quinta-feira, 21 de abril de 2022

Pandemia quê?

Com as notícias focadas 24/7 na Guerra Rússia-Ucrânia e na inflação, a pandemia está cada vez mais marginalizada. Onde estou, ainda há pessoas que usam máscara quando em recintos fechados, mas cada vez se vê menos. Os restaurantes têm ainda menos ou quase nenhuns mascarados, mas nota-se que alguns estabelecimentos têm muito menos movimento do que tinham pré-pandemia. Ainda há muitas pessoas que preferem encomendar e ir buscar ou pedem entrega ao domicílio. 

Esta semana, um tribunal federal repeliu o uso obrigatório de máscara em aviões e outros transportes públicos, mas a Administração Biden já iniciou o processo de apelo da decisão. Há também algum receio que não se consiga monitorizar o desenvolvimento da pandemia, agora que as pessoas têm acesso a testes em casa, logo os resultados dos testes não são reportados. 

Ou seja, entrámos numa de preso por ter cão e preso por não ter, dado que a própria Administração facilitou o acesso a testes no domicílio. Já estamos no terceiro ano de pandemia, as pessoas já deviam saber como se comportar e como gerir o risco do vírus. É um bocado paternalista e redutor achar que somos todos uns incapazes.  


sexta-feira, 8 de abril de 2022

Uma biologia horrorosa

Nunca uma guerra decorreu tão perto de nós, estando nós tão distantes. O tio de uma amiga minha não consegue parar de ver as imagens destes horrores. Tem 87 anos e nasceu na Polónia. Quando era criança teve de andar de país em país por causa da guerra, até que chegou às mãos dos americanos e veio para os EUA. Imaginamos que as imagens que lhe chegam agora têm algo de familiar, mas ele nunca disse a ninguém o que viu quando era jovem. Se calhar pensava que pertencia a um passado longínquo que jamais se repetiria.

Um dos meus amigos mais próximos desde há 25 anos é da ex-USSR. No Facebook, recorda que, quando tinha 17 anos, viu um tanque soviético atropelar uma ambulância soviética. Pediu explicações ao pai para o que viu, mas o pai não lhe disse nada. O que poderia ele dizer, se o acto falava por si? Este meu amigo evoca este episódio a propósito de uma menina de 9 anos que foi violada na Ucrânia por 11 soldados. russos. Como é que 11 jovens diferentes cometem um acto destes, pergunta-se ele? 

Há uma parte da nossa biologia que é completamente horrorosa. 

terça-feira, 5 de abril de 2022

Catch-22 histórico

Uma amiga minha russa, que conheci há quatro anos, fala-me sempre do alto nível de educação dos russos, do apreço pela cultura, pela beleza, o estudo da literatura, da arte... É tudo elevado na Rússia e como é que um povo desta suposta sensibilidade se reduz a esta brutalidade passa-me completamente ao lado. 

Há cinco anos, passei a passagem de ano no meio de pessoas da ex-USSR. As senhoras de idade soviéticas, em particular, gostam sempre muito da minha cara e naquela festa não foi diferente; claro, que também são grande defensoras do regime soviético, logo as suas preferências não abonam muito a meu favor, mas adiante. Para além de mim, estavam umas 20 pessoas de três gerações diferentes e de vários países: Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia, Geórgia... Toda a gente se entendia em russo, menos eu, que me limito a reconhecer palavras como privyet, spaciba, e pajalsta. Pelo menos, sou uma pessoa educada.

Foi uma noite muito pacífica apesar do copioso consumo de vodka: comeram, cantaram, jogaram jogos--eu também consegui jogar porque algumas coisas tinham a ver com reconhecer músicas e, em anos 80 e 90, sou craque. Eles todos olhavam para mim com admiração por eu me conseguir orientar nos jogos e até cantei uma canção em português e, se me lembro correctamente, foi o "O amor" dos Heróis do Mar, porque o tópico era amor. 

Achei que tinha representado bem Portugal junto dos cidadãos da Europa de Leste, mas confesso que de vez em quando olhava para eles e tentava perceber se algum era um espião de Putin. Podia ser uma pequena paranóia minha, depois de crescer a ver filmes como o No Way Out, com o Kevin Costner, mas talvez não fosse exagero meu porque depois viemos a saber que os russos tinham andado a fazer "campanha" pró-Trump. 

Nessa viagem, a amiga com quem eu estava tinha-me levado uma semana antes ao monumento da fome-genocídio da Ucrânia, em Washington, D.C., que marca um evento que eu desconhecia até então, mas ela educou-me: desde então os ucranianos têm uma pequena horta onde cultivam comida, como se se preparassem para um evento semelhante ao que aconteceu há quase 90 anos. E eis que chegámos à inevitabilidade histórica, mas desta vez ter uma pequena horta de pouco ou nada serve. 

Também não servirá daqui a uns anos, quando a Rússia atacar outra vez. Sim, porque a maior parte dos russos, aquele povo tão educado e sensível, não tem ideia do que se passa e estarão prontos para seguir o próximo lunático quando o seu nível de vida piorar com as sanções a que estão a ser sujeitos. Claro que, se não forem castigados, o resultado é o mesmo porque haverá sempre um lunático que achará por bem tentar a sorte de novo porque não aconteceu nada ao primeiro. Se isto não é um Catch-22 histórico...  

sábado, 2 de abril de 2022

A propósito da liberdade

 E também dos tempos que vivemos:

“Yes, that rebirth is in all our hands. It is up to us if the West is to inspire resisters to the new Alexander the Greats who must once more secure the Gordian knot of civilization that has been torn apart by the power of the sword. To accomplish this, we must all run every risk and work to create freedom. It is not a question of knowing whether, while seeking justice, we will manage to preserve freedom. It is a question of knowing that without freedom, we will accomplish nothing, but will lose, simultaneously, future justice and the beauty of the past. Freedom alone can save humankind from isolation, and isolation in its many forms encourages servitude. But art, because of the inherent freedom that is its very essence, as I have tried to explain, unites, wherever tyranny divides. So how could it be surprising that art is the chosen enemy of every kind of oppression?”


Excerpt From

Create Dangerously

Albert Camus & Sandra Smith

https://books.apple.com/us/book/create-dangerously/id1458259955

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sexta-feira, 18 de março de 2022

Contra dicção, da má e dita dura

Tendo vivido no estrangeiro toda a minha vida adulta, mas continuando a assumir as minhas origens lusitanas, acabo por ser uma pseudo-embaixadora de Portugal, que dá o país a conhecer a quem nunca lá pôs os pés e, se calhar, não porá. Nesta minha actividade involuntária, umas das perguntas que me fazem é o porquê de Portugal não ser parte de Espanha. Eu respondo simplòriamente que já foi--entre 1580 e 1640 estava sob a alçada dos Filipes de Espanha, mas depois disso nunca mais porque somos diferentes, resumo eu, dado que há bastante divergência entre uma paella e um arroz à valenciana, ou não fosse Espanha feminino e Portugal masculino.  

Isto veio-me à cabeça quando a Rússia decidiu continuar a sua incursão pela Ucrânia o mês passado porque um amigo meu português perguntou-me logo se os portugueses se empenhariam em se erguer contra um invasor. Não, foi a minha resposta. A forma como nos protegemos de invasores não é pela força. Quando os franceses tentaram invadir, o governo de Portugal foi para o Brasil, que tecnicamente era Portugal, e a defesa do continente ficou ao cuidado dos ingleses. No século seguinte, não é de admirar, então, que a Ditadura tenha durado tanto, que praticamente caiu de podre e, quando já se vislumbrava outra, para se defender contra os excessos do PREC chamaram-se os americanos. Mais tarde, foi a vez de se chamar os europeus: uma das razões invocadas para se aderir à CEE era mesmo proteger o país de si próprio, de forma a se manter em suposta democracia. 

No mês que vem vamos comemorar a virtude do povo lusitano em se auto-determinar contra a Ditadura que durou quase meio-século. Pelo meio, vozes que defenderão a revolução de Abril também se erguerão pela invasão de Fevereiro porque russos e ucranianos é tudo a mesma coisa, comem todos salada russa temperada com maionese e com presunto em vez de atum. Mormente, defender ditadores russos que atacam inimigos políticos em Inglaterra é tão válido como atacar ditadores portugueses que engodam inimigos políticos até Espanha para os matar. Não há contradicão, desde que uma diferente dicção indique a coisa que é má e dita dura, da que é virtuosa e deveras pura.

 

terça-feira, 15 de março de 2022

Impasse moral

Depois de quase três semanas de guerra, a Rússia não consegue dominar a Ucrânia, mas também não sai em retirada. Há duas teorias acerca de como proceder. Uma é que tem de haver uma forma de Putin sair disto sem ser humilhado perante os russos de forma a continuar no poder. Se ele suspeitar que pode perder tudo, então pode muito bem causar ainda mais estragos. A outra é que o ocidente devia juntar forças e dominar os russos até que fosse claro quem saía vitorioso e não seria a Rússia e muito menos Putin -- aliás, convinha que ele fosse despachado porque sabe-se lá o que poderá fazer na sua próxima incursão megalomaníaca.

Tudo isto é muito bem argumentado, mas a realidade tem sempre muito mais nuance do que a estratégia. Os EUA são uma potência militar, só que a história recente demonstra que ter dominância militar não só não é suficiente para dominar o adversário, como o apoio do público americano é caprichoso -- note-se que o apoio dos europeus também não é muito melhor. Ficamos então reduzidos à eterna contradição moral de que não há melhor forma de conseguir solidariedade do que imagens de destruição, feridos, e mortos: os ucranianos precisam de continuar a sofrer para que o ocidente apoie a sua causa. 

segunda-feira, 7 de março de 2022

Podia ser pior

Até agora, a única surpresa no conflito Russa-Ucrânia foi a rapidez com que a opinião pública internacional se mobilizou para apoiar a Ucrânia, não só em termos de apoio moral, mas também através de transferências criativas de fundos. Nas redes sociais, as pessoas organizaram-se para acolher os refugiados russos, ultrapassando os limites burocráticos normais. No Airbnb, pessoas de todo o mundo fazem reservas de casas na Ucrânia como forma de transferir dinheiro rapidamente para os ucranianos. As organizações não-lucrativas também mobilizaram esforços rapidamente. Por exemplo, demorou um dia para a World Central Kitchen activar os esforços na Ucrânia para alimentar refugiados. Este é, sem dúvida, o maior valor das redes sociais e da Internet e já tinha sido evidenciado aquando da retirada desastrosa dos americanos do Afeganistão.

Talvez a maior arma que existe contra Putin seja a da informação, pois o apoio do povo russo depende do enquadramento dos factos e por isso Putin não só bane as redes sociais que não controla, como o Parlamento russo modificou a legislação para contemplar penas de prisão para quem disseminar informação que contradiz a versão oficial. Esse é o seu ponto fraco e quanto mais o conflito se arrastar, mais difícil será justificar o número de mortos russos, mais a versão que os militares russos em campo dão às suas famílias directamente como a conversa de um soldado russo com a sua mãe momentos antes de morrer ou ucranianos a recolher soldados russos e a facilitarem o seu contacto com a família. Os telemóveis são uma das armas mais poderosas que existe hoje em dia.  

De acordo com um relatório de fontes europeias e americanas noticiado pelo NYT, o governo chinês pediu à Rússia que adiasse a operação na Ucrânia para depois dos Jogos Olímpicos de Inverno, mas como em 2008, a Rússia invadiu a Geórgia durante os Jogos Olímpicos de Verão, que se realizaram em Beijing, o que não agradou aos oficiais chineses, talvez nem fosse preciso um acordo explícito. A China tem mantido uma postura neutra neste conflito, mas nos últimos anos tinha havido uma aproximação entre a Rússia e a China. A economia russa é mais pequena do que a economia do Texas, logo não há grande vantagem para os chineses sacrificarem as suas relações com o ocidente para ficar ao lado da Rússia. 

Até agora os EUA seguiram uma estratégia que evitasse o conflito directo com os russos, retirando antecipadamente forças armadas americanas da Ucrânia e avisando o resto do mundo dos riscos. Se Putin quisesse humilhar os EUA, a forma mais fácil teria sido não invadir e assim os americanos teriam sido caracterizados como uns exagerados -- o tal exagero que levou a que invadissem o Iraque sob George W. Bush. Ao não entrar em conflito directo com os russos, os americanos também limitam a máquina da propaganda de Putin, pois não há fotos de americanos a atacar russos. 

Os erros passados dos americanos serviram de guia para o actual conflito: para além da invasão do Iraque, queria evitar-se uma situação parecida com a da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, um falhanço estratégico de JFK em 1961 que levou a que a Rússia ganhasse mais influência em Cuba e tivesse mísseis nucleares apontados directamente aos EUA em 1962. Em vez disso, há décadas que a Europa e os EUA não estavam tão alinhados em termos de política internacional. 

sábado, 5 de março de 2022

Mudem de grafia

Kyiv é a capital da Ucrânia em ucraniano. Kiev é a capital da Ucrânia em russo.

Por razões óbvias, temos de eliminar a grafia do agressor.



sexta-feira, 4 de março de 2022

Em parafuso...

O mundo, neste momento, divide-se entre os que cultivam a esperança e os que se entregam à loucura. Pragmatismo e cabeça fria valem ouro, dada a sua raridade. 

Fui completamente apanhada de surpresa, ontem, quando um amigo meu me disse que tinha estado a falar com a família em Portugal a despedir-se por causa do ataque à central nuclear. Talvez a memória seja curta, mas quando tivemos a explosão em Fukushima (2011), aprendemos que os efeitos, apesar de maus, não seriam tão gravosos quanto se pensava.  

Mas e Chernobyl (1986), perguntam vocês, que até foi na Ucrânia? Esse sim, foi muito mau, mas aconteceu antes da queda do muro de Berlim, quando o que se passava na USSR ainda estava envolto em nevoeiro. Depois, por ter sido tão mau e por quem ter sofrido mais terem sido os ucranianos, sabemos que estes tomaram medidas de segurança para que a história não se voltasse a repetir.  Os ucranianos têm memória longa, já aqui falei sobre isso em 2016. Mesmo assim, o resto do mundo -- que inclui Portugal -- tem obrigação de ajudar os ucranianos com coisas mais concretas do que posts esperançosos no Instagram e Facebook.

Há um completo vazio de liderança política em Portugal, apesar de termos tido eleições um mês antes do início da invasão e da clara predilecção dos portugueses por bazucas. António Costa está MIA, como é normal sempre que as coisas vão para o torto. Marcelo preocupa-se em oferecer telefonemas de afecto ao presidente russo, o que lhe garante cobertura de primeira página. Rui Rio, que teoricamente é o líder do maior partido da oposição costuma deferir para António Costa porque, por admissão própria, é incapaz de oferecer melhor. 

Nos partidos minoritários da Esquerda portuguesa, o PCP acusa os EUA de serem a causa do problema -- quem lê o que os comunistas escrevem pensaria que foram os americanos que anexaram a Crimeia em 2014. O Bloco de Esquerda, que normalmente é a cúspide do humanismo em Portugal, absteve-se da votação ao empréstimo à Ucrânia no Parlamento Europeu. Com amigos destes, ninguém precisa de inimigos. 

Portugal que tem uma posição geográfica privilegiada entre os EUA e a Europa comporta-se como se fosse completamente irrelevante no plano estratégico mundial. Povo desnaturado, que nem em situações da maior gravidade se sabe erguer e lutar por uma causa nobre.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Assistência

  “When you part from your friend, you grieve 
not;
    For what you love most in [her] may be 
clearer in [her] absence, as the mountain to the
climber is clearer from the plain.” 

   ~ Kahlil Gibran, “The Prophet”

Ontem assisti a uma morte. Não sei bem o que sinto, não é tristeza, nem propriamente um vazio, apenas que estive presente até ao fim. Já esperávamos que a mãe da minha vizinha viesse a falecer, mas não sendo da família, não contava acompanhar o processo tão de perto. Só que não é propriamente verdade que não seja da família porque logo no início, quando conheci a senhora, ela perguntou-me acerca da minha família. Quando lhe disse que não tinha família nos EUA (pelo menos não de sangue), imediatamente me respondeu, mal me conhecendo, que daí para a frente a família dela seria a minha família. E foi assim que fui adoptada por mais uma família americana.

Durante quase dois anos, acompanhei-a de perto e tentei estar presente. No que me foi possível, prestei a minha ajuda: fiz-lhe companhia, conversei com ela, joguei jogos, tentei fazê-la sorrir usando humor, que ela apreciava muito, cozinhei para ela, etc. Ontei, segurei-lhe a mão, fiz-lhe festas no braço, e assisti à sua etapa final. A minha vizinha, que é a sua filha mais nova, estava do outro lado, ajudando-a. A filha mais velha, do mesmo lado que eu, tentava comfortá-la, segurando-lhe a cabeça, beijando-lhe a testa, e conversando com ela, dizendo-lhe que a amávamos.

Antes da minha visita, levei o Julian a passear e comecei a ouvir o álbum Aun, de Christian Fennesz, cuja música me tinha acompanhado noutras perdas. Durante o passeio telefonei à minha vizinha para ver como estavam as coisas. Não muito bem, disse-me, e dirigi-me a casa dela assim que terminei. A mãe estava com os olhos abertos, respirando com dificuldade. Tentei fazer-lhe festas e conversar com ela: estava muito frio na rua e as minhas mãos estavam frias, só lhe podia tocar sobre o cobertor, expliquei. Sentei-me numa cadeira ao lado dela e conversei com as filhas e até foi animado.

Há dias, noutro passeio com o Julian, encontrámos um porco preto enorme no jardim de um vizinho: estava deitado nuns cobertores e até tinha uma taça de comida. Era tão grande que pensei que aquilo era muito bacon, contava eu à irmã da minha vizinha, que não acreditava porque não é legal ter animais agrícolas dentro da cidade. Mas estava lá, eu até tinha tirado duas fotografias, afirmei. Então mostra-me, dizia ela, e eu apresentei as minhas provas e ela continuou admirada, mas convencida. Depois falámos de viagens que eu tinha planeadas e de outros assuntos que já se remeteram ao esquecimento. 

A irmã da minha vizinha entrava e saía do quarto, e houve alguns momentos de silêncio. No ar, senti um odor estranho, que me era desconhecido. Já há muito que não cheirava algo que me incomodasse tanto; quando era miúda era extremamente sensível a odores, mesmo perfumes agradáveis, mas fortes, causavam-me vómitos. Aquilo que cheirei ontem era quase desse calibre; era a úlcera de Kennedy: a pele, que é um órgão, começava a falhar.

Enquanto eu e a minha vizinha estávamos sozinhas no quarto, a mãe deu dois suspiros repentinos e levantámo-nos para a assistir. O coração quase que não se ouvia e apenas respirou mais umas três vezes, já a filha mais velha tinha regressado. Nós apenas assistimos e tentámos dar todo o conforto possível. Assistir à morte de alguém deve ser um dos primeiros sinais de civilização. Decerto que, nos nossos primórdios, poucos sobreviviam até à velhice e quase todos acabavam por ser comidos por predadores. 



 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

O conquistador

Depois de dizer que queria defender o direito de duas províncias ucranianas se manterem independentes, o Sr. Putin decidiu invadir a Ucrânia. Em 2014, tinha decidido anexar a Crimeia; em 2008, optou por dar cabo da Geórgia. Ou seja, acha-se um grande conquistador, à semelhança de nós portugueses. 

A Europa não fez nada para o impedir, pelo contrário, andou a aliciar a Ucrânia com uma possível entrada para a UE, o que levou à anexação da Crimeia. Concomitantemente, os americanos foram criticados por só saberem usar e abusar do seu poder militar, logo os EUA não têm nenhuma vantagem em interferir nas manobras de Putin, apenas avisam de que a situação não é muito boa. E daqui a nada começam a oferecer vistos aos refugiados.

Com ou sem invasão, Biden só vai durar um termo, logo nada mudou nos EUA. Siga para bingo...


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Fact-checking Putin

Coincidências

A Rússia é o maior fornecedor de gás natural líquido da União Europeia; mas, em 2018, durante a administração Trump, os EUA assinaram um acordo com a UE exactamente para facilitar o acesso de gás americano ao mercado europeu. Desde então, as exportações americanas para a Europa aumentaram e, em Dezembro de 2021, metade das exportações dos EUA foram mesmo para a UE, o que constituiu um recorde. O Sr. Putin decerto que não está muito satisfeito com os americanos e europeus. 

Parece-me que o objectivo dos EUA é fazer à Rússia o que fez ao Médio Oriente: reduzir o seu poder de mercado. Dado que os americanos agora são exportadores de gás natural, quando a Rússia causa problemas que aumentam o preço, fica mais atractivo para os americanos exportarem. Tal como eu escrevi em 2015 sobre a Arábia Saudita, esta estratégia de manter preços de energia altos favorece os americanos.

Nos EUA, os preços domésticos de gás natural também aumentaram e muitos dos meus vizinhos andam no NextDoor a queixar-se da alta conta de gás natural que receberam no último mês (a minha conta de gás cá em casa foi de $377 referente ao período de 8 de Janeiro a 8 de Fevereiro, mas eu acendo a lareira muito frequentemente). Só que os americanos têm dinheiro para pagar a conta: queixam-se que são pobrezinhos, mas até estão bastante bem dadas as circunstâncias: a mediana dos activos líquidos de uma família americana é de mais de $121 mil. E mesmo os mais pobres têm acesso a programas que os ajudam a pagar a conta de energia. 

 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Feels like you're dying

"Are you sure you want to see it? You cannot unsee it once you do." foi este o aviso que a minha vizinha me deu quando estava a falar com a enfermeira da mãe dela, que me tinha perguntado se eu queria ver uma foto de uma paciente do "hospice" alguns dias antes de morrer. Respondi que queria ver, mas senti um enorme vácuo dentro de mim enquanto olhava para a imagem. 

Nunca me tinha ocorrido que alguém sobrevivesse assim, o corpo completamente gasto, a pele e a carne já em estado de decomposição. Não se vêem músculos, apenas a definição dos ossos cobertos por pele solta, drapeada que nem um tecido, intercalada por recortes de negro. Perguntei se tinha deixado de comer, mas não, naquela altura, a senhora continuava a comer três refeições por dia, mas o sistema digestivo já não devia funcionar o suficiente para levar os nutrientes aos órgãos.

Talvez o vácuo que senti antes, durante, e depois seja uma forma de aceitação: aquele corpo gasto também faz parte da nossa vida. Que alguém se agarre tanto a esta existência, que não morra sem levar tudo o que acumulou, que essencialmente é o que tem no corpo, impressiona. Na realidade, tudo o que fazemos ao nosso corpo afasta ou atrai a nossa morte. "Death is a blessing, in these circumstances" -- "a blessing", observava a enfermeira, uma palavra que raramente uso, mas que ouvi pela segunda vez esta semana. A primeira vez, fui eu que a proferi, mas a respeito de acontecimentos da minha vida -- os tais males que vêm por bem. 

Até agora, nunca tinha acompanhado de perto o crepúsculo da vida de ninguém a este nível. Todas as pessoas que me morreram não chegaram a ter um desgaste de vida tão avançado como o daquela senhora, mesmo o corpo da mãe da minha vizinha ainda não chegou a tal estado. É uma dádiva que recebo, este conhecimento que me dão, e sinto uma admiração enorme por pessoas como esta enfermeira que vivem na cúspide entre a vida e a morte, que dedicam a vida à curadoria da morte de alguém.

"My patients tend to live longer", diz-nos: ela constrói um laço emotivo com eles, a forma como fala, como lhes toca... Não trabalha das 8 da manhã às 5 da tarde; em vez disso, disponibiliza o seu número de telefone e acompanha as famílias dos pacientes fora das horas de expediente. Às vezes, quando ouço alguém falar dos direitos dos trabalhadores a não serem incomodados fora do horário de trabalho, sinto um profundo nojo porque sei que há quem não faça essa distinção e continue a trabalhar para benefício dos outros. Essas pessoas merecem reconhecimento, em vez de censura.

Tenho dormido em ciclos, costumo acordar a meio da noite e passo algum tempo acordada até voltar adormecer. Durante o dia, prefiro os dias nublados, acho a claridade demasiado ofensiva e só consigo sentir-me melhor perto do pôr do sol. Contei à minha vizinha os meus problemas de sono, a minha vontade de não fazer nada. Ela diz que decerto que há uma carga emocional que não posso ignorar por estar tão próximo da mãe dela. Talvez. Sinto que dentro de mim, há um misto de paz, aceitação, e rebeldia. 

Há algo que me puxa para seguir em frente, mas penso não quero que ninguém tenha tanto cuidado comigo quando estiver perto de morrer. Quero morrer antes, sem dar trabalho aos outros, apesar de sentir um enorme conforto em poder ajudar de cuidar de alguém. Não consigo resolver esta dicotomia interior.  

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Deduz-se então!

No outro dia, num comentário, um dos leitores mostrou-se preocupado com a questão de os arrendatários nos EUA não terem direito a deduzir a renda de casa. A dedução mínima nos EUA é de $12550 para uma pessoa individual e $25100 para um casal, ou seja, para parte da renda ser dedutível, teria de ser superior a $1046/mês para um indivíduo e $2092/mês para um casal. Estas rendas encontram-se facilmente nas cidades maiores, mas são consideradas altas fora das zonas urbanas. Depois, no caso de um casal, quem tem $2092/mês para uma renda é capaz de conseguir comprar uma casa e o governo federal tem várias formas de apoiar a compra de casa. 

Deduz-se então que ao ter uma dedução mínima, mas não permitir deduções de rendas, enquanto permite deduções de juros da compra de casa, o sistema americano distorce o mercado em pelo menos três formas: (1) torna as zonas não-urbanas mais atractivas para arrendamento do que as grandes cidades; (2) incentiva a compra de casa em vez do arrendamento, o que promove a acumulação de riqueza a longo prazo; (3) promove os estados com custo de vida mais barato e penaliza os estados mais caros.

Por vezes, estas distorções até são agravadas pelos governos dos próprios estados: por exemplo, a Califórnia limita a construção de novas casas e muitas cidades têm zoneamento bastante restritivo, logo o mercado imobiliário aprecia bastante, o que força as empresas a ter de pagar salários mais altos para atrair mão-de-obra. O efeito destas políticas é que muitas empresas têm vindo a mudar-se para estados com custo de vida mais em conta, como o Texas ou o Tennessee. 

Mesmo indivíduos reformados escolhem sair de Nova Iorque ou da Califórnia para ir viver noutros sítios onde possam esticar o seu pé de meia. Ainda por cima, ao vender a casa, não se paga imposto sobre a mais-valia porque o governo federal presume que a valorização da casa se deveu em parte ao esforço dos donos que a mantiveram.

E os pobres, como é que ficam? Imagine-se alguém que tem um emprego em que ganha o salário mínimo -- o salário mínimo federal é de $7.25/hora ou cerca de $14500/ano (multiplica-se o salário por hora por 2000 horas para chegar ao anual). Do ponto de vista dos americanos, não é desejável que haja muita gente a ganhar o salário mínimo, mas há empregos que pagam o salário mínimo em todo o lado, logo não é necessário a pessoa viver num sítio onde o custo de vida seja caro. 

Para além disso, os pobres têm direito a vários programas de apoio por via dos governos federal e dos estados. Se a pessoa escolhe viver num sítio mais caro, é uma escolha pessoal que o governo federal não acha que tem de subsidiar. Aliás, é esse mesmo o problema: enquanto que os portugueses têm um enorme afecto pela palavra subsídio e são indiferentes a impostos; os americanos detestam subsídios e impostos.