Desejo a todos os leitores um ano cheio de subsídios de férias, de Natal, outros subsídios bem como descidas de impostos. Enfim, que possamos viver acima das nossas possibilidades.
Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
sábado, 29 de dezembro de 2012
A situação normal
Os
economistas clássicos e neoclássicos consideravam as baixas taxas de
crescimento a situação normal dos países desenvolvidos – aliás, os “clássicos” Ricardo e Malthus são até conhecidos pelo
seu pessimismo. Em geral, taxas de crescimento económico elevadas não sugeriam
prosperidade, estabilidade ou modernidade, eram antes vistas como um sinal de transição
de economias atrasadas, sujeitas a transformações aceleradas – à semelhança do
que se passa hoje, por exemplo, na China. Entretanto o espantoso e inesperado crescimento
económico do pós-guerra na Europa deixou os economistas tão fascinados e
deslumbrados a ponto de muitos não perceberem que se tratava de um fenómeno
irrepetível. A razão principal dessa situação anormal, que durou até ao início
dos anos 70, foi a catástrofe económica anterior: duas guerras devastadoras, com uma grande depressão
pelo meio, criaram um enorme potencial de crescimento, uma espécie de efeito do
tempo perdido.
No fundo, as baixas taxas de crescimento
económico da maioria dos países europeus (incluindo a Alemanha) verificadas nos
últimos anos não nos deviam espantar. É essa a situação normal, tal como nos
explicaram os economistas clássicos e neoclássicos há mais de um século.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Os amanhãs que cantam
Durante muito tempo, os intelectuais marxistas, por
cegueira ideológica, não viram (ou não quiseram ver) e não perceberam as
terríveis consequências do comunismo. Pior: as barbaridades sem nome dos países
comunistas pareciam-lhes justificáveis em nome de um futuro radioso. O
sofrimento dos povos era o caminho para a redenção e a salvação da humanidade –
como é sabido, o marxismo abarca muita da escatologia cristã tradicional, mas
adiante. Tratava-se, pois, aos olhos dos marxistas, de uma “destruição
criativa”, dos escombros do capitalismo nasceria uma sociedade mais justa e
humana, expurgada da maligna propriedade privada, considerada a origem do mal.
E carradas de políticos e intelectuais (alguns extremamente inteligentes e brilhantes) acreditaram piamente nestas profecias, que, contra
toda a evidência, tomavam como “científicas”. Em suma, fossem quais fossem os
custos no presente valia a pena impô-los aos outros pelos maravilhosos
benefícios do longo prazo.
Por mais estranho que pareça, há semelhanças
inquietantes entre o fanatismo marxista e os seus “amanhãs que cantam” e o discurso
do primeiro-ministro, perdão, do nosso amigo "Pedro". Escreveu ontem no Facebook
o "Pedro":
“A eles, e a todos vós, no fim deste ano tão difícil em
que tanto já nos foi pedido, peço apenas que procurem a força para, quando
olharem os vossos filhos e netos, o façam não com pesar mas com orgulho de quem
sabe que os sacrifícios que fazemos hoje, as difíceis decisões que estamos a
tomar, fazemo-lo para que os nossos filhos tenham no futuro um Natal melhor.”
Os “sacrifícios” de hoje, as “difíceis decisões” do
presente são, pois, o preço a pagar por um futuro melhor. O que é isto senão um
acto de fé?
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Tempos interessantes
No dia 13 de Julho de 1932, ante uma plateia de
universitários de Paris, disse Paul Valéry:
“Viveis tempos interessantes. (…) Os tempos interessantes são
sempre tempos enigmáticos que não prometem descanso, nem prosperidade,
continuidade nem segurança. (…) Nunca a humanidade juntou tanto poder e tanta
desordem, tanta apreensão e tantas diversões, tanto conhecimento e tanta
incerteza.”
Oitenta anos depois, as palavras de Valéry tornaram-se ainda
mais lúcidas.
domingo, 16 de dezembro de 2012
Estou totalmente de acordo com estas declarações de Passos Coelho
“Queixam-se de lhes estarmos a pedir um esforço muito grande e dizem que estão apenas a receber o que descontaram” ao longo da sua vida de trabalho”, afirmou o primeiro-ministro, para a seguir contrariar tal teoria. “Não é verdade. Descontaram para ter reformas, mas não aquelas reformas” que hoje recebem, vincou o chefe do Governo.
Estão, na verdade, realçou ainda, “a receber mais do que descontaram”. E as suas reformas são pagas porque está hoje a trabalhar e que, quando chegar a sua vez de ser pensionista, terá reformas mais baixas do que os níveis de hoje. Os contribuintes de hoje terão reformas de acordo com a sua carreira contributiva".Retirado daqui.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Factos sobre o crescimento do sector não transacionável
"Numa altura em que urge criar riqueza no país e gerar novas bases de crescimento económico, é necessário olhar para o que esquecemos nas últimas décadas e ultrapassar os estigmas que nos afastaram do mar, da agricultura e até da indústria, com vista a produzirmos, em maior gama e quantidade, produtos e serviços que possam ser dirigidos aos mercados externos."
Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República
21 de novembro de 2012, citado no Expresso online.
Num trabalho em co-autoria com o Pedro Bação analisamos a evolução dos sectores não transacionáveis na economia portuguesa. Destacamos os seguintes factos:
1. O padrão de crescimento dos sectores não transacionáveis na economia portuguesa foi semelhante ao observado noutros países desenvolvidos. No entanto, desde o início dos anos 1990, o crescimento desses sectores foi significativamente mais forte do que nos outros países.
2. A expansão dos sectores não transacionáveis tem sido muito rápida, tendo ocorrido à custa do sector agrícola no período 1953-95, e à custa da indústria no período 1995-2009.
3. Em 2009, os sectores não transacionáveis (definidos como a soma da construção e serviços) representavam 68% do Valor Acrescentado Bruto total, excluindo os sectores dos serviços expostos à concorrência internacional, e 81,1% daquele valor, considerando todos os serviços como não transacionáveis.
4. Mais de 50% do aumento do peso dos sectores não transacionáveis, no período desde a adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, ocorreu nos anos 1988-1993.
5. Desde 1986, o sector da construção e os serviços sujeitos a uma forte procura pelo Estado (educação e saúde, por exemplo) foram os principais motores do aumento do peso dos sectores não transacionáveis na economia portuguesa.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Re: Cartas transatlânticas
Respondendo ao desafio que me foi lançado pelo meu amigo Fernando
Alexandre num dos comentários ao meu artigo publicado em “Destreza das
Dúvidas”, titulado “Cartas Transatlânticas”, aqui estou eu, sentado no outro
lado do Atlântico, procurando arredondar umas ideias sobre a minha experiência
de leitura nos chamados e-books ou, para
me exprimir mais portuguesmente, nos livros de suporte electrónico, cujas marcas
me dispenso de nomear, por via de alguma publicidade enganosa que possa vir a fazer
sem ganhar um cêntimo… Em primeiro lugar, o peso e as medidas do utensílio,
cerca de cento e poucos gramas, as dimensões ainda mais pequenas do que a
página de um livro, o que evita tendinites e outras desgraças terminadas em ite (não confundir com o final da missa,
no santo tempo em que ainda era garganteada em Latim, ite missa est, cuja versão livre se vertia num grande refrigério
para certos infiéis como eu, e traduzida à letra por dita missa esta, como
certo beatério, versado no latinório e em suas declinações trasladava para
vernáculo lusitano), mas, e retomando o fio à meada das palavras acabadas em ite, temos também capsulite e artrite derivado
do peso do calhamaço ou do dicionário; rinites alérgicas, no tocante aos
narizes avessos ao secular pó cientifico-cultural arraigado nos livros e
tratados de alta erudição da gasparina figura, não contando com a fragrância à
tinta de impressão, que nenhum bem fazia aos trabalhadores das velhas
tipografias, atreitos a sofrer de uma doença exclusiva e cujo nome me não
ocorre neste instante: actualmente, e sobretudo para quem lê pouco e finge o
contrário, o cheiro e a tactilidade do livro provocam-lhe a impressão de palpar
um corpo perfumado de mulher retrovertido em Kamasutra, numa saborosa sensação
plena de graça e deleite… Muitos leitores ainda não afeitos aos mecanismos
modernos deste mundo semovente principiam já a enrolar-se no cobertor de papa
de uma saudade que há-de esvanecer-se com o matiz do tempo, pois tudo passa,
até o mais evocado aroma, cheiro ou cheirete; há ainda as conjuntivites, residentes
nos olhos mais sensíveis e lacrimejantes que se fatigam a ler em corpo de letra
pouco adequado à sua conjuntiva ou conjuntura ocular, o que os leva a apagar
a luz logo às primeiras frases, por já não aturarem os ardores que a leitura
provoca… No livro com suporte electrónico não se contraem inflamações
terminadas em ite. O bom ecrã não reenvia
qualquer brilho aos olhos, por isso a conjuntivite não tem emprego como tantos
milhares de portugueses ou milhões de espanhóis, além de que se pode aumentar
o corpo de letra, não sendo necessária a lupa ou o binóculo; em sua espessura
de vespa contém milhares de calhamaços, sem qualquer odor, quer sejam livros
velhos ou acabados de sair da tipografia; só pesam exactamente o que pesa o suporte,
tenha ele só um livro ou milhares deles; quanto a tendinites, o mesmo se aplica
ao que se escreveu para a conjuntivite: não há volume, grosso ou fino, que
tenha peso: a insustentável leveza do ser livre ou livro, que neste caso pesa
pouco: cento e poucos gramas; o dicionário que outrora se encontrava à mão, ou
sobre a mesinha-de-cabeceira, já não prega as suas partidas com seu peso
desmedido, nem cai desamparado no chão, descadeirando-se nos seus milhares de
palavras: está preso, salvo seja, dentro do suporte do livro electrónico, bastando,
para o consultar, pôr o cursor atrás do vocábulo cujo significado se não sabe,
e logo aparece a definição da palavra, a sua etimologia e exemplos de como se
pode empregá-la nas suas diversas acepções e contextos: já não há justificação
para se ter horror a esse cemitério de palavras, como um dia lhe chamou o
grande escritor Miguel Torga; há escritores que fazem gala em afirmar que nunca
ou raramente usam o tira-teimas, o nome que os tipógrafos davam aos dicionários,
mas, isso, não será mais do que fogo-de-artifício, tudo para que haja a
espantação por parte do interlocutor de que tal génio genuíno conseguiu domar
as palavras quase todas e transformá-las em cordeirinhas dóceis e obedientes;
estou prestes a concluir, Fernando Alexandre. Só me faltam dois itens: a leveza
de carregar, para onde quer que se vá, uma biblioteca de milhares de volumes,
no bolso, na pasta, no saco de viagem, e escolher o ou os que mais me apetece
ler, poesia, romance, ensaio, teatro, ciência, economia e tudo quanto numa
biblioteca. Quanto ao segundo item, vou passar a prosa a Eça de Queirós, que no
seu magnífico romance, As Cidades e as
Serras, anteviu a nossa era de tecnologia de ponta. Vale bem a pena ler
esse romance, como de resto todos os livros escritos pelo melhor ou dos
melhores escritores portugueses. Aí vai, pois, a transcrição de um passo do
citado romance:
Não se abria um armário sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não se franzia uma cortina sem que de trás surgisse, hirta, uma ruma de livros! E imensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada por uma tremenda colecção de Estudos Sociais, a porta do WC!
Só pude, daqui de tão longe citar Eça, porque trouxe comigo a minha biblioteca ambulante. Não é isto uma maravilha? “E quem não há-de admirar os progressos do nosso século (XIX)”, dizia uma personagem do Eça. Só é triste não se poder aplicar tal frase aos dias de hoje… Não admira! Os cavacos e os coelhos e os gaspares e outros irracionais sentaram-se em cima do País e tomaram conta de nós!
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Os Afortunados
Luigi
Pirandello (1867-1936) deixou seis romances, 250 contos e trinta peças teatrais. Foi
recentemente publicado em Portugal, pela Relógio D’Água, uma selecção de 28
contos. Pirandello, como era seu apanágio, temperou os contos com grandes doses
de humor e cepticismo – nunca teve ilusões sobre o Homem.
«Os Afortunados»
é um dos meus contos preferidos desta selecção. Um jovem, estudioso e formoso
padre, a preparar o seu doutoramento em Roma, volta à sua Terra Natal para o
enterro do pai, um usurário. Arturo Filomarino dedicou-se aos estudos e ao
sacerdócio como forma de redenção dos graves pecados de usura de seu pai. No
velório, encontra as suas quatro feias e antipáticas irmãs, já preocupadas com
as partilhas. A sala está repleta de vítimas do pai; estas, no fim, vão em fila
suplicar a D. Arturo que interceda por elas nas partilhas, argumentando que os
juros que lhes haviam sido cobrados pelo pai as estão a deixar na miséria.
Arturo fica atormentado. Só tem direito a um quinto do testamento e, por isso,
não pode atender a todos os pedidos. Que fazer? Arturo viveu sempre para os
estudos, completamente alheio de todas as coisas do mundo. Para mais, sempre
quis obedecer aos seus superiores em tudo. Vai pedir instruções a Monsenhor Landolina,
que dirige militarmente um colégio de órfãos. Conta-lhe a história e leva as
letras herdadas, que Monsenhor, enojado, pede para não lhes tocar com as mãos e as pôr no chão. Quando Arturo confessa que estava a pensar em devolvê-las às desgraçadas
vítimas do pai, Monsenhor contrapõe imediatamente: «Quem te diz que são
desgraçados? (…) Desgraçados? Gente viciosa, homem, gente viciosa.» e manda
Arturo pegar nas letras e entregar-lhas para assim servir os seus
«pobrezinhos». E Monsenhor, implacavelmente, cobrou tudo até ao último cêntimo,
à taxa mínima de 24%. Afinal de contas, «o dinheiro dos pobres é sagrado» e se
os desgraçados choravam desalmadamente, exclamava: «Não importa! A dor é que
vos salva, meus filhos.»
sábado, 1 de dezembro de 2012
Cartas transatlânticas
Ontem ou
anteontem, já não me recordo, li um excelente artigo teu no blogue sobre o
livro de papel e a sua substituição pelos novos meios tecnológicos. Concordo
plenamente contigo, pois, como muito bem sabes, e apesar da minha provecta
idade, sempre fui um entusiasta das novas tecnologias no que toca à leitura e à
escrita. Já não consigo imaginar ver-me a escrever à mão em suporte de papel.
Quanto à leitura, também verifico que se torna mais entusiasmante e, se não existe o cheiro ao papel e à tinta (antigamente dizia-se ou escrevia-se: tenho nas mãos um livro acabado de sair do prelo, as páginas ainda meio húmidas a cheirar à tinta da impressão...), se não há aroma, existe espanto, o espanto de levarmos no bolso uma biblioteca inteira... Aquando da vulgarização dos computadores nos anos
oitenta do século passado, adquiri um, de mesa, Schneider de sua graça, que,
apesar de pré-histórico (não tinha disco duro nem as funções que os actuais
têm, tudo se fazia com põe disquete, tira disquete e daí os muitos enganos), me
poupou muito tempo e papel, pese embora ter-me dado grandes desgostos por
inépcia da minha parte: perdia textos, esquecia-me de os "salvar" e,
ao abrir a máquina no dia seguinte, verificava, desconsolado e raivoso, que desaparecera
o que tinha escrito, com tanto suor, na véspera. Nesse tempo, como tinha ainda
a memória intacta, não me era difícil reconstituir o texto perdido, pois, como
sabes, tudo quanto escrevo me sai a conta-gotas, palavra por palavra, e era
fácil ficar com tudo discado na memória. O mesmo acontecia quando a
electricidade se ia com o vento, o que era frequente no alto em que morávamos.
Deixei, por outro lado, de ter o cesto de papéis a abarrotar com as inúmeras
folhas de papel que ia deitando fora à medida que ia corrigindo, porquanto não
suportava, nem suporto, ver emendas no papel, o que me levava a escrever tudo
de novo, em página limpa, até à altura em que me surgia outra correcção e a
dobadoira recomeçava, e os papéis se rasgavam, e o caixote se ia enchendo, até
ao cimo da paciência... Ainda hoje tenho o hábito de gravar, quase linha a
linha, o texto que tenho entre dedo (escrevo só com o indicador direito),
resquícios do tempo em que tudo desaparecia por encanto! Por isso, gosto muito
do computador moderno (parece o final de uma redacção da escola se, nesse
tempo, já existissem tais máquinas endiabradas...), sobretudo do portátil,
maneirinho, que me acompanha para todo o lado como cachorro fiel e que me guarda
tudo e nunca se aborrece se desloco uma frase ou uma parte do texto do fim para
o início ou vice-versa... Depois é muito limpo, deixa-me a página tal qual como
se não tivesse caído um borrão de tinta de escrever sobre o papel de prova, o
que dava pano para muita manga e palmatoada!
Aqui pelo Canadá já chegou a neve.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Os livros enquanto objectos de volúpia
Neste texto apaixonado, fala dos livros como objectos de desejo, aprendizagem e tacto.
Já há uns tempos que ando para escrever sobre isto. É comum ouvir os defensores dos livros e revistas em papel argumentarem que nunca
o prazer, a sensualidade, a tactilidade ou o próprio cheiro de ler um livro
poderão ser substituídos por um frio ecrã de computador (ou de iPad). O livro como um objecto de prazer não pode ser trocado por um gadget
electrónico.
Como eu os entendo. Do imaginário adolescente, lembram-se dos
poemas eróticos que leram em papel, do Kama Sutra em noites eruditas, da literatura porno de Henry Miller ou, os mais sensíveis, de alguns livros de Anaïs. Possivelmente, ainda têm guardadas as revistas da Playboy que compraram às escondidas e leram fechados no quarto. Imagino as sensações que se despertaram com a primeira capa da Playboy que foi, nem mais nem menos, com a voluptuosa Marylin Monroe.* Claro que gostam da fragrância do papel, quase que os imagino de nariz enfiado vasculhando as páginas centrais da revista.
Só que a malta de hoje lê o mesmo género de literatura, as
mesmas revistas, vê as mesmas fotos e um pouco mais de vídeos, é certo. E fá-lo na
privacidade de um ecrã, fechados no quarto. Assim, os seus sentidos
são transferidos não para o papel, mas para o gadgets que cumprem as mesmas
funções.
Em suma, a volúpia e a sensualidade, com todos os seus
sentidos, estarão lá sempre, com ou sem papel. Não se preocupem que nada se perde.
* Não percam a edição de Natal da Playboy deste ano. Promete.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Pasto fértil para ditadores
Existem ocasiões que assinalam o ponto de ruptura
de um sistema político, em que os políticos deixam de ser capazes de comunicar,
em que já não conseguem compreender a linguagem do povo que, por desígnio,
deviam representar. Os políticos da República de Weimar encontravam-se todos a
caminho de chegar a esse ponto em 1930. O crash de Wall Street em 24 de outubro
de 1929 (a chamada quinta-feira negra) agravou tendências que já existiam
antes.
Os 2,6 % obtidos pelo partido nazi na eleição para
o Reichstag (parlamento alemão), a 20 de Maio de 1928, pareciam confirmar a
exactidão dos comentadores e políticos alemães que há muito tinham vindo a
anunciar o fim do movimento de Hitler. As coisas mudariam rápida e
assombrosamente.
Ao brincar com o fogo, muitos políticos acabariam
consumidos pelas chamas do nacional-socialismo. Sem a autodestruição do Estado
democrático, sem o desejo de minar a democracia por parte dos que, em
princípio, deviam salvaguardá-la, Hitler, por maiores que fossem os seus
talentos oratórios e de agitador de massas, nunca teria chegado perto do poder.
27 de março de 1930 assinalou o princípio do fim da
República de Weimar. A pretexto de um aumento da contribuição da entidade
patronal para o fundo de desemprego de 3,5 para 4% dos salários brutos, a
coligação desafinada entre o SPD e o DVP, que com a crise económica se havia
deslocado para a direita, desintegrou-se. O chanceler Hermann Müller apresentou
a demissão. Sucedeu-lhe Heinrich Brüning, líder parlamentar do Zentrum. As
dificuldades não tardariam a manifestar-se. Na sequência de uma moção dos
partidos da oposição contra o seu plano de cortes drásticos na despesa pública
e de aumento de impostos, Brüning procurou, e conseguiu, a 18 de Julho de 1930,
a dissolução pelo Presidente do Reich do Reichstag. A dissolução do Reichstag
constitui uma irresponsabilidade absolutamente assombrosa. O objectivo de
Brüning era passar por cima de um governo parlamentar, criando um sistema mais
autoritário, em que a governação se faria por decreto presidencial. Brüning
subestimou, e muito, a quantidade de raiva e frustração que grassavam pelo
país. Os nazis nem queriam acreditar na sua sorte. Os resultados eleitorais do
NSDAP subiriam vertiginosamente: 18,3% nas eleições de 14 de Setembro de 1930;
37,4% em 31 de Julho de 1932, passando a ser o partido mais votado; 33,1% em 6
de Novembro de 1932.
Os intelectuais também têm a sua quota-parte de
responsabilidade pela tragédia que se viria a abater sobre a Alemanha. Muitos
ajudaram a abrir caminho para o Terceiro Reich. As esperanças há muito
acalentadas da chegada de um grande líder embotaram a capacidade crítica de
muitos, cegando-os perante os evidentes ataques à liberdade de pensamento que
eles até viam com bons olhos.
Hitler tinha a vantagem de não estar conotado com
um governo impopular e sabia usar um tipo de linguagem que era compreendida por
um número crescente de alemães, a linguagem do protesto acrimonioso contra um
sistema desacreditado, a linguagem do renascimento e da renovação nacionais.
Aqueles que não se encontravam fortemente arreigados a uma ideologia política,
milieu social, ou subcultura alternativas achavam essa linguagem cada vez mais
inebriante.
O presidente do Reich, o velho marechal Paul von
Hindenburg, acabaria, contrariado, por nomear Hitler Chanceler a 30 de Janeiro
de 1933.quinta-feira, 22 de novembro de 2012
As cuecas da Madonna e a austeridade portuguesa
Comentário retirado desta notícia.
Eu sei Madonna (que não é o teu nome próprio!) que deve ter sido difícil para ti “subir ao palco de cuecas”, pois tenho a certeza que a tua equipa de produção te obrigou a tal. Eu sei que nunca farias tal “coisa” por iniciativa própria! Mas quero informar-te que nós, os portugueses, também contra a nossa vontade, mas por imposição crescente de um governo decrépito, caduco e degenerescente, com a conivência total de um presidente da república apático, trémulo e obsoleto, estamos a ficar … sem cuecas! Não! Não queremos rivalizar contigo, porque enquanto tu, Madonna, ganhas rios de dinheiro para te despires, nós sacrificamo-nos para manter a roupa que a cada dia parece querer fugir do corpo! Mas há uma semelhança, enquanto cantas quase nua és apreciada pelos teus fãs, nós os portugueses enquanto seguramos a pouca roupa que nos resta no corpo, deixamos espaço para a imaginação dos nossos governantes, para eles decidirem onde mais podem cortar, pois só assim seremos apreciados, por eles, pelo Durão Barroso, pelo FMI, pelo Banco Central Europeu, pelos banqueiros, … pelos agiotas. Boa tournée, Madonna. Domingos Silva
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
O "doente da Europa"
Na
sexta-feira, a influente revista The Economist considerou a economia francesa o
principal risco para a zona euro, uma bomba-relógio, devido à perda de
competitividade e aos crescentes desequilíbrios orçamentais. O novo “doente da
Europa” apresenta sintomas alarmantes. A despesa pública representa 57% do PIB,
o valor mais elevado da Europa; a dívida pública está próxima dos 90% do PIB; a
economia, de acordo com a maioria das previsões, deverá entrar outra vez em
recessão a partir do quarto trimestre deste ano.
Em vez das prometidas “políticas de crescimento”, Hollande apresentou recentemente um orçamento com cortes que ascendem a 30 mil milhões de euros. Como seria de esperar, o homem que prometeu liderar um combate à ” política cega da austeridade” vê a sua popularidade cair a pique. Desgraçadamente, e ao contrário do que muitos nos querem fazer crer, a austeridade não é uma opção, é uma fatalidade.
Em vez das prometidas “políticas de crescimento”, Hollande apresentou recentemente um orçamento com cortes que ascendem a 30 mil milhões de euros. Como seria de esperar, o homem que prometeu liderar um combate à ” política cega da austeridade” vê a sua popularidade cair a pique. Desgraçadamente, e ao contrário do que muitos nos querem fazer crer, a austeridade não é uma opção, é uma fatalidade.
A ver aviões
No dia 9 de
Novembro, o secretário de Estado Carlos Moedas esteve presente na inauguração
da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Beja.
Ante os seus conterrâneos, proclamou: “Estou impressionado”. Compreende-se. A
brincadeira, perdão, o investimento foi de 6 milhões de euros. Os laboratórios
e o material são do mais moderno. Há apenas um pequeno problema. Não há alunos.
O actual presidente do Instituto já afirmou que se tivesse dependido dele nunca
se tinha estoirado, perdão, investido aquele dinheiro. Há quem acredite que os
alunos hão-de vir um dia. É possível. Talvez venham de avião, dando, assim,
utilidade ao aeroporto de Beja, onde recentemente se enterraram, perdão,
investiram mais de 30 milhões, na esperança de que um dia os aviões aterrassem.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Já nem se nota quando o Presidente não faz greve
Estou a ouvir Cavaco Silva a dizer que não viu as imagens dos desacatos em frente à Assembleia da República! Não percebo, então o homem não anunciou que não ia fazer greve? Se estivesse de greve e não cumprisse as suas funções ainda teria desculpa para não ter visto as imagens em frente à Assembleia da República. Assim, não.
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