terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Os três Reis Magos

Retirado de um pacote de açúcar. O desenho é de Francisco Oliveira -- Escola EB 2,3 Guilherme Stephens.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A grande ilusão

Em, 1911, o economista britânico Norman Angell publicou um livro intitulado "A grande ilusão", que se tornaria um grande êxito, com edições sucessivas, publicadas antes da I Guerra Mundial, traduzidas para várias línguas, ultrapassando um milhão de exemplares vendidos em todo o mundo. Angell resume a opinião dos meios dirigentes da época: “ As finanças internacionais estão hoje a tal ponto interdependentes e ligadas ao comércio e à indústria que o poder militar e político não pode na realidade fazer nada.” Uma afirmação demasiado peremptória. Passado pouco tempo, o título do livro tornar-se-ia involuntariamente irónico. No fatídico dia 28 de Junho de 1914, o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro dos Habsburgos, e a sua mulher foram assassinados em Sarajevo (capital da Bósnia), por um jovem sérvio de 20 anos, de seu nome Gavrilo Princi, membro da “Mão Negra”, organização terrorista sérvia – a província da Bósnia-Herzegovina havia sido anexada à Áustria em 1878 e era reivindicada pela Sérvia.
Os dois tiros de pistola em Sarajevo arrastaram inadvertidamente a Europa para a mais terrível das guerras: nove milhões de mortos, a revolução russa em 1917 (por causa da guerra o czar Nicolau II viu-se obrigado a abdicar em março), a extinção do Império Austro-Húngaro, da Alemanha imperial e do império Otomano e o completo desmembramento da Europa Central. Tudo isto trazia o embrião da guerra seguinte, ainda mais catastrófica do que a precedente.
No mundo de 1911, quando Norman Angell publicou o seu famoso livro, nada parecia anunciar os terríveis acontecimentos posteriores. Penso que se podem tirar, pelo menos, duas conclusões daqui. Primeira, o mundo de 2013 também não anuncia aquele em que viverão os netos e os bisnetos dos europeus de hoje - o erro de toda a prospectiva é imaginar o futuro como um prolongamento do presente; segunda, devemos, todavia, prestar atenção aos sinais – afinal de contas, dois tiros de pistola podem ser o detonador de um cataclismo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Falta de legitimidade para reformar o Estado

Anda na moda dizer que o actual governo carece de legitimidade democrática para levar por diante a reforma de Estado, ou, melhor dizendo, cortar 4000 milhões de despesas anuais correntes do Estado. O argumento principal é simples, o governo não foi eleito para fazer isto. Vai daí e apela-se a Cavaco que intervenha. 
Por acaso, eu tinha a ideia de que esta reforma do Estado era algo que Passos Coelho nunca tinha escondido e que era perfeitamente claro no seu programa. Lembrei-me então de que a seguir às eleições Daniel Oliveira tinha um entendimento semelhante. Transcrevo: 
[N]estas eleições houve uma novidade: não há forma dos eleitores dizerem que foram enganados. Desta vez o voto contra quem está não podia ignorar o conteúdo do programa de quem vinha aí. Nunca um candidato a primeiro-ministro foi tão claro nos seus propósitos.
A descapitalização da segurança social, através da drástica redução da taxa social única; o provável aumento do IVA; a privatização parcial do Serviço Nacional de Saúde e da Escola Publica; a privatização das Águas de Portugal e de muitas empresas e serviços públicos; a liberalização dos despedimentos; e a redução das prestações sociais foram sufragadas nas urnas. Ninguém poderá dizer que Passos prometeu uma coisa e fez outra. Não foi assim com Durão Barroso. Não foi assim com José Sócrates. Mas Passos, honra lhe seja feita, foi claro. (…)
[F]ico-me por isto: o programa mais liberal da história da política nacional foi aprovado pelo povo. Vai doer. Mas dói com legitimidade democrática.
                                                                         Daniel Oliveira, Arrastão, 6 de Junho de 2011
Isto é independente de concordar com a reforma do Estado ou não. Até porque, até agora, nada de concreto foi proposto. De momento, continuo a ler atentamente o relatório do FMI sobre possíveis cortes de despesa. Com umas coisas concordo, com outras não. Portanto, até ver as opções escolhidas, reservo a minha opinião. Se não se concordar com as propostas, atacam-se as propostas, como se fez com a alteração da TSU. Mas pôr em causa a legitimidade democrática do governo?

domingo, 20 de janeiro de 2013

As minhas circunstâncias


A minha geração cresceu no pós-25 de Abril, isto é, num dos períodos de maior transformação e desenvolvimento da história de Portugal. Hoje, quando o desemprego jovem atinge valores estratosféricos e tantos têm de deixar o país, penso muitas vezes nas oportunidades que Portugal me proporcionou.

Nasci em 1972 na Gafanha da Nazaré, mas vivi, a partir de 1976, na Praia de Quiaios, uma pequena povoação, situada a 12km da Figueira da Foz, na bela encosta Norte da Serra da Boa Viagem, que se resumia na altura a alguns ‘palheiros’ e a meia dúzia de casas de férias. Fiz a escola primária na aldeia da Murtinheira com professoras que faltavam muito e que davam aulas em simultâneo aos cerca de 20 alunos que frequentavam as quatro classes. As ruas eram de terra batida, a eletricidade faltava frequentemente, a televisão via-se com muitas interferências, não existiam infraestruturas de saneamento e para a distribuição de água. No final da década de 1970 iniciou-se a construção de novas habitações, que ao longo dos anos seguintes completariam os rectângulos que organizaram o crescimento de um dos locais de veraneio da classe média de cidades próximas como Coimbra e Viseu. De facto, a Praia de Quiaios cresceu com o crescimento da classe média.

Frequentei a Telescola de Quiaios (a cerca de 3km da Praia de Quiaios), que para a generalidade dos meus colegas foi o momento que antecedeu a entrada no mercado de trabalho, em Portugal ou no estrangeiro – apenas uma colega minha do 6º ano concluiria o ensino superior. Entre o 7º e o 12º anos estudei na Escola Dr. Joaquim de Carvalho na Figueira da Foz. A biblioteca foi o que na altura mais me impressionou – a biblioteca ambulante da Gulbenkian chegava a Quiaios quase sem livros – e, nos primeiros anos, era lá que passava a maior parte dos intervalos e dos chamados ‘feriados’, que eram muitos.

A partir de meados da década de 1980 vieram as placas azuis da CEE a anunciar o saneamento, a rede de água e alguns melhoramentos (e também alguns desarranjos) urbanísticos. Apareceram também vários cafés e restaurantes, onde, com muitos dos meus amigos, trabalhei desde as férias de Verão de 1986 até terminar a licenciatura em 1995. Neste período passei de cavaquista entusiasta a cavaquista desiludido e acabei a votar em António Guterres.

Em 1990, tal como o meu irmão mais velho dois anos antes, entrei no curso de Economia da Universidade de Coimbra. O objectivo de vida dos meus pais, que têm a 4ª classe, seria cumprido uns anos mais tarde quando também os meus dois irmãos mais novos concluíram um curso superior. Foi o investimento da vida dos meus pais. Apesar do meu irmão mais novo ter emigrado recentemente para Angola e o outro andar também a ponderar seguir esse ou outro caminho que o leve para fora de Portugal, o investimento dos meus pais teve ainda assim um bom retorno.
  
Quando terminei o curso em 1995 fui selecionado para trabalhar na SONAE, com um salário inicial de 150 contos (750 euros) – valor não corrigido para as taxas de inflação. No entanto, a perspectiva, que se confirmou, de uma bolsa da então JNICT para realizar o mestrado levou-me a optar por continuar a estudar. No ano seguinte, concorri a uma de seis posições para assistente no Departamento de Economia da Universidade do Minho – diziam-me que estavam a fazer aí um forte investimento e que a Universidade tinha grande potencial. Mais uma vez, as expectativas se cumpriram. Em boa hora entrei na carreira universitária: para além dos aumentos salariais anuais, nessa altura generosos, beneficiei ainda de um aumento salarial de 25%, distribuído por vários anos, resultante do acordo estabelecido em 1995 entre os sindicatos e a então Ministra da Educação Manuela Ferreira Leite. E continuo, como no início, todos os dias motivado para trabalhar nos projectos da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho. 

Acabei o mestrado em 1998 e, em Setembro de 1999, parti para Londres para fazer o doutoramento, onde fiquei durante 3 anos e meio, sem ter de dar aulas e com o salário pago na íntegra pela Universidade do Minho, a que se somava um suplemento de bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Já nessa altura tinha consciência das condições excepcionais que Portugal me proporcionava.

Em 2003 regressei à Universidade do Minho, na categoria de professor auxiliar, a que correspondia um salário bruto superior a 3000 euros e líquido de cerca de 2000 euros. Hoje, passados quase dez anos, mesmo tendo entretanto sido promovido a professor associado, continuo a auferir um salário muito semelhante, mas que me continua a colocar no topo da distribuição salarial em Portugal e que não compara mal com o salário recebido pelos meus colegas europeus. E tenho um contrato que me garante emprego para o resto da vida.
   
Olhando em perspectiva, quando hoje observo as circunstâncias dos meus alunos, em particular as que enfrentam no mercado de trabalho, não consigo deixar de pensar que eu e a minha geração fomos, apesar de tudo, afortunados: nunca tantos tinham tido tantas oportunidades em Portugal. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

2013

Agora já ninguém se pode queixar de que a Destreza não foi actualizada em 2013.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Que 2013 seja um bom ano


Desejo a todos os leitores um ano cheio de subsídios de férias, de Natal, outros subsídios bem como descidas de impostos. Enfim, que possamos viver acima das nossas possibilidades.

sábado, 29 de dezembro de 2012

A situação normal


Os economistas clássicos e neoclássicos consideravam as baixas taxas de crescimento a situação normal dos países desenvolvidos – aliás, os “clássicos” Ricardo e Malthus são até conhecidos pelo seu pessimismo. Em geral, taxas de crescimento económico elevadas não sugeriam prosperidade, estabilidade ou modernidade, eram antes vistas como um sinal de transição de economias atrasadas, sujeitas a transformações aceleradas – à semelhança do que se passa hoje, por exemplo, na China. Entretanto o espantoso e inesperado crescimento económico do pós-guerra na Europa deixou os economistas tão fascinados e deslumbrados a ponto de muitos não perceberem que se tratava de um fenómeno irrepetível. A razão principal dessa situação anormal, que durou até ao início dos anos 70, foi a catástrofe económica anterior: duas guerras devastadoras, com uma grande depressão pelo meio, criaram um enorme potencial de crescimento, uma espécie de efeito do tempo perdido.
No fundo, as baixas taxas de crescimento económico da maioria dos países europeus (incluindo a Alemanha) verificadas nos últimos anos não nos deviam espantar. É essa a situação normal, tal como nos explicaram os economistas clássicos e neoclássicos há mais de um século.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Os amanhãs que cantam

Durante muito tempo, os intelectuais marxistas, por cegueira ideológica, não viram (ou não quiseram ver) e não perceberam as terríveis consequências do comunismo. Pior: as barbaridades sem nome dos países comunistas pareciam-lhes justificáveis em nome de um futuro radioso. O sofrimento dos povos era o caminho para a redenção e a salvação da humanidade – como é sabido, o marxismo abarca muita da escatologia cristã tradicional, mas adiante. Tratava-se, pois, aos olhos dos marxistas, de uma “destruição criativa”, dos escombros do capitalismo nasceria uma sociedade mais justa e humana, expurgada da maligna propriedade privada, considerada a origem do mal. E carradas de políticos e intelectuais (alguns extremamente inteligentes e brilhantes) acreditaram piamente nestas profecias, que, contra toda a evidência, tomavam como “científicas”. Em suma, fossem quais fossem os custos no presente valia a pena impô-los aos outros pelos maravilhosos benefícios do longo prazo.
Por mais estranho que pareça, há semelhanças inquietantes entre o fanatismo marxista e os seus “amanhãs que cantam” e o discurso do primeiro-ministro, perdão, do nosso amigo "Pedro". Escreveu ontem no Facebook o "Pedro":
“A eles, e a todos vós, no fim deste ano tão difícil em que tanto já nos foi pedido, peço apenas que procurem a força para, quando olharem os vossos filhos e netos, o façam não com pesar mas com orgulho de quem sabe que os sacrifícios que fazemos hoje, as difíceis decisões que estamos a tomar, fazemo-lo para que os nossos filhos tenham no futuro um Natal melhor.”
Os “sacrifícios” de hoje, as “difíceis decisões” do presente são, pois, o preço a pagar por um futuro melhor. O que é isto senão um acto de fé?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Tempos interessantes


No dia 13 de Julho de 1932, ante uma plateia de universitários de Paris, disse Paul Valéry:

“Viveis tempos interessantes. (…) Os tempos interessantes são sempre tempos enigmáticos que não prometem descanso, nem prosperidade, continuidade nem segurança. (…) Nunca a humanidade juntou tanto poder e tanta desordem, tanta apreensão e tantas diversões, tanto conhecimento e tanta incerteza.”

Oitenta anos depois, as palavras de Valéry tornaram-se ainda mais lúcidas.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Estou totalmente de acordo com estas declarações de Passos Coelho

“Queixam-se de lhes estarmos a pedir um esforço muito grande e dizem que estão apenas a receber o que descontaram” ao longo da sua vida de trabalho”, afirmou o primeiro-ministro, para a seguir contrariar tal teoria. “Não é verdade. Descontaram para ter reformas, mas não aquelas reformas” que hoje recebem, vincou o chefe do Governo. 
Estão, na verdade, realçou ainda, “a receber mais do que descontaram”. E as suas reformas são pagas porque está hoje a trabalhar e que, quando chegar a sua vez de ser pensionista, terá reformas mais baixas do que os níveis de hoje. Os contribuintes de hoje terão reformas de acordo com a sua carreira contributiva".
Retirado daqui.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Factos sobre o crescimento do sector não transacionável


"Numa altura em que urge criar riqueza no país e gerar novas bases de crescimento económico, é necessário olhar para o que esquecemos nas últimas décadas e ultrapassar os estigmas que nos afastaram do mar, da agricultura e até da indústria, com vista a produzirmos, em maior gama e quantidade, produtos e serviços que possam ser dirigidos aos mercados externos." 
 Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República
21 de novembro de 2012, citado no Expresso online.

Num trabalho em co-autoria com o Pedro Bação analisamos a evolução dos sectores não transacionáveis na economia portuguesa. Destacamos os seguintes factos:

1. O padrão de crescimento dos sectores não transacionáveis na economia portuguesa foi semelhante ao observado noutros países desenvolvidos. No entanto, desde o início dos anos 1990, o crescimento desses sectores foi significativamente mais forte do que nos outros países. 
2. A expansão dos sectores não transacionáveis tem sido muito rápida, tendo ocorrido à custa do sector agrícola no período 1953-95, e à custa da indústria no período 1995-2009.
3. Em 2009, os sectores não transacionáveis (definidos como a soma da construção e serviços) representavam 68% do Valor Acrescentado Bruto total, excluindo os sectores dos serviços expostos à concorrência internacional, e 81,1% daquele valor, considerando todos os serviços como não transacionáveis.
4. Mais de 50% do aumento do peso dos sectores não transacionáveis, no período desde a adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, ocorreu nos anos 1988-1993.
5. Desde 1986, o sector da construção e os serviços sujeitos a uma forte procura pelo Estado (educação e saúde, por exemplo) foram os principais motores do aumento do peso dos sectores não transacionáveis na economia portuguesa.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Re: Cartas transatlânticas

Respondendo ao desafio que me foi lançado pelo meu amigo Fernando Alexandre num dos comentários ao meu artigo publicado em “Destreza das Dúvidas”, titulado “Cartas Transatlânticas”, aqui estou eu, sentado no outro lado do Atlântico, procurando arredondar umas ideias sobre a minha experiência de leitura nos chamados e-books ou, para me exprimir mais portuguesmente, nos livros de suporte electrónico, cujas marcas me dispenso de nomear, por via de alguma publicidade enganosa que possa vir a fazer sem ganhar um cêntimo… Em primeiro lugar, o peso e as medidas do utensílio, cerca de cento e poucos gramas, as dimen­sões ainda mais pequenas do que a página de um livro, o que evita tendinites e outras desgraças termina­das em ite (não con­fundir com o final da missa, no santo tempo em que ainda era gargan­teada em Latim, ite missa est, cuja versão livre se vertia num grande refrigério para certos infiéis como eu, e traduzida à letra por dita missa esta, como certo beatério, versado no latinó­rio e em suas declinações trasladava para vernáculo lusitano), mas, e retomando o fio à meada das palavras acabadas em ite, temos também capsulite e artrite derivado do peso do calhamaço ou do dicionário; rinites alérgicas, no tocante aos narizes avessos ao secular pó cientifico-cultural arraigado nos livros e tratados de alta erudição da gasparina figura, não con­tando com a fragrância à tinta de impressão, que nenhum bem fazia aos trabalhadores das velhas tipografias, atreitos a sofrer de uma doença exclusiva e cujo nome me não ocorre neste instante: actualmente, e sobretudo para quem lê pouco e finge o contrário, o cheiro e a tactilidade do livro provocam-lhe a impressão de palpar um corpo perfumado de mulher retrovertido em Kama­sutra, numa saborosa sensação plena de graça e deleite… Muitos leitores ainda não afei­tos aos mecanismos modernos deste mundo semovente principiam já a enrolar-se no cobertor de papa de uma saudade que há-de esvanecer-se com o matiz do tempo, pois tudo passa, até o mais evocado aroma, cheiro ou cheirete; há ainda as conjun­ti­vites, residentes nos olhos mais sensíveis e lacrimejantes que se fatigam a ler em corpo de letra pouco ade­quado à sua conjuntiva ou conjuntura ocular, o que os leva a apa­gar a luz logo às primei­ras frases, por já não aturarem os ardo­res que a leitura pro­voca… No livro com suporte electrónico não se contraem inflamações terminadas em ite. O bom ecrã não reenvia qualquer brilho aos olhos, por isso a conjuntivite não tem emprego como tantos milhares de portu­gueses ou milhões de espanhóis, além de que se pode aumentar o corpo de letra, não sendo necessária a lupa ou o binóculo; em sua espessura de vespa contém milhares de calhamaços, sem qual­quer odor, quer sejam livros velhos ou acabados de sair da tipo­grafia; só pesam exac­tamente o que pesa o suporte, tenha ele só um livro ou milhares deles; quanto a tendinites, o mesmo se aplica ao que se escreveu para a conjuntivite: não há volume, grosso ou fino, que tenha peso: a insustentável leveza do ser livre ou livro, que neste caso pesa pouco: cento e poucos gramas; o dicionário que outrora se encontrava à mão, ou sobre a mesi­nha-de-cabeceira, já não prega as suas partidas com seu peso desmedido, nem cai desam­parado no chão, descadeirando-se nos seus milhares de palavras: está preso, salvo seja, dentro do suporte do livro electrónico, bas­tando, para o consultar, pôr o cursor atrás do vocábulo cujo sig­nificado se não sabe, e logo aparece a definição da palavra, a sua etimologia e exemplos de como se pode empregá-la nas suas diversas acepções e contex­tos: já não há justificação para se ter horror a esse cemitério de palavras, como um dia lhe chamou o grande escritor Miguel Torga; há escritores que fazem gala em afirmar que nunca ou raramente usam o tira-teimas, o nome que os tipógrafos davam aos dicionários, mas, isso, não será mais do que fogo-de-artifí­cio, tudo para que haja a espantação por parte do interlocutor de que tal génio genuíno conseguiu domar as palavras quase todas e transformá-las em cordeirinhas dóceis e obedientes; estou prestes a concluir, Fernando Alexandre. Só me faltam dois itens: a leveza de carregar, para onde quer que se vá, uma biblio­teca de milhares de volumes, no bolso, na pasta, no saco de via­gem, e escolher o ou os que mais me apetece ler, poesia, romance, ensaio, teatro, ciência, economia e tudo quanto numa biblioteca. Quanto ao segundo item, vou passar a prosa a Eça de Queirós, que no seu magnífico romance, As Cida­des e as Serras, anteviu a nossa era de tecnologia de ponta. Vale bem a pena ler esse romance, como de resto todos os livros escritos pelo melhor ou dos melhores escritores portugueses. Aí vai, pois, a transcrição de um passo do citado romance:
Não se abria um armário sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não se franzia uma cortina sem que de trás surgisse, hirta, uma ruma de livros! E imensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada por uma tremenda colecção de Estudos Sociais, a porta do WC!
Só pude, daqui de tão longe citar Eça, porque trouxe comigo a minha biblioteca ambulante. Não é isto uma maravilha? “E quem não há-de admirar os progressos do nosso século (XIX)”, dizia uma personagem do Eça. Só é triste não se poder aplicar tal frase aos dias de hoje… Não admira! Os cavacos e os coelhos e os gaspares e outros irracionais sentaram-se em cima do País e tomaram conta de nós!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Os Afortunados

Luigi Pirandello (1867-1936) deixou seis romances, 250 contos e trinta peças teatrais. Foi recentemente publicado em Portugal, pela Relógio D’Água, uma selecção de 28 contos. Pirandello, como era seu apanágio, temperou os contos com grandes doses de humor e cepticismo – nunca teve ilusões sobre o Homem.
«Os Afortunados» é um dos meus contos preferidos desta selecção. Um jovem, estudioso e formoso padre, a preparar o seu doutoramento em Roma, volta à sua Terra Natal para o enterro do pai, um usurário. Arturo Filomarino dedicou-se aos estudos e ao sacerdócio como forma de redenção dos graves pecados de usura de seu pai. No velório, encontra as suas quatro feias e antipáticas irmãs, já preocupadas com as partilhas. A sala está repleta de vítimas do pai; estas, no fim, vão em fila suplicar a D. Arturo que interceda por elas nas partilhas, argumentando que os juros que lhes haviam sido cobrados pelo pai as estão a deixar na miséria. Arturo fica atormentado. Só tem direito a um quinto do testamento e, por isso, não pode atender a todos os pedidos. Que fazer? Arturo viveu sempre para os estudos, completamente alheio de todas as coisas do mundo. Para mais, sempre quis obedecer aos seus superiores em tudo. Vai pedir instruções a Monsenhor Landolina, que dirige militarmente um colégio de órfãos. Conta-lhe a história e leva as letras herdadas, que Monsenhor, enojado, pede para não lhes tocar com as mãos e as pôr no chão. Quando Arturo confessa que estava a pensar em devolvê-las às desgraçadas vítimas do pai, Monsenhor contrapõe imediatamente: «Quem te diz que são desgraçados? (…) Desgraçados? Gente viciosa, homem, gente viciosa.» e manda Arturo pegar nas letras e entregar-lhas para assim servir os seus «pobrezinhos». E Monsenhor, implacavelmente, cobrou tudo até ao último cêntimo, à taxa mínima de 24%. Afinal de contas, «o dinheiro dos pobres é sagrado» e se os desgraçados choravam desalmadamente, exclamava: «Não importa! A dor é que vos salva, meus filhos.»

sábado, 1 de dezembro de 2012

Cartas transatlânticas

Ontem ou anteontem, já não me recordo, li um excelente artigo teu no blogue sobre o livro de papel e a sua substituição pelos novos meios tecnológicos. Concordo plenamente contigo, pois, como muito bem sabes, e apesar da minha provecta idade, sempre fui um entusiasta das novas tecnologias no que toca à leitura e à escrita. Já não consigo imaginar ver-me a escrever à mão em suporte de papel. Quanto à leitura, também verifico que se torna mais entusiasmante e, se não existe o cheiro ao papel e à tinta (antigamente dizia-se ou escrevia-se: tenho nas mãos um livro acabado de sair do prelo, as páginas ainda meio húmidas a cheirar à tinta da impressão...), se não há aroma, existe espanto, o espanto de levarmos no bolso uma biblioteca inteira... Aquando da vulgarização dos computadores nos anos oitenta do século passado, adquiri um, de mesa, Schneider de sua graça, que, apesar de pré-histórico (não tinha disco duro nem as funções que os actuais têm, tudo se fazia com põe disquete, tira disquete e daí os muitos enganos), me poupou muito tempo e papel, pese embora ter-me dado grandes desgostos por inépcia da minha parte: perdia textos, esquecia-me de os "salvar" e, ao abrir a máquina no dia seguinte, verificava, desconsolado e raivoso, que desaparecera o que tinha escrito, com tanto suor, na véspera. Nesse tempo, como tinha ainda a memória intacta, não me era difícil reconstituir o texto perdido, pois, como sabes, tudo quanto escrevo me sai a conta-gotas, palavra por palavra, e era fácil ficar com tudo discado na memória. O mesmo acontecia quando a electricidade se ia com o vento, o que era frequente no alto em que morávamos. Deixei, por outro lado, de ter o cesto de papéis a abarrotar com as inúmeras folhas de papel que ia deitando fora à medida que ia corrigindo, porquanto não suportava, nem suporto, ver emendas no papel, o que me levava a escrever tudo de novo, em página limpa, até à altura em que me surgia outra correcção e a dobadoira recomeçava, e os papéis se rasgavam, e o caixote se ia enchendo, até ao cimo da paciência... Ainda hoje tenho o hábito de gravar, quase linha a linha, o texto que tenho entre dedo (escrevo só com o indicador direito), resquícios do tempo em que tudo desaparecia por encanto! Por isso, gosto muito do computador moderno (parece o final de uma redacção da escola se, nesse tempo, já existissem tais máquinas endiabradas...), sobretudo do portátil, maneirinho, que me acompanha para todo o lado como cachorro fiel e que me guarda tudo e nunca se aborrece se desloco uma frase ou uma parte do texto do fim para o início ou vice-versa... Depois é muito limpo, deixa-me a página tal qual como se não tivesse caído um borrão de tinta de escrever sobre o papel de prova, o que dava pano para muita manga e palmatoada!

Aqui pelo Canadá já chegou a neve.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Os livros enquanto objectos de volúpia

Neste texto apaixonado, fala dos livros como objectos de desejo, aprendizagem e tacto.
Já há uns tempos que ando para escrever sobre isto. É comum ouvir os defensores dos livros e revistas em papel argumentarem que nunca o prazer, a sensualidade, a tactilidade ou o próprio cheiro de ler um livro poderão ser substituídos por um frio ecrã de computador (ou de iPad). O livro como um objecto de prazer não pode ser trocado por um gadget electrónico.

Como eu os entendo. Do imaginário adolescente, lembram-se dos poemas eróticos que leram em papel, do Kama Sutra em noites eruditas, da literatura porno de Henry Miller ou, os mais sensíveis, de alguns livros de Anaïs. Possivelmente, ainda têm guardadas as revistas da Playboy que compraram às escondidas e leram fechados no quarto. Imagino as sensações que se despertaram com a primeira capa da Playboy que foi, nem mais nem menos, com a voluptuosa Marylin Monroe.* Claro que gostam da fragrância do papel, quase que os imagino de nariz enfiado vasculhando as páginas centrais da revista.

Só que a malta de hoje lê o mesmo género de literatura, as mesmas revistas, vê as mesmas fotos e um pouco mais de vídeos, é certo. E fá-lo na privacidade de um ecrã, fechados no quarto. Assim, os seus sentidos são transferidos não para o papel, mas para o gadgets que cumprem as mesmas funções.

Em suma, a volúpia e a sensualidade, com todos os seus sentidos, estarão lá sempre, com ou sem papel. Não se preocupem que nada se perde.


* Não percam a edição de Natal da Playboy deste ano. Promete.