terça-feira, 4 de agosto de 2015

TSUs

A minha primeira reacção quando soube que a descida da TSU dos trabalhadores proposta pelo PS não iria afectar a Função Pública foi achar uma estupidez. Depois de uma transição de vários anos, promovida por governos do PS, para que funcionários públicos e trabalhadores do sector privado ficassem com regimes de segurança social idênticos tinha de vir um governo do PS reintroduzir diferenças nos dois regimes. Uma parvoíce.

A minha segunda reacção foi exactamente esta do João Miranda: O Gaspar era um amador.

PS Do ponto de vista puramente contabilístico, Miranda não tem razão. Mas do ponto de vista económico-financeiro não encontro nenhum erro de raciocínio. João Miranda só não terá razão, se como consequência da não descida da TSU, os trabalhadores da Função Pública ficarem com pensões mais elevadas no futuro. Nesse caso, não se tratará de uma redução da despesa pública, mas apenas uma transferência intertemporal de despesa. 

PPS Será que dá para fazer o mesmo truque para reduzir pensões? Em nome da sustentabilidade da Segurança Social, pôr as pensões a pagar TSU?

Voltas...

Tenho andado a (re)descobrir Portugal. Há sítios onde fui que nunca tinha visitado; há sítios onde vou repetidamente, mas onde tento suspender o meu à-vontade, para que eu os possa ver como se os visse pela primeira vez. Por vezes, a familiaridade com um local leva-nos a ignorá-lo; mas essa familiaridade também pode permitir-nos ignorar o que todos vêem, para que nos possamos focar naquilo em que poucos reparam. Eu tento cultivar esta última atitude. Até agora, já visitei estes sítios:
  • Azenhas do Mar: saí do aeroporto e fui imediatamente para aqui.
  • Carcavelos: uma das minhas amigas que vive em Londres veio a Portugal e coordenámos as nossas visitas para que nos pudéssemos encontrar. Já no ano passado fizemos o mesmo.
  • Tavira: o Algarve não é um sítio que eu conheça bem, mas a sorte levou-me lá desta vez e eu não pude recusar ir colmatar a minha ignorância. Enquanto lá, visitei as seguintes praias: Cacela Velha, Barril, e Manta Rota. Tive também oportunidade de ir a Cabanas de Tavira.
  • Grândola: no regresso de Tavira parei em Grândola para almoçar. Nunca lá tinha ido.
  • Coimbra: eu e Coimbra temos uma relação de amor/ódio--amo a cidade, odeio o que lhe estão a fazer.
  • Montemor-o-Velho: os campos de arroz, o castelo, queijadas de Tentúgal mesmo ao lado, bolos de Ançã...
  • Figueira da Foz: é como visitar os verões da minha infância.
  • Lousã: quem não gosta do sítio que é o enquadramento da lenda da Princesa Peralta?
  • Viseu: uma visita rápida para ir visitar um poeta e uma melhor amiga.
  • Serra da Estrela: um regresso à infância e descobri que já não enjoo a subir a montanha de carro. As cores das vegetação são de cortar a respiração. Muitas vezes desejo estar com um amigo meu que estuda ecossistemas, só para que ele me mostre todas as coisas que ele vê e que me escapam. Esta foi uma dessas vezes.
  • Covilhã: visitei a UBI, conheci pessoas, e até trabalhei um bocadinho num dos gabinetes, pois tinha umas coisas para fazer para o meu emprego.
  • Fundão: não são só as cerejas que estão ao rubro, o Fundão também está. Tive um jantar muito giro n'O Alambique.
  • Porto: eu amo o Porto. Passear pela Av. da Boavista e ouvir gaivotas, ir tomar chá quente ao Praia da Luz à noite e olhar para o mar, comprar livros na Lello, sentir o coração a palpitar ao pé do edifício do Centro Português de Fotografia (antigo Tribunal da Relação do Porto), dar abraços a amigos que me fazem rir tanto...
  • Leça da Palmeira: eu não conhecia, mas fiquei feliz por não só ver Leça, como também por conhecer as palavras de António Nobre.
  • Guimarães: a primeira vez que fui a Guimarães foi numa visita de estudo, eu devia ter sete anos. Guimarães é muito especial, está a ser bem administrada e nota-se, quando se anda pela cidade, que há uma linha lógica que guia a forma como a cidade é gerida. Desejei que Coimbra fosse gerida assim...
  • Apúlia: professo a minha ignorância acerca deste sítio. Eu não conhecia nem sequer o nome, os meus amigos tiveram de corrigir-me várias vezes até eu acertar com o nome. Lá, visitei um evento gastronómico na Colónia de Férias da Apúlia, ouvi histórias das crianças que choram quando têm de regressar a sua casa porque na colónia encontram amor e alegria e têm oportunidade de ser verdadeiramente crianças. Senti uma mistura de felicidade e tristeza: felicidade por existirem lugares e pessoas que dêem estas experiências a crianças; tristeza por os pais não poderem proporcionar o mesmo. Tomei café com uma colega da faculdade.
  • Braga: dei lá um pulinho para um jantar in promptu muito especial com pessoas muito giras. Os portugueses sabem mesmo divertir-se à mesa. Desejei poder levar estas pessoas na minha bagagem para poder ter jantares com esta companhia todos os dias.
Depois de mais de 2.000 Km ainda não cheguei ao fim, mas já dava para ter ido até Bruxelas de carro...

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Há fobias e fobias

Vejo muita malta, invariavelmente de direita, a gozar com a candidata transexual, Júlia Pereira, ao parlamento. Por exemplo, Alberto Gonçalves queixa-se de que "enquanto isso, o Parlamento continua sem deputados anões, esquimós, siameses, aborígenes, pernetas e mórmones."

Alberto Gonçalves não pôde acrescentar cegueta ao seu rol de excentricidades ausentes, dado que o PS também tem uma candidata cega, Ana Sofia Antunes. Pelos vistos, será a primeira cegueta no parlamento. Mas com esta escolha ninguém goza. Porque será? Arrisco uma resposta: em relação à cegueira os preconceitos não são tão fortes.

sábado, 1 de agosto de 2015

Cadência

"aliada à brisa nocturna, a cadência desta chuva de astros leva-me a supor que também o cosmos terá seus outonos."

~ António Gil

"Cadência" é uma das minhas palavras preferidas. Apareceu-me esta semana enquanto eu estava a ler "A Céu Aberto", um livro de poesia de António Gil, quando ia a caminho do Porto. No dia anterior, tinha ido a Viseu numa visita rápida na qual tomei café com o Gil e jantei com a minha amiga Sofia. 

Eu já tinha tentado comprar "A Céu Aberto" pelo menos duas vezes online, mas estava esgotado. Mandei um e-mail ao Gil porque não conseguia comprar os livros dele. Quando decidi vir a Portugal, o Gil disponibilizou-se a fornecer-me alguns dos seus livros. Eu sei--sou uma gaja de muita sorte. Mas pensem assim: quando se quer muito uma coisa, vale a pena persegui-la e eu queria muito estes livros...



Ouvido num carro no Porto...

--"Quanto mais me bates, mais eu gosto de ti..." [a propósito de um carro baixo bater com a parte de baixo no passeio, à saída de uma garagem]
--E sabes a continuação da canção?
--"Este é o meu retrato, já não mudo, eu sou assim"
--Muito bom, mas agora isso é politicamente incorrecto.

Viva a América! Conseguiu exportar o termo "politicamente incorrecto".

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O Estado não tem mãos

Em Portugal, apesar dos progressos, continuamos a ter um “Estado patrimonial” muito forte, para usar a famosa expressão de Max Weber. Ou seja, as elites políticas vêem o Estado como uma forma de enriquecimento pessoal. A esquerda radical, com razão, não se tem cansado de denunciar a corrupção, a promiscuidade de interesses públicos e privados, etc.. Mas essa mesma esquerda, se pudesse, nacionalizava tudo. Supostamente, dessa forma, os ganhos seriam equitativamente distribuídos pelos trabalhadores e consumidores, em vez de ficarem nas mãos dos capitalistas exploradores.
Se confundir o Estado com o governo é um erro, tratá-los como entidades completamente distintas é também um absurdo. É neste segundo tipo de erro que a esquerda cai.
A esquerda gostaria que as empresas (pelo menos, as “estratégicas”) estivessem nas mãos do Estado. O problema é que o Estado não tem mãos, quem tem mãos são os indivíduos. A esquerda fala como se o governo pudesse ser incompetente ou corrupto, mas o Estado, vá-se lá saber porquê, estivesse naturalmente investido de nobreza e dignidade e pairasse sempre acima das fraquezas e dos vícios humanos. Infelizmente, o Estado não é nada disso. O Estado são pessoas, muitas vezes escolhidas e nomeadas pelo tal governo “incompetente e corrupto”.

Balança ideológica

Visito uma livraria. Compro o Livro de Leitura para a 4ª Classe, de 1961. Para equilibrar, compro também Born to Be Gay - Uma História da Homossexualidade.

Conselho à PAF




Não há dúvida que acompanhar os números do desemprego é importante. Mas qualquer discussão fica coxa se não olharmos estes números em conjunto com os do emprego. Se taxa de desemprego se aproxima dos níveis verificados do início do programa ajustamento (a última vez que o desemprego esteve mais baixo que os 12,4% atuais foi em junho de 2011, com 12,3%), os níveis de emprego estão um ano atrasados em termos da sua recuperação: o nível atual aproxima-se do valor verificado em 2012.
Se a PAF quiser fazer uma campanha sem demagogia, aconselharia antes a destacaram a evolução da produtividade: está 8% acima dos valores observados em março de 2009 e 2% acima dos valores do início do programa de ajustamento.





Contra o capitalismo



Cartaz na Praça do Chile, em Lisboa --- via Carlos Vaz Marques, no twitter

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Conclusão: daqui a uns tempos vamos enriquecer todos na bolsa


A súmula impressionante de disparates que está contida no artigo linkado acima, e que acaba com o disparate mor que é a declaração de que os economistas vão deixar de errar nas suas previsões económicas, confirma o que há muito penso. Não são, verdadeiramente, os economistas que acreditam nas previsões económicas e não são os economistas que olham para a Economia como uma ciência tão infalível como a Física.
Tipicamente, quem comete estes erros é alguém, como este tipo doutorado em Física, que nada percebe de economia mas que se dedica à economia.

terça-feira, 28 de julho de 2015

O poder limitado das baionetas

Um dia Talleyrand explicou a Napoleão: "Com as baionetas, Sire, pode-se fazer tudo, menos uma coisa: sentar-se sobre elas." Até quem pretende governar com os soldados depende da opinião destes e da que tenham sobre estes os restantes habitantes. Na verdade, não se manda com os soldados. Como explicou Ortega y Gasset, mandar não é uma questão de punhos, é uma questão de nádegas. "Trono, cadeira curul, banco azul, poltrona ministerial". Mandar é sentar-se. Tranquilamente.

Loucura megalómana e revolucionária

Aqui está a transcrição de grandes partes da conversa de Varoufakis a explicar como planeava, com mais quatro pessoas, criar um sistema bancário paralelo na Grécia depois de piratear os dados dos números de contribuinte. O tipo nem sequer parece ter noção da enorme operação de logística informática que o seu plano envolveria.

Para quem ainda não acredita nas notícias, pode ouvir o homem de viva voz aqui.

Podemos, todos, finalmente, concordar que o tipo é louco, megalómano, radical e revolucionário?

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Números do desespero

Oiço na TVI 24 um economista da Universidade Nova (penso que se chama Luís Rato) enumerar meia dúzia de factos sobre o “Estado social” português. Exemplos. Nos últimos três anos, foram transferidos do Orçamento do Estado (OE) 3,4 mil milhões de euros para cobrir os défices da segurança social. O fundo de estabilização (um subsistema de capitalização da segurança social) cifrava-se em 2014 em pouco mais de 3 mil milhões, o suficiente para pagar seis ou sete de meses de pensões em caso de emergência. Além disso, foi necessário transferir, em 2014, mais de quatro mil milhões do OE para a Caixa Geral de Aposentações. Neste momento, há 1,5 activos para 1 pensionista. Segundo um estudo recente da Comissão Europeia, em 2060, mantendo-se as actuais tendências (e consideraram nesse estudo uma taxa média de 8% de desemprego), cada português receberá apenas 30% do seu último salário.
Não falta muito tempo para que haja apenas um activo para um pensionista, ou seja, não tarda muito que cada pensionista receba, grosso modo, apenas os cerca de 34% do salário (correspondente à chamada TSU) de cada activo (ou 26%, se o PS, caso ganhe as eleições, avançar com a sua proposta abstrusa de cortar 8 pontos na TSU, 4 para os trabalhadores e 4 para as empresas).
Atenção, e estes números do desespero existem apesar de todas as medidas e reformas que foram tomadas nos últimos 15 anos: introdução de um factor de sustentabilidade (na reforma de Vieira da Silva em 2007) e o concomitante aumento da idade da reforma (o tal economista, que aparenta estar na casa dos 40, fez os cálculos e só se poderá reformar aos 68,4 anos), a contribuição extraordinária de solidariedade, etc.
Estes números esclarecedores, que bastam para fazer disparar todos os alarmes, não parecem, todavia, preocupar muito comentadores/pensionistas como Bagão Félix ou Manuela Ferreira Leite, que desvalorizam o problema. Percebe-se. Também se percebe que os partidos não queiram falar no assunto. Os pensionistas votam e os que vão receber a reforma em 2060 andam por aí a estudar, a divertir-se ou a tratar da vida e têm mais que fazer do que se preocupar com o futuro daqui a meia dúzia de meses quanto mais daqui a 10, 20, 30 ou 40 anos.
Esta gente (partidos e a maioria dos comentadores), uma cambada de irresponsáveis, com o argumento de que discutir o problema equivale a alimentar um conflito geracional, está a empurrar com a barriga e a arranjar um conflito geracional explosivo no futuro. 

Delfins, versão desalinhada*

Na banheira de meus pais
Senti ao longe bacon para comer
Perguntaste porque o cheirava
Olhei para ele, não me pude conter

Vejo o mar do comboio,
Encontrei velhos quadros
De selvagens que o Miró soube escolher.


Eu pinto esta banheira assim
A Pantone não é para mim
Nesta banheira eu descobri
Tanto lixo em cima de mim

Só, nu, cais,
Vais recordar esse teu malhar,
Cu dorido no lar.

Lembro o bar, onde aos tombos,
Fui deixar, lá no adro,
Uma grade depois de a beber.

(desalinhado = que não diga respeito à  Linha do Estoril, de Cascais ou lá o que é)