid money laundering and tax avoidance, or to violate sanctions."

Fonte: Bloomberg

Onde estão as autoridades da União Europeia? O banco é alemão, devia ser regulado pelo BCE e pelo Bundesbank, mas quem anda a investigar estas transacções, para ver se estão relacionadas com lavagem de dinheiro ou fugas a impostos, são as autoridades americanas e britânicas. (Mas não é o único banco em sarilhos. Neste momento, está a desvendar-se o escândalo do Wells Fargo, em que os empregados do banco eram incentivados a vender a todo o custo e acabaram por criar contas falsas e abrir cartões de crédito não autorizados só para gerar receita e satisfazer as suas quotas. E a Morgan Stanley, uma multinacional financeira, sofre do mesmo mal... Ambos estão a ser investigados pelas autoridades americanas.)

Disse Willem Buiter na Bloomberg Surveillance*, na Sexta-feira passada, que, neste momento, se trava uma "disputa transatlântica" em que as autoridades americanas querem que os bancos tenham reservas de capital bem apertadas, mas as autoridades europeias preferem algo mais relaxado. Porquê a diferença de preferência? Porque os EUA crescem e estão confortáveis com um certo nível de risco controlado e por isso os seus bancos têm reservas mais altas do que os bancos europeus. A União Europeia está estagnada e não tem grandes perspectivas de crescimento, logo pressupõe-se que aumentar as reservas bancárias retiraria dinheiro da economia o que agravaria a estagnação; mas há também o risco de, outra vez, o dinheiro sair da economia de outra forma: os bancos europeus canalizarem dinheiro para os EUA porque oferece melhor rentabilidade, o que aumenta o risco para a economia americana e pode alimentar outra crise financeira porque os bancos europeus não têm reservas para aguentar estarem expostos a muito risco -- é esse o medo das autoridades americanas.

*Se ouvem podcasts, aconselho vivamente o Bloomberg Surveillance; é diário e dura 30 minutos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Double whammy

A expressão "double whammy" refere-se à ocorrência de dois golpes ou perdas ao mesmo tempo. Teve origem nos anos 40, nos EUA, e inicialmente referia-se ao desporto, sendo que a primeira referência escrita foi feita a baseball. Agora é uma expressão idiomática de uso corrente: "That's a double whammy! Ouch..."

Como se não bastasse que as yields da dívida portuguesa tivessem aumentado nos primeiros seis meses do ano, e a República tivesse de se financiar a um custo mais alto, temos agora que a CGD perdeu uns milhões de euros por causa de haver um custo mais elevado de fazer cobertura do risco do spread entre a dívida pública portuguesa e a dívida alemã. Isto é um double whammy para a carteira dos contribuintes.

Diz-nos a notícia que, no relatório da CGD, é indicado que muita da volatilidade se deveu ao voto do Brexit, mas olhando para o gráfico a olho nu não vejo que, antes de e imediatamente após a votação de 23/6/2016, tivesse havido um enorme salto na diferença entre as yields portuguesa e alemã; no próprio dia do voto até houve uma aproximação temporária. Parece-me que a tendência de divergência é muito anterior a essa data. Ora vejam: linha azul é Alemanha; laranja é Portugal.


Fonte: Bloomberg


terça-feira, 19 de julho de 2016

PIB Potencial

"Trump would be a disaster for innovation. His vision stands against the open exchange of ideas, free movement of people, and productive engagement with the outside world that is critical to our economy—and that provide the foundation for innovation and growth."

~ Carta aberta de empresários do sector da tecnologia dos EUA, no Huffington Post, 14/7/2016

Na semana passada, o grande tópico em Portugal eram as sanções por causa do défice excessivo. O défice estrutural depende do PIB potencial, não do PIB real, logo, como o LA-C argumentou no Observador, é um indicador que está sujeito a manipulações e pode ser o que os governos quiserem -- basta alterar os pressupostos do cálculo do PIB potencial.

Para os empresários do sector tecnológico americano, a força da economia dos EUA, ou seja, as causas do seu crescimento potencial são, essencialmente, intangíveis: troca aberta de ideias, livre circulação de pessoas, e um envolvimento produtivo com o exterior, ou seja, diplomacia (é verdade que há bastante margem para melhorar; mas, comparado com o governo de Bush, o governo de Obama é melhor). Os EUA possuem também um bom nível de confiança e uma boa reputação das suas instituições, que entretanto recuperou, apesar da crise financeira de 2008. Muito mais do que a infra-estrutura física, importa a forma com os americanos trabalham, se organizam, e a confiança que inspiram nos outros países. Tudo isso poderá ser ameaçado se Donald Trump for o próximo Presidente, dizem os empresários.

Este foi também um dos argumentos contra o Brexit, pois muita gente defende que o Reino Unido beneficia das relações comerciais que tem com a UE, apesar de a UE não ser exactamente uma organização bem gerida. Em Portugal, vemos o oposto, dado que Jerónimo de Sousa acha que Portugal beneficiaria se estivesse fora da UE e tivesse moeda própria. Catarina Martins também defende uma política de alienação dos parceiros da UE, sugerindo que Portugal deveria fazer um referendo para sair da UE, se esta decidisse impor sanções devido ao défice excessivo. Por seu lado, António Costa também gosta de fazer discursos em que coloca em causa a confiança das instituições portuguesas, seja em termos de compromissos assumidos pelo estado com o sector privado, seja em cumprir os compromissos que assumiu com o povo português.

Antes de o Presidente da República dar posse a este governo, António Costa comprometeu-se a assumir os compromissos supra-nacionais de Portugal e em dar estabilidade ao país; mas agora, que já é Primeiro-Ministro, acha que tais compromissos não devem ser honrados. E esta incerteza reduz o PIB potencial. Não sabendo os agentes económicos com que contar no futuro próximo, não há condições para as empresas e particulares poderem planear a sua vida.

Estes efeitos já estão a tornar-se visíveis no PIB real, pois o crescimento está a desacelerar e nada mudou na economia real a não ser o nível de impostos que, apesar de ter aumentado, não aumentou o suficiente para justificar toda a desaceleração do crescimento. A grande causa está, então, nas expectativas dos agentes económicos, a tal componente intangível do crescimento.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Haja graciosidade!


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Até que enfim...

Quando se deu esta coisa do Brexit, tive muitas conversas com a Sandra Maximiano na minha cabeça (eram mais monólogos meus, cheios de perguntas). Queria mesmo saber o que ela tinha a dizer sobre o assunto, mas não a incomodei com um email porque pensei que ela escrevesse uma peça no Expresso sobre o Brexit, analisando o assunto do ponto de vista da economia comportamental.

Uma das coisas que pensei é a questão da avaliação contingente, que, em economia ambiental e de recursos naturais, é um método que se usa muitas vezes quando tentamos dar um valor a bens que não são de mercado. Um cidadão pertencer à UE não é um bem de mercado, pois não é uma coisa que se possa comprar facilmente (se bem que haja países que permitem a cidadãos obter a nacionalidade de um país da UE, pode-se também obter cidadania por casamento, imigrar e esperar anos até nos qualificarmos para a cidadania, etc.).

Mas o meu ponto é que é um bocado difícil para as pessoas decidirem se vale a pena ou não, quando não têm uma boa noção dos custos e benefícios da sua decisão. Ou seja, mesmo se lhes fizéssemos a pergunta, contingente a um cenário, não conseguiríamos ter certeza de que a sua resposta verdadeiramente representava o valor que davam ao bem, pois, na altura da resposta, o cenário seria uma construção hipotética e as pessoas ainda não tinham sentido a consequência real. É mais ou menos isso o que aconteceu a algumas pessoas que responderam ao referendo.

A peça de opinião da Sandra já está no Expresso e eu gostei muito porque ela toca mesmo na questão crucial de que havia quem não soubesse as implicações do voto que fez. E ao ganhar o "Não", muitas pessoas perceberam melhor as consequências de estar, ou não estar na UE, ou seja, há mais informação na economia.

"Se um referendo é um ato democrático que dá voz a todos aceitando as preferências da maioria, a sua repetição pode ser um ato de grande coragem democrática e de defesa dos reais interesses dos cidadãos. E não seria algo inédito. A Dinamarca assim o fez quando o “Não” venceu com 50.7% dos votos o referendo a 2 de Junho de 1992 ao Tratado de Maastricht. Um ano mais tarde, após negociações que permitiram incluir 4 cláusulas de exclusão a partes do tratado, a Dinamarca votou sim num novo referendo.

Qualquer processo de decisão está envolto em emoções e racionalidade. Há quem decida com a cabeça e muitos há que decidem exclusivamente com o coração. É pena é que de entre os atuais arrependidos muitos não tenham tido a capacidade de antecipar o seu próprio arrependimento na altura de votar."


~ Sandra Maximiano, Expresso, 1-7-2016

Do not serve (by order of management)

Um restaurante em Notting Hill recusa-se a servir os políticos arquitectos do Brexit:

Meanwhile in Notting Hill #brexit #farage #ukip

A photo posted by Amanda Faye (@amesfaye) on