terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Ladies' nights - pronto, é só para chamar a atenção do post

Depois de perder, contra a TAP, uma luta intensa e pública pela permanência de uma série de rotas aéreas a partir do Porto, Rui Moreira almoçou com um representante da Ryanair. A seguir ao almoço anunciou uma aparente vitória: a Ryanair ter-se-á prontificado a manter as rotas que a TAP descontinuou. Seria útil que os termos destes acordos entre municípios e empresas privadas fossem devidamente conhecidos e escrutinados. São vários os países e as cidades europeias que subsidiam as chamadas low-cost, a troco de estas voaram de e a partir dos seus aeroportos. Por vezes os subsídios não se chamam subsídios, e é também na linguagem que reside parte da opacidade destes acordos. Mas são, em tudo, subsídios, que podem colocar estas empresas em vantagem comparativa com outras empresas. 

Há quem frequentemente se pergunte: como é que a Ryanair pratica aqueles preços? - aquilo mal deve dar para pagar a gasolina! A resposta é a mesma que damos à pergunta: porque é que as discotecas têm ladies' nights, em que as raparigas não pagam para entrar? A resposta é que os rapazes estão dispostos a pagar mais para entrar em discotecas que atraem muitas raparigas, tão mais que compensa o facto de não se cobrar nada às raparigas. Da mesma maneira, as low-cost atraem o máximo número de passageiros possível. Depois, negoceiam com os países para ver quem está disposto a pagar mais para receber estes passageiros nos seus aeroportos. Quanto maior o número de passageiros, mais os estados pagarão. 

Isto não tem nada de intrinsecamente mau - há toda uma discussão legítima sobre a entrega de subsídios com dinheiros públicos para a promoção de certas indústrias, como o turismo. E eu sou a favor disso, se for feito com clareza e escrutínio público. A nível da concorrência, é preciso ter algum cuidado com a natureza deste tipo de mercados (chamados mercados two-sided), mas esta é outra conversa. O meu ponto deste post, no entanto, é o de que, se ignorarmos por um momento que seja que companhias áreas privadas são também pagas com o dinheiro dos contribuintes, discussões como, por exemplo, a da privatização da TAP, estarão naturalmente inquinadas. A questão não poderá ser a de a TAP ser muito cara para os contribuintes, mas sim se a diferença de custos para os contribuintes entre subsidiar a TAP ou subsidiar as low-cost justifica a diferente eficácia com que estas empresas alcançam os objetivos traçados pelos estados. Eu tenho a minha opinião. 

Reportagem 39



Reportagem

A história cultural dos elevadores ainda está por contar, afirmou ao repórter o dr. m. de c. e s., atestando não apenas a sua devoção a uma área que continua a ter muito por explorar, mas também o facto de haver entre drs de vários tipos uma admirável profusão combinatória de e's, de's e 's.

Bárbara

“Causa-me alguma impressão a atitude de algumas mulheres [vítimas de violência, algumas das quais] acabam mortas.”
A mim também me causa bastante impressão. Impressiona-me que Joana Ferrer, a juíza do caso Bárbara Guimarães vs. Manuel Carrilho, não perceba que a violência doméstica não começa com uma tareia de caixão à cova. São uns insultos uma vez, um empurrão noutra, depois um estalo. Tudo com flores, pedidos de desculpa e promessas de não repetição pelo meio. Quando as nódoas negras surgem, já há todo um historial de aceitação do que, finalmente, se percebe não ser aceitável. Mas que foi aceite porque há um projecto de vida em comum, por vezes filhos, e o tempo é muito simpático com a memória. Não se larga tudo por-dar-cá-aquela-palha. E quando se toma a consciência de que a palha já é, afinal, um fardo, dispensa-se a censura das Joanas Ferreres deste mundo.
P.S. - Convém notar que esta não é uma história no feminino.

O problema da temperatura

Não sei se a maioria dos economistas tem noção da importância dos estóicos (mais dos romanos do que dos gregos) no pensamento de Adam Smith. Por exemplo, a visão de uma harmonia cósmica (estendida à sociedade) ou a ideia de que a auto-preservação é a primeira tarefa que a natureza nos atribuiu são influências notórias. Bem, mas não era disto que queria falar – acontece-me sempre isto, começo com uma ideia e depois saem-me coisas que nem tinha pensado.
Voltemos aos estóicos. Acho muito interessante a sua ideia de desprendimento. O célebre Séneca era acusado de incoerência. Tinha poder, influência, vivia numa bela casa cheia de luxo. Ele, no entanto, explicava que o estoicismo não defendia a pobreza. O ponto era outro. Se, por acaso, perdesse o poder, a influência e a casa aceitaria tudo isso sem raiva, nem desespero. A vida encarregou-se de pôr à prova a teoria do filósofo. Foi desterrado para uma ilha durante anos, onde viveu muito modestamente, sem nunca se queixar. Voltou para prelector de Nero. Este, um paranóico, mandou-o matar passado algum tempo. Quando os centuriões chegaram, toda a família de Séneca entrou em desespero. Uma vez mais, rezam as crónicas, Séneca, com uma grande dignidade, acalmou a família e a seguir suicidou-se como mandava a praxe.
Acho tudo isto espantoso. Talvez por isso tenha achado tanta piada a duas cenas que li há tempos a glosar os estóicos. Numa, Montaigne diz que todo o seu estoicismo se esvai com uma simples dor de dentes - como eu o compreendo. Noutra, num conto de Tchekhov, um médico, intelectual, exalta as ideias dos estóicos, argumentando que até vivendo numa gruta se pode ser feliz ou algo do género. Um homem simples, mas dotado de bom senso, diz-lhe: pois, isso pode ser tudo muito bonito na Grécia, mas o estoicismo não funciona aqui, na Rússia, com 20 graus negativos. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Conversas em família

As “conversas em família” de Marcelo Caetano fizeram escola. O Presidente do Conselho queria dar um ar de modernidade a um regime caduco. Entre 8 de janeiro de 1969 e 28 de março de 1974, na RTP, explicou ao bom povo as opções políticas do seu governo e as “ciclópicas tarefas” que o país tinha pela frente. António Costa lembrou-se agora de desenterrar essa relíquia do baú das memórias. E, como estamos em 2016, usou o Youtube e as redes sociais, para dar uns pozinhos de pós-modernidade. Já saíram os dois primeiros episódios desta série, mas vêm aí mais. Parece-me bem. Há realmente muito a explicar sobre o OE.
Na última edição das “conversas em família”, Marcelo Caetano apareceu com um tom azedo, como que a adivinhar o que lá vinha. Falta saber se António Costa tem melhor sorte e se não estamos perante mais um sinal de fim de regime.


Os Pássaros

Passei na avenida Westheimer ao entardecer, em direcção a oeste e, perto da circular, o céu enchia-se de pássaros negros; acho que são gralhas. Por vezes esvoaçavam, criando autênticas nuvens sobrepostas às verdadeiras; outras vezes, pousavam nos fios de electricidade, perfeitamente distanciados entre si -- tive vontade de medir o espaço entre eles, só para me certificar da precisão milimétrica que aparentavam. Uma tarefa impossível, mas imaginável: o sonho comanda a vida!

Pássaros por todo o lado...

Pássaros alinhados nos fios de electricidade. 


domingo, 14 de fevereiro de 2016

S. Valentim -- instruções

Feliz dia de S. Valentim. Hoje vou tentar corrigir uma assimetria de informação entre homens e mulheres: vou explicar aos homens como se desaperta um sutiã.

A culpa é do “outro”

Segundo a esquerda portuguesa (e a europeia em geral), a culpa dos nossos fracassos e desgraças é sempre do “outro”. Compreendo. Esse exercício alivia imenso as consciências. Tem até a vantagem de conter sempre alguma verdade, ainda que, por vezes, seja apenas uma pontinha. O problema é que de caminho alimenta uma cultura de desresponsabilização ou irresponsabilidade, que não nos deixa ver claramente algumas das causas mais profundas dos males que nos atormentam. Vejamos um exemplo recente. Há muitas nuvens negras a pairar sobre as economias. Por isso, muitos pediram ao actual governo um OE mais prudente. Temendo o que aí pode vir, a esquerda já começou a arranjar culpados. Podia ser outra vez a Merkel, mas a chanceler caiu agora nas boas graças dos media por causa dos refugiados. Podia ser o presidente do Eurogrupo, mas o holandês levanta dois problemas: é socialista e tem um nome impronunciável em português - Jeroen Dijsselbloem. Podia ser o comissário Pierre Moscovici, mas, afinal, é um importante socialista francês. Até que Wolfgang Schäuble se pronunciou sobre o OE português. Pronto, estava encontrado o bode expiatório perfeito. Tem um nome pronunciável em português, é alemão, poderoso, e não é socialista. E é assim, com meias-verdades (enganam mais e melhor do que as mentiras), que a esquerda quer descalçar a bota em que nos está a meter.


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Nove

Estou em Galveston. O mar está feiinho, cheio de sedimento. À distância contei nove petroleiros; li no outro dia que muitos têm atracado aqui para fazer tempo porque não há sítio onde guardar tanto petróleo. 

Decidi jantar (é cedo, mas eu não comi almoço, apenas me entretive com um pedaço de queijo) num restaurante com pátio, apesar de estar frio -- tem vista para o mar. Pedi fish and chips, apesar de ter mais vontade de comer um hambúrguer, mas não servem. 

Enquanto esperava pela comida recebi uma notificação da Bloomberg: Antonin Scalia, um dos juízes mais conservadores do Supremo Tribunal de Justiça americano acabou de falecer. Se o Presidente Obama nomear um juiz, isto irá mudar significativamente a orientação do tribunal. Eram nove juízes ontem; agora são só oito. 



Frases famosas 40

40. Ómessa. Tinha muito com que se emborrascar Gentil. Que é como quem diz, tornar-se tempestuoso.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Bem bom!

Os juros estão a subir e agora o adiamento do pagamento do empréstimo ao FMI parece ter sido uma medida excelente. O Mário Centeno é um Ministro das Finanças genial. Viva! Mas ainda não percebo porque é que na primeira proposta do OE2016 ele tinha uma taxa de juro de curto prazo negativa, quando parece que sabia a tempestade nos mercados que por aí vinha. Para quem não é génio, é muito difícil acompanhar estas coisas.

Entretanto, a DBRS diz que está preocupada com a subida de juros da dívida portuguesa, mas mantém-se confortável com o rating de Portugal. Os Esquerdistas acham uma grande vitória a DBRS dizer que está confortável; já os Direitistas acham uma vitória a DBRS dizer que está preocupada. Os gajos da DBRS são bem bons na cama: toda a gente sai satisfeita...

Noutros tempos, isto chamava-se trapalhada, não era?

Os funcionários públicos vão passar a trabalhar 35 horas/semana já, em 1 de julho, no final do ano, garantimos que é este ano, não podemos garantir que é este ano, esta medida não implica mais custos, até se poupa dinheiro, depende dos custos, há custos, não sabemos se há custos, tem de se fazer um estudo sobre os custos, todos têm direito às 35 horas, há um problema com os enfermeiros, temos de fazer um levantamento sector a sector….Chega, já me começa a doer a cabeça.

Frases famosas 50

50. Se eu soubesse o que sei hoje, exalou Mª da G., que se morria em golfadas de sangue e tripas.

Parar à porta

Escreveu Carlyle “Invent the printing press and democracy is inevitable”. Se, além da imprensa, acrescentarmos os caminhos-de-ferro, o telégrafo, a indústria e a concentração da população em centros urbanos, então alguma forma de governo democrático é inevitável, concluíram outros autores. Não por acaso democracia e Estado-nação passaram a estar associados a partir do século XIX. Por exemplo, o psicólogo social francês Gabriel Tarde escreveu um interessante ensaio intitulado “As leis da imitação” (1890). O homem tem uma tendência irresistível para imitar os outros e, com as tecnologias, essa tendência acelera imenso, não só entre indivíduos, mas também entre Estados. Tarde, à semelhança da maioria dos autores da época, transpirava optimismo e falava mesmo numa "pacificação final" graças aos jornais. Isto não o impediu de concluir que, devido às diferenças linguísticas, os jornais iriam parar sempre à porta das fronteiras nacionais. E, voltando ao Carlyle, se os jornais param à porta de cada país, a democracia também pára.

O valor da prudência

Mas custa assim tanto entender que, com o mundo da finança internacional tão volátil, devíamos estar neste momento a aplicar medidas que reduzissem o défice rapidamente? Melhor ainda, e bem mais fácil, evitar medidas que agravem o défice? Faz algum sentido esperar pelo momento em que sejam necessárias? É quando as taxas de juro dispararem e estiver tudo em pânico que se vão tomar medidas de emergência? Custa assim tanto ser prudente?

Bem sei que no último ano, ano meio de governo PàF a prudência foi posta de lado. Deitaram-se à sombra das políticas do BCE e dedicaram-se a tentar ganhar as eleições. Mas não podemos passar a vida a discutir que a crise não devia ter acontecido. Em algum momento teremos de a enfrentar de frente e com realismo.