Há uns anos muita gente perguntava onde
é que se tinha enfiado a direita. No CDS? Alguma, com certeza. Mas o grosso
enfiou-se no PSD, um partido social-democrata, logo de esquerda, pelo menos de
nome. Na verdade, a direita teve de se disfarçar de social-democrata para
sobreviver e ganhar votos – já aqui escrevi, sem nenhuma originalidade, que
essa sempre foi a táctica de sobrevivência da direita portuguesa: adoptar,
sempre que necessário, as causas da esquerda. A direita esteve açaimada durante
anos. Se soltasse a língua e pusesse cá fora tudo o que lhe ia na alma, o
“comentariado” indígena entraria em estado de choque e o PSD, provavelmente,
nunca ganharia eleições.
Na esquerda existe uma realidade
semelhante, embora, admito, o grau de dissimulação seja menor. Não há muito
tempo, o actual presidente da câmara de Loures, Bernardino Soares, manifestou a
sua admiração pela democracia norte-coreana a um jornalista do DN. Foi um deslize,
claro, e imagino que o Bernardino deve ter ficado muito aflito mal se apercebeu
do seu “acto falhado” – uma expressão involuntária de sinceridade, conforme a
definição de Freud. Bernardino não é com certeza um caso isolado dentro da
esquerda radical (muitos da dita cuja estão albergados no PS).
A direita radical e a esquerda radical,
como alguns lhes chamam, não nasceram ontem. Andam por aí há muito tempo. Para
não assustar muito o eleitorado, estiveram, a maior parte do tempo, caladas e escondidas
dentro dos próprios partidos. Com a crise e a inerente falta de dinheiro, a
moderação foi ao ar e o centro desapareceu em parte incerta. As crises sempre
foram um pasto fértil para os radicais. Bernard Shaw e Mark Twain tinham razão: a falta de
dinheiro é a raiz de todo o mal.