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sábado, 4 de dezembro de 2021

Literalmente, um rabo gordo

A "literalidade" é capaz de ser um dos meus maiores defeitos, mas não acho que seja mesmo defeito, é apenas uma característica do meu cérebro, e muitas vezes quando ouço alguém falar, ou até quando leio, não percebo o que é dito. Depois há ainda outra dificuldade porque, à medida que o mundo se torna global, mesmo global, no sentido em que conhecemos e convivemos com pessoas de sítios muito diferentes, com quem podemos ter uma língua em comum, mas significados diferentes, a possibilidade de falhas na compreensão aumenta. Ruído é tudo o que impede a compreensão, dizia o meu livro de português do quinto ano de escolaridade.

Estava numa amena cavaqueira com uma amiga brasileira e deparei comigo muito encalhada na conversa. O tópico era homens e sexo, logo reconheço que estou em desvantagem -- claramente -- porque desde que mudei de Portugal, decerto que a língua mudou nestas conversas e depois há o detalhe de sermos de dois países diferentes. Ela falava em namorar e eu imaginava os idílios amorosos da minha juventude, se calhar mais inspirados pelo Camões, em que os elementos do casal olhavam um para o outro e o mundo estendia-se a seus pés. ã medida que a conversa fluía, salvo seja, percebi que o namorar dela era o que eu chamava de foder porque, lá está, sou literal.

Hoje de manhã, acordei a pensar que havia muito ruído na conversa. Se calhar, mal apanhei o fio à meada, o que inspirou aquele suspiro de resignação como se vê nos filmes. Há mais de 20 anos, suspirei assim porque a bagageira do meu carro estava cheia de tralha, o que confessei ao meu namorado:

Eu: "I have so much junk in my trunk!"
Ele: "Don't ever say that again."
Eu: "Why not? It's the truth."
Ele: "It means you have a fat ass."
Eu: "Oh..."

domingo, 10 de outubro de 2021

Doce

Passei os últimos dois dias a desenferrujar algum do meu português e tem sido bastante bom. Na Sexta-feira à noite, o convívio durou das 10 das noite até quase às 5 da manhã, noitadas destas eram normais durante a faculdade, mas agora já duvidava que aguentasse até à meia-noite. Parece que sim e bem bom, como cantavam as Doce.

A noite começou com uma digressão pela música portuguesa, com músicas e bandas clássicas, e eu a professar a minha eterna admiração pelos GNR, indiscutivelmente a melhor banda portuguesa. Também houve fado porque nós somos os portugueses a sério, aqueles que saíram e descobriram o mundo. Pelo meio, conversámos de Anna Akhmatova, uma poeta russa que descobri há pouco e que ando a digerir. Surpreendentemente, não foram os meus amigos russos e ucranianos que me falaram dela. Também veio à baila a Arooj Aftab, uma cantora paquistanesa, que tem uma voz de sonho. Estas tertúlias em que se fala de arte, filmes, música, literatura, política, história... são das coisas que mais aprecio. Mas é tão bom ter alguém com quem trocar ideias em português.

Prometeram-me um bacalhau à Brás que aguardo ansiosamente, pois nunca fiz. Recordo-me da minha mãe fazer isso e também bacalhau à Gomes de Sá, mas o único bacalhau que eu costumava cozinhar era o com natas. Sempre achei as outras receitas intimidantes. Os meus amigos portugueses falam frequentemente das comidas e bebidas que trazem de Portugal, mas eu quase que nunca trago coisas para comer. Invisto mais em artesanato e livros, logo rodeio-me de coisas portuguesas não-comestíveis. A maior parte do Portugal comestível que eu consumo é comprado nos EUA. Achei engraçada esta diferença.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

A cura da água salgada

Tive hoje a consulta de três semanas pós-operação. Tudo parece bem fisicamente, mas desde há a ultima Quarta-feira, que tenho tido bastantes dores. Penso que o problema foi eu ter comido algumas coisas geladas. No início, coloquei uma toalha húmida quente, mas como não passou a dor toda, tive a brilhante ideia de mudar para gelo, o que causou que doesse ainda mais. As indicações do pós-cirurgia diziam para mudar de gelo para quente a partir do terceiro dia, mas pensei que depois de passar o inchaço dava para meter gelo. Pensei mal...

Na Sexta-feira passada enviei um SMS para o médico, que me disse que meter gelo só piorava. Tinha de meter algo quente e também podia bochechar com água morna com sal, para além de tomar analgésicos. Ora tenho cá em casa sal português (Vatel, claro) e foi o que usei. Ajudou imenso. Por cima da minha cama, tenho um poster com uma citação da Isak Dinesen (Karen Blixen): "The cure for anything is salt water: sweat, tears or the sea." Confere...

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Foi ao banco

Foi publicada no Diário da República, no dia 5, a criação do Grupo de Projecto Património Fotográfico Nacional  que precede a criação de um Museu Nacional da Fotografia. 

Não foi especificado como é que se vai pagar esta obra, mas uma possibilidade é o Primeiro Ministro se ter despachado na sua ida ao banco. Está bem pensado que, no meio de uma pandemia, haja a preocupação de se preservar o espólio fotográfico e o disponibilizar num museu. Decerto que os portugueses desempregados apreciarão terem mais este entretém onde passar o seu tempo. 

O local mais adequado para a localização desta obra seria a localidade com maior taxa de desemprego de Portugal, pois assim criar-se-iam alguns postos de trabalho e promover-se-ia o turismo porque há bastantes portugueses interessados em visitar um museu de fotografia. 

Por exemplo, o Centro Português de Fotografia, no Porto, está sempre bastante vazio porque as pessoas receiam que seja um sítio tão movimentado que nunca lá aparecem. Mesmo os turistas que se interessam por literatura e que não se importam de fazer fila e até pagar para visitar a livraria Lello para comprar um livrito para ler no avião têm tanto receio da popularidade do CPF, que fazem o supremo sacrifício de não visitar a cela onde esteve preso o Camilo Castelo Branco. 




segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Mais vale

Mais vale a busca infeliz do que um destinozinho de pseudo-felicidade, que nos reduz a uma coisa rasa, frívola, e inconsequente. Alimente-se a ilusão e procure-se a profundidade que nos afoga em emoções e desejos impossíveis. Sinta-se plenamente, mesmo sem sentido algum porque nada tem ou pode ter sentido. Nada pode ser sentido a não ser aquilo que buscamos indefinidamente.

~ 25/3/2016

domingo, 1 de setembro de 2019

Histórias

No evento de ontem da minha vizinhança, uma festa ao ar livre num dos pequenos parques da nossa aldeia de mais ou menos 100 casas, confessei a uma vizinha que tinha a minha casa ainda desorganizada e nem todas as divisões estavam mobiladas. Ela respondeu que na casa dela também não estavam todos os quartos mobilados, mas há uns três anos ela tinha decidido adoptar o minimalismo e gostava muito de não ter muita tralha, isto porque já se tinha mudado umas seis vezes e dava muito trabalho mudar tudo. Depois sugeriu-me que comprasse mobília na Restoration Hardware. Mas não há em Memphis, disse-lhe; mas há em Nashville, respondeu-me. E há online.

Na altura senti o universo parar porque fiquei sem resposta imediata, mas ocorreu-me dizer que gostava mais da Pottery Barn. Realmente, gosto mais da Pottery Barn e não é que desgoste da Restoration Hardware, mas aquele estilo não é o meu, nem sequer se encaixa bem no meu porque eu gosto de tralha, gosto de livros, de louças, de muita cor, e o RH é um estilo beige monocromático. A mobília é enorme e parece-me pouco confortável porque sou muito pequena.

Ir a uma loja e comprar toda a mobília também não se coaduna com a minha ideia de viver porque gosto de coleccionar coisas e de ter uma história para o que tenho. Onde é que arranjaste esse banco, Rita? Fui eu que fiz no sétimo ano, na aula de madeira. E essa secretária estilo mid-century modern? Um Sábado, em Fayetteville, por volta de 2005, regressava do Farmer's Market, quando vi que uma vizinha estava a ter um "garage sale". Fui lá ver o que tinha e comprei a secretária por $40, é Drexel de 1957. Anos mais tarde vi online que a dita secretária é um design de John Van Koert e cheguei a vê-la à venda por mais de $2000 porque entretanto o estilo mid-century modern entrou em voga...

Há umas semanas, quando estava a montar as cadeiras para a varanda, uma outra vizinha minha passava na rua e convidei-a para vir cá a casa para ver como estava. Foi por volta da altura de em que decorei o quarto de hóspedes à pressa porque ia ter visitas. Quando essa vizinha entrou no quarto, que é super-colorido, mas há uma atmosfera serena, ficou um pouco pensativa e disse-me que estava a tomar nota mental de como eu tinha organizado o espaço porque estava muito acolhedor.

Nesse quarto guardo a maior parte dos livros de poesia que tenho. Na parece há uma aguarela que uma amiga minha me fez depois de ambas lermos o livro Succulent Wild Woman e há um quadro com dois cisnes que eu bordei a meio-ponto no sétimo ano e que foi exposto na escola depois de terminar o trimestre. Na cama está uma colcha em crochet feita pela tia da minha mãe. Depois de eu a trazer, há mais de 15 anos, a minha mãe perguntou-me se usava a colcha e respondi-lhe que não, era demasiado pequena para a minha cama. Ralhou comigo porque devia ter dito alguma coisa para se poder aumentar.

Em vez de aumentar, a minha mãe pediu-me as medidas da cama e começou a fazer-me outra colcha, mas morreu antes de a terminar. Tentei continuar o trabalho, mas não tenho muita paciência para o crochet e o meu ponto não é tão consistente como o da minha mãe. Na estante do quarto de hóspedes há uma caixa que tem uma etiqueta que diz crochet e onde guardo as agulhas da minha mãe, as linhas, e o princípio da colcha.

A minha casa está cheia de histórias e não é só por eu ter muitos livros, as coisas têm histórias, umas curtas, outras mais longas. Não há muitas histórias para contar quando se vai ao RH comprar toda a mobília; há apenas a história original: eu gostava muito de tralha, mas há uns três anos adoptei o estilo minimalista.

domingo, 29 de julho de 2018

Hope

It would be all too easy to start this post with "Hope is the thing with feathers", but that is exactly what occurred to me, after I realized that hope is when your Starbucks baristas do not call you M'am one morning -- a rather elusive definition. I am sure that it was not planned because all women are usually treated as M'am, as that is the norm in this part of the country, but I am hoping that maybe it was the fact that a woman in a Moon Taxi t-shirt and flip-flops on a Sunday morning should not be called M'am. Certainly, the next time I go to Starbucks during the week because I forgot to buy yogurt for breakfast, or I do not feel like eating anything for lunch, but I still have to eat and thus I roam to the place where I am most at ease, I will be called M'am. I realize the contradiction, but then I will be dressed for work and when I'm in my work attire, being a M'am is probably not a bad thing.

The other day, at that Starbucks, where I go to every Sunday morning for breakfast, as if it were a religious experience, one of the baristas asked me what I did: was I studying or working. I was practicing my Portuguese, I told him: I try to read a bit and then I also write. I wondered later why it would matter in what language I write or read when I answer a question about what I am doing? Furthermore, why is it that I want Portuguese when I am in the U.S. and English when I am in Portugal? I must conclude that I do not want to belong, to be defined by the place where I am and the easiest way to rebel is to go through the day in a foreign language when I can perfectly function in the native language of the people around me.

And so hope is that someone does not define me by how they define others.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Má memória

Um dos meus colegas americano, talvez uns 15 anos mais velho do que eu, na Sexta-feira, lamentava-se da sua fraca memória, não se recordava de nada do que lhe tinha acontecido há muito tempo. O que é muito tempo não sei, mas eu gabava-me que me lembrava da infância, em particular de alguns episódios bastante traumáticos que me aconteceram, como quando deixei de me poder balançar dos braços dos meus pais por ficar demasiado alta. Era uma das coisas que eu mais gostava de fazer e assim, de um momento para o outro, acabou sem qualquer aviso. Não mais recuperei dessa perda...

Mais recentemente, ainda me recordo das minhas leituras na escola e comecei a pensar nelas hoje quando ouvia o Governo Sombra durante o meu passeio vespertino. À medida que ouvia o programa fiquei com um sabor muito amargo porque me senti completamente anormal. Eles falavam de Eça de Queiroz, Almeida Garrett, e Camilo Castelo Branco, os grandes da nossa literatura, mas eu não percebi o destaque. Depois comecei a elencar na minha cabeça quem eu tinha lido, se bem que, quando eu era miúda, o que me torturava um bocado era exactamente o que eu não lia: Cesário Verde, Camilo Castelo Branco, Antero de Quintal, Alexandre Herculano... Bem sei que poderia ter lido por conta própria, mas sinceramente não me ocorreu porque estava mais interessada em ler a Just Seventeen e a Smash Hits.

Que li eu, então? (Antes de começar a minha lista, tenho de vos dizer que fiz o ensino secundário em três escolas diferentes e frequentei a área C.) No sétimo ano, lemos o "Romance da Raposa" de Aquilino Ribeiro. Não achei grande piada, mas lembro-me da minha professora de português me elogiar nas aulas porque notou que eu tinha lido o livro. Não compreendi o porquê de voltar a ler Aquilino Ribeiro no oitavo ano com "O Malhadinhas", que também não apreciei por aí além, mas tenho ambos estes livros aqui comigo. (Há mistérios que desconheço apesar de ter sido parte integrante dos mesmos.) No oitavo ano, também lemos "A Crónica dos Bons Malandros" do Mário Zambujal -- muito giro e não sei por que razão não trouxe esse livro comigo.

Já o nono ano foi dedicado a Gil Vicente e a Camões (sonetos e Lusíadas); não me recordo de muito mais do que isso. No décimo ano foi mais Lusíadas e Os Maias do Eça. Gostei muito d'Os Maias e desenvolvi uma pequena paixoneta pelo Ega: "Je suis Mephisto..." Também tenho cá e está na minha lista de livros que tenho de voltar a ler.

No décimo-primeiro ano, lemos "As Viagens na Minha Terra" de Garrett. Não me tocou por aí além, apenas achei curiosa a ideia de alguém cegar por ter chorado demasiado. Não me recordo de lermos mais nenhum livro, apenas textos avulso do nosso livro de leitura. No décimo-segundo ano não tive português, mas em inglês lemos alguns textos de Shakespeare e "The Great Gatsby" do F. Scott Fitzgerald. Um dos meus primos em segundo-grau leu "The Pearl" de Steinbeck, em vez do Gatzby, e decidi também ler durante as férias.

Não me senti prejudicada por ter de ler estas coisas; pelo contrário, se o ensino fosse apenas aquilo de que gostávamos, então, sim, penso que seríamos prejudicados. E para mim seria livros da Disney, do Cebolinha, e revistas de música pop. Por acaso, li vários livros da Sophia de Mello Breyner Andresen por iniciativa própria.

Penso que é curioso que não tenhamos lido autores não-portugueses nas aulas de Português, mas a coisa que achei mesmo deficiente no ensino da nossa língua materna foi a escrita criativa. Na escola primária, gostava muito era de escrever e senti grande falta quando deixámos de fazer as nossas redacções, mas eu também já estava farta de escrever sobre os mesmos tópicos: o Outono, o Inverno, a Primavera, as Férias, o Natal, etc. A PGA para mim até foi um grande prazer.

Vir estudar para os EUA e ir à livraria da universidade e encontrar "n" livros que nos ensinavam a escrever e ter aulas em que tínhamos de fazer relatórios sobre artigos ou sobre tópicos relevantes à cadeira era para mim ouro sobre azul. Quando fiz a tese de doutoramento, um dos meus professores perguntou-me quantos rascunhos tinha feito. Eu respondi que aquele era o primeiro e ele disse-me que eu tinha jeito para aquilo. Aliás, nos EUA, os meus professores achavam que eu escrevia bem e compreendia o que lia.

Em Portugal não era e não é assim: não tenho jeito para nada, nem para esquecer que li Mário Zambujal.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Vontade de desistir

Está a trovejar lá fora e tivemos um alerta de calor -- amanhã irá ser pior, com a temperatura a chegar aos 40 graus. Mas hoje pensei que talvez fosse bom começar a organizar os meus livros, só que apetece-me desistir. Coloco-os nas prateleiras e penso que não pertencem ali porque em Houston eu tinha-os num sítio diferente. E, às vezes, olho para alguns livros que ainda estão juntos como estavam na casa anterior e por, um segundo, penso que regressei.

Comprei outro livro de Eugénio de Andrade no mês passado; mas, quando vou ao quarto onde tenho os livros de poesia para o arrumar, não encontro os outros. Não, os livros do Eugénio de Andrade estão sempre no meu quarto -- os meus preferidos dormem comigo, sem paredes entre nós, e a uns passos de uma carícia.

Nesta última viagem a Portugal comprei mais livros, muitos mais do que conseguirei ler, mas dá-me um enorme conforto pensar que, se eu morresse de repente, iria ficar um monte de livros em português nos EUA. Seria talvez o meu melhor legado...

domingo, 15 de julho de 2018

Geografia da alma

Depois de anos a mudar de sítio, de casa, já aprendi a não deixar que o sítio onde estou seja uma grande restrição. Só que esta última mudança tem um travo diferente. Há vezes, como ontem, em que penso que tenho de ir à livraria e na minha cabeça a livraria que aparece é a que fica a 10 horas de carro, não é a que fica a minutos. E depois penso que não estou ao pé de Rothkos, Magrittes, Twomblys, nem de instalações de James Turrell...

Esta semana um colega meu levou uma maçã verde para o gabinete e eu pensei em Le fils de l'homme e deu-me uma nostalgia enorme. No gabinete de Houston, tinha uma maçã verde de esponja (um brinquedo anti-stress) que encontrei no parque de estacionamento na mesma altura em que havia um programa de exposições sobre o Magritte no Menil. À noite, as nuvens eram claras e as árvores negras contrastavam contra o céu, como em L'Empire des lumières.

Nada é o que parece e talvez seja essa a minha realidade: o corpo está num sítio, a alma em outro, como se a minha vida fosse um quadro surrealista...

domingo, 1 de julho de 2018

Viagem sem rumo

Estou no avião e nada poderá ser publicado imediatamente, mas a cabeça fervilha com ideias de coisas para vos contar. Corro o risco de, quando chegar a terra, me encontrar com a minha maior inimiga — a procrastinação — e adiar ad eternum o meu relato. Como a eternidade não mais chegará, nunca alguém lerá o que vos quero escrever. Trouxe o computador porque queria mesmo escrever mais, mas acabei por não escrever quase nada, a não ser algumas linhas no diário de papel. Acho que nunca vos disse que comprei um computador de propósito para ser mais flexível porque o iPhone e o iPad deixaram de funcionar com o Blogger. Só dá para usar pelo Safari, mas mesmo assim não funciona muito bem.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Podíamos partilhar um giro

Ainda não liguei a Internet na casa nova, nem desliguei na casa de Houston, logo escrevo-vos do Starbucks. Bem sei que é um desperdício de dinheiro, mas ter de telefonar à AT&T e ter de aturar aquele pessoal também não me traz grande ganho, nem me poupa dinheiro. Este acesso condicionado leva-me a escrever posts na minha cabeça que nunca publico. E são bastante giros, mas somem-se no éter...

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Acasos

Calhou passear os meus cães à mesma hora que a K. batia à porta da J., que não estava: tinha ido a Austin visitar a filha e, entretanto, eu tinha ficado encarregada de apanhar o jornal e o correio. Forneci a informação e, perante a pena da K., prestes a partir para o Japão para ir assistir a umas workshops de manufactura artesanal de papel, comprometi-me a informar a J. do desencontro e cheguei mesmo a enviar uma mensagem pelo Facebook à K. a dizer que a mensagem tinha sido entregue. Pode-se dizer que levo a sério as minhas actividades de pomba-correio. Depois disso encontrei a K. ocasionalmente nos mais de dois anos que passaram. Não sei se, fora do contexto dos amigos comuns, seríamos capazes de nos reconhecer.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Tocante

Um dos livros que trouxe de Portugal foi "O Poeta Nu", que reúne a poesia de Jorge Sousa Braga. Comprei-o na Centésima Página, em Braga, uma livraria muito gira, que recomendo. Foi por falar neste livro que tive de ir ao Priberam para ver o significado a palavra "tocante" -- eu queria dizer que alguns dos poemas eram "tocantes", mas o meu "tocantes" é "touching" e depois acontece-me aportuguesar o inglês e sair disparates. Então, lá fui eu ao dicionário porque não custa nada, não é? Estava certa, "tocante" dava, apesar de "comovente" ter um uso provavelmente mais comum.

Na página de "tocante" da Priberam, reparo no gráfico-núvem das palavras mais procuradas de hoje, do qual consta "pornografia". Hã, penso eu, há pessoal que usa a Internet, mas não sabe o que é pornografia?!? É uma ignorância tocante, esta! Ou, se calhar, não...

sábado, 23 de setembro de 2017

Estranheza


Cheguei a Londres na Quarta-feira de manhã. Ultimamente não me tem apetecido viajar, mas incomoda-me quando fico demasiado confortável, como se entrasse num estado de letargia emocional. Já há algum tempo que sentia que era preciso vir aqui buscar um pedaço de mim e gravar aquilo que sinto. 


Depois de me orientar -- tornar-me confortável... -- a primeira coisa que fiz foi ir à Tate Modern para visitar os murais de Seagram de Mark Rothko, mas antes passei pela galeria onde estavam os John Cage de Gerhard Richter e é qualquer coisa do outro mundo estar ali. É como se nos chamasse à distância e nos enchesse de luminosidade quando entramos. 


A galeria onde estão os murais de Seagram surpreendeu-me por estar tão escura, especialmente em contraste com a capela de Rothko, onde, apesar de os quadros serem variações de negro, o espaço consegue ter grande luminosidade. Mas faz sentido, pois os murais foram criados para despertarem um sentimento de opressão e, ao colocá-los num ambiente escuro, tornam-se num mecanismo de compaixão.


Não sei se foi a sugestão do banco, mas na galeria onde estavam os murais, as pessoas não se aproximavam dos quadros, ficando sentadas no meio, como se estivessem numa ilha. Tive pena que não fosse um barco, onde pudessem partir e me deixassem só, mas isso talvez seja uma desculpa que racionalizei para regressar um dia. 


Londres surpreende-me pela sua familiaridade e estranheza. Numa esquina, senti-me transportada para perto de DuPont Circle, em Washington, D.C.; aliás, encontro bastantes coisas comuns entre as duas cidades -- por exemplo, a primeira galeria permanente com quadros de Rothko pertence à Phillips Collection. 


Depois há as lojas: as lojas onde faço compras normalmente também estão em Londres e este lado da globalização inspira-me uma mistura de tristeza e felicidade. É bom estarmos em casa em qualquer sítio, mas perdemos algo da experiência se todos os sítios têm as mesmas coisas. 


Na montra do Starbucks ao pé da Catederal de St. Paul, um póster informa-nos que ao entrarmos devemos esperar uma boa experiência, mas preferi que fossemos a outro sítio diferente. Depois de comprarmos o café no Eat, mandaram-nos sair porque tinha acabado de fechar às 17 horas. O café era mau, o serviço também, e chovia. Saímos e procurámos o primeiro caixote do lixo. 


Acabámos por ir tomar café ao Nero, em Oxo Tower, onde o interior tinha ar-condicionado, o que para mim é bastante confortável, pois estou tão habituada. Por onde vou, noto outras coisas que são diferentes dos EUA: nos restaurantes, os empregados não nos dão um copo de água imediatamente, nas lojas cumprimentam-nos de forma fria, na rua é raro ouvir alguém rir. 


Não consigo deixar de pensar na fama que os americanos têm de serem insensíveis e de tratarem mal as pessoas. Em algumas coisas é verdade, mas noutras não é -- como em tudo. E estranho em mim o quanto sinto que a minha casa, o sítio onde pertenço, é do outro lado do Atlântico.

terça-feira, 11 de abril de 2017

terça-feira, 28 de março de 2017

Consolos

Quando eu andava no primeiro ano do ciclo, actual quinto ano, tive hepatite, julgo que no terceiro trimestre. Apanhei porque a minha vizinha, que era um ano mais nova do que eu, ficou doente: eu apanhei dela e a minha irmã apanhou de mim umas semanas mais tarde. Durante dias fiquei de cama, julgo que faltei à escola cerca de três semanas. Detesto estar de cama e, para passar o tempo, li o meu livro de inglês, pois esse era o primeiro ano que aprendia inglês. De vez em quando, um senhor de idade, nosso vizinho, vinha visitar-me. Ele costumava ensinar-me Matemática na escola primária porque eu não dava nada para a caixa em contas. Se a escola fosse apenas Língua Portuguesa e Meio Físico e Social, o meu mundo seria muito melhor. Só no oitavo ano é que eu aprendi a gostar de Matemática, mas não é que eu não gostasse, apenas era indiferente àquilo.

A minha mãe falava com as vizinhas acerca da minha doença e do que havia de me dar de comer. Uma delas, uma senhora já de muita idade, viúva, sempre vestida de preto, e que vivia sozinha mais acima na nossa rua, aconselhou a minha mãe a dar-me arroz branco acompanhado de frango temperado só com sal e preparado numa placa grelhadora em cima do fogão a gás. Essas refeições foram das mais consoladoras que alguma vez comi, o que é estranho porque são das coisas mais simples que há. Já no outro dia me tinha recordado delas, mas hoje vi que Portugal está a sofrer um surto de hepatite A e lembrei-me outra vez.

Depois de ficar boa, regressei à escola e tive imediatamente um teste a inglês, uma das coisas que saía no teste era como se perguntava e dava as horas. Tive 84% sem ter estudado para o teste; apenas tinha lido o livro para não morrer de tédio. Foi a segunda nota mais alta e a minha professora deu-nos, a mim e à minha amiga Cláudia, que teve a nota mais alta, uma borracha de cheiro em forma de guarda chuva, verde com um centro cor-de-rosa. Guardei a minha até sair de Portugal; depois os meus pais apoderaram-se do meu quarto e não sei onde foi parar a borrachinha.

A minha professora preferida era sem dúvida a de inglês, que era extremamente criativa: desenhava coisas em ponto grande em cartolina, pintava, recortava, e levava-as para a aula, afixando-as ao quadro com Fun-Tak (uma massa parecida com plasticina, que serve para aderir coisas à parede). Foi assim que aprendemos a identificar comida, roupa, etc., com ela a apontar para os seus desenhos no quadro e a dizer-nos o que as coisas se chamavam. Eu nunca tinha visto Fun-Tak em Portugal, mas decerto que ela a tinha comprado no estrangeiro, pois quando vim para os EUA, toda a gente usava aquilo na universidade para aderir posters e outras coisas à parede e decorar quartos e gabinetes. Em homenagem à minha professora de inglês, também comprei Fun-Tak e colei coisas na parede.

Não me recordo do nome da minha professora, o que acho estranho, mas ela gostava muito de mim e chegou a perguntar à minha mãe se eu tinha aulas de inglês fora da escola. Não tinha; o inglês aparecia naturalmente na minha cabeça, sem que eu fizesse grande esforço para isso. Para mim, o inglês sempre foi um grande refúgio. Muitos anos mais tarde, já depois de eu ter vindo para Houston, um amigo meu ao ouvir-me falar em inglês, disse que tinha sido um erro cósmico eu ter nascido em Portugal; eu pertencia aos EUA.