Mostrar mensagens com a etiqueta Economia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Economia. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Montanha russa à vista

Na semana passada saíram as intenções de plantio das colheitas para 2024 nos EUA. De acordo com os resultados do inquérito da USDA, os agricultores americanos planeiam plantar uma área menor. Pode ser que os preços dos futuros do milho e da soja os tenham desencorajado, mas a minha opinião pessoal é que com as eleições à porta e a possibilidade de Trump voltar à presidência é arriscado plantar. O maior parceiro comercial dos EUA na agicultura é a China e quando Trump esteve na presidência desencadeou uma disputa comercial que deprimiu os preços das commodities. Concluo então que, ou os agricultores acham que Trump vai ganhar, ou têm a certeza que ganha pois para ganhar basta as zonas rurais votarem nele.

Apesar da economia americana estar bastante sã, o que beneficia outros países, a guerra contra a inflação ainda não está ganha e uma presidência Trump irá criar um ambiente inflácionário, dada a história da última presidência dele antes da pandemia. Sendo assim, dificilmente se criará condições para as taxas de juro baixarem, a não ser que haja um choque imprevisto.

Para Portugal, as maluqueiras de Trump até poderão ser benéficas porque o número de americanos que irá dar à sola aumentará de certeza, e muito provavelmente alguns irão para aí. Sim, irá ser inflacionista e os locais irão perder poder de compra, mas o lado bom é que a dívida pública irá baixar mais depressa. Só que também implica que será mais oneroso emitir nova dívida pública.

Os recentes bons resultados do excedente orçamental já geram discussões sobre políticas redistributivas. O que a história recente de Portugal nos ensina é que tais políticas acabam sempre por criar dívida pública, pois políticas redistributivas têm efeitos estruturais, apesar da decisão de as implementar ser baseada em resultados que se revelam conjunturais.

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Claro que mudou

Tenho acompanhado com alguma surpresa a discussão em torno do estado da nação. Os diagnósticos feitos são os mesmos de sempre: (a) situação demográfica má e agora pior devido ao aumento da emigração; (b) carga fiscal elevada; (c) fraca produtividade do trabalho; e (d) salários baixos. A única coisa que mudou no discurso é que agora a taxa de desemprego está a níveis baixos. Como receita de crescimento, os de Esquerda propõem aumentar despesa em educação e saúde e os de Direita receitam uma descida de impostos, como se essas coisas tivessem valido ao país no passado.

Em Junho deste ano, a Universidade do Porto publicou um estudo acerca da economia não registada em Portugal, no qual se estimava que tivesse atingido 34,37% do PIB. Se isto é verdade então o problema não é tanto os impostos serem muito altos, mas sim haver uma parte significativa da população que consegue escapar a pagar impostos, logo a carga fiscal acaba por ser concentrada em menos contribuintes. A conclusão do estudo é curiosa: a solução está em

"que o governo tome medidas adequadas e abrangentes para tornar a economia oficial mais atrativa e competitiva – face à ENR, mas também face aos países concorrentes –, de um modo geral, para que as pessoas (trabalhadores e empresários) não tenham de recorrer à ENR para obter níveis de rendimento mais condignos ou até mesmo emigrar (deslocalizar, no caso das empresas)”, destaca Óscar Afonso, autor da investigação e diretor da FEP."

Fonte: UP

Ou seja, o crime compensa e quem não paga pode continuar a não pagar. Ainda por cima, o estado gastou mundos e fundos a desenvolver uma Autoridade Tributária das mais sofisticadas do mundo e, no final do dinheiro gasto, serve apenas para assediar quem já paga impostos. Ainda por cima, ironicamente os contribuintes é que suportaram o custo de um sistema que os persegue e que não consegue apanhar quem não paga. Ironicamente, se a economia paralela fosse declarada, Portugal teria um rácio de dívida pública-PIB mais baixo e haveria mais receitas fiscais para amortizar a dívida e até para melhorar a qualidade da saúde e da educação pública em Portugal. E sendo uma economia de menos risco, também poderia conseguir financiar-se a custos menores.

Onde é que está a economia paralela ou não registada e quem são as pessoas que afinal até são bastante produtivas para gerar mais de 34% do PIB registado? O estudo acha que é uma economia de vícios: corrupção, branqueamento de capitais, fraude, etc., mas acho este diagnóstico suspeito. Se eu tivesse que sugerir a área que aumentou bastante de actividade recentemente e que provavelmente uma parte significativa vive à margem, diria que é a economia digital, especialmente através das redes sociais, o que nos leva a outra ideia.

Portugal já tinha grande tendência para a economia dos biscates e agora, na era dos influencers, condutores de Uber, senhorios da Airbnb e do Instagram, personal coaches, etc., ainda tem mais e por isso o desemprego baixou -- não só em Portugal como noutros países. Não é verdade que a economia portuguesa não tenha mudado, mudou bastante e até se internacionalizou ainda mais. Basta participar nos workshops de influencers portugueses para encontrar pessoal a assistir que está espalhado por todo o mundo.

sábado, 18 de março de 2023

Inflação alimentar

A propósito da inflação alimentar, há vários pontos que me parecem pertinentes. O primeiro é que as margens nas grandes superfícies não são uniformes, nem sequer as lojas actualizam os preços tão frequentemente quanto a variação real dos preços de mercado. Nos panfletos de promoções semanais, é natural que esses preços sejam tão baixos que a loja perca dinheiro, só que o objectivo das promoções é cativar o cliente para que ele visite a loja, compre um leque variado de produtos e a loja acabe por fazer dinheiro no volume final, em vez de em todos os produtos. Isto leva a que se a loja perde dinheiro em alguns produtos, é porque o tem de fazer em outros, logo é natural que as margens sejam mais elevadas em algumas coisas.

Depois há a considerar que os produtos alimentares pouco processados são onde as grandes superfícies ganham menos dinheiro, as margens maiores são obtidas nos produtos que estão mais distantes do seu estado natural, por exemplo, coisas como biscoitos e iogurtes com sabores e granola de lado têm uma margem maior do que farinha, açucar, leite, e fruta. Uma sopa enlatada também tem uma margem maior do que os ingredientes que entram na sopa. Parte da razão é que os ingredientes frescos que se compram no supermercado são muito mais bonitos e uniformes do que os ingredientes que entram na comida processada e isso tem um custo. (As pessoas devem estar familiarizadas com este conceito dado o sucesso de a Fruta Feia, que tem preços mais em conta. A razão não é apenas estética, mas de necessidade de uniformidade para a automatização da cadeia de processamento).

Nos produtos de marca (não-branca), a grande superfície tem de ter preços consistentes com os preços da marca, logo quem determina os preços ao consumidor são as Nestlés, Yoplait (Groupe SODIAAL), etc. Nestes produtos, a grande superfície tem poder de negociação na margem que faz, até porque muitas vezes nem compra o produto, apenas arrenda o espaço na loja à marca. Já nas marcas brancas, a grande superfície controla o preço e esses preços são efectivamente mais baixos do que os de outras marcas, logo não se pode acusar as grandes superficíes de não velarem pelos interesses dos clientes.

O ano que passou é um bocado sui generis e não faz sentido passar legislação ou sequer tirar ilações de uma situação que é quase única. Temos também de ter em conta que muitas das empresas a retalho têm o papel de suavizar os preços ao consumidor, ou seja, quando os custos aumentam/sobem rapidamente, os preços a retalho aumentam/descem mais suavemente. Este efeito resulta da própria gestão da companhia, pois os contratos são negociados com antecedência e muitas vezes os custos são "hedged" para a empresa não estar sujeita aos preços das caudas da distribuição (ou seja, preços muito altos ou preços muito baixos).

Basicamente, mesmo que os preços desçam bruscamente no mercado, não é necessariamente verdade que as empresas beneficiem dessa descida porque quando contrataram os fornecimentos podem ter negociado preços mais altos do que os actuais, pois na altura da negociação era incerto se os preços iam continuar a subir ou iriam descer.

Finalmente, há a questão fiscal. Portugal tem impostos bastante altos, especialmente em combustíveis, que são bastante importantes para a estrutura de custos das empresas de venda a retalho, logo se o estado está a arrecadar mais em impostos esses custos irão ter de ser passados para o consumidor de qualquer forma.

Mas nem tudo é mau em Portugal porque, na questão de compras de frescos, os portugueses têm um leque de escolha, pois ainda há bastantes mercados e praças locais que oferecem preços variados e até a possibilidade de negociação. Ou seja, o mais provável é que a inflação alimentar até seja menor do que os dados do estado indicam.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Ajustes

A Reserva Federal americana aumentou as taxas de juro mais 0,5%, uma desaceleração comparado com os últimos incrementos. Os dados da inflação publicados esta semana indicaram crescimento de preços homólogo de 7,1%, evidência que também está a enfraquecer. E até os consumidores baixaram as sua expectativas de inflação a um ano para 5,2%. Os detalhes estão todos no calendário económico da Bloomberg que dá imenso jeito para acompanhar as maiores economias mundiais. Não acho estes números muito surpreendentes, dado que coincidem com o período no ano passado em que a inflação começou a acelerar mais rapidamente, logo o denominador está a aumentar mais depressa do que o numercador.  

Em Janeiro, irão haver bastantes ajustes na economia americana. Um deles é que os escalões de impostos vão ser actualizados e sobem em média 7% (o escalão sobe, não a taxa de imposto, logo as pessoas vão pagar menos impostos sobre os rendimentos). A pensões da Segurança Social também vão aumentar 8,7%. Mas há vários programas de apoio social que irão terminar ou encolher porque tinham sido expandidos durante a pandemia, logo as devoluções de impostos irão ser mais pequenas em 2023. Veremos se os americanos também se ajustam sem que a economia entre em recessão. 


terça-feira, 13 de dezembro de 2022

O ciclo da minha vida

O Pedro Nogueira Ramos foi meu professor de Macroeconomia na FEUC e é um dos professores de cujas aulas me recordo mais nitidamente. No final do semestre, ensinou-nos a Life-Cycle Hypothesis, mas não me recordo bem se tinha tradução para português, que suponho seria qualquer coisa como a hipótese do ciclo da vida. É uma ideia desenvolvida pelo Franco Modigliani e pelo Richard Brumberg no início dos anos 50.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Competitividade

Após mais de dois anos do início da pandemia, parece ser evidente que os problemas de logística criaram uma nova matriz de competitividade, o que afecta preços e mesmo inflação. A última vez que tivemos forte crescimento nos preços de activos (imobiliário e bolsa) foi antes da crise subprime. Nessa altura, o efeito nos preços de bens e serviços da forte procura dos EUA era contrariada pela China que, para além de controlar as taxas de câmbio,  também usufruía de salários baixos. Ou seja, os americanos criavam inflação enquanto que os chineses exportavam deflação, aliviando a pressão na inflação. 

Nos últimos anos, à medida que os salários da China aumentaram e as taxas de câmbio foram liberalizadas, as fontes de competição salarial passaram a ser países como o Bangladesh, Vietnam, Paquistão, India. Ajuda também que estrutura de competitividade assenta numa optimização dos transportes e da cadeia de distribuição, especialmente por via marítima. 

A pandemia interrompeu este processo. Os americanos começaram a fazer mais compras pela Internet o que alterou a cadeia logística--a IHS Markit estima que o crescimento no comércio digital que ocorreu no último ano teria levado quatro a seis anos sem a pandemia. Depois houve modificações no tipo de compras, pois o dinheiro que era gasto em experiências (viajar, comer fora, hoteis, etc.) ficou temporariamente livre para ser gasto em bens físicos. A rapidez com que tudo está a ocorrer afecta os preços e essa é uma das fontes de inflação.

Obviamente que os estímulos por via das políticas fiscal e monetária não só não resolvem o problema da cadeia de distribuição, como mantêm níveis de procura elevados que a oferta não consegue estancar, logo os preços aumentam como mecanismo de racionamento. Nesta altura, a cenário mais provável é que em breve as políticas fiscal e monetária tenham de aliviar a pressão na procura, em vez de a incentivar.

Há outra perspectiva a considerar: no último meio ano, vislumbram-se inovações nas rotas de comércio internacional. Em vez de as empresas se focarem em preços baixos, estão a valorizar mais a previsibilidade nas entregas de produto, logo a América Latina está a ganhar encomendas que podem ser entregues aos EUA sem ser necessário o recurso a comércio marítimo. Na Europa, muito do negócio que ia para a Ásia está a ir para países como a Turquia. Portugal também terá vantagem em fornecer a Europa dada a sua proximidade física e o acesso por via terrestre.  

É uma pena que os políticos portugueses não se interessem pelo mundo, nem tenham políticas adequadas aos actuais desafios que são verdadeiramente oportunidades. Ainda mais deprimente é a sua falta de preparação em época de campanha para as legislativas.

 


terça-feira, 13 de julho de 2021

As Mulheres ao Leme

A Christine Lagarde anunciou hoje que a política monetária de apoio à UE vai mudar de formato brevemente, quer dizer, daqui a 10 dias. Será interessante ver o que ela vai cozinhar, mas parece-me ter o diagnóstico correcto: precisa de mudar porque o que está em vigor não funciona, dado o processo contínuo de empobrecimento da UE. 

Também hoje, a Janet Yellen, Treasury Secretary dos EUA, decidiu dar uns conselhos à UE: política monetária expansionista e necessidade de maior apoio da política fiscal. É irónico que os EUA estejam a dizer à Europa que gaste mais dinheiro para acelerar o crescimento; normalmente, os europeus acusam os americanos de ser forretas e de não se importar com o bem-estar dos cidadãos. O certo é que quando é preciso gastar, os americanos gastam. 

O GDPNow é um modelo da Reserva Federal de Atlanta, que tenta estimar o crescimento do PIB americano neste momento, e indica uma taxa de crescimento de 7,86%. Até nem é mauzito...

sábado, 19 de junho de 2021

Contas de envelope

Estive a ver dos dados do PIB de Portugal e parece que desceu 15,7 mil milhões de euros (base 2016, a preços constantes) em 2020 e isso nem tem em consideração a desgraça que foi o início de 2021. Depois também temos de pensar que, mesmo com esta perda, houve endividamento da economia para se chegar onde se chegou (em princípio vão dizer-nos em Julho quanto aumentou a dívida), logo o custo total da pandemia será a perda do PIB, o endividamento adicional, e, claro, o valor da perda de vida humana e sofrimento, que penso ninguém irá quantificar porque em Portugal ninguém liga a essas coisas. 

Sejamos conservadores e ignoremos esta coisa de deflatores na perda do PIB acima, e pensemos no tamanho do tal Plano de Recuperação e Resiliência: 16,6 mil milhões de euros até 2026, parte a fundo perdido e parte como empréstimo a juros baixo. Quer dizer, isto ajuda mas não recupera Portugal de todo. E esqueçam a palavra resiliência, pois isso é uma palavra chique introduzida recentemente para disfarçar a corrupção que é inerente à República.

Eu não sei, mas acho o país completamente à deriva e o Primeiro Ministro nem de aritmética percebe. Convenhamos que, se percebesse, dificilmente chegaria a PM.  

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Números

É francamente misterioso que a China tenha tão poucas infecções e nem sequer tenha tido uma segunda vaga. Bem sei que, na primeira vaga, fecharam as pessoas em casa, pregando tábuas em janelas e portas. Mesmo assim, um país tão grande devia ser mais difícil de controlar uma pandemia.

Hoje no trabalho, um colega inglês perguntou o que é que eu achava de os ingleses terem retirado Portugal da "lista verde". Respondi que achava bem. Não sabemos como as coisas se irão desenrolar no Outono, logo é necessário exercer cautela. O que acho mal é a falta de orientação dos governos, que deixaram as pessoas gastar dinheiro e depois tiram-lhes o tapete debaixo dos pés. 

Quem achava que limitar o comércio internacional ia criar emprego e crescimento tem agora um excelente caso para estudar. É desta que a Economia consegue dados para ser uma ciência a sério...

terça-feira, 23 de julho de 2019

Os recursos desumanos

“O problema afeta praticamente todas as regiões do país e todos os sectores. É preciso pessoal qualificado nas áreas das tecnologias de informação e comunicação, na indústria, na agricultura, no turismo, na construção civil.”

Pedro Siza Vieira, Ministro Adjunto da Economia, Expresso, 20/7/2019

Permitam-me discordar. De há uns tempos para cá, os governos portugueses só vêem tecnologia como uma ferramenta de cobrança de impostos. Os restantes ministérios não usam tecnologia. Por exemplo, no início do ano, o Ministério das Finanças enviou emails a informar os contribuintes que tinham de limpar as matas de que eram proprietários. Ficamos logo a saber que o ministério ao qual compete administrar o território não tem recursos para cumprir a sua missão e sabemos que o estado ainda não sabe quem tem matas, logo como é que vai castigar os prevaricadores? Se forem ver as páginas de Internet de outros ministérios, encontram links partidos, coisas desatualizadas, etc.

Esta fixação em saber o que as pessoas gastam online para cobrar os impostos leva a que o público no geral desconfie das novas tecnologias para efeitos produtivos, i.e., que contribuam para o crescimento da economia. Há sítios em Portugal onde as lojas passaram a negociar apenas em dinheiro. Agora que os bancos cobram um balúrdio para ter uma conta, levantar dinheiro, etc., para já não falar na falta de confiança que todos os buracos bancários inspiram, mais incentivo há para evitar a economia virtual. Se o Facebook permitir mesmo às pessoas guardar dinheiro em libras facebookianas ou se aparecer um outro mecanismo semelhante, temo que os bancos portugueses fiquem sem parte dos seus depósitos.

terça-feira, 12 de março de 2019

Empregos garantidos

Ora digam lá se isto não lembra o efeito da função pública no mercado de trabalho em Portugal:

"Competition from these government-sponsored jobs would have an initially healthy result. It would force private companies to raise wages and increase benefits in order to keep up with the government. But as private-sector jobs improved, activists’ notion of what constitutes a good job would increase, and they would call for steadily higher wages and benefits for government work. Eventually this would exceed private companies’ ability to pay, so the job guarantee would come to represent the benchmark in the labor market and make up an ever-larger slice of the economy.

This would reduce productivity, since government jobs would likely generate less real value than private-sector jobs. Economists have found evidence that the beneficiaries of short-term government jobs tend not to go on to find work in the private sector after the programs end, suggesting that guaranteed jobs would be low-productivity work. As activists forced government wages and benefits higher, the private sector would find itself deprived of cooks, janitors, housekeepers, cashiers and the other people who make a modern economy run. In a worst-case scenario, this would be a one-way ratchet to a peculiarly dysfunctional form of communism.

So although a job guarantee could potentially be a good thing, politics seem likely to make it bad. A better idea is to use private-sector employment subsidies to encourage companies to hire more unemployed and underemployed workers -- an approach that the data suggests is much more effective in terms of building long-term worker skills. Additionally, a combination of wage subsidies, minimum wages and increased worker bargaining power could help private-sector workers capture a bigger share of the value they create."

Fonte: Noah Smith, Bloomberg

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Nada de novo

Estou aqui a pensar no mercado accionista americano. Não encontro grande motivo nos fundamentais da economia para poder apreciar muito mais, mas depois penso nas bolhas. O que são bolhas? São situações em que aparecem compradores quando o mercado esta em níveis acima do que aconselhariam os fundamentais, logo estes compradores são pessoas que têm fé que subirá ainda mais. Se muitos acreditarem ao mesmo tempo, as coisas materializam-se.

Ultimamente, sinto um bocado de pânico quando ouço dizer que não conseguem ver o topo ou que as coisas estão óptimas, como se a expansão, que já vai longa, pudesse durar indefinidamente. Mas depois penso é sempre assim. O ciclo de negócio é isso mesmo, um ciclo, as coisas repetem-se, as pessoas cometem os mesmos erros, não há nada de novo...

terça-feira, 3 de julho de 2018

Proteccionismo

Quando vim estudar para os EUA pela primeira vez, em 1995, tive duas cadeiras onde estudávamos case studies da economia americana: Economics of Industries e Managerial Economics. Em ambas as cadeiras um dos case studies era o da indústria automóvel nos anos 80. As empresas americanas pressionaram o governo para implementar medidas proteccionistas que limitassem o efeito da importação de carros japoneses que, para além de serem mais eficientes em combustível, eram menos poluentes e tinham também melhor qualidade porque avariavam com menos frequência. Em 1981, os EUA negociaram a implementação de quotas que limitavam a importação de carros japoneses e que duraram até 1985.

A curto prazo, as empresas domésticas americanas beneficiaram, mas a longo prazo, os japoneses seguiram uma estratégia de maximização do valor dos carros exportados para os EUA, focando-se mais no sector de carros mais caros e de luxo, que são mais lucrativos; ou seja, foram atrás dos clientes mais afluentes enquanto que os clientes pobres só tinham acesso a marcas americanas. Para além disso, os japoneses abriram fábricas de montagem de automóveis nos EUA e assim subverteram a política das quotas.

Como devem calcular, os efeitos foram desastrosos, até porque as empresas americanas aproveitaram esta vantagem das quotas para não investir com tanto afinco em qualidade, nem eficiência de combustível, adiando assim o progresso tecnológico. Este case study foi ensinado como um alerta para os malefícios do proteccionismo e as pessoas da minha geração que estudaram gestão e economia nos EUA estão familiarizadas com o mesmo. Muitas destas pessoas estão hoje em dia a trabalhar em empresas, logo têm alguns conhecimentos para avaliar os efeitos das medidas proteccionistas desta administração.

Notem, também, que nunca a economia americana esteve tão interligada com a economia do resto do mundo como está hoje. Os americanos especializaram-se em actividades de valor acrescentado mais alto e fizeram o outsourcing do resto. Esta evolução não surgiu porque dava prejuízo ou porque era motivada pelas empresas estrangeiras, mas sim exactamente o oposto: era mais lucrativa e foi perseguida pelos próprios americanos. Tentar revertê-la com medidas proteccionistas terá necessariamente de ter um custo para a economia americana.

sábado, 12 de maio de 2018

Bem bom!

Noticia o Dinheiro Vivo que Portugal está de parabéns: está tudo joia porque nunca houve tanta gente a levar 3 mil euros líquidos ou mais para casa! São 37,5 mil pessoas numa população de 10 milhões. Wow...

Uma amiga minha brasileira dizia-me no outro dia que achava que ganhava muito bem no Brasil com um salário anual equivalente a 47 mil dólares, mas depois veio visitar os EUA e achou que ganhava era mal. Aqui, levava para casa mais de 120 mil, mais bónus que podia ir até 50% do salário, mais contribuições para a conta poupança-reforma, e pagava muito menos impostos. Quando a vir, vou dizer-lhe que bom, bom, era ir para Portugal!

Por falar em bom, a Comissão Europeia prevê um crescimento para Portugal de 2,3% para 2018 -- é espectacular, não acham? Imaginem que é pouco mais do que o crescimento médio da economia desde 2000, logo estamos mesmo no bom caminho.

Não percebem?!? Eu explico: o que é uma média? Intuitivamente, é o ponto em que os pontos acima da média compensam exactamente os pontos abaixo. Se no pico do ciclo económico nós crescemos um pouquinho acima da média, então quando chegar a próxima recessão, não podemos crescer abaixo de para aí 2%, porque, senão, estragamos a média!

E agora apetece-me ouvir as Doce, a minha banda portuguesa preferida de quando eu tinha 10 anos. Bem Bom -- isso mesmo!


quinta-feira, 22 de março de 2018

Mais um

A grande notícia de hoje para a economia foi a Reserva Federal ter aumentado a taxa de juro outra vez, já vai no sexto aumento desde a recessão. Jerome Powell, o novo Chairman da Reserva Federal, indicou que este ano haverá pelo menos três aumentos, tendo o de hoje sido o primeiro. Veremos se conseguirão manter o plano e se haverá um quarto.

Não sabemos é quando, e se, estes aumentos nos EUA irão levar a aumentos no lado da União Europeia. É que diferenciais nas taxas de juro entre países levam a movimentos de capitais ao nível internacional que servem para atingir um novo equibrio. Pelo sim, pelo não, paguem os cartões de crédito e tenham uns trocos extra para a hipoteca...

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Ossos do Ofício

"In economics it is completely normal to be rude."


~ George Loewenstein, citado por Michael Lewis em "The Undoing Project"

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Milagres e percalços

Depois de ler a op-ed da Helena Garrido no Observador e a do Fernando Alexandre no Eco, ocorreu-me que não tenho dito nada sobre a economia ultimamente. Como a Helena Garrido menciona, esta é a terceira "retoma" desde que tivemos de chamar a Troika. Concordo com a apreciação de que uma das causas do bom desempenho de 2017 até agora é o fraco desempenho de 2016 no primeiro semestre. Ou seja, teremos de esperar até ao final do ano para ver a relevância do efeito de um denominador fraco, pois a segunda metade de 2016 foi mais forte. Em 2018, testaremos verdadeiramente esta terceira retoma.

Mário Centeno disse que com crescimento de 2,8% já se consegue cobrir a despesa dos juros da dívida pública. Há quem veja isto como um sinal de força, mas é um sinal de enorme debilidade porque a economia cresceu acima do previsto. Se o bom desempenho do país depende de um crescimento melhor do que o normal, então a situação normal com que se contava era uma de mau desempenho, que nem dava para fazer manutenção dos juros da dívida. Quando é que, nos últimos 30 anos, a economia portuguesa produziu um crescimento de 2,8% sustentável sem recurso a bastante crédito? Não é sustentável, como disse o Fernando Alexandre.

Temos também de enquadrar Portugal na situação que se observa na economia mundial: a economia americana está a arrefecer e o fluxo de capitais está a ir para a Europa e não podemos descartar a hipótese de o euro começar a apreciar significativamente e as taxas de juro começarem a aumentar. Portugal está preparado para uma situação em que todas as estrelas se alinham em favor do país. Não está preparado para situações menos do que ideais, especialmente choques externos, e o tempo de se preparar já passou. Quando a próxima crise acontecer, iremos olhar para trás e ver este período como mais uma oportunidade perdida: passamos o tempo a gerir o país contando com milagres, em vez de gerirmos o país contando com percalços.



sexta-feira, 16 de junho de 2017

O toque de "merdas"

Hoje, a Amazon anunciou que ia comprar a cadeia de mercearias Whole Foods. A Whole Foods teve bastante crescimento há uns anos, mas ultimamente tem estado estagnada e não tem conseguido atrair clientes para as suas lojas. Um dos problemas é que a estratégia da Whole Foods foi copiada e ampliada: agora é banal as mercearias e supermercados terem produtos biológicos, locais, de maior valor nutricional, etc. Também se assistiu à multiplicação de mercearias gourmet, entregas de frescos ao domicílio, serviços de assinatura de refeições (o cliente recebe os ingredientes necessários mais a receita para preparar as refeições em casa).

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Contradição nos mercados

Ouvi a entrevista de Bill Gross no podcast da Business Surveillance e achei que havia muitas ideias interessantes. Diz ele que vivemos um período de baixa volatilidade que é anormal, o que tem repercussões na forma como se investe e se poupa. Gross explica que períodos de baixa volatilidade requerem baixo retorno (a volatilidade é uma medida de risco). No entanto, o mercado accionista apreciou bastante num curto espaço de tempo. Por exemplo, o S&P 500 apreciou 8,71% desde o início do ano e 14,85% nos últimos 12 meses, o que é, para além de anormal, insustentável.

Se isto fosse uma situação sustentável e de baixo risco, então nada impediria alguém de se endividar a baixas taxas de juro para investir no mercado accionista e aproveitar o diferencial entre as taxas de retorno da bolsa e as taxas de juro de empréstimos, o que aumentaria as taxas de juro até que se eliminasse esta oportunidade, pois cada vez seria mais difícil obter empréstimos para comprar as acções e apreciar o preço destas. Foi o que sucedeu com a crise dos empréstimos subprime.

Uma das preocupações actuais é mesmo o de haver empresas a endividar-se para financiar a compra das próprias acções, o que aumenta artificialmente o preço das acções -- satisfaz os accionistas e beneficia a administração, mas não melhora a performance da empresa -- e devia também aumentar a taxa de juro, travando a exequibilidade desta estratégia a longo prazo; mas as taxas de juro continuam bastante baixas. Gross acha que as baixas taxas de juro são culpa dos bancos centrais, que distorcem a percepção de risco.

Em períodos de taxas de juro baixas, há o risco de se aumentar a dívida além da capacidade de manutenção da mesma caso as taxas de juro aumentem. A estratégia aconselhada nestes períodos é refinanciar dívida antiga para aproveitar a baixa da taxa de juro, mas evitar a emissão de nova dívida para assim limitar os custos de manutenção da dívida caso as taxas de juro comecem a aumentar.

Gross é bastante pessimista, afirmando que vivemos um período de alto risco comparável ao de 2008, pois os investidores estão a pagar preços muito altos para o risco a que se estão a expor -- se o preço é muito alto, então é cada vez menos provável que consiga aumentar indefinidamente, logo os investidores sofrerão duplamente quando os preços pararem de aumentar (ou diminuírem) e as taxas de juro aumentarem, se financiaram a compra com emissão de dívida a curto prazo.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Ben Bernanke na Vox.com

Se tiverem um bocado, não percam a entrevista que Ben Bernanke deu, no mês passado, a Jim Tankersley a propósito da nova edição em capa mole do seu livro "The Courage to Act", que contém um posfácio do autor especialmente escrito para a ocasião.

"Over the course of a 75-minute interview, Bernanke pronounced the economy to be near full employment; worried about partisanship coloring confidence surveys; proclaimed slowdowns in productivity and economic mobility the great challenges of the era; assessed Trump’s tax and health care proposals; and riffed on the Laffer Curve and his newfound pleasure in blogging."

Fonte: Vox.com