quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Há mais retas concorrentes que parelelas

Trabalhei em empresas do grupo SONAE de setembro de 1994 a novembro de 1995, no período que medeia entre o final da minha licenciatura e o ingresso na Universidade do Minho. Curiosamente, a única vez que interagi pessoalmente com o Eng.º Belmiro de Azevedo foi ainda antes de ter sido contratado, durante o Programa Contacto, o programa de recrutamento da SONAE que ainda hoje mantém. Na sessão da tarde, houve um momento em que os participantes, na sua maioria finalistas do ensino superior, podiam colocar questões diretamente ao líder do grupo. Um pouco a tremer, pedi a palavra e perguntei ao Eng.º Belmiro se ele pensava desenvolver projetos de investigação em colaboração com as universidades portuguesas. Se nos lembrarmos que na época a Universidade vivia de costas voltadas para as empresas, achei que a pergunta era pertinente. A resposta que obtive foi entre o seco e o desconcertante. Recordo-me de algo como “…a Universidade portuguesa tem muito que aprender com as empresas. Se dependesse de mim, os professores deveriam ser obrigados a deixarem os seus gabinetes e a trabalhar periodicamente em empresas…”.

Curiosamente, passados vinte e um anos de ter deixado a SONAE, iniciamos, em conjunto com as Universidades do Porto e de Aveiro, o projeto de investigação aplicada ATENA (Observatório da Educação), financiado pelo EDULOG, o “think tank” da Fundação Belmiro de Azevedo, direcionado para a área de Educação. Afinal, há mais retas concorrentes que parelelas!

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Mal de Pierres

Ontem vi o filme "Mal de Pierres", uma adaptação do romance de Milena Agus. O enredo é um estudo sobre como o amor, que contrasta o aspecto carnal -- a loucura da paixão -- com o aspecto platónico. No filme, acompanhamos a vida de Gabrielle, uma jovem francesa muito fulgorosa que tem tendência para se apaixonar como nos livros. Aliás, as suas duas paixões são por homens que lêem: o primeiro é um professor, que lhe oferece "Wuthering Heights", de Emily Brontë, como parte da sua educação, mas que ela confunde com uma declaração tácita de amor; o segundo, um tenente do exército francês, que lhe oferece um outro livro em cuja primeira folha se encontra inscrito o seu nome, André Sauvage, e morada.

Entre estas duas paixões, entra o marido, José, que foi convencido pela mãe de Gabrielle a se casar com ela, para poupar mais vergonhas à família. José é um homem simples e trabalhador, pedreiro de profissão, e que acha Gabrielle bela. Somos levados a crer que Gabrielle é bela fisicamente e é isso que agrada a José, até porque Gabrielle é interpretada por Marion Cotillard. Mas lá para o final do filme percebemos que há outra beleza que Gabrielle tem para José e que amar Gabrielle significa deixá-la ser como é, ser paciente, numa paciência que roça a humilhação. Talvez amar alguém signifique conhecer a pessoa melhor do que ela se conhece a si mesma.

Mais não conto para não vos estragar o filme, se decidirem ver. Aviso-vos já que o filme é lento e longo.

domingo, 26 de novembro de 2017

Demérito!

"O principal ponto positivo destes dois anos de governação foi a redução do défice público, contra todas as expectativas, incluindo as minhas, reconheço. A manutenção da estabilidade política da Geringonça exigia uma quadratura do círculo que António Costa e Mário Centeno conseguiram manter, à custa de más opções económicas e orçamentais e de uma conjuntura absolutamente favorável, externa e do turismo, que disfarça muita coisa e esconde outro tanto."

~ António Costa, no Eco

Não acho defensável que se continue a falar na redução de défice como um mérito de governação quando, neste momento, sabemos que esta foi conseguida à custa de cativações e de redução da despesa em áreas como: equipamento médico, protecção civil, alimentação em escolas e prisões, etc. O argumento do mérito tem de ser inválido porque, se não o é, então estamos a dizer ao governo que continue a cortar em todas estas áreas porque esses cortes são um ponto positivo. Note-se que não estamos a falar de gorduras, estamos a falar em serviços essenciais, que o governo achou por bem descurar.

Ninguém corta as pernas para perder peso; se alguém o fizesse, não seria elogios que receberia, mas um atestado de loucura.

sábado, 25 de novembro de 2017

Colmatar uma falha

Caros leitores,
Lamento informar-vos que, para um blogue holístico, temos uma grande falha: ainda não falámos de maquilhagem. Felizmente, a Vogue deu-nos uma ajudinha e pediu à Sara Sampaio -- a nossa anjinha preferida porque o que é português é bom e ela também é boa como o milho e nós temos de agir nesta altura do ano e dar graças pela nossa colheita -- para fazer um vídeo, que aqui partilhamos, onde explica a sua rotina.

Considerem a nossa falha colmatada!


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Self-respect

"In brief, people with self-respect exhibit a certain toughness, a kind of moral nerve; they display what was once called character, a quality which, although approved in the abstract, sometimes loses ground to other, more instantly negotiable virtues. The measure of its slipping prestige is that one tends to think of it only in connection with homely children and with United States senators who have been defeated, preferably in the primary, for re-election. Nonetheless, character — the willingness to accept responsibility for one's own life — is the source from which self-respect springs."

~ Joan Didion, "Self-Respect: Its Source, Its Power", in Vogue (1961), reprinted in Slouching Toward Bethlehem (1968)

Ainda o Thanksgiving

O meu primeiro Thanksgiving, em 1995, foi passado em Dallas, aqui mesmo no Texas. Uma amiga minha da faculdade convidou-me para ir a casa dos pais. Viviam numa vizinhança, uma subdivision, em que as casas eram todas muito giras, pareciam casinhas de brincar, todas com arquitectura semelhante, as relvas bem aparadas, as sebes cortadas milimetricamente. Fizemos a viagem de carro, que demorou cinco horas, e quando entrámos no Texas, algures viu-se gado a pastar num campo e ela, num momento de extrema ingenuidade, perguntou-me, com o seu Texas drawl, o sotaque aqui da terra: "Do y'all have cows in Portugal?" Eu fiquei em silêncio porque juro que não percebi bem a pergunta. De repente, começámos as duas a rir às gargalhadas quando ela se apercebeu da estupidez do que tinha dito "Of course! That's a dumb question!" Pois era, mas daí para diante, sempre que nos queríamos rir, perguntávamos "Do y'all have cows in Portugal?"

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Net neutrality

Nos EUA, a administração Trump prepara-se para modificar as regras de net neutrality -- neutralidade no acesso à Internet. A Business Insider usa o exemplo de Portugal, mais concretamente da MEO, para demonstrar como as novas regras irão ser piores para os consumidores.
On Tuesday, the US Federal Communications Commission announced that it planned to vote on an order to roll back Obama-era rules governing net neutrality.

Simply put, net neutrality means that all data on the internet is treated equally. An internet service provider can't prioritize certain companies or types of data, charge users more to access certain websites and apps, or charge businesses for preferential access.

Advocates of net neutrality argue that it ensures a level playing field for everyone on the internet. Telecoms firms, however, are largely against it because of the additional restrictions it places on them.

But with the Republican-majority FCC likely to vote on December 14 in favor of rolling back the order, what might the American internet look like without net neutrality? Just look at Portugal.

The country's wireless carrier Meo offers a package that's very different from those available in the US. Users pay for traditional "data" — and on top of that, they pay for additional packages based on the kind of data and apps they want to use.


Fonte: Business Insider

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Friendsgiving

Amanhã celebra-se o Thanksgiving, o dia de Acção de Graças, nos EUA; notem que o Canadá também tem um Thanksgiving, que foi introduzido no país pelos refugiados da Guerra Civil Americana e que, desde 1957, se celebra na segunda Segunda-feira de Outubro. O Thanksgiving americano também é um feriado móvel e celebra-se na quarta Quinta-feira de Novembro; é o feriado mais importante nos EUA e, nos últimos anos, com a Internet e os americanos a postar fotos e a escrever sobre este feriado, tem-se notado que muitas pessoas noutros países também já falam em Thanksgiving. No entanto, para além dos EUA e do Canadá, há outros países que têm celebrações parecidas com o Thanksgiving e que antecedem a Internet.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Congelamento da coerência

Há de facto uma tensão entre o discurso de que as medidas de austeridade do anterior governo eram desnecessárias, e ser contra a correção retroativa das carreiras com base nos anos em que estiveram congeladas. Claro que se podem sempre adiantar racionalizações para mitigar a tensão - por exemplo, dizer que o congelamento das carreiras não fazia parte do pacote de austeridade considerada excessiva, ou alegar que com base nos congelamentos, algumas pessoas decidiram sair da função pública e que seria agora injusto alterar as regras do jogo agora. Mas essas explicações são parciais e até um bocado forçadas. O pragmatismo parece-me ser a única solução para isto, mas não nos iludamos: esse pragmatismo, sendo provavelmente necessário, não é coerente.

sábado, 18 de novembro de 2017

O Cardeal progressista

“(…) [D]esaconselhar vivamente, para não dizer proibir, que um jovem que manifeste essa orientação homossexual ingresse no seminário, porque isso será, para ele e para o que vier a seguir, seria sempre muito melindroso”. Estas são as exactas palavras proferidas pelo Sr. Cardeal-Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal, no encerramento da Assembleia dos Bispos Portugueses e que têm causado alguma polémica. Questionado sobre a afirmação transcrita, no sentido de, implicando a vida sacerdotal a castidade obrigatória, qual o interesse em indagar da orientação sexual do candidato a seminarista, aquele prelado respondeu: “Se a pessoa tem uma orientação forte nesse sentido, enfim, é melhor não criar a ocasião…”.
Uma declaração de interesses: considero-me uma pessoa cristã, mas há já alguns anos, por discordar de várias posições defendidas pela Igreja (entre outras, voto de castidade obrigatório, proibição do acesso das mulheres ao sacerdócio, uso de métodos anticoncepcionais não naturais), não posso dizer-me católico. Para mim, não existe a categoria de “católico não praticante”, nem defendo religiões “take away”. Isto dito, as declarações do “Prémio Pessoa” 2009 causam-me grande perplexidade.
Compreendo que, em função de várias passagens da Bíblia, sobretudo do Antigo Testamento, a Igreja Católica não possa reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas um discurso discriminatório não cabe na infinita misericórdia divina com que Cristo sempre se apresentou. Aliás, foi sempre nas margens da sociedade, de entre os mais ostracizados, que Deus feito Homem gostou de estar. Daí que, julgo, estas declarações colidem com a linha de orientação do Papa Francisco. “Quem sou eu para condenar um homossexual?”, respondia o Romano Pontífice a uma pergunta de um jornalista nas habituais conversas no avião papal.
O Catecismo da Igreja Católica, repositório da sua “doutrina oficial”, defende a integração dos homossexuais nas comunidades crentes, pugnando por uma compaixão quanto àqueles que considera sofrerem com essa orientação, concedendo que possam intervir como leigos, desde que renunciem à prática de relações sexuais. Em comparação necessariamente caricatural: é como dizer a um portista que pode vir a uma reunião de benfiquistas, desde que passe despercebido. Na verdade, convenhamos, uma posição que alguns entendem de equilíbrio, mas que tenho por hipócrita.
Como pouco séria foi a resposta de D. Manuel Clemente à pertinentíssima pergunta da jornalista: se para se ser padre se assume voto de castidade, qual o relevo da orientação sexual? “É melhor não criar a ocasião…”. Mas que ocasião? Se o Sr. Cardeal se referia à possibilidade de a carne ceder à tentação, eu e tantos outros conhecemos casos de sacerdotes que mantêm relações amorosas com mulheres, perante uma quase indiferença das comunidades em que se inserem. E então a castidade, afinal, existe ou não? Sabemos que D. Manuel Clemente defende a manutenção do status quo, mas também não se ignora que os discípulos de Cristo foram casados e que esta regra resulta da Tradição e não propriamente de imposições evangélicas. Aliás, quantos Papas não tiveram filhos?
Outro aspecto: os candidatos ao sacerdócio devem ser sujeitos a um escrutínio para detectar traços de homossexualidade, pedofilia ou doença mental. As duas últimas merecem o aplauso de todos. O mesmo se não dirá quanto ao seu alinhamento – o modo como surgem enunciadas coloca tudo no mesmo saco, como se todos os homossexuais fossem pedófilos e/ou doentes mentais. O DSM, uma espécie de manual de diagnóstico das doenças psiquiátricas da Associação Americana de Psiquiatria, retirou a homossexualidade do seu “Index Librorum Prohibitorum” em 1973, mas a OMS só deixou de a considerar parte da “lista internacional de doenças” em 1990. E este é um dado relevante: o que disse e a forma como o fez, levam quem escutou D. Manuel a associar a orientação sexual em causa com o abuso sexual de crianças ou delitos próximos (uma vez que a “pedofilia”, como tal, não é nenhum tipo legal de crime). Ora, essa é uma extrapolação inaceitável. Também existem sacerdotes que mantêm relações sexuais com raparigas menores. Por certo que manter a posição de que às mulheres está vedado o sacerdócio, para usar a mesma expressão do Sr. Cardeal, também pode, em tese, “criar a ocasião”, num ambiente marcadamente masculino, para mais não se ignorando que a sexualidade humana é feita de muitos cinzas, havendo estudos científicos que demonstram uma certa propensão para a bissexualidade da espécie humana, que depois se desenvolve em diferentes direcções em função, de entre outros, de caracteres sociais, culturais ou de pertença a certos grupos de referência.
Gostaria de saber o que responderia D. Manuel Clemente a um jovem que se sente profundamente chamado por Cristo a servir a Igreja, mas que também é homossexual e está disposto a cumprir o celibato. Um chamamento tão belo e que poderia conduzir a um sacerdote esforçado em ser um exemplo terreno de Cristo. “Filho, aqui entre nós, nos testes que faremos, finge que gostas de mulheres!”. "Don’t ask, don’t tell".

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Comida má

Esta semana que passou, o país ficou chocado com uma lagarta espevitadinha a fazer maratona num prato servido a uma aluna numa escola em Braga. A presença da lagarta era comprovativo de que a comida era má, mas julgo conveniente discutir o que é comida má. A presença da lagarta demonstra que a alface não foi tratada com pesticidas. Entre uma alface produzida por métodos convencionais e outra por métodos biológicos, qual é a mais cara e a que os consumidores preferem?

Com isto não estou a dizer que a comida não seja má, mas é necessário levar a discussão noutra direcção, como, por exemplo, a questão da higiene. Não parece que quem preparou a alface a tenha lavado em condições e, nesse caso, há o risco de as crianças serem expostas a bactérias, como e. coli ou salmonela, que causam envenenamento alimentar. Aliás, seria conveniente que alguém se certificasse que os empregados dos refeitórios em Portugal estão devidamente treinados e sensibilizados para as questões de higiene, até porque o público que servem -- as crianças -- ainda estão em desenvolvimento e estão mais susceptíveis a doenças deste foro.

Já agora, que tal um jornalista investigar se os refeitórios obedecem aos princípios do HACCP? Se não sabem o que é o HACCP, então leiam aqui.

E reparem que mesmo um prato com um aspecto delicioso pode estar contaminado e a comida ser má.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Chuta para a frente...

Desorçamentação e adiamento de efeitos orçamentais: não era essa a política do PS com Sócrates?

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Acasos

Calhou passear os meus cães à mesma hora que a K. batia à porta da J., que não estava: tinha ido a Austin visitar a filha e, entretanto, eu tinha ficado encarregada de apanhar o jornal e o correio. Forneci a informação e, perante a pena da K., prestes a partir para o Japão para ir assistir a umas workshops de manufactura artesanal de papel, comprometi-me a informar a J. do desencontro e cheguei mesmo a enviar uma mensagem pelo Facebook à K. a dizer que a mensagem tinha sido entregue. Pode-se dizer que levo a sério as minhas actividades de pomba-correio. Depois disso encontrei a K. ocasionalmente nos mais de dois anos que passaram. Não sei se, fora do contexto dos amigos comuns, seríamos capazes de nos reconhecer.

domingo, 12 de novembro de 2017

“Perdoa-me”: regressa que estás perdoado!

Se um qualquer extraterrestre tivesse recentemente chegado a Portugal, e tendo adquirido alguns conhecimentos televisivos, concluiria que o país se transformou num imenso “Perdoa-me”. O famoso programa da SIC, de 1994, veio para ficar.
O Presidente da República pede desculpas aos Portugueses pelas falhas do Estado nos incêndios e no apoio às vítimas; relembra que ele é uma pessoa e, indirectamente, pede desculpas pelo Primeiro-Ministro. Este, apertado, na Assembleia, responde que se querem que ele peça desculpa, pois ele pede. Não lhe caem os parentes na lama por isso! Mais tarde, revela dificuldades em lidar com as emoções e faz um público acto de contrição. O ex-Secretário de Estado da Administração Interna, à saída da cerimónia de tomada de posse de quem o substituiu, manifesta o velho sentimento judaico-cristão da culpa e quase me deu vontade de organizar um “crowdfunding” para lhe pagar sessões de psicoterapia. O Ministro da Defesa e as mais altas chefias militares, directa ou indirectamente, também já haviam feito um “mea culpa” a propósito de Tancos. Antes, Passos Coelho mostrava-se desolado pelo desencontro de informação que o fez julgar morto por suicídio quem afinal estava vivo.
Apetece pedir desculpa pela vergonha da desculpa alheia. Como se as funções de soberania do Estado, esteio de um qualquer país que efectivamente o seja, quando estrepitosamente incumpridas, se bastassem com desculpas, sentidas ou “para a fotografia”. Como se não urgisse apurar responsabilidades e colocar no terreno soluções há muito conhecidas.
E os Portugueses, perdoam? Diz-se que temos um coração grande e hospitaleiro, mas amiúde escutamos que “cá se fazem, cá se pagam”. Costa, a tudo isto, parece sair pouco chamuscado (trocadilho bem apropriado, mas pelo qual peço desde já desculpa). Bem vistas as coisas, quem pede desculpa é porque assume responsabilidade, bastando reflectir sobre o étimo da palavra. Desculpas pedidas, “segue a banda”. Um Presidente mais vigilante – algo esperado quando dobrada a primeira parte da legislatura –, que distribui abraços e beijos, espantando-se como este contacto com o Povo não lhe provoca a conhecida hipocondria, que falou grosso e demitiu a Ministra e que quer ver resultados no terreno, onde já marcou Natal e passagem de ano.
Se a moda pega, então todas as falhas nos diversos sectores da sociedade resolvem-se com um simples pedido de desculpa. Sem mais. Mantendo-se os empregos e não se respondendo civil, penal ou disciplinarmente. Eu e tantos Colegas perderíamos o emprego e os que restassem ter-se-iam de acomodar a pouco ou nada exigir dos estudantes, dada a prévia existência de uma “causa de antecipada atipicidade” em que a desculpa se vai transformando.
Revelador, tudo isto, se não fosse trágico, de um imenso sentido de humor de todos nós, de um “nacional-porreirismo bué da fixe”. Sobretudo, de um “enfraquecimento ósseo” da sociedade portuguesa, que parece compactuar com os coitados que, Judas ou Maria Madalenas, se mostram arrependidos e prontos a cumprir penitência. Ou melhor, a penitência é um extra não exigível. Sinal de uma débil sociedade civil, amorfa, a aproveitar uma certa melhoria económica que sabemos não ser consistente e duradoira. A coisa vai melhorzinha, e se assim vai, para quê aborrecermo-nos a pensar em profundidade os problemas e o que queremos exigir de quem ocupa funções de soberania?
Aproveitemos, pois, os milagres do Outono das nossas desculpas, com simpáticos raios de sol, e vivamos na certeza de que nada de mau se não resolve com um imenso palco onde surjamos entristecidos pelo erro – que, felizmente, todos cometemos –, mas sem disso retirarmos consequências.
À Administração da SIC: não será altura de pensarem em exigir judicialmente direitos de autor a estes personagens? Ou de montarem, p. ex. no Terreiro do Paço, uma nova temporada do “Perdoa-me”, em directo e com montes de turistas a assistir? Podia ser uma nova e brilhante ideia que, vá-se lá saber porquê, não constou da “Web Summit”… Se constou e eu não soube, ficam desde já as minhas desculpas.

"Web Summit Dinner with the Dead"

Não percebo tanta polémica em torno do Panteão.
Teófilo Braga, Amália, Eusébio ou Sophia podiam era ter feito uso dos seus dotes e animar aqueles senhores tão importantes.
E não consta que o barulho incomode os mortos.
Se estas luminárias gostam de comer "bacalao" por entre túmulos, isso é lá com elas. Lembrei-me de Hannibal Lecter...
E sempre entram uns tostões para efeitos de défice. Se aqueles mortos, assim como assim, mesmo não comendo, só dão despesa, porque não amortizá-la?
O Paddy é que sabe: é tudo uma questão de cultura e para estas mentes brilhantes é "very typical" uma coisa assim. Para que conste, também já jantei no Museu Soares dos Reis. É certo que não havia mortos e que se discutia o futuro da arquitectura das cidades. Mas, mesmo assim, será que também tenho de pedir desculpas?
E a lata desta gente que culpa a legislação que em lado algum obriga a que o arrendamento se faça e que até contém uma norma que facilmente poderia impedir o dito evento?
Mais um episódio deste imenso "Perdoa-me" em que o país está transformado.
Já estou a imaginar a Amália toda contente a sair da tumba e a dizer "obrigado, obrigado, batam palminhas", com aquela voz de bagaço que a caracterizava já para o final da vida e com a cabeça para trás e os braços estendidos a agradecer que gente tão "cool" lhe tenha vindo animar "uma estranha forma de vida" tão chata...