Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
domingo, 29 de setembro de 2019
Histórias de sobreviventes
Na página de YouTube da FEMA (Federal Emergency Management Agency) há um vídeo sobre histórias de sobreviventes de desastres, que achei bastante útil. A jornalista aconselha a nos informarmos para tentarmos compreender as nossas reacções em situações extremas e também para treinarmos o nosso corpo para funcionar em autopiloto nestas situações. Vale a pena ver.
Já sabe?
O Furacão Lorenzo acabou de intensificar para categoria 5, nas últimas horas. Como esta tempestade vai passar perto dos Açores daqui a uns dias, alguém se certifica que o nosso ilustre Primeiro Ministro sabe do que está para vir? É que quando as coisas correm mal, ele nunca sabe de nada, logo convém informar antes.
Fica aqui o link para a página do National Hurricane Center com o percurso projectado da tempestade. E também vos deixo o link para os avisos que o NHC emitiu e está a emitir para o Lorenzo. Se têm família na área, convém entrar em contacto e acompanharem a situação. Uma tempestade deste tamanho não têm precedente nesta região e não se sabe mesmo o que poderá acontecer, logo o melhor é terem planos de contingência. Têm até Terça-feira para se preparar.
Aqui está a lista de preparativos aconselhada pela Cruz Vermelha Internacional (em inglês).
O governo americano aconselha as famílias a fazerem um plano, cujas indicações podem consultar neste link (em inglês).
Fica aqui o link para a página do National Hurricane Center com o percurso projectado da tempestade. E também vos deixo o link para os avisos que o NHC emitiu e está a emitir para o Lorenzo. Se têm família na área, convém entrar em contacto e acompanharem a situação. Uma tempestade deste tamanho não têm precedente nesta região e não se sabe mesmo o que poderá acontecer, logo o melhor é terem planos de contingência. Têm até Terça-feira para se preparar.
Aqui está a lista de preparativos aconselhada pela Cruz Vermelha Internacional (em inglês).
O governo americano aconselha as famílias a fazerem um plano, cujas indicações podem consultar neste link (em inglês).
sexta-feira, 27 de setembro de 2019
Coisa curiosa
Passei os últimos três dias a estudar os dados de produção agrícola e comércio internacional do Usbequistão. Não foi o mercado todo, mas lá andei pela Internet à caça de informação. Andei tão concentrada que um colega meu tocou na minha cadeira e dei um salto. Os meus colegas gozam muito comigo porque, apesar de estarmos num espaço comum, quando estou a trabalhar é difícil ligar ao que se passa em meu redor e quando me chamam não ouço.
domingo, 22 de setembro de 2019
Método científico actualizado
sexta-feira, 20 de setembro de 2019
A paixão pela ignorância
Quando Mário Soares era Presidente da República e Cavaco Silva Primeiro Ministro, houve um episódio curioso em que o país ficou escandalizado porque Cavaco Silva não lia a imprensa, enquanto que Mário Soares a lia logo de manhã por várias horas e até lia o Le Monde, isto numa altura em que nem havia jornais na Internet. Cavaco Silva, apesar de doutorado no Reino Unido, era assim considerado um energúmeno.
Naquela altura, a maior parte dos adultos não era educada por aí além e, de acordo com o Censo de 1991, mais de um em cada 10 portugueses era analfabeto. Muitos jornalistas nem curso superior na área tinham, pois era uma profissão em que se começava como aprendiz e o conhecimento era passado dos profissionais mais velhos para os mais jovens. Entretanto, a taxa de analfabetismo caiu para 5,2% no Censo de 2011, mas em 2021, decerto que ainda será mais baixa. Esta evolução da população deveria indicar uma exigência ainda maior para com os políticos. Só que a qualidade dos políticos certamente está muito aquém do que se esperaria.
Catarina Martins vai para debates televisivos sem se preparar minimamente, e quando digo minimamente é generosidade da minha parte, até estou a pensar em menos do que o mínimo, pois há muito que nível de escolaridade mínimo obrigatório deixou de ser a escola primária. A propósito, quando contei o episódio da evaporação das barragens a um amigo americano, ele disse-me que, quando encontra americanos que dizem coisas desse tipo, os aconselha a arranjarem um advogado e a processarem a escola que frequentaram, pois foram ludibriados: "deprived of the education that they are entitled to."
Esta semana temos outro lapso na educação dos políticos, pois o Primeiro-Ministro decidiu inventar acerca do mercado imobiliário. Será que não intriga ninguém que um ex-Presidente da Câmara de Lisboa e um ex-Ministro da Administração Interna não perceba nada de imobiliário urbano? Demonstrou que não está a par do que se passa em outras cidades internacionais, claramente não percebe o que se passa em Lisboa, não discutiu o assunto com especialistas, e não é capaz de falar sobre diferentes propostas que tenham sido pensadas.
A única coisa que lhe veio à cabeça é dizer que se o mercado não se auto-regula, o estado tem de regular. O mercado autoregula-se bem: quando há excesso de procura, ou seja a oferta é insuficiente, o preço sobe e regula o acesso ao recurso do lado da procura, mas o preço mais alto também serve de incentivo para que haja maior oferta. O preço é um mecanismo de ajuste e parece que o mercado de Lisboa funciona muito bem.
O que não funciona são políticas que deixam o resto do país às moscas e incentivam as pessoas a ir viver para Lisboa, pois isso aumenta a procura. E também não funciona políticas que penalizam os senhorios, pois isso diminui a oferta. Alguém que é Primeiro-Ministro deveria saber isto de cor e salteado.
António Guterres foi para o governo a falar na paixão pela educação, mas o certo é que hoje em dia se paixão alguma há, só pode ser pela ignorância.
Naquela altura, a maior parte dos adultos não era educada por aí além e, de acordo com o Censo de 1991, mais de um em cada 10 portugueses era analfabeto. Muitos jornalistas nem curso superior na área tinham, pois era uma profissão em que se começava como aprendiz e o conhecimento era passado dos profissionais mais velhos para os mais jovens. Entretanto, a taxa de analfabetismo caiu para 5,2% no Censo de 2011, mas em 2021, decerto que ainda será mais baixa. Esta evolução da população deveria indicar uma exigência ainda maior para com os políticos. Só que a qualidade dos políticos certamente está muito aquém do que se esperaria.
Catarina Martins vai para debates televisivos sem se preparar minimamente, e quando digo minimamente é generosidade da minha parte, até estou a pensar em menos do que o mínimo, pois há muito que nível de escolaridade mínimo obrigatório deixou de ser a escola primária. A propósito, quando contei o episódio da evaporação das barragens a um amigo americano, ele disse-me que, quando encontra americanos que dizem coisas desse tipo, os aconselha a arranjarem um advogado e a processarem a escola que frequentaram, pois foram ludibriados: "deprived of the education that they are entitled to."
Esta semana temos outro lapso na educação dos políticos, pois o Primeiro-Ministro decidiu inventar acerca do mercado imobiliário. Será que não intriga ninguém que um ex-Presidente da Câmara de Lisboa e um ex-Ministro da Administração Interna não perceba nada de imobiliário urbano? Demonstrou que não está a par do que se passa em outras cidades internacionais, claramente não percebe o que se passa em Lisboa, não discutiu o assunto com especialistas, e não é capaz de falar sobre diferentes propostas que tenham sido pensadas.
A única coisa que lhe veio à cabeça é dizer que se o mercado não se auto-regula, o estado tem de regular. O mercado autoregula-se bem: quando há excesso de procura, ou seja a oferta é insuficiente, o preço sobe e regula o acesso ao recurso do lado da procura, mas o preço mais alto também serve de incentivo para que haja maior oferta. O preço é um mecanismo de ajuste e parece que o mercado de Lisboa funciona muito bem.
O que não funciona são políticas que deixam o resto do país às moscas e incentivam as pessoas a ir viver para Lisboa, pois isso aumenta a procura. E também não funciona políticas que penalizam os senhorios, pois isso diminui a oferta. Alguém que é Primeiro-Ministro deveria saber isto de cor e salteado.
António Guterres foi para o governo a falar na paixão pela educação, mas o certo é que hoje em dia se paixão alguma há, só pode ser pela ignorância.
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Massas crédulas e cínicas
As chamadas massas, um fenómeno surgido no século XIX com as grandes cidades, são constituídas por indivíduos desenraizados, atomizados, desconectados, solitários. Além disso, no século XX, como sublinhou Hannah Arendt, tornou-se evidente que as massas eram também, de forma aparentemente paradoxal, crédulas e cínicas. Num mundo em constante mudança e incompreensível para o comum dos mortais, as massas chegaram a um ponto em que acreditavam em tudo e em nada, achavam que tudo era possível e nada era verdadeiro. Uma mistura explosiva. A propaganda das massas descobriu que o seu público estava sempre disposto a acreditar no pior, por mais estapafúrdio que fosse. Os chefes totalitários perceberam, correctamente, que os seus públicos engoliam as maiores aldrabices sem protestar. Podiam mentir descaradamente num dia e serem desmentidos com factos irrefutáveis no dia a seguir. Não havia problema. É aqui que entra em cena o cinismo das massas. Em lugar de abandonarem o chefe que lhes havia mentido, as massas diriam que sempre souberam que a afirmação do chefe era falsa e admirá-lo-iam pela grande esperteza táctica. Hannah Arendt escreveu estas coisas nos anos 50 a pensar nos totalitarismos. Hoje, vivemos em democracias, mas as suas intuições estão mais actuais do que nunca.
Economia desencantada
Nota prévia: este poema é estatisticamente insignificativo com 1% de grau de desconfiança.
Um por cento de mil pessoas
não são dez
mas um bocadinho pequenino
infinitesimal
de todos nós.
A nossa vida é uma estimativa
rodeada de graus de desconfiança
e probabilidades tão importantes
que muitas vezes são frações
minúsculas
de quase nada.
O nosso lavor é feito de números
e projeções esperançadas
muitas vezes questionadas
inconclusivamente confirmadas.
O nosso trabalho não é ajudar o próximo
é apenas um palpite educado
um esforço desencantado
de ajudar 1% de todos os outros
que no fundo são quase nenhum
e, na melhor das hipóteses,
representam apenas um bocadinho mais do que ninguém.
Um por cento de mil pessoas
não são dez
mas um bocadinho pequenino
infinitesimal
de todos nós.
A nossa vida é uma estimativa
rodeada de graus de desconfiança
e probabilidades tão importantes
que muitas vezes são frações
minúsculas
de quase nada.
O nosso lavor é feito de números
e projeções esperançadas
muitas vezes questionadas
inconclusivamente confirmadas.
O nosso trabalho não é ajudar o próximo
é apenas um palpite educado
um esforço desencantado
de ajudar 1% de todos os outros
que no fundo são quase nenhum
e, na melhor das hipóteses,
representam apenas um bocadinho mais do que ninguém.
Dili, Setembro de 2019
sábado, 14 de setembro de 2019
Evaporação para leigos
O ciclo da água é matéria da escola primária, que parece que agora se chama primeiro ciclo. Nele aprendemos todas as vias e formas em que a água circula no planeta Terra. A EPAL tem um gráfico giro na sua página de educação infantil:
sábado, 7 de setembro de 2019
Uma dick na Dicklândia
Enquanto eu dormia, a Joana Amaral Dias, que é a MILF (mãe irresistível, logo fodível) de Portugal, decidiu que a melhor maneira de educar os homens a não lhe enviar dick pics por mensagem privada é tornar estas mensagens públicas para que assim as namoradas, esposas, etc., dos ditos homens lhes tratem da saúde. Ou seja, torna-se o espaço público português numa Dicklândia e assim livramo-nos de todos e de todas as dicks.
domingo, 1 de setembro de 2019
Histórias
No evento de ontem da minha vizinhança, uma festa ao ar livre num dos pequenos parques da nossa aldeia de mais ou menos 100 casas, confessei a uma vizinha que tinha a minha casa ainda desorganizada e nem todas as divisões estavam mobiladas. Ela respondeu que na casa dela também não estavam todos os quartos mobilados, mas há uns três anos ela tinha decidido adoptar o minimalismo e gostava muito de não ter muita tralha, isto porque já se tinha mudado umas seis vezes e dava muito trabalho mudar tudo. Depois sugeriu-me que comprasse mobília na Restoration Hardware. Mas não há em Memphis, disse-lhe; mas há em Nashville, respondeu-me. E há online.
Na altura senti o universo parar porque fiquei sem resposta imediata, mas ocorreu-me dizer que gostava mais da Pottery Barn. Realmente, gosto mais da Pottery Barn e não é que desgoste da Restoration Hardware, mas aquele estilo não é o meu, nem sequer se encaixa bem no meu porque eu gosto de tralha, gosto de livros, de louças, de muita cor, e o RH é um estilo beige monocromático. A mobília é enorme e parece-me pouco confortável porque sou muito pequena.
Ir a uma loja e comprar toda a mobília também não se coaduna com a minha ideia de viver porque gosto de coleccionar coisas e de ter uma história para o que tenho. Onde é que arranjaste esse banco, Rita? Fui eu que fiz no sétimo ano, na aula de madeira. E essa secretária estilo mid-century modern? Um Sábado, em Fayetteville, por volta de 2005, regressava do Farmer's Market, quando vi que uma vizinha estava a ter um "garage sale". Fui lá ver o que tinha e comprei a secretária por $40, é Drexel de 1957. Anos mais tarde vi online que a dita secretária é um design de John Van Koert e cheguei a vê-la à venda por mais de $2000 porque entretanto o estilo mid-century modern entrou em voga...
Há umas semanas, quando estava a montar as cadeiras para a varanda, uma outra vizinha minha passava na rua e convidei-a para vir cá a casa para ver como estava. Foi por volta da altura de em que decorei o quarto de hóspedes à pressa porque ia ter visitas. Quando essa vizinha entrou no quarto, que é super-colorido, mas há uma atmosfera serena, ficou um pouco pensativa e disse-me que estava a tomar nota mental de como eu tinha organizado o espaço porque estava muito acolhedor.
Nesse quarto guardo a maior parte dos livros de poesia que tenho. Na parece há uma aguarela que uma amiga minha me fez depois de ambas lermos o livro Succulent Wild Woman e há um quadro com dois cisnes que eu bordei a meio-ponto no sétimo ano e que foi exposto na escola depois de terminar o trimestre. Na cama está uma colcha em crochet feita pela tia da minha mãe. Depois de eu a trazer, há mais de 15 anos, a minha mãe perguntou-me se usava a colcha e respondi-lhe que não, era demasiado pequena para a minha cama. Ralhou comigo porque devia ter dito alguma coisa para se poder aumentar.
Em vez de aumentar, a minha mãe pediu-me as medidas da cama e começou a fazer-me outra colcha, mas morreu antes de a terminar. Tentei continuar o trabalho, mas não tenho muita paciência para o crochet e o meu ponto não é tão consistente como o da minha mãe. Na estante do quarto de hóspedes há uma caixa que tem uma etiqueta que diz crochet e onde guardo as agulhas da minha mãe, as linhas, e o princípio da colcha.
A minha casa está cheia de histórias e não é só por eu ter muitos livros, as coisas têm histórias, umas curtas, outras mais longas. Não há muitas histórias para contar quando se vai ao RH comprar toda a mobília; há apenas a história original: eu gostava muito de tralha, mas há uns três anos adoptei o estilo minimalista.
Na altura senti o universo parar porque fiquei sem resposta imediata, mas ocorreu-me dizer que gostava mais da Pottery Barn. Realmente, gosto mais da Pottery Barn e não é que desgoste da Restoration Hardware, mas aquele estilo não é o meu, nem sequer se encaixa bem no meu porque eu gosto de tralha, gosto de livros, de louças, de muita cor, e o RH é um estilo beige monocromático. A mobília é enorme e parece-me pouco confortável porque sou muito pequena.
Ir a uma loja e comprar toda a mobília também não se coaduna com a minha ideia de viver porque gosto de coleccionar coisas e de ter uma história para o que tenho. Onde é que arranjaste esse banco, Rita? Fui eu que fiz no sétimo ano, na aula de madeira. E essa secretária estilo mid-century modern? Um Sábado, em Fayetteville, por volta de 2005, regressava do Farmer's Market, quando vi que uma vizinha estava a ter um "garage sale". Fui lá ver o que tinha e comprei a secretária por $40, é Drexel de 1957. Anos mais tarde vi online que a dita secretária é um design de John Van Koert e cheguei a vê-la à venda por mais de $2000 porque entretanto o estilo mid-century modern entrou em voga...
Há umas semanas, quando estava a montar as cadeiras para a varanda, uma outra vizinha minha passava na rua e convidei-a para vir cá a casa para ver como estava. Foi por volta da altura de em que decorei o quarto de hóspedes à pressa porque ia ter visitas. Quando essa vizinha entrou no quarto, que é super-colorido, mas há uma atmosfera serena, ficou um pouco pensativa e disse-me que estava a tomar nota mental de como eu tinha organizado o espaço porque estava muito acolhedor.
Nesse quarto guardo a maior parte dos livros de poesia que tenho. Na parece há uma aguarela que uma amiga minha me fez depois de ambas lermos o livro Succulent Wild Woman e há um quadro com dois cisnes que eu bordei a meio-ponto no sétimo ano e que foi exposto na escola depois de terminar o trimestre. Na cama está uma colcha em crochet feita pela tia da minha mãe. Depois de eu a trazer, há mais de 15 anos, a minha mãe perguntou-me se usava a colcha e respondi-lhe que não, era demasiado pequena para a minha cama. Ralhou comigo porque devia ter dito alguma coisa para se poder aumentar.
Em vez de aumentar, a minha mãe pediu-me as medidas da cama e começou a fazer-me outra colcha, mas morreu antes de a terminar. Tentei continuar o trabalho, mas não tenho muita paciência para o crochet e o meu ponto não é tão consistente como o da minha mãe. Na estante do quarto de hóspedes há uma caixa que tem uma etiqueta que diz crochet e onde guardo as agulhas da minha mãe, as linhas, e o princípio da colcha.
A minha casa está cheia de histórias e não é só por eu ter muitos livros, as coisas têm histórias, umas curtas, outras mais longas. Não há muitas histórias para contar quando se vai ao RH comprar toda a mobília; há apenas a história original: eu gostava muito de tralha, mas há uns três anos adoptei o estilo minimalista.
terça-feira, 27 de agosto de 2019
Farol ou canário
No dia 20 de Agosto, o Financial Times publicou uma pequena notícia acerca dos imigrantes em Portugal. A peça, escrita por Peter Wise, dizia que o país estava com falta de mão-de-obra, especialmente a qualificada, e o que valia em muitos sectores eram os imigrantes e cito: os filipinos, nepaleses, asiáticos, brasileiros... Pessoas que ajudavam o país a andar para a frente porque com esta restrição populacional será difícil o país crescer acima da média da UE.
Isto é generosidade do Sr. Wise porque em Portugal estar abaixo da média é um grande desempenho, senão o país não estaria "estagnado" há uns 20 anos. Mas há que observar que num país em que os cidadãos dominassem minimamente a língua que usam diariamente, "estagnado" não seria bem a palavra adequada porque implica que os portugueses estariam na mesma, mas se a roupa que se usa está mais velha, perde-se mais tempo para ir ao médico, e os telemóveis e carros que se compram não são tão sofisticados, não se está estagnado, está-se a empobrecer.
Esse artigo também falava do programa Regressar do governo, que diz ser um programa muito generoso, deve ser por causa do 6,5 mil euros em benefícios fiscais que dá para aliciar os portugueses a regressar. No outro dia estavam a discutir esse programa num grupo de emigrantes portugueses no Facebook do qual pertenço. Muitas pessoas achavam o montante ridículo, mas aquela malta é quase toda emigrada nos EUA e aqui tudo custa muito dinheiro porque se ganha melhor do que aí e paga-se relativamente menos em impostos. Ou seja, como me diz frequentemente uma amiga minha emigrada no Reino Unido: Portugal é bom para se passar férias, não para trabalhar.
A notícia mais recente sobre Portugal no FT diz que o país tem um futuro brilhante pela frente e vai ser o farol para o resto da Europa. A metáfora mais adequada é capaz de ser a do canário na mina, dado o avançado envelhecimento da população, dívida pública elevada, e a chata da corrupção, que serve para canalizar dinheiro para sectores não produtivos da economia, ao mesmo tempo que asfixia os que poderiam gerar crescimento.
O artigo do FT termina com uma frase fantástica: "Portugal must have a clearer vision for its future direction and economic strategies." Agora que vocês estão prestes a votar, expliquem lá que visão e estratégia económica cada partido oferece para o país. Os partidos não têm plataformas políticas, os jornalistas não estão interessados em fazer perguntas, e o resto dos comentadores discutem sondagens e projecções de resultados eleitorais, como se a política fosse um desporto em que se contam golos.
Mas gosto de puzzles e, de vez em quando, aparece uma peça: em Fevereiro, o Público publicava o seguinte a propósito da ligação Coimbra-Lousã:
Ou seja, o líder do PS acha que vai manter o país à custa de fundos comunitários da UE e o Financial Times acha que a UE é capaz de não ter grandes razões para estar contente com o futuro, logo tem comprometida a capacidade de gerar fundos comunitários. Vá, usem lá as celulazinhas cinzentas para ver se a bota bate com a perdigota...
Isto é generosidade do Sr. Wise porque em Portugal estar abaixo da média é um grande desempenho, senão o país não estaria "estagnado" há uns 20 anos. Mas há que observar que num país em que os cidadãos dominassem minimamente a língua que usam diariamente, "estagnado" não seria bem a palavra adequada porque implica que os portugueses estariam na mesma, mas se a roupa que se usa está mais velha, perde-se mais tempo para ir ao médico, e os telemóveis e carros que se compram não são tão sofisticados, não se está estagnado, está-se a empobrecer.
Esse artigo também falava do programa Regressar do governo, que diz ser um programa muito generoso, deve ser por causa do 6,5 mil euros em benefícios fiscais que dá para aliciar os portugueses a regressar. No outro dia estavam a discutir esse programa num grupo de emigrantes portugueses no Facebook do qual pertenço. Muitas pessoas achavam o montante ridículo, mas aquela malta é quase toda emigrada nos EUA e aqui tudo custa muito dinheiro porque se ganha melhor do que aí e paga-se relativamente menos em impostos. Ou seja, como me diz frequentemente uma amiga minha emigrada no Reino Unido: Portugal é bom para se passar férias, não para trabalhar.
A notícia mais recente sobre Portugal no FT diz que o país tem um futuro brilhante pela frente e vai ser o farol para o resto da Europa. A metáfora mais adequada é capaz de ser a do canário na mina, dado o avançado envelhecimento da população, dívida pública elevada, e a chata da corrupção, que serve para canalizar dinheiro para sectores não produtivos da economia, ao mesmo tempo que asfixia os que poderiam gerar crescimento.
O artigo do FT termina com uma frase fantástica: "Portugal must have a clearer vision for its future direction and economic strategies." Agora que vocês estão prestes a votar, expliquem lá que visão e estratégia económica cada partido oferece para o país. Os partidos não têm plataformas políticas, os jornalistas não estão interessados em fazer perguntas, e o resto dos comentadores discutem sondagens e projecções de resultados eleitorais, como se a política fosse um desporto em que se contam golos.
Mas gosto de puzzles e, de vez em quando, aparece uma peça: em Fevereiro, o Público publicava o seguinte a propósito da ligação Coimbra-Lousã:
"Para o primeiro-ministro António Costa, o atraso explica-se com a necessidade de “garantir o financiamento da solução” prevista. Isto porque “a história das últimas décadas está cheia de projectos, designadamente neste corredor, que seguramente eram encantadores, mas que pura e simplesmente não eram viáveis”. Era preciso “desenhar o modelo” e “negociar em Bruxelas, no quadro da reprogramação” de fundos comunitários."
Fonte: Público, 4/Fev/2019
Ou seja, o líder do PS acha que vai manter o país à custa de fundos comunitários da UE e o Financial Times acha que a UE é capaz de não ter grandes razões para estar contente com o futuro, logo tem comprometida a capacidade de gerar fundos comunitários. Vá, usem lá as celulazinhas cinzentas para ver se a bota bate com a perdigota...
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
Coimbra
No Domingo, com o propósito de ir à procura de um livro de poesia para a minha colecção de Everyman's Library Pocket Poets, fui ao Barnes and Noble, uma rede de livrarias americana. Eu e as livrarias é um perigo porque saí de lá com mais de $100 exercendo extrema contenção e depois de já ter comprado uns quatro livros este mês. Bem sei, bem sei, que o pior é quando mudo de casa.
terça-feira, 20 de agosto de 2019
Uma enorme pena
Muita pena que não tenhamos um Presidente da República que tenha noção do cargo que ocupa e que não tenha defendido a Constituição no episódio da greve. Bem sei que prescindiu do salário, mas, que raio, precisa de fazer mais do que aparecer nas fotos e dar abraços. E dar entrevistas na praia de calções de banho ridiculariza a Presidência.
Como as eleições estão à porta, tenho uma sugestão: que tal tornar público que não dará posse a governos que violam a Constituição? Até o Professor Cavaco obrigou a Geringonça a assumir que não iria violar os compromissos externos antes de lhe dar posse. Infelizmente, esqueceu-se de de pedir à Geringonça que honrasse a Constituição, mas o Professor Marcelo está a tempo de o fazer.
Como as eleições estão à porta, tenho uma sugestão: que tal tornar público que não dará posse a governos que violam a Constituição? Até o Professor Cavaco obrigou a Geringonça a assumir que não iria violar os compromissos externos antes de lhe dar posse. Infelizmente, esqueceu-se de de pedir à Geringonça que honrasse a Constituição, mas o Professor Marcelo está a tempo de o fazer.
domingo, 18 de agosto de 2019
Estudos étnicos
Estudos étnicos é uma área que só é dada na faculdade, mas a Califórnia quer que os alunos K-12 (pré-escola até décimo-segundo ano) tenham estudos étnicos e anda a tentar desenvolver um currículo para a área. Só que é difícil porque vivemos num período em que ser factual não combina com ser politicamente correcto e muitos dos tópicos são tudo menos politicamente correctos. E há também o problema de ser um tópico com uma enorme carga política.
Para além disso, os EUA têm uma longa história de ostracisarem pessoas de certos grupos. Houve os irlandeses, os alemães, os chineses, os japoneses... e, claro, os negros e os americanos nativos. O Ron Elving publicou no mês passado uma pequena lista de ofendidos.
Para além disso, os EUA têm uma longa história de ostracisarem pessoas de certos grupos. Houve os irlandeses, os alemães, os chineses, os japoneses... e, claro, os negros e os americanos nativos. O Ron Elving publicou no mês passado uma pequena lista de ofendidos.
sexta-feira, 16 de agosto de 2019
A minha quota-parte
Nas últimas semanas, estive a trabalhar numa peça acerca do uso de quotas para corrigir discriminação. Hoje, o Público disponibilizou online o que eu escrevi.
Das coisas que li em Portugal acerca de quotas nos EUA, achei que havia uma lacuna enorme de conhecimento da história dos EUA do século XX, o que me deixa perplexa, pois se há sociedade que disponibiliza conhecimento de borla, é decerto a americana. Por isso escrevi esta peça.
No que escrevi tentei comparar o contexto americano e o português porque não é boa ideia copiar políticas americanas sem perceber o porquê de elas existirem. O Brasil fazê-lo faz mais sentido do que Portugal, pois os EUA e o Brasil são ambos antigas colónias. Mesmo assim, o contexto é diferente, pois a mistura de raças e etnias é mais comum no Brasil do que nos EUA.
Das coisas que li em Portugal acerca de quotas nos EUA, achei que havia uma lacuna enorme de conhecimento da história dos EUA do século XX, o que me deixa perplexa, pois se há sociedade que disponibiliza conhecimento de borla, é decerto a americana. Por isso escrevi esta peça.
No que escrevi tentei comparar o contexto americano e o português porque não é boa ideia copiar políticas americanas sem perceber o porquê de elas existirem. O Brasil fazê-lo faz mais sentido do que Portugal, pois os EUA e o Brasil são ambos antigas colónias. Mesmo assim, o contexto é diferente, pois a mistura de raças e etnias é mais comum no Brasil do que nos EUA.
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