Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
2012
Os autores d'A Destreza das Dúvidas desejam a todos os seus leitores um próspero ano de 2012.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Ficar (em casa) ou partir para bem longe
As empresas estão asfixiadas com impostos e burocracia. Os bancos não têm dinheiro. O Estado é um buraco negro.
Nada disto parece incomodar quem anda por aí a exigir crescimento económico. Como se fosse possível uma economia crescer quando não há dinheiro para investir. Esta gente não vive neste mundo.
Posto isto, vejo duas opções racionais para os portugueses em 2012. Ficar em casa a poupar, esperando que a tempestade passe. Ou partir para bem longe (da Europa), fugindo ao empobrecimento a que Portugal está condenado nos próximos tempos.
Céus empestados
Garanto que se fosse mais novo e mais rico do que desgraçadamente sou, emigrava já hoje para a América. Não por cobardia – pois os tempos não podem prejudicar-me pessoalmente mais do eu a eles – mas por uma aversão avassaladora à podridão moral que, para empregar a frase de Shakespeare, empesta os céus.
O poeta Joseph von Eichendorff a um correspondente, 1 de Agosto de 1849 (reproduzido em A Era do Capital de E. J. Hobsbawn)
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
À beira de um ataque de nervos
O Álvaro está mortinho por revolucionar Portugal. Já perdi a conta ao número de vezes que anunciou a revolução ou, mais modestamente, reformas estruturais. A última foi à saída de mais uma reunião da concertação social.
Existe uma “urgência da competitividade” e uma “urgência de reformar” porque Portugal não pode esperar mais e “estamos a chegar a um momento da verdade”, explica-nos, pela 1 437.ª vez, o Álvaro.
A tensão aumenta, o suspense adensa-se, o “momento da verdade” aproxima-se, não podemos esperar mais. Qual é afinal a ideia: reformar Portugal ou dar-nos cabo dos nervos?
Existe uma “urgência da competitividade” e uma “urgência de reformar” porque Portugal não pode esperar mais e “estamos a chegar a um momento da verdade”, explica-nos, pela 1 437.ª vez, o Álvaro.
A tensão aumenta, o suspense adensa-se, o “momento da verdade” aproxima-se, não podemos esperar mais. Qual é afinal a ideia: reformar Portugal ou dar-nos cabo dos nervos?
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
A energia não tem pátria
Afinal, de nada serviram as “cunhas” da Sra. Merkel. Os chineses ficam com 21,35% da EDP.
A Three Gorges vai pagar pela fatia a módica quantia de 2,69 mil milhões de euros.
Estou-me nas tintas se os chineses passam a mandar na EDP. O capital não tem pátria. Marx explica.
A Three Gorges vai pagar pela fatia a módica quantia de 2,69 mil milhões de euros.
Estou-me nas tintas se os chineses passam a mandar na EDP. O capital não tem pátria. Marx explica.
Antiamericanismo
Não sei donde vem o antiamericanismo e, sobretudo, a ideia abstrusa de que os americanos são uma cambada de ignorantes. Nunca percebi como é que uma cambada de ignorantes pode ser acusada de criar uma “cultura global”. É um bocadinho contraditório, não?
Na Europa, estas “ideias” aparecem hoje mais associadas à esquerda. Em abono da verdade, boa parte da direita sempre partilhou este tipo de preconceitos. Em 1941, escrevia João Ameal, um historiador e importante intelectual orgânico do salazarismo:
“Quando oiço apregoar com admiração as virtudes americanas, tenho um arrepio”. “Tenho pouco apreço por aquela gente e a sua civilização. Deu-me sempre a impressão de um grande bando de selvagens na posse de inventos extraordinários.”
Isto faz algum sentido? Como é que um “bando de selvagens” pode conceber “inventos extraordinários?
Também não é para entender. O antiamericanismo, na Europa, teve sempre pouco a ver com a razão.
A decrepitude da Europa segundo J. S. Silva Dias
Na sequência do post anterior, deixo aqui um naco de prosa do então jovem Silva Dias sobre o velho (novo) problema da decrepitude da Europa:
A Europa “está condenada a deixar de ser a cabeça política do universo” porque “ deixou de ser o centro económico do mundo e este se dividiu ou tende a dividir-se em grandes espaços”. “A Europa era o Ocidente e o Ocidente afigura-se uma noção cultural que emigrou”. (O Problema da Europa, 1945)
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
É como aprender a nadar
Li algures uma história contada por Amadeu Carvalho de Homem sobre o seu “mestre” Silva Dias (1916-1994).
Estava Carvalho Homem a dar os seus primeiros passos como investigador e sentia-se “impotente”, não havendo “meio de sair um artigo digno de tal nome”. Decidiu então, desesperado, pedir ajuda ao mestre, tendo-lhe perguntado: “Numa palavra, como é que se investiga, senhor Doutor?”. O sábio respondeu: “Ora essa, Carvalho Homem; saber investigar é como aprender a nadar. A pessoa lança-se à água e esbraceja, esbraceja, até lhe apanhar o jeito. Quando tal acontece, essa pessoa fica a saber nadar.”
Meio aturdido, Carvalho Homem insistiu: “E se a pessoa esbracejar, esbracejar, voltar a esbracejar, e mesmo assim não aprender a nadar?”. A réplica de Silva Dias foi taxativa: “Se não aprender a nadar, não há novidade. Afoga-se. Tem a sorte que merece, não acha?”
Estava Carvalho Homem a dar os seus primeiros passos como investigador e sentia-se “impotente”, não havendo “meio de sair um artigo digno de tal nome”. Decidiu então, desesperado, pedir ajuda ao mestre, tendo-lhe perguntado: “Numa palavra, como é que se investiga, senhor Doutor?”. O sábio respondeu: “Ora essa, Carvalho Homem; saber investigar é como aprender a nadar. A pessoa lança-se à água e esbraceja, esbraceja, até lhe apanhar o jeito. Quando tal acontece, essa pessoa fica a saber nadar.”
Meio aturdido, Carvalho Homem insistiu: “E se a pessoa esbracejar, esbracejar, voltar a esbracejar, e mesmo assim não aprender a nadar?”. A réplica de Silva Dias foi taxativa: “Se não aprender a nadar, não há novidade. Afoga-se. Tem a sorte que merece, não acha?”
Como podemos ser felizes?
Numa festa, toda a gente dança e se diverte, menos um socialista revolucionário, cabisbaixo, Isolado num canto. Uma rapariga aproxima-se e pergunta-lhe se ele não se quer juntar ao grupo. E, com o ar mais sério do mundo, o homem responde: como posso eu ser feliz se a Polónia sofre? Lembro-me de ler esta cena num dos livros do Eça de Queiroz – penso que em A Capital.
Certas personagens da vida pública nacional sugerem-me o socialista revolucionário do Eça, em especial o Francisco Louça. Louçã parece carregar todas as desgraças do universo. E sofre. Sofre muito. Coitado.
Strauss-Kahn sem taras
Taras sexuais à parte, Dominique Strauss-Kahn até parece um tipo sensato.
Uma empresa chinesa de internet, com certeza pouco impressionada com as façanhas sexuais do homem, convidou-o para falar de economia. E o Dominique não desiludiu. Comparou o euro a uma jangada à deriva – reparem bem na metáfora: uma jangada, o mais frágil dos transportes marítimos.
Isto vindo do ex-director do FMI é bem capaz de ter deixado algumas pernas a tremer. A começar pelas da Sra. Merkel.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
O único gordo num país de famélicos
Morreu o “Querido Líder”, Kim Jong-il, filho de Kim Il Sung, o fundador da pátria.
Relata-nos a imprensa que milhares de norte-coreanos choram a morte do “Querido líder”. São, claro, lágrimas de crocodilo. Mais vale chorar do que ir parar ao gulag. E motivos não lhes faltam para chorar copiosamente.
Sucede-lhe o seu filho Kim Jong-un. Ninguém sabia da sua existência até há um ano. Foi apresentado ao mundo como o “Comandante brilhante”. Prefiro o título que outros lhe concederam: “o único gordo num país de famélicos”. Parece-me mais ajustado à realidade da Coreia do Norte, um país sobre o qual Bernardino Soares tinha dúvidas de que não fosse uma democracia. Lembram-se? Será que o Bernardino também chorou?
A Rihanna não nos conhece
Um dos mitos nacionais é que não somos um povo racista, ao contrário de espanhóis, ingleses, franceses, alemães, etc. Não vou agora discutir isso, que, diga-se de passagem, não me parece ter qualquer sustentação histórica ou empírica.
Mas episódios como este com a pop star Rihanna num hotel em Lisboa não ajudam nada a vender lá fora essa imagem que temos de nós mesmos. E logo agora que precisamos tanto dos nossos amigos angolanos.
Bem, pode ser que o “cabrão racista” não seja português. Infelizmente, a notícia não específica.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Vacas sagradas
Poucos animais despertarão tantos orgulhos nacionais e regionais como as vacas. É como se cada
povo se quisesse afirmar pela sua vaca. E a verdade é que este orgulho pela
vaca atravessa continentes. Na América do Norte, a vaca é tão importante que os
vaqueiros se tornaram figuras míticas do cinema, os famosos cowboys, cheios de sex appeal e de outras qualidades invejáveis.
Na América Latina, quer
os argentinos quer os brasileiros têm a mania de que as suas vacas são as
melhores do mundo. Quando, há dois ou três anos, visitei a Austrália,
verifiquei que também os australianos consideravam as suas vacas melhores do
que as outras. Chegava-se ao ponto de as embalagens dos hambúrgueres do McDonald’s
trazerem uma garantia, certificada com fotografia do rancheiro, de que a carne bovina
era 100% australiana. Agora, de visita de trabalho a Londres, descubro que
também os ingleses exibem em diversos restaurantes o orgulho de confeccionarem os
seus pratos com vaca 100% inglesa. Quase que nos esquecemos que as vacas loucas
nasceram aqui.
Mas os portugueses não ficam
atrás neste orgulho. Qualquer pessoa que vá ao Minho é obrigado a comer uma
posta barrosã. Temos um presidente que exalta, com orgulho, o sorriso das vacas
açorianas. Mas, nos Açores, este sentimento de orgulho pela vaca não é universal.
Na ilha Terceira era costume dizer que só havia vantagens em ter os americanos
na Base das Lages. Diziam os terceirenses que os americanos só tinham trazido
coisas boas para a ilha. E, como bónus, tinham levado as vacas lá com eles para
América. Enfim, umas más-línguas. Razão têm os indianos, que sacralizaram as suas vacas.
É a política...
Volta e meia lá temos de ouvir aquela frase estafada: “os portugueses são um povo que não se governa nem se deixa governar”, ou coisa que o valha, atribuída a um romano qualquer, referindo-se o homem provavelmente aos lusitanos, uma vez que o Afonso Henriques ainda não tinha nascido.
Não saberão estes sábios que existem frases do mesmo género em muitos outros países? Lamento, mas não somos assim tão especiais.
Dá-me impressão é que esta gente não se dá muito bem com a coexistência de diferentes ideias, visões, projectos e vontades sobre como se deve organizar o país – um dos sentidos de “polis” que vem dos gregos. E como, em cada comunidade ou sociedade, existem pessoas e grupos com diferentes perspectivas, é inevitável a luta pelo poder.
A isto chama-se política - no sentido que lhe dava, por exemplo, Max Weber - e, por isso, esqueçam lá o dito romano.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
A ver navios
Os povos da Polinésia, adeptos dos “cultos da carga”, construíam faróis a fingir pensando que assim atrairiam navios carregados de mercadorias.
Em Portugal, também construímos um aeroporto a pensar nos aviões que aterrariam; auto-estradas (sem custos para o utilizador) para os carros que passariam; maternidades para os bebes que nasceriam; parques industriais para empresas que investiriam, etc. Ficámos, quase sempre, a ver navios.
Há quem pense que a solução é fazer mais faróis e os navios acabarão por vir. No fundo, se não estou a ver mal, é isto que anda a pedir a maioria dos fiéis do “culto do crescimento económico”: faróis. É uma questão de fé e, portanto, temos de respeitar.
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