terça-feira, 19 de maio de 2015

A melhor série que já vi?

Mad Men chegou ao fim. Os autores desta série conseguiram a notável proeza de fazer com que cada temporada fosse melhor que a anterior. Nesta última temporada, a tristeza subliminar de todas as temporada anteriores desapareceu. Cada personagem aceita-se como é e, realmente, parecem felizes. Uma felicidade excessiva para ser levada a sério, até as mortes são celebradas, mas uma felicidade que é uma metáfora perfeita do mundo irreal da publicidade.

Precisarei de mais tempo para poder responder com objectividade à pergunta do título, mas, disso não tenho dúvidas, o final deixou-me bem mais satisfeito que o dos Sopranos.

Palavras exemplares

E eu, sinceramente, senti insegurança quando estava lá dentro nas galerias, mais por causa dos meus filhos e senti um alívio quando saí cá para fora. Porque estava em segurança e rodeado só por agentes da PSP porque naquele espaço entre as portas e o muro só havia agentes da PSP... algum dia eu imaginei que ia ser ali agredido?

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Abardinar por aqui

Para que o blogue não caia no unanimismo e não se deixe enredar por uma espiral de silêncio (que o Zé Carlos bem explicou), quero fazer duas declarações de interesse de sentido contrário às proferidas por companheiros de casa:
- Fiquei muito satisfeito com a vitória dos Conservadores nas eleições britânicas;
- Fiquei muito insatisfeito com a vitória do Benfica no campeonato da Liga de Futebol.
Dito isto, venha o Corpo de Intervenção da PSP e o Contencioso da NOS.

A pensar no bem-estar da NOS...

Se calhar, eu devia enviar um autocolante destes para a NOS e para os advogados da NOS, só para eles perceberem como é que as coisas são feitas do outro lado do lago. Como a minha Stellinha morreu, preciso de um outro projecto e estou um bocado aborrecida com a costura.

Cobiça

"We begin by coveting what we see every day."
Hannibal Lecter, The Silence of the Lambs

No Sábado à tarde, abri o meu livro de receitas "O Bolo das Quartas-Feiras", editado pelas Fábricas Lusitana, que produz a farinha Branca de Neve, para fazer um bolo. Como só tinha três ovos, seleccionei o bolo económico de chocolate. Depois de feito, desenformei-o num prato português pintado à mão, e decorei-o com morangos, framboesas, e mirtilos. Ficou assim:

Cobri-o e levei-o comigo para ir visitar a minha vizinha, a tal que vive na minha casa preferida de Houston. A casa dela fica do outro lado da rua, no lado esquerdo do cul-de-sac. Como o lote onde a casa está fica num canto, é desejável no mercado imobiliário americano porque "corner lots" costumam ser maiores; a localização no cul-de-sac também é muito cobiçada porque é onde há menos trânsito. Toquei à campainha duas vezes, mas ninguém apareceu. Decidi bater e alguns momentos depois, a minha vizinha aparece à porta e quando me vê fica um misto de surpreendida e feliz. Convida-me prontamente para entrar. Entro na casa e observo que está como se entrássemos em 1960. A minha vizinha leva-me para o quarto de sol, o "sunroom". Eu sempre quis viver numa casa com um "sunroom", mas o mais próximo que tive foi a minha casa em Memphis que, no canto de pequeno-almoço--"breakfast nook"--tem uma janela que ocupa a parede toda. Eu passei longas horas ali sentada a ver o que se passava lá fora: esquilos a comerem as minhas flores, o sol a levantar-se, neve a cair, fortes chuvadas... Tudo isso fascina-me e dá-me imenso prazer de observar.

Na mesa do quarto de sol, estavam dois copos de vinho, um jogo, e uma outra senhora de idade avançada sentada à mesa. Os copos de vinho fizeram-me sorrir porque, no outro dia, uma amiga da minha irmã disse-me que eu era alcoólica. Eu perguntei à minha irmã porque é que a amiga dela achava que eu era alcoólica e ela disse-me que eu postava, no Facebook, fotografias das minhas refeições nas quais eram visíveis copos de vinho. Concluo que, em Portugal, beber um copo de vinho quando eu vou jantar fora, ou à refeição em casa, é indicativo de alcoolismo para certas pessoas. Ao ver as minhas vizinhas percebi que eu estava muito americanizada; em Portugal, eu já sou estranha. Sim, vocês têm razão: eu sempre fui...

A minha vizinha pediu-me para eu a recordar do meu nome, apresentou-me à outra senhora, ofereceu-me um copo de vinho, e pediu para eu me sentar. Ofereci-lhe o bolo e ela ficou encantada e disse, a brincar, "Oh não, será que faço anos outra vez? Mas isso quer dizer que terei 91 anos e eu não quer ter 91!" Ambas as senhoras apreciaram a beleza do prato e disseram que parecia italiano. Disse-lhes que o prato era português e elas aquiesceram e disseram que fazia sentido pois os países da Europa do sul têm cerâmica com influências comuns. Quando ela me perguntou de onde eu vinha, eu disse que me tinha mudado de Memphis, mas que eu era de Portugal. Ela disse-me que tinha visitado Portugal com o marido, quando ele ainda estava vivo. Gostou muito da viagem e disse-me que tinham ido jogar golfe em Portugal num sítio onde se tinha de ir com um ferry, mas ela não se recordava do nome. O único sítio que me ocorreu para sugerir foi Tróia, mas não sei se acertei. Ela disse que sim, que talvez fosse isso. Dessa experiência ela achou divertido que quando alugou os tacos de golfe, não reparou que eles eram para pessoas canhotas e teve de os ir trocar.

Depois falou-me da nossa vizinhança e de como ela e a amiga se referem às casas pelo nome das pessoas que lá viviam há muitos anos. Disse-me que tinha 90 anos, a outra vizinha tinha 92. Eu disse que tinha 43 e ela disse "Meu Deus, não me recordo de alguma vez ter tido 43 anos." e riu-se. A minha vizinha é uma senhora extremamente jovial e bem-disposta. Perguntou-me se eu queria ver a casa e eu disse que sim. É uma casa grande, muito maior do que aparenta do exterior, com quatro quartos, dois quartos de banho, e 234,5 metros quadrados. Foi construída em 1960. O lote, que tem 2.185 metros quadrados, foi comprado por $7.000 a um vizinho e ela e o marido pediram a um arquitecto amigo para desenhar a casa. O quarto de sol não fazia parte do projecto original e foi construído alguns anos mais tarde pelo mesmo arquitecto. Nota-se que a casa é única e talvez seja isso o que me cativa nela, para além do estilo.

Visitei a casa. A mobília é, na sua maior parte, "mid-century modern", um estilo com forte influências escandinavas. Os vernizes das peças fazem ressaltar a beleza natural da madeira, que por vezes é nogueira. O estilo da casa também é assim: as paredes têm muitos painéis em madeira, mas é tudo muito sóbrio. As portas e os armários são todos originais à casa, até os puxadores. Na parte das traseiras, a sala tem janelas enormes, com vista para o jardim, que recebem muita luz de fora. Também há várias clarabóias. O jardim é grande e muito agradável com árvores altas de sombra. Enquanto me mostrava a casa, a minha vizinha disse duas coisas que eu fixei. Ao ver uma fotografia do marido, disse "Este é o meu marido, ele era um tipo muito bom (really nice guy)". A outra coisa foi um lamento: ela disse que ninguém que comprasse aquela propriedade apreciaria aquela casa. Como o lote era tão grande, o mais provável seria que a casa fosse destruída e uma casa enorme, estilo vila italiana, tomasse o seu lugar. Partilhei do seu lamento, pois enche-me de tristeza que aquela casa deixe de existir. Parece ser um sítio que gosta de fazer as pessoas felizes. Eu fico feliz sempre que a vejo.

Muitos serviços públicos, pouco serviço público: reflexões sobre a minha experiência no Governo

No final de 2014, o Ministério da Administração Interna (MAI) passou a dispor de um único serviço central de suporte, a Secretaria Geral do MAI, que concentra agora todas as competências que anteriormente se encontravam atribuídas a 5 serviços (Direções Gerais ou equivalentes), dispersos por 6 edifícios na cidade de Lisboa. A dispersão geográfica, que gerava por si só disfuncionalidades, sugere a forma desestruturada como os serviços públicos foram sendo criados ao longo das últimas décadas. A dispersão de competências por um grande número de entidades gera redundâncias e equívocos nas competências, dificulta o acompanhamento das matérias pelo poder político, reduzindo a transparência.
A alteração orgânica dos serviços do MAI teve por base os seguintes objectivos: aumentar a eficiência e a eficácia dos serviços de suporte do MAI; reforçar áreas críticas como a da contratação pública e das tecnologias de informação e comunicação (TIC); centralização na Secretaria Geral da informação relevante para a tomada de decisão pelo poder político, estabelecendo as bases para a criação de um Sistema de Informação de Gestão.
Do processo de reorganização, feito em estreita colaboração com os serviços do MAI, resultou uma diminuição de 30% do pessoal e mais de 40% dos cargos dirigentes, que com outras poupanças permitiu uma redução anual da despesa de cerca de 3M€. No entanto, esse foi o menor dos ganhos deste processo de reorganização. Com esta reorganização dos serviços do MAI as responsabilidades pelas diferentes matérias ficou clarificada, tornando-se a Secretaria Geral o serviço de interface entre a tutela política e os serviços operacionais. A estabilidade dos serviços centrais de suporte é essencial para a eficácia da governação, dado o papel essencial que têm na gestão corrente dos processos e na transição entre gabinetes. Serviços centrais de suporte bem estruturados são uma condição necessária para um programa de reformas do Estado bem sucedido. 
No entanto, para termos serviços centrais de suporte bem estruturados é fundamental, por um lado, definir de forma adequada as competências desses serviços e, por outro lado, provê-los dos recursos humanos com as qualificações necessárias à realização das suas atribuições.
De facto, nos recursos humanos está a maior dificuldade de qualquer reforma a implementar no Estado. Em primeiro lugar, não existe uma base de dados com a informação sobre os recursos humanos de que dispõem os serviços (qualificações, incluindo a área de estudos, percurso profissional, etc.), condição essencial para definir os mapas de pessoal. Em segundo lugar, os recursos humanos da administração pública estão muito envelhecidos (no MAI a idade média de alguns serviços era superior a 50 anos), o que coloca em causa a transmissão de capital humano entre gerações e a possível ruptura em alguns serviços a muito breve trecho. Por último, há áreas com grandes carências, como sejam as da contratação pública e das TIC, com custos muito significativos em termos de eficiência para o Estado. Neste contexto não posso deixar de referir o paradoxo, em Portugal e no Ocidente, da preocupação com o envelhecimento da população e o elevado desemprego de jovens qualificados.
No próximo poste falarei sobre a organização dos serviços e a existência de sistemas de informação de gestão, outra condição necessária para uma reforma bem sucedida do Estado.

34


Francês à americana...

RIC: Tenho um livro de moda antigo: "Christian Dior in Vogue".
NAJ: Espera aí, ó pá, mas tu dizes Christian Dior com sotaque americano--porque é que tu não dizes à portuguesa "Cristiã Dióre"?

domingo, 17 de maio de 2015

Pedaços

Ele diz que um pedaço
é melhor do que nada:
um pedaço de tempo,
um pedaço de riso,
as vozes entrelaçadas
num universo infinito.

No corpo uma ausência,
no corpo um pesar,
que brota e cresce
até se matar
com desejo e saliva,
com pedaços de amar.

Segurança e bom senso

Esta semana houve duas histórias de violência entre adolescentes que chocaram os portugueses. Convém sublinhar que as histórias não têm nada a ver uma com a outra. O caso de Salvaterra de Magos é um daqueles exemplos de “mal radical”, cuja natureza continua tão pouco conhecida por nós. Isto não impediu que hordas de comentadores e psicólogos misturassem tudo e chamassem a atenção para o famigerado “contexto”. Pedro Santos Guerreiro, geralmente moderado e lúcido nos seus comentários no “Expresso”, chegou ao cúmulo da idiotia e associou estes casos à austeridade e à troika (palavra de honra). Esta gente nasceu ontem. No meu último post, escrevi que o mundo sempre foi cruel. Basta saber um bocadito de história para chegar a essa conclusão. Como é sabido, hoje, a novidade reside em que a televisão e a internet exibem, à vista de toda a gente, o espectáculo dos massacres, das catástrofes naturais e dos sofrimentos.

Em relação à violência nas escolas, a solução não passa por contratar mais psicólogos ou auxiliares, como às vezes se sugere. A solução passa por contratar seguranças com cabedal e regras claras. Isto, que qualquer pessoa com bom senso percebe, não entra, infelizmente, na cabeça dos génios que nos pastoreiam.

sábado, 16 de maio de 2015

A minha citação preferida

Há uma frase de Bento Jesus Caraça de que gosto muito. Diz assim: "Se não receio o erro, é porque estou sempre pronto a corrigi-lo". Decora a entrada do edifício da Miguel Lupi do ISEG e ilustra, na minha opinião, o verdadeiro sentido da humildade: estar pronto a assumir o erro e a rectificá-lo. O dicionário diz que há outros significados; humildade define-se, igualmente, como demonstração de submissão ou sentimento de inferioridade. Infelizmente, em Portugal, são estas duas acepções as que dominam. O humilde tem de se sentir inferior e, logo, recear o erro. Dar-lhe oportunidade é ser arrogante e sobranceiro. E, assim, a virtude obriga à passividade.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Contradições patrióticas

Quando eu digo algo crítico acerca de Portugal, é comum dizerem-me que Portugal é um país muito bom e que os EUA também têm muitos problemas. Na minha cabeça isto não computa muito bem. Os problemas de um não desculpam os do outro. Portugal e EUA têm preferências diferentes e os cidadãos escolheram sistemas diferentes. O que é que isto quer dizer, perguntam vocês? É muito claro para mim e a distinção é a seguinte:
  • Os EUA são um país onde os cidadãos elegeram pagar poucos impostos e assumir mais risco. Isto quer dizer que há mais concorrência, há grande flexibilidade, e o sistema de justiça é de fácil acesso para resolver conflitos. Notem bem isto: os EUA, um país onde se pagam poucos impostos, tem um sistema de justiça que funciona relativamente bem (notem que "relativamente bem" não é o mesmo que "perfeito").

    É também um país onde na Constituição (Second Amendment) há uma cláusula que consagra o direito de possuir e carregar armas, cujo texto diz:

    "A well regulated Militia, being necessary to the security of a free State, the right of the people to keep and bear Arms, shall not be infringed." (note-se que há alguma variação no texto devido a pontuação, pois várias versões foram usadas para propósitos diferentes--ver Wikipédia.)
    O objectivo desta cláusula é entendido como múltiplo: dar às pessoas a possibilidade de organizar um sistema de milícia, participar na aplicação da lei, deter governos tirânicos, repelir uma invasão, suprimir uma insurreição (relevante quando havia escravatura), e facilitar o direito natural de auto-defesa. Os americanos vêem como sua responsabilidade zelar para que o país funcione bem, isto implica que criticar algo que está mal nos EUA é visto como um acto de patriotismo e eles até contemplam o uso de violência para defender o país. Construir um país melhor para as gerações futuras é desejável para os americanos. Pela minha parte, eu sou contra o uso de armas, apesar de viver no Texas, onde quase toda a gente as tem.

    E, claro, há a First Amendment, que dá aos americanos o direito à livre expressão, entre outros:

    Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof; or abridging the freedom of speech, or of the press; or the right of the people peaceably to assemble, and to petition the Government for a redress of grievances.

    Criticar o governo e o país é esperado, encorajado, e protegido nos EUA. Isso não é visto como falta de amor pelo país; é visto como um acto de amor ao país desejar que o país se torne melhor.

  • Portugal é um país que elegeu pagar relativamente mais impostos para que o estado assuma mais risco e os cidadãos menos. É também um país onde se escolhe haver mais legislação que protege os cidadãos de abusos, o que diminuiu a concorrência e os salários e aumenta o desemprego. O país onde eu cresci já não existe. As gerações que vieram depois de mim não terão melhores oportunidades do que eu tive. O país está a empobrecer.

Quais as implicações disto?
A meu ver, é de esperar que aconteçam abusos no sistema americano e estes sejam resolvidos pelo sistema de justiça; no sistema português, eu espero que haja poucos abusos e que os tribunais não tenham de apreciar tantos casos, pois o sistema deveria ser bem controlado (menos risco), pois é por isso que os portugueses pagam ao estado níveis altos de impostos e sujeitam-se a mais regulação.

Pelos comentários à minha situação, o que é que eu verifico?
Muitas pessoas dizem-me que o meu caso tem de ser resolvido em tribunal porque é normal, em Portugal, as companhias abusarem do seu poder e tratar mal os cidadãos. Isto quer dizer que eu devo ir a Portugal, contratar um advogado, e sujeitar-me a custos exorbitantes para resolver uma situação onde eu sou a vítima, mas há muitas mais outras vítimas com exactamente o mesmo caso que eu. Eu pensava que o sistema português tinha o propósito de reduzir riscos, não de os aumentar exorbitantemente.

Depois há a questão de que a justiça não funciona muito bem em Portugal. Eu sou vítima, vou pagar uma fortuna para ir a tribunal, e ainda há uma boa probabilidade de ser vitimizada outra vez. Não me consigo esquecer daquela mulher grávida portuguesa que foi forçada a dar sexo oral ao seu médico e que o Tribunal da Relação do Porto achou que isso não era crime porque o médico não usou força suficiente para aquilo ser violação. Devo eu presumir que, quando estou em Portugal, qualquer estranho me pode forçar a dar-lhe sexo oral e não sofrerá consequências, desde que não me puxe os cabelos com muita força? Notem que este é o mesmo país que pede às mulheres para engravidar. Notem que este é o mesmo país que massacra os seus cidadãos com impostos.

Ah, será que me devo sentir melhor e mais segura porque o Ministério Público provavelmente irá recorrer? Olhem para as vossas irmãs, filhas, esposas, e amigas, e pensem se vos faz sentir melhor que o Ministério Público recorra depois de elas serem vítimas de um acto desta natureza. Já sentem uma pontinha de felicidade? Olhem que deveriam sentir-se muito bem porque Portugal é muito melhor do que o Bangladesh ou a Índia; é que lá as mulheres são violadas com ferros nos transportes públicos, logo sexo oral forçado num consultório médico em Portugal parece ser muito civilizado por comparação. Se calhar, o gabinete até tinha uma vista gira do Porto. É maravilhoso!

Qual a minha experiência nos EUA?
Já tive várias situações com empresas abusadoras nos EUA, inclusive companhias telefónicas, bancos, e seguradoras. Normalmente, eu contacto a companhia, eles pedem desculpa e tentam resolver a situação. Se demoram muito tempo, eu envio-lhes correspondência em que claramente lhes digo que se eu for de alguma forma prejudicada pelas suas más acções, eu irei para tribunal com eles e exigirei compensação. É chamada uma carta "cease and desist". Nunca foi necessário eu iniciar um processo em tribunal. No entanto, já por várias vezes eu fui incluída em "class action lawsuits", onde há uma pessoa que inicia o processo e depois dá a outras vítimas a oportunidade de participar no mesmo. Um destes processos em que me perguntaram se eu fui lesada e se queria participar, foi por causa de um cartão de crédito em que o banco cobrou taxas de câmbio muito altas a pessoas que usaram o cartão no estrangeiro. Eu fui afectada porque usei o cartão no estrangeiro no período a que se referia o processo. O banco chegou a acordo e eu recebi algum dinheiro de compensação.

O último "class action lawsuit" em que participei foi contra a AT&T, que é a operadora do meu telemóvel. Neste caso, houve uma empresa que enviava SMSs aos clientes da AT&T com questionários. Quem respondesse era automaticamente "inscrito" no programa deles e a AT&T cobrava $6.99/mês. Eu respondi uma vez a um dos questionários e cerca de um ano depois notei que a minha conta incluía aquele custo todos os meses. Eu nunca dei autorização para pagar aquela quantia todos os meses porque não fui informada disso antes de responder ao questionário. Telefonei à AT&T, e reclamei, eles bloquearam o serviço, mas só me devolveram o dinheiro dos três meses anteriores porque era a "política da companhia". Achei muito mal, mas dado que a quantia não era muito alta não fiz mais nada e tomei nota mental para ter mais atenção a usar SMSs. Passados uns meses, recebo um SMS da AT&T a perguntar se eu tinha sido vítima nesse caso e se queria fazer parte do class action lawsuit. Eu respondi que sim.

Há uma coisa que eu não compreendo em Portugal: o que é que as pessoas esperam exactamente quando votam? É que para além de pagar uma proporção maior do seu rendimento em impostos e ter mais desemprego, são também sujeitas a todos os custos monetários e emocionais dos abusos, logo parece-me que pagam para ter menos risco, mas acabam por estar sujeitos a mais risco e a terem salários mais baixos--pagam, pelo menos, duas vezes. Há aqui uma enorme contradição...

De regresso à blogosfera, depois de 2 anos no XIX Governo de Portugal

Os dois anos em que, com muita honra, pertenci ao XIX Governo de Portugal foram muito intensos e riquíssimos em experiências. No período em que pertenci ao Governo procurei sempre, com a minha fantástica equipa, fazer o melhor que sabia. Deixo aqui o meu agradecimento ao Miguel Macedo pelo convite que me fez para ser seu Secretário de Estado Adjunto.
Não irei fazer aqui um balanço da minha experiência, mas apresentarei aqui alguns episódios que marcaram a minha passagem pelo Governo e que penso que ajudam a perceber melhor o funcionamento do Estado português. Podem consultar aqui um resumo dos principais resultados alcançados pelo MAI até Novembro de 2014
Devo ter sido o primeiro economista com uma posição política na Administração Interna. Este facto parecia, nos primeiros tempos, causar estranheza nos serviços, que receavam que a formação em economia pudesse inibir a minha sensibilidade para as questões da segurança interna. As forças e serviços de segurança, bem como a protecção civil, estão muito focadas em resultados operacionais. De facto, quando me convidaram para o MAI respondi que a Administração Interna era uma área que não conhecia. Fui convencido com o argumento de que com a troica só se falava de orçamento e que era necessário um trabalho ao nível da reorganização dos serviços para gerar as famigeradas poupanças. Com efeito, apesar da dimensão fortemente política e operacional em áreas críticas para o funcionamento do Estado, o enfoque nas questões de eficiência não é menos importante no MAI do que noutras áreas.
Tomei posse dia 22 de abril de 2013. Para o dia 2 de maio estavam marcadas reuniões com todos os serviços para apresentar cortes num valor total de 70M€, no âmbito do Orçamento do Estado rectificativo, em resultado do acórdão do Tribunal Constitucional que determinou o pagamento do subsídio de férias. Foi o meu primeiro contacto com os dirigentes máximos dos serviços do MAI. A partir daí eu seria o homem dos cortes – como eu costumo dizer, se houvesse alguma coisa para dar, não era a mim que tinham chamado para aquele lugar! A saga dos cortes continuou nos meses seguintes, no decurso da preparação do OE 2014, com a saída do Ministro das Finanças Vítor Gaspar e uma crise na coligação pelo meio.
O orçamento do MAI é extremamente rígido: 80% da despesa são despesas com pessoal (na quase totalidade com vínculo de nomeação), a que se junta um conjunto de outras despesas essenciais à operacionalidade das forças e serviços de segurança e protecção civil, entre as quais as despesas com comunicações (incluindo os cerca de 50M€ com a PPP SIRESP), combustíveis e manutenção de viaturas (o MAI tem 40% das viaturas do Estado). Esta rigidez caracteriza muitas outras despesas em bens e serviços providos por contratos que não são susceptíveis de ser alterados no horizonte de um ou dois anos.   
Em 2014 o MAI teve uma redução global da despesa de cerca de 3%, com uma redução de 2% das despesas com pessoal (que de facto foi de quase 3% se considerarmos o aumento dos descontos para a CGA) e de cerca de 9% nas outras despesas. Nesta redução da despesa, com melhoria de resultados operacionais, o mérito é essencialmente dos dirigentes que tiveram a inteligência de identificar formas mais eficientes de gerir os recursos de que dispunham – podem ver a Secção D dos slides 'linkados' acima com exemplos das medidas com mais impacto em termos orçamentais.
Na apresentação do OE 2014 – um orçamento que de facto parecia impossível de executar – na Assembleia da República tive oportunidade de dizer aos deputados que na Administração Pública “sem cortes não há reformas”. É verdade que cortes não são reformas (e até podem impedi-las), mas são uma condição necessária para os dirigentes repensarem os processos e procurarem formas mais eficientes de cumprirem a sua missão. Sim, as reformas têm de ser feitas pelos dirigentes da Administração Pública, sendo fundamental o processo que conduz à sua escolha, enquadrados por uma estrutura orgânica adequada. Definir esta estrutura orgânica é uma das principais responsabilidades dos políticos no processo de reforma do Estado.
Voltarei a este tema no próximo poste.

Exijo que Portugal me mereça!

Recuso-me a ser mais uma vítima!

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Salvar a vida

Recentemente, numa conferência, Gonçalo M. Tavares disse que a “maldade individual” corresponde a um instinto natural da espécie humana, sem o qual esta já teria sido extinta. Não há dúvidas de que o mundo sempre foi cruel. Em última análise, ninguém está disposto a sacrificar a vida para salvar o outro. Existem, todavia, sacrifícios excepcionais, como o de um pai ou de uma mãe que sem hesitações dão a vida por um filho.
Segundo Gonçalo M. Tavares, a pergunta que devemos colocar é: “por quantas pessoas estaríamos dispostos a romper este contrato humano da maldade?” O autor conclui: “Se no final da vida a resposta for nenhuma, então acho que de algum modo falhámos.”