segunda-feira, 4 de maio de 2020

Version 2.0

"Only Rita would start a sentence with 'I was planning to go to Paris in June'" said my neighbor, followed by laughter, in the middle of our second pandemic birthday party in the neighborhood. We got together in the service alley between the backs of the houses, had Straw-ber-Ritas, gluten-free cupcakes, chocolate marbled cake, and Brazilian cheese bread, which I made. We talked about my newly acquired biography of Dora Maar, hence my reference to Paris, gardening, pets, real estate, and the pandemic. All conversations lead to the pandemic: it has become the Rome of topics.

Some neighbors feel that we need to get this over and done with, just follow the Swedish model, but I feel that reality is more nuanced than just building herd immunity. Perhaps Dan Patrick, Texas's Lt. Governor framed it best when he said that many senior citizens would be willing to take a chance and sacrifice themselves so as to not hurt the country. But who are these people? There is a cartoon that I find fitting. In one frame someone asks a crowd who wants to change and all reply that they do, then in the next frame the crowd is asked who wants to change and nobody raises their hand.

Everything that we stand for as a society is that those that are strong sacrifice to protect the weak. That's one of the main differences between us and other animals; that's what makes us human. In other species, the weak are often sacrificed to protect the group because instinct drives the survival of the species, not of the individual.

Over the last 100 years, we have built modern man on exactly the opposite paradigm through the development of medicine, agriculture, safety standards that protect the individual, etc., even if that means that we as a species become weaker because we have ensured that many unfit individuals survive. And now this microscopic creature shows up and forces us to declare a preference.

My neighbors who advocate the Swedish model are convinced that they had Covid-19 at the end of February. Their premise is that if made it through and they're in their early 70s, it can't be that bad. I wonder if they would have the same opinion if one of them had died.

In the end, all of this is quite pointless. We are all going to die anyway, thus we merely manage the time of death, not death itself. Each of us remains insignificant, regardless.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Duas semanas depois

Como vos escrevi há duas semanas, tenho estado a acompanhar os números de óbitos e de mortes oficiais por Covid-19. Grande parte da minha análise limita-se a calcular desvios dos óbitos de 2020 relativamente ao que seria esperado pré-Covid-19. Nos dados oficiais de casos e mortes, devemos ter em conta que há um atraso de mais de uma semana relativamente aos outros países europeus, pois na Europa ocidental, Portugal foi dos últimos países a identificar o primeiro caso de Covid-19.

sábado, 11 de abril de 2020

Vamos lá ver...


Começo com esta expressão tão comum do nosso Primeiro Ministro porque foi a sua entrevista à LUSA, de que li excertos no Diário deNotícias de hoje, que me levou a, não perdendo o balanço destes últimos dias em que escrevi sobre a revolução que começou e vai continuar este ano com o ensino a distância nas nossas escolas, dizer mais sobre o assunto.

Que disse António Costa? Segundo a entrevistadora, ele afirmou que no próximo ano letivo haverá acesso universal dos alunos dos ensinos básico e secundário à Internet e a equipamentos informáticos, e, questionado se cada aluno vai ter um computador, respondeu: “É muito mais do que isso. É muito mais do que ter um computador ou um tablet. É ter isso e possuir acesso garantido à rede em condições de igualdade em todo o território nacional e em todos os contextos familiares, assim como as ferramentas pedagógicas adequadas para se poder trabalhar plenamente em qualquer circunstância com essas ferramentas digitais".

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Já agora...


… que me abalancei ontem a publicar um texto sobre o futuro deste ano lectivo, vou comentar a decisão de hoje do governo sobre o assunto. Assisti calmamente à longa intervenção do Primeiro-Ministro e ao jogo de perguntas e respostas habitual nestas conferências de imprensa, e ainda que tenham ficado por esclarecer alguns aspectos do que foi aprovado, as linhas orientadoras são claras. Depois, apreciei também reacções de alguns parceiros do Ministério da Educação, que foram, na generalidade, de aprovação.

Percebo perfeitamente a lógica das medidas tomadas. Na situação de emergência em que vivemos queremos que os políticos que governam tomem decisões. Acontece, porém, que precisamente porque a situação é complexa, a tomada de decisões é muito arriscada: por isso o governo aprovou medidas prudentes e aparentemente consensuais. Acentuou sempre a prioridade na luta contra o Covid-19 respeitando as orientações das entidades responsáveis da saúde. Mas ao mesmo tempo aproveitou para temperar essa posição de cautela (“porque ninguém pode prever quando isto acaba”) com a notícia de que o 3º período do ano lectivo começa de acordo com o calendário no dia 14 de Abril…  com toda a normalidade… 

A grande divergência entre o que eu penso seria a melhor solução e a decisão do governo está na manutenção do ensino básico “a distância”, com o tal apoio da Telescola (muito bem encaixada na RTP Memória!) e com avaliação final, exceptuado o exame do 9º ano e provas de aferição. Estarei atento ao que se vai passar mas não auguro que sejam tempos fáceis para professores e alunos estes meses de um ensino “a distância” misto.  É grande a minha curiosidade acerca de como vão ser integrados os elementos fornecidos via TV na programação que os professores irão gizar nas suas disciplinas. E temo que a imposição de uma avaliação de contornos perigosamente vagos venha a causar grandes perturbações. Perdoe-se-me o que vou dizer: houve falta de coragem para tomar a decisão certa, isto é, não haver qualquer avaliação. Não vejo como vai ser possível um docente definir uma avaliação que objectivamente considere justa para todos os alunos nestes tempos conturbados.

De resto, as medidas tomadas estão de acordo com o que expus ontem. A conclusão do secundário teria sempre de ter um exame – a não ser que a entrada no ensino superior fosse diferente. Devia ser, aliás – mas isso é outro problema e nunca seria desejável uma mudança sob pressão das circunstâncias.

Temos definido um percurso para os próximos meses de um ano escolar algo complicado, único. Apesar das minhas reticências em relação à solução ensaiada para o ensino básico (e nem sequer quero ter a presunção de ter razão) quero acreditar que todos os intervenientes no processo vão fazer o seu melhor. E – quem sabe! – até pode acontecer que desta experiência improvisada por uma circunstância fortuita se possam encontrar pistas inovadoras a considerar num futuro.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Consequências do Covid-19 na educação: que fazer do resto do ano lectivo?

Tenho pensado em como se pode (ou, talvez com mais propriedade, como se deve) decidir o complicado problema do presente ano lectivo, interrompido pelo surto do Covid-19. Algumas vezes, faço-o como se partilhasse alguma responsabilidade como quadro do Ministério da Educação (situação em que estive no passado durante uns anos); outras como professor, que fui durante muito tempo: cerca de nove anos no ensino secundário, dois numa escola do magistério primário, e mais de vinte no ensino superior (politécnico e universitário), neste último caso como docente, tendo exercido alguns cargos de gestão.

É verdade que há praticamente catorze anos estou afastado das lides escolares, mas acredito que apesar das mudanças – ou, talvez, por causa delas – o meu pensamento não terá perdido a vertente de coerência que sempre quis manter. Por isso senti-me hoje tentado a pôr por escrito o que tenho pensado. Previno que o que vou dizer aplica-se quer ao ensino dispensado pela escola pública quer ao privado. E ainda que não faço qualquer referência aos alunos que na escola inclusiva (que se deseja) tenham dificuldades de aprendizagem.  

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Contas por alto

A minha colega de blogue Mafalda partilhou no outro dia no Facebook uma colecção de dados muito interessante, que eu desconhecia: os dados do SICO, Sistema de Informação dos Certificados de Óbito, onde podemos ver o número diário de certificados de óbito. Até recentemente, o sistema também incluía as previsões de mortalidade para os dias seguintes, mas já não há uma actualização desde 17 de Fevereiro, o que não deixa de ser estranho dado que atravessamos uma pandemia, logo deveria haver mais transparência na vigilância da mortalidade.

Como ando curiosa acerca da fidedignidade dos números oficiais de mortes por Covid-19 em Portugal, decidi comparar os óbitos de 2020 com os dados históricos desde 2009. Nota-se que há três períodos distintos:
  1. até 3 de Fevereiro o número de óbitos em 2020 esteve próximo da média histórica,
  2. 4 de Fevereiro a 8 de Março foi um período em que se está abaixo da média, e
  3. desde 9 de Março, entrámos num período em que há desvios crescentes acima da média de óbitos.
Portugal encontrou o primeiro caso de coronavírus em 2 de Março e a primeira morte foi anunciada a 16 de Março. Se observarmos o gráfico de óbitos em 2020, sobreposto à média diária histórica, e à amplitude histórica do número de óbitos, notamos que, depois de 16 de Março, o número de óbitos começa a crescer e a desviar-se da amplitude histórica. Quer dizer que, desde 24 de Março a 3 de Abril, o ano de 2020 teve máximos em 8 dias e, nos restantes três dias, foi o segundo ano desde 2009 com mais óbitos.

Note-se também que, no gráfico, é evidente que à medida que saímos do Inverno e entramos num período de temperaturas mais amenas, há menos óbitos diariamente (média desce) e há menos variância no número de óbitos diários (a amplitude que decresce de Janeiro para Abril), o que confirma a nossa suspeita de que 2020 está a tornar-se anormal, pois não está a convergir para este padrão.

Fiz também uns cálculos por alto para tentar contabilizar o actual desvio da história. Dividi o ano até agora em dois períodos: de 1 de Janeiro a 8 de Março e de 9 de Março a 3 de Abril. Calculei os totais anuais de óbitos para cada período e a média histórica anual de 2009 a 2019. No primeiro período, 2020 foi 3% abaixo da média de óbitos de 2009 a 2019; depois de 9 de Março até 3 de Abril, o número de óbitos em 2020 cresce para 9% acima da média.

Passar de 97% da média para 109% significa um excesso de 941 óbitos que ocorreram desde 9 de Março a 3 de Abril, o que é quatro vezes o número oficial de mortos devido a Covid-19. (Obviamente que fui generosa com 2020, pois se tivesse usado 4 de Fevereiro a 8 de Março como o período base dos meus cálculos, a minha diferença seria mais marcada e teria um excesso de óbitos acima de 1000.)


É claro que tudo isto é apenas uma suspeita, mas não deixa de merecer que alguém investigue porque é que 2020 se tornou um ano mais anormal do que os dados oficiais indicam.


sexta-feira, 3 de abril de 2020

Estão a trabalhar de casa...

Fui à página do INE a ver se descobria o número de óbitos mensal. Eis que me deparo com um estudo que conclui que a população residente de Portugal pode aumentar ("rise") dos actuais 10,3 milhões para 8,2 milhões em 2080.

Não se preocupem, a malta do INE está a trabalhar de casa e, se calhar o cão meteu a pata nas teclas erradas e deu asneira…

sexta-feira, 27 de março de 2020

Notícias do nosso Serviço Nacional de Saúde


Hoje de manhã recebemos uma chamada telefónica. Era a Enfermeira Catarina do Centro de Saúde da nossa área de residência. Queria saber como estávamos, minha Mulher e eu, e se, estando bem, precisávamos de qualquer apoio, uma vez que não devíamos sair de casa. Perante a nossa negativa, quis saber se tínhamos alguém que nos ajudasse, e descansou quando lhe dissemos que a nossa filha estava sempre em contacto connosco. Despediu-se dizendo que em qualquer momento que fosse preciso a procurássemos no Centro. 

Tendo em atenção o momento tão complicado que todos os serviços de saúde vivem, o que conto merece uma consideração especial pelo que significa: as preocupações com a população idosa. O que prova que o nosso Serviço Nacional de Saúde, e reforço, neste momento tão delicado, está a corresponder aos princípios gerais consignados na nossa Constituição.

No meio de um ambiente pesado e incerto, este telefonema fez-me bem.

PS – Qualquer um (ou uma) dos críticos do SNS (e de tudo…) seriam capazes de dizer: “O quê? Então só contactam agora? Isso devia ter sido feito há duas semanas… Uma vergonha de serviço!” Ficariam sem resposta: nunca são capazes de ter uma visão abrangente da realidade.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Apontamento para memória futura


São nove horas. Há um silêncio de domingo. E é quarta-feira. Há cinco anos que moro aqui – numa avenida onde há trânsito intenso às horas de ponta, que, apesar das janelas com vidro duplo, se apercebe claramente dentro de casa. E hoje, como há dias, não. Fui há pouco à janela: a avenida está praticamente sem trânsito (descem três ou quatro carros, sobem um ou dois). No passeio que posso ver ninguém sobe ou desce. Pensava, nestes últimos dias, que quase não passavam ambulâncias. Mas não é verdade: elas continuam a passar, que este é caminho natural para Santa Maria; só que não precisam de sirene porque têm a via desimpedida. No céu, nada de aviões que demandam o aeroporto, que dista escassos quilómetros da minha casa: desde há dias tem sido um sossego. De algum modo poderia dizer que a vida, se não parou, está em pausa, em Lisboa. É estranho.
A esta hora eu costumava sair para fazer a minha caminhada diária, mais ou menos cinco quilómetros, pelas redondezas: Campo Grande, Alvalade, Avenidas do Brasil, de Roma, da República, Saldanha… faço isto há quase cinco anos, para não enferrujar. Pois é. Há uma semana pus de parte este hábito que me ajudava a equilibrar o peso. Compreendi que o devia fazer, sou um dos cidadãos com risco elevado face à epidemia, e ainda que não me pareça que as minhas caminhadas fossem muito susceptíveis, por si só, de serem perigosas, senti que devia aceitar o “mais vale prevenir…”
Para além dessa hora, hora e pouco, de caminhada, eu estava em casa. Por isso esta clausura, que sinto e aceito agora obrigatória, não me custa muito. Tenho sempre com que me entreter, há muito tempo que ando a organizar papéis, transformando-os em pdf, e continuo a escrever. Passo os olhos por alguns jornais na Net e visito dois ou três blogs que estimo. Vejo alguns programas de televisão e, recentemente, recomecei a usar o leitor de DVDs, revendo alguns que há muito estavam em pousio.
Estou preocupado? Como diria o nosso Primeiro Ministro, “vamos lá ver…” Nem eu nem ninguém teve uma experiência igual, porque a grande epidemia mundial, a “nossa” pneumónica, ou febre espanhola para a maior parte, foi há cem anos, e mesmo os centenários existentes seriam muito crianças para terem memória directa desses tempos. Eu tive relatos dos meus pais, que eram jovens na altura e, felizmente, não foram afectados pela doença – e contaram-me coisas terríveis. Esta pandemia, a Covid-19, é na verdade algo muito sério, e que, penso, só não será ainda mais sério por ter surgido quando a humanidade já dispõe não só de conhecimento prévio como de condições científicas e técnicas de eleição. Por isso, apesar do ritmo assustador a que a doença se espalha e das situações tão graves e tão próximas da Itália, da Espanha, e de outros países, creio que iremos vencer a crise – e por isso estou apenas moderadamente preocupado.
Contudo, talvez levado pelas análises de economistas, que têm a obrigação de saber do que falam ou escrevem, o que me preocupa verdadeiramente é o “depois” da pandemia. E não só em termos económicos, que podem de facto ser muito, mas muito sérios, mas pelo que eles podem trazer a reboque – desestabilização social e política a diversos níveis. Ninguém quererá regressar a tempos bem próximos. A incerteza agrava a preocupação. Como estaremos nós, que seremos nós, daqui a três meses? No Natal?
Por isso deixei aqui estas linhas, para memória futura.


domingo, 22 de março de 2020

1918 revisitado

Lentamente, ergue-se um consenso dos epidemiologistas e especialistas, como Larry Brilliant: esta pandemia será algo parecida com o que aconteceu em 1918. A revista The Atlantic também publicou um peça de dois especialistas que são da mesma opinião. Em 1918, quando o mundo tinha 1.8 mil milhões, a chamada gripe pneumónica infectou 500 milhões de pessoas e matou entre 17 a 50 milhões; há quem seja mais pessimista e contabilize o número de fatalidades à volta de 100 milhões.

Portugal também foi atingido e alguns locais perderam 10% da sua população. No Reino Unido, o virus começou a atacar em Janeiro de 1918, com o primeiro surto, que foi o menos grave, acalmou no verão, e regressou num segundo surto, o mais letal de todos, em Outubro de 1918; depois houve um terceiro surto de mortalidade intermédia em Fevereiro de 1919. Leiam a Wikipédia, que é grátis, se faz favor. Eu tive a sorte de, há mais de 10 anos, quando vivia no Arkansas, conhecer um senhora octogenária, cujo pai, que era francês, quase morreu neste surto. A esposa é que se recusou a abandoná-lo numa sala enorme cheia de doentes à espera da morte e cuidou dele.

Não me recordo de ter aprendido sobre a pandemia de 1918 na escola em Portugal; perguntei hoje a uma colega do secundário e faculdade e ela não sabia o que era, o que eu acho estranho dado o período que atravessamos. Talvez tenha a ver com o número de pessoas em Portugal que vão à rádio e televisão e dizem que a situação actual não tem precedente. Quem diz coisas destas não devia ter tempo de antena e muito menos devia aparecer em painéis de discussão da pandemia actual. Convidem médicos e especialistas, mas não convidem burros, que não sabem usar a Internet, nem têm um pingo de curiosidade para ler a imprensa actual.

O mundo não começou quando nascemos e, na escola, apesar de não nos terem ensinado sobre a pandemia de 1918, ensinaram-nos sobre a peste negra, por exemplo. E mais recentemente, tivemos bastantes casos de doenças que podiam ter corrido pior, como o SARS, MERS, Ebola, H1N1, e outras melhor, como o HIV/SIDA, que foi mesmo declarada uma pandemia e que já matou mais de 32 milhões de pessoas. Durante os anos 8o e 90, o período negro do SIDA, nas televisões portuguesas eram convidados especialistas. Uma curiosidade: ainda me recordo de alguém num programa da RTP, onde estavam médicos, acusar o Primeiro-Ministro da altura, Cavaco Silva, de não saber o que era o SIDA, quando a filha dele era investigadora na área. A propósito, já convidaram a Patrícia Cavaco-Silva para comentar a pandemia? Ela é mesmo especialista.

Um outro enviesamento cognitivo dos actuais "pseudo-especialistas" que aparecem na comunicação social portuguesa é acharem que se das outras vezes os especialistas não acertaram, desta também não acertam. Só que a ausência de uma pandemia não é sinal de falhanço, mas sim de sucesso. É por as autoridades se prepararem para o pior, que se podem precaver contra esse risco, e o conseguem controlar para que não atinja grandes proporções. Nos últimos anos, os EUA não viram valor nenhum em preparar-se para riscos deste tipo, aliás o Presidente Trump desmantelou a equipa que estudava os riscos de uma pandemia e actuava assim que aparecia algo que causava alarme; e também cortou a despesa com os Centers for Disease Control. Perante este falhanço dos EUA, a União Europeia, que é a outra super-potência económica, não fez nada para ocupar este vazio. Para além da UE não ter um esforço coordenado entre os países, as políticas que cada um segue para controlar o contágio são nacionais, quando o problema é supra-nacional.

Não se preocupem. Depois deste falhanço colossal, em que, se o pessoal não abrir o olho, se estima que iremos ter mais de uma centena de milhões de mortos, os fracos falecerão, e a próxima epidemia não será tão letal. Um falhanço dos verdadeiros especialistas, portanto.




quarta-feira, 18 de março de 2020

Um Modelo Necessário

Começo a escrever isto às quatro horas da manhã e, daqui a mais quatro, tenho a minha reunião de risco semanal. Infelizmente, estou com insónia porque ando a inventar modelos para lidar com o coronavirus. Ora, como eu não tenho os dados, vou-vos dar o modelo que eu gostaria de ver construído.

É um modelo que calcula a probabilidade de alguém estar infectado dadas certas características. São capazes de reconhecer que isto é um modelo de variável dependente limitada, pois esta toma o valor de 0 ou 1 para indicar se o resultado do teste do virus para certo individuo é negativo ou não. É mesmo isso que vocês estão a pensar: uma variável binomial.

Dados necessários:
  • Uma base de dados com as caracteríticas dos indivíduos que fizeram o teste e o respectivo resultado
Variável dependente:
  • Resultado do teste, que pode ser definido como 0 para negativo e 1 para positivo
Variáveis independentes ou explicativas:
  • Idade da pessoa
  • Sexo
  • Fumador ou não
  • Conjunto de variáveis indicativas dos sintomas, como temperatura da pessoa, presença de tosse, dificuldade em respirar, etc.
  • Conjunto de variáveis com condições pré-existentes, como diabetes, doença cardiovascular, pressão arterial alta, doenças do aparelho respiratório, cancro, etc.
  • Outras variáveis que os médicos achem pertinentes
Como estimar:
  • Estes modelos podem ser estimados através de regressão logística ou Probit
Resultado do modelo:
  • A probabilidade de alguém com certas características ter um teste positivo
Como usar:

O ideal seria ter um sistema informático em que quem atende o telefone do SNS 24 (ou outros profissionais de saúde que atendam pacientes) enfia os dados das variáveis independentes no sistema e o sistema calcula se a pessoa deve ser submetida ao teste, se a probabilidade for acima de um certo limite.

Outra maneira menos precisa seria fazer o ranking dos factores que contribuem para a pessoa estar infectada e decidir com base na presença desses factores no indivíduo, por exemplo, alguém que exiba os cinco factores mais importantes deve ser testado.

Um outro uso para um modelo deste tipo seria fazer triagem do pessoal médico que se quer a lidar com pacientes do coronavírus. Basta seleccionar médicos, enfermeiros, etc., que tenham as características que contribuem menos para o risco de infecção.

Se alguém conseguisse construír isto em menos de quatro dias, salvaria a vida a muita gente. Vá lá, uma semana já era muito bom. Como diz o LA-C, estamos em guerra contra o coronavírus.

Vou tentar dormir para continuar a minha guerra contra o vírus porque tenho uma doença auto-imunitária que aumenta o meu risco.

sábado, 14 de março de 2020

Finalmente, acção!

Nos últimos dias, parece que tanto governos como cidadãos acordaram para o perigo que enfrentamos. No Domingo passado, os mercados de futuros já indicavam que a Segunda-feira iria ser de acção. Assim foi não só a Segunda, mas também o resto da semana, com a actividade na bolsa a ser interrompida várias vezes devido a quedas bruscas de preço. Talvez tenha sido essa a gota de água que esperávamos para começarmos a agir com mais empenho. Agora é seguir em frente de forma consciente e com precaução. Os próximos meses serão bastante conturbados, mas já dá para ver uma luz ao fundo do túnel.

Haja líderes à altura!

terça-feira, 10 de março de 2020

Amanhã, um tuíte não é demais...

Há poucas horas uma amiga minha italiana, que vive numa cidade à beira-mar, mas não na zona de alto risco, dizia que o governo tinha acabado de fechar o país 30 minutos antes. As pessoas podiam sair de casa de vez em quando, mas não podem ir trabalhar a não ser em super-mercados, farmácias, hospitais, etc. Tudo o resto deixou de ser essencial. Não sabem se irão receber o salário ao fim do mês, mas as contas, essas chegam de certeza. A minha amiga diz que odeia este governo italiano, mas que aprecia todo o seu esforço e o facto de não mentirem, nem esconderem a dimensão do problema.

Todos os dias, a Itália conta as suas vítimas, todos os dias, informa o mundo de quantas pessoas morreram, de quantas ficaram doentes. Na revista Time, indicam que por cada milhão de cidadãos, a Itália testou 638 pessoas; não é tanto como na Coreia do Sul, onde testaram 1100 pessoas por cada milhão, mas é um esforço gigante. E dois médicos italianos escreveram uma carta à comunidade internacional a relatar as lições que aprenderam para que os outros se preparem e não tenham de enfrentar esta batalha enorme sem conhecimento prévio. É a Itália, aquele país que nós achamos meio avariado porque elegeu o Berlusconi, mas estão a tentar tudo por tudo.

A minha preocupação é que tenho a certeza que Portugal não está a testar um número suficiente de pessoas para controlar o contágio. A minha amiga diz-me para não me esquecer que a Itália é um país envelhecido, que a idade média dos falecidos por causa do COVID-19 é 81 anos. Isto faz-me lembrar que o meu ex-cunhado, num Natal, me deu um livro intitulado "One Year in the Village of Eternity", sobre a longevidade dos residentes de Campodimele, em Itália, que nunca cheguei a ler. Talvez esta seja a minha dica.

Portugal também é envelhecido e fui ver a distribuição etária dos países: Portugal tem 21,5% da população com 65 anos ou mais; os italianos têm 23%; a Coreia do Sul tem 14%. A Coreia do Sul tem 7478 casos e 53 fatalidades; a Itália tem 9572 casos e 463 fatalidades. O número de casos em Itália aumentou 1300 hoje. Portugal tem 30 casos, mas o Público dizia que se estava à espera dos resultados dos testes de mais 47 pessoas, ao mesmo tempo que dizia que a primeira paciente tinha infectado 10--o suficiente para eu começar a fazer suposições. A primeira paciente veio de Itália, suponho que num avião, suponho que o avião tinha mais de 47 passageiros e, suponho também, que depois foi usado para transportar outros tantos, mas não antes de ser limpo, suponho outra vez, por uma equipa de várias pessoas. Acho 47 pouco, pronto.

O cidadão mais importante, que não sabe estar quieto para que não pensemos que morreu é o nosso Presidente da República que lá arranjou maneira de ser testado. Amanhã, para podermos estar mais descansados, o PR devia repetir o teste e o Primeiro Ministro devia mais uma vez dar-lhe os parabéns. Sim, porque a banda no Titanic também tocou até ao fim e mais vale morrer civilizadamente: não podendo haver selfies, restam-nos os tuítes de parabéns.


domingo, 8 de março de 2020

A ler/ver

Neste momento em que vos escrevo, há mais de 105 mil casos identificados em todo o mundo de coronavírus. Este número irá aumentar bastante durante as próximas semanas, à medida que mais pessoas são testadas. Os EUA estão bastante atrasados nos testes e, dado os 21 mortos já identificados, é quase certo que em vez dos 424 casos presumidos, haja vários milhares.

A Coreia do Sul testa 10 mil pessoas por dia e parece ser o país que tem mais controle sob a situação, mas o vírus está tão espalhado pelo planeta que as coisas estão bastante feias. Por exemplo, o SARS, por ser um vírus que provocava sintomas mais violentos e não era contagioso logo no início, foi controlado mais rapidamente e só causou pouco mais de 8 mil casos. O MERS desde 2012 apenas causou cerca de 2500 casos em todo o mundo.

Há quem ache que se está a exagerar porque nas pandemias anteriores mais recentes não acabou por morrer muita gente. Nos últimos 100 anos, os humanos têm sido bastante eficazes a aumentar a sua sobrevivência e a desenvolver tratamentos que reduzem a mortalidade. Mas não pensem que isto dura para sempre.

Uma população envelhecida não é tão resistente e, para além disso, haver muita gente que sobrevive não quer dizer que todos são fortes. Os virus e bactérias evoluem muito mais rapidamente do que nós; para além disso, sabemos da história, que é muito mais longa do que uma vida humans, que o normal é haver pandemias de vez em quando. Como diz o povo, tantas vezes o cântaro vai à fonte, que um dia lá fica a asa.

Aqui ficam algumas fontes que são bastante informativas:
  1. Uma entrevista do Fresh Air, emitida em 5 de Fevereiro, acerca de onde vêm estes vírus e da sua maior frequência.
  2. Uma app da Johns Hopkins que acompanha a contagem de vítimas
  3. Uma peça da revista Time sobre a estratégia falhada dos EUA
  4. Uma lição de história acerca da gripe de 1918 e de como a corrupção na cidade de Philadelphia contribuiu para piorar a situação
  5. Uma entrevista no programa Science Friday a dois investigadores de virus
  6. Uma entrevista a um epidemiologista de Harvard, que tem projecções bastante assustadoras
  7. Uma entrevista do NYT sobre a matemática de contágio
  8. A peça de opinião do Ricardo Reis sobre os erros que as pessoas cometem ao interpretar probabilidades



A lotaria

Dos 21 casos identificados em Portugal, quinze foram registados na região Norte, um na região Centro e cinco em Lisboa e Vale do Tejo. Trata-se de 15 homens e seis mulheres. Entre os doentes confirmados há dois rapazes e uma rapariga com idades entre os 10 e os 19 anos.

Quarenta e sete casos aguardam ainda resultado laboratorial e, neste momento, 412 pessoas estão a ser vigiadas pelas autoridades de saúde, mais de 200 ligadas ao mesmo caso.

Fonte: Público, 7-Março-2020

Depois da idiotice da quarentena inconstitucional, acham as mentes brilhantes portuguesas que uns 47 testes e 412 pessoas sob vigilância é suficiente para gerir a situação. Bem diz o Mário Centeno que não haverá efeito negativo no orçamento. Deve estar a contar com a morte de muitos reformados.

Daqui a cinco semanas vamos ver como se saem.