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sábado, 11 de abril de 2020

Vamos lá ver...


Começo com esta expressão tão comum do nosso Primeiro Ministro porque foi a sua entrevista à LUSA, de que li excertos no Diário deNotícias de hoje, que me levou a, não perdendo o balanço destes últimos dias em que escrevi sobre a revolução que começou e vai continuar este ano com o ensino a distância nas nossas escolas, dizer mais sobre o assunto.

Que disse António Costa? Segundo a entrevistadora, ele afirmou que no próximo ano letivo haverá acesso universal dos alunos dos ensinos básico e secundário à Internet e a equipamentos informáticos, e, questionado se cada aluno vai ter um computador, respondeu: “É muito mais do que isso. É muito mais do que ter um computador ou um tablet. É ter isso e possuir acesso garantido à rede em condições de igualdade em todo o território nacional e em todos os contextos familiares, assim como as ferramentas pedagógicas adequadas para se poder trabalhar plenamente em qualquer circunstância com essas ferramentas digitais".

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Ciências da Educação?


FNAC Colombo, repleta de potenciais compradores nesta época natalícia – sendo eu um deles.  Deambulo na livraria, avaliando as ofertas que me são feitas nos expositores. A dada altura, deparo com o sector das “Ciências da Educação”. Isto interessa-me. Vejo os livros expostos. Atente-se nos títulos de apenas alguns (omito deliberadamente nomes de autores). Livro de Reclamações das Crianças, Educar com um Sorriso, Deixe-o Crescer ou o seu Filho será um Bonsai em vez de uma Árvore Forte, Adolescer é Fácil 3 # Só que não, Porque (sic) não Largas o Telemóvel e Aprendes Qualquer Coisa para Variar? No expositor ao lado encontrava-se, como por acaso, o livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, numa edição da Bertrand de 2010.

Nada tenho contra os livros que referi – apenas me confrange que eles apareçam como sendo livros que caibam no sector reservado para as ciências da educação. Será que pessoas responsáveis pensam mesmo que as ciências da educação dão cobertura a tudo o que se escreve sobre educação? E mais não digo.

domingo, 18 de agosto de 2019

Estudos étnicos

Estudos étnicos é uma área que só é dada na faculdade, mas a Califórnia quer que os alunos K-12 (pré-escola até décimo-segundo ano) tenham estudos étnicos e anda a tentar desenvolver um currículo para a área. Só que é difícil porque vivemos num período em que ser factual não combina com ser politicamente correcto e muitos dos tópicos são tudo menos politicamente correctos. E há também o problema de ser um tópico com uma enorme carga política.

Para além disso, os EUA têm uma longa história de ostracisarem pessoas de certos grupos. Houve os irlandeses, os alemães, os chineses, os japoneses... e, claro, os negros e os americanos nativos. O Ron Elving publicou no mês passado uma pequena lista de ofendidos.

terça-feira, 20 de março de 2018

Aos alunos da FEUC

Caros alunos da FEUC,

Tal como vocês, estudei na FEUC e posso, mais de 20 anos depois de ter terminado a licenciatura, assegurar-vos de que a educação que recebi na altura me permitiu competir no mercado de trabalho internacional e atingir um certo nível de sucesso. Quero com isto dizer-vos que é uma boa escola, que pode ser usada como plataforma para uma carreira profissional gratificante. Mas devemos estar cientes que uma universidade não serve para ensinar a regurgitar; serve, sim, para dotar os alunos de ferramentas que lhes permitam avaliar problemas criticamente e procurar soluções e, por isso, uma parte do sucesso da vossa educação depende da vossa vontade de usar o que aprendem.

Há, no entanto, uma área em que a FEUC é fraca e que é em questões de ética, pois de vez em quando convida pessoas para ensinar que exibem deficiências nessa área, que são previamente conhecidas. Gostaria de vos falar do último caso e que é o convite ao ex-Primeiro Ministro José Sócrates para discutir o tema “O Projecto Europeu Depois da Crise Económica”, no dia 21 de Março, às 14h, no auditório da FEUC. Como é do conhecimento público, José Sócrates publicou vários trabalhos sob o seu nome, que não eram da sua autoria. 

No contexto de uma universidade, um aluno que plagie cronicamente pode estar sujeito a ser expulso, logo por que razão uma pessoa com este comportamento é convidada para ser um ponto de referência na vossa educação? Para além disso, José Sócrates exibe deficiências técnicas na compreensão da economia que, também elas, são do conhecimento público, logo que tipo de conhecimento poderá ele oferecer-vos?


Dado o investimento em termos de tempo e dinheiro que têm de fazer, é vossa responsabilidade exigir que a FEUC vos proporcione oradores com um mínimo de qualidade. Cabe por isso a vós o papel de fazer perguntas pertinentes tanto à escola, como ao orador, e manifestar um nível de exigência que seja compatível com a educação que querem receber, pois está em causa a vossa futura reputação profissional.



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Excedente de conhecimento

Hoje estou um bocado febril, com a garganta de molho. Estou a pensar se não me fará mal queimar incenso, que fiz várias vezes esta semana, ou, se calhar, são as alergias sazonais; ainda por cima hoje choveu e sou alérgica a certos bolores.

A modos que não estou a 100% e talvez isto explique por que, quando li a citação do PM Costa no Observador, tenha entendido que ele teria dito que o país era composto por pessoas ignorantes, sem formação, nem educação. Disse ele: "O maior défice que temos não é o défice das finanças, é o que acumulamos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação, de ausência de preparação."

Algumas horas mais tarde, o meu cérebro voltou a ruminar o assunto e ocorreu-me que percebi ao contrário: uma pessoa que tem défice acumulado de ignorância tem um excedente de conhecimento, logo fiquei mais descansada, pois o país tem um povo que está muito bom e se recomenda. Talvez o PM Costa quisesse explicar futuros cortes na educação. Não vale a pena investir mais, dado o excedente de conhecimento, até porque diz ele que esta situação tem de ser corrigida o mais brevemente possível.

quinta-feira, 2 de março de 2017

A vírgula do Tom Hanks...

Sim, é uma "Oxford comma"!


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Não percebo

Manuel Araujo, no Observador, relata a saga do Instituto Nun’Alvres, também conhecido por Colégio das Caldinhas. Durante a leitura da peça percebemos que a instituição já foi alvo de muitas tentativas de o estado português a fechar. Também percebemos que, perante todas essas tentativas, o colégio conseguiu sobreviver através da astúcia de quem o dirigia, dos alunos, e da população que serve.

Estamos no século XXI, o estado português, mais uma vez, toma medidas que ameaçam fechar o colégio -- repito: não é novo e, se há instituição que o sabe, é esta -- e parece que os alunos, a população, e a direcção dão-se como vencidos: é desta que o colégio fecha, dizem. Não percebo.

Estas pessoas são, supostamente, mais educadas do que todas as que as precederam, têm mais dinheiro e mais facilidade em angariar fundos, acesso a tecnologia, meios de divulgação de informação muito melhores do que as outras gerações que salvaram o colégio antes, etc., mas tudo isto culmina numa estratégia para salvar o colégio em que se ameaça fechar o colégio de vez, se o estado não o financiar. É isto o progresso? Se isto é o progresso, então acho melhor que esta escola feche de vez.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Poder de mercado

Esta semana deu-me para cozinhar bastante e, como tal, decidi oferecer algumas refeições à minha vizinha J. Numa das minhas visitas de entrega, encontrei a Groupie do Lobo Antunes (GLA), que tinha acabado de jantar com a J. Começámos a falar de arte e a GLA foi professora de arte no Museu de Belas Artes, há várias décadas. Até recentemente, a escola de arte chamava-se Glassell, em honra do milionário que tinha feito a doação para a sua construção, mas o complexo do Museu de Belas Artes vai ser modificado e o edifício Glassell foi demolido para dar lugar a outro edifício que fará parte do novo campus.

O projecto de renovação do campus terá um custo de $450 milhões e o nome de Fayez Sarofim, que doou $70 milhões. O Sr. Sarofim é apenas um dos homens mais ricos de Houston e dos EUA e, como devem calcular, é um grande apreciador de arte. Também é um grande apreciador de charutos, que fuma copiosamente ao pé das grandes obras de arte que decoram o edifício onde trabalha -- até os cubículos têm obras de arte, não vão os assistentes ter um mau dia por falta de inspiração -- e a sua casa, mas quando se é o dono de Picassos, Motherwells, Rauschenbergs, de Koonings, etc. pode-se fazer o que muito bem se entender. Uma obra de arte num museu de entrada livre é um bem público; mas na casa de alguém é um bem privado.

O Sr. Sarofim faz parte do top dos 200 maiores colecionadores de arte do mundo e, obviamente, em Houston, o seu nome é conhecido por toda a gente que trabalha nos museus -- até os caixas do parque de estacionamento o "conhecem". A GLA tem a sorte de ter um sobrenome parecido com o do bilionário e relatava ela que, numa das sua idas ao museu, houve qualquer confusão com o seu cartão de membro e o preço de estacionamento não incluía o desconto. Ao falar com o caixa, este perguntou-lhe o nome e, quando recebeu a resposta, o rapaz entrou em pânico, pediu imensa desculpa, e abriu-lhe o portão sem que ela tivesse de pagar por estacionar. Pensava ele que ela pertencia à família de Sarofim, o que lhe concederia poder de mercado. Um Sarofim no mercado não é o mesmo que um Smith, por exemplo. O Smith teria de esperar que a confusão se clarificasse para que o desconto lhe fosse concedido.

Quando se tem poder de mercado, o mercado verga em nosso favor. Na questão do "custo" do ensino privado e do ensino público, as questões de poder de mercado são essenciais. É por os sindicatos de professores terem poder de mercado que os professores do público ganham, em média, mais do que os do privado. Mas qual é o poder de mercado do estado quando negoceia um contrato de associação? Será que o preço por turma é ditado pelo colégio privado, o que acontece quando uma família anónima compra a educação do seu filho no colégio, ou é ultimamente determinado pelo estado? Se é determinado pelo estado, então não é representativo do verdadeiro custo para o colégio, pois o preço inclui a pressão do poder de mercado do estado.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Ensino público

As escolas de Coimbra assinaram um documento em defesa do ensino público. Gostaria de dizer que andei sempre no ensino público em Coimbra; no entanto, tive explicadora de matemática durante alguns anos. Aqui está a lista de escolas que frequentei depois de completar a escola primária:

  • Escola Preparatória de Silva Gaio
  • Escola Secundária de D. Duarte (7-9)
  • Escola Secundária de Avelar Brotero (10, 11)
  • Escola Secundária de Jaime Cortesão (12)
A educação que recebi nestas escolas permitiu-me não só entrar para a Universidade de Coimbra, curso de Economia, à primeira tentativa, como ser admitida numa universidade americana. E depois os americanos ainda quiseram que eu fizesse um doutoramento e pagaram-me para estudar. A sério que foi ideia deles. Malucos...
Todas as minhas virtudes vêm da educação que recebi em Portugal; as minhas falhas são todas da minha responsabilidade porque sou um bocado preguiçosa, distraída, e lenta (peço desculpa de antemão).

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Actualização do Estudo do Ministério da Educação

No estudo do Ministério da Educação foram introduzidas as seguintes modificações, pelo menos:
  • a orientação das páginas foi mudada para "vertical" e o documento tem agora 107 páginas -- já se poupou papel a quem imprime estas coisas
  • a data do documento foi antecipada: era Maio de 2016 e agora é Março de 2016
  • o Colégio Liceal Santa Maria de Lamas já tem nome completo e está "analisado"

O Word Doc de Tiago Brandão Rodrigues

O Artur Rodrigues disponibilizou no seu Facebook um link para o documento do Ministério da Educação que, supostamente, serve de suporte à decisão de quais contratos de associação terminar. O título do documento é "Análise da Rede de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo com contrato de associação" e data de Maio de 2016.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Escolas "caras" em Houston II

No primeiro post sobre este tópico falei-vos das escolas localizadas numa das zonas da cidade mais pobre da cidade. Hoje gostaria de vos falar da escola mais cara de Houston, a St. John's School, que é uma escola privada, com fins não-lucrativos, localizada no centro da cidade. Esta escola é também reconhecida a nível nacional, e não apenas em Houston, pelos seus altos critérios de excelência.

Se consultarem a página web da escola, saberão que o processo de selecção de novos alunos inclui, entre outros, critérios relacionados com notas, actividades extra-curriculares, cartas de referência, especialmente o serviço comunitário do aluno, entrevista, hereditariedade, maturidade da criança. A descrição do processo é a seguinte:

sábado, 21 de maio de 2016

Um homem vil

Em notícia no Jornal de Notícias, o nosso ilustre Primeiro Ministro António Costa diz que nada mudou na celebração de contratos de associação: eram uma excepção à regra e continuarão a sê-lo. Os colégios é que perceberam mal, pensavam que contratos a prazo eram renováveis indefinidamente. Se assim fosse, não haveria prazo, mas o português é uma língua difícil de compreender.

O que não é difícil de compreender é que António Costa acabou de admitir que o governo nos forneceu uma notícia que não era notícia. Pois é, ilustres leitores, o nosso Primeiro Ministro usou a educação das crianças portuguesas para manipular a opinião pública. Uma pessoa que faz isso é para mim um homem vil, sem escrúpulos, merecedor do meu maior desprezo.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Uma turma cara

Frequentei o nono ano na Escola Secundária de D. Duarte. A minha turma, o 9L, era uma das turmas mais caras da escola. Tinha apenas 18 alunos, eu era uma da poucas crianças que nunca tinha reprovado, e havia um menino paraplégico e uma menina cega. Os meus colegas com deficiências físicas tinham apoio especial, através de um gabinete que empregava várias pessoas. Para além disso, os nossos professores apoiavam essas crianças mais horas do que o normal.

A menina invisual, cujo irmão também era invisual e surdo-mudo e não frequentava aquela escola, tinha de ter todos os materiais de estudo escritos em braille. Todos os seus trabalhos de casa e testes tinham de ser traduzidos de braille para negro (a forma como nós, que não somos cegos, escrevemos). Quase todos os nossos professores tinham bastantes anos de experiência e tinham um cuidado especial com a nossa turma. A nossa turma era bastante unida e todos eramos amigos uns dos outros e assistíamos os nossos colegas com deficiências físicas. Esta turma era cara, mas a escola nunca faltou com nada, mesmo sendo ensino público.

domingo, 15 de maio de 2016

Ceteris paribus: um incómodo

Na discussão de custos de educação do ensino privado vs. público, tem-se invocado o relatório do Tribunal de Contas referente ao ano lectivo 2009/2010. Ao ler o relatório, somos informados várias vezes de que a contabilidade de custos não é muito boa e uma das conclusões do relatório foi que se devia investir em criar um sistema de contabilidade analítica que permitisse melhorar a qualidade da informação existente. Esse sistema ainda não foi implementado. Será que o anterior governo PSD/CDS pode explicar ao público porque decidiu não seguir essa recomendação?

Comparar custos entre duas opções exige que as opções sejam comparáveis, ou seja, tem de se controlar os pressupostos. Olhar para os custos não controlando a demografia, o tipo de ensino visado, a taxa de ocupação das escolas, etc. não nos permite fazer uma comparação educada. Para além disso, o relatório foi feito pré-Troika e, durante o período de ajustamento da economia, algumas despesas do sector público, como os salários, foram impedidas de aumentar. Mas no sector privado, não houve congelamento de salários, logo que podemos nós concluir do rácio de salários público-privado? Eu não concluo nada porque não tenho informação suficiente para fazer a análise.

Em economia, invoca-se muitas vezes o pressuposto "ceteris paribus", que é como quem diz que o resultado da análise está condicionado por tudo o resto ser mantido constante e nós podermos isolar o efeito. Um estudo de comparação de custos de educação nos dois regimes, público e privado, com pressupostos controlados nunca foi feito em Portugal por duas razões: insuficiência de dados e não existência de vontade para o implementar. Deduzo então que "ceteris paribus" se tornou num incómodo e alguns economistas preferem esquecer que essa ferramenta existe.

Imaginem estudar tratamentos médicos assim: cada um concluíria o que lhe apetecesse. Quem se lixava eram os doentes.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Distribuições truncadas

Quando se fala no enviesamento de selecção que está presente no ensino privado, pensa-se que se está a dizer que só os ricos andam em escolas privadas. Isto não é verdade. Há o enviesamento de selecção causado pelo preço das propinas e que irá estar correlacionado com a classe social do aluno. Os alunos de melhor classe social, em média, têm vidas em que têm mais actividades de lazer, fazem férias, são mais acompanhados pelos pais, estão rodeados de pessoas que falam melhor e provavelmente lêem livros, têm melhor alimentação, vivem em casas mais confortáveis, etc., o que lhes dá alguma vantagem em conseguir melhores notas. Mas há outros enviesamentos de selecção.

Um aspecto que é pouco discutido é a obrigação de prestação de serviços, se bem que a nossa fabulosa Helena Araújo já o tenha mencionado várias vezes no Facebook. Se um aluno, independentemente da sua classe social, reprovar no ensino privado várias vezes, a escola privada não tem obrigação de continuar a prestar-lhe serviços. Ele pode tentar encontrar outra escola privada, mas, mais uma vez, não há obrigação de lhe prestar serviços. E se for rejeitado por todas as escolas privadas, onde é que ele acaba? No ensino público porque o estado não só não tem a capacidade de lhe recusar serviços, como tem a obrigação constitucional de lhos prestar até ele terminar a escolaridade mínima obrigatória. Note-se que, ao aumentar a escolaridade mínima obrigatória, o estado aumentou o custo por aluno porque o aluno estuda mais anos, os últimos anos são mais caros, e o aluno tem mais anos escolares nos quais pode reprovar.

Logo, os resultados do ensino público e do ensino privado são enviesados não só em termos de notas, mas também em termos de custo por aluno, pois enquanto que o ensino privado pode truncar as suas distribuições probabilísticas (de custo por aluno e de notas), o ensino público não o poderá fazer.

Seria interessante comparar a média e a variância de idades por ano escolar entre o privado e o público, pois o efeito que descrevo acima seria identificável na demografia de cada escola: as escolas que fazem selecção teriam uma variância e uma idade média inferiores às escolas que não o fazem (o efeito de classe social também teria de ser controlado para isolar o que descrevo).

Dados mais detalhados até seriam úteis para identificar as escolas públicas que fazem selecção de alunos, pois não são só as escolas privadas que discriminam. Bastaria ver as notas médias do aluno no ano escolar anterior à e a idade média de entrada na escola por ano escolar, pois os alunos com piores médias e mais velhos (reprovaram mais anos antes) teriam menor probabilidade de entrar em certas escolas.

Adenda: aos meus amigos que me dizem que as escolas com contratos de associação não discriminam, gostaria de vos lembrar que essas escolas não são verdadeiramente privadas, pois o estado paga e influencia a forma como a escola é gerida. Se o estado tem de pagar para as escolas não discriminarem, é porque os privados reconhecem que não são muito bons a conseguir resultados com certos alunos. Logo, os meus amigos que dizem que o ensino privado é muito melhor do que o público têm uma contradiçãozinha que terão de resolver. 

A eficiência do ensino privado

Em Portugal, no segundo ciclo, a média do rácio de alunos por professor é 13, tanto em escolas públicas, como em privadas com e sem pagamentos do estado. Em países como a Holanda, a França, a Coreia do Sul, e o Luxemburgo, o ensino privado tem rácios superiores ao de Portugal. No terceiro ciclo, as coisas são diferentes. O ensino privado sem pagamentos do estado tem uma rácio de 6, o privado que depende do estado, 11; e o público, 8. A Finlândia é uma anormalidade com 18 alunos por professor no privado.

Sabemos que, no público português, os sindicatos têm um fanico sempre que se fala em não renovar contratos, logo há efectivamente professores a mais nos quadros. Mas o privado tem muito mais margem de manobra, pois não pagam tão bem como no público, nem estão obrigados a reter a sua mão-de-obra durante tanto tempo. Logo, pergunto, porque razão terão as escolas privadas em Portugal rácios de alunos por professor dos mais baixos da Europa, quando há a percepção que são tão eficientes a ensinar e que as forças de mercado funcionam tão bem?

Gráfico: OCDE, via Insurgente

terça-feira, 10 de maio de 2016

Não percebo a vossa Economia

Um dos argumentos que o Carlos usa, no Insurgente, é que 90% dos custos de uma escola são operacionais, logo o custo fixo é baixo e para além disso, a implicação matemática é que, como é fixo, aquilo cai quando se tira a primeira derivada da optimização. O custo fixo é baixo porque ele ignora o custo de construção. Qual é o pressuposto de dizer que não se cobrem os custos fixos de construção e manutenção das instalações? O pressuposto é estarmos a fazer análise de curto prazo, pois no curto prazo, há custos fixos; no longo prazo é tudo variável, pois a decisão de se construir, ou não, uma escola também é variável, logo o custo de construção tem de ser considerado. No curto prazo, é óptimo não ligar ao custo de construção; mas a longo prazo, cobrir apenas o custo operacional leva à bancarrota.

RE: Quem protege os cidadãos dos estúpidos?

O Rodrigo Adão da Fonseca acha que eu defendo que os alunos não devem ter escolha, e diz que eu digo que deve tudo ir para a escola pública. Depois diz que eu escrevi um manifesto salazarista. Não percebi o que ele disse. Diz ele que deve haver escolha para os alunos irem para o privado ou o público. Quando as propinas de uma escola privada não são zero não há escolha livre. Em mercados, quando se paga um preço não há escolhas livres.

Se as escolhas fossem completamente livres, o problema de optimização do consumidor seria um de maximização da utilidade sem restrição orçamental. Mas não é esse o problema do consumidor em economia: a escolha do consumidor está sujeita a uma restrição orçamental, logo não é livre. A não ser que o Rodrigo defenda que as propinas das escolas privadas sejam zero, não estou a ver como é que o argumento dele se compatibiliza com perfeita liberdade de escolha entre privado e público. Mas notem que cobrar propinas zero nas escolas privadas seria reduzir todo o sistema de ensino a um sistema público, pois todo o custo do ensino seria suportado pelos contribuintes.

Posto isto, continuo a reiterar que utilizar o argumento de liberdade de escolha é estúpido porque em mercados não há liberdade de escolha total; o que há é liberdade de escolha, dado o dinheiro que temos no bolso.

No meu post não falei da liberdade de mudar de professor, mas o Rodrigo acha que o que eu escrevi impede a liberdade dos alunos que frequentam o público de mudar de professor. Eu andei sempre em escolas públicas e mudei de escola várias vezes e nunca me foi imposta uma escola em particular. Não sei como é que andar em escolas públicas afecta a liberdade de os alunos mudarem de escola ou professor porque eu não tive essa limitação. Mesmo dentro da escola havia alunos que mudavam de turma, logo o sistema público tinha dentro de si algum nível de liberdade.Se, entretanto, essa limitação foi imposta, acho mal; mas então vamos falar de liberdade de escolha.

Se mudar de professor e de escola é uma liberdade que deve ser salvaguardada a qualquer custo, então é impossível uma localidade ter apenas uma escola privada, pois os alunos dessa escola poderiam querer mudar para outra escola privada e a sua não existência violaria as suas liberdades de escolha. A implicação lógica do que o Rodrigo diz é que tem de haver pelo menos duas escolas públicas e duas escolas privadas em todas as localidades para que todas as liberdades de escolha inter-escola dos alunos possam ser satisfeitas: ir de pública para pública, de pública para privada, de privada para pública, e de privada para privada. Para salvaguardar a escolha intra-escola, i.e., de se poder mudar dentro da escola, em cada escola privada e pública, teria de haver pelo menos duas turmas diferentes para cada ano. Isso é que permitiria uma liberdade de escolha exaustiva.

Em suma, parece-me que a única liberdade de escolha que interessa ao Rodrigo é a de ir de pública para privada, sem ter em conta os custos das propinas da privada, e eu continuo a dizer que isso não é um leque de liberdades de escolha completo, nem sequer é uma escolha perfeitamente livre porque o custo das propinas da privada não é zero. O argumento da liberdade de escolha é mau.

(Não sei onde é que ele leu que eu chamei estúpidos aos governantes no post em questão porque nem sequer mencionei um governante em particular, mas acho que quem usa o argumento da liberdade de escolha está a ser estúpido porque é um mau argumento.)