Ainda é cedo para deitar foguetes, mas parece que o desemprego terá atingido o seu pico máximo em abril ou em janeiro, consoante se corrija para efeitos sazonais ou não. Que haja juizinho para não matar à nascença o pouco que se conseguiu.
Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
O desemprego do Arménio e do Público
Foi hoje conhecida a taxa de desemprego mensal referente a junho, a qual é inferior em duas décimas de ponto percentual face ao mês anterior. Para o líder da CGTP, "o que se justificava era que face à época sazonal em que nos encontramos o desemprego descesse muito mais que essas duas décimas." Para além da redundância da "época sazonal", até se compreende que Arménio Carlos não tenha disponibilidade para ler a newsletter original do Eurostat. Agora já não se compreende que o jornalista do Público não tenha o mesmo cuidado. De uma vez por todas, o desemprego mensal constante na newsletter do Eurostat é ajustado à sazonalidade. A taxa de desemprego não ajustada é de 16,9%, inferior em três décimas de p.p. à taxa registada em Maio.
terça-feira, 23 de julho de 2013
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Sobre o segundo resgate, na RTPi
Sobre o segundo resgate, na RTP Informação, dia 8 de julho.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Minha Querida Neta Ana Laura:
Celebras
hoje o teu quinto aniversário. Já principia a desabrolhar em ti o botãozinho que
indicia a despedida da tua primeira infância. Ainda que não muito creditada em
altura, como teus Pais, sempre te revelaste uma criança que corre adiante da sua
idade. No íntimo e no secreto do raciocínio, ao invés, há muito que atingiste
uma medida invejável para a tua tenridade. Depressa continuarás subindo física
e mentalmente. Tens ainda de andar um certo tanto para empubesceres,
tornares-te uma senhorinha sem peias nem preconceitos, mas, como o tempo é maroto
e gosta das corridas à desfilada, lá chegarás num ápice. Bem gostaria o teu
Vovô que, nessa altura, estivesse ainda neste mundo, sentado ao computador, a
escrever-te mais uma carta de parabéns.
Tudo
quanto atrás ficou lavrado significa que arribaste a esta vida para largares e
te elevares em voo largo que não consigo neste momento interpretar. Mas auguro
uma ascensão plena. Se custa? Claro que custa muito suor a alcançar o que quer
que seja nesta vida. De outra maneira a vitória não tinha qualquer gozo. O
sabor do sucesso reside menos em alcançá-lo do que no caminho que se percorre
até a ele chegar. A vida é muito complexa, mas vale a pena vivê-la em
plenitude. É a única riqueza que nos é dada. O resto chega depois, e devagar, é
uma conquista contínua que requer força de vontade e transpiração abundante.
Sei que nada disto te atemoriza. Nem agora, nem no futuro comprido, que se
desdobra em passadeira vermelha à tua frente.
Pelo
que tenho vindo a captar da tua personalidade sou testemunha de que é muito vigorosa
e indomável. O teu não é tão categórico, que, por vezes, causa calafrios na
espinha de quem ele é endereçado. Sei-o por experiência própria!
A
minha esperança é que a tua robusta força de vontade continue a desabrochar
com a força indómita que te habita e te habilita para as provas a que a vida
te irá submeter… Um beijo repenicado da música que já vais balbuciando no
teclado do teu piano! ♫♫♫♪
Braga, 17 de Julho de 2013
Vovô Luís Cristóvão
terça-feira, 16 de julho de 2013
Françamente
Os franceses previram
que 2013 teria o Verão mais frio dos últimos 200 anos e tivemos uma torreira insuportável. Não me admiro. Tolos são os que
ainda acreditam em francesices como esta, Já o ano passado o
hexágono nos tinha prometido que François Hollande nos salvaria da
linha barrosã do draghismo-merkelismo e afinal saiu-lhes uma versão adocicada da austeridade.
Pela minha parte, assim
que tive conhecimento da previsão francesa de inverno em Agosto,
planeei férias com muita sombra e muita água para aliviar a
canícula que estava para chegar. Quando li a notícia portuguesa
sobre a antecipação do frio feita pelos meteorologistas franceses,
corri a comprar uma geleira espanhola, um chapéu de sol marroquino e
um ar condicionado japonês.
Os franceses são
óptimos barómetros de pernas para o ar. Anunciam chuva, sai-nos
calor. Quiseram liberdade e fraternidade, chegou a guilhotina. A
juventude parisiense pediu revolução, as urnas deram-lhes mais De
Gaulle.
A língua francesa foi
perdendo força de língua internacional e hoje praticamente só é
falada durante o Verão em aldeias portuguesas. O estruturalismo
francês foi perdendo força e hoje praticamente só é discutido
durante o Inverno em universidades americanas.
Claro, não desconheço
que a França contribuiu para uma melhor humanidade com os filmes de
Rohmer, os ensaios de Montaigne e os peitos de Laetitia Casta. E
também estou bem ciente do enorme contributo de pensadores franceses
para o surgimento da Sociologia. E não lhes perdoo.
Dúvida pouco metódica
Os encontros que os partidos andam a fazer destinam-se a criar um Governo de Salivação Nacional?
RAMALHO EANES PARA PRIMEIRO MINISTRO DE UM GOVERNO NOVO!
Pequena achega para que
a confusão política seja ainda mais confusa ou um pouco menos contusa, consoante
os gostos e critérios de cada um!
Sempre considerei a política uma arte
difícil e o seu bom exercício imprescindível para a sociedade! Não a dos
malabaristas ou contorcionistas circenses, cujo mérito ninguém poderá
contestar, pelo que serão sempre apreciados, com justeza, quer pelos dotes de
coragem, quer pela elasticidade corporal. Formaram-se, à sua própria custa, e
fizeram-se mestres de grande valia, sem recorrer à caldeirada à bolonhesa, nem
a equivalências e outras conveniências ou indecências… A arte que praticam para
granjear a vida tem tido muitos seguidores dentro da nossa arena política; porém,
são mais emperrados de musculatura, menos elásticos de corpo, que não de opinião
e grandes acrobatas da palavra armadilhada: galgam todos os obstáculos com muita
manha e intrujice, mas sempre de consciência tranquila… Portugal deve ser o
país do mundo que mais tranquilizantes
per capita consome. O ladrão rouba de consciência tranquila; o ministro
mente de consciência tranquila; o deputado dá o dito por não dito, sempre de consciência
tranquila; o presidente, abarrotado de cultura, diz que faz, mas faltam-lhe
poderes, só teve poderes como primeiro-ministro para mandar arrancar vinhas e
escaqueirar as pescas, por isso distribuiu agora três pilares, pilates ou pilatos
pelos três partidos do pacto: os pilares, para sustentar a dívida; os pilates,
para que os comparsas façam alongamentos no tapete; os pilatos para lavarem as mãos de tanta sujidade… O primeiro-ministro
fala em tom de bombardino, por vezes bombástico, sorri muito amarelo, quase
laranja, mas nem o presidente nem o partido a que ambos pertencem nele confiam;
mente muito, ou melhor, profere muitas inverdades… Todos eles se transformaram
nos funâmbulos da corda bamba da política.
Com a vigência do Novo Acordo Ortográfico, reconstruíram o seu significado
etimológico: de intervenção na polis, converteram-na na grandíssima pulhítica,
que, como as sete pragas do Egipto, desceram por sobre o país não se sabe até
quando...
Como não tenho nem nunca tive responsabilidades de cargos políticas (o que não quer dizer que seja irresponsável), tenho-as tão-só cívicas, lembrei-me, e acho que não foi mal lembrado, do General Ramalho Eanes, que binou na Presidência da República e é homem sério e honesto (basta recordar que recusou os retroactivos da sua reforma de presidente, um caso inédito neste país de polutos) para formar um novo Governo e a ele presidir. Estou já com os ouvidos a chiar de tanta bordoada que vou apanhar! No segundo mandato como Presidente da República todo o espectro partidário português votou nele. Não me lembra bem, mas acho que o MRPP, de Durão, também alinhou com os sociais-fascistas…Assim sendo, teria o consenso de uma faixa maioritária do Povo Português, mal representada na Assembleia da República, e esta, com certeza não lhe negaria o apoio. Derrubavam-se os três Pilares, Pilates e Pilatos. E, quem sabe, o famigerado rombo da Troika com o corte dos quatrocentos e setenta mil, etc., milhões… Só assim valeria a pena. E com a renegociação da dívida, que o malhadiço Povo Português já não aguenta mais. Com excepção de Ulrich, o banqueiro do aguenta. Aguenta!
Como não tenho nem nunca tive responsabilidades de cargos políticas (o que não quer dizer que seja irresponsável), tenho-as tão-só cívicas, lembrei-me, e acho que não foi mal lembrado, do General Ramalho Eanes, que binou na Presidência da República e é homem sério e honesto (basta recordar que recusou os retroactivos da sua reforma de presidente, um caso inédito neste país de polutos) para formar um novo Governo e a ele presidir. Estou já com os ouvidos a chiar de tanta bordoada que vou apanhar! No segundo mandato como Presidente da República todo o espectro partidário português votou nele. Não me lembra bem, mas acho que o MRPP, de Durão, também alinhou com os sociais-fascistas…Assim sendo, teria o consenso de uma faixa maioritária do Povo Português, mal representada na Assembleia da República, e esta, com certeza não lhe negaria o apoio. Derrubavam-se os três Pilares, Pilates e Pilatos. E, quem sabe, o famigerado rombo da Troika com o corte dos quatrocentos e setenta mil, etc., milhões… Só assim valeria a pena. E com a renegociação da dívida, que o malhadiço Povo Português já não aguenta mais. Com excepção de Ulrich, o banqueiro do aguenta. Aguenta!
sábado, 13 de julho de 2013
Reacções e Mercados
Por amor de Deus, parem de fazer análise política com base na volatilidade diária dos Mercados. Isso é ridículo. É evidente que os mercados, estando atentos a Portugal, ir-se-ão comportar num sobe-e-desce ao sabor dos mais pequenos eventos políticos. Faz parte da sua natureza. Nada disto nos diz como irão reagir os mercados no longo prazo, que é o que interessa.
A realidade é bem mais simples: os mercados não sabem qual é a solução governativa que, no quadro constitucional português, mais garantias dá de gerar um governo estável em Julho de 2014. E, no fim de contas, é isso que interessa.
Adenda
No facebook, um amigo, que trabalha directamente com este tipo de produtos no mercado secundário, acrescentou esta informação: Concordo, e acrescento que a liquidez das nossas OT Obrigações do Tesouro) em mercado secundário é tão pequena que estas grandes variações são feitas com volumes que nada significam para capacidade ou não do país se financiar no futuro.
Adenda
No facebook, um amigo, que trabalha directamente com este tipo de produtos no mercado secundário, acrescentou esta informação: Concordo, e acrescento que a liquidez das nossas OT Obrigações do Tesouro) em mercado secundário é tão pequena que estas grandes variações são feitas com volumes que nada significam para capacidade ou não do país se financiar no futuro.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
8 meses não chega?
A grave crise política que
vivemos foi desencadeada pela demissão de Vítor Gaspar e pela péssima escolha
para substitui-lo, a que se junta falta de coordenação com o parceiro de
coligação nessa escolha. A birra de Paulo Portas fez o resto.
Mas o que mais choca é que Gaspar já tinha
pedido a demissão duas vezes. A primeira das quais há 8 meses. 8 meses não foi
tempo suficiente para Passos Coelho preparar uma transição adequada? Teve 8
meses e parece que foi apanhado de surpresa. Isto é só incompetência?
Mas não há ninguém que lhes esfregue com as folhas de Excel na cara?
O único aspecto bom da crise política que vivemos é que os cortes adicionais de 4,7 mil milhões de euros que a tróica exige passaram a ser impossíveis de concretizar. Se antes já poucas havia condições políticas para os aplicar, agora estes cortes são verdadeiramente inexequíveis.
E ainda bem. Há uns tempos fiz um exercício considerando um multiplicador orçamental de 1,3. Pelos vistos, fui modesto. Economistas do Banco Portugal estimaram que em tempos de forte recessão como os actuais, no prazo de um ano, o multiplicador da despesa é 2. Valor que parece algo exagerado, mas a verdade é que está em linha com vários outros estudos internacionais. No pressuposto de que está correcto, levemos as contas até ao fim.
4,7 mil milhões de euros de cortes adicionais representam cerca de 2,85% do PIB. Considerando o multiplicador estimado pelo Banco de Portugal, este corte no orçamento provocaria uma queda no PIB 9,4mil milhões. Ou seja, cerca de 5,7%.
Só a queda no PIB provocaria um aumento da dívida pública de 125% para 132% do PIB. Adicionalmente, seria de esperar uma redução das receitas fiscais de cerca de 3,3 mil milhões. Possivelmente, estarei a exagerar na queda das receitas fiscais (35% da queda do PIB), mas a verdade é que também não estou a ter em conta a subida da despesa com subsídios de desemprego. Juntando todas estas contas, e admitindo que tudo isto é bastante grosseiro, reduziríamos o défice em cerca de 0.6 pontos percentuais.
Ou seja, com estes cortes, provocar-se-ia uma recessão brutal e sem precedentes, fazendo disparar o desemprego. Para no fim conseguir reduzir o défice público em menos de 1 ponto percentual do PIB e aumentar brutalmente o rácio da dívida pública. Seria uma loucura.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Reposição: e se nos limitássemos a passos de bebé?
Republico o artigo que escrevi no Público em 13 Outubro de 2012. Na altura, defendi um pacto, com força legal, entre os partidos do arco governativo que desse estabilidade suficiente para permitir (e simultaneamente obrigar) a que a redução da despesa, e a reestruturação necessária do Estado, se fizessem num prazo mais longo e não a correr. Na altura já eram conhecidos os primeiros números referentes ao défice de 2012 e estava-se no rescaldo da falhada tentativa de alterar a TSU. Sabe-se agora que também coincidiu com o primeiro pedido de demissão de Vítor Gaspar.
Penso que era uma boa ideia. Mas na altura, quando estávamos a 3 anos de novas eleições, não agora, quando vamos entrar em campanha eleitoral ao descobrir que estamos a 11 meses de eleições.
E se nos limitássemos a passos de bebé?
Quando foi anunciado o pacote de austeridade para 2012, assustei-me com a dimensão dos cortes. Juntando ao de 2011, eu perderia cerca de 25% do meu salário. Apesar de tudo, e acreditava nisto com convicção, pensava que se a terapia de choque permitisse ir além do acordado com a tróica, reduzindo o défice para menos de 4,5%, valeria a pena.
Sabemos os resultados: subiram-se diversos impostos e cortaram-se dois vencimentos aos funcionários públicos e reformados. Sequencialmente, o desemprego disparou para os 16% e reduziu-se o défice de 7,1% em 2011 para 6,3% em 2012.* Para reduzir o défice em 0,8 pontos percentuais era mesmo necessário tanto corte? Ou, pelo contrário, os efeitos recessivos foram tão fortes que a política seguida se derrotou a si mesma? Só não digo que não serviu para nada porque, de facto, o défice das contas com o exterior está quase anulado.
Para 2013, foram anunciadas medidas adicionais de um valor ainda desconhecido mas que ficará algures entre os 5 e os 6 mil milhões de euros. A história recente sugere que, na melhor das hipóteses, conseguiremos reduzir o défice de 6,3% para 5,5%, que o desemprego disparará para valores acima dos 17% e que o PIB cairá cerca de 2%.
Quem acredita que estes cortes draconianos são a política correcta, precisa de quanta evidência em contrário para concluir que estão erradas? No meu caso, os números para o défice de 2012 obrigam-me questionar as minhas certezas e a pensar em alternativas.
Políticas despesistas acentuariam o desequilíbrio externo. Uma política prudente seria manter a despesa pública e as taxas de impostos estáveis (fazendo os ajustamentos exigidos pelo Tribunal Constitucional). Com toda a probabilidade, o PIB pararia de cair em 2013 e as receitas fiscais cresceriam com o crescimento da economia. O crescimento económico seria maior se se obrigasse empresas com mercados protegidos a cobrar preços concorrenciais - de resto, é para isso que existem os reguladores sectoriais. A combinação do aumento de receitas fiscais, com algum crescimento económico, mesmo que sofrível, com alguns cortes que se pudessem fazer na despesa - redução de consumos intermédios, um corte feito com seriedade nos gastos com fundações e PPP e alguma racionalização de serviços públicos -, seria suficiente para fazer cair o défice em percentagem do PIB para um valor próximo do que vai ser obtido com os aumentos draconianos nos impostos. Se, a nível europeu, vier a ser criada uma taxa Tobin sobre transacções financeiras, estes efeitos serão maiores e compensarão algum excesso de optimismo da minha parte relativamente ao crescimento do PIB.
Apesar de corrigido o défice externo, convém não esquecer que tal aconteceu devido ao aumento do desemprego e queda de rendimentos de parte da população, que levou a uma quebra da procura interna e, portanto, das importações. Adicionalmente, o aumento das exportações ainda não está consolidado. Para garantir um equilíbrio externo e duradouro, é crucial que futuros aumentos da procura interna sejam resultado de aumentos das exportações.
Um empurrão adicional às exportações pode ser conseguido com a TSU como instrumento preferencial. O Professor Caldeira Cabral propôs uma queda significativa da TSU apenas para sectores sujeitos à concorrência internacional, o que teria impacto orçamental limitado. Mais tarde, quando houvesse condições orçamentais, poder-se-ia alargar a redução da TSU a toda a economia. Quer para garantir a aprovação da Comissão Europeia, quer porque é do nosso interesse a longo prazo, deve ficar absolutamente claro que esta diferenciação de impostos é temporária. A criação de linhas de empréstimos específicas para o apoio à actividade exportadora, podendo para isso usar-se parte dos fundos da tróica destinados à banca, seria também muito bem recebida pelas empresas. Se a Caixa Geral de Depósitos não é usada com este fim num momento de emergência nacional, então para que serve a Caixa nas mãos do Estado?
Para conter o aumento da despesa interna devem-se iniciar reformas estruturais na Segurança Social, que são inevitáveis, passando de um sistema de repartição para um sistema de capitalização. O aumento da taxa de poupança daí decorrente garantiria que a um crescimento do PIB corresponderia um aumento menos do que proporcional da procura interna.
Como seriam aceites internacionalmente estas políticas? É óbvio que todas estas medidas não podem ser seguidas à revelia da tróica. Adicionalmente, para ter credibilidade, seria necessário um pacto entre os três partidos do arco governativo que garantisse que a despesa pública não aumentaria durante um período alargado de tempo - 5 anos, digamos. Firmar-se-ia este compromisso na lei do enquadramento orçamental exigindo dois terços dos votos para ser alterada. Como forma de controlo, exigir-se-ia que cada Orçamento de Estado só entraria em vigor depois de ratificado pelo Tribunal de Contas, garantindo que a despesa orçamentada não excede a do ano anterior.
Se credível, o compromisso teria dois efeitos essenciais: (1) no curto prazo, travar-se-ia esta política que cria tanto desemprego e dar-se-ia a necessária estabilidade às empresas para investir; (2) no longo prazo, o Estado teria de redimensionar-se. Com a despesa pública estável em termos reais, o crescimento do PIB será suficiente para que, no fim deste período, a despesa pública represente menos de 40% do PIB, um valor bem abaixo da média europeia. A enorme vantagem de seguir uma política de pequenos passos é que se um deles estiver errado, não nos afastamos muito na direcção errada.
O consenso político é difícil de alcançar, mas ou se consegue agora ou nunca mais. Tem de se resgatar o "espírito" do memorando quando foi assinado - uma oportunidade para reforma - corrigindo medidas que falharam e garantindo que, havendo um compromisso a médio prazo sobre contenção da despesa, futuros governos ainda terão liberdade para fazer escolhas. Consensos e compromissos nalgumas áreas são a condição para que haja alternativas futuras noutras.
* Considero o valor de 7,9% para 2011, que corresponde ao défice sem a transferência dos fundos de pensões dos bancos corrigido dos efeitos da Madeira (0,4%) e do BPN (0,4%). Para 2012, sabe-se que no primeiro semestre o défice foi de 6,8%. O número de 6,3% é o que provavelmente se obteria sem medidas extraordinárias.
O escorpião, o sapo e a natureza das coisas
Pedir aos políticos que se deixem de politiquice, ou seja, que deixem de tentar ganhar eleições, é pedir aos políticos para irem contra a natureza das coisas.
Faz lembrar aquelas pessoas que, ao discutir economia, querem que as empresas aumentem salários porque sim — a produtividade vem depois —, querem que as empresas não maximizem os lucros, querem fixar preços máximos sem provocar escassez, só porque acham que os preços são demasiado altos e é bom se forem baixos e coisas do género.
Basicamente, pensam que se pode suspender a lei da gravidade apenas e só porque tal é conveniente. Temos é de desejar com muita força.
Grécia não é Portugal
A solução que Cavaco parece estar a propor é a que foi posta em prática na Grécia em 2011 - um governo com o apoio dos principais partidos e já com eleições previstas a menos de um ano. Mas o bónus de 50 deputados ao partido mais votado permitirá ao gregos dizer que "a Grécia não é Portugal" - se o BE e o PNR tiverem a mesma votação que o Syriza e a Aurora Dourada, será mais difícil formar um governo em Portugal do que na Grécia. -- Comentário de Miguel Madeira à entrada anterior.
Os modelos dos economistas
Há uma clivagem metodológica entre duas gerações de economistas académicos. Economistas da geração de Vítor Gaspar desenham soluções com base em modelos que apenas funcionam bem no Excel. Já economistas mais velhos, como Cavaco, são bons a encontrar soluções com base em modelos que apenas funcionam bem no papel.
A propósito da crise política que vivemos, no artigo que escrevi para o The Conversation, escrevi a dado passo,
On a positive note, in spite of the turmoil, the political system in Portugal is still working. All polls indicate that institutional parties should have no difficulties in forming a government at the next elections.
Parece-me que com a decisão de Cavaco, especialmente se esta se concretizar na forma de um compromisso de Salvação Nacional, isto poderá deixar de ser verdade. Portugueses descontentes com a governação deixarão de ter um partido institucional em quem votar. Poderá ser o caos político nas próximas eleições.
Se assim não for, então não há dúvidas de que o povo português tem muito mais bom senso do que os políticos que o governam.
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