terça-feira, 31 de julho de 2018

Génios et al.

Ora, tenho andado a praticar aritmética e a minha última descoberta é que 2018 menos 4 são 2014, que parece ser o ano em que os manos Robles decidiram comprar aquele prediozito, livrar-se dos inquilinos, e fazer obras. Nessa altura, o Presidente da CML era o actual PM Costinha, aquele génio político que nós admiramos e que só saiu de lá em Abril de 2015.

O mano Robles já se demitiu, mas agora não se demitam vocês do vosso papel de cidadãos e exijam respostas:
  • em que circunstâncias os manos Robles compraram o prédio?
  • qual a razão de a Segurança Social ter vendido o prédio por um valor tão baixo?
  • qual a análise de risco que foi feita para conceder o empréstimo para a compra do prédio e custo das obras?
  • como é que os manos Robles incentivaram os inquilinos a sair do prédio tão rapidamente?
  • como é que as licenças foram aprovadas tão rapidamente na CML?
  • o caso Robles é excepção ou regra na CML?
  • qual o valor do prédio declarado para efeitos de IMI?

Coisas assim... Andem lá, não sejam preguiçosos!

Até o Ben Bernanke levou tampa quando foi ao banco tentar renegociar o empréstimo da casa e ele cobrava $400 mil por discurso e tinha sido Presidente da Reserva Federal. E isto num país que elege o Trump para Presidente!

Banha de cobra branca

segunda-feira, 30 de julho de 2018

domingo, 29 de julho de 2018

Hope

It would be all too easy to start this post with "Hope is the thing with feathers", but that is exactly what occurred to me, after I realized that hope is when your Starbucks baristas do not call you M'am one morning -- a rather elusive definition. I am sure that it was not planned because all women are usually treated as M'am, as that is the norm in this part of the country, but I am hoping that maybe it was the fact that a woman in a Moon Taxi t-shirt and flip-flops on a Sunday morning should not be called M'am. Certainly, the next time I go to Starbucks during the week because I forgot to buy yogurt for breakfast, or I do not feel like eating anything for lunch, but I still have to eat and thus I roam to the place where I am most at ease, I will be called M'am. I realize the contradiction, but then I will be dressed for work and when I'm in my work attire, being a M'am is probably not a bad thing.

The other day, at that Starbucks, where I go to every Sunday morning for breakfast, as if it were a religious experience, one of the baristas asked me what I did: was I studying or working. I was practicing my Portuguese, I told him: I try to read a bit and then I also write. I wondered later why it would matter in what language I write or read when I answer a question about what I am doing? Furthermore, why is it that I want Portuguese when I am in the U.S. and English when I am in Portugal? I must conclude that I do not want to belong, to be defined by the place where I am and the easiest way to rebel is to go through the day in a foreign language when I can perfectly function in the native language of the people around me.

And so hope is that someone does not define me by how they define others.

Unicórnios à portuguesa

O Ricardo Robles pediu um empréstimo há quatro anos para comprar um prédio, que tinha um valor total de 347 mil euros, a meias com a irmã em que banco? Há quatro anos era 2014 e seria importante saber que análise de risco o banco fez para justificar este empréstimo; conhecermos o banco também nos diria se teve intervenção do estado, em que situação o banco está, etc.

Trata-se de um apartamento de 85 m2 com cinco divisões, na Avenida Praia da Vitória (zona nobre de Lisboa) cujo valor patrimonial é de 65.700 euros. No entanto, ao contrário do que acontece com os restantes imóveis declarados por Ricardo Robles, não é declarado ao TC qualquer empréstimo para a compra do apartamento.
~ Sol, 7/28/2018

Agora sabemos que tem um outro apartamento no centro de Lisboa que vale 65,7 mil euros. Sabem dizer-me onde posso encontrar uma coisa destas à venda, que deve ser mais parecida com um unicórnio do que com um apartamento? É que eu também queria comprar um se existisse... (Eu percebo que o valor declarado pode não corresponder ao valor de venda, uma das idiosincrasias do sistema de impostos português.)

O caso de Ricardo Robles é parecido com o caso de Sócrates: gasta muito mais dinheiro do que os seus rendimentos justificam. Quantos mais haverá como eles? Será por isso que não nos querem revelar a lista de devedores da CGD?

sábado, 28 de julho de 2018

INTJ

Quando estava em Liverpool, fui jantar com dois colegas, um deles escocês, com um sotaque muito forte, mas uma pessoa super-divertida. Depois recordei-me que tinha tido uma conference call com ele e com o resto da equipa e eu lhe tinha feito uma pergunta à qual ele tinha respondido "That is a brilliant question!" O meu chefe, que também estava na chamada, deu uma gargalhada sonora. Alguns dos colegas olham para mim e dizem-me que não percebem nada do que eu digo porque reparo em coisas que lhes passam ao lado: "You're way up there", pois é, ando um bocado nas núvens.

No jantar, o colega escocês perguntou-me que tipo de personalidade era a minha. É INTJ e, pronto, está explicado, diz-me ele. Cerca de 2% da população é INTJ, mas em mulheres, o INTJ é raro: apenas 0.8% da população são mulheres INTJ (há 16 tipos de personalidade, logo se fossem distribuídos uniformemente, 6,25% da população cairia em cada tipo e, nesse caso, deveria haver um pouco mais de 3,125% de mulheres INTJ porque mais de 50% da população são mulheres).

Os INTJ são os que esperam sempre o pior, curiosos, calculistas e planeiam a longo prazo como se a vida fosse um tabuleiro de xadrez, são simultaneamente idealistas e cínicos, arrogantes, muito sarcásticos e têm um humor negro, reprimem as emoções, não gostam de conversa fiada e preferem amizades com mais profundidade, são completamente incompetentes romanticamente, e têm muitas contradições que na cabeça deles não as são. Ah, e desistem do que gostam... Uns tipos supimpa, portanto!

Uma das minhas contradições pessoais é gostar tanto de Portugal e, no entanto, ter saído. E passo muitas vezes a perguntar-me" "mas que se passa contigo, Rita, porque é que és assim? Se gostas tanto, porque é que não estás lá?" Eu sei a resposta, claro. Uma das razões é Portugal ser demasiado homogéneo: as pessoas são incentivadas a não sair muito dos eixos. E vocês dizem-me "Mas, Rita, olha este Robles, que saiu dos eixos e comprou o tal apartamento barato para o vender caro?!?" Meus caros, o Robles teria saído dos eixos se não tivesse feito nada de mal.

É normal, em Portugal, quem está em posições de poder aproveitar-se delas e isso é tolerado pela população, é o paradoxo "Rouba, mas faz!" Conflitos de interesse é a norma e os portugueses bem podem ir para o Facebook dizer "Este país não é para gente honesta.", mas há quanto tempo se passa isto e ninguém faz nada para mudar o sistema? Nem sequer votam.

Ultimamente, tenho andado com aspirações políticas e penso que, quando me reformar, vou para Portugal candidatar-me a Presidente da Câmara de um sítio qualquer, mas depois noto que é o meu INTJ a falar. O mundo em que os INTJ vivem é muito fantasioso e perfeito, muito acima da realidade, e a realidade é que, em Portugal, ninguém me elegeria para Presidente da Câmara de nenhum lado: não sou desonesta, nem suficientemente incompetente, e não sou trafulha para usurpar o poder. E, pronto, já desisti...







sexta-feira, 27 de julho de 2018

Souvenir

All I need is
Co-ordination
I can't imagine
My destination
My intention
Ask my opinion
But no excuse
My feelings still remain

~ OMD, Souvenir

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Má memória

Um dos meus colegas americano, talvez uns 15 anos mais velho do que eu, na Sexta-feira, lamentava-se da sua fraca memória, não se recordava de nada do que lhe tinha acontecido há muito tempo. O que é muito tempo não sei, mas eu gabava-me que me lembrava da infância, em particular de alguns episódios bastante traumáticos que me aconteceram, como quando deixei de me poder balançar dos braços dos meus pais por ficar demasiado alta. Era uma das coisas que eu mais gostava de fazer e assim, de um momento para o outro, acabou sem qualquer aviso. Não mais recuperei dessa perda...

Mais recentemente, ainda me recordo das minhas leituras na escola e comecei a pensar nelas hoje quando ouvia o Governo Sombra durante o meu passeio vespertino. À medida que ouvia o programa fiquei com um sabor muito amargo porque me senti completamente anormal. Eles falavam de Eça de Queiroz, Almeida Garrett, e Camilo Castelo Branco, os grandes da nossa literatura, mas eu não percebi o destaque. Depois comecei a elencar na minha cabeça quem eu tinha lido, se bem que, quando eu era miúda, o que me torturava um bocado era exactamente o que eu não lia: Cesário Verde, Camilo Castelo Branco, Antero de Quintal, Alexandre Herculano... Bem sei que poderia ter lido por conta própria, mas sinceramente não me ocorreu porque estava mais interessada em ler a Just Seventeen e a Smash Hits.

Que li eu, então? (Antes de começar a minha lista, tenho de vos dizer que fiz o ensino secundário em três escolas diferentes e frequentei a área C.) No sétimo ano, lemos o "Romance da Raposa" de Aquilino Ribeiro. Não achei grande piada, mas lembro-me da minha professora de português me elogiar nas aulas porque notou que eu tinha lido o livro. Não compreendi o porquê de voltar a ler Aquilino Ribeiro no oitavo ano com "O Malhadinhas", que também não apreciei por aí além, mas tenho ambos estes livros aqui comigo. (Há mistérios que desconheço apesar de ter sido parte integrante dos mesmos.) No oitavo ano, também lemos "A Crónica dos Bons Malandros" do Mário Zambujal -- muito giro e não sei por que razão não trouxe esse livro comigo.

Já o nono ano foi dedicado a Gil Vicente e a Camões (sonetos e Lusíadas); não me recordo de muito mais do que isso. No décimo ano foi mais Lusíadas e Os Maias do Eça. Gostei muito d'Os Maias e desenvolvi uma pequena paixoneta pelo Ega: "Je suis Mephisto..." Também tenho cá e está na minha lista de livros que tenho de voltar a ler.

No décimo-primeiro ano, lemos "As Viagens na Minha Terra" de Garrett. Não me tocou por aí além, apenas achei curiosa a ideia de alguém cegar por ter chorado demasiado. Não me recordo de lermos mais nenhum livro, apenas textos avulso do nosso livro de leitura. No décimo-segundo ano não tive português, mas em inglês lemos alguns textos de Shakespeare e "The Great Gatsby" do F. Scott Fitzgerald. Um dos meus primos em segundo-grau leu "The Pearl" de Steinbeck, em vez do Gatzby, e decidi também ler durante as férias.

Não me senti prejudicada por ter de ler estas coisas; pelo contrário, se o ensino fosse apenas aquilo de que gostávamos, então, sim, penso que seríamos prejudicados. E para mim seria livros da Disney, do Cebolinha, e revistas de música pop. Por acaso, li vários livros da Sophia de Mello Breyner Andresen por iniciativa própria.

Penso que é curioso que não tenhamos lido autores não-portugueses nas aulas de Português, mas a coisa que achei mesmo deficiente no ensino da nossa língua materna foi a escrita criativa. Na escola primária, gostava muito era de escrever e senti grande falta quando deixámos de fazer as nossas redacções, mas eu também já estava farta de escrever sobre os mesmos tópicos: o Outono, o Inverno, a Primavera, as Férias, o Natal, etc. A PGA para mim até foi um grande prazer.

Vir estudar para os EUA e ir à livraria da universidade e encontrar "n" livros que nos ensinavam a escrever e ter aulas em que tínhamos de fazer relatórios sobre artigos ou sobre tópicos relevantes à cadeira era para mim ouro sobre azul. Quando fiz a tese de doutoramento, um dos meus professores perguntou-me quantos rascunhos tinha feito. Eu respondi que aquele era o primeiro e ele disse-me que eu tinha jeito para aquilo. Aliás, nos EUA, os meus professores achavam que eu escrevia bem e compreendia o que lia.

Em Portugal não era e não é assim: não tenho jeito para nada, nem para esquecer que li Mário Zambujal.

domingo, 22 de julho de 2018

Arte longa, vida breve

Não é diferente do que aconteceu em Houston de, no início, não ter pessoas com quem ir a museus. Talvez essa seja a situação ideal -- não ter pessoas -- porque todos nós temos um ritmo diferente de ver as coisas e acho intrusivo que tenhamos de convergir para um ritmo comum. Quer dizer, não julgo intrusivo da parte dos outros, mais da minha parte porque sou bastante lenta e deambulo bastante, mas também sou bastante acomodatícia, logo adapto-me bem ao ritmo dos outros.

Uma amiga perguntou-me, na Sexta-feira, o que ia fazer no fim-de-semana e respondi-lhe que ia ao Brooks, um dos museus de Memphis, o qual apenas visitei uma vez, quando houve uma exposição de gravuras do Salvador Dalí; interessava-me ver as de "Alice no País das Maravilhas". Da colecção permanente, apenas me recordava de um quadro de William-Adolphe Bouguereau. Gosto do trabalho dele, especialmente de "O Primeiro Beijo", em que Cupido beija Psique, versão infantil. Esse quadro se fosse feito hoje, seria um escândalo. A mitologia é um escândalo, como a escultura de "O Rapto de Proserpina", de Bernini, que à primeira vista parece deslumbrante -- como é possível a um pedaço de mármore parecer mais vivo do que a maioria das pessoas que se encontra na rua? Mas depois há os que, quando sabem do que se trata, acham uma desgraça, como se fosse um elogio à violência contra as mulheres.

É uma visão um bocado optimista que apenas as mulheres fossem alvo de violência. A mitologia é, acima de tudo, muito democrática e o que não falta é violência contra homens, mulheres, e crianças. Se calhar estas histórias revertem de um tempo em que o mundo era extraordinariamente violento e talvez a história oral não servisse de ode à violência, mas de alerta contra a violência: se não te portas bem, os deuses castigam-te; se és muito atraente, os deuses cobiçam-te... Conclusão, não dês nas vistas e talvez te safes.

A arte serve de memória colectiva, de reflexão. Nem tudo o que parece é e, por vezes, há coisas que são umas coisas agora e tornam-se coisas diferentes mais tarde. Ou talvez o que as coisas são não tenha nada a ver com as coisas em si, mas sim connosco. Fui ao Dixon depois do Brooks e no jardim há uma escultura de Rodin: os três homens que estão no topo de "As Portas do Inferno". São figuras de homens fisicamente fortes, mas contorcidos em dor. O que me cativa são as suas mãos: seis mãos e quase todas têm os dedos como que a formar uma mudra. A procura da paz interior, mesmo quando tudo em redor os oprime.

Mas talvez seja só eu que veja isto e quando Hipócrates disse que a arte é longa e a vida curta, não estava a falar do tempo que dura uma versus a outra, mas sim da multitude de experiências de uma e de outra: a nossa vida está reduzida a ser vista à luz da nossa experiência; já a arte é vista pela experiência de cada um, e qualquer uma peça inspira algo muito mais longo do que qualquer uma vida.




Foi só oral...

Clinton: "I did not have sexual relations with that woman."
Trump: "[...] your favorite President did nothing wrong!"

sábado, 21 de julho de 2018

Four great motives

I think there are four great motives for writing, at any rate for writing prose. They exist in different degrees in every writer, and in any one writer the proportions will vary from time to time, according to the atmosphere in which he is living. They are:

(i) Sheer egoism. Desire to seem clever, to be talked about, to be remembered after death, to get your own back on the grown-ups who snubbed you in childhood, etc., etc. It is humbug to pretend this is not a motive, and a strong one. Writers share this characteristic with scientists, artists, politicians, lawyers, soldiers, successful businessmen — in short, with the whole top crust of humanity. The great mass of human beings are not acutely selfish. After the age of about thirty they almost abandon the sense of being individuals at all — and live chiefly for others, or are simply smothered under drudgery. But there is also the minority of gifted, willful people who are determined to live their own lives to the end, and writers belong in this class. Serious writers, I should say, are on the whole more vain and self-centered than journalists, though less interested in money.

(ii) Aesthetic enthusiasm. Perception of beauty in the external world, or, on the other hand, in words and their right arrangement. Pleasure in the impact of one sound on another, in the firmness of good prose or the rhythm of a good story. Desire to share an experience which one feels is valuable and ought not to be missed. The aesthetic motive is very feeble in a lot of writers, but even a pamphleteer or writer of textbooks will have pet words and phrases which appeal to him for non-utilitarian reasons; or he may feel strongly about typography, width of margins, etc. Above the level of a railway guide, no book is quite free from aesthetic considerations.

(iii) Historical impulse. Desire to see things as they are, to find out true facts and store them up for the use of posterity.

(iv) Political purpose. — Using the word ‘political’ in the widest possible sense. Desire to push the world in a certain direction, to alter other peoples’ idea of the kind of society that they should strive after. Once again, no book is genuinely free from political bias. The opinion that art should have nothing to do with politics is itself a political attitude.



~ George Orwell: ‘Why I Write’
First published: Gangrel. — GB, London. — summer 1946.
Reprinted:
— ‘Such, Such Were the Joys’. — 1953.
— ‘England Your England and Other Essays’. — 1953.
— ‘The Orwell Reader, Fiction, Essays, and Reportage’ — 1956.
— ‘Collected Essays’. — 1961.
— ‘Decline of the English Murder and Other Essays’. — 1965.
— ‘The Collected Essays, Journalism and Letters of George Orwell’. — 1968.

Vestir-se e despir-se

No sítio onde trabalho há um código de vestuário: temos de nos apresentar de forma profissional. No entanto, ninguém liga muito à letra do que é aparência profissional. Há algumas senhoras que se vestem como teenagers e um dos meus passatempos é olhar para elas e ver que artista pop gostavam quando eram novas. Por exemplo, houve uma senhora, que já não vejo há tempo, que se vestia e tinha um corte de cabelo como a Tiffany, aquela que cantava "I think we're alone now..." Outras são mais modernas e em vez de música talvez sigam blogues de moda, nos quais mangas com folhos e ombros descobertos estão muito em voga.

O que eu gosto mesmo é saias compridas e também ando entusiasmada com vestidos e bastante cor. Não aprecio fatos, nem saias travadas, o que é problemático quando vou a entrevistas de emprego. Por exemplo, para a entrevista para este emprego, que foi em Fevereiro -- Inverno, portanto --, levei umas calças de fazenda de lã, uma camisola de caxemira, e um casaco comprido de fazenda de lã vermelho com flores brancas (um tecido italiano). Quando uma amiga minha me viu depois da entrevista disse-me que nunca se vestiria assim para uma entrevista, preferia ir de preto. Eu suponho que, se eu vestisse uma coisa da qual eu não gostasse, ficaria mal-humorada e tal iria reflectir-se na minha cara durante a entrevista. Em vez disso, como adoro aquele casaco e faz-me mesmo tão feliz, suponho que conversar comigo quando visto se torna mais agradável.

Esta semana no trabalho algumas das coisas que usei foram um vestido maxi amarelo que adoro; um vestido curto de seda, muito colorido, combinado com umas calças de perna larga; uma saia maxi com folhos com uma túnica de malha. São tudo peças das quais eu gosto muito e me fazem sorrir. Os meus colegas devem pensar que eu sou meio-maluca com as minhas escolhas; ou talvez não, porque frequentemente ouço comentários a dizer que gostam de uma peça ou outra que eu estou a usar.

No entanto, fiquei surpreendida com um comentário que não esperava. Uma colega perguntou se eu andava à procura de homem. Fiquei tão desconcertada com aquela observação, com aquele sabor amargo na boca -- não acho que ser mulher seja uma limitação, mas é como se algumas mulheres vivessem em função dos homens. E dizerem-me isto logo a mim que sou tão arrogante e narcisista e gosto tanto de ser assim.

Para além disso, uma mulher deve vestir-se para ela e despir-se para os outros.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Vontade de desistir

Está a trovejar lá fora e tivemos um alerta de calor -- amanhã irá ser pior, com a temperatura a chegar aos 40 graus. Mas hoje pensei que talvez fosse bom começar a organizar os meus livros, só que apetece-me desistir. Coloco-os nas prateleiras e penso que não pertencem ali porque em Houston eu tinha-os num sítio diferente. E, às vezes, olho para alguns livros que ainda estão juntos como estavam na casa anterior e por, um segundo, penso que regressei.

Comprei outro livro de Eugénio de Andrade no mês passado; mas, quando vou ao quarto onde tenho os livros de poesia para o arrumar, não encontro os outros. Não, os livros do Eugénio de Andrade estão sempre no meu quarto -- os meus preferidos dormem comigo, sem paredes entre nós, e a uns passos de uma carícia.

Nesta última viagem a Portugal comprei mais livros, muitos mais do que conseguirei ler, mas dá-me um enorme conforto pensar que, se eu morresse de repente, iria ficar um monte de livros em português nos EUA. Seria talvez o meu melhor legado...

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Ternura

Depois de escrever o último post, apeteceu-me ouvir o Telepatia da Lara Li. O que é que tem uma coisa a ver com a outra? Nada, mas a minha cabeça funciona assim e eu gosto. Não sei se já vos tinha dito que há uns anos, vi "O Lugar do Morto" no YouTube e gostei muito. (Podem falar mal dos americanos, mas viva a tecnologia americana, mesmo quando a UE a multa.) Depois de ver o teledisco, fui procurar a Ana Zanatti no Google porque nem sabia se ainda era viva. Encontrei a entrevista que deu ao Observador em 2016 e fiquei a saber do livro que escreveu, "O Sexo Inútil"; tenho de comprar um dia que vá a Portugal.

Um dos tópicos abordados na entrevista é o afecto em público entre casais homossexuais, o que até é uma questão bastante premente agora, depois de um casal de homens ter sido agredido em Coimbra há dias. Mas não era de Portugal que vos queria falar. Há uns meses, depois de ir ao massagista, atravessei um parque de estacionamento aqui em Memphis (área de Cordova) para ir a um restaurante vietnamita (o normal teria sido ir de carro, mas eu gosto de viver perigosamente). Pelo caminho passei à frente de um cinema e vi um casal de homens acariciar-se em público. Bem sei que devia ser uma coisa normal à qual eu não fosse sensível, mas emocionou-me poder presenciar tal acto e senti-me orgulhosa que se sentissem à vontade de o fazer à minha frente; é como se eu fizesse parte da sua cumplicidade. Isto no Tennessee, que é Republicano que se farta. Ah, e eram dois homens negros. Mesmo lindo, pessoas...

Conservação de livros

Em 1999, o meu orientador decidiu que eu devia fazer uma cadeira de Conservação de Solo e Água e foi com essa cadeira que completei o mestrado de Economia Agrária na Primavera de 2000. Era a terceira cadeira esquisita que ele me mandava fazer: primeiro foi Ecologia e quando ele me mandou matricular-me na dita fiquei horrorizada porque eu já não tinha Fisico-Química desde o oitavo ano. Ainda por cima, eu fui para Economia porque não dava mesmo nada para Fisico-Química e agora saia-me o tiro pela culatra.