A minha mãe passava a vida a dizer-me que eu era um bicho do mato, não suportava ninguém, criticava toda a gente, era insuportável, ninguém me iria aturar, etc. Eu ouvia aquilo e passava-me ao lado. Era o que era. Até lhe dava uns olhares altivos quando ela me criticava, estilo
"in your face, Mom!" Ela dizia "Tu olhas para uma pessoa e parece que estás prestes a comê-la!" Olhar de predadora, que bom! O que ela considerava grandes defeitos, eu achava que eram elogios.
Estava a ler um blogue que eu achava muito giro há uns sete ou oito anos, que me tinha ajudado a manter o meu português, e hoje em dia acho insuportável. Sempre que leio um post recente dá-me vontade de esganiçar a autora e perguntar
"What the fuck happened to you?" -- os insultos são muitos mais fáceis em inglês. Eu sei que podia tirar aquilo da minha
feed, mas sou uma pessoa fiel e houve uma altura em que a moça me ajudou, sem saber que me ajudava.
Enquanto dava asas à minha imaginação de atacante de bloggers, lembrei-me do que a minha mãe me dizia e perguntei-me se estava a ser difícil como ela achava que eu era. A consciência das nossas mães é uma coisa muito chata. Foi mais ou menos nessa altura de auto-dúvida que,
num dos blogs de poesia do Gil T. Sousa, apareceu um post com um poema de Jorge de Sousa Braga, que me encantou e eu pensei "Era mesmo isto que eu queria, assim vale a pena ler blogues. Rita, tu és o máximo, estás na mesma, nunca mudes. Sê como eras quando a tua mãe te criticava!"
esse verão
Vinha meio nu
Trazia uma cesta de vime cheia de amoras
que colhera nas margens do rio
Passara a tarde toda de silvado em silvado
Na sua mão direita um pequeno arranhão
– Tão quente tão quente
esse verão
~ jorge de sousa braga
o poeta nu