sexta-feira, 24 de junho de 2016

Orgulhosamente, sós

12 anos antes de um destes dias, tive um rude awakening. Literalmente. Na altura vivia numa residência universitária, e uma colega americana batia-me à porta do quarto para me dizer, chocada, que eu não ia acreditar: o Bush tinha sido re-eleito. Foi a primeira coisa de que me lembrei, quando acordei hoje e vi as inúmeras mensagens no telemóvel que tinha por ler. É curioso como o sub-consciente encontra pontos de referência para que não nos dispersemos em racionalizações.  

Os resultados confirmaram a minha teoria de que o fator mais importante para explicar o resultado do referendo seria o modo como a campanha gerisse a tensa relação entre Londres e Inglaterra. Londres, a Escócia e a Irlanda do Norte votaram amplamente pela permanência, Inglaterra votou massivamente pela saída. Também já se notou que houve uma diferenciação etária no voto, com os mais jovens a votar massivamente na permanência. Este é um caso, parece-me, de correlação espúria. Calha que, grosso modo, os mais jovens vivem em Londres e na Escócia, e os mais velhos em Inglaterra (onde continuo a excluir Londres). A única separação com interesse analítico é a separação entre Inglaterra e o Reino Unido, e sobretudo a sua capital. A Inglaterra é um país velho, que sente a energia a fugir para se concentrar numa capital que não é tida como sua. Uma cidade que é vista, mais do que uma capital, como uma colónia simultaneamente britânica e europeia, mas nunca inglesa. Um símbolo vivo daquilo que é necessário para manter a ligação indesejada entre Inglaterra e o seu espaço geográfico mais próximo, em vez de a ligar ao mundo. 

A desagregação do Reino Unido parece um risco real. O SNP tem inscrito, no seu manifesto político, que qualquer alteração significativa face à realidade de 2014 significaria um novo referendo à permanência da Escócia no Reino Unido. O Sinn Fein já veio clamar por um referendo à re-unificação da Irlanda. Muita gente estará a ver o possível fim do Reino Unido como um custo da decisão inglesa de sair da UE. Uma espécie de apesar disso, ainda assim votaram pela saída. Eu não vejo a coisa dessa maneira, de todo. Acho que, mais do que um custo, é parte da motivação. 

10 comentários:

  1. Os ingleses já estão assim tão desligados da sua história?
    PS
    Obrigado por ter confirmado noutra página que o seguinte gráfico faz sentido e que, neste artigo já englobara a sua análise. Nem de propósito. Faz-se uma pergunta e, antes disso, já alguém lhe respondeu. Como eu gosto da aldeia global e de saber onde é que existe uma boa probabilidade de encontrar contributos.

    https://scontent.flis2-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/13511994_10153965462131263_5195254645798061766_n.jpg?oh=5642bdb250a60eb8a63a0a77bb9bc0bb&oe=58005E97

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  2. Caro Luís:
    Ontem, numa reportagem da RTP feita a partir de Londres, dizia-se que uma pequena parte dos analistas económico-financeiros da City está convencida de que, a médio prazo, a saída da UE será benéfica.
    O RU (ou desunido, ver-se-á) ganhará, então, «músculo económico» e o país impor-se-é no contexto internacional.
    Isto não passa de desejo, é análise errada ou resquícios de nostalgia de potência colonial?

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    1. Não tenho nenhuam convicção que seja assim. A economia inglesa é hoje, basicamente, a economia de Londres, e é difícil argumentar que a economia de Londres vive melhor sem o acesso ao mercado único e sem a livre circulação de capitais e de pessoas. Londres é, talvez a seguir à Alemanha, a grande benefiária das políticas da UE. Permitiu a vinda de milhões de trabalhadores altamente qualificados, formados a expensas de outros países, que permitiram alimentar um setor de serviços altamente sofisticado e bem sucedido; permitiu a vinda de trabalhadores pouco qualificados que permitiu manter a pressão sobre os salários e os preços; o acesso ao mercado único permitiu exportar os tais serviços; a circulação livre de capitais permitiu atrair investimento direito estrangeiro sem paralelo, que eu saiba, com nenhuma outra região europeia (bom, talvez a Irlanda).

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  3. Talvez tenha razão, mas não sei se é assim taõ espúria. O Carlos Duarte respondeu à minha surpresa: Baby boomers, never had it so good... Acho que, pelo menos em parte, ele terá razão. Do outro lado do gráfico, tem o post do Andé Gama.

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    1. Isabel, não há nada que me permita concluir, neste referedendo, que a divisão mais importante é a entre Londres e o resto de Inglaterra.

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    2. *não é a entre Londres o resto de Inglaterra.

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  4. É verdade. Há que tirar o chapéu ao Luis Gaspar. Muito antes das sondagens e dos votos, você identificou com clareza os factores geográficos que condicionariam este referendo. Não vi em nenhum outro lugar uma análise tão certeira. Esta casa está de parabéns.

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    1. Muito obrigado, NG. Muito simpático da sua parte.

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  5. Mero pormenor...

    "De acordo com Sibila Marques, psicóloga social e autora do livro Discriminação na Terceira Idade, em países como o REINO UNIDO, o idadismo é sobretudo contra as pessoas mais jovens, enquanto em PORTUGAL atinge as pessoas mais velhas."

    http://www.publico.pt/temas/jornal//velhos-nao-somos-todos-contemporaneos-26809407
    [CATARINA FERNANDES MARTINS 14/07/2013 - 00:00]

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