terça-feira, 16 de abril de 2019

Contra-ciclo

Ontem fiquei um bocado preocupada com Notre-Dame. Acreditei -- ou talvez fosse um acto de fé -- que os bombeiros conseguissem salvar a estrutura e, apesar de algumas perdas, que alguns mais pessimistas dizem ser incalculáveis, não sucumbiu totalmente.

A minha atitude pessoal é ser pessimista quando as coisas estão bem, isto é, preocupo-me com o que pode correr mal, e optimista quando as coisas correm mal, pois quase sempre se pode fazer alguma coisa para melhorar quando estamos perante o pior. Por isso, se ao longo de 800 anos tinha de arder, arder agora, quando a tecnologia de combate aos fogos está avançada, os bombeiros estão bem treinados, os conservadores de arte também, etc., não é o pior que podia ter acontecido.

Notre-Dame não só irá ser recuperada, como iremos descobrir bastantes coisas acerca da sua construção. Os franceses irão ser confrontados com escolhas difíceis, mas é um povo que está habituado a fazê-las. Entre 1844 e 1864, Notre-Dame foi sujeita a uma restauração que na altura foi bastante controversa.

Em 2014, o Museum of Fine Arts Houston, fez um exposição com as fotografias de Charles Marville, que tive oportunidade de visitar. No início dos anos 1860s, Marville foi nomeado fotógrafo oficial de Paris e documentou o projecto de reconstrução da cidade, quando a cidade medieval foi arrasada para dar lugar a uma urbe planeada e modernizada.

Aqui vos deixo uma foto do pináculo de Notre-Dame tirada por Charles Marville, que está disponível no espólio da Biblioteca do Congresso americano. Ontem o pináculo caiu, mas brevemente irá ser re-erguido.



Um-dó-li-tá

Diz o meu PR de Portugal:
“Caro Presidente Macron, meu Amigo:

Uma dor que nos trespassa o olhar e logo nos marca a alma, Paris sempre Paris ferida na sua Catedral em chamas, um símbolo maior do imaginário coletivo a arder, uma tragédia francesa, europeia e mundial.

De Lisboa um abraço sentido,
Marcelo Rebelo de Sousa”


Diz o meu PR dos EUA:


Eu não daria cavaco

Continuo a não perceber a fixação com Cavaco Silva. Eu compreendo que ele não consegue estar calado quando lhe colocam um microfone à frente, mas para que é que insistem?

Achei deplorável a forma como lidaram com o envelhecimento de Mário Soares e agora estou a achar o mesmo da forma como não largam Cavaco Silva. Cavaco Silva não faz parte da oposição, logo por que razão não o deixam em paz? Alguém perguntou ao Reagan o que achava do Bush e do Clinton? E a Sra. Thatcher também se pronunciou acerca dos PMs que a sucederam?

sexta-feira, 12 de abril de 2019

quinta-feira, 11 de abril de 2019

HeLa

Hoje de manhã, não sei por que carga de água pensei na Henrietta Lacks. Foi uma mulher muito importante, mas por uma razão muito triste. Tinha ascendência Afro-Americana e era mãe de cinco filhos; em 1951, foi diagnosticada com cancro cervical, tendo morrido nesse mesmo ano, aos 31 anos. As suas células de cancro, que foram recolhidas numa biópsia têm uma característica única: reproduzem-se infinitamente em placas de Petri. Sem a autorização de Henrietta, as suas céclulas começaram a ser usadas para investigação médica e são hoje uma das linhas de células mais importantes.

À tarde fui à National Portrait Gallery e, na Galeria onde estão os retratos dos Presidentes, há uma secção acerca da luta pelos direitos civis e encontrei um retrato d Henrietta Lacks, que aqui vos deixo juntamente com o texto explicativo. Se querem ler mais, há o livro que foi publicado há uns anos e que é mencionado abaixo. Na altura da publicação, em 2010, o Fresh air teve uma entrevista com a autora que podem encontrar aqui.



quarta-feira, 10 de abril de 2019

Quando nem os livros são nossos aliados.

Depois de resistir a berreiros, chantagens e ameaças, finalmente consigo fazer com que a minha filha se sente a ler em vez de ir para a PlayStation.
Ao fim de uma hora, chama-me para me mostrar esta passagem:

Já percebi

Não é que eu esteja grandemente preocupada com as nomeações de Cavaco--parece que ele já não é PM--, mas estava a pensar porque é que agora era importante voltar a haver tantas notícias acerca das nomeações dele. Eu percebo que não gostam do Cavaco, ele não se lembra de quem nomeou, e é muito mais fácil culpar o Cavaco pelos males de Portugal (Síndrome de D. Sebastião) do que exigir de governantes actuais que sejam mais competentes. Desculpem lá rebentar a vossa bolha de felicidade, mas défice não é medida de bom desempenho na economia. Se fosse, não seria necessário haver cativações. Elementar, meus caros...

Mas continuamos sem explicar a necessidade de voltar a investigar a governação de Cavaco e suponho que é porque não existe LexisNexis das notícias portuguesas. O LexisNexis é uma base de dados de notícias, legislação, e informação sobre empresas que existe nos EUA. Já existe há muitos anos, lembro-me de a usar há mais de 15 anos, quando andava a fazer doutoramento. Antes disso, nas bibliotecas, havia jornais em microfilme, que eu também usei. Faltando isso, procurava-se uma biblioteca que tivesse o que nós queríamos e a bibliotecária mandava pedir a uma biblioteca que tivesse que enviassem um fax ou um email com a fotocópia.

Aposto que ninguém digitalizou os jornais da altura do Cavaco e agora temos de lerpar com todas as notícias más daquele governo para que assim possam ficar arquivadas no Google. É isso, não é?

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Sorte, portanto

Ia para dizer umas piaditas acerca do nepotismo de antes vs. o de agora, mas não me parece que contribua para o meu dia. Para mim, o dever de um cidadão é duvidar de políticos, ou seja, é fazer aos políticos o que a sociedade faz às mulheres: tratá-los como incompetentes até prova em contrário. Efectivamente, é uma manifestação do meu gene português avariado. Em Portugal, todo o homem que chega ao topo é um génio. Ui, que sublime habitarmos o mesmo espaço e tempo de tal gente...

Adiante, que ainda me dizem que o período está para me vir. Ora, acordei às 3:45 da manhã, depois de uns dias cheios de stress. No trabalho, deixei instruções detalhadas de como actualizar as minhas coisas para a equipa não andar às cegas, mas o meu colega olhava para mim de soslaio, sorrindo, e a dizer "It ain't gonna happen!" Eu repsondo que o que ele faz com aquilo é problema dele; o meu é deixar o meu trabalho em ordem. É apenas uma maneira de gerir o meu nível de stress.

Por falar em nível de stress, tenho tendência para a paranóia e pensar no que corre mal. Por exemplo, ontem ao jantar deixei instruções com uma amiga do que fazer se eu morrer e o meu cão ficar no hotel de cães órfão. Ai, era por isto que eu não queria ter mais cães. É que com a idade, não é só o gene português que anda avariado, é tudo o resto que me compõe, mas uma coisa que funciona cada vez melhor é a profunda necessidade de controlar tudo.

Talvez para me redimir das minhas obsessões, cultivo também o papel de controladora falhada, pois ainda não fiz os impostos, o prazo termina no dia 15, e não estou em casa. Vou ter de submeter um pedido de extensão do prazo, mas é preciso saber quanto me retiveram na fonte e depois fazer uma estimativa de quanto devo. Ontem não encontrei o formulário W2 que contém o total de rendimento e retenções.

Outra coisa que ainda funciona bem é o facto de me recordar com bastante lucidez que guardei o dito, como sempre faço todos os anos. Se calhar, quando chegar à idade do Prof. Cavaco--79 anitos, que num homem em Portugal é muita fruta, então a esperança média de vida em 1960 dos homens nem chegava a 61 anos -- já nem disso, que aconteceu há menos de 3 meses, me lembro. Mas tenho uma boa desculpa: mudei de casa, disso lembro-me bem.

No aeroporto, quase que fui a última a embarcar no avião porque devia ter saído de casa mais cedo. O ideal teria sido acordar às 3:30, mas, pronto, não correu mal. Já não me recordava a última vez que tinha viajado na American Airlines e nunca o tinha feito de Memphis, ou seja, não fazia ideia onde ficavam as portas de embarque. Se soubesse de antemão que eram ao lado das da United, teria ido pelo outro portão de segurança que é mais pequenino e aconchegante e quase que não tem gente.

Em vez disso, segui as instruções e fui pelo portão principal. Não é que me caiu o queixo quando vi tanta gente? "Fogo, é Domingo, o que é que estão a fazer no aeroporto?!? Não deviam estar a aperaltar-se para a missa? Vão todos acabar no inferno!" pensei eu, enquanto tentava imaginar promessas eficazes para não perder o avião. Desisti porque, primeiro, teria de encontrar Deus e eu não tenho paciência para a caça. Restava-me enfrentar a adversidade e, nestas alturas, o meu mote é: se é para falhar, falhas dando o teu melhor.

Correu tudo bem e eu até parecia uma máquina viajante bem oleada, em vez de uma mãe de cão à beira de um ataque de nervos. Não faço ideia como é que as pessoas com filhos os deixam crescer, ficar independentes, e tal, porque eu duvido que conseguisse e, no entanto, acho mal quando os pais não ensinam os filhos a ser independentes. Por exemplo, na preparação da minha viagem, tentei arranjar alguém para ficar lá em casa com o meu cão, mas a rapariga a quem perguntei disse-me que eu vivia muito longe e ela achava que não conseguia dar conta do recado porque ia gastar muito em gasolina. Ela ainda vive com a mãe e o normal é os alunos sairem de casa para a faculdade.

Ofereci $350 por duas semanas e ia deixar-lhe $100 extra se ela precisasse de levar o Julian à creche (custa $16 por visita até seis horas), caso não tivesse oportunidade de ir a casa algum dia. Depois de ela dizer que não estava inclinada para aceitar, disse-lhe que, se ela quisesse ficar com o namorado lá, eu não me opunha. Ou seja, por duas semanas, tinha de fazer como se vivesse em minha casa e fazer de conta que o meu cão era o dela. Recusou sem fazer contra-oferta que, nos EUA, é completamente estranho, pois gostam muito de negociar. E não achei assim tão pouco dinheiro, pois é metade de uma renda de um apartamento em algumas zonas.

Essa moça anda na faculdade a tirar o curso de psicologia. A primeira vez que a conheci, achei-a normal; bem, nem lhe liguei muito, mas pareceu-me uma pessoa competente. Na segunda vez, em casa de uma amiga comum, onde eu, ela, e a mãe tinhamos ido jantar, descubro que ela tem uma fobia qualquer e não consegue comer em público, nem sequer em frente do namorado. Não é um problema muito sério, diz ela, e quando foi ao psicólogo achou melhor focar-se nas questões que tem com o pai. Apeteceu-me descompor a mãe por estar ali serena a ouvir isto e não ter noção das implicações que aquilo tinha para a filha, mas trinquei a língua e pensei em campos verdejantes.

Quando vim para os EUA, uma das coisas mais interessantes que observei foi que, na universidade, uma das actividades organizadas era ensinar os alunos a comer de faca e garfo, mas era uma coisa voluntária, ia quem queria. O objectivo era prepará-los para as entrevistas de emprego que muitas vezes envolvem almoços ou jantares de negócios. É claro que abrangendo o corpo estudantil uma grande diversidade social e étnica, muitos alunos estariam em desvantagem em situações que envolvam etiqueta à mesa, daí a necessidade de uma workshop deste tipo.

É tão óbvio, que muitas pessoas descuram este aspecto da preparação dos jovens; mas por muito bom que seja o elevador social, não adianta grande coisa a quem é entrevado e não consegue lá entrar. Ah, apanharam-me, confesso que o meu plano maquiavélico era apanhar a rapariga sozinha e explicar-lhe como funciona a América, dizer-lhe que era importante que ela falhasse naquele aspecto da sua vida, mas também falhei. A nossa amiga comum, que tinha achado ser uma óptima ideia oferecer-lhe esta oportunidade, até porque ela e a mãe vivem uma vida bastante frugal, ficou como eu, sem compreender o que se passa na cabeça desta jovem, que é incapaz de fazer um sacrifício temporário para ganhar algum dinheiro extra.

Mas ela não é única; há muitas pessoas assim e não se consegue ajudar quem não se ajuda a si próprio. Felizmente tenho sorte por não ser assim e a sorte é tanta que quando cheguei ao meu destino fui passear com uma amiga e um pássaro fez caca em cima de mim. Ah, pá, desta promessa eu não me tinha lembrado. Só pode ser sorte, portanto!



sexta-feira, 5 de abril de 2019

Cabeças pensantes, népia

Vou correr o risco de parecer que estou a defender o indefensável, como me dizem frequentemente, mas o meu objectivo não é tanto defender, mas usar alguns conhecimentos de história e estatística para enquadrar o problema. Então cá vai: acho completamente idiota estarem a comparar o nepotismo do Governo de Cavaco Silva com o de António Costa.

Não é que eu seja a favor de nepotismo, mas somente em 1986 é que a escolaridade mínima em Portugal atingiu o nono ano de escolaridade. A geração dos meus pais, que é a geração de Cavaco Silva, só precisava de ter o exame da quarta classe. Cavaco Silva formou governo no final de 1985, com uma população bàsicamente analfabeta, não tinha muito por onde escolher.

Ou seja, não me choca--notem que digo que não me choca; não digo que acho bem--que tivesse sido preciso recorrer a familiares naquela altura, pois o número de pessoas com nível de educação superior era baixo e ainda por cima casavam-se uns com os outros. Mesmo assim, a comunicação social, em especial o Independente, criticou Cavaco Silva pela prática.

Agora, passámos os últimos 30 anos a gastar fortunas a educar a população, a incentivar pessoas a ir para a faculdade, até nos dizem que temos a geração mais educada de sempre, logo, já não se justifica ter de se recorrer a maridos, esposas, primos, cães, gatos, etc.

Ainda por cima, com todas as facilidades que temos hoje em adquirir informação, demorámos quase quatro anos a descobrir e a decidir que se calhar não era boa ideia. E nem o PCP, nem o BE acharam mal.

Temos canudos, mas não temos cabeças pensantes...

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Eles e elas

Passei as últimas semanas a trabalhar num texto para a Capital Mag, que foi publicado hoje. O texto é sobre o papel das mulheres na política portuguesa, mas gostaria de deixar mais umas ideias acerca da forma como nós interagimos com homens fora da esfera pessoal.

Como mulher que há mais de 20 anos convive profissionalmente numa área de homens, estou bastante agradecida aos muitos homens que me treinaram. A única forma de nós sermos boas profissionais é sermos treinadas por bons profissionais. Se a profissão é liderada por homens, então o nosso sucesso depende deles. Quanto mais depressa assumirmos isto, mais depressa subimos na profissão.

Não pensem que as quotas são tudo porque quando há poucas mulheres, o fracasso de uma tem muito mais peso na forma como a sociedade vê as restantes do que o fracasso de um homem. As quotas só fazem sentido se há mulheres competentes para assumir os cargos; se é para selecionar mulheres incompetentes, não nos ajuda. Posto isto, as quotas não podem ser só no topo, têm de começar nos níveis profissionais mais baixos para as mulheres poderem progredir na carreira.

Uma mulher competente sabe o papel que tem na sociedade e sabe que o sucesso da próxima geração depende do seu esforço pessoal e da impressão que dá. Eu sei que não é justo que elas tenham de sentir que têm de ser melhores e mais responsáveis do que eles, mas de todas as injustiças que há no mundo, esta é mais parecida com um privilégio: afinal, temos oportunidade de singrar numa área que escolhemos por vontade própria. Foi por isto que muitas mulheres e homens lutaram, há que honrar o seu esforço.

domingo, 31 de março de 2019

O mundo material


Os virgens e a Madonna

Com este episódio do cavalo, ganhei mais respeito pela Madonna e perdi respeito pelos portugueses. Em pouco tempo, a Madonna ilustrou exactamente como Portugal funciona: nuns sítios predomina o favorzinho a qualquer custo, noutros o desfavor; os critérios são completamente aleatórios e ao sabor dos autarcas. Eis Portugal no seu melhor.

Lamento informar os meus caríssimos conterrâneos que tudo tem um preço, mas a decisão de o pagar é que não é sempre afirmativa. É óbvio que a Madonna não iria achar piada a que lhe dissessem "Não", invocando as razões que foram invocadas e da forma como foi feito. Reparem que em "Like a Virgin", vídeo filmado em Veneza em 1984, numa altura em que a artista não tinha o estatuto que tem hoje, há um leão "à solta".

Se querem atrair investimento internacional, têm de aprender a trabalhar com o mínimo de profissionalismo. É legítimo que achem que o risco de levar um cavalo para um palácio é elevado, mas expliquem o vosso ponto de vista de forma a que as pessoas vos entendam, ou seja, metam um preço na coisa. Digam que querem que a equipa da Madonna apresente pareceres técnicos reconhecidos internacionalmente de que a actividade em questão não irá causar danos. Depois exijam que ela obtenha um seguro que cubra todos os danos que possam acontecer, deixando a propriedade em condição semelhante à encontrada. Digam também que querem ver o orçamento de obras em caso de danos tipo "worst case scenario" e querem que tais obras envolvam especialistas de renome internacional e materiais de qualidade equivalente à que tem a propriedade.

Obviamente, se o custo da actividade for muito elevado, a seguradora irá dizer não a Madonna. Se o risco for comportável, todos os cuidados serão tidos para que os danos sejam minimizados. Que eu saiba, a Madonna não é conhecida por destruir propriedades a seu bel prazer, logo do ponto de vista dela a forma como agiram é basicamente um insulto pessoal porque não há fundamento técnico, apenas impressões pessoais.

E agora vamos lá a ver quantos palácio não andam por aí a cair aos pedaços sem a ajuda de Madonna e as virgens ofendidas de Portugal andam aí a engonhar, a eleger políticos que mantêm o país estagnado, sem que se crie riqueza para os manter...

Adenda: Outro aspecto a considerar com o cavalo e a Madonna é a segurança da artista. Imagine-se que o chão efectivamente se partia e a artista se magoava. Quem era responsável? O dono da propriedade. Ainda bem que o Basílio Horta disse não, não é? Não, não é, porque ele disse não porque lhe deu na telha. Podia ser uma pessoa que lhe desse para dizer sim, como foi o caso de Fernando Medina com o estacionamento em Lisboa. E duvido que, se he dissessem sim, incluíssem uma cláusula no contrato a dizer que se desresponsabilizavam de todos os acidentes que acontecessem a Madonna enquanto na propriedade.

Ter Madonna em Portugal é um enorme risco porque se lhe acontece alguma coisa, ela mete um processo em tribunal por danos e convenhamos que ela vale muito dinheiro. Imaginem que ela acaba em frente de juizes tipo Neto de Moura et al. como vítima. Ia ser giro, ia...

Portugal não é um país preparado para assumir este tipo de risco, nem sequer os responsáveis se apercebem que têm de se precaver contra os mesmos. As coisas não correm pior porque a probabilidade de desastres é baixa por definição, mas a lei dos grandes números não perdoa.






sábado, 30 de março de 2019

Uma lamparina sff

Enviaram-me o esclarecimento do Professor Marcelo -- que por sinal é o nosso ilustre PR -- a propósito dos conflitos de interesse do executivo e eu, na minha ingenuidade, pensei que ele nos ia explicar porque raio não puxa as orelhas ao Primeiro Ministro. Não é ele o guardião da Constituição da República Portuguesa, a tal que diz que "Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária."

Como é que o artigo primeiro -- e outros haverá, decerto -- da CRP é compatível com um governo que selecciona pessoas com base em laços familiares? Serão esses critérios normais numa sociedade que se diz "livre, justa, e solidária"? A mim parece-me algo mais parecido com o que se pratica na Máfia, que tem critérios de justiça diferentes do que se querem em sociedades saudáveis.

Afinal, o dito esclarecimento era em defesa própria, a dizer que não tinha sido favorecido pela família. Nós já tínhamos reparado que o MRS tinha sido elegido por voto popular com maioria absoluta, não por predilecção do PM António Costa, mas parece que o próprio MRS, que frequentemente é denotado como um génio da política, ainda não tinha reparado.

Das duas uma: ou Marcelo Rebelo de Sousa sofre do Síndrome de Asperger ou é profundamente incompetente. Génio não é, mas que apetece dar-lhe uma lamparina, apetece...



quinta-feira, 28 de março de 2019

Que estranha forma de vida

Não sei qual é mais estranho: que António Costa achasse que ninguém se importaria com os laços familiares dentro do executivo ou que só se tenha descoberto agora que havia coisas menos recomendáveis neste governo, que até tinha muita gente em comum com os governos de José Sócrates. Como diz o povo: à primeira caem todos, à segunda cai quem quer.

quarta-feira, 27 de março de 2019

O desaparecimento de Madeleine McCann

“The Disappearance of Madeleine McCann” é um polémico documentário da Netflix. A história é conhecida. A 3 de maio de 2007, Madeleine, uma menina inglesa de três anos, desapareceu. Os pais, Gerry e Kate McCann, estavam a jantar, com um grupo de casais amigos, desde as 20h30, num restaurante de Tapas do resort Ocean Club, na Praia da Luz (Portimão). De acordo com os testemunhos, de 20 em 20 minutos, alguém do grupo dava uma vista de olhos pelos diferentes miúdos deixados sozinhos a dormir. Era uma rotina que seguiam há uma semana.  Às 21h30, foi declarado o desaparecimento. As autoridades policiais chegariam ao local horas depois. Passaram quase 12 anos e o mistério continua. Não acredito na tese, defendida, desde quase o início, pelo inspector Gonçalo Amaral de que foram os pais que, por acidente ao sedá-la (os pais sempre negaram que sedassem os filhos), mataram a filha e depois encenaram um rapto.
Verdade que, aqui e acolá, transparece no documentário um certo desprezo e paternalismo dos ingleses em relação aos portugueses - somos pobres, os polícias andavam mal-vestidos, eram poucos profissionais, gostavam era de grandes almoçaradas, como, aliás, logo à época vários jornais britânicos acusaram. Acho até que têm razão nalgumas críticas aos métodos da Polícia Judiciária, que nós, na altura, gostávamos de acreditar que era a melhor do mundo - sempre achei uma treta sem pés na cabeça a tese de que os portugueses têm falta de auto-estima; nós somos "os melhores do mundo", como não se cansa de dizer o nosso querido e muito amado "Presidente dos afectos".

Dito isto, passado todo este tempo, continuam a chocar-me algumas coisas. Como é que os pais deixaram três crianças com menos de três anos a dormir sozinhas num quarto, enquanto jantavam tranquilamente num restaurante a dezenas de metros de distância? Pelos vistos, é uma prática normal entre os britânicos. Não há volta a dar. Este é um comportamento considerado bárbaro pelos nossos padrões, e ainda bem. Segundo, impressiona-me o impulso dos pais - um casal de médicos de Leicester - de chamar de imediato a comunicação social - ao que parece, antes de chamarem as próprias entidades policiais. Há muito a dizer sobre isto. Parece-me, antes de mais, um sinal de uma sociedade corrompida durante muito tempo por um jornalismo tablóide e por uma classe política rendida ao espectáculo e aos faits-divers – eram os anos áureos de Tony Blair e do seu amigo Rupert Murdoch. Quem se envolve com os media está a enfiar a cabeça na boca de um tigre com dentes bem afiados. Os heróis passam a vilões num piscar de olhos. Apresentados numa primeira fase como vítimas pela comunicação social, os McCann rapidamente foram vilipendiados e achincalhados por meio mundo. Por azar, esta tragédia coincidiu com o advento das redes sociais, onde os trolls puderam aliviar-se de todo o seu ódio em cima do casal. Hoje, os McCann devem estar arrependidos dessa imprudência. Ainda por cima. em vez de ajudar, os media podem antes ter - nalgumas fases, pelo menos - prejudicado a investigação.
Entretanto, os McCann processaram vários órgãos de comunicação social e apelaram a um debate sobre o papel dos media na sociedade. Há 100 anos, o jornalista e analista norte-americano Walter Lippmann explicou que os jornalistas se interessam por aquilo que acham que interessa ao seu público. Neste particular, nada mudou. O público quer boas histórias, e não se pode desiludir o público.