segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Os recém-licenciados não qualificados

Há cerca de duas semanas atrás, propuseram-me uma teoria para explicar a razão de tanta emigração de jovens portugueses com formação universitária: as universidades portuguesas não preparam bem os jovens, estes não conseguem arranjar emprego, logo têm de emigrar. O proponente desta teoria dizia que, por as pessoas terem um curso universitário, não seria necessariamente verdade que conseguissem entrar para uma empresa e tivessem a preparação para funcionar bem na empresa. Pelo esclarecimento dele subentende-se que o tipo de qualificações das quais ele fala são as chamadas "soft skills", que eu traduzo livremente como qualificações leves. As qualificações leves são muito difíceis de ensinar dentro de uma sala de aula. Ter inteligência emocional para se relacionar com pessoas de "backgrounds" diferentes, ser prestável, saber trabalhar em grupo, sentir empatia, estar à vontade a falar em público, saber atender bem o telefone (pode parecer estranho, mas, se telefonarem para um ministério português, não se espantem se forem cumprimentados com um "'tou" em vez de um "Ministério X, aqui fala o Y, em que posso ajudá-lo?"), ter conhecimento geral para desenvolver uma conversa interessante com um cliente, patrão, etc., tudo isto são coisas que normalmente não se aprendem inteiramente na escola. Algumas delas até podemos aprender, mas só com prática e interesse por elas é que conseguimos a fluência necessária para que se tornem segunda natureza na nossa vida. (Por exemplo, quando entrevistei para o meu emprego actual a minha futura supervisora levou-me ao Menil, o Museu de Arte Moderna de Houston.)

Esta teoria peca por várias razões, sendo a mais óbvia que, mesmo se as universidades portuguesas conseguissem o milagre de formar pessoas com este tipo de qualificações leves, Portugal não tem empregos suficientes para absorver todos os jovens que se formam, logo necessariamente tem de haver aumento do desemprego ou subemprego ou saída desses jovens para outros países. Uma segunda razão é que, a meu ver, as universidades portuguesas fazem um bom trabalho a formar os jovens e a dotá-los de boas qualificações técnicas e a maneira de ser portuguesa dá-nos características que até são muito boas. Frequentemente, se vê anúncios de empresas estrangeiras que vêm a Portugal recrutar jovens porque têm características muito empregáveis: treinam-se facilmente, aprendem outras línguas com facilidade, são esforçados, não causam problemas, etc. Todas estas características são qualificações leves que são valorizadas pelos empregadores estrangeiros. Aos empregadores estrangeiros não lhes interessa que os jovens tenham a capacidade de entrar na empresa e ser como o Nescafé--instantâneos,--interessa sim que sejam como um bom pedaço de mármore bruto, que tenham o potencial de ser esculpidos de acordo com as necessidades da empresa.

Independentemente da nossa inteligência ou capacidade inata ou adquirida, todos nós que temos emprego começámos exactamente da mesma forma quando entrámos no mercado de trabalho: indivíduos sem experiência. Até Richard Feynman, que muitos consideram um dos homens mais inteligentes que já existiu, conta, num episódio entitulado "Monster Minds", no seu livro "Surely You're Joking, Mr. Feynman", da sua inexperiência e de como se sentiu quando apresentou um seminário, durante os seus tempos de "graduate student" em Princeton, a cientistas conceituados. Nesse relato, ele diz:

"I went back to Wheeler and named all the big, famous people who were coming to the talk he got me to give, and told him I was uneasy about it. [...] So I prepared the talk, and when the day came, I went in and did something that young men who have had no experience in giving talks often do—I put too many equations up on the blackboard. You see, a young fella doesn’t know how to say, “Of course, that varies inversely, and this goes this way … because everybody listening already knows; they can see it. But he doesn’t know. He can only make it come out by actually doing the algebra—and therefore the reams of equations. [...] Then the time came to give the talk, and here are these monster minds in front of me, waiting! My first technical talk—and I have this audience! I mean they would put me through the wringer! I remember very clearly seeing my hands shaking as they were pulling out my notes from a brown envelope."

Ou seja, não é uma característica exclusiva dos jovens portugueses não terem experiência quando terminam a sua formação escolar. Isto acontece em todo o lado (um à parte: este livro de Richard Feynman é um livro óptimo para os jovens lerem, especialmente os que estão à procura de emprego). Há, no entanto, algumas formas de se tentar atenuar este efeito. A este propósito, vale a pena ler este texto da Mary Alice McCarthy, em que se fala dos EUA e da Alemanha.

Nos EUA, é normal para qualquer jovem começar a trabalhar aos 16 anos em regime part-time. Isto já dá ao jovem alguma formação no sentido de trabalhar em equipa, ser organizado, ser assíduo, saber atender clientes, ter responsabilidades para com outrem, que não os membros da sua família, etc. Aqui há uns anos, ouvi Ben Bernanke, num dos seus discursos enquanto Presidente da Reserva Federal americana, falar do desemprego jovem. A preocupação dele era que os jovens americanos não estavam a adquirir formação que mais tarde seria necessária para terem sucesso no mercado de trabalho e para as empresas americanas serem competitivas. Mas, mesmo tendo empregos part-time, é muito raro que os jovens americanos tenham essa formação na área que mais tarde vão adoptar para se especializar profissionalmente. Ou seja, terminam o curso e o normal é não terem a experiência exacta para os empregos aos quais se candidatam.

Uma outra maneira de tentar minimizar o efeito da falta de experiência inicial é o modelo seguido na Alemanha, onde as empresas colaboram com as escolas e os jovens fazem estágios e módulos de aprendizagem que os preparam para empregos nessas companhias. O modelo alemão é frequentemente empregue na área de manufactura, e é uma das ideias que se sugeriu para diminuir o desemprego jovem em Portugal. Na minha opinião, estamos a iludir-nos: sem a criação de mais empregos pelas companhias portuguesas, i.e., crescimento do sector privado português, não adianta muito que os jovens portugueses sejam qualificados na maneira alemã. Adiantará mais para a Alemanha, que terá uma reserva maior de portugueses qualificados para ir trabalhar para lá. Este modelo também é usado em alguns sectores americanos, por exemplo, as empresas de Wall Street, que todos os anos vão às melhores universidades americanas à procura de estagiários e que, mais tarde, seleccionam os melhores estagiários para seguirem carreiras nas suas empresas. Quem não ouviu as histórias de Michael Lewis, acerca deste tópico? Ainda há menos de um mês atrás, ele escreveu uma peça de opinião na Bloomberg onde atacava este comportamento das grandes companhias de Wall Street. Escrevia ele, jocosamente,

"Wall Street will take the resources it once hurled at Harvard and Yale universities, to recruit their students, and invest in America's leading retirement communities, to recruit their swelling population of elderly women, most of whom are currently wasting valuable trading hours."

Uma das coisas que mais aprecio na sociedade norte-americana é o contacto intergeracional. A figura do mentor é extremamente importante nos EUA e, quando estamos a estabelecer-nos profissionalmente, é normal perguntar nas nossas entrevistas para emprego se a empresa/universidade/etc. facilita o contacto com um mentor para nos integrarmos melhor e mais rapidamente na organização. Como curiosidade, na área dos mentores, um projecto engraçado, nas Ciências Matemáticas, é o Número de Erdös, em que os matemáticos calculam quantas pessoas os separam de Paul Erdös, um matemático famoso. Ter alguém experiente ao nosso lado que nos apoia, estimula, cultiva a auto-confiança, dá permissão para explorarmos o que somos profissionalmente, é essencial para o nosso desenvolvimento profissional. Eu reconheço isso por experiência própria. Eu não me criei sozinha; parafraseando Sir Isaac Newton, o progresso profissional que eu fiz e faço depende dos que vieram antes de mim e me carregaram nos ombros para eu ver e ir mais além. Hoje em dia, é meu dever e privilégio fazer isso por outras pessoas.

Isto tudo para quê? Isto tudo para vos dizer que, quando eu ouço uma pessoa com experiência profissional avançar a ideia de que os jovens portugueses não sabem trabalhar ou não têm experiência, o que eu ouço é uma admissão por parte dessa pessoa de que não está disponível para aclimatizar os jovens ao mercado de trabalho. E note-se que quem tem experiência pode apoiar jovens que não são colegas. Há muito jovem desempregado que beneficiaria do apoio de alguém com mais experiência para o ajudar com o CV, com dicas sobre entrevistas de emprego, conselhos, histórias de problemas que enfrentaram, cultivar a auto-estima, etc. No entanto, talvez a situação de Portugal não seja assim tão má. Também já ouvi uma história de um português que mencionou o nome de outro colega mais velho e disse o quão importante esse colega foi para o seu desenvolvimento profissional.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Aussi le résultat de politiques anti-européennes d'austerisme: chômage,xénophobie,injustice, extremisme,terrorisme — Ana Gomes

O problema da Ana Gomes não é o de achar que a austeridade é culpada pela crise económica em que vivemos e que, como consequência disso, as políticas de integração das minorias são mais precárias. 

Não é preciso ser-se muito inteligente para pensar como a Ana Gomes. Tal como não é preciso ser-se muito inteligente para pensar que a culpa da crise é dos excessos dos governos anteriores. Também não é preciso ser-se muito inteligente para se culpar os banqueiros pela crise. Ou a globalização. Ou a arquitectura do Euro. Ou a Merkel. Enfim, não é preciso ser-se muito inteligente para acreditar em qualquer uma destas alternativas, tal como não é preciso ser-se muito inteligente para duvidar de todas elas. Tudo isso cai no domínio do que se pode, e deve, discutir politicamente.

O problema das declarações de Ana Gomes é mesmo o de misturar o que não pode ser misturado, o que deve ser discutido com o que não pode ser discutido. É como discutir a mini-saia de uma miúda que foi violada. 

Ataques terroristas simplesmente não podem ter justificação.

Daqui a um milénio, qual será o lado civilizado?

"The scholasticism of medieval Catholic Europe, focussed entirely as it was upon ancient authority, was unable to inform scientific inquiry until the revolutionary libraries of Islam were made available to the Catholic world. All western advances in civil engineering, mathematics, chemistry, medicine and astronomy were founded upon the medieval sciences of Islam, which were themselves built upon the classical traditions lost to the west during the Germanic destruction of the Roman Empire."

Do preâmbulo de "The Islamic Foundation of Renaissance" de Hugh Bibbs.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Ide-vos!

Nos últimos vinte anos, no jornal universitário Beira Interior, no semanário regional O Interior, no Blogue dos Marretas, no Inimigo Público, no livro Como Ficar Estupidamente Culto em Apenas 10 Minutos, na revista Atlântico, na Rádio Europa, no palco de um TedX, no diário i e já nesta casa, escrevi e disse centenas (ou muito mais, dezenas) de piadas sobre a universidade e o ensino secundário, os professores e os alunos, o Bloco de Esquerda, os neo-nazis, a Assembleia da República, o Presidente da República, a República, a condição feminina, a sociologia, os bombeiros, os franceses, a literatura de Saramago, a tinta gasta por Margarida Rebelo Pinto, a homofobia, a cultura erudita, o Borda d'Água, Vasco Graça Moura, José Hermano Saraiva e eu próprio.
Nos últimos vinte anos, entre tanta sátira e facécia, nem uma chapada levei. Aqui estou agora, sem deus nem amo, de caneta e teclado apontados contra os vossos ignóbeis disparos. Em nome de quem vos mandou criar, seus grandessíssimos filhos de Lilliput, ide-vos fornicar.



(Da primeira página do The Independent de hoje)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Contemplando a produtividade do trabalho

Hoje de manhã, a caminho do trabalho, estava a ouvir o programa de rádio The Diane Rehm Show acerca das relações entre os EUA e o México, quando um dos intervenientes falou da questão de crescimento económico e disse que, necessariamente, tem de haver um crescimento na produtividade do trabalho para que a economia mexicana cresça e para que não haja um abismo tão grande entre os EUA e o México. Isto levou a que eu pensasse na produtividade do trabalho em Portugal e acordou na minha memória dois episódios que se passaram comigo e que passo a relatar.

Pelo Natal de 2013, enviei ao meu afilhado em Portugal um tablet barato que comprei e enviei através da Amazon.com. A Amazon deu-me a opção de eu pagar as taxas de alfândega aquando da encomenda e eu paguei. Passados uns dias, começei a receber emails da UPS, a companhia encarregada do envio, mais propriamente dos gabinetes da UPS em Portugal. Queria a UPS que eu fornecesse o número de contribuinte do meu afilhado, que tinha na altura 12 anos, para que o pacote pudesse ser entregue. Obviamente, eu não tenho o número de contribuinte de toda a gente a quem eu envio pacotes. No decorrer deste incidente, falei com três empregados da UPS em Portugal. Perguntei-lhes porque razão precisavam do número de contribuinte quando a encomenda era uma oferta e as taxas de alfândega já tinham sido pagas--note-se que, para efeitos de alfândega, pacotes cujo valor excede €45 têm de pagar taxas. Responderam que era a lei. O assunto só foi resolvido ao fim de vários dias, depois de falarem ao telefone com a minha irmã e ela ter fornecido o número. Pergunto-me o que foi conseguindo por todo este esforço. Os impostos foram pagos ao estado português, não havia nada de irregular com o pacote, pois era um produto permitido por lei, logo para quê tanta burocracia? Serve os interesses de quem?

No outro episódio, que ocorreu há dois ou três anos, perdi a senha de acesso ao Portal das Finanças e precisava de uma nova. Note-se que, para efeitos das Finanças, eu tenho um procurador em Portugal como exige a lei, mas julgo que há muita coisa que eu posso tratar sem ter de incomodar o meu procurador. Enviei um email às Finanças a perguntar como é que eu deveria proceder para obter acesso ao Portal das Finanças, pois eu precisava de entregar a declaração de IRS brevemente e eu estava fora de Portugal. Responde-me o empregado com um email "formato enlatado" a dizer-me para eu me dirigir à minha Repartição de Finanças--reparem que eu tinha informado no meu email inicial que não estava em Portugal. Fiquei muito zangada com esta resposta. Se é para enviar email "formado enlatado", porque razão pagamos nós o salário a uma pessoa que não lê os emails que nós enviamos e não personaliza a resposta à nossa pergunta e à nossa situação em particular? Enviei uma resposta a pedir esclarecimento e, mais uma vez, a expor a situação. Recebi mais outra resposta, que não me resolvia o problema. Desta vez, fui à Internet, procurei o email do gabinete do Ministro das Finanças e enviei um email a expor a situação e a perguntar porque é que o estado português, que tem falta de dinheiro, dificulta tanto a vida a quem lhe quer dar dinheiro. O problema foi finalmente resolvido.

Não percebo a razão de ser das pessoas não poderem resolver coisas tão banais num número mínimo de passos. Exactamente, qual o efeito de todo este esforço adicional no PIB português?

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Socorro! É desta que Portugal SE afunda de vez...

Diz o Público hoje que Portugal vai perder dinheiro por terminarem as tarifas de roaming de telemóveis na Europa. Há alguma alma caridosa que explique os princípios básicos de economia? Não há? Então eu vou tentar: se telefonar com o telemóvel e enviar dados fica mais barato, diz a lei da procura que os estrangeiros farão mais telefonemas e enviarão mais dados. O efeito na receita do aumento da quantidade de chamadas e dados enviados acaba por compensar parte da receita perdida pela descida de preço ou até pode mais-do-que-compensar a receita perdida.

Mas mesmo ignorando a teoria, realmente, Portugal terá um problema enorme com estrangeiros a telefonar aos amigos a dizer onde estão e a postar fotos nos seus blogues pessoais, Flickr, Instagram, e Facebook. Eu sei que sim, porque quando eu vou a Portugal e posto fotos da minha viagem no Facebook, os meus amigos americanos e de outras nacionalidades roem-se de inveja e perguntam-me quando é que eu os levo a Portugal. É um dos piores problemas que o país poderia enfrentar. Não sei se vai sobreviver...

Pergunto-me se, no caso das telecomunicações, não se passará o mesmo que se passou com o BES: as empresas gastam muito dinheiro em publicidade em jornais e os jornais, com os seus fracos ou nenhuns lucros, estão dispostos a dizer qualquer coisa, ou omitir informação, para não alienar quem lhes compra publicidade.

Bondade humana

A bondade apenas se tornou conhecida na nossa civilização com o advento do cristianismo. A bondade foi a única actividade que Jesus ensinou por palavras e actos. A proposta de Cristo é radical, uma vez que a bondade só pode existir quando não é percebida, nem mesmo por aquele que a faz. Daí: «Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita».

As boas obras devem ser esquecidas a partir do momento que são praticadas, vão e vêm sem deixar vestígio. Quando a bondade se mostra abertamente já não é bondade, embora possa ser útil como caridade organizada ou como acto de solidariedade.

É surpreendente que esta atitude tenha sobrevivido na era secular moderna. Ainda hoje milhares e milhares de pessoas (cristãos e não só), por esse mundo fora, ajudam os pobres, os doentes, os desvalidos, discretamente, invisivelmente. São heróis invisíveis. Estão fora do mundo, por opção pessoal, por amor à bondade, tal como ela foi proposta por Cristo há mais de 2000 anos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Feriados 'R' US...

Durante o reinado da Troika em Portugal, uma das medidas mais contestadas foi a proposta de se mudarem feriados automaticamente para sextas- ou segundas-feiras, assim dando lugar a fins-de-semana prolongados e à eliminação das famigeradas pontes. O objectivo da medida era reduzir as quebras no calendário de trabalho e aumentar a produtividade dos trabalhadores. A oposição a esta medida assentava mais ou menos nos seguintes pressupostos:
  1. violação dos direitos adquiridos dos trabalhadores;
  2. os portugueses não têm muitos feriados comparado com os outros países;
  3. celebrar feriados noutros dias que não os dias estabelecidos não tem jeito nenhum; e
  4. a eliminação de feriados religiosos tem de ser aprovada pela Igreja Católica.
A primeira razão é, a meu ver, falsa, pois há muitos trabalhadores que, para nossa conveniência e segurança, têm de trabalhar nos feriados: os polícias, os jornalistas, os médicos e enfermeiros, quem imprime os jornais e faz emissões de rádio e TV, etc. Dizer que não trabalhar num feriado é um direito de alguns trabalhadores, mas não de outros, é dividir os trabalhadores em cidadãos de primeira e cidadãos de segunda categorias. Não gosto deste raciocínio.

Comparar Portugal com outros países é irrelevante, pois há países com mais e países com menos, logo também é uma razão arbitrária. A terceira razão é o resultado de preferências pessoais e, por isso, não tenho qualquer problema com ela. A bem dizer, a que mais me surpreendeu foi a quarta razão. O estado português é laico e fiquei surpresa por ver o estado e a Igreja às turras. Suponho que é uma coisa geracional, pois a minha geração não foi exposta a religião dentro de instituições públicas. Recordo-me de uma vez ter mostrado dinheiro americano a uma amiga minha que tem a mesma idade que eu e ela ficou muito espantada com o "In God We Trust", que aparece nas notas e moedas americanas.

Agora que o Ano Novo chegou, a questão dos feriados apareceu novamente nas notícias. O jornal Expresso decidiu fazer a contabilidade dos dias de lazer do novo ano. No universo dos feriados nacionais de 2015, dois feriados calham em sábados e dois calham em terça- e quinta-feiras e são, estes últimos, passíveis de pontes.

Como eu vivo fora de Portugal a minha contabilidade feriadística (sim, inventei a palavra) é ligeiramente diferente--é a contabilidade americana que é parecida com a proposta do reinado da Troika. Tenho reparado que ultimamente, em Portugal, se presta mais atenção ao feriados americanos, como o Dia de Acção de Graças, e por isso decidi abordar o tema. A preferência pela celebração de feriados à segunda-feira é o regime que prevalece nos EUA, onde os únicos feriados flutuantes nos dias da semana são o 1 de Janeiro (Ano Novo), 4 de Julho (independência dos EUA), 11 de Novembro (Armistício), e 25 de Dezembro (Natal). O dia de Acção de Graças, calha sempre na quarta quinta-feira de Novembro. No todo, os feriados federais americanos são os seguintes (mais ou menos, pois o governo federal não tem poder para os impor aos estados--eu apenas fiz a lista dos mais comuns; consultar a Wikipédia neste tópico):

  • Janeiro, 1: Ano Novo
  • Janeiro, terceira segunda-feira: aniversário de Martin Luther King, Jr., que nasceu em 15 de Janeiro de 1929;
  • Fevereiro, terceira segunda-feira: Washington's Birthday, aniversário de George Washington, mas o Presidente Lincoln também nasceu em Fevereiro, logo há quem chame a este dia President's Day;
  • Maio, última segunda-feira: Memorial Day, em memória dos soldados que pereceram durante a Guerra Civil americana;
  • Julho, 4: Independência dos EUA;
  • Setembro, primeira segunda-feira: Labor Day, reparem que é Dia do Trabalho--nos EUA não se comemora o Dia do Trabalhador de 1 de Maio, como no resto do mundo, pois o ataque de Haymarket deu-se a 4 de Maio de 1886 e o Presidente não queria que se confundisse com a celebração de um acto de violência;
  • Outubro, segunda segunda-feira: Columbus Day, Dia do Cristóvão Colombo (nem todos os empregadores observam);
  • Novembro, 11: Veteran's Day, internacionalmente é o Dia do Armistício da Primeira Grande Guerra Mundial (nem todos os empregadores observam);
  • Novembro, quarta quinta-feira: Dia de Acção de Graças;
  • Dezembro, 25: Natal.
Alguns empregadores celebram a Sexta-feira Santa, que é um feriado opcional, mas não é um feriado federal. E depois há algumas regras e flexibilidade--cada empresa/indústria tem poder para flexibilizar o seu horário e adoptar convenções. Por exemplo, se um feriado de um dia fixo calha a um dia de fim-de-semana, e os trabalhadores não trabalham ao sábado ou domingo, então o feriado pode rolar ou para sexta- ou para segunda-feira, em algumas indústrias/empresas. Há universidades/escolas que não observam alguns destes feriados no próprio mês e, em vez disso, observam-nos em Dezembro para que não trabalhem entre o Natal e o Ano Novo. Tradicionalmente, o comércio estava aberto todos os dias, excepto no dia de Natal e no dia de Acção de Graças, mas ultimamente há lojas que fecham apenas algumas horas ou nem sequer fecham durante estes dias. Para os trabalhadores assalariados, quem trabalha nos feriados é compensado monetariamente ou com dias de férias adicionais.

Uma curiosidade: o Memorial Day é considerado a abertura da época de férias; já o Labor Day é considerado o regresso ao trabalho e à escola depois das férias e é de muito mau tom usar roupa branca depois do Labor Day. Hoje em dia, há escolas que iniciam as aulas antes, pois o trabalho na agricultura não está tão dependente da ajuda familiar.

Julgo ser evidente que o sistema americano acaba por ter mais dias de folga para os trabalhadores assalariados do que o sistema português. Só que, como o tempo de lazer é concentrado em fins-de-semana e é espaçado durante o ano, acaba por não interromper tanto a semana e o ritmo de trabalho e tem o benefício de dar ao trabalhador oportunidade para descansar durante um tempo mais prolongado, mais frequentemente. (Note-se também que nos EUA, os trabalhadores assalariados têm menos tempo de férias do que nos países europeus, logo estes feriados acabam por mitigar, de alguma forma, o efeito das férias mais curtas). A preferência por um sistema ou outro varia de pessoa para pessoa; mas, pela minha parte, não acho este sistema tão mau quanto isso.

Bom Ano Novo a todos!

Resoluções para quando for velho (pode ser já para 2015)

Não casar com mulher jovem.
Não procurar a companhia da mocidade, a menos que realmente assim o desejem.
Não ser irritadiço, nem rabugento, nem desconfiado.
Não fazer pouco do presente, das suas convicções, das suas modas, nem dos homens ou da guerra.
Não ser louco por crianças, mas tão pouco as repelir.
Não contar sempre a mesma história às mesmas pessoas.
Não ser avarento.
Não negligenciar o decoro, ou o asseio, por medo de cair na sordidez.
Não ser demasiado severo com os mais novos, mas ser tolerante com as suas loucuras juvenis e as suas fraquezas.
Não ser influenciado, nem dar ouvidos à coscuvilhice dos criados ou de quem for.
Não ser demasiado prestável no aconselhamento a não ser que seja desejado.
Pedir a alguns amigos que me informem de quais as resoluções que quebro ou negligencio, e onde; e modificar-me de acordo com essas críticas.
Não falar muito, sobretudo de mim.
Não me gabar da minha beleza passada, ou da minha força, ou do meu sucesso com as mulheres, etc.
Não dar ouvidos à lisonja; nem pensar que possa ser amado por uma rapariga jovem.
Não ser categórico nem opinativo.
Não me dispor a cumprir todas estas regras, por receio de não obhservar nenhuma dela.

[Jonathan Swift, Resolutions When I Come to be Old, escrito em 1699]

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A lógica portuguesa escapa-me...

O Observador relata que no Hospital Amadora-Sintra, três dos seis médicos de serviço nas urgências na véspera de Natal meteram baixa à ultima hora e, no dia de Natal, quatro dos seis médicos de serviço meteram baixa, causando atrasos no atendimento das urgências de 20 horas. O remédio oferecido pela administração do hospital é que vão contratar mais médicos para que uma situação destas não se repita. Este remédio parece-me estranho.

A decisão de contratar mais médicos deve ser justificada por uma carga de trabalho regular que ocupe os médicos a contratar a tempo inteiro e não por um pico anormal de actividade, que tem pouca probabilidade de se repetir. Num país com sérios problemas de despesa pública, faz sentido ter médicos a mais durante 363 dias do ano para se ter o número adequado de médicos de serviço durante dois dias de um ano anormal, i.e., um ano em que uma taxa alta de absentismo se verifica durante dois dias seguidos?

Uma solução preferível, seria a de cooperar com outro hospital ou outros hospitais em que um pico de actividade num hospital combinada com uma falha no número de médicos necessários activa um plano de emergência que chama médicos de outros hospitais vizinhos para o hospital onde há uma emergência. Num país onde a probabilidade de haver um terramoto e/ou um tsunami destrutivo num futuro próximo é considerável, não haver um plano de emergência deste género é extremamente preocupante.

E por falar em coisas improváveis, 50% dos médicos não aparecerem num dia e 66.7% dos médicos não aparecerem no dia a seguir é raro de se observar aleatoriamente. O facto de se ter observado merece que a gerência do hospital abra uma investigação antes de proceder a qualquer plano para contratar mais médicos.

O dinheiro não cai do céu e os portugueses estão mais do que espremidos com salários baixos e impostos altos. Quem gere dinheiros públicos devia ter consciência deste facto e devia procurar soluções razoáveis que observem rigorosos critérios de benefício e custo. Seria muito melhor prevenir e/ou planear as situações de emergência antes delas acontecerem: sai mais barato, custa menos sofrimento, e frequentemente poupa vidas.

Actualização: No Público noticia-se que uma pessoa morreu nas urgências do Hospital de S. José após uma espera de seis horas. Entretanto, os hospitais são incapazes de contratar médicos suficientes (as contratações, contrariamente ao que eu tinha presumido inicialmente, são temporárias e não permanentes), apesar de se oferecerem salários de €30/hora. Parece que os médicos não querem mesmo trabalhar nesta altura. Mais uma vez, preocupa-me bastante não haver um plano de emergência que é activado para lidar com estas situações de picos anormais nas urgências.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A vez em que fui escolhido para cumprir quotas...

As I was boarding the plane I saw that the pilot was black. I had never seen a black pilot before, and the instant I did I had to quell my panic. How could a black man fly an airplane? But a moment later I caught myself: I had fallen into the apartheid mind-set, thinking Africans were inferior and that flying was a white man’s job.  ― in Long Walk to Freedom, Nelson Mandela.
Começa desta forma a minha participação activa na Maria Capaz. É uma espécie de coming out como feminista.

O esquecimento da procura da imortalidade

Antes de Sócrates (o filósofo grego), achava-se que o Homem podia alcançar a imortalidade através de obras, feitos e palavras. Só os melhores, que constantemente provam ser os melhores, e que perseguem a fama imortal são realmente humanos; os outros, satisfeitos com os prazeres que a natureza lhes propicia, vivem e morrem como animais. Até que a partir de determinado momento os filósofos gregos começaram a desconfiar, muito sensatamente, de que nenhuma obra saída de mãos mortais pode ser imortal. Descobriram então o eterno. O eterno, ao contrário da experiência do imortal, não corresponde a qualquer tipo de actividade humana. A queda do império romano deitou por terra qualquer ilusão sobre as possibilidades da imortalidade. Sobrou a eternidade, pregada pelo evangelho cristão. Passaram séculos. Na era moderna, a acção substituiu na hierarquia tradicional a contemplação, que, desde Platão passando pelos teólogos cristãos, era considerada a mais alta capacidade do Homem. Mas nada fez sair do esquecimento a procura da imortalidade, que outrora fora central para os gregos.


PS: Lembrei-me de escrever este post depois de ver o filme “The fault in our stars”.

Mentira humana

Acho interessante que nenhuma das principais religiões tenha alguma vez incluído o acto de mentir entre os pecados mortais. Não existe nenhum mandamento que diga “não mentirás” - pois, o outro “não levantarás falsos testemunhos contra o teu próximo” tem uma natureza diferente. Talvez os profetas soubessem desde sempre que ninguém “aguenta muita realidade”, como nos explicou o T. S. Eliot. 

domingo, 28 de dezembro de 2014

A Prisão Preventiva numa democracia liberal


CÓDIGO DA EXECUÇÃO DAS PENAS E MEDIDAS PRIVATIVAS DA LIBERDADE
Título XVI 
Regras especiais 
CAPÍTULO I 
Prisão preventiva e detenção 
Artigo 123.º
Prisão preventiva
1 - A prisão preventiva, em conformidade com o princípio da presunção de inocência, é executada de forma a excluir qualquer restrição da liberdade não estritamente indispensável à realização da finalidade cautelar que determinou a sua aplicação e à manutenção da ordem, segurança e disciplina no estabelecimento prisional. 


Sobre a prisão preventiva, muitos não conseguem ver para lá de Sócrates. Num país em que cerca de 1 em cada 5 reclusos são presos preventivos, choca a incapacidade de ver além do odiozinho de estimação. 

Peguemos no último caso. Arnaut faz figura de pateta quando procura argumentar que se trata de uma perseguição a Sócrates. Objectivamente, Arnaut faz figuras ridículas quando fala de Sócrates, tal como outros antes dele.  É por demais evidente que os responsáveis pela cadeia apenas estão a aplicar regras cegamente e não a perseguir o ex-primeiro-ministro. Mas é por isso mesmo que este caso nos deve alertar. 

Se tratam assim um recluso quando sabem que estão a ser escrutinados ao milímetro, como não farão com outros? Custa muito perceber que José Sócrates é apenas a ponta do iceberg? Desprezar o que lhe acontece é desprezar todos os outros presos preventivos e suas famílias.

E, para mim, essa é a questão, com que legitimidade se desumaniza alguém? Com que legitimidade é que a nossa sociedade pega num cidadão presumivelmente inocente e o submete a um regime prisional em tudo semelhante ao de um condenado efectivo?  

Esqueçam, por momentos, José Sócrates. O que vos diria o bom senso relativamente à prisão preventiva? Dando de barato que seja necessária, e lembro que tal não é verdade em diversos ordenamentos jurídicos, terá sempre de ser excepcional e apenas na medida estritamente necessária, tal como garantido na Constituição da República (artº 28). Se vamos cercear a liberdade de alguém que, perante a lei, é inocente, devemos reduzir essa liberdade da forma menos agressiva possível. Isto é mero bom senso. Faz, ou devia fazer, parte dos princípios gerais do Direito.

Diz o João Miranda que por causa de Sócrates vamos ter de andar a rever dezenas de leis injustas aprovadas pelo próprio. Ao João Miranda, e a muitos outros que aplaudem este tipo de declarações, eu gostaria de dizer três coisas: 
  1. Se a prisão de Sócrates servir para tomarmos consciência da importância da liberdade será óptimo. Eu sei que parece ridículo dizer isto a alguém que se diz liberal e que faz da liberdade individual um valor quase absoluto, mas, claramente, não são só os apoiantes que ficam patetas quando falam de Sócrates. 
  2. Se essa tomada de consciência servir para rever alguns códigos e regulamentos, já não vai a tempo de beneficiar Sócrates, pelo que pode ficar descansado. Os beneficiados serão outros.
  3. Não é preciso andar a rever leis à pancada. As que existem, se aplicadas com bom senso, servem perfeitamente. Cito o nº 1 do artº 123 do Código da Execução das Penas e Medidas Privativas de Liberdade: A prisão preventiva, em conformidade com o princípio da presunção de inocência, é executada de forma a excluir qualquer restrição da liberdade não estritamente indispensável à realização da finalidade cautelar que determinou a sua aplicação e à manutenção da ordem, segurança e disciplina no estabelecimento prisional. 
Não devia ser necessário explicar isto, mas, num país em que a liberdade é regra e não a excepção, é evidente que a prisão preventiva tem de ser aplicada da forma menos restritiva e invasiva possível. Se uma pessoa que nem acusada foi não pode receber um livro, qual o valor que damos à liberdade em Portugal?

PS Agradeço a Teresa Pizarro Beleza a dica que deu no Facebook relativamente a este artigo do Código da Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade.

Adenda
Diz o João Miranda, sarcasticamente: "Por isso, há boas razões, como sugere o LA-C, para ter esperança que vamos ter grandes mudanças liberais na sequência do caso Sócrates. As experiências anteriores mostram que legislar sobre casos, ou tendo em mente a indignação que os casos geram, é uma grande ideia."
Ainda bem que eu escrevi, e passo a citar, "Não é preciso andar a rever leis à pancada. As que existem, se aplicadas com bom senso, servem perfeitamente." E queixam-se os liberais de que passam a vida a distorcer o que eles dizem.

Contratações para 2015

Aí estão. Se olharem para os nomes aí do lado já se podem aperceber de três novas contratações para o Blogue. Rita, Sandra e Vera.

A Rita Carreira teve, de certa forma, um percurso paralelo ao meu. Estudou Economia na FEUC e foi nos anos 90 fazer doutoramento em Economia para os EUA, mas a meio do caminho mudou agulhas para a Estatística, acabando por fazer doutoramento em Economia com minor em Estatística. Ao contrário de mim, por algum motivo, não sentiu a vocação da vida académica e foi trabalhar no sector privado. Dedica-se profissionalmente à Estatística e trabalha nos Estados Unidos. Conhecemo-nos no facebook graças ao meu irmão que pensava que nos conhecíamos. 

Sandra Maximiano fez doutoramento em Economia e dedicou-se a Economia Comportamental e Experimental. Um ramo da Economia que se dedica a mostrar que os modelos económicos de gajos como eu estão todos errados. Gosta de pôr em causa a racionalidade dos outros, mas se nos lembrarmos que agora se dedica a fazer trapézio voador (com rede, vá), rapidamente concluímos que irracional é ela. Quando um dia eu escrever um livro, será com ela.

A Vera Gouveia Barros também se dedicou à Economia estando perto de terminar o seu doutoramento. Costumamos vê-la pelo Diário Económico ou pelas TVs a comentar assuntos económicos. Em 2015 vai trabalhar a partir do Terreiro do Paço. Politicamente, define-se como uma radical do centro (não confundir com centrista radical). É raro estar em desacordo com ela, mas, quando estou, percebo o raciocínio da Vera. Ou seja, é uma neoclássica racionalista como eu. Conhecia-a como autora do único blogue cujo título eu invejava: Escorrega da Curva de Gauss.