segunda-feira, 30 de junho de 2014

Econometria sem teoria é gaita que não assobia

Há uns anos, uma revista feminina fez um inquérito às suas leitoras. Mais de metade delas acreditava que se fosse mais sexy teria mais facilidades na sua carreira profissional. Terão razão? Provavelmente sim. Tal como terão razão os homens que pensem o mesmo. Há vários estudos econométricos que o confirmam. A evidência é esmagadora. Daniel Hamermesh, professor de Economia no Texas, tem vários artigos científicos sobre o assunto. Por exemplo, num estudo publicado em 1994, na American Economic Review, concluiu o seguinte relativamente ao mercado de trabalho norte-americano:
Pessoas feias ganham menos do que pessoas normais que, por sua vez, ganham menos do que as bonitas. O custo de se ser feio é 5 a 10%, um pouco mais do que o prémio de se ser bonito. O efeito nos homens é, pelo menos, tão grande como nas mulheres. Mulheres pouco atraentes participam menos no mercado de trabalho e casam-se com homens com menos capital humano. Pessoas bonitas têm tendência a trabalhar onde a beleza é produtividade; mas o impacto da beleza individual é razoavelmente independente da profissão, sugerindo pura discriminação por parte dos empregadores.
É duro mas é geral, também se aplicando aos professores. O mesmo Hamermesh concluiu, num outro estudo, que professores mais bonitos são os preferidos pelos estudantes. Enfim, parece que a fealdade tem custos em vários mercados.

Mas será verdade que os resultados de Hamermesh implicam, obrigatoriamente, que haja discriminação por parte dos empregadores? Façamos uma experiência conceptual. Suponham que na Universidade do Minho existem quatro tipo de professores: (1) feios e burros, (2) feios e inteligentes, (3) bonitos e inteligentes e (4) bonitos e burros. Partindo do princípio que a Universidade premeia o intelecto e não o físico, os inteligentes terão salários maiores do que os burros, independentemente de serem feios ou bonitos.

Mas agora admitam que abre uma agência de modelos em Braga, para quem beleza é produtividade, e que a agência paga aos modelos bonitos o mesmo que a universidade paga aos professores inteligentes. O que vai acontecer em Braga? 

Os professores bonitos e burros vão mudar de profissão, dado que são mais bem pagos na agência de modelos. Os bonitos e inteligentes ficam na universidade, estimulados pelos seus fantásticos alunos de Economia. Já os feios, sejam burros ou inteligentes, não podem mudar porque a agência só quer bonitos. Ou seja, todos os professores bonitos são inteligentes. Professores feios tanto podem ser inteligentes como burros. Finalmente, na agência de modelos são todos burros. Mas, e este é o motivo desta entrada, o que diria Daniel Hamermesh se viesse a Braga? 

Primeiro, concluiria que o salário médio dos modelos é superior aos dos professores universitários e que há uma tendência dos mais bonitos para trabalhar em mercados onde beleza é produtividade. Segundo, concluiria que, em média, os professores mais bonitos ganham mais do que os feios. Como corolário, concluiria que, independentemente da profissão, os bonitos ganham mais do que os feios. Finalmente, com base neste último resultado, concluiria que existe discriminação pura por parte dos empregadores em relação aos feios. 

Esta última conclusão estaria totalmente errada. Nos mercados que descrevi, todos os salários estão de acordo com a produtividade. Moral desta história? Por melhor que seja o trabalho econométrico, ele não vale nada sem um bom modelo teórico. Outra moral da história é que devem ouvir atentamente os académicos bonitos.

Versão de um texto escrito originalmente para a Revista Anual d'Economia
do Núcleo de Alunos de Economia da Universidade do Minho

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