segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Os desvios continuam a contar

Os antigos achavam que a história era feita pelos “acontecimentos”, o imprevisto, o fortuito, os resíduos irracionais. Os historiadores modernos inventaram as "estruturas", as quais subterraneamente determinariam o sentido da história. A função do historiador e do cientista social em geral seria identificar padrões, como, por exemplo, a evolução da produtividade ou outras estatísticas do género. Ainda no século XIX, muitos autores começaram a preocupar-se com os grandes números. Tudo parecia enorme: as cidades, o Estado, as empresas, os mercados. De que forma isto alteraria as pessoas e a sociedade? Hannah Arendt achava que a sociedade comercial e industrial tinha trazido a sociedade de massas. Os homens deixaram de agir, passaram a comportar-se, quase como autómatos, como um animal que se comporta de forma condicionada pelos estímulos. O conformismo está na base da mãe das ciências sociais, ou seja, a economia. Por isso, as ciências sociais deviam antes chamar-se ciências do comportamento, sublinhava a filósofa. O pior, o mais triste, dizia Arendt, é que a evolução da sociedade, com a sua população cada vez mais numerosa, podia dar razão às leis do behaviorismo. Os acontecimentos que antes iluminavam o tempo histórico perderiam cada vez mais a sua importância e ficariam reduzidos a meros “desvios estatísticos”. Penso que esta é só metade da história. Arendt tinha alguma razão, mas não toda. Os “acontecimentos” continuam a ser decisivos. Por exemplo, no outro dia li uma entrevista do Pedro Mexia ao biógrafo Andrew Morton, o qual escreveu agora um livro relacionado com o estranho caso de Eduardo VIII. Por amor a uma plebeia americana, duas vezes divorciada, abdicou do trono em dezembro de 1936 a favor do seu irmão mais novo, Jorge VI, o gago. O carismático Eduardo VIII, à semelhança de uma parte da aristocracia inglesa, nutria simpatias pelo regime nazi. Provavelmente, se se tivesse mantido rei, nunca teria nomeado Churchill primeiro-ministro. Ora, este simples imprevisto, acaso, “desvio estatístico”, pode ter alterado toda a história do Reino Unido e da Europa.

4 comentários:

  1. Já tinha muitas saudades de te ler. Bem sei que não és de ferro e tens de tirar férias e tal, mas eu também não sou de ferro e gosto do que gosto...

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  2. Cá está novamente uma excelente comparação entre os antigos e os contemporâneos, desta vez a favor do uso de contrafactuais históricos que, por enquanto, são algo difíceis de aceitar. Ainda assim, não resisto a adicionar um possível artefacto.

    E se, aos seis anos, o pai de Hitler tivesse concordado com o psiquiatra que dizia saber tratá-lo dos seus pesadelos?

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    1. Hitler é um excelente exemplo. Nunca um homem sozinho marcou como ele um século. No putsch da cervejaria de 1923, uma bala passou-lhe de raspão e matou o colega que estava ao seu lado. Por centímetros, a história do século XX poderia ter sido muito diferente. Não é possível perceber o nazismo sem a figura de Hitler. Aliás, sempre que se afastou, como quando foi parar à cadeia a seguir ao golpe de Munique, o partido desintegrava-se rapidamente.

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