quinta-feira, 2 de junho de 2016

Resmungo

Ontem, dia mundial da criança, fiquei a saber que não venci o concurso do pingo doce de literatura infantil. Que injustiça. Que perda para o universo infantil, limitado a minhocas e caracóis e esvaziado de reflexão metafísica.
Que deve começar o mais cedo possível. Aos três anos, investigação empírica em torno da diferença entre o animado e o inanimado. Aos quatro, investigação conceptual das mesmas entidades. Aos cinco, especulação acerca do papel da razão e/ou da experiência na determinação de objectos. Aos seis começa a faixa etária que o concurso visa, e as crianças desta faixa começam a sua reflexão acerca do conceito de bem. Aos sete, debruçam-se sobre o conceito de mal, em consequência da atenção dada ao conceito de bem. Aos oito, torna-se inevitável pensar acerca da justiça. Aos nove, na relação desta com o bem. Aos dez, descobrem a relação de opressão do individual pelo universal. Aos onze entra em cena o belo. E aos doze, término da faixa etária que o concurso acolhe, é o sentido da vida, a morte, e o tempo que os preocupa. Deixo aqui uma instância do meu contributo para a formação  (Bildung) dos infantes da espécie:


Há muitas maneiras de marcar a passagem do tempo, que passa independentemente das maneiras que inventamos para marcar a sua passagem. Há relógios de sol, relógios de pulso, relógios de sala, relógios de parede, relógios de água, relógios de cuco e ampulhetas. Podemos marcar a passagem do tempo com os pingos de uma torneira estragada ou com os roncos do vizinho de cima que ressona. Deve haver quem conte batidas cardíacas, mas este é um método pouco fiável, já que o coração é um órgão muito susceptível. A ampulheta é um objecto belíssimo e assustador, com o seu fio de areia que escorre implacável e sem que seja seguro que alguém a inverta quando toda a areia tiver escorrido. O tempo parece mais concreto, finito e irreversível quando marcamos a sua passagem com grãos de areia.

- Contos Zen para crianças boas

10 comentários:

  1. Uma vez li um artigo numa revista científica que sugeria que a forma como Galileu afirma ter medido o tempo nas suas experiências sobre o movimento dos corpos num plano inclinado era com certeza uma elaboração a posteriori. Sendo Galileu músico, ser-lhe-ia muito mais fácil fazer a contagem "interna" do tempo. Depois, teria inventado uma coisa qualquer "externa" para poder demonstrar esse tempo "interno".

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    1. Muito interessante. :-) Os filósofos modernos parecem ter passado boa parte do seu tempo a pensar no que fazer com o tempo. Como se não tivessem ultrapassado o trauma clássico de aquilo que é passar a ser outra coisa.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Não disse nada sobre filosofia infantil. Acerca daquilo de que falei chamei-lhe metafísica pela mesma razão que Descartes chamou Meditações Metafísicas à fundamentação da sua ciência. :-)

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    2. Lá está... Então é por isso que não foi premiada. :-)

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    3. :-D só pode ser! O que faz falta são jesuítas! ;-)

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  3. :-( Que injustiça! Pobres crianças, mais uma vez lhes fica vedado o mundo além das minhocas.
    Brindemos, eles nao sabem o que fazem e as crianças é que ficam a perder.
    "- É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como quiserdes!" CB :-) bjs

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  4. ...“Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.” CB

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