Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
sábado, 29 de fevereiro de 2020
Cultura geral
Fiquei bastante surpreendida ao ler em comentários no Facebook de pessoas portuguesas que o COVID-19 é uma criação dos media americanos para atacar o Presidente Trump. Penso que as pessoas em Portugal não conhecem o fluxo de notícias dos media americanos, apesar de dizerem que estão ao corrente da comunicação social americana.
Até 5 de Fevereiro de 2020, a maior parte das notícias nos EUA eram sobre o julgamento de impugnação de Trump, que foi votado no Senado nesse dia e culminava um processo iniciado a 24 de Setembro de 2019, com a abertura do inquérito na Câmara dos Representantes.
Em 15 de Janeiro de 2020, foi assinada a primeira fase do acordo comercial dos EUA com a China, depois de 18 meses de uma guerra comercial entre os dois países, que não só dominou as notícias, como tem desgastado a economia americana -- a Reserva Federal começou a baixar a taxa de juro de referência por causa do efeito da guerra comercial. Uma curiosidade: desde o início da guerra comercial, o período mais longo de apreciação do S&P 500 foi durante o processo de impugnação de Trump; antes, o S&P 500 teve várias quedas repentinas, muitas delas associadas a tuítes do Presidente Trump.
Os Centers for Disease Control, a organização nos EUA que investiga e controla doenças, anunciou, em 17 de Janeiro, que iria iniciar medidas de despiste do virus em três aeroportos americanos, mas pouco ou nada se falava sobre o virus então. Só que quando a China impôs medidas de quarentena em três cidades, que foi anunciado a 23 de Janeiro e alargado a 24 cidades no dia seguinte, a China basicamente admitiu que o COVID-19 era um caso sério, e salta para as primeiras páginas dos jornais.
A seriedade do assunto foi confirmada a 3 de Fevereiro, quando o Presidente Xi Jinping afirmou na TV chinesa que o combate ao virus era o assunto de maior prioridade para os chineses. No dia seguinte, Larry Kudlow o Economic Adviser do Presidente Trump disse que as metas do acordo comercial assinado poderão ser adiadas, mas o acordo mantinha-se.
A maior parte dos americanos acha a Administração Trump incapaz de lidar com o vírus, a começar pelo facto de nem sequer se saber se o que Trump diz é verdade ou não. Por exemplo, a certa altura Trump afirmou que o virus era a nova patranha dos Democratas, depois da de impugnação. Para além disso, as pessoas ainda se recordam do furacão Maria que atingiu Porto Rico em 2017 e que oficialmente tinha matado 64 pessoas e um ano depois houve uma revisão do número de vítimas fatais e admitiu-se que excede 3000.
O povo americanos é muito ciente dos riscos que corre porque não só o território nacional está sujeito a bastantes catástrofes naturais, como o próprio país foi sendo organizado em consequência de tragédias naturais. Por exemplo, os Centers for Disease Control foram criados em resposta aos surtos de febre amarela do século XIX e a delineação de poderes entre o governo federal e os governos dos estados também foi condicionada por esses mesmos surtos.
Toda a máquina federal americana está ao serviço da população para a manter informada e ao corrente dos riscos que corre. Mas note-se que este esforço não beneficia apenas americanos, pois os EUA alertam e colaboram com outros países quando identificam um risco, por exemplo, terramotos, furacões, etc. Talvez vocês não saibam, mas os CDC mantêm um sistema de alerta mundial de surtos de doenças infecciosas e ajudam outros países a investigar surtos. Podem ver a missão dos CDC na sua página de Internet.
Hoje em dia, qualquer pessoa tem acesso à Internet. Não há razão para as pessoas não terem melhor noção de como o mundo funciona.
Até 5 de Fevereiro de 2020, a maior parte das notícias nos EUA eram sobre o julgamento de impugnação de Trump, que foi votado no Senado nesse dia e culminava um processo iniciado a 24 de Setembro de 2019, com a abertura do inquérito na Câmara dos Representantes.
Em 15 de Janeiro de 2020, foi assinada a primeira fase do acordo comercial dos EUA com a China, depois de 18 meses de uma guerra comercial entre os dois países, que não só dominou as notícias, como tem desgastado a economia americana -- a Reserva Federal começou a baixar a taxa de juro de referência por causa do efeito da guerra comercial. Uma curiosidade: desde o início da guerra comercial, o período mais longo de apreciação do S&P 500 foi durante o processo de impugnação de Trump; antes, o S&P 500 teve várias quedas repentinas, muitas delas associadas a tuítes do Presidente Trump.
Os Centers for Disease Control, a organização nos EUA que investiga e controla doenças, anunciou, em 17 de Janeiro, que iria iniciar medidas de despiste do virus em três aeroportos americanos, mas pouco ou nada se falava sobre o virus então. Só que quando a China impôs medidas de quarentena em três cidades, que foi anunciado a 23 de Janeiro e alargado a 24 cidades no dia seguinte, a China basicamente admitiu que o COVID-19 era um caso sério, e salta para as primeiras páginas dos jornais.
A seriedade do assunto foi confirmada a 3 de Fevereiro, quando o Presidente Xi Jinping afirmou na TV chinesa que o combate ao virus era o assunto de maior prioridade para os chineses. No dia seguinte, Larry Kudlow o Economic Adviser do Presidente Trump disse que as metas do acordo comercial assinado poderão ser adiadas, mas o acordo mantinha-se.
A maior parte dos americanos acha a Administração Trump incapaz de lidar com o vírus, a começar pelo facto de nem sequer se saber se o que Trump diz é verdade ou não. Por exemplo, a certa altura Trump afirmou que o virus era a nova patranha dos Democratas, depois da de impugnação. Para além disso, as pessoas ainda se recordam do furacão Maria que atingiu Porto Rico em 2017 e que oficialmente tinha matado 64 pessoas e um ano depois houve uma revisão do número de vítimas fatais e admitiu-se que excede 3000.
O povo americanos é muito ciente dos riscos que corre porque não só o território nacional está sujeito a bastantes catástrofes naturais, como o próprio país foi sendo organizado em consequência de tragédias naturais. Por exemplo, os Centers for Disease Control foram criados em resposta aos surtos de febre amarela do século XIX e a delineação de poderes entre o governo federal e os governos dos estados também foi condicionada por esses mesmos surtos.
Toda a máquina federal americana está ao serviço da população para a manter informada e ao corrente dos riscos que corre. Mas note-se que este esforço não beneficia apenas americanos, pois os EUA alertam e colaboram com outros países quando identificam um risco, por exemplo, terramotos, furacões, etc. Talvez vocês não saibam, mas os CDC mantêm um sistema de alerta mundial de surtos de doenças infecciosas e ajudam outros países a investigar surtos. Podem ver a missão dos CDC na sua página de Internet.
Hoje em dia, qualquer pessoa tem acesso à Internet. Não há razão para as pessoas não terem melhor noção de como o mundo funciona.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
À carona do corona
O COVID-19 tem uma taxa de mortalidade alta na população mais idosa e suspeita-se, ou até podemos considerar que já é certo, que bastantes pessoas estejam contaminadas, sem que ainda se saiba. A medida de prevenção mais usada até agora tem sido a quarentena, que Portugal declarou inconstitucional.
A inconstitucionalidade é uma ideia engraçada quando não há ninguém doente, mas Portugal tem uma das populações mais envelhecidas do mundo e se se encontrarem casos em Portugal, decerto que bastantes pessoas morrerão, especialmente em Lisboa. Como os mais idosos gostam de votar PS, vamos ver quanto tempo durará a inconstitucionalidade ou se o Parlamento decide rever a CRP antes do PS perder parte do eleitorado.
A inconstitucionalidade é uma ideia engraçada quando não há ninguém doente, mas Portugal tem uma das populações mais envelhecidas do mundo e se se encontrarem casos em Portugal, decerto que bastantes pessoas morrerão, especialmente em Lisboa. Como os mais idosos gostam de votar PS, vamos ver quanto tempo durará a inconstitucionalidade ou se o Parlamento decide rever a CRP antes do PS perder parte do eleitorado.
domingo, 16 de fevereiro de 2020
A tentação de matar André Ventura
Na semana passada, diziam-me os meus amigos portugueses que uma quarentena era inconstitucional porque, durante o tempo da ditadura, havia pessoas opostas ao regime que eram internadas, obviamente por motivos políticos e não por causa da sua saúde.
Sem quarentena, apesar do risco ser pequeno, abrimos a hipótese de ter casos de coronavirus que têm uma taxa de mortalidade alta, mas suponho que essas mortes, se se vierem a materializar, são o preço que pagamos para garantir que o governo não cai na tentação de isolar por umas duas semanas membros da oposição.
Esta semana, alguém decidiu que se devia discutir a eutanásia. Os argumentos usados são interessantes, pois dizem-nos que a vida não é um direito absoluto, o que é consistente com a possibilidade de morrerem pessoas de coronavirus para se garantir que os membros da oposição não sejam internados. Faz sentido...
Só que o problema complica-se um bocado se pensarmos que, na semana passada disseram-nos que não devíamos confiar na administração de quarentenas pelo governo porque os serviços de saúde podiam decidir incluir pessoas que não deviam, mas nesta semana pedem-nos para confiar que o governo e os serviços de saúde merecem a nossa confiança para administrar um programa de morte voluntária.
Durante a ditadura, também houve casos de membros da oposição mortos, por isso como é que se garante que o governo não decide cair na tentação de enviar o André Ventura para a lista da eutanásia?
Sem quarentena, apesar do risco ser pequeno, abrimos a hipótese de ter casos de coronavirus que têm uma taxa de mortalidade alta, mas suponho que essas mortes, se se vierem a materializar, são o preço que pagamos para garantir que o governo não cai na tentação de isolar por umas duas semanas membros da oposição.
Esta semana, alguém decidiu que se devia discutir a eutanásia. Os argumentos usados são interessantes, pois dizem-nos que a vida não é um direito absoluto, o que é consistente com a possibilidade de morrerem pessoas de coronavirus para se garantir que os membros da oposição não sejam internados. Faz sentido...
Só que o problema complica-se um bocado se pensarmos que, na semana passada disseram-nos que não devíamos confiar na administração de quarentenas pelo governo porque os serviços de saúde podiam decidir incluir pessoas que não deviam, mas nesta semana pedem-nos para confiar que o governo e os serviços de saúde merecem a nossa confiança para administrar um programa de morte voluntária.
Durante a ditadura, também houve casos de membros da oposição mortos, por isso como é que se garante que o governo não decide cair na tentação de enviar o André Ventura para a lista da eutanásia?
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
Os idiotas passivos
Para os gregos da Antiguidade Clássica, o idiota (idiotés) era aquele que não participava nos assuntos públicos e estava focado apenas nos seus interesses privados. Péricles verberou os indiferentes, os que não se envolviam naquilo que a todos dizia respeito. O mundo mudou. Hoje, tendemos a achar espertos aqueles que pensam apenas em si próprios e que, por vezes, até querem destruir o que é público. Mais: tendemos a valorizar pouco a inteligência dos que nos pastoreiam. Claro que cada um é livre de ser indiferente, de não querer ser incomodado pela política. O problema é que essa talvez seja a pior maneira de conseguir o almejado sossego, como nos lembram autores como Daniel Innerarity. Sem querer, os passivos acabam por se tornar aliados inconscientes daqueles que têm a sacrossanta intenção de não deixar ninguém em paz. Numa palavra, os passivos são idiotas, como diriam os gregos há mais de dois mil anos.
domingo, 2 de fevereiro de 2020
Uma justiça eficiente
A propósito das "leaks" serem ou não admissíveis como prova, imagine-se uma situação em que um indivíduo rouba um carro e encontra na mala o cadáver de uma pessoa desaparecida. Como tem medo de ser acusado de homicídio, decide ir à polícia confessar que roubou um carro, mas que nada tinha a ver com o que tinha acontecido ao corpo que encontrou na mala. Pela lógica da Juíza Cláudia Pina, dois males não podem produzir um bem, logo o corpo e todas as provas que possam ser retiradas da análise do carro não são admissíveis em tribunal.
Continuemos a exploração deste exemplo, imagine-se agora que nestas circunstâncias prevalece a não admissibilidade de provas. Presuma-se também que havia um suspeito no desaparecimento do corpo, que é levado a tribunal pelo suposto homicídio. No julgamento, a defesa vai argumentar que não há crime: o corpo e quaisquer análises do carro e corpo não são admissíveis como prova, logo não podemos concluir que tenha havido homicídio apesar das provas e, sem corpo e sem provas, não há homicídio e o caso continua a ser um de desaparecimento.
Agora, pensemos no caso do BES: a Justiça portuguesa, no decorrer normal da sua actividade, sem violar os direitos de ninguém, encontrou provas relativas ao caso do BES. Diz a Juíza que não são admissíveis, pois foram obtidas ilegalmente pelo hacker. Nesse caso, nada que o hacker encontrou é admissível em qualquer processo, logo a polícia nem sequer devia analisar os dados. E não podendo analisar os dados, como é que se pode provar que a informação que o hacker tinha não era do próprio?
Mas o caso ainda se torna mais sórdido, pois imaginemos agora que o caso do BES vai mesmo a tribunal, o que é que a defesa irá dizer? Que nenhumas das provas apresentadas pela acusação são admissíveis pois a sua obtenção foi contaminada pelas provas encontradas pelo hacker, que não eram admissíveis. Ou seja, com a suposta não-admissibilidade das provas, o caso do BES está arrumado. Já não era sem tempo...
Continuemos a exploração deste exemplo, imagine-se agora que nestas circunstâncias prevalece a não admissibilidade de provas. Presuma-se também que havia um suspeito no desaparecimento do corpo, que é levado a tribunal pelo suposto homicídio. No julgamento, a defesa vai argumentar que não há crime: o corpo e quaisquer análises do carro e corpo não são admissíveis como prova, logo não podemos concluir que tenha havido homicídio apesar das provas e, sem corpo e sem provas, não há homicídio e o caso continua a ser um de desaparecimento.
Agora, pensemos no caso do BES: a Justiça portuguesa, no decorrer normal da sua actividade, sem violar os direitos de ninguém, encontrou provas relativas ao caso do BES. Diz a Juíza que não são admissíveis, pois foram obtidas ilegalmente pelo hacker. Nesse caso, nada que o hacker encontrou é admissível em qualquer processo, logo a polícia nem sequer devia analisar os dados. E não podendo analisar os dados, como é que se pode provar que a informação que o hacker tinha não era do próprio?
Mas o caso ainda se torna mais sórdido, pois imaginemos agora que o caso do BES vai mesmo a tribunal, o que é que a defesa irá dizer? Que nenhumas das provas apresentadas pela acusação são admissíveis pois a sua obtenção foi contaminada pelas provas encontradas pelo hacker, que não eram admissíveis. Ou seja, com a suposta não-admissibilidade das provas, o caso do BES está arrumado. Já não era sem tempo...
domingo, 12 de janeiro de 2020
Entretanto, no Irão
(Se têm Instagram no vosso telefone, dá para traduzir os posts dentro do Instagram. Se não têm Instagram no vosso telefone, podem copiar o texto em persa e metê-lo no tradutor do Google. A tradução não é perfeita, mas dá para entender o espírito. A Masih Alinejad é uma jornalista iraniana.)
As mulheres do Irão estão a levantar-se contra o regime. Duas jornalistas de TV demitiram-se em directo em solidariedade para com as vítimas do avião ucraniano que foi abatido pelo governo iraniano.
Na rua elas confrontam as forças militares.
Domingo à tarde: manifestações pela liberdade em todas as cidades do Irão.
As mulheres do Irão estão a levantar-se contra o regime. Duas jornalistas de TV demitiram-se em directo em solidariedade para com as vítimas do avião ucraniano que foi abatido pelo governo iraniano.
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Na rua elas confrontam as forças militares.
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Domingo à tarde: manifestações pela liberdade em todas as cidades do Irão.
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sábado, 11 de janeiro de 2020
Estranha evolução
Nos EUA, ficámos a saber do incidente do avião ucraniano na Terça-feira à noite, mas no dia seguinte, quase que não se falou no caso. Penso que as pessoas não sabiam o que pensar, nem com que ponto de vista abordar a notícia. Na Quinta-feira, os ucranianos foram os primeiros a noticiar que tinham provas de que o avião tinha sido abatido pelos iranianos com um míssil russo. Tenho uma amiga ucraniana que me deu a notícia às sete da manhã, antes de os media americanos avançarem com essa hipótese, algumas horas mais tarde.
Perguntei a uma outra amiga minha, que é iraniana, mas vive nos EUA, o que é que ela achava que tinha acontecido, dado o que os ucranianos estavam a noticiar. Ela responde-me que o governo iraniano muito provavelmente abateu o avião para desviar atenção da situação EUA-Rússia. "This is murder" diz ela, mataram as pessoas apenas para ficar no poder durante mais alguns anos, acrescenta. Entretanto, o Primeiro-Ministro canadiano deu uma conferência de imprensa, dado que as vítimas incluíam 63 cidadãos canadianos, e o mundo começou a prestar atenção ao incidente do avião.
No programa Morning Edition de Sexta-feira (é um magazine diário de actualidades na rádio), a Mary Schiavo, ex-Inspectora Geral do U.S. Department of Transportation, foi entrevistada a respeito da investigação dos despojos do avião. Quando a entrevista foi para o ar, presumia-se que o avião tinha sido abatido por um míssil, mas os iranianos juravam a pés juntos que tinha sido falha técnica e o facto é que, por aqui, as notícias também estão a ser dominadas pelos problemas que a Boeing anda a ter com outro modelo de avião, o 737 Max. Aliás, uma das grandes notícias de ontem foram os emails dos pilotos da Boeing acerca do 737 Max, que não deixam a companhia ficar muito bem-vista.
Na entrevista de Schiavo, várias questões de grande interesse são discutidas. Há a questão do conteúdo da caixa negra do avião e de como obter os dados. O Irão não tem competência técnica para o fazer, logo é preciso um laboratório noutro país, como França, Grã-Bretanha, Canadá, Australia, para analisar esses dados. O Irão também disse que iria tornar os dados públicos, logo outras entidades poderão analisá-los.
Uma outra questão a discutir era que os EUA têm políticas que limitam a ida de cidadãos americanos ao Irão, mas Schiavo recorda o entrevistador que, tal como ele deve ter aprendido nas aulas de educação cívica, no seu tempo da escola secundária (que pena que Portugal não as tem), os EUA são signatários de vários tratados internacionais e que a ida de pessoal oficial americano seria regida por direito internacional, em vez de direito nacional. Já o Irão, que não é signatário de todos os tratados internacionais relevantes, comprometeu-se a observá-los.
Também falou da questão de jurisdição. Se foi um acidente, os representantes do National Trasportation Safety Board têm jurisdição para ir a Teerão, pois está sob eles a investigação de acidentes de aviação; mas se o avião foi abatido, não há qualquer razão para irem porque o problema não era o avião.
Schiavo dizia que quando os aviões são abatidos, o normal é os presumidos culpados o negarem, mas a excepção é o caso de um avião civil iraniano que os americanos admitiram ter abatido acidentalmente em Julho de 1988, causando a morte de 290 pessoas. Hoje o Irão admitiu ter abatido acidentalmente o avião ucraniano. É estranha esta evolução.
Perguntei a uma outra amiga minha, que é iraniana, mas vive nos EUA, o que é que ela achava que tinha acontecido, dado o que os ucranianos estavam a noticiar. Ela responde-me que o governo iraniano muito provavelmente abateu o avião para desviar atenção da situação EUA-Rússia. "This is murder" diz ela, mataram as pessoas apenas para ficar no poder durante mais alguns anos, acrescenta. Entretanto, o Primeiro-Ministro canadiano deu uma conferência de imprensa, dado que as vítimas incluíam 63 cidadãos canadianos, e o mundo começou a prestar atenção ao incidente do avião.
No programa Morning Edition de Sexta-feira (é um magazine diário de actualidades na rádio), a Mary Schiavo, ex-Inspectora Geral do U.S. Department of Transportation, foi entrevistada a respeito da investigação dos despojos do avião. Quando a entrevista foi para o ar, presumia-se que o avião tinha sido abatido por um míssil, mas os iranianos juravam a pés juntos que tinha sido falha técnica e o facto é que, por aqui, as notícias também estão a ser dominadas pelos problemas que a Boeing anda a ter com outro modelo de avião, o 737 Max. Aliás, uma das grandes notícias de ontem foram os emails dos pilotos da Boeing acerca do 737 Max, que não deixam a companhia ficar muito bem-vista.
Na entrevista de Schiavo, várias questões de grande interesse são discutidas. Há a questão do conteúdo da caixa negra do avião e de como obter os dados. O Irão não tem competência técnica para o fazer, logo é preciso um laboratório noutro país, como França, Grã-Bretanha, Canadá, Australia, para analisar esses dados. O Irão também disse que iria tornar os dados públicos, logo outras entidades poderão analisá-los.
Uma outra questão a discutir era que os EUA têm políticas que limitam a ida de cidadãos americanos ao Irão, mas Schiavo recorda o entrevistador que, tal como ele deve ter aprendido nas aulas de educação cívica, no seu tempo da escola secundária (que pena que Portugal não as tem), os EUA são signatários de vários tratados internacionais e que a ida de pessoal oficial americano seria regida por direito internacional, em vez de direito nacional. Já o Irão, que não é signatário de todos os tratados internacionais relevantes, comprometeu-se a observá-los.
Também falou da questão de jurisdição. Se foi um acidente, os representantes do National Trasportation Safety Board têm jurisdição para ir a Teerão, pois está sob eles a investigação de acidentes de aviação; mas se o avião foi abatido, não há qualquer razão para irem porque o problema não era o avião.
Schiavo dizia que quando os aviões são abatidos, o normal é os presumidos culpados o negarem, mas a excepção é o caso de um avião civil iraniano que os americanos admitiram ter abatido acidentalmente em Julho de 1988, causando a morte de 290 pessoas. Hoje o Irão admitiu ter abatido acidentalmente o avião ucraniano. É estranha esta evolução.
Evolução e Revolução
quarta-feira, 8 de janeiro de 2020
Um sonho americano
Uma das pessoas que sigo no Instagram é a Behida Dolic, que é uma designer de chapéus e roupa e sobrevivente de cancro da mama. Eu sabia que ela tinha nascido na Bósnia e tinha perdido os pais quando ainda era jovem, mas sempre tive curiosidade acerca de como tinha chegado aos EUA. Pois ela contou essa parte da sua história e é mesmo um sonho americano.
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Entrevista ao MNE do Irão
Recebemos esta noite notícias de que o Irão atacou vários alvos militares americanos no Iraque, depois de, durante o dia, ter sido anunciado que o Irão designou as forças militares americanas de organização terrorista -- em Abril de 2019, os EUA tinham designado o Islamic Revolutionary Guard Corps, uma entidade das forças militares iranianas, de organização estrangeira terrorista.
Na entrevista do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohammad Javad Zarif, à Mary Louise Kelly, da National Public Radio, que foi divulgada hoje, o ministro explicou que as ameaças de Donald Trump no Twitter, de bombardear edifícios importantes para a história e cultura do Irão, violam tratados internacionais e são considerados crimes de guerra. Trump também ameaçou que os iranianos iam morrer de fome, que é outro crime de guerra.
Apesar de tudo isto ser assustador, dá-nos algum alento que o Irão afirme que vai agir de acordo com as normas de Direito internacional, pois revela alguma cautela. Outra coisa que acho positiva é que, depois do ataque de Sexta-feira, o Irão convidou jornalistas estrangeiros para irem a Teerão, e foi aí que a entrevista com a NPR foi gravada. Dados os recentes protestos populares no Irão e os cortes no acesso à Internet, é mesmo surpreendente que tenham feito este convite.
Deixo-vos o link para a transcrição e o registo audio, que considero bastante informativos.
Na entrevista do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohammad Javad Zarif, à Mary Louise Kelly, da National Public Radio, que foi divulgada hoje, o ministro explicou que as ameaças de Donald Trump no Twitter, de bombardear edifícios importantes para a história e cultura do Irão, violam tratados internacionais e são considerados crimes de guerra. Trump também ameaçou que os iranianos iam morrer de fome, que é outro crime de guerra.
Apesar de tudo isto ser assustador, dá-nos algum alento que o Irão afirme que vai agir de acordo com as normas de Direito internacional, pois revela alguma cautela. Outra coisa que acho positiva é que, depois do ataque de Sexta-feira, o Irão convidou jornalistas estrangeiros para irem a Teerão, e foi aí que a entrevista com a NPR foi gravada. Dados os recentes protestos populares no Irão e os cortes no acesso à Internet, é mesmo surpreendente que tenham feito este convite.
Deixo-vos o link para a transcrição e o registo audio, que considero bastante informativos.
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
Impugnar ou não impugnar
Antes de mais, Bom Ano de 2020 a todos. Gostaria de vos falar sobre o processo de impugnação do Presidente Trump, é um post um bocado longo e tentei relatar os factos e também dar alguma informação acerca de como a as coisas funcionam nos EUA e as pessoas pensam. Os americanos são bastante estratégicos e gostam de seguir processos. Também há bastante fé na forma como as diferentes instituições funcionam. Um dia, quando Donal Trump sair da presidência, iremos olhar para trás e achar que tudo isto obedece a uma lógica que nesta altura não é muito óbvia.
terça-feira, 24 de dezembro de 2019
Postal de Natal tradicional
Caros leitores,
Como não queremos que vos falte nada, não podíamos deixar de vos desejar um Santo Natal, à maneira vitoriana. Durante Dezembro, a Ópera de Memphis realizou um especial de Natal na Dixon Gallery and Gardens, em que o elenco se vestiu à moda de finais do século XIX e, durante 3 horas, houve histórias de fantasmas, ópera, cantigas de Natal, valsas, etc.
Merry Christmas,
Rita
Como não queremos que vos falte nada, não podíamos deixar de vos desejar um Santo Natal, à maneira vitoriana. Durante Dezembro, a Ópera de Memphis realizou um especial de Natal na Dixon Gallery and Gardens, em que o elenco se vestiu à moda de finais do século XIX e, durante 3 horas, houve histórias de fantasmas, ópera, cantigas de Natal, valsas, etc.
Merry Christmas,
Rita
Postal de Natal rockeiro
Caros leitores,
Desejo-vos um óptimo Natal. Este ano, o Hanukkah começou ao pôr do sol do dia 22, logo um bom terceiro dia de Hanukkah também. Para encetar as festividades, fui ver a Trans-Siberian Orchestra na Quinta-feira. Que decadência de guitarras, lasers, cabedal negro, cabelos compridos... Fica aqui uma pequena amostra.
E deixo-vos também as decorações de Natal de uma família em Memphis, que ligou as luzes a uma estação de rádio e, por acaso, quando por lá passei, estava mesmo a tocar a TSO.
Happy Holidays!
Rita
Desejo-vos um óptimo Natal. Este ano, o Hanukkah começou ao pôr do sol do dia 22, logo um bom terceiro dia de Hanukkah também. Para encetar as festividades, fui ver a Trans-Siberian Orchestra na Quinta-feira. Que decadência de guitarras, lasers, cabedal negro, cabelos compridos... Fica aqui uma pequena amostra.
E deixo-vos também as decorações de Natal de uma família em Memphis, que ligou as luzes a uma estação de rádio e, por acaso, quando por lá passei, estava mesmo a tocar a TSO.
Happy Holidays!
Rita
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
Sol na eira e chuva no nabal.
Vejo muita gente, geralmente à direita, a dar importância máxima à carga fiscal e ao facto de ela ter aumentado. O problema é que se olharmos para a carga fiscal como o alfa e o ómega disto tudo, então a conclusão de uma comparação internacional é que pode aumentar ainda mais, pois muitos países têm uma carga maior do que a nossa.
Por outro lado, vejo muita gente, geralmente à esquerda, a dizer que não temos nada que baixar impostos porque a nossa carga fiscal até nem é muito alta pelo que é uma falácia dizer que não somos competitivos por causa dela. O problema disso é que a nossa carga fiscal é mais baixa precisamente porque o nosso rendimento é mais baixo. Por isso não faz sentido comparar com a carga fiscal de países mais desenvolvidos. Devemos antes tentar apurar o nosso nível de esforço fiscal.
Olhando para o esforço fiscal, o que vemos é que Portugal tem um nível de esforço fiscal muito alto (basicamente, para o mesmo rendimento pagamos mais impostos que lá fora). mas, por outro lado, nos últimos anos, incluíndo o que está previsto para 2020, o esforço fiscal tem descido ligeiiramente.
Portanto, nesta discussão, ninguém tem um argumento win-win.
Para terminar, acrescento que actualizar os escalões de IRS abaixo da inflação prevista é uma forma de aumentar quer a carga fiscal quer o esforço fiscal. Neste caso, quer para quem argumenta à esquerda quer à direita é uma situação de lose-lose.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
Ciências da Educação?
FNAC Colombo, repleta de potenciais compradores nesta época
natalícia – sendo eu um deles. Deambulo
na livraria, avaliando as ofertas que me são feitas nos expositores. A dada
altura, deparo com o sector das “Ciências da Educação”. Isto interessa-me. Vejo
os livros expostos. Atente-se nos títulos de apenas alguns (omito
deliberadamente nomes de autores). Livro de Reclamações das Crianças, Educar
com um Sorriso, Deixe-o Crescer ou o seu Filho será um Bonsai em vez de
uma Árvore Forte, Adolescer é Fácil 3 # Só que não, Porque (sic)
não Largas o Telemóvel e Aprendes Qualquer Coisa para Variar? No expositor
ao lado encontrava-se, como por acaso, o livro Inteligência Emocional,
de Daniel Goleman, numa edição da Bertrand de 2010.
Nada tenho contra os livros que referi – apenas me confrange
que eles apareçam como sendo livros que caibam no sector reservado para as ciências
da educação. Será que pessoas responsáveis pensam mesmo que as ciências da
educação dão cobertura a tudo o que se escreve sobre educação? E mais não digo.
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