sábado, 11 de janeiro de 2020

Estranha evolução

Nos EUA, ficámos a saber do incidente do avião ucraniano na Terça-feira à noite, mas no dia seguinte, quase que não se falou no caso. Penso que as pessoas não sabiam o que pensar, nem com que ponto de vista abordar a notícia. Na Quinta-feira, os ucranianos foram os primeiros a noticiar que tinham provas de que o avião tinha sido abatido pelos iranianos com um míssil russo. Tenho uma amiga ucraniana que me deu a notícia às sete da manhã, antes de os media americanos avançarem com essa hipótese, algumas horas mais tarde.

Perguntei a uma outra amiga minha, que é iraniana, mas vive nos EUA, o que é que ela achava que tinha acontecido, dado o que os ucranianos estavam a noticiar. Ela responde-me que o governo iraniano muito provavelmente abateu o avião para desviar atenção da situação EUA-Rússia. "This is murder" diz ela, mataram as pessoas apenas para ficar no poder durante mais alguns anos, acrescenta. Entretanto, o Primeiro-Ministro canadiano deu uma conferência de imprensa, dado que as vítimas incluíam 63 cidadãos canadianos, e o mundo começou a prestar atenção ao incidente do avião.

No programa Morning Edition de Sexta-feira (é um magazine diário de actualidades na rádio), a Mary Schiavo, ex-Inspectora Geral do U.S. Department of Transportation, foi entrevistada a respeito da investigação dos despojos do avião. Quando a entrevista foi para o ar, presumia-se que o avião tinha sido abatido por um míssil, mas os iranianos juravam a pés juntos que tinha sido falha técnica e o facto é que, por aqui, as notícias também estão a ser dominadas pelos problemas que a Boeing anda a ter com outro modelo de avião, o 737 Max. Aliás, uma das grandes notícias de ontem foram os emails dos pilotos da Boeing acerca do 737 Max, que não deixam a companhia ficar muito bem-vista.

Na entrevista de Schiavo, várias questões de grande interesse são discutidas. Há a questão do conteúdo da caixa negra do avião e de como obter os dados. O Irão não tem competência técnica para o fazer, logo é preciso um laboratório noutro país, como França, Grã-Bretanha, Canadá, Australia, para analisar esses dados. O Irão também disse que iria tornar os dados públicos, logo outras entidades poderão analisá-los.

Uma outra questão a discutir era que os EUA têm políticas que limitam a ida de cidadãos americanos ao Irão, mas Schiavo recorda o entrevistador que, tal como ele deve ter aprendido nas aulas de educação cívica, no seu tempo da escola secundária (que pena que Portugal não as tem), os EUA são signatários de vários tratados internacionais e que a ida de pessoal oficial americano seria regida por direito internacional, em vez de direito nacional. Já o Irão, que não é signatário de todos os tratados internacionais relevantes, comprometeu-se a observá-los.

Também falou da questão de jurisdição. Se foi um acidente, os representantes do National Trasportation Safety Board têm jurisdição para ir a Teerão, pois está sob eles a investigação de acidentes de aviação; mas se o avião foi abatido, não há qualquer razão para irem porque o problema não era o avião.

Schiavo dizia que quando os aviões são abatidos, o normal é os presumidos culpados o negarem, mas a excepção é o caso de um avião civil iraniano que os americanos admitiram ter abatido acidentalmente em Julho de 1988, causando a morte de 290 pessoas. Hoje o Irão admitiu ter abatido acidentalmente o avião ucraniano. É estranha esta evolução.


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