Uma canção escrita no início dos anos mais negros da ditadura militar que os brasileiros tiveram de sofrer. Sofreu também um pequeno golpe da censura, o que a torna ainda mais simbólica. Uma boa canção para ouvir no dia de 25 de Abril.
Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
domingo, 22 de abril de 2012
Poupem-me
O governo afinal não sabe o que
quer sobre o futuro da segurança social e do sistema de pensões em particular. Segundo
consta, o PSD mandou calar o ministro Mota Soares e a putativa reforma vai, de
acordo com a última versão, ser gradual e lenta.
Há vários modelos possíveis para
gerir as pensões e, sinceramente, não sei qual é o melhor. Sei, no entanto, que
seria um desastre se o Estado entregasse por completo a gestão das pensões aos
privados ou até se reduzisse a segurança social a uma dimensão simbólica. Por
um motivo óbvio: é enorme a ignorância das pessoas em relação ao
dinheiro.
Ainda hoje ouvimos os mais velhos
dizerem que nos anos 1980 é que valia a pena pôr o dinheiro no banco porque as
taxas de juro dos depósitos rondavam os 20%. Não percebem que se fartaram de
perder dinheiro, dado que a inflação se aproximava dos 30%. Não conheço estudos nacionais
sobre o nível de instrução financeira das gerações mais jovens, mas não acredito
que tenha havido melhorias nessa matéria. Quantos saberão distinguir taxa de
juro real de nominal? E presumo que só um número muito restrito de pessoas
saberá explicar, por exemplo, a diferença entre uma opção put e uma opção call
ou a diferença entre um CDO e um CDS.
De facto, estudos realizados
noutros países (como, por exemplo, nos EUA e Reino Unido) revelam que uma parte
substancial dos cidadãos é ignorante no que respeita a finanças – por exemplo, em
2006, de acordo com um estudo da British Finantial Services Authority,
um em cada dez britânicos não sabia qual era o melhor desconto para uma televisão
de £
250: 10% ou £ 30.
Numa palavra, uma sociedade que
deixa cada pessoa escolher livremente quanto deve poupar para a reforma está,
sem dúvida, a arranjar uma carga de problemas e sarilhos para o futuro.
terça-feira, 17 de abril de 2012
O perigo das teorias raciais
A noção da identidade racial imutável nasceu relativamente tarde na História da Humanidade. Quando a Espanha expulsou os judeus em 1492, fê-lo seguindo um argumento inédito até então, atribuindo a judaicidade ao sangue e não a uma crença. É sabido que a primeira tentativa científica para identificar raças biologicamente diferentes pertence ao botânico sueco Lineu. Em 1758, identificou quatro raças distintas: Homo sapiens americanus, Homo sapiens asiaticus, Homo sapiens afer e Homo sapiens europeus. O homem europeu surgia no topo da evolução e o homem africano na base.
No século XIX, os teóricos raciais já usavam métodos mais elaborados de categorização, normalmente baseados no tamanho e formato do crânio. Por exemplo, em 1869, Francis Galton, conhecido por ter lançado as bases da disciplina que ele batizou de eugenia – a utilização do acasalamento selectivo para melhorar o património genético humano – criou uma escala de 16 pontos para medir a inteligência racial.
Esta concepção muito particular da biologia já se tinha espalhado por todo o lado no início do século XX.
Em 1913, escreveu o Dr. Eugen Fischer, um dos muitos cientistas alemães interessados pelo campo dos estudos da raça:
Temos a certeza absoluta do seguinte: qualquer povo europeu, sem excepção (…) que absorveu o sangue de raças menos valiosas – e só um fanático poderia negar que os pretos, os Hotentores e muitos outros são menos valiosos (do que os brancos) – pagou esta absorção com a sua queda espiritual (e) cultural. (cit. in Niall Ferguson, Civilização, o ocidente e os outros)
Depois de passar dois meses em África a medir dos pés à cabeça mestiços, Fischer concluiu que os “bastardos” eram racialmente superiores aos negros mas inferiores aos brancos puros. Talvez pudessem por consequência ter alguma utilidade social como polícias ou funcionários menores - mas isso seria o máximo que as suas capacidades permitiriam.
A teoria racial serviu para justificar desigualdades evidentes na América e na África do sul sob a forma de apartheid. O racismo não era considerado então uma ideologia reacionária, era uma teoria “científica”, abraçada com entusiasmo pelo povo. Só na segunda metade do século XX ficou provado que as diferenças entre raças são geneticamente pequenas e que as variações dentro das raças são bastante grandes.
Infelizmente, o problema parece não estar ainda resolvido. Há dias, escreveu o Filipe Faria no Insurgente:
Claro que o senso comum sabe que as raças existem (ninguém confundirá um Bantu com um Escandinavo), mas a ciência também o sabe, como atesta o facto de ser possível identificar a raça de qualquer pessoa através de uma amostra de ADN ou simplesmente através da análise de crânios.
Filipe Faria vai mais longe. Ele parece estar convencido de que as desigualdades são inerentes às sociedades multi-raciais:
Não é de surpreender por isso que as sociedades multi-raciais tendem a ser sociedades com desigualdades acentuadas pois a cooperação é feita essencialmente dentro dos grupos/tribos étnicas.
Mais surpreendente ainda: O Filipe Faria parece acreditar na superioridade racial do homem branco. Senão vejamos:
Tal como na Índia em relação à cor de pele, encontramos genericamente no Brasil os brancos e Japoneses no topo da escala económica, com os híbridos (mulatos e mestiços) no meio e os negros na base (como documentou o Prof. Edward Telles da Uni. Princeton).
Tal não significa que minorias como os Japoneses não tenham tanto ou mais sucesso que os brancos brasileiros, que, aliás, é mesmo o que acontece. Isto revela que, apesar de ser um factor presente, o insucesso sócio-económico não pode ser imputado ao racismo como causa principal mas sim às escolhas que cada indivíduo faz na sua comunidade.
Reparem bem: os brancos e os japoneses (são uma raça à parte?) estão no topo da pirâmide social, os híbridos (incluem com certeza as mil e uma combinações de raças) no meio e os negros (pertencem à mesma raça dos negros de África ou dos EUA?) na base.
Em suma, os negros - uma raça supostamente inferior - estão condenados a rastejar no sopé da pirâmide porque, coitados, são vítimas das suas próprias escolhas, ou melhor, dos seus genes.
E pergunto eu: a escravatura por acaso foi uma escolha dos negros? E as políticas e práticas de segregação que se seguiram ao fim da escravatura em 1888 no Brasil foram uma escolha de quem? Dos negros? Não me parece. Vendo bem, temos aqui, passados cem anos, as mesmas conclusões do Dr. Eugen Fischer, ainda que travestidas com novas roupagens científicas.
O Filipe Faria está a ver o problema de pernas para o ar. São as teorias raciais que criam e, pior ainda, institucionalizam as desigualdades e não as supostas diferenças genéticas entre raças. Trata-se essencialmente de uma questão cultural ou civilizacional e não de um problema de genes.
A raça – que ninguém sabe onde começa e acaba, como o Filipe Faria aliás reconhece – não é um conceito genético significativo e, por isso, as teorias raciais não nos levam a lado nenhum. Ou melhor, como demonstra sobejamente a história, levam à discriminação, segregação, expulsão e, em casos mais extremos, aniquilação, sendo a “solução final” nacional-socialista para a “questão judaica” o exemplo mais paradigmático.
As teorias raciais foram, a par do comunismo, as exportações mais mortíferas da civilização ocidental.
Alternativas não sistematizadas
O Fernando Alexandre teve uma boa prestação no Prós e Contras. Tentou introduzir alguns dados concretos, desconhecidos do cidadão comum, nomeadamente sobre a sustentabilidade da segurança social, e que poderiam ter servido de base para um debate sério. Infelizmente, os seus "oponentes" não se deixaram comover com os números apresentados, preferindo passar por cima deles ou embarcar em lirismos inconsequentes. Nesse sentido, gostei especialmente das “alternativas não sistematizadas” do José Neves. Alternativas, presumo, em construção, em curso, inacabadas, com necessidade de retoques, aprofundamentos, debates, negociações, luta e, no fim do processo, quem sabe, far-se-á luz. Ficamos a aguardar ansiosamente pela sistematização.
Se os economistas têm hoje um ascendente tão grande no debate público, a culpa, como é evidente, não é deles. Isso acontece precisamente porque se preocupam em fazer as contas, que outros preferem ostensivamente desprezar. Grande parte das opções e prioridades definidas por uma sociedade dependem da riqueza produzida. Por outras palavras, a política começa no dinheiro.
domingo, 15 de abril de 2012
Prós e Contras
Esta segunda feira, temos o Fernando Alexandre no Prós e Contras. A não perder.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Houve festa no Parque
"A Parque Escolar foi uma grande festa para o País", disse a ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues. O problema é de quem fica para lavar a loiça.
Ou como diz o povo, "quem vai à festa, no outro dia não presta".
sábado, 7 de abril de 2012
Não podemos contar com eles
Em 1940, a Alemanha, numa ofensiva rápida, ocupou grande parte da Europa. Em 9 de Abril, a Dinamarca e a Noruega, em 15 de Maio a Holanda, a 28 de Maio a Bélgica e a 22 de Junho a França. Os nazis, ao contrário dos seus planos iniciais, não conseguiram a colaboração das autoridades locais, tendo alguns dirigentes fugido para Londres. De qualquer maneira, os nazis nunca enfrentaram grande resistência. Por exemplo, na Dinamarca bastaram 200 militares e funcionários alemães para controlar o país e na Holanda 800. A França, depois de uma derrota humilhante ao fim de apenas seis semanas de combate – tendo ficado evidente a colossal incompetência das suas chefias militares -, assinou um armistício e o marechal Pétain, ironicamente um herói da I Grande Guerra, liderou o regime colaboracionista de Vichy, tão apreciado, diga-se de passagem, por Salazar. Nem a resistência (insignificante) liderada por De Gaulle a partir de Londres consegue apagar estes factos humilhantes e embaraçosos para a França e os franceses.
Moral da história? Na hora da verdade, estes países seguem as ordens dos alemães sem hesitações. Esta deferência, como se pode verificar todos os dias, continua em larga medida a existir.
Calados era melhor
Esta semana ficou marcada pela história dos subsídios de férias e Natal. Um burocrata qualquer de Bruxelas lançou a confusão ao admitir que o corte podia tornar-se permanente. O governo reagiu, como se sabe, de forma descoordenada e entrando em contradição com afirmações recentes. O rigoroso Vitor Gaspar admitiu ter cometido um lapso, trocando os anos. Finalmente, o nosso primeiro confessou que, talvez, em 2015 os ditos cujos comecem a ser gradualmente restituídos – 20%, segundo o Expresso – ou talvez não, podendo o rendimento total passar a ser distribuído por 12 meses. Esclarecidos?
Não liguem. Nada disto é para levar a sério. Primeiro, ninguém sabe como é que estará a economia em 2015; segundo, o mais provável é ser a União Europeia a decidir. Para a semana, Passos Coelho vai assinar um pacto fiscal, no qual se oficializa o fim de quaisquer veleidades em termos de soberania orçamental.
Hoje, numa entrevista a um jornal alemão Passos manifestou dúvidas sobre a possibilidade de voltarmos aos mercados financeiros em 2013, contrariando recentes declarações de Vitor Gaspar em Nova Iorque.
Uma coisa é certa: com os elementos do governo a contradizerem-se uns aos outros e a si próprios, Portugal não recuperará tão cedo a credibilidade junto dos investidores em títulos.
Se não fazem a mínima ideia do que estão a falar, não seria mais sério e sensato estarem calados ou simplesmente dizerem a verdade?
sexta-feira, 6 de abril de 2012
No woman, do cry -- versão portuguesa
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Tão fácil prever
Em Outubro de 2011, quando foi anunciado o corte temporário dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos, muitas vozes perguntaram se esse corte era temporário ou definitivo. Uma das pessoas que, insistentemente, fez essa pergunta foi Pedro Lains. Respondi-lhe:
Pedro Lains, respondeu-me com uma pergunta: Então estão a mentir?
Ao que respondi:
Na prática estão. Em termos estritamente jurídicos não sei. Daqui a 3 anos, em vez de aumentarem os salários em 3%, repõem meio subsídio. Dois anos depois fazem o mesmo, depois novamente e novamente e novamente. Aí, formalmente, já terão repostos os dois subsídios. Depois repõem num ano metade do corte que o Teixeira dos Santos impôs e depois a outra metade. No fim disto, para aí daqui a uns 10 anos, os ordenados serão semelhantes aos de 2009, o que, na prática, corresponde a um corte permanente.
Pelos vistos, terei acertado. Passos Coelho anunciou hoje que em 2015 começaria a tal reposição gradual dos salários. Não escrevo esta entrada para dizer que tenho uma bola de cristal. Escrevo apenas para chamar a atenção de que isto tudo é tão evidente que só não vê quem não quer e só se deixa enganar quem gosta de ser enganado. Infelizmente, independentemente das parvoíces que se façam pelo caminho, quando só há um caminho não é difícil de prever qual o caminho pelo qual vamos caminhar. É uma chatice, mas é o que há. Pode ser que, no futuro, se dê mais atenção às Cassandras do regime, que, essas sim, alegam dotes adivinhatórios.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
A pirataria informática não é um roubo
A pirataria informática não só não é um roubo como contribui para que o saldo da Balança de Transacções Correntes com o estrangeiro melhore.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Os anos vão passando
Este é um bom vídeo dado que contextualiza a carga policial, mostrando os três minutos que a antecederam. É triste ver como os anos passam, mas a nossa polícia continua a besta de sempre. Começa a carga logo a espancar um jornalista. Não há como disfarçar, muitos dos nossos polícias são uns criminosos:
domingo, 25 de março de 2012
Endividamento e colapso
Niall Ferguson em Civilização, o Ocidente e os Outros relembra que os colapsos de países ou impérios são, regra geral, “precedidos de desequilíbrios agudos entre as receitas e as despesas, bem como por dificuldades de financiamento da divida pública”. São vários os exemplos adiantados pelo autor.
No século XVI, a Espanha, durante a monarquia dos Habsburgos, estava atolada em dívidas – por exemplo, em 1543, quase dois terços das receitas ordinárias destinavam-se a pagar os juros dos empréstimos, em 1559 os juros já excediam as receitas e em 1584 a situação não era muito melhor, com os juros a engolirem 84% das receitas. Verificava-se um problema semelhante nas vésperas dos Bourbons serem apeados do poder e de lhes cortarem a cabeça em 1793 na guilhotina - uma das invenções da revolução francesa de 1789. A título ilustrativo, refira-se ainda o caso do império Otomano no século XIX ou da Grã-Bretanha entre 1945 e a crise do Suez em 1956, que provou definitivamente que não podia continuar a desafiar os Estados Unidos no Médio Oriente.
Entre 2001 e 2011, a dívida federal americana passou de 32% para 66% do PIB. De acordo com projeções do Congressional Budget Office, “a dívida poderá subir acima dos 90% do PIB até 2021 e chegar aos 150% até 2031 e 300% até 2047." Pior ainda: estes números não incluem “os estimados 100 biliões de dólares de passivo não financiado do Medicare e da Segurança Social, nem incluem os défices estaduais, nem o crescente passivo dos regimes de pensões dos funcionários públicos”. Tudo somado, a posição fiscal dos EUA era pior do que a da Grécia em 2009, com um rácio dívida/receita de 312%.
Estes números são assustadores. Mas, no reino da estabilidade financeira, o papel da percepção é fundamental. Por várias razões, em 2010, Portugal, a Grécia e a Irlanda perderam a credibilidade perante os investidores em títulos. Até ao momento, os mesmos investidores continuam a acreditar na capacidade dos EUA se desenvencilharem da alhada em que se meteram. Esta complacência pode até persistir por um período bastante longo – afinal de contas, os EUA não conseguiram converter os brutais défices fiscais dos anos 1980 em superavit nos anos 1990? Para quê preocupar-se agora? O problema é que esta fé pode desaparecer de um momento para o outro. Basta uma má notícia, aparentemente irrelevante – sei lá, uma descida do rating, declarações de responsáveis chineses, enfim, ninguém sabe –, e, de repente, deixarão de ser apenas meia de dúzia de especialistas a preocuparem-se com a viabilidade da política fiscal americana. Subitamente, essa preocupação poderá alastrar a todos os americanos e, pior, aos investidores.
Niall Ferguson manifesta muitas dúvidas sobre as famosas teorias de ascensão, crescimento e queda de civilizações e impérios. Os impérios não costumam cair depois de um longo torpor, mas sim subitamente – o Império Romano desfez-se numa geração e o Soviético “caiu de um penhasco” em vez de entrar suavemente em declínio. Apesar dos historiadores gostarem de retrospetivamente apurar as múltiplas causas e determinantes de quedas e colapsos, Ferguson acredita que as civilizações, como todos os sistemas complexos, podem caminhar subitamente da estabilidade para a instabilidade: “as civilizações são sistemas complexos que mais tarde ou mais cedo sucumbem a avarias súbitas e catastróficas em vez de percorrerem um ciclo modorrento da Arcádia ao Apogeu e do Apogeu ao Armagedão”.
O elevado endividamento colocou os EUA numa posição de alto risco e a administração Obama anda a brincar com o fogo ao seguir políticas expansionistas. Niall Ferguson não se tem cansado de alertar para os perigos que isso encerra, tendo inclusive entrado em polémicas violentas com Paul Krugman. Quando se brinca com o fogo, corre-se o risco de provocar um incêndio, que neste caso teria dimensões catastróficas.
‘Thinking, Fast and Slow’ de Daniel Kahneman
Já li cerca de dois terços do livro de Daniel Kahneman. O livro é, de certa forma, uma autobiografia científica do autor. Conduz-nos ao longo de 4 décadas de investigação científica sobre a Teoria da Decisão.
O livro é denso. Não que seja difícil de ler, mas é cheio de sumo. Por exemplo, o que Malcolm Gladwell nos diz num livro inteiro, Blink, é explicado com bastante mais profundidade por Kahneman em apenas um capítulo. Apesar de pontuado com algumas pequenas histórias pessoais, em cada página é descrita pelo menos uma experiência, levada a cabo por ele ou não, bem como as suas conclusões e implicações. Kahneman tem também capacidade para mostrar que, por mais que lhes tente escapar, todos os ‘erros’ e irracionalidades que as pessoas cometem também se aplicam ao leitor. É um livro que nos faz pensar e questionar a nossa inteligência a cada página. Deve ser desesperante para quem se tem em grande conta.
As implicações da investigação de Daniel Kahneman para a teoria económica são profundas. O prémio Nobel da Economia que recebeu, o segundo entregue a um psicólogo, é de uma justiça inquestionável. Devo dizer que a forma como a investigação de Kahneman foi aceite na ciência económica deixa ficar bem a comunidade académica. O próprio autor confessa-se admirado com a facilidade com que publicou nas melhores revistas de economia (Econometrica e American Economic Review) resultados que tinham a potencialidade de abalar os alicerces da Economia. Numa época em que a academia de economistas é tantas vezes acusada de ser monolítica e de não aceitar visões heterodoxas e contributos das outras ciências, é bom verificar que não é assim. Ou, pelo menos, nem sempre. No caso de Kahneman, e como tantas vezes aconteceu, o paradigma neoclássico parece capaz de absorver e incorporar as críticas que recebe.
Independentemente destas minhas considerações sobre a comunidade académica, e que são, obviamente, discutíveis, o livro é mesmo bom e vale mesmo a pena ler. As primeiras 100 páginas são um pouco monótonas, pois visam dotar o leitor dos instrumentos teóricos que lhe permitam ter grelhas de leitura para tudo o que vem a seguir. E o que vem a seguir é fascinante. Ou não fosse Daniel Kahneman uma das pessoas que melhor percebe o funcionamento da mente humana.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Um feliz Dia do Pai
A todos os autores e leitores da Destreza com descendência desconhecida ou incógnita, desejo-vos um bom Dia do Pai.
Faço-o em nome dos vossos filhos que vocês desconhecem e em nome dos filhos que vocês conhecem, mas que chamam pai a outro.
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