Nas últimas semanas, estive a trabalhar numa peça acerca do uso de quotas para corrigir discriminação. Hoje, o Público disponibilizou online o que eu escrevi.
Das coisas que li em Portugal acerca de quotas nos EUA, achei que havia uma lacuna enorme de conhecimento da história dos EUA do século XX, o que me deixa perplexa, pois se há sociedade que disponibiliza conhecimento de borla, é decerto a americana. Por isso escrevi esta peça.
No que escrevi tentei comparar o contexto americano e o português porque não é boa ideia copiar políticas americanas sem perceber o porquê de elas existirem. O Brasil fazê-lo faz mais sentido do que Portugal, pois os EUA e o Brasil são ambos antigas colónias. Mesmo assim, o contexto é diferente, pois a mistura de raças e etnias é mais comum no Brasil do que nos EUA.
Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
sexta-feira, 16 de agosto de 2019
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
O Douro em Memphis
No Sábado fui às Dixon Galleries and Gardens e, por acaso, encontrei lá o Douro pelas mãos da Elizabeth Alley.
Mais provas de aportuguesamento
Foi surpreendente que esta semana se tivesse falado tanto em “gun control”; tanto, tanto, que até Mitch McConnell, o líder Republicano, disse que o Senado teria de discutir a questão em Setembro (mas pessoalmente acho que isto só lá vai se houver mais uns tiroteios entretanto) e o Presidente Trump também admitiu que algo teria de ser feito.
Eis que ontem Jeffrey Epstein se suicidou e, de um momento para o outro, todas as atenções se focaram em como é que uma coisa destas podia ter acontecido a alguém que, depois da sua primeira tentativa de suicídio, estava supostamente sob vigilância constante numa prisão em Nova Iorque, prisão esta sob a jurisdição do Department of Justice, cujo Attorney General é William Barr.
“Supostamente” é a palavra de ordem porque tiraram Epstein da vigilância anti-suicídio, o que é estranho dado que ele tinha insistido muito em ficar sob prisão domiciliária, o que facilitaria uma tentativa. E depois houve a primeira tentativa, logo havia fortes suspeitas de que não seria a única.
Entretanto, a aura em torno do falecido dissipa-se. Afinal não era um génio da alta finança; pelo contrário, um dos seus primeiros clientes, Leslie Wexner, CEO da L Brands, a companhia dona da Victoria’s Secret diz que Epstein lhe fez evaporar 46 milhões de dólares, que depois reaveu porque Epstein fez uma doação para a organização com fins de caridade de Wexner — digam lá se não é conveniente? Wexner não informou as autoridades que Epstein era um "bocadito" ladrão. Para além disso, Epstein também comprou a preço de “amigo” pelo menos um avião, uma mansão em Nova Iorque, e outra mansão em Iowa, que eram de Wexner e família.
Ficou também claro que a antiga namorada de Epstein, Ghislaine Maxwell, foi promovida a sua melhor amiga e aparentemente ajudava a recrutar vítimas para o ex-namorado; até fazia a simpatia de as instruir na técnica de broche e outros prazeres sexuais apreciada por Epstein. (Ah, mulheres fofinhas, aquelas que estão atrás de homens deste calibre...)
Ghislaine foi educada nas escolas elite do Reino Unido, pois era filha de Robert Maxwell, imigrante checoslovaco no Reino Unido, antigo membro do Parlamento britânico e dono do Mirror Group, que detinha o Daily Mirror, e que desviou dinheiro dos fundos de pensão das empresas que geria para evitar a falência — faz-nos pensar acerca da qualidade da imprensa, quando os proprietários se enfiam nestas tramóias.
Uma outra filha da elite, a Abigail Disney -- sim, sim, pseudo-irmã do Rato Mickey --, tem andado na comunicação social a advogar impostos mais altos para os ricos porque diz que o universo em que estes se movimentam pertence a uma realidade paralela com regras que não têm nada a ver com as que regem o universo dos comuns mortais. Confere. A meu ver, se os ricos não se apercebem que lhes roubaram $46 milhões, não há grande perda para a humanidade se começarem a pagar mais impostos.
Pela Internet circulam fotos de Epstein com pessoas como os Trump, os Clinton, Príncipe Andrew, etc. Os liberais acham que Epstein morreu para proteger Trump, pois tiveram negócios juntos, inclusive a aquisição de Mar-a-Lago parece ter sido financiado com a ajuda de Epstein. Os conservadores vêem na morte de Epstein mais uma tramóia do “deep state”, pois é claro que Epstein iria comprometer os Clinton. (O “deep state” é aquela força tão poderosa, que fez tudo para que Hillary Clinton ganhasse a presidência americana. Super-competente, portanto.)
Os Republicanos não sabem para onde se virar, mas ontem o Ben Sasse, um senador Republicano do Nebraska, achou por bem enviar uma carta a William Barr a pedir satisfações. Ontem, Sábado. Depois, armado em Joe Berardo, publica a carta na Internet para todos verem, certamente antes de Barr lhe ter posto a vista em cima. Aguardemos que William Barr se arme em Ferro Rodrigues e denuncie esta falta de respeito para com as instituições.
Isto tudo parece digno da República Portuguesa, mas eu bem digo que os EUA se aportuguesaram.
Eis que ontem Jeffrey Epstein se suicidou e, de um momento para o outro, todas as atenções se focaram em como é que uma coisa destas podia ter acontecido a alguém que, depois da sua primeira tentativa de suicídio, estava supostamente sob vigilância constante numa prisão em Nova Iorque, prisão esta sob a jurisdição do Department of Justice, cujo Attorney General é William Barr.
“Supostamente” é a palavra de ordem porque tiraram Epstein da vigilância anti-suicídio, o que é estranho dado que ele tinha insistido muito em ficar sob prisão domiciliária, o que facilitaria uma tentativa. E depois houve a primeira tentativa, logo havia fortes suspeitas de que não seria a única.
Entretanto, a aura em torno do falecido dissipa-se. Afinal não era um génio da alta finança; pelo contrário, um dos seus primeiros clientes, Leslie Wexner, CEO da L Brands, a companhia dona da Victoria’s Secret diz que Epstein lhe fez evaporar 46 milhões de dólares, que depois reaveu porque Epstein fez uma doação para a organização com fins de caridade de Wexner — digam lá se não é conveniente? Wexner não informou as autoridades que Epstein era um "bocadito" ladrão. Para além disso, Epstein também comprou a preço de “amigo” pelo menos um avião, uma mansão em Nova Iorque, e outra mansão em Iowa, que eram de Wexner e família.
Ficou também claro que a antiga namorada de Epstein, Ghislaine Maxwell, foi promovida a sua melhor amiga e aparentemente ajudava a recrutar vítimas para o ex-namorado; até fazia a simpatia de as instruir na técnica de broche e outros prazeres sexuais apreciada por Epstein. (Ah, mulheres fofinhas, aquelas que estão atrás de homens deste calibre...)
Ghislaine foi educada nas escolas elite do Reino Unido, pois era filha de Robert Maxwell, imigrante checoslovaco no Reino Unido, antigo membro do Parlamento britânico e dono do Mirror Group, que detinha o Daily Mirror, e que desviou dinheiro dos fundos de pensão das empresas que geria para evitar a falência — faz-nos pensar acerca da qualidade da imprensa, quando os proprietários se enfiam nestas tramóias.
Uma outra filha da elite, a Abigail Disney -- sim, sim, pseudo-irmã do Rato Mickey --, tem andado na comunicação social a advogar impostos mais altos para os ricos porque diz que o universo em que estes se movimentam pertence a uma realidade paralela com regras que não têm nada a ver com as que regem o universo dos comuns mortais. Confere. A meu ver, se os ricos não se apercebem que lhes roubaram $46 milhões, não há grande perda para a humanidade se começarem a pagar mais impostos.
Pela Internet circulam fotos de Epstein com pessoas como os Trump, os Clinton, Príncipe Andrew, etc. Os liberais acham que Epstein morreu para proteger Trump, pois tiveram negócios juntos, inclusive a aquisição de Mar-a-Lago parece ter sido financiado com a ajuda de Epstein. Os conservadores vêem na morte de Epstein mais uma tramóia do “deep state”, pois é claro que Epstein iria comprometer os Clinton. (O “deep state” é aquela força tão poderosa, que fez tudo para que Hillary Clinton ganhasse a presidência americana. Super-competente, portanto.)
Os Republicanos não sabem para onde se virar, mas ontem o Ben Sasse, um senador Republicano do Nebraska, achou por bem enviar uma carta a William Barr a pedir satisfações. Ontem, Sábado. Depois, armado em Joe Berardo, publica a carta na Internet para todos verem, certamente antes de Barr lhe ter posto a vista em cima. Aguardemos que William Barr se arme em Ferro Rodrigues e denuncie esta falta de respeito para com as instituições.
Isto tudo parece digno da República Portuguesa, mas eu bem digo que os EUA se aportuguesaram.
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
Members of the press, WTF?
A semana passada começou, na Segunda-feira, com um tiroteio num Walmart em Southaven, MS, aqui mesmo ao lado de Memphis, TN, no qual morreram duas pessoas. O autor era um empregado frustrado da loja.
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EUA
terça-feira, 6 de agosto de 2019
Auto-contradição
Estava a ler um comentário ao post do Zé Carlos ao qual achei muita piada porque é muito frequente a auto-contradição em Portugal. ATAV acha a esquerda moralmente superior porque é tolerante, pois supostamente defende mulheres e minorias, ao mesmo tempo que escreve demonstrando ter uma repugnância -- ou será um ódio -- a quem considera de direita. O ensino da língua portuguesa é muito deficiente.
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
Sem palavras
Penso que se contarmos todo o tempo que vivi em Memphis, já tenho cerca de 4,5 anos; no entanto, hoje foi a primeira vez que fui ao Lorraine Motel, o sítio onde Martin Luther King, Jr. foi alvejado, e que agora é o National Civil Rights Museum. É uma experiência muito estranha porque não me escapa que faço parte do povo que inventou a rota de comércio triangular, pelo qual se comercializava escravos, sobre a qual aprendemos muito relaxadamente no oitavo ano, nas aulas de história.
terça-feira, 30 de julho de 2019
Identidade: uma palavra incontornável e perigosa
No ocidente, durante quase todo o século XX, os partidos situaram-se num espectro da esquerda à direita – comunistas, socialistas, social-democratas, democratas-cristão, liberais, conservadores. O desejado grau de intervenção do Estado e o empenho na igualdade ou na liberdade individual serviam para situar os partidos (e as pessoas) mais à esquerda ou mais à direita. Como é sabido, esta classificação ou arrumação tem óbvias limitações e falhas – desde logo, há uma discussão interminável sobre os conceitos de igualdade e liberdade e sobre a compatibilidade entre os dois. E, no entanto, é uma classificação útil. As pessoas precisam de opostos para pensarem e para se posicionarem.
A credibilidade do socialismo marxista caiu nas ruas da amargura quando deixou de ser possível ignorar ou disfarçar o que se passava em regimes grotescos como a União Soviética. Há muito que a própria social-democracia começou a ser questionada. A crise de 1973 mostrou que, afinal, o crescimento económico não era eterno e sem crescimento o Estado-Providência, como antes se dizia, fica sob ameaça. Além disso, tornaram-se evidentes alguns dos efeitos perversos de prestações sociais generosas, como os desincentivos à procura de emprego e ao empreendedorismo. A esquerda começou então a voltar-se para as reivindicações identitárias. Como acontece há décadas, a tendência nasceu nos EUA e, lentamente, foi alastrando pelo resto do ocidente.
A identidade é um conceito moderno. “Quem sou eu, afinal?” não era uma questão que atormentasse os indivíduos em sociedades rurais, em que todos viviam em pequenas comunidades com valores bem estabelecidos. A questão da identidade emergiu em sociedades urbanas, desenraizadas, com indivíduos isolados e solitários. No século XVIII, há já uma extensa literatura sobre a relação do indivíduo com uma sociedade opressora – Jean-Jacques Rousseau é talvez o exemplo mais conhecido. Em suma, a questão da identidade tornou-se incontornável.
segunda-feira, 29 de julho de 2019
Recordando…
Há sessenta anos, no dia 29 de
Julho de 1959, completei a licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas na
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com a defesa da tese que para o
efeito elaborara: A arqueologia do Concelho de Torres Vedras. Contribuição para o seu estudo até à época
Lusitano-Romana. Era o primeiro final da minha vida escolar – voltaria à
escola mais vezes – mas esse primeiro passo ficou bem gravado na minha memória.
Para quem não saiba – e muitos não
saberão – vou dizer em que consistia uma licenciatura nesses anos 50 do século
XX. A entrada na Universidade dependia da aprovação de um dos cursos terminais do
ensino liceal, de sete anos, que estavam agrupados em alíneas. A alínea d) era
a que conduziria ao curso que eu escolhera, a alínea e) dava acesso a Direito e
a f) aos muitos cursos da Faculdade Ciências ou Engenharias. Quem obtivesse a
média de 14 valores, entrava directamente na Universidade; quem não a alcançasse
teria de fazer um exame de admissão.
No caso do meu curso, ele consistia
em quatro anos de “cadeiras”, como se dizia então, umas anuais, outras semestrais.
Ao todo eram 26 – 13 de matérias de História e 13 de matérias de Filosofia.
Todas elas tinham exames de frequência e final – provas escritas, as orais eram
muito raras – e havia uma época de recurso para quem reprovasse no final do ano
(ou quisesse melhoria de nota). Terminadas todas as cadeiras com aprovação, o aluno
teria, para obter o grau de licenciado, de elaborar uma tese original com tema
de sua escolha e defendê-la perante um júri que tinha, alem disso, a tarefa de
interrogar oralmente o candidato em quatro matérias: História de Portugal, História
das Civilizações, História da Filosofia Moderna e Contemporânea e Psicologia.
Havia ainda uma prova escrita prévia de Lógica…
Depois dos quatro anos do curso,
o ano seguinte era reservado para a elaboração da tese e preparação dos exames.
Em rigor, quem quisesse poderia requerer o exame no 4º ano, mas como se
compreende era uma tarefa muito difícil, ainda que não impossível: o Doutor
Oliveira Marques fê-lo (creio que em 1958). Eu nem sequer considerei a
hipótese! O tema da tese que escolhi exigia muito trabalho no exterior, quer em
museus, colecções particulares, quer em bibliotecas e mesmo em trabalho de
campo. Eu tinha-me rendido à arqueologia pré-histórica e por isso procurei
fazer um trabalho exaustivo, que acabou por ficar materializado em dois grossos
volumes – um de texto e outro de gravuras, o primeiro com 294 páginas e o
segundo com 99.
Foi precisamente há sessenta anos,
neste dia 29, que defendi a minha tese. O arguente foi o Prof. Manuel Heleno,
que era o professor catedrático da área, e as coisas correram bem, sendo
menores as objecções feitas ao que escrevera. O resultado não correspondeu
inteiramente ao que desejava, mas a culpa não foi da tese, mas de uma prova que
me correu francamente mal, a de História de Portugal. Não quero desculpar-me,
mas a Professora Virgínia Rau devia ter dormido mal na noite anterior e
resolveu brindar-me com questões que me deixaram literalmente a “ver navios”…
Em suma, tive 14 valores como nota final de licenciatura.
Mesmo assim festejei. Alcançara o
diploma que me permitiria trabalhar como professor. Mas acalentava, confesso, a
possibilidade de continuar a estudar e evoluir em arqueologia. Tal não
aconteceu – são outras histórias que nem vale a pena recordar aqui. Dois meses
depois, iniciava a minha carreira como professor no Liceu Nacional de Santarém.
A arqueologia continuou a ser um hobby, durante alguns anos, e depois foi
substituída pelo empenho total nas coisas da educação.
Perdoe-se-me esta evocação muito
pessoal. Mas sessenta anos é mesmo muito tempo, e os velhotes gostam destas
coisas…
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Cursos de outrora,
Educação em Portugal
quinta-feira, 25 de julho de 2019
Possibilidades
Como o nosso ilustre PM acha que se governa não governando, incentivo os meus ilustres conterraneos lusos a exigir que se eleja um@ PM fofinh@ nas próximas eleições. Não, fofinh@ não quer dizer obeso; fofinh@ quer dizer um cão ou um gato jeitoso, ou um homem atencioso e bem-parecido. E também pode ser uma mulher incompetente para que possamos começar a preencher as quotas femininas.
Agora continuar como está, é dejá vu a mais.
Agora continuar como está, é dejá vu a mais.
terça-feira, 23 de julho de 2019
Os recursos desumanos
“O problema afeta praticamente todas as regiões do país e todos os sectores. É preciso pessoal qualificado nas áreas das tecnologias de informação e comunicação, na indústria, na agricultura, no turismo, na construção civil.”
Pedro Siza Vieira, Ministro Adjunto da Economia, Expresso, 20/7/2019
Permitam-me discordar. De há uns tempos para cá, os governos portugueses só vêem tecnologia como uma ferramenta de cobrança de impostos. Os restantes ministérios não usam tecnologia. Por exemplo, no início do ano, o Ministério das Finanças enviou emails a informar os contribuintes que tinham de limpar as matas de que eram proprietários. Ficamos logo a saber que o ministério ao qual compete administrar o território não tem recursos para cumprir a sua missão e sabemos que o estado ainda não sabe quem tem matas, logo como é que vai castigar os prevaricadores? Se forem ver as páginas de Internet de outros ministérios, encontram links partidos, coisas desatualizadas, etc.
Esta fixação em saber o que as pessoas gastam online para cobrar os impostos leva a que o público no geral desconfie das novas tecnologias para efeitos produtivos, i.e., que contribuam para o crescimento da economia. Há sítios em Portugal onde as lojas passaram a negociar apenas em dinheiro. Agora que os bancos cobram um balúrdio para ter uma conta, levantar dinheiro, etc., para já não falar na falta de confiança que todos os buracos bancários inspiram, mais incentivo há para evitar a economia virtual. Se o Facebook permitir mesmo às pessoas guardar dinheiro em libras facebookianas ou se aparecer um outro mecanismo semelhante, temo que os bancos portugueses fiquem sem parte dos seus depósitos.
Pedro Siza Vieira, Ministro Adjunto da Economia, Expresso, 20/7/2019
Permitam-me discordar. De há uns tempos para cá, os governos portugueses só vêem tecnologia como uma ferramenta de cobrança de impostos. Os restantes ministérios não usam tecnologia. Por exemplo, no início do ano, o Ministério das Finanças enviou emails a informar os contribuintes que tinham de limpar as matas de que eram proprietários. Ficamos logo a saber que o ministério ao qual compete administrar o território não tem recursos para cumprir a sua missão e sabemos que o estado ainda não sabe quem tem matas, logo como é que vai castigar os prevaricadores? Se forem ver as páginas de Internet de outros ministérios, encontram links partidos, coisas desatualizadas, etc.
Esta fixação em saber o que as pessoas gastam online para cobrar os impostos leva a que o público no geral desconfie das novas tecnologias para efeitos produtivos, i.e., que contribuam para o crescimento da economia. Há sítios em Portugal onde as lojas passaram a negociar apenas em dinheiro. Agora que os bancos cobram um balúrdio para ter uma conta, levantar dinheiro, etc., para já não falar na falta de confiança que todos os buracos bancários inspiram, mais incentivo há para evitar a economia virtual. Se o Facebook permitir mesmo às pessoas guardar dinheiro em libras facebookianas ou se aparecer um outro mecanismo semelhante, temo que os bancos portugueses fiquem sem parte dos seus depósitos.
domingo, 21 de julho de 2019
Discriminação de sardinhas e outros
Há uns anos, uma amiga portuguesa ofereceu-me algumas sardinhas da Bordallo Pinheiro. Tenho o guitarrista e a fadista, que são vendidos em conjunto, e o marco de correio e o postal, que são individuais. Calhou no outro dia ir ao Target (é uma loja tipo Continente, mas não vende tantos produtos frescos) e na secção de saldos encontrei um peixe de cerâmica branco decorado com desenhos a azul, que me recordou de Portugal, e que serve para decorar a borda dos vasos de plantas (tem uma cavidade na parte de baixo para ser montado no vaso). Como também tinha um burado na parte de baixo pensei imediatamente que podia pendurar na parece ao lado das minhas sardinhas e foi o que fiz.
sexta-feira, 12 de julho de 2019
Fruta estranha
"Southern trees bear a strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees
Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh
Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop"
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees
Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh
Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop"
Assunto quente
Neste momento, o assunto mais quente nos EUA é o caso do billionário Jeffrey Epstein, que é acusado de abuso sexual de menores. É difícil ouvir falar do assunto sem nos contorcermos com desconforto e parece que nem tudo se sabe, pois há questões acerca de como ele se tornou tão rico e também há ligações a pessoas bastante poderosas ou famosas, como Kevin Spacey, Bill Clinton, e Donald Trump.
O caso veio à baila devido a uma investigação do Miami Herald, que foi publicada em Novembro acerca de uma investigação das autoridades na Florida, em 2007, na sequência da qual as autoridades federais se preparavam para acusar Epstein, mas que não tinha sido levada a termo por ter sido negociado um acordo em termos muito favoráveis para Epstein.
Em 2003, a jornalista Vicky Carter, escreveu um exposé sobre Epstein para a Vanity Fair, que não chegou a ser publicado na sua versão original. Ontem, no Morning Edition, Carter falou da interferência de Epstein na publicação da peça e de os relatos das vítimas terem sido eliminados porque, em troca, Epstein ofereceu fotos para a publicação da peça.
Graydon Carter, o editor da Vanity Fair, em defesa própria disse que, na altura, não tinha confiança no trabalho de Carter. Fiquei muito chateada que tenha oferecido uma razão tão porca -- ela era incompetente --, quando sabemos hoje que a incompetência ou cobardia foi dele. Cá para mim, ainda acaba por se demitir um dia destes porque este não deve ter sido o seu único "lapso".
O caso veio à baila devido a uma investigação do Miami Herald, que foi publicada em Novembro acerca de uma investigação das autoridades na Florida, em 2007, na sequência da qual as autoridades federais se preparavam para acusar Epstein, mas que não tinha sido levada a termo por ter sido negociado um acordo em termos muito favoráveis para Epstein.
Em 2003, a jornalista Vicky Carter, escreveu um exposé sobre Epstein para a Vanity Fair, que não chegou a ser publicado na sua versão original. Ontem, no Morning Edition, Carter falou da interferência de Epstein na publicação da peça e de os relatos das vítimas terem sido eliminados porque, em troca, Epstein ofereceu fotos para a publicação da peça.
Graydon Carter, o editor da Vanity Fair, em defesa própria disse que, na altura, não tinha confiança no trabalho de Carter. Fiquei muito chateada que tenha oferecido uma razão tão porca -- ela era incompetente --, quando sabemos hoje que a incompetência ou cobardia foi dele. Cá para mim, ainda acaba por se demitir um dia destes porque este não deve ter sido o seu único "lapso".
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terça-feira, 9 de julho de 2019
Risco pessoal
Ontem, o Twitter decidiu sugerir para minha apreciação um monte de tuítes xenófobos e racistas. Suponho que tenho de agradecer ao Público por ter inspirado tanta generosidade. Perguntava alguém no Twitter se gostaríamos de ter ciganos como vizinhos porque parece que ter ciganos vizinhos é mau. Não é; aliás, eu cresci numa vizinhança em que havia uma família cigana composta de uma senhora viúva e doente crónica que tinha dois filhos. A minha mãe dizia-me que era muito boa pessoa e como a senhora cigana vendia roupa na feira, de vez em quando comprávamos algumas peças. Mesmo quando a família se mudou para outra vizinhança continuámos a ir visitá-la para comprar roupa.
Se é disto que têm medo, podem ficar descansados porque nada nos aconteceu apesar da proximidade. No entanto, há males bem piores no mundo e também havia na vizinhança onde cresci. Por exemplo, tive um vizinho pedófilo, que já tinha estado preso por ter violado alguém, mas que entretanto se exibia em público ou quando apanhava alguma criança só aproveitava a ocasião. Depois havia um polícia que se embebedava e batia na mulher, mas não era o único homem que o fazia. Homens que batiam em mulheres em Portugal era o pão nosso de cada dia e, infelizmente, não é uma espécie em vias de extinção. E até aposto que não sou a única pessoa que cresceu numa vizinhança com pessoas deste calibre, que nem eram ciganas.
Eu percebo que há ciganos maus, mas também percebo que há não-ciganos piores -- não, isto não é um caso de "whataboutistmo", é mesmo um caso de avaliação de risco pessoal -- e cada indivíduo deve responder pelos actos que comete, em vez de culparem toda uma etnia. Por falar em pessoas más, no ano passado, a ONU publicou um estudo em que concluía que o lar é o sítio mais perigoso para uma mulher: em todo o mundo, das 87 mil mulheres vítimas de homicídio, cerca de 50 mil morreram por causa do seu parceiro ou de um familiar, ou seja, quase seis mulheres por hora, em média. Acham mesmo que era de ciganos que estas vítimas deviam ter medo?
Se é disto que têm medo, podem ficar descansados porque nada nos aconteceu apesar da proximidade. No entanto, há males bem piores no mundo e também havia na vizinhança onde cresci. Por exemplo, tive um vizinho pedófilo, que já tinha estado preso por ter violado alguém, mas que entretanto se exibia em público ou quando apanhava alguma criança só aproveitava a ocasião. Depois havia um polícia que se embebedava e batia na mulher, mas não era o único homem que o fazia. Homens que batiam em mulheres em Portugal era o pão nosso de cada dia e, infelizmente, não é uma espécie em vias de extinção. E até aposto que não sou a única pessoa que cresceu numa vizinhança com pessoas deste calibre, que nem eram ciganas.
Eu percebo que há ciganos maus, mas também percebo que há não-ciganos piores -- não, isto não é um caso de "whataboutistmo", é mesmo um caso de avaliação de risco pessoal -- e cada indivíduo deve responder pelos actos que comete, em vez de culparem toda uma etnia. Por falar em pessoas más, no ano passado, a ONU publicou um estudo em que concluía que o lar é o sítio mais perigoso para uma mulher: em todo o mundo, das 87 mil mulheres vítimas de homicídio, cerca de 50 mil morreram por causa do seu parceiro ou de um familiar, ou seja, quase seis mulheres por hora, em média. Acham mesmo que era de ciganos que estas vítimas deviam ter medo?
quarta-feira, 3 de julho de 2019
Elisa destemida
No dia 30 de Junho, a Elisa Martinuzzi assinou uma peça na Bloomberg acerca do bailout do banco italiano Monte Paschi e especula que Mario Draghi não terá dito tudo o que era pertinente acerca do caso. Quando a intervenção no banco se deu, Mario Draghi trabalhava no banco central italiano.
Esta discussão sobre o que sabia e não sabia Mario Draghi e o que ele disse vs. o que não disse recordaram-me as polémicas em redor de Victor Constâncio, quando este estava no Banco de Portugal, que voltámos a visitar nas últimas semanas, mas achei estranho que tendo Constâncio o cargo que tem no BCE a imprensa estrangeira não tenha noticiado nada. É como se as notícias portuguesas não chegassem ao mundo.
Na peça da Elisa, achei engraçada esta passagem, que sublinhei no excerto seguinte:
Esta discussão sobre o que sabia e não sabia Mario Draghi e o que ele disse vs. o que não disse recordaram-me as polémicas em redor de Victor Constâncio, quando este estava no Banco de Portugal, que voltámos a visitar nas últimas semanas, mas achei estranho que tendo Constâncio o cargo que tem no BCE a imprensa estrangeira não tenha noticiado nada. É como se as notícias portuguesas não chegassem ao mundo.
Na peça da Elisa, achei engraçada esta passagem, que sublinhei no excerto seguinte:
"The financial shockwaves set off by the collapse of Lehman Brothers Holdings Inc. in September 2008 placed added pressure on Monte Paschi. The bank took to masking its burgeoning losses with a series of complex derivatives deals. Those transactions were hidden from public view until I later reported on them. Once they were disclosed, Monte Paschi had to restate its accounts twice.
In response, Italian prosecutors filed criminal charges against the bank, alleging market manipulation and regulatory obstruction, and two trials are ongoing. Prosecutors are seeking jail sentences for a group of former employees, including the ex-chairman and general manager. The lender itself reached a plea bargain."
Fonte: Elisa Martinuzzi, Bloomberg
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