Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
terça-feira, 19 de maio de 2015
A melhor série que já vi?
Precisarei de mais tempo para poder responder com objectividade à pergunta do título, mas, disso não tenho dúvidas, o final deixou-me bem mais satisfeito que o dos Sopranos.
Palavras exemplares
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Abardinar por aqui
A pensar no bem-estar da NOS...
Cobiça
"We begin by coveting what we see every day."
Hannibal Lecter, The Silence of the Lambs
No Sábado à tarde, abri o meu livro de receitas "O Bolo das Quartas-Feiras", editado pelas Fábricas Lusitana, que produz a farinha Branca de Neve, para fazer um bolo. Como só tinha três ovos, seleccionei o bolo económico de chocolate. Depois de feito, desenformei-o num prato português pintado à mão, e decorei-o com morangos, framboesas, e mirtilos. Ficou assim:
Cobri-o e levei-o comigo para ir visitar a minha vizinha, a tal que vive na minha casa preferida de Houston. A casa dela fica do outro lado da rua, no lado esquerdo do cul-de-sac. Como o lote onde a casa está fica num canto, é desejável no mercado imobiliário americano porque "corner lots" costumam ser maiores; a localização no cul-de-sac também é muito cobiçada porque é onde há menos trânsito. Toquei à campainha duas vezes, mas ninguém apareceu. Decidi bater e alguns momentos depois, a minha vizinha aparece à porta e quando me vê fica um misto de surpreendida e feliz. Convida-me prontamente para entrar. Entro na casa e observo que está como se entrássemos em 1960. A minha vizinha leva-me para o quarto de sol, o "sunroom". Eu sempre quis viver numa casa com um "sunroom", mas o mais próximo que tive foi a minha casa em Memphis que, no canto de pequeno-almoço--"breakfast nook"--tem uma janela que ocupa a parede toda. Eu passei longas horas ali sentada a ver o que se passava lá fora: esquilos a comerem as minhas flores, o sol a levantar-se, neve a cair, fortes chuvadas... Tudo isso fascina-me e dá-me imenso prazer de observar.
Na mesa do quarto de sol, estavam dois copos de vinho, um jogo, e uma outra senhora de idade avançada sentada à mesa. Os copos de vinho fizeram-me sorrir porque, no outro dia, uma amiga da minha irmã disse-me que eu era alcoólica. Eu perguntei à minha irmã porque é que a amiga dela achava que eu era alcoólica e ela disse-me que eu postava, no Facebook, fotografias das minhas refeições nas quais eram visíveis copos de vinho. Concluo que, em Portugal, beber um copo de vinho quando eu vou jantar fora, ou à refeição em casa, é indicativo de alcoolismo para certas pessoas. Ao ver as minhas vizinhas percebi que eu estava muito americanizada; em Portugal, eu já sou estranha. Sim, vocês têm razão: eu sempre fui...
A minha vizinha pediu-me para eu a recordar do meu nome, apresentou-me à outra senhora, ofereceu-me um copo de vinho, e pediu para eu me sentar. Ofereci-lhe o bolo e ela ficou encantada e disse, a brincar, "Oh não, será que faço anos outra vez? Mas isso quer dizer que terei 91 anos e eu não quer ter 91!" Ambas as senhoras apreciaram a beleza do prato e disseram que parecia italiano. Disse-lhes que o prato era português e elas aquiesceram e disseram que fazia sentido pois os países da Europa do sul têm cerâmica com influências comuns. Quando ela me perguntou de onde eu vinha, eu disse que me tinha mudado de Memphis, mas que eu era de Portugal. Ela disse-me que tinha visitado Portugal com o marido, quando ele ainda estava vivo. Gostou muito da viagem e disse-me que tinham ido jogar golfe em Portugal num sítio onde se tinha de ir com um ferry, mas ela não se recordava do nome. O único sítio que me ocorreu para sugerir foi Tróia, mas não sei se acertei. Ela disse que sim, que talvez fosse isso. Dessa experiência ela achou divertido que quando alugou os tacos de golfe, não reparou que eles eram para pessoas canhotas e teve de os ir trocar.
Depois falou-me da nossa vizinhança e de como ela e a amiga se referem às casas pelo nome das pessoas que lá viviam há muitos anos. Disse-me que tinha 90 anos, a outra vizinha tinha 92. Eu disse que tinha 43 e ela disse "Meu Deus, não me recordo de alguma vez ter tido 43 anos." e riu-se. A minha vizinha é uma senhora extremamente jovial e bem-disposta. Perguntou-me se eu queria ver a casa e eu disse que sim. É uma casa grande, muito maior do que aparenta do exterior, com quatro quartos, dois quartos de banho, e 234,5 metros quadrados. Foi construída em 1960. O lote, que tem 2.185 metros quadrados, foi comprado por $7.000 a um vizinho e ela e o marido pediram a um arquitecto amigo para desenhar a casa. O quarto de sol não fazia parte do projecto original e foi construído alguns anos mais tarde pelo mesmo arquitecto. Nota-se que a casa é única e talvez seja isso o que me cativa nela, para além do estilo.
Visitei a casa. A mobília é, na sua maior parte, "mid-century modern", um estilo com forte influências escandinavas. Os vernizes das peças fazem ressaltar a beleza natural da madeira, que por vezes é nogueira. O estilo da casa também é assim: as paredes têm muitos painéis em madeira, mas é tudo muito sóbrio. As portas e os armários são todos originais à casa, até os puxadores. Na parte das traseiras, a sala tem janelas enormes, com vista para o jardim, que recebem muita luz de fora. Também há várias clarabóias. O jardim é grande e muito agradável com árvores altas de sombra. Enquanto me mostrava a casa, a minha vizinha disse duas coisas que eu fixei. Ao ver uma fotografia do marido, disse "Este é o meu marido, ele era um tipo muito bom (really nice guy)". A outra coisa foi um lamento: ela disse que ninguém que comprasse aquela propriedade apreciaria aquela casa. Como o lote era tão grande, o mais provável seria que a casa fosse destruída e uma casa enorme, estilo vila italiana, tomasse o seu lugar. Partilhei do seu lamento, pois enche-me de tristeza que aquela casa deixe de existir. Parece ser um sítio que gosta de fazer as pessoas felizes. Eu fico feliz sempre que a vejo.
Muitos serviços públicos, pouco serviço público: reflexões sobre a minha experiência no Governo
Francês à americana...
NAJ: Espera aí, ó pá, mas tu dizes Christian Dior com sotaque americano--porque é que tu não dizes à portuguesa "Cristiã Dióre"?
domingo, 17 de maio de 2015
Pedaços
é melhor do que nada:
um pedaço de tempo,
um pedaço de riso,
as vozes entrelaçadas
num universo infinito.
No corpo uma ausência,
no corpo um pesar,
que brota e cresce
até se matar
com desejo e saliva,
com pedaços de amar.
Segurança e bom senso
sábado, 16 de maio de 2015
A minha citação preferida
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Contradições patrióticas
- Os EUA são um país onde os cidadãos elegeram pagar poucos impostos e assumir mais risco. Isto quer dizer que há mais concorrência, há grande flexibilidade, e o sistema de justiça é de fácil acesso para resolver conflitos. Notem bem isto: os EUA, um país onde se pagam poucos impostos, tem um sistema de justiça que funciona relativamente bem (notem que "relativamente bem" não é o mesmo que "perfeito").
É também um país onde na Constituição (Second Amendment) há uma cláusula que consagra o direito de possuir e carregar armas, cujo texto diz:
"A well regulated Militia, being necessary to the security of a free State, the right of the people to keep and bear Arms, shall not be infringed." (note-se que há alguma variação no texto devido a pontuação, pois várias versões foram usadas para propósitos diferentes--ver Wikipédia.)
O objectivo desta cláusula é entendido como múltiplo: dar às pessoas a possibilidade de organizar um sistema de milícia, participar na aplicação da lei, deter governos tirânicos, repelir uma invasão, suprimir uma insurreição (relevante quando havia escravatura), e facilitar o direito natural de auto-defesa. Os americanos vêem como sua responsabilidade zelar para que o país funcione bem, isto implica que criticar algo que está mal nos EUA é visto como um acto de patriotismo e eles até contemplam o uso de violência para defender o país. Construir um país melhor para as gerações futuras é desejável para os americanos. Pela minha parte, eu sou contra o uso de armas, apesar de viver no Texas, onde quase toda a gente as tem.E, claro, há a First Amendment, que dá aos americanos o direito à livre expressão, entre outros:
Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof; or abridging the freedom of speech, or of the press; or the right of the people peaceably to assemble, and to petition the Government for a redress of grievances.
Criticar o governo e o país é esperado, encorajado, e protegido nos EUA. Isso não é visto como falta de amor pelo país; é visto como um acto de amor ao país desejar que o país se torne melhor.
- Portugal é um país que elegeu pagar relativamente mais impostos para que o estado assuma mais risco e os cidadãos menos. É também um país onde se escolhe haver mais legislação que protege os cidadãos de abusos, o que diminuiu a concorrência e os salários e aumenta o desemprego. O país onde eu cresci já não existe. As gerações que vieram depois de mim não terão melhores oportunidades do que eu tive. O país está a empobrecer.
Quais as implicações disto?
A meu ver, é de esperar que aconteçam abusos no sistema americano e estes sejam resolvidos pelo sistema de justiça; no sistema português, eu espero que haja poucos abusos e que os tribunais não tenham de apreciar tantos casos, pois o sistema deveria ser bem controlado (menos risco), pois é por isso que os portugueses pagam ao estado níveis altos de impostos e sujeitam-se a mais regulação.
Pelos comentários à minha situação, o que é que eu verifico?
Muitas pessoas dizem-me que o meu caso tem de ser resolvido em tribunal porque é normal, em Portugal, as companhias abusarem do seu poder e tratar mal os cidadãos. Isto quer dizer que eu devo ir a Portugal, contratar um advogado, e sujeitar-me a custos exorbitantes para resolver uma situação onde eu sou a vítima, mas há muitas mais outras vítimas com exactamente o mesmo caso que eu. Eu pensava que o sistema português tinha o propósito de reduzir riscos, não de os aumentar exorbitantemente.
Depois há a questão de que a justiça não funciona muito bem em Portugal. Eu sou vítima, vou pagar uma fortuna para ir a tribunal, e ainda há uma boa probabilidade de ser vitimizada outra vez. Não me consigo esquecer daquela mulher grávida portuguesa que foi forçada a dar sexo oral ao seu médico e que o Tribunal da Relação do Porto achou que isso não era crime porque o médico não usou força suficiente para aquilo ser violação. Devo eu presumir que, quando estou em Portugal, qualquer estranho me pode forçar a dar-lhe sexo oral e não sofrerá consequências, desde que não me puxe os cabelos com muita força? Notem que este é o mesmo país que pede às mulheres para engravidar. Notem que este é o mesmo país que massacra os seus cidadãos com impostos.
Ah, será que me devo sentir melhor e mais segura porque o Ministério Público provavelmente irá recorrer? Olhem para as vossas irmãs, filhas, esposas, e amigas, e pensem se vos faz sentir melhor que o Ministério Público recorra depois de elas serem vítimas de um acto desta natureza. Já sentem uma pontinha de felicidade? Olhem que deveriam sentir-se muito bem porque Portugal é muito melhor do que o Bangladesh ou a Índia; é que lá as mulheres são violadas com ferros nos transportes públicos, logo sexo oral forçado num consultório médico em Portugal parece ser muito civilizado por comparação. Se calhar, o gabinete até tinha uma vista gira do Porto. É maravilhoso!
Qual a minha experiência nos EUA?
Já tive várias situações com empresas abusadoras nos EUA, inclusive companhias telefónicas, bancos, e seguradoras. Normalmente, eu contacto a companhia, eles pedem desculpa e tentam resolver a situação. Se demoram muito tempo, eu envio-lhes correspondência em que claramente lhes digo que se eu for de alguma forma prejudicada pelas suas más acções, eu irei para tribunal com eles e exigirei compensação. É chamada uma carta "cease and desist". Nunca foi necessário eu iniciar um processo em tribunal. No entanto, já por várias vezes eu fui incluída em "class action lawsuits", onde há uma pessoa que inicia o processo e depois dá a outras vítimas a oportunidade de participar no mesmo. Um destes processos em que me perguntaram se eu fui lesada e se queria participar, foi por causa de um cartão de crédito em que o banco cobrou taxas de câmbio muito altas a pessoas que usaram o cartão no estrangeiro. Eu fui afectada porque usei o cartão no estrangeiro no período a que se referia o processo. O banco chegou a acordo e eu recebi algum dinheiro de compensação.
O último "class action lawsuit" em que participei foi contra a AT&T, que é a operadora do meu telemóvel. Neste caso, houve uma empresa que enviava SMSs aos clientes da AT&T com questionários. Quem respondesse era automaticamente "inscrito" no programa deles e a AT&T cobrava $6.99/mês. Eu respondi uma vez a um dos questionários e cerca de um ano depois notei que a minha conta incluía aquele custo todos os meses. Eu nunca dei autorização para pagar aquela quantia todos os meses porque não fui informada disso antes de responder ao questionário. Telefonei à AT&T, e reclamei, eles bloquearam o serviço, mas só me devolveram o dinheiro dos três meses anteriores porque era a "política da companhia". Achei muito mal, mas dado que a quantia não era muito alta não fiz mais nada e tomei nota mental para ter mais atenção a usar SMSs. Passados uns meses, recebo um SMS da AT&T a perguntar se eu tinha sido vítima nesse caso e se queria fazer parte do class action lawsuit. Eu respondi que sim.
Há uma coisa que eu não compreendo em Portugal: o que é que as pessoas esperam exactamente quando votam? É que para além de pagar uma proporção maior do seu rendimento em impostos e ter mais desemprego, são também sujeitas a todos os custos monetários e emocionais dos abusos, logo parece-me que pagam para ter menos risco, mas acabam por estar sujeitos a mais risco e a terem salários mais baixos--pagam, pelo menos, duas vezes. Há aqui uma enorme contradição...


