quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Fama

“Quando comecei a adquirir uma certa notoriedade e tinha dias em que me sentia deprimido, dizia a mim mesmo: ‘Bem, acho que vou dar uma volta e ser reconhecido.”
Anthony Perkins, The New Yorker, 4 de novembro de 1961

Esta declaração do actor Anthony Perkins talvez explique, em parte, a ânsia de fama que consome milhões de pessoas. Mas também sugere por que motivo, uma vez obtida, a fama é escondida. Não se trata apenas do aborrecimento e do incómodo de ser perseguido por repórteres, paparazzis, fãs e caçadores de autógrafos. Com o tempo, são cada vez mais numerosos os actos considerados dignos de atenção. O famoso deixa de poder controlar a sua “biografia”. 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Dr. Strange

No domingo de manhã, não sei o que fiz, mas apanhei um torcicolo. Só sei que num momento estava a ler os supostos rendimentos dos candidatos presidenciais no iPad na cama e sentia-me bem; levantei-me, a pensar na matemática da coisa, que não fazia grande sentido, e, de repente, doeu-me o pescoço. Passei dois dias inteiros com ataques de riso, pois quando me dói alguma coisa, dá-me para rir. Agora que penso nisso, poder-se-ia dizer que os candidatos presidenciais são uma grande "pain in the neck", como dizem os americanos.

Segunda-feira trabalhei em casa, pois queria terminar um projecto antes que saísse um relatório muito importante da USDA ontem, e não queria perder tempo a conduzir. Ah, sim, também trabalhei durante o fim-de-semana -- eu trabalho sempre que é preciso, dado que não há nenhum sindicato de empregados de fundos de investimento. Ontem, para além da dor de pescoço, comecei a ficar doente. Senti-me febril, cansada, a minha garganta começou a doer. Não estive em contacto com ninguém doente, mas como tenho alergias a certos bolores e pólenes, por vezes fico assim.

A primeira vez que me disseram que eu tinha alergias foi há 20 anos, quando eu vim para os EUA. Fiquei muito doente e fui ao centro médico da universidade, que os estudantes carinhosamente chamam de Voodoo Village. O Dr. Strange, quem me viu, disse-me que eu tinha alergias e precisava de tomar um anti-histamínico. Disse-lhe que não tinha alergias a nada; nunca em Portugal me tinham diagnosticado alergias. Ele insistiu. Pegou na minha mão e acariciou-me com o seu dedo usando toques leves durante alguns segundos. Depois perguntou-me se eu achava que ele me estava a magoar. Respondi que não e ele retorquiu com "Imagina que eu te fazia isto consistentemente durante várias semanas, achas que te magoaria?" Percebi o que ele me dizia: uma coisa que durante uns segundos não tem efeito nenhum, pode magoar-nos se for prolongada durante longos períodos, como é o caso da exposição a alérgenos.

Como já sabia do que a casa gasta, ontem comecei a beber doses copiosas de chá Earl Grey, pois tem bergamota que tem efeitos desinfectantes e ajuda-me muito, especialmente quando uso mel local como adoçante. Normalmente, bebo pelo menos uma chávena por dia como preventivo, mas ultimamente tenho bebido mais café, o que não tem o mesmo efeito. Para o jantar, telefonei a um restaurante asiático e encomendei phở, uma sopa vietnamita, que é picante e as coisas picantes ajudam o sistema respiratório. Dormi bem, umas 11 horas. Apenas me sinto cansada hoje e ainda tenho algumas dores de garganta. Para mim os anti-histamínicos não compensam porque eu tenho tendência para ter os olhos secos, pois trabalho muito tempo no computador. Depois de algum estudo e observação, encontrei outras coisas que me ajudam a recuperar mais depressa.

À altura?

"Nunca tive complexos com a minha altura porque sempre tive muitos pretendentes", terá dito Maria de Belém ao jornal Sol. E com esta declaração não esteve à altura do cargo a que se candidata. Nem do feminismo que ostenta. Bem pode ter escolhido a igualdade de género para tema do quarto dia de campanha: a defesa do papel da mulher na sociedade não casa bem com fazer da auto-confiança feminina função do número de pretendentes. Mas, sobretudo, homem ou mulher, devia saber que é o que se tem dentro da cabeça - e não a distância a que esta de se encontra do chão quando se está de pé - que é o importante.

35 horas, já!

Sou funcionário público. Gosto de o ser e esforço-me por sê-lo, ou seja, por servir o público. Há coisas que faço porque sinto que tenho obrigação de fazer precisamente porque sou pago com os impostos de todos. 

Por exemplo, esta palestra que vou dar no dia 23 de Janeiro sobre matemática eleitoral, teoria dos jogos e eleições, dou-a porque acho que faz parte das minhas funções enquanto professor de uma universidade pública. Acredito ter a obrigação de comunicar para um público mais alargado alguns dos resultados a que cheguei desde que, há 6 ou 7 anos, trabalho no assunto.

Também este blogue é um exemplo disto. Muitas vezes me perguntaram por que motivo eu perdia tanto tempo com o blogue. E a minha resposta foi sempre a mesma. A de que considerava este blogue como fazendo parte da minha actividade profissional. Devo, aliás, ser das poucas pessoas que inclui o blogue no seu curriculum.

Isto para dizer que sou o que sou profissionalmente com orgulho e que me incomoda muito esta reivindicação dos sindicatos da função pública de reduzir a semana de trabalho para as 35 horas semanais.Tudo se resume a uma ideia simples: considerando eu que um funcionário público é um servidor do público, custa-me muito ver os meus sindicatos a reivindicar privilégios que os outros não têm.

O general

Todas as sociedades precisam de referências morais. De exemplos - e só se educa pelo exemplo. Em Portugal, Ramalho Eanes pertence ao restrito grupo das figuras consensuais; é respeitado por todos, da direita à esquerda. Apoia Sampaio da Nóvoa (nem sei como classificar este senhor, tirado da cartola pelos maiorais do PS), mas isso não diminui um milímetro a minha admiração pelo general. É corajoso (inclusive fisicamente), sério, vertical, nunca se deixou deslumbrar por cargos, nem por títulos, nem por dinheiro. Ontem, ao lado de Nóvoa em Castelo Branco, os jornalistas perguntaram-lhe se estava arrependido de ter apoiado Cavaco Silva nas duas candidaturas à presidência. Era fácil esquivar-se à pergunta, como, aliás, tentou Nóvoa. Mas não o fez. Disse que Cavaco era um homem sério, competente, que fez o melhor que podia. O general é assim, não diz uma coisa à segunda-feira e o contrário à terça, conforme as plateias que tem à frente. Gosto de pessoas assim. E quem não gosta?




Frases famosas 30

30. Vivemos no fundo de um oceano de ar.

O sucessor

Jerónimo de Sousa anda em cogitações. Recandidato-me, não me recandidato, eis a questão. Mas os comunistas podem estar tranquilos. O padre Edgar Silva é o futuro. Ainda se baralha um bocado com as teologias, é certo, mas isso resolve-se. Para já, preenche um requisito fundamental para o cargo de secretário-geral: a cabeleira e o penteado estão de acordo com a linha ortodoxa definida por Cunhal – não terá os problemas de Carvalhas, que nunca conquistou o coração dos comunistas. Além disso, não consegue disfarçar a sua admiração por Kim Jong-un da Coreia do Norte, esse benemérito da bomba H. Edgar está no bom caminho. Não há dúvidas. Deus nos proteja.



O valor de Obama

Comparado com os EUA de Bush, os EUA de Obama são um paraíso. Mesmo com todos os problemas que ainda existem, não tem comparação. Mas a melhor parte é que os Africanos-Americanos têm alguém que podem dizer é melhor do que a maioria dos Presidentes brancos dos EUA. A história irá demonstrar o valor de Barack Obama.
Washington (CNN)As his eldest son faced the prospect of resigning as Delaware's attorney general amid health concerns, Vice President Joe Biden received an offer that floored him: financial support from his boss, President Barack Obama.

In the never been told before story, Biden recalled how concerned Obama had been.

Describing in an interview with CNN chief political analyst Gloria Borger one of his weekly lunches with Obama, Biden said he told the President he was worried about caring for Beau's family without his son's salary.

"I said, 'But I worked it out.'" Biden recalled telling Obama. "I said, 'But -- Jill and I will sell the house and be in good shape.'"

Obama, Biden remembered, pushed back vehemently on the thought of Biden and his wife selling their home in Wilmington, Delaware.

"He got up and he said, 'Don't sell that house. Promise me you won't sell the house,'" Biden continued, speculating Obama would be "mad" he was retelling the story.

Fonte: CNN, 12/1/2016

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Sunlight on the screens of a natural monopoly

Ontem à tarde, deixei um post no facebook a queixar-me por estar há uma hora preso num comboio, entre estações. A razão para a paragem, disseram-nos pelo altifalante, era que, aparentemente, alguém se tinha sentido muito mal no comboio à frente do nosso. Uma hora num ambiente pestilento, húmido, em pé, empurrado por mochilas e corpos estranhos, com o espaço estritamente necessário para mexer o polegar e escrever o post no facebook. Nem sempre é assim. Nem sempre tenho espaço para conseguir mexer o dito polegar. Também nem sempre dá para entrar no primeiro comboio que chega à minha estação, no sudeste de Londres, porque geralmente está cheio e não entra mais ninguém. Acabo por entrar no segundo ou terceiro. Vou tipicamente encostado à porta de saída, sem precisar de me segurar a nada porque o comboio vai de tal maneira compacto, que é mesmo impossível tropeçar. E, não é uma caricatura, várias vezes não tive sequer o espaço para alcançar o meu bolso de dentro do casaco e sacar do telemóvel. Estava portanto a falar de ter estado fechado uma hora no comboio da tarde de ontem. Nessa manhã, o comboio onde ia levou pouco menos de uma hora para fazer um percurso que, geralmente, demora 15 minutos. A desculpa, dita pelos mesmos altifalantes, era a de que havia um desmoronamento de terras numa vila fora de Londres (a cerca de 20/25 kms de onde vivo). Hoje de manhã, o comboio, aquele onde consegui entrar, ficou parado com as portas abertas cerca de meia hora na minha estação, porque, razão dita pelos mesmos altifalantes, o sol estava a bater nos ecrãs que permitem aos maquinistas controlar as entradas de saídas do comboio, pelo que as portas teriam de ser fechadas manualmente. A inusitada desculpa até pode surpreender o nosso jornal Expresso - mas pouca gente que vive em Londres e usa os transportes públicos se surpreende.

Há uns anos, havia uma ferramenta maravilhosa na internet que, com base em palavras fornecidas pelo utilizador, gerava automaticamente uma tese de doutoramento em filosofia pós-moderna. As desculpas dadas pelas empresas que gerem os transportes públicos em Londres têm também todo o ar de serem geradas aleatoriamente. Como os atrasos são diários, há evidentemente desculpas que se repetem. As mais comuns são "signalling problems" e "engineering works", catch-all phrases que foram absorvidos no léxico londrino sempre que alguém quer dar uma desculpa reles que ninguém pode acreditar (sim, é o equivalente londrino ao "o gato comeu o meu trabalho de casa"). Para dar uma ideia da dimensão do uso da desculpa dos "engineering works", é preciso notar que eu vivi um ano e meio noutro bairro do sul de Londres, chamado Canada Water, que é servido por um serviço de overground (é, basicamente, uma linha de metro, mas de superfície). Eu nunca vi este serviço funcionar ao fim de semana. Sempre, mas sempre, por causa de "engineering works". Sem mais. O que há mais é desculpas. Pós-modernas, também.  

A exploração dos transportes públicos de Londres, toda ela concessionada a várias empresas privadas, é extraordinariamente cara para o utilizador final, mesmo quando é tido em linha de conta o custo de vida em Londres. O passe de alguns dos meus colegas, que vivem nas imediações de Londres, custa cerca de 3600 libras por ano, ou cerca de 5000 euros. Por outro lado, é o sistema mais ineficiente, caótico, lento, irresponsável e insensível ao cliente que eu já vi - sim, meus caros, os transportes de Lisboa (ou de Dublin, a terceira cidade onde vivi) são infinitamente melhores. O grande aumento demográfico assistido no último ano, ou dois anos, é naturalmente parte da razão, mas até aí se nota o limite da concessão de monopólios naturais a empresas privadas: se a procura aumenta, seria de esperar que, num mercado competitivo, a oferta crescesse um pouco. Mas não. O número e frequência dos serviços tem-se mantido igual, pelo menos nas zonas de Londres que conheço melhor. Na referida Canada Water, tipicamente andava de autocarro. Novamente, não era possível entrar nos primeiros autocarros (de dois andares) por estarem sempre cheios. Todos os dias. Sem resposta por parte da empresa que gere aquela carreira de autocarros (sim, diferentes carreiras são geridas por diferentes empresas). 

Não quero com isto eu próprio fazer uma tese, até porque nem estou familiarizado com o detalhe da regulação dos serviços de transportes nesta cidade. A minha visão é apenas a do utilizador - alguns argumentariam que é a única visão que importa. E essa visão é bastante má. Só não é pior porque, de todo, não sou dos que mais sofrem: a minha viagem, como já disse, e, descontado os atrasos, é suposto demorar 15 minutos. Daí conseguir suportar estas agruras com alguma bonomia. 

Cromos

No mesmo dia em que o preço do petróleo caiu abaixo dos $30/barril em Nova Iorque, sai a notícia de que o Sr. Putin acha que seria muito mais fácil dar asilo a Bashar al-Assad do que foi a Edward Snowden. É como se o sr. Putin dissesse:
"Ó Americanos, pensem nisso! Nós já temos o cromo "Traidor Americano" na caderneta, falta-nos o do "Ditador Sírio". E vocês já têm o cromo ISIS e depois apareceria o OSIRIS, e, quem sabe, o HORUS, o que vos permitiria fazer progresso na caderneta de deuses egípcios.

E as vantagens não acabam aí! Com o petróleo e o gás natural mais caros, nós aumentamos a nossa receita e vocês terão mais dinheiro para o fracking. Ganhamos todos! Viva..."

Notícias frescas

Mais notícias frescas, traduzidas directamente do alemão pela nossa enviada especial.

Business as usual...

"O que aconteceu foi simples: o Estado disse ao FMI que em vez de pagar 10 mil milhões este ano, só paga um terço. Para o ano, em vez de 6,9 mil milhões, o credor só leva 2,5. E em 2018 e 2019, anos em que não havia pagamentos a fazer, lá se dará o resto que falta a Nova Iorque.

Passou de mansinho esta mega operação de milhares de milhões. Numa penada, Centeno atirou para os anos em que não se sabe se o governo ainda será do PS o pagamento gordo, ficando com a módica folga de 11.1 mil milhões de euros, que pode agora gerir com lucro para o Orçamento de Estado. Numa penada, enquanto o mundo cantava Lazarus, Costa e Centeno fizeram o seu Changes, entre os pingos do luto e da maçadora campanha presidencial."

Fonte: Jornal Tornado, 12/1/2016

Sim, isto custa mais dinheiro aos contribuintes em juros, but who's counting? Entretanto, há uma "folgazinha" para comprar eleitores e meter em contas off-shore de alguém...

P.S. Ver notícia original do Jornal de Negócios

Coisas básicas

A reforma do IRS e as inovações do sistema e-factura poderão exigir este ano uma atenção especial dos contribuintes em relação às novas regras do IRS. Não só porque este ano há novos prazos de entrega das declarações de rendimento – que arranca a 15 de Março –, mas também porque terão de se certificar que não perdem as deduções a que têm direito.

Fonte: Público, 12/1/2016

O (des)governo da República Portuguesa é completamente hormonal. Qual é a dificuldade de, todos os anos, ter a mesma data para efeitos de impostos? Expliquem-me a lógica e os benefícios de anualmente os prazos para os impostos serem diferentes? Isso só existe num país onde o estado é uma entidade de má fé, pois com prazos variáveis aumenta a probabilidade dos contribuintes se enganarem e terem de pagar multas.

Acham mesmo que um país onde nem sequer um evento que é certo, pois acontece todos os anos, pode ser facilmente previsível tem alguma probabilidade de crescer sustentavelmente? Quem é que quer trabalhar com gente assim? Nunca ouviram falar de "custos de transacção" em Economia?

Alice

`No, no!’ said the Queen. `Sentence first–verdict afterwards.’
`Stuff and nonsense!’ said Alice loudly. `The idea of having the sentence first!’
`Hold your tongue!’ said the Queen, turning purple.
`I won’t!’ said Alice.
`Off with her head!’ the Queen shouted at the top of her voice. Nobody moved.
`Who cares for you?’ said Alice, (she had grown to her full size by this time.) `You’re nothing but a pack of cards!’

~ Lewis Carrol, Alice in Wonderland, capítulo XII

Foi há dois anos que um amigo meu começou a dizer que eu parecia uma Alice: entrava a matar... Gostei da ideia e, para não me esquecer de ser Alice, fui à etsy e comprei uma gravura de Salvador Dali com a Alice (Alice's Evidence) e pendurei-a no meu quarto. De manhã, quando acordo, a Alice é uma das primeiras coisas que vejo.

Ontem foi o aniversário de outra Alice, mas essa não parecia, era mesmo:

The theory of interstellar trade

Este tem de ser um dos mais extraordinários papers de Economia de sempre. Um genialmente irónico - e muito jovem - Krugman perora sobre a taxa de juro ótima a aplicar a mercadorias em trânsito, se as mesmas viajassem à velocidade da luz. O paper conclui com a demonstração de dois teoremas, ambos classificados por Krugman como sendo inúteis. Pelo caminho, diz coisas assim:

Many critics of conventional economics have argued, with considerable justification, that the assumptions underlying neoclassical theory bear little resemblance to the world we know. These critics have, however, been too quick to assert that this shows that mainstream economics can never be of any use. Recent progress in the technology of space travel ... make this assertion doubtful; for they raise the distinct possibility that we may eventually discover or construct a world to which orthodox economic theory applies. It is obvious, then, that economists have a special interest in understanding, and, indeed, in promoting the development of an interstellar economy. One may even hope that formulation of adequate theories of insterstellar economic relations will help accelerate the emergence of such relations. Is it too much to suggest that current work might prove as influential in this development as the work of Adam Smith as in the initial settlement of Massachusetts and Virgina?

Este é um paper de 1978. Há uma boa coleção de papers subsequentes que, sem a ironia, têm tudo o resto (incluindo a intenção de construir um mundo novo onde as hipóteses assumidas se verifiquem).