sexta-feira, 12 de julho de 2019

Fruta estranha

"Southern trees bear a strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees

Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh

Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop"


Assunto quente

Neste momento, o assunto mais quente nos EUA é o caso do billionário Jeffrey Epstein, que é acusado de abuso sexual de menores. É difícil ouvir falar do assunto sem nos contorcermos com desconforto e parece que nem tudo se sabe, pois há questões acerca de como ele se tornou tão rico e também há ligações a pessoas bastante poderosas ou famosas, como Kevin Spacey, Bill Clinton, e Donald Trump.

O caso veio à baila devido a uma investigação do Miami Herald, que foi publicada em Novembro acerca de uma investigação das autoridades na Florida, em 2007, na sequência da qual as autoridades federais se preparavam para acusar Epstein, mas que não tinha sido levada a termo por ter sido negociado um acordo em termos muito favoráveis para Epstein.

Em 2003, a jornalista Vicky Carter, escreveu um exposé sobre Epstein para a Vanity Fair, que não chegou a ser publicado na sua versão original. Ontem, no Morning Edition, Carter falou da interferência de Epstein na publicação da peça e de os relatos das vítimas terem sido eliminados porque, em troca, Epstein ofereceu fotos para a publicação da peça.

Graydon Carter, o editor da Vanity Fair, em defesa própria disse que, na altura, não tinha confiança no trabalho de Carter. Fiquei muito chateada que tenha oferecido uma razão tão porca -- ela era incompetente --, quando sabemos hoje que a incompetência ou cobardia foi dele. Cá para mim, ainda acaba por se demitir um dia destes porque este não deve ter sido o seu único "lapso".

terça-feira, 9 de julho de 2019

Risco pessoal

Ontem, o Twitter decidiu sugerir para minha apreciação um monte de tuítes xenófobos e racistas. Suponho que tenho de agradecer ao Público por ter inspirado tanta generosidade. Perguntava alguém no Twitter se gostaríamos de ter ciganos como vizinhos porque parece que ter ciganos vizinhos é mau. Não é; aliás, eu cresci numa vizinhança em que havia uma família cigana composta de uma senhora viúva e doente crónica que tinha dois filhos. A minha mãe dizia-me que era muito boa pessoa e como a senhora cigana vendia roupa na feira, de vez em quando comprávamos algumas peças. Mesmo quando a família se mudou para outra vizinhança continuámos a ir visitá-la para comprar roupa.

Se é disto que têm medo, podem ficar descansados porque nada nos aconteceu apesar da proximidade. No entanto, há males bem piores no mundo e também havia na vizinhança onde cresci. Por exemplo, tive um vizinho pedófilo, que já tinha estado preso por ter violado alguém, mas que entretanto se exibia em público ou quando apanhava alguma criança só aproveitava a ocasião. Depois havia um polícia que se embebedava e batia na mulher, mas não era o único homem que o fazia. Homens que batiam em mulheres em Portugal era o pão nosso de cada dia e, infelizmente, não é uma espécie em vias de extinção. E até aposto que não sou a única pessoa que cresceu numa vizinhança com pessoas deste calibre, que nem eram ciganas.

Eu percebo que há ciganos maus, mas também percebo que há não-ciganos piores -- não, isto não é um caso de "whataboutistmo", é mesmo um caso de avaliação de risco pessoal -- e cada indivíduo deve responder pelos actos que comete, em vez de culparem toda uma etnia. Por falar em pessoas más, no ano passado, a ONU publicou um estudo em que concluía que o lar é o sítio mais perigoso para uma mulher: em todo o mundo, das 87 mil mulheres vítimas de homicídio, cerca de 50 mil morreram por causa do seu parceiro ou de um familiar, ou seja, quase seis mulheres por hora, em média. Acham mesmo que era de ciganos que estas vítimas deviam ter medo?




quarta-feira, 3 de julho de 2019

Elisa destemida

No dia 30 de Junho, a Elisa Martinuzzi assinou uma peça na Bloomberg acerca do bailout do banco italiano Monte Paschi e especula que Mario Draghi não terá dito tudo o que era pertinente acerca do caso. Quando a intervenção no banco se deu, Mario Draghi trabalhava no banco central italiano.

Esta discussão sobre o que sabia e não sabia Mario Draghi e o que ele disse vs. o que não disse recordaram-me as polémicas em redor de Victor Constâncio, quando este estava no Banco de Portugal, que voltámos a visitar nas últimas semanas, mas achei estranho que tendo Constâncio o cargo que tem no BCE a imprensa estrangeira não tenha noticiado nada. É como se as notícias portuguesas não chegassem ao mundo.

Na peça da Elisa, achei engraçada esta passagem, que sublinhei no excerto seguinte:
"The financial shockwaves set off by the collapse of Lehman Brothers Holdings Inc. in September 2008 placed added pressure on Monte Paschi. The bank took to masking its burgeoning losses with a series of complex derivatives deals. Those transactions were hidden from public view until I later reported on them. Once they were disclosed, Monte Paschi had to restate its accounts twice.

In response, Italian prosecutors filed criminal charges against the bank, alleging market manipulation and regulatory obstruction, and two trials are ongoing. Prosecutors are seeking jail sentences for a group of former employees, including the ex-chairman and general manager. The lender itself reached a plea bargain."

Fonte: Elisa Martinuzzi, Bloomberg

Fresquinha

Tenho uma notícia fresquinha para vós: o NYT acaba de publicar uma notícia em que relata vários casos de alegadas violações em que os juízes do Tribunal de Família deram opiniões à portuguesa e o mais engraçado disto é que um deles tem mesmo sobrenome Silva. Não é precioso?

Em 2017, ao Juiz Troiano (FYI, também é um sobrenome engraçado porque Trojan é uma marca de preservativos famosa nos EUA), que tem cerca de 70 anos e está reformado, mas que ocasionalmente preside a casos, foi apresentado o caso de um rapaz de 16 anos que, numa festa, violou uma rapariga também com 16 anos que na altura estava visivelmente inebriada e algo incapacitada, demonstrando dificuldade de andar e falar.

O rapaz filmou o acto e partilhou o vídeo com amigos, tendo mesmo enviado uma mensagem em que dizia "When your first time having sex was rape". Durante meses, o rapaz mentiu à rapariga acerca do que tinha acontecido, ao mesmo tempo que continuava a partilhar o vídeo e foi assim, pelo vídeo, que ela percebeu a dimensão do ocorrido, se bem que no dia a seguir à festa tivesse dito à mãe que suspeitava que tinha sido vítima de algo sexual.

O Juiz disse que o menino estava equivocado, aquilo não era violação porque para ser violação era preciso o acto ser tipo entre desconhecidos e o violador apontatar uma arma à vítima, coisas assim é que seguiam para tribunal com julgamento com júri. Qual quê, considerava o juiz, aquele moço vinha de boas famílias, tinha boas notas, e era escuteiro; efectivamente um rapaz deste calibre não só vai para a universidade, como é capaz de ir para uma boa universidade. O "Prosecutor" (Representante do Ministério Público) devia ter explicado à vítima e à família dela que uma aciusação destas não se fazia porque ia destruir a vida do rapaz.

Um outro caso referidona peça foi o que calhou à Juiza Marcia Silva, em 2017. Este é muito bom, ora vejam: um rapaz de 16 anos "atacou sexualmente" uma rapariga de 12, mas a juiza Silva concluiu que o rapaz não devia ser julgado como adulto porque, àparte de a rapariga ter perdido a virgindade, o Ministério Público não tinha argumentado que mais nada de mal lhe tinha acontecido -- não vos soa familiar?

Ambas as decisões, proferidas em Tribunais de Família na Nova Jérsia, foram sujeitas a recurso e foram repudiadas pelo tribunal de recurso, que permitiu que os acusados fossem julgados como adultos. No primeiro caso, o juiz de primeira instância foi instruído a não favorecer jovens de "boas famílias". No segundo, foi argumentado que uma criança de 12 anos não tem idade para dar consentimento (um à parte: todos os estados nos EUA definem uma idade de consentimento; na Nova Jérsia é 16 anos, mas a lei contempla sexo entre jovens com menos de 16 ser de mutuo acordo se tiverem idades próximas, ou seja, o indivíduo mais novo tem pelo menos 13 anos e o outro não tem mais de 17), logo presume-se imediatamente estar-se perante uma potencial violação -- esta é a leitura mais óbvia da lei.

(Outro à parte: relativamente ao conceito de "ter sexo aos 12 anos", já aqui mencionei uma vez ter ficado surpreendida quando li um artigo numa revista portuguesa sobre mulheres precoces em que uma rapariga admitia ter perdido a virgindade aos 12 anos com um rapaz muito mais velho do que ela, 18 anos, se a memória me serve bem, como se ter sexo aos 12 anos fosse normal ou sequer permitido pela lei portuguesa. A rapariga achava que era sinal de maturidade.)

O artigo também menciona um outro caso que se passou na Califórnia com o juiz Aaron Persky. Depois de o Juiz Persky ter condenado um estudante de Stanford a seis meses de prisão por ter violado uma mulher inconsciente, o juiz foi "recalled" pelos eleitores (fizeram uma eleição para o destituir do posto). Em alguns estados, os juizes são eleitos, em vez de nomeados.




quinta-feira, 27 de junho de 2019

Para ouvir e ver

Este fim-de-semana, no dia 30 de Junho, vai decorrer o Desfile do Orgulho, traduzo assim o Pride Parade, em S. Francisco. Vai ser o maior desfile de sempre porque este ano celebram-se os 50 anos dos tumultos de Stonewall (Stonewall Riots), que se passaram em Nova Iorque em que a comunidade LGBTQ entrou em conflito com a polícia, despois desta ter invadido a Stonewall Inn em 28 de Junho de 1969. Este evento foi um marco significativo na luta pelos direitos da comunidade LGBTQ.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Futuro próximo

O futuro próximo vai ser largamente determinado pelo que acontece nos EUA. Se seguem o mercado accionista americano, devem ter percebido que o chamado bull market foi interrompido. Desde que o Presidente Trump começou a dicutir tarifas de comércio internacional que o mercado desce, depois sobe, depois desce, mas não consegue ultrapassar os máximos que atingiu.

Os indicadores económicos da economia americana perderam o fôlego do corte nos impostos e desde o shutdown de 2018/19 que não dá para perceber se as coisas estão tão bem como indicam nuns meses ou tão mal como indicam em outros. Para além disso, quando a taxa e desemprego está a mínimos de décadas é difícil imaginar de onde virá a mão-de-obra necessária para alimentar a expansão, pois se quem está fora do mercado ainda não entrou, é porque deve ter alguma limitação.

A dinâmica do comércio internacional também contribui para a confusão: como as empresas e os consumidores não sabiam quando estariam sujeitos a tarifas, assim que se aperceberam das intenções da administração americana alguns anteciparam compras para tentar evitar ter de pagar tarifas, ou seja, apesar da imposição de tarifas ser uma política desaceleradora da actividade económica, a curto prazo pode ter o efeito contrário e acelerar.

Depois há as eleições presidenciais daqui a menos de 18 meses, que irão criar uma confusão enorme na comunicação social, pois é esse o modus operandi de Donald Trump. Só que desta vez o efeito surpresa não estará do lado dele e se em 2016 ele era o underdog, agora é a pessoa que está no poder e como passou os últimos anos a insultar e a passar políticas que prejudicam os eleitores que votaram nele, é natural que tenha dificuldade em convencê-los.

Nem tudo é negativo, pois a Reserva Federal tem alguma margem para actuar, só que como o Presidente acha que as taxas e juro deveriam ser cortadas para estimular a economia, há alguns problemas que se levantam. O primeiro é que um corte iria levar a que se questionasse a independência do Banco Central. E depois se a economia está com baixo desemprego e a taxa de crescimento anda em torno da média, a única verdadeira razão para actuar seria para tentar criar mais inflação, coisa que a Reserva Federal costuma engonhar.

Se a economia americana ainda está a expandir, então em Julho esta será a expansão mais longa da história dos EUA. Se pelo contrário a recessão já começou, então poderá levar vários meses, talvez mais do que um ano, até que o NBER faça o anúncio, mas se entretanto as taxas de juro forem cortadas, então teremos clara indicação de que estamos em recessão.

Quem acompanha as notícias internacionais, já deve ter reparado que há duas coisas das quais se fala muito: uma é o efeito das alterações climáticas e a outra é a quantidade de resíduos plásticos no oceano. Para além de políticos da ala conservadora americana terem deixado de questionar as alterações climáticas, as companhias petrolíferas mundiais também já tornaram público o seu apoio a políticas para gestão das emissões de carbono.

No lado dos plásticos, formou-se há menos de um ano um consórcio global de empresas que têm o objectivo de melhorar a tecnologia de reciclagem de plásticos e a sua infraestrutura. Claro que tal esforço coincidiu com a China ter deixado de comprar residuos plásticos para reciclar. Para além disso, começam a haver start ups que têm o objectivo de reiventar a cadeia de produção/distribuição de forma a reduzir ou eliminar o consumo de plásticos, como por exemplo a Loop, que está a estudar o uso de embalágens de aço reutilizáveis para embalar shampoo, gelados, cereais de pequeno almoço, etc.

O mundo está a mudar rapidamente e apesar da Administração Trump tentar relaxar a legislação ambiental, são as próprias empresas que resistem e tentam estar um passo à frente dos consumidores. É que na era digital, as empresas que se portam mal correm o risco de serem ostracizadas a nível global. Para além disso, já deu para perceber que é só uma questão de tempo até haver um esforço mundial para lidar com as grandes questões ambientais.

Não sei se Portugal está preparado para as mudanças que por aí vêm, até porque não se ouve ninguém dicutir temas sérios da actualidade. Até é duvidoso que os políticos portugueses saibam o que se passa no resto do mundo.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

As que irritam

“A seriedade intelectual de Natália [Correia] levava-a a não omitir erros (injustiças, desvarios) cometidos pelos que lhes eram próximos. Não hesitou, por isso, em distanciar-se, no ano de 1975, da (sua) esquerda, de demarcar-se do feminismo que, na Primeira República, levou as mulheres a apoiarem Afonso Costa na trágica decisão de atirar Portugal para o matadouro da Primeira Guerra Mundial.

«Incompreensível essa atitude, sobretudo por parte de vultos como Ana de Castro Osório, que criou a Comissão Feminina pela Pátria, ou como Adelaide Cabete que lançou a Cruzada das Mulheres Portuguesas em apoio de tamanha infâmia! E isso depois de Afonso Costa ter impedido as mulheres de votar, uma vergonha! Elas comportaram-se, afinal, de maneira não muito diferente da das senhoras do Movimento Nacional Feminino, que actuaram nas guerras coloniais do fascismo».

A seu lado, o historiador Oliveira Marques sorria. Saltando sobre o tempo, logo Natália investia contra as mulheres que, em cargos de decisão, «se comportam hoje pior do que os homens», ultrapassando-os no que eles «têm de mais brutal».
Em vez de «praticarem a superioridade do feminino, como a afectuosidade, a sensibilidade, não, parecem travestis! Vejam-se, por exemplo, as atitudes implacáveis das que dirigem departamentos de recursos humanos em empresas com processos de despedimentos de trabalhadores. Grotescas!» As «carpideiras do vitimismo feminino» irritavam-na igualmente.”

Excerpt From: Fernando Dacosta. “O Botequim da Liberdade.” Apple Books. https://books.apple.com/us/book/o-botequim-da-liberdade/id703484323

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Mudança

Depois de algumas semanas em que me senti bastante cansada, percebi que a culpa era dos chocolates. Foi assim: no trabalho, nós temos chocolates de graça, mas eu como sou meia-esquisita também tenho os meus quadradinhos de chocolate e menta que comia como snack diário. Normalmente, comia uns dois... ou três... ou quatro porque pares é melhor para não ficar nenhum pedaço sozinho e não eram assim tantas calorias, mas também não tinha valor nutricional. Notei que para além de cansada, as minhas articulações doíam, então decidi parar e não é que melhorei e me sinto com mais energia?

Deu jeito a minha mudança porque entretanto recebi uma mensagem de uma amiga a perguntar se não ia ficar por Memphis durante o Verão porque gostaria de visitar porque estavam a caminho da costa do Alabama e era uma boa oportunidade de eu conhecer o filho dela, que tem quatro anos. Perguntei-lhe para quando era a visita e era em menos de uma semana. Oh diabo, tive de andar a organizar o andar lá de cima onde ficam os quartos de hóspedes.

Por acaso, a última vez que estive em Fayetteville, AR, onde ela vive, foi em 2013, logo nessa altura estava ela grávida e apenas lhe entreguei as coisas do baby shower. Até j;a me tinha esquecido destes detalhes, mas durante a visita ela mencionou ao filhote as coisas que eu tinha dado: fiz um cobertores de flanela, outro de pelúcia e flanela (a sério, costurei eu mesma), bordei uns macacões de algodão, etc. É estranho, mas ultimamente não me apetece fazer estes trabalhos manuais. Por sorte, já não tenho amigos com descendência a caminho.

Mas fiquei orgulhosa de mim própria por ser uma amiga tão dedicada. Aliás, os meus amigos aqui têm uma boa impressão minha e acham que o resto dos portugueses são como eu: inteligentes, trabalhadores, atenciosos. Tenho uma lista de pessoas que querem que eu os leve a Portugal e alguns já me ameaçaram de que não passo de 2020 sem os levar. Felizmente, os meus amigos não leram o blogue do Francisco Seixas da Costa, onde se diz que pessoas como eu que emigraram, ainda por cima para as Américas, e têm opiniões formadas acerca do país e que não se inibem de o criticar nunca fizeram nada pelo país. Parece que bons portugueses são aqueles que não querem a mudança porque mudar Portugal é mau.

Bem sei que o Francisco Seixas da Costa também andou pelo mundo, mas era diplomata, não era emigrante. Mas a diplomacia é uma das formas pelas quais se efectua mudança, logo por que razão não nos explica o Francisco porque dedicou uma vida inteira a tentar mudar as relações de Portugal com o estrangeiro? Não seria melhor ter deixado tudo ficar como estava?

E por falar em ficar como estava, como é que se pode criticar a mudança ao mesmo tempo que se elogia uma revolução? Uma revolução é uma das mudanças mais profundas que pode acontecer a um país com a agravante de que a maior parte das revoluções não são pacíficas. Aliás, há a ideia de que as coisas depois de Abril de 74 foram um mar de cravos em Portugal, mas não foram. Ao contrário do que escreve o Francisco, nem sequer houve liberdade para quem foi preso e torturado sem ter sido acusado de um crime e houve centenas de presos nesta situação.

Como é que alguém com o currículo de Francisco Seixas da Costa escreve coisas que não são factuais, nem observam as regras mais básicas de lógica, e ninguém da comunicação social lhe aparece à frente e lhe pede explicações?

Não pensem que Portugal não muda porque alguém não quer. Tudo muda e a mudança é inerente à vida. A única escolha que temos é decidir se queremos mudar por necessidade ou voluntariamente. Se por necessidade, as mudanças são nos impostas e não controlamos os resultados; se formos pela via da mudança voluntária, podemos eliminar situações indesejáveis e posicionarmo-nos para criar novas oportunidades. De qualquer das formas, na mesma não ficamos de certeza absoluta.












sábado, 18 de maio de 2019

Chocou-me, pronto

Ao contrário de muita gente, não tenho problemas com telemóveis no quarto. Não me incomoda nada passar uns minutos a ver fotos no Instagram antes de dormir, até porque me relaxa imenso. Não é, portanto, surpreendente que o meu despertador seja o meu telemóvel. O único problema com isto são as notificações que se vê assim que acordamos. Por exemplo, na Quarta-feira acordei às 6 da manhã como habitual, vou a desligar o despertador e vejo que, no NextoDoor há uma vizinha que se diz estar meio-abananada porque ouviu tiros durante a noite, mais propriamente às 2:30 da manhã, será que mais alguém tinha ouvido...

Não ouvi nada, mas uma outra vizinha ouviu e a troca de impressões já tinha começado. Uma disse que tinha visto dois corpos e a polícia por todo o lado e que a notícia já estava no Twitter, mas fui procurar e a polícia não tinha dito nada. Foi uma TV que deu a notícia porque entretanto recebo um SMS de um colega que diz que ficou doente e não podia ir trabalhar, quando lhe contei do tiroteio, disse-me que tinha visto na TV, fui ver o canal de TV no Twitter e lá estava.

Consultei o mapa porque pela descrição da vizinha, o local onde a coisa se tinha passado parecia-me bastante próximo, aliás fiquei com a impressão de que era ao pé do parque que tem o chão coberto de musgo--é uma coisa simplesmente divina. Tirei umas fotos de nuvens lá perto dois dias antes do tiroteio. Recordo-me também que algumas semanas depois de me mudar para esta vizinhança, houve um miúdo de bicicleta que me seguiu por essa zona. Na altura fiquei incomodada, mas agora o que me incomodava era pensar que, se calhar, a criança tinha uma tragédia à porta.

Mandei calar a minha imaginação porque, às Quartas-feiras, temos reunião de risco no trabalho, que começa às 8 em ponto, e como o colega não podia ir, quem tinha de fazer os preparativos era eu. Durante o dia fui consultando o NextDoor para ver se havia novidades, mas passadas algumas horas houve outro tiroteio, que não foi bem tiroteio. Um homem suicidou-se a tiro num parque, o parque que eu tinha visitado pela primeira vez há umas duas semanas. É um local tão agradável, com um trilho curto, mas rodeado de árvoredo denso, um riacho que serpenteia pela floresta, um parque de merendas com baloiços para as crianças. No fim de semana passado, como estava frio, andei a investigar se este parque seria um bom sítio onde tentar encontrar cogumelos morel porque encontrei lá vários sítios com mandrágora americana (mayapple) e os cogumelos crescem em circunstâncias semelhantes.

No NextDoor, uma senhora que passeia cães ficou indignada que se fosse andar ao tiros num sítio com miúdos, especialmente com uma escola primária ao pé, mas um outro vizinho que conhecia a vítima pedia compreensão e recato. A vítima era um amigo dele, um homem que andava atormentado, e que deixava orfã uma criança ainda pequena. Tentei pensar nesse homem; no mundo perfeito da minha imaginação ele teria encontrado algum consolo na beleza daquele parque, ter-se-ia acalmado e retornado a casa para encarar mais um dia, sem que nada de mal lhe tivesse acontecido. Entristece-me que o parque não tivesse tido esse efeito nele.

Continuei a minha rotina, que inclui ouvir os podcasts portugueses para não me esquecer de como falar português. No Governo Sombra tinham um clip da ida do Joe Berardo à Comissão Parlamentar de Inquérito, o tópico mais importante do momento em Portugal. Nunca tinha ouvido o Berardo a falar e surpreendeu-me um bocado a falta de desenvoltura verbal, mas o que me chocou mesmo foram as perguntas que os deputados lhe fizeram porque demonstram ignorância e falta de preparação. Será que os deputados conhecem a lei portuguesa? Não parece que saibam que as empresas em Portugal gozam de um enquadramento legal que limita a responsabilidade dos proprietários/sócios. Como é que questionam o homem sem perceber os detalhes do empréstimo e a lei que o rege? Ainda por cima, esperam que o Berardo lhes explique e se auto-incrimine.




domingo, 12 de maio de 2019

Um malandreco, outro mauzito

Que semana tão atarefada. O país acalmou depois da birra do ilustre PM, que anda a ver se arranja um pretexto para se demitir. Coitadito do nosso malandreco preferido, a única coisa original que disse recentemente é que não há dinheiro. Isso já tinha dito o Vítor Gaspar há mais de seis anos.

Sem plataforma eleitoral, nem estratégia de governação, o melhor é mesmo António Costa tentar sair agora enquanto o leite ainda não azedou. E com o Marcelo Rebelo de Sousa a perder popularidade, ainda vai a tempo de andar a fazer comentário pela TV e depois ser candidato do PS às próximas Presidenciais.

Entretanto, encontrámos um assunto muito mais interessante há coisa de dois dias. O Joe Berardo, outro génio à portuguesa, foi prestar declarações à Comissão Parlamentar de Inquérito e portou-se mal. Ele é tão mauzito, que merece tareia. Ou talvez não, pois tem acesso a telemóveis e a sua reabilitação é quase certa. Aliás, deve ser essa a causa de ele não ter tido um acto de contrição em frente dos deputados.

Que queriam os deputados não se sabe ao certo. Afinal, mudaram alguma legislação como consequência de comissões parlamentares de inquérito passadas? Quando há declarações falsas, alguém é preso? No decorrer da investigação descobrem-se alguns factos que permitam ao ministério público avançar com uma acusação? E há algum plano para recuperar o dinheiro perdido dos bancos ou para arranjar um enquadramento legal que permita que casos destes não se repitam?

Dizem-nos que as eleições estão para breve...




segunda-feira, 6 de maio de 2019

Nova ou velha

Em Coimbra há duas estações principais de comboio a que na cidade costumamos chamar "estação nova" e "estação velha".
O nome oficial delas é Coimbra A e Coimbra B.
Apesar de saber disso, evidentemente, sempre que se falava em A ou B eu confundia-me e não sabia se estavam a falar na nova ou da velha. Houve até alguns desencontros desagradáveis.
Até que um amigo me mandou um berro dizendo: "B de belha". Não confundi mais.

Acobardou-se.

Aproveitem que isto não vai para a frente e discutam que tipo de carreiras especiais querem na Função Pública.
Depois de tudo o que se passou, talvez esteja na altura de reconhecer de vez que não faz sentido carreiras com progressões (quase) automáticas. Caso contrário passamos a vida a congelar a carreiras.

sábado, 27 de abril de 2019

Primeira cobaia

Duarte Lima vai finalmente ser preso -- já vai tarde, mas não nos zanguemos com o atraso na justiça portuguesa porque vamos ter uma cobaia para testar a introdução de telemóveis na prisão. Não acham que o Duarte Lima merece um telemóvel? Ele até toca piano.

Vá, não sejam forretas e dêem-lhe um iPhone! Assim ele pode refilar com os moços do PSD que só se lembraram de o expulsar agora que ele vai ser preso. Antes, quando ele foi condenado, não era premente. Com o seu telemóvel, Duarte Lima pode argumentar que a reabilitação está a correr muito bem e estará prontinho para novas aventuras cor-de-laranja quando sair daqui a 6 anos.

E viverão felizes para sempre!

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Um cão era melhor

Segundo me contam, o telemóvel é um mecanismo de reinserção de presos na sociedade. Na Wikipédia em inglês, dizem-me que é controverso porque os presos podem usar o telefone para intimidar testemunhas, cometer crimes, planear fugas ou até outros crimes. Uma outra fonte de controvérsia é, nas prisões que permitem telemóveis, os custos exorbitantes dos mesmos que beneficiam as próprias prisões.

Não se percebe muito bem como é que havendo telemóveis com fartura em Portugal -- mais de um per capita -- ainda há criminosos. Então não seria esperado que, se pessoas com telemóveis estivessem bem inseridas na sociedade, então não cometeriam crimes?

Mas talvez não seja o telemóvel em si, mas os amigos e família com quem o preso contactaria. Só que mais uma vez encontramos o mesmo problema: se estas pessoas fossem eficazes a inserir a pessoa na sociedade, então a pessoa nunca teria cometido um crime.

Frequentemente, os criminosos sofrem de disturbios mentais e necessitam de cuidados médicos especializados; o telemóvel não os vai ajudar, mas dá a ilusão que o governo se preocupa, quando na realidade não faz nada por estas pessoas.

Afinal, o que é um criminoso em Portugal e por que razão se prende uma pessoa? Portugal é um país com um regime penal considerado leve. Há crimes hediondos cujos autores nem vão para a prisão porque lhes atribuem penas curtas, que acabam por ser suspensas. Ou seja, quem vai para a prisão normalmente deve ter cometido algo bastante grave e, se o fez, é porque a pessoa é incapaz de auto-inibir comportamentos altamente indesejáveis. O telemóvel desinibe as pessoas: basta ler algumas conversas de SMS para perceber que o potencial das coisas descambarem é alto. E se for um telemóvel com Internet ainda pior.

Depois há a situação dos familiares e amigos, que receberiam as chamadas. Será que estas pessoas também não sofreram elas próprias com o crime e não têm direito a algum resguardo? Ou têm obrigação de tomar conta de presos pelo telefone a qualquer hora do dia?

É desejável que se sigam políticas de reinserção de presos, mas gostaria que me indicassem estudos que concluam que o uso de telemóveis facilita esse propósito.

Porque é que não decidiram dar um cão aos presos? Esses programas funcionam mesmo. Nos EUA, há vários prisões que usam cães para reabilitar pessoas encarceradas. Ver aqui, aqui, e aqui, por exemplo.