quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Dia 30

Está frio: aqui em Memphis estão -6C, mas Minneapolis está com -34C e o "windchill" é ainda mais frio. Em alturas como estas, os responáveis pelos distritos escolares ficam perante duas escolhas más, pois se abrem as escolas os funcionários e os alunos têm de se sujeitar a uma comuta que pode ser perigosa; se não abrem, há crianças que ficam em casa, mas os pais não lhes dão comida, nem há aquecimento. Os EUA podem ser o país mais rico do mundo, mas um quarto das crianças vivem em condições de pobreza e muitas dependem das escolas para se alimentar.

Mesmo assim, há escolas que fecham e uma das modas que pegou é fazer o anúncio a informar que não há aulas de uma forma criativa com vídeos no YouTube. Hoje na NPR estavam a falar desses vídeos e tocaram um que é uma versão de Hallelujah de Leonard Cohen:


As empresas fornecedoras de gás e electricidade estão a trabalhar horas extra para garantir que toda a gente tem aquecimento, especialmente as casas das pessoas mais idosas que têm dificuldade em se movimentar e verificar se os sistemas de aquecimento estão a funcionar em condições. Tudo isto é planeado com antecedência e quando pagamos a conta de gás e electricidade há uma opção que permite enviar algum dinheiro extra para o fundo que serve para ajudar os mais desfavorecidos e financiar estes cuidados. Esperemos que não haja muitas fatalidades com esta tempestade.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Dia 29

Segundo dia com o Ken para fazer pequenos reparos na casa, mas não conseguimos terminar. Perdemos imenso tempo a tentar encontrar a lata de tinta que ia com que divisão. Há cores a mais e demasiado parecidas e também havia latas de tinta indevidamente identificadas. Telefonei à dona anterior e ela orientou-me, mas foi assim que descobrimos que ela tinha escrito "sala" na lata da tinta do quarto principal e vice-versa.

O Julian, o meu cão, adora ter visitas e é muito oferecido. Por sorte, o Ken achou-lhe piada e brincou muito com ele. Parece-me que este cão iria com qualquer pessoa que lhe passasse cartão, pois quando o seu novo melhor amigo estava para se ir embora, lá o seguiu o Julian todo lampeiro, nem sequer o frio que estava na rua o incomodava.

É verdade, está frio e hoje de noite irá ficar pior porque está a percorrer os EUA um vórtex polar. Deixei as torneiras a gotejar, abri as portas dos móveis dos lavatórios, e aumentei a temperatura do aquecimento central na casa arrendada. Na casa nova também fiz o mesmo e até deixei um aquecedor ligado num dos quartos de banho. Esperemos que a água nos canos não congele e os rebente.

Durante o dia, enquanto o Ken pintava e montava varões de cortinados, passei a ferro os cortinados que tinha lavado para os encolher e pensei no LA-C, que me diria, se me visse, que devia ter feito o "outsourcing" do trabalho, mas aqui é difícil encontrar quem passe a ferro. Também não procurei por uma pessoa, confesso. Mas passar a ferro é muito aborrecido e tenho imensa pena de quem tenha de fazer isso para ganhar a vida e não sinta grande afinidade pela tarefa.

Também trabalhei um bocado remotamente durante a tarde, pois às quartas-feiras de manhã temos a reunião semanal em que discutimos o que se passa no mercado. À noite, também a trabalho, fui ao jantar do Clube de Economia de Memphis, em que o convidado especial era o Rick Rieder, o Global Fixed Income Chief Investment Officer da BlackRock, que gere mais de um trilião de dólares (trilião curto, só com 12 zeros). O PIB americano anda à volta de $19,4 triliões, portanto é muita massa.

A palestra foi muito interessante e estamos ambos de acordo, pois as pessoas não têm noção da importância de os EUA estarem a seguir uma política fiscal expansionista financiada por dívida pública ao mesmo tempo que a Reserva Federal segue uma política monetária contraccionista -- é uma combinação altamente desestabilizadora. E depois temos o problema do costume: há muitas poupanças a nível mundial e não há muitos sítios onde aplicar esse dinheiro.




terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Dias 26 a 28

Durante o fim-de-semana fiquei sem Internet porque desligaram na casa antiga e só vieram ligar na casa nova hoje, dia 28. O rapaz que ligou foi muito simpático e atencioso, se bem que se notava que não era uma pessoa extrovertida. Pela aparência deduzo que seja apoiante de Trump, mas é quase toda a gente aqui. É raro encontrar quem não seja, até porque estou numa parte da cidade onde não há tantos "millennials".

Esteve cá um outro senhor, o Ken, o dia todo para arranjar os varões para os cortinados. As paredes desta casa têm três metros de altura no R/C e as janelas são muito compridas. Detestei o tratamento das janelas da dona anterior, mas convenhamos que sou muito esquisita e incomoda-me muito a falta de espaço negativo. No entanto, o Ken concordou comigo: o posicionamento anterior era estranho.

Tive imensa pena de não estar mais bem organizada para ter cozinhado o almoço para ambos, mas não ficámos mal servidos, pois encomendei comida indiana pelo Uber Eats. Como ainda não mudei a mobília da outra casa para esta--será feito no Sábado--, tivemos de ir buscar o conjunto de bistro da varanda, que comprei para esta casa, para podermos comer à mesa. O Ken gostou da comida e nunca tinha usado o Uber Eats, mas ficou entusiasmado com a ideia de usar.

Não me recordo da sequência da conversa, mas a certa altura contou-me que quando era jovem foi sem-abrigo em Atlanta. Foi numa altura em que não sabia o que queria fazer e por isso teve a vida desorientada; agora é casado, tem uma casa própria, e tem um negócio de fazer obras em casas e ganha $25 por hora. (Nos EUA, é comum pensar-se em salários anuais, logo o normal é trabalhar 2.000 horas por ano, o que implica que ele ganharia uns $50 mil dólares anuais se conseguisse manter um ritmo de trabalho normal, em que apenas tira duas semanas de férias.) Parece-me que gosta do que faz e é uma pessoa muito bem disposta. Quem o conhecesse nunca diria que um dia tinha vivido na rua.

Achei estranho que me tivesse contado um pormenor que muitas pessoas teriam vergonha de contar, mas ele parecia estar orgulhoso do percurso que tinha feito.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Dia 25

Um dia em cheio!

Acordámos com a notícia de que Roger Stone tinha sido preso pelo FBI. Coitados dos agentes que acordaram de madrugada para trabalhar e nem sequer estavam a ser pagos. Depois o trânsito aéreo sobre Nova Iorque foi aligeirado porque não havia pessoal suficiente para acomodar tanto avião. E, ao almoço, durante um comunicado especial, o Presidente Trump acedeu a abrir o governo -- ganhou a Nancy, que é mais velha que ele, e a quem ele ainda não deu uma alcunha. A emissão de rádio da NPR foi interrompida e tivemos cobertura especial.

As coisas já estavam a ficar um bocado caóticas. Por falar em avião, no dia 24, o Steve Inskeep na NPR entalou a Mercedes Schlapp, a Directora de Comunicações Estratégicas da Casa Branca, várias vezes perguntando-lhe:
  • "If a plane crashes and people are killed because of this shutdown, is the wall worth that?",
  • "Is the... Wall worth people getting killed?",
  • "If the shutdown leads to a terror attack that gets Americans killed, is the wall worth that - yes or no?"
  • "Why are you uncomfortable answering yes or no to that question?"

Senti pena da Mercedes Schlapp: tem um patrão difícil e apanha tareia na praça pública por causa dele. Se fosse em Portugal, a notícia teria sido a má-educação do jornalista.

Neste dia também tive de me solidarizar com Assunção Cristas porque o PM Costa ficou irritado com ela. Há uns dias, um dos meus fãs mais queridos disse-me que eu até era inteligente, mas irritava-o. Respondi que irRITAr tem o meu nome e ele devia ir tomar um café que isso lhe passava. Senti um imenso orgulho de ser filha da mãe que tive porque dar-me o nome de Rita é genial.

Se eu fosse a Assunção Cristas mandava fazer uma t-shirt azul com "Irritei o Costa: ganhei o dia!" estampado em letras amarelas e, sempre que António Costa fosse ao Parlamento, usava a t-shirt. Eu não vos disse? Sou mesmo filha da mãe!





Dia 24

Amanhã seria dia de os trabalhadores federais receberem, pois são pagos cada duas semanas, mas como o governo ainda está fechado, não irão ser pagos. Wilbur Ross, milionário e o equivalente a Ministro do Comércio dos EUA, mostrou-se surpreendido hoje por os trabalhadores andarem a viver de esmolas. Acha ele que sendo estas pessoas empregadas pelo governo, os bancos deviam dar-lhes empréstimos muito facilmente. É o "Let them eat cake" versão "let them get loans".

Há alguns bancos que estão a tentar colaborar com os trabalhadores, mas é irrealista pensar que esta boa vontade dure para sempre. Afinal, os bancos não são entidades não lucrativas.É também um bocado sonso achar que o problema se limita aos empregados. Há pequenas empresas e agricultores que precisam de ter acesso a financiamento do estado, senão perdem as suas instalações, terrenos, etc. Para além disso, o dinheiro que vai para financiar este pessoal não pode ir para investimento.

Esta sensibilidade orçamental recorda-me daquela hiostoria que Donald Trump contou a Ivanka. Uma vez iam os dois pela rua e Trump apontou pata um mendigo e disse à filha que ele é mais rico do que ele porque, n alta, Trump estava na bancarrota, ou seja, tinha ruiqueza liquida negativa; já o sem-abrigo não tinha dinheiro, nas também não tinha dívidas.

[Esqueci-me de publicar este post. Não me recordo da razão, mas deve ter sido uma daquelas noites em que estava a escrever na cama e a adormecer sentada com o computador no colo. Não é a melhor maneira de se escrever...]

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Dia 23

Hoje fui almoçar com uns colegas de trabalho. Um deles não é americano e aprecia o facto de o inglês ser a nossa segunda língua. Para a semana, uma colega nossa do Brasil vai estar aqui em trabalho e ele disse-me que eu ia ter alguém com quem conversar em português. Já estou a precisar de desenferrujar a língua e o cérebro também. A partir de certa altura, é muito difícil manter a nossa língua a um nível exigente, mas também é mania minha porque, de vez em quando, cruzo-me com pessoal que está em Portugal e usa um português horroroso. É muito triste não ter brio...

Por falar em brio, é um grande privilégio viver nos EUA. No regresso a casa, ouvi o programa 1A, na NPR, que era sobre o o vídeo que se tornou viral recentemente. Os membros do painel de discussão falaram em pontos de vista tão interessantes: a forma como o vídeo se tornou viral (uma conta do Twitter que era falsa), a facilidade com que as pessoas disseminaram o vídeo sem questionar o que viam, o facto de o rapaz branco de 16 anos ter o benefício da dúvida, mas se tivesse sido o inverso--um homem branco idoso rodeado por rapazes jovens negros--esse benefício não existiria, etc.

A facilidade com que temos acesso a discussões de qualidade, a riqueza dos pontos de vista, a originalidade das ideias, etc. tudo isso tem para mim bastante valor e é umas das coisas de que mais gosto neste país. Mas não é só aqui porque quem ouve a BBC também tem o mesmo privilégio.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Dia 22

Há muita coisa para escrever, mas não há nada. Continua a falar-se em recessão. Falava-se antes do shutdown, depois não tanto, mas agora outra vez. Não há dados completos da economia americana e quando o governo voltar a funcionar a 100% irá levar algum tempo até se conseguir recolher os dados outra vez. Isto se conseguirem mão-de-obra para o serviço porque muitas das pessoas que fazem esse trabalho de recolha são trabalhadores em part-time e essas pessoas não vão ficar à espera indefinidamente que o governo termine o shutdown.

Talvez há coisa de uns dois meses, disse a um colega meu que o S&P 500 ia descer para os 2500, o que aconteceu há algumas semanas; o mínimo foi à volta de 2350 na véspera de Natal. Agora está acima de 2630 e os analistas técnicos acham que já bateu o fundo. Os últimos dois anos foram passados na expectativa de que a nova administração iria ser boa para o negócio por causa dos cortes de impostos e da flexibilização da legislação.

O dinheiro da redução de impostos não só não foi gasto em investimento, como foi usado para compra das próprias acções pelas empresas, ou seja, apreciou o mercado sem haver razão fundamental para tal. E a redução das receitas dos impostos não foi compensada com uma redução na despesa; em vez disso houve aumento da despesa e da dívida pública, o que contribui para o aumento das taxas de juro e redução do investimento privado.

É óbvio que a economia não bateu o fundo e agora vamos ver se a bolsa se aguenta quando começarem a vir as más notícias. A minha nova previsão é que o S&P vai descer abaixo dos 2000. O colega acha um exagero, isso seria uma queda enorme, já está mais do que corrigido.

Mas irá ser divertido porque a Europa não está preparada para uma economia americana em recessão.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Dia 21

No dia do Martin Luther King, um grupo de pessoas do trabalho foi fazer voluntariado durante algumas horas. Fomos a uma parte mais pobre da cidade e limpámos um jardim/parque tanto de lixo, como de ervas daninhas que invadiam os canteiros. Estava um frio enorme e depois do nosso regresso demorei várias horas até me sentir confortável em termos de temperatura do corpo.

Há 10 anos também fiz voluntariado neste dia com um grupo de pessoas do trabalho. Fomos à parte histórica de Fayetteville onde viva a comunidade negra. Lembro-me de andarmos a bater à porta de pessoas para oferecer os nossos préstimos. Uma senhora já de idade atendeu e ficou confusa ao ver tanta gente. Perguntámos o que precisava feito, mas ela não queria nada, disse apenas ter pena de já não conseguir limpar a cozinha em condições, especialmente a parte alta dos armários.

Parecia-me fácil limpar--para mim é mesmo fácil e relaxante limpar a casa dos outros; a minha é mais cansativa. As outras pessoas não estavam muito inclinadas para limpar, mas tínhamos de arranjar coisas para fazer, logo enquanto uns mudavam lâmpadas, verificavam se tudo estava a funcionar bem etc., outros limpavam armários.

Dizia a senhora que todas as manhãs cozinhava um "biscuit" acompanhado com salsicha de pequeno-almoço numa pequena sertã de ferro fundido. Não é o pequeno-almoço mais saudável do mundo, mas é bastante apetitoso, à maneira americana, claro. No final, a senhora ficou super-feliz com a cozinha limpa. Por vezes, as coisas mais insigificantes causam bastante satisfação.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Dias 19 e 20

Ambos não foram muito diferentes: andei a arrumar louça na casa nova, cozinhei a minha primeira refeição (salmão com cevada, pesto de alcachofras e pickles de pepino. Era o que havia...), e passeei o Julian. Dá mesmo muito jeito passear naquela vizinhança porque tem caixotes de lixo públicos e até oferecem sacos para apanhar a caca do cão, mas eu levo sempre. A inconveniência da casa nova é que ainda não transferi a Internet para lá e não tenho Wi-Fi. E ainda não mudei a mobília, mas levei a cama de ar que comprei quando me mudei de Houston para Memphis.

[Por falar em cama, encontrei no outro dia um cobertor de algodão penteado feito em Portugal e é um luxo dormir com ele. Durmo só com lençois de algodão, o cobertor, e uma colcha também de algodão e acordo como se estivesse nas núvens. Bem, tecnicamente estou num colchão de ar...]

A vizinhança em si é muito engraçada e é o produto de iniciativa privada. As casas têm um estilo tradicional, apesar de serem todas diferentes (é proibido fazer obras sem submeter um plano para aprovação da gestão da vizinhança). Há bastantes zonas verdes apesar de os lotes serem pequenos e ocuparem quase o terreno todo: este tipo de construção é chamado de "zero-lot-line houses". Disse-me um colega meu de trabalho que vão fazer algumas casas assim ao pé de onde ele vive, em Midtown.

O estilo das casas recorda-me do Garden District em Nova Orleães, que também inspira Seaside, na Florida. O plano inicial da vizinhança, que foi fundada em 1994, era de 116 casas, com uma praça com um sino, outra com um gazebo, e três parques. Um dos parques tem uma zona cheia de árvores e o chão coberto por musgo--ver primeira foto. É absolutamente deslumbrante e estou bastante curiosa para ver a metamorfose das árvores e restante vegetação ao longo do ano. Do ponto de vista social, a vizinhança organiza festas e alguns dos residentes têm jantares mensais com noite de jogos.

No outro dia recebi uma carta de boas-vindas, com instruções acerca da companhia que gere a vizinhança, quem devo contactar se precisar de alguma coisa, e instruções para o pagamento das quotas trimestrais -- pagamos $595 por ano. Ou seja, isto é como viver num prédio com gestão de condomínio, só que é uma vizinhança.


Um dos parques

A praça com o sino--é uma rotunda, vá lá...

Uma das minhas casas preferidas na vizinhança

Esta casa foi construída mais recentemente. O estilo é mais moderno,
evocativo do "Farmhouse" que é agora muito popular.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Dia 18

Dia triste: morreu a Mary Oliver. A primeira vez que ouvi falar nela foi em 1996, quando fiz o programa de intercâmbio durante a licenciatura. A Karla adorava os seus poemas e foi ela quem me falou de Mary Oliver. Nunca me esqueci do nome, apesar de ter levado alguns anos até a ler. Não penso que seja muito conhecida em Portugal, pois não encontrei nada dela traduzido em português. Uma pena, como já mencionei no outro dia.

Não me recordo da última vez que tivemos um dia inteiro de sol. Quase todos os dias está nublado e muitas vezes chove. Se não fosse andar distraída com o trabalho, o cão, e as mudanças, acho que estaria à beira de uma depressão data a falta de luz. Apeteceu-me a Primavera assim que passou o Natal e pensei como era estranho desejá-la tão cedo, poucos dias depois do Inverno começar. Talvez eu ainda esteja habituada à claridade de Houston.

Depois do trabalho arrumei algumas louças para levar para a casa nova. Muita louça portuguesa tenho eu. Acho que o PIB português cresceu umas décimas à minha conta. Felizmente a nova cozinha tem bastante arrumação; o único problema é eu ser tão baixa que, mesmo com um escadote, tenho dificuldade em chegar às prateleiras de cima. Não tenho nenhuma noção do quão pequena sou, mas uma vez eu e as minhas amigas americanas tirámos uma foto de grupo e lá estava eu minúscula entre elas. Na aula de yoga a instrutora acha muita piada que eu seja a mais pequenina que lá está. A verdade é que a maior parte das vezes, dá muito jeito ser pequena.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Dia 17

Estamos no dia 27 do shutdown do governo americano. Na rádio entrevistam uma mãe de família que limita as suas próprias refeições para ter comer para dar aos filhos. Não pode ficar em casa porque é guarda prisional, que é considerado um serviço essencial. Não pode abrir cartões de crédito porque se ficar com um mau historial de crédito por não ter dinheiro para pagar o mínimo perde o emprego. Não pode arranjar um emprego part-time porque precisa de autorização do governo para o fazer e o governo está fechado. Não há saída, diz ela. Já pensou em tudo mas o risco de acabar numa situação pior é alto.

Os Democratas dizem que o Presidente é que tem a culpa, mas que Mitch McConnell, o líder dos Republicanos no Senado poderia terminar o shutdown se quisesse: bastava o Congresso passar uma lei com super-maioria que seria à prova de veto do Presidente. Os Republicanos culpam os Democratas por serem intransigentes. O Presidente culpa os Democratas por não lhe quererem pagar o muro, mas no ano passado, quando os Democratas lhe ofereceram $25 mil milhões para o muro em troca de uma lei para os Dreamers--os jovens que foram levados para os EUA enquanto crianças e que agora são imigrantes ilegais--Trump recusou.

Todos os dias achamos que a situação está insustentável, mas no dia seguinte ela fica pior e ultrapassa limites até há pouco tempo impensáveis. Hoje, Trump proibiu Nancy Pelosi, a Porta-Voz da Câmara dos Representantes, de ir ao Afeganistão porque o governo estava fechado. Isto foi em retaliação de ela ter sugerido que ele adiasse o discurso do Estado da Nação por haver riscos de segurança--note-se que a guarda costeira americana está afectada pelo shutdown, mas os militares não estão. Note-se que o Presidente não devia ter revelado a viagem da Porta-Voz porque põe em causa a segurança dela e do pessoal que viaja com ela e a protege. (É estranho que os Republicanos, que têm a mania da segurança nacional façam revelações deste tipo--ver o caso Valerie Plame durante a Administração Bush.)

Rudy Giuliani, o advogado de Trump e antigo Mayor de Nova Iorque, decidiu lançar uma bomba: disse que nunca tinha negado a possibilidade de haver pessoas da campanha de Trump que tivessem colaborado com os russos, mas sem o conhecimento de Trump. Especulou-se se Giuliani sabe de alguma coisa que esteja para sair da investigação de Robert Mueller e por isso esteja a tentar semear dúvida. Em poucos dias saberemos.

Esta semana, que já parece há tanto tempo, William Barr, nomeado a Attorney General, disse que poderia não tornar público o relatório de Mueller e, em vez disso, escrever ele próprio um sumário. É muito difícil publicar uma coisa daquelas porque poderia revelar segredos de como a informação tinha sido obtida. Para além disso, a primeira pessoa que terá acesso ao relatório será o próprio Presidente e este pode não o querer público. Mas o próximo Presidente depois de Trump pode sempre mudar de ideias.

Ou seja, é quase uma certeza que saberemos a seu tempo o conteúdo do relatório. A única incerteza é como a história irá julgar os protagonistas da Grande Novela Americana...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Dia 16

Tirando os portugueses sofrerem de um síndrome parecido com o de Estocolmo, não vejo como é que o PS é tão apoiado. Normalmente, um partido goza de mais apoio quando é eleito e depois perde, mas com o PS é ao contrário. Por vezes ouço as pessoas falar do PS e e nota-se que ainda estão fixadas no partido da Natália Correia, só que a Natália Correia morreu e agora o PS é de pessoas como a Maria Begonha.

Para além de ter a malta do Sócrates, as políticas que segue no governo não fazem sentido. Por exemplo, agora decidiu acabar com as propinas no ensino superior. Em primeito lugar, isso nunca foi promessa de campanha; depois, não faz sentido não haver dinheiro para comprar manuais escolares a tempo e horas para os alunos mais jovens poderem começar as aulas logo preparados, mas haver dinheiro para prescindir das propinas.

Também não vejo como é que se justifica que, em Portugal, onde muitos alunos pobres frequentam universidades e institutos privados porque não tiveram nota para entrar no público, mas os pais fazem o sacrifício de lhes pagar uma educação superior, o governo decida retirar as propinas do público. Gostaria de ver um estudo de impacto desta medida em termos de quem beneficia por estrato social e onde é que vai cortar para arranjar folga no orçamento.

Enfim, se este pessoal batesse bem da bola, Portugal não seria a melhor democracia entre os países "democràticamente medíocres". Se não gostam, emigrem, como dizia o outro...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Dia 15

Que dia em cheio! A Theresa May levou pancada, o governo americano continua fechado, e soube que um poema do Álvaro de Campos/Fernando Pessoa foi parcialmente censurado num livro do décimo-segundo ano.

Esta última notícia recordou-mne de uma peça que apareceu numa revista de actualidades portuguesa, talvez a Sábado ou a Visão, já não me recordo. A peça tinha a ver com sexo e uma das pessoas entrevistadas era uma jovem que dizia que era precoce porque tinha perdido a virgindade aos 12 anos. Achei fantástico!

Aos 12 anos ela não tinha idade para dar consentimento para ter sexo, logo potencialmente estaríamos perante uma situação de abuso sexual, se o parceiro fosse muito mais velho do que ela. A peça não falava em nada disto, nem sequer o público se exaltou ou o Ministério Público foi investigar. Mas é importante proteger jovens de 17 ou 18 anos de uns versos do Álvaro de Campos...

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Dia 14

Os ânimos andam muito exaltados por estas bandas. Para além dos funcionários federais não terem recebido salário e o prazo para pagar as hipotecas deste mês acabar no dia 15, parece que nem o Congresso, nem o Presidente estão muito preocupados em encontrar uma solução. Amanhã, o William Barr, que é o fulano que o Presidente Trump nomeou para Attorney General, vai à entrevista de emprego no Senado. Estou curiosa por saber se vai seguir a mesma estratégia de Kavanaugh: ser mal-educado e projectar indignação.

Entretanto, o cerco em volta de Donald Trump continua a apertar, pois ficámos a saber que Trump teve uma reunião com Vladimir Putin em que não havia ninguém americano, nem a tradutora. Por falar em tradutora, não há detalhes oficiais das conversas de Donald Trump com Vladimir Putin porque Trump fica com os documentos dos tradutores e dá-lhes instruções para não partilharem o que ouviram com ninguém. É um bocado difícil de acreditar que ele seria ingénuo o suficiente para ter conversas que não devia ter através de um tradutor e achar que bastaria mandar calar a pessoa, mas até agora as pessoas que rodeiam Trump e o próprio têm demonstrado um nível de atrevimento tal que nos faz acreditar que tudo é possível.

O FBI continua a trabalhar apesar do governo fechado e este ano irão haver grandes desenvolvimentos nesta história porque não vão cair no erro de esperar pelos seis meses antes das próximas eleições. Não, o que tiver de ser feito irá ser feito este ano, até porque com a guerra das tarifas e o fecho do governo, a economia irá abrandar significativamente e o pessoal irá perder a paciência para aturar Donald Trump.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Dia 13

Enquanto passeava o Julian na vizinhança nova, um miúdo seguiu-me. Não deve ter mais de 10 anos e estava a andar de bicicleta, mas a certa altura notei que, sempre que olhava para trás, ele estava por perto; até quando entrei na serventia de acesso às garagens o vi. Já o vi antes, mas não sei se me tinha seguido também ou se hoje foi a primeira vez.

Primeiro fiquei um bocado apreensiva porque seguir é seguir, mas depois pensei que talvez estivesse curioso por causa do cão. Como tinha alguma pressa, não me deu jeito parar e conversar com ele; mas também estava um tempo frio e desagradável, que não convida a obséquios sociais.

Seria giro ser amiga de um miúdo daquela idade, pois podia ajudá-lo a praticar matemática ou até a ler, dado que a metro de Memphis tem alguns dos piores alunos do Tennesse (também tem os melhores, que são os que vivem em Germantwon). Só que os dias de hoje são um bocado assustadores e é um risco enorme ter uma criança lá em casa. Da próxima vez que o vir, meto conversa, mas fica por aí.