quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

As mortes ilegais

Primeiro o papel. A autorização. O concurso. O procedimento. A norma. "O que temos de exigir aos gestores é o cumprimento rigoroso das normas, fazendo o seu trabalho, que é salvar vidas." Depois, vamos salvar vidas. Depois. Nunca antes. Se morrer antes, foi uma morte que não cumpriu o procedimento. Uma morte ilegal, portanto.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

My two cents sobre a TSU-gate

1st cent - É oficial (pelo menos reconhecido pelo governo) que o aumento do salário mínimo foi excessivo e coloca dificuldades às empresas, sendo necessário dar-lhes um bónus para que não haja efeitos nefastos no desemprego.
2nd cent - O desconto na TSU não se aplica a novas contratações. Portanto, é também oficial, quem estiver desempregado que se foda.

What else

I have grown to see myself in the mirror
not recognizing who it was I was meant to be.
I recall the past with lingering details,
but the clarity I seek gets lost in the present.
What other people could have inhabited me?
You say "Go forth, search from within."
but there is nothing else that I wish to see.
My past is gone, a present unforeseen,
my future barely glimmers,
what else is there to be?

P.S. After reading James Schuyler

Um estado de espírito

É mais ou menos como Portugal...

As traseiras: notem o oleandro todo queimado do gelo que tivemos recentemente. 


À frente da casa: só metem água...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Preparos

Em Washington, D.C., prepara-se o dia da inauguração, esta Sexta-feira, de Donald Trump, que será inaugurado com um nível de aprovação muito baixo: cerca de 40%. Na rádio de manhã, disseram que há mais pedidos de autorização para a entrada de autocarros no Sábado do que na Sexta-feira, logo prevê-se níveis de protestos muito altos.

Especulava-se que o Presidente irá ter um discurso em que pede que o país se una, como fez no seu discurso de aceitação, mas o maior interesse será suscitado pelos tweets que se seguirão, pois, se for como antes, prevê-se que o Presidente acuse os media de incitar e organizar os protestos. Dizia o apresentador do programa de rádio 1A, que os protestos serão uma mostra da Primeira Emenda da Constituição, a que consagra a liberdade de expressão.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Uma noite normal

Um destes dias, num grupo fechado de pais com crianças diabéticas, pediram-me para escrever sobre a experiência da minha filha com a bomba minimed 640G, da Medtronic. Como pode ter interesse para mais pessoas que não estejam nesse grupo, reproduzo aqui o post.

A minha filha foi diagnosticada em Junho de 2016 a passar dos 7 para os 8 anos de idade, com DT1. Como tinha mais de 6 anos, ficámos com a ideia de que teria de esperar alguns anos pela bomba. Assim encomendámos, por nossa conta, a Minimed 640G com o GCM. Recebemos a bomba no dia 10 de Agosto, mas o sensor do GCM só veio em 29 de Setembro. Também quase desde o início desta aventura que temos o Libre como medidor contínuo. Ainda antes de ser autorizado em Portugal, íamos comprá-lo a Espanha.

Durante Agosto e Setembro, usámos a bomba em combinação com o Libre. Aí, sinceramente, não me parece que esta bomba seja diferente de qualquer outra bomba normal. É intuitiva e fácil de usar e melhora sensivelmente a nossa qualidade de vida quando comparado com as várias injecções diárias.
A cada refeição, indicamos quantos hidratos de carbono (ou quantos equivalentes) e a bomba automaticamente converte isso em unidades de insulina. Tem diversas modalidades de injecção (tudo de uma vez ou ao longo de um determinado tempo) que se ajusta de acordo com os valores de glicemia. Não me parece que isto seja muito diferente do que é feito com qualquer outra máquina. Tem uma vantagem que as outras máquinas não têm que é poder ser levada para a piscina. Mas, na verdade, a minha filha prefere quase sempre tirá-la.

Entre as refeições, vendo os valores do Libre, íamos ajustando a basal, aumentando ou diminuindo as doses (ou até suspendendo) consoante os valores estivessem em alta ou em queda.
Verdadeiramente, a grande diferença veio a partir do momento em que tivemos o GCM. A partir desse momento o Libre foi para a gaveta. Com o GCM a medir de 5 em 5 minutos os níveis de glicemia, a máquina consegue prever quando é que a criança vai entrar em hipoglicemia e, nesse caso, suspende a administração basal. Depois de os valores de glicemia estabilizarem e desaparecer o perigo, a máquina retoma a basal.

Por outro lado, a máquina tem uma série de alarmes, que podem ser desactivados se não os quisermos, que avisam quando os valores estão a subir (ou descer) muito depressa, ou quando passam um determinado valor. Por exemplo, a nossa máquina apita sempre que os valores estão acima de 250.

Durante a noite, o impacto é muito maior porque nos permite arriscar um pouco mais para garantir valores de glicemia baixos. O perigo das hipos é muito limitado. Quando a máquina prevê que passado meia hora os valores de glicemia vão ficar abaixo de 80, ela suspende a basal. E se caírem abaixo de 60 dispara uma sirene (esta é que podia tocar mais alto para ter a certeza de que nos acordava…). Estes são os valores que eu programei. A médica queria que em vez de 80 e 60 tivéssemos 90 e 70. Mas a minha experiência diz-me que é muito raro os valores caírem abaixo de 70 e quando caem, rapidamente sobem.

Ao contrário da maioria dos pais, eu quando verifico a meio da noite a glicemia, não é com medo de uma hipo, mas sim para ter a certeza de que os valores estão baixos. Se não estiverem baixos eu dou uma pequena dose de insulina extra para os baixar.

Hoje foi uma noite bastante normal e a Ana Laura acordou com 91, como podem ver na primeira foto. Tipicamente acorda com valores entre 90 e 110. No monitor, podem ver uma parte que está a laranja. Isso indica que a bomba esteve suspensa entre as 7h10m e as 8h20m. E fê-lo automaticamente para evitar que os valores caíssem abaixo de 80. E, na verdade, o valor mínimo desta noite foi 81, um pouco antes das 8 horas da manhã.

Na segunda foto, eu mostro como foi a noite desde as 3 da manhã. Eu acordei às 3h30m, por mero acaso, e aproveitei para ir ver os valores. Como estavam na casa dos 140, eu dei uma pequenina dose para os obrigar a baixar um pouco mais. Podem ver o que se passou a seguir. Rapidamente desceu para 120, onde se manteve até às 5.30, depois desceu para 100. Onde ficou até às 7, e depois ia descer para 80 (ou um pouco menos), mas a máquina suspendeu e evitou que os valores caíssem. Assim, quando acordou tinha 91.

Portanto, tanto quanto consigo perceber, sem usar o GCM, esta bomba é tão boa ou tão má como as outras. Umas terão os menus mais simples, ou mais fáceis de usar, outras darão para ligar a smartphones e coisas assim. Com o GCM, neste momento, esta será a máquina que nos permite gerir isto tudo com a maior eficácia possível. 

Já agora, no Natal, a Ana Laura comeu tudo o que quis e quando quis (diga-se que ela é muito pouco comilona). Simplesmente, sempre que comia dava a insulina correspondente. Se, por exemplo, quisesse amendoins, nós limitávamos a subir (bastante) a basal, para ela poder ir comendo sempre que quisesse. E, claro, confiávamos na máquina para suspender se fosse necessário ou apitar se os valores subissem demasiado.

Quando ela comia coisas cuja composição de hidratos de carbono e açúcares desconhecêssemos, como filhós, jirimus, ou assim, dávamos "a olho" e depois se os valores começassem a subir demasiado, imediatamente dávamos uma correcção. Se caíssem a máquina suspendia e se continuassem a cair, como ela gosta de passas de uva, era isso que comia.
Na última medição, a Ana Laura tinha uma HbA1c de 6,3%. Vamos medir novamente em daqui a 1 ou duas semanas. Depois dir-vos-ei os estragos do Natal.

A 670G ainda é melhor, mas como só está autorizada para maiores de 14 anos (e apenas nos Estados Unidos) para já não penso nessa

Criaturas metafísicas 31

1.      As três bruxas de Macbeth descreveram-lhe a sorte, em coro.

Um erro

Cícero, talvez o maior orador da Antiguidade, usava sempre uma técnica: centrava o discurso num ponto (ou pontos) em que ele realmente acreditava. Os argumentos racionais, a lógica, de pouco servem se o orador não acreditar convictamente no que diz. O que convence é a convicção, assim pensava este génio político.
Cícero que me perdoe, mas lembrei-me disto a propósito da posição oficial de Passos Coelho e do PSD relativamente à baixa da TSU acordada em sede de concertação social. É um erro político, porque Passos não acredita nos argumentos que está a apresentar e, por isso, não convence. Quando muito, convence os eleitores fiéis do partido e os que detestam a geringonça. Fora isso, não vai conquistar um voto que seja dos flutuantes. Pelo contrário. Vai afugentá-los. É uma jogada política descarada, com objectivos demasiado óbvios - entalar a geringonça. E a política para ser eficaz depende da perspicácia que esconde.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

em nome de quê?

Ontem estive na prisão da Stasi em Hohenschönhausen. A visita começou com um filme sobre a história da RDA e daquela que era a pior prisão da Stasi.
No pátio, em frente à maquete que mostra a área de acesso reservado (na foto, a área em branco), no centro da qual se encontra a prisão (cinzento), e as casas à volta (cinza), contam-nos que os guardas da prisão viviam nessas casas, e ainda vivem. E depois, como se não fosse nada, acrescentam: "mas entretanto já se habituaram ao facto de haver antigos prisioneiros a fazer as visitas guiadas, e já não vêm cá fazer distúrbios".



Nos mapas da RDA, esta zona estava marcada como terrenos baldios. E de certo modo continua a sê-lo, como pude verificar após a visita, quando procurava a casa Lemke, de Mies van der Rohe, que é nesse bairro. Enganei-me ao perguntar a direcção do museu a uma senhora que estava a entrar em casa: em vez de perguntar pela Oberssestraße, a rua da famosa casa do arquitecto, disse Genslerstraße, que é a rua da prisão. Estávamos a 300 metros do local, a senhora reconheceu perfeitamente o nome, mas não conseguiu dizer-me onde era.

Passámos da maquete do pátio para o edifício onde os soviéticos instalaram o primeiro campo prisional, no fim da guerra. Era na cave de uma antiga cozinha industrial, um sítio insalubre, húmido e sem janelas, a que chamam "o submarino". Os prisioneiros - desde os suspeitos de serem nazis aos que se opunham ao regime comunista - passavam semanas amontoados em quartos sem ventilação, com um balde a fazer de sanita e um estrado de madeira com palha onde dormiam na posição obrigatória: de costas, com as mãos em cima da barriga. A luz não se apagava nunca, e se um prisioneiro não estava a dormir na posição certa os guardas gritavam e batiam nas portas de modo a acordar todos os prisioneiros. Os interrogatórios eram feitos durante a noite - a tortura do sono era uma constante para todos.

A população também cai

Ao ler o último post do Zé Carlos, recordei-me que ainda não vos mostrei, nem falei do trabalho de Norwood Viviano, que tive oportunidade de ver na exposição Visions and Revisions: Renwick Invitational 2016, da Renwick Gallery, parte do Smithsonian American Art Museum, em Washington, D.C.

Uma das instalações de Viviano, Global Cities, ilustra a evolução da população de diferentes cidades do mundo durante vários milénios: no chão está desenhado um planisfério e, sobre as cidades principais, estão penduradas orbes de vidro cuja altura representa o tempo e a população é representada por círculos concêntricos que se sobrepõem.

À primeira impressão, as formas de vidro parecem naves extraterrestres que pairam sobre o mundo, mas na parede encontramos uma legenda em forma de gráfico, identificando o tempo no eixo vertical e as cidades pela forma da orbe ao longo do eixo horizontal.

A maior parte das cidades têm uma população que evolui numa forma parecida com um V, mas os lados não são lineares. A cidade mais interessante é Beijing, pois a sua população aumenta e diminui ao longo do tempo. Roma tem uma forma muito alta, em que se identifica um aumento -- o Império Romano -- e depois uma diminuição seguida de um ligeiro aumento durante os séculos mais recentes.

Tirei algumas fotos que vos deixo em baixo, mas podem ver imagens mais detalhadas na página de Internet do artista.




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Populismo 2.0



Na sequência do meu artigo no DN esta semana sobre o Portugal na periferia dos populismos, proponho algumas reflexões e considerações adicionais:

(1) Continuamos sem consenso sobre a definição de populismo. Mas recomendo A Very Short Introduction to Populism do qual penso haverá, em breve, uma tradução para português.

(2) A palavra “populist” faz parte do léxico político norte-americano, mas sem a conotação negativa que tem na Europa. Associa-se normalmente a movimentos políticos que dizem representar “ordinary people” em detrimento das elites. Ambos partidos, Democrata e Republicano, tiveram ao longo dos últimos 150 anos as suas fases “populist.”

(3) Em Portugal, os movimentos populistas são consensualmente maus. A palavra “populista” tem uma conotação muito negativa. Isso é uma valorização patrocinada pela comunicação social que, evidentemente, defende as elites visadas pelo discurso populista.

(4) Populismo e demagogia não são a mesma coisa. Parece-me claro que o populismo tem uma enorme dose de demagogia. Mas nem todo o demagogo é necessariamente populista.

(5) O populismo tem duas características fundamentais. Primeiro, oferece respostas simples a problemas complexos. Desse ponto de vista, usa a demagogia. Segundo, o populismo apresenta-se como alternativa ao sistema vigente, e não apenas ao governo no poder. Isto é, o populismo não se limita a criticar o poder conjuntural, buscando uma qualquer alternância, mas sim defende uma mudança de sistema pelo qual as atuais elites políticas (governo e oposição) devem ser substituídas por novas elites que finalmente resolvam os problemas das pessoas.

(6) Com esta definição, é claro que PS, PSD, CDS, CDU podem ter um discurso demagógico, mas não são populistas.

(7) Resta o Bloco. Defendo no artigo que o Bloco foi populista, mas deixou de ser. E dificilmente voltará a ser. Parece-me que o Bloco fez o mesmo processo de conversão ao sistema que os Verdes alemães nos anos 90.

(8) Uma das pensadoras da esquerda radical, Chantal Mouffe, argumenta isso mesmo. Diz ela que a verdadeira esquerda radical é um movimento e não um partido, assalta em vez de ganhar eleitoralmente o poder. Ou seja, quando a esquerda radical aceita as regras do jogo, entra em compromissos governamentais, ganha eleições em vez de assaltar o poder, então já não é “populismo” de esquerda, mas mais um partido do sistema. Como escreve Miguel Nogueira de Brito, “o objetivo da esquerda, dita radical, [é] «criar uma vontade coletiva das forças democráticas no sentido de exigir a radicalização da democracia e estabelecer uma nova hegemonia». Importaria assim à esquerda assumir abertamente uma atitude populista de esquerda, com o objetivo de promover movimentos populares capazes de mobilizar paixões conducentes à construção duma vontade popular erigida contra as forças que sustêm a hegemonia neoliberal.”

(9) Portanto o Bloco deixou de ser populista no momento em que chegou a um acordo com o PS. Independentemente da retórica que use.

(10) Quanto a Marinho Pinto e Paulo de Morais, parece-me que se integram claramente na definição de populismo anti-elite política.


Portugal, gostei de te beijar muito apaixonadamente na boca


Assisti pela internet a partes do funeral de Mário Soares. Senti-me comovida, e muito orgulhosa do meu país. O equilíbrio entre a homenagem da nação e a homenagem dos filhos João e Isabel, o claustro dos Jerónimos (curiosamente, quando o vi ontem pela primeira vez pensei que estariam a repetir imagens da cerimónia da adesão de Portugal à CEE), o maravilhoso registo da voz de Maria Barroso a declamar poemas, a voz de Mário Soares a dizer História, a dignidade das palmas populares ao passar do cortejo, a emoção das pessoas, tudo isso, e mais ainda: um Presidente da República culto e que sabe estar.

(Quase me senti tentada a agradecer a Cavaco parte da longevidade de Mário Soares: este não nos podia fazer a desfeita de morrer enquanto aquele fosse presidente, porque o país não aguentaria as vergonhas no funeral...)

Pelo meio, invoquei Eça e o seu olhar clínico sobre a nossa sociedade - os sinais de indigência humana e intelectual no que se tem lido por aí nos jornais e nas redes sociais, a par da falta de oportunidade dos repórteres que acompanharam as cerimónias fúnebres em directo (tipo: "porque é que está a chorar?", "vejo que não consegue falar, mas quer-nos dizer porque está tão emocionado?", "este é um momento de silêncio solene, ninguém fala. Ninguém? Não! Eu continuo aqui, firme e de pé, a cumprir a minha missão de matraquear os ouvidos dos telespectadores!"). Material que daria a Eça um magnífico romance de mil páginas. 

Voltando ao que foi realmente bom, sublinho dois momentos que me tocaram em especial:

A voz de Maria Barroso:




O final do poema de Baudelaire lido por Isabel Soares:


Ô Mort, vieux capitaine, il est temps ! levons l'ancre !
Ce pays nous ennuie, ô Mort ! Appareillons !
Si le ciel et la mer sont noirs comme de l'encre,
Nos coeurs que tu connais sont remplis de rayons !


Verse-nous ton poison pour qu'il nous réconforte !
Nous voulons, tant ce feu nous brûle le cerveau,
Plonger au fond du gouffre, Enfer ou Ciel, qu'importe ?
Au fond de l'Inconnu pour trouver du nouveau !



Antes de partir para o fundo do desconhecido em busca de algo novo, imagino Soares a olhar para a sua vida, e a concluir (pedindo emprestada a imagem de Jorge Sousa Braga):

Portugal, gostei de te beijar muito apaixonadamente na boca. 



A Rita Patinhas

Quando eu era pequena, gostava muito de ler livros do Patinhas e o Tio Patinhas era mesmo o meu preferido. Eu achava tão giro ele ser forreta e poupar tanto dinheiro. Mesmo depois de já ter uma conta no banco, eu mantinha uma lata de biscoitos vazia cheia de moedas. De vez em quando, passava algum tempo a contar quantas moedas tinha de cada denominação e apontava num papel, depois somava aquilo, e via quanto tinha na caixa. À falta de ter dinheiro suficiente para construir uma piscina de dinheiro, à la Patinhas, eu mantinha a minha lata de dinheiro.

Em Portugal, gostar de dinheiro e pensar em dinheiro são coisas sujas, típicas de pessoas moralmente depravadas, dispostas a qualquer coisa por dinheiro. De vez em quando, há pessoas que me dizem que eu só penso eu dinheiro. Notem que sou economista, mas mesmo se não fosse pensaria em dinheiro porque tenho plena consciência de que a minha sobrevivência depende muito de dinheiro. Quando estava em Washington, D.C., vi várias pessoas sem abrigo: um senhor que se deitou no passeio por cima dos exaustores do metropolitano para aproveitar o calor, uma senhora que se deitou, rodeada das suas coisas, num degrau largo contra uma parede, mendigos, etc.

No dia em que vi a senhora sem-abrigo a preparar-se para passar a noite estava com a minha amiga L. e disse à L. que, se eu alguma vez estivesse naquela situação, cometeria suicídio quase de certeza. A minha mãe sofria de depressão e tentou suicidar-se e eu passo grande parte do meu tempo a sair de mim e a observar o meu próprio comportamento porque tenho medo de ficar doente como a minha mãe e não sei se a depressão da minha mãe era o resultado de uma coisa genética que eu possa ter recebido dela. E é por isso que é importante para mim poupar: eu não estou apenas a poupar para a minha reforma, estou a tentar evitar cair numa situação em que possa ficar em depressão porque eu não sei como o meu cérebro funciona quando está deprimido e prefiro não descobrir. Ter poupanças permite-me sentir-me mais segura, até porque se ficar doente, terei de ter dinheiro para pagar o seguro de saúde e o médico, para além das despesas de casa.

Há um ano decidi apontar num caderno, duas vezes por mês, o valor das minhas contas poupança-reforma e das contas bancárias onde estaciono o dinheiro líquido. Depois calculo quanto aumentou a minha "cesta de ovos". Fazer este exercício regularmente ajuda-me a ter mais consciência não só do que poupo, mas também do que gasto, pois se gasto não posso meter o dinheiro nas poupanças e não aparece na contabilidade da minha cesta. E também cria aquela sensação de segurança de que estou a controlar a qualidade de vida da minha velhice. Até pode ser que as coisas acabem por correr mal, mas pelo menos sinto que dei o meu melhor e não estou completamente ao sabor da sorte.

Hoje lembrei-me de ir ver as duas contas poupança-reforma, que tenho na Fidelity, para ver o desempenho do ano passado. Numa delas, todo o dinheiro está investido num fundo de investimento com o ano alvo de reforma de 2040 e que é profissionalmente gerido; na outra conta, eu escolhi quatro fundos de investimento de forma a ter à volta de 25% em bonds e 75% em stocks, ou seja, a única gestão que fiz foi escolher as áreas onde investir e os fundos. Gosto muito de fundos que tenham baixos custos de gestão, em especial de fundos que imitam índices, como o S&P 500 ou o Nasdaq 100. Um outro critério que tenho é tentar escolher fundos que não estejam muito correlacionados uns com os outros.

Há pessoas que preferem escolher acções individuais, mas eu acho essa estratégia muito cara e arriscada para pequenos investidores como eu porque demora muito tempo a diversificar o nosso portefólio e cada vez que compramos acções temos um custo de transacção, logo um bom fundo tem custos mais baixos e diversificação mais alta imediatamente. E depois tem outra vantagem: os gestores dos fundos têm acesso a muito mais informação do que nós e os fundos onde eu invisto estão sujeitos a um processo exaustivo de "due dilligence" nos EUA. As flutuações de mercado não me incomodam muito, o que me preocupa é que o fundo não vá ao ar porque o meu objectivo é reter o fundo a longo prazo.

Em 2015, as minhas contas na Fidelity quase que ficaram estagnadas, mas em 2016 a que tem o fundo com o ano alvo de reforma cresceu à taxa de retorno anual de 8,7% (como referência, nos últimos 10 anos, que incluem o crash de 2008, este fundo cresceu a uma taxa média anual de retorno de 4,34%) e a que tem a mistura de fundos que eu escolhi cresceu a 13,9%. Ah, fiquei feliz... Mas este ano estou a contar com uma pequena correcção no mercado, o que dará jeito porque ainda estou a investir. Como meto sempre a mesma quantia na conta todos os meses, quer dizer que quando o preço de um fundo está alto compro menos quantidade e quando o preço está baixo compro mais, o que reduz o custo médio do meu investimento, um efeito a que os americanos chamam de dollar-cost averaging.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Todos os regimes caem

Roma começou por ser uma monarquia. Depois transformou-se numa república. No topo da hierarquia, havia dois cônsules com poderes iguais, eleitos anualmente e que não podiam ser reeleitos por um período de 10 anos; um senado, com 600 e tal senadores. Durante cerca de 300 anos a república funcionou bem, com os seus poderes e contrapoderes, chegando a ter no seu final de vida cerca de um milhão de cidadãos e, portanto, de eleitores. Entretanto, o império foi crescendo e a república começou a tremer. Os generais adquiriram um enorme poder, com os seus exércitos de milhares de soldados. Para controlar este poder ameaçador, criou-se a regra de os exércitos estacionarem às portas de Roma, apenas podendo fazer as suas marchas triunfais dentro da cidade após aprovação pelo senado. Durante muito tempo esta regra foi cumprida e respeitada. Até que apareceu Júlio César (100 a.C.- 44 a. C.). Como é sabido, ao passar o rio Rubição este génio político e militar desafiou de forma temerária as regras e desencadeou uma guerra civil, que ganharia a Pompeu na batalha de Farsália em 48 a.C.. Até essa famosa batalha, os feitos militares de César não tinham comparação possível com os de Pompeu. O que era, afinal, a Gália comparada com as conquistas no Oriente do seu rival? A história é conhecida. César ganhou o título de “ditador perpétuo”. Formalmente, a República manteve-se, mas tudo era supervisionado pelo ditador. Nos Idos de Março de 44 a.C. César foi assassinado no Senado com 23 punhaladas. Muitos dos conspiradores eram-lhe próximos, como Décimo Júnio Bruto Albino (general, conselheiro e amigo íntimo de César) ou Marco Bruto (filho de Servília, a mais importante amante de César). O povo não reagiu como os conspiradores esperavam. César era um político e governante populista ou popular, adorado e idolatrado pelo povo e pelas suas tropas. A liberdade que os golpistas diziam querer devolver a Roma não comoveu a populaça. Voltaram as guerras civis.
César achava há muito que Roma tinha um problema institucional. A república funcionava bem quando Roma era uma cidade-estado, mas não agora que se transformara num império. Era necessário centralizar o poder num só homem, para garantir a ordem e a estabilidade. Havia quem achasse que o problema de Roma não era institucional, mas sim moral. Era o caso de Cícero. Antes, dizia o célebre orador e político, os dirigentes quando tinham de tomar decisões perguntavam sempre primeiro: o que é melhor para Roma? Desgraçadamente, o “individualismo” tomara conta dos homens e estes passaram a pôr os seus interesses à frente dos da República. O que Roma precisava era, por conseguinte, de uma regeneração moral. Fosse qual fosse o problema, institucional ou moral, a república morreu e nasceu o império com Gaio Octávio Turdo (sobrinho de César) e futuro Augusto. E durante muito tempo o “Império” também funcionou bem. Até ao dia em que caiu nas mãos dos bárbaros. A Europa afundou-se por séculos na idade das trevas.
Moral da história? Todos os regimes caem. Até Roma.

A vida no xadrez

Ontem à noite, madrugada daí, saíram notícias de que a Rússia tinha recolhido informação que comprometeria Donald Trump. Tal informação foi incluída no relatório que Trump e Obama receberam a semana passada no "briefing" das "Intelligence Agencies", a seguir ao qual Trump dizia que, sim, tinha havido interferência da Rússia, mas não tinha sido suficiente para lhe dar a vitória. Hoje de manhã, realizou-se a primeira conferência de imprensa de Trump, desde Julho do ano passado.

Os tweets de Trump de hoje acusaram os media liberais de lhe estar a lixar a vida, pois a informação que, supostamente, contém o relatório das Intelligence Agencies é absolutamente falsa -- a veracidade da informação ainda não foi confirmada por nenhuma agência. Os assessores de Trump também garantem que a informação é falsa, é tudo lixo para lixar o Presidente-Eleito, mas estas são as mesmas pessoas que, quando confrontadas com o vídeo do pussygate, disseram que a família Trump não permitiu que se fizesse uma investigação detalhada dos "podres" potenciais de Trump para se defenderem de possíveis escândalos.

Garry Kasparov, o campeão de xadrez, a meio de 2016, quando saíram notícias acerca dos russos terem infiltrado os computadores e e-mails dos Democratas, disse que o mais provável era que os russos tivessem informação de Democratas e Republicanos, mas usariam a informação de Clinton para ajudar a eleger Trump e a informação de Trump para fazer chantagem com ele e conseguir uma política americana mais favorável à Rússia. O The Guardian tem um "Explicador" acerca do relatório que suporta esta ideia.

Se esta teoria tem mérito, então toda a discussão das infiltrações dos russos não tem o objectivo de desacreditar Trump, mas sim de desarmar a Rússia, de forma a que Trump não seja alvo de chantagem. E o mais engraçado é que este relatório foi dado a James Comey por John McCain, que é Republicano.