Um blogue de tip@s que percebem montes de Economia, Estatística, História, Filosofia, Cinema, Roupa Interior Feminina, Literatura, Laser Alexandrite, Religião, Pontes, Educação, Direito e Constituições. Numa palavra, holísticos.
sexta-feira, 31 de março de 2017
Como ficar pobre
Depois da crise financeira de 2008 e de ter ficado sem emprego duas vezes, concluí que todos nós que dependemos do nosso trabalho para ganhar a vida, estamos a um ou dois eventos de ficar pobres. Nos EUA, em particular, isto é bastante real. Mesmo que sejamos qualificados, trabalhadores, com um bom CV, basta ter um azar e toda a nossa vida muda completamente. Esta minha tendência para pensar no pior não me ganha muitos amigos; pouca gente quer pensar em coisas tristes e, de vez em quando, dizem-me que sou um bocadinho chata, pessimista, obcecada por dinheiro, etc.
Muita gente não percebe que está tão próximo da pobreza porque o normal é não haver grandes azares na vida da maior parte das pessoas e depois há a questão da visibilidade: enquanto que alguém de sucesso é reverenciada, aparece em jornais, mostra a sua boa sorte nas redes sociais, quem tem azar é muito mais discreto voluntária ou involuntariamente. A pobreza não é sexy, a não ser que acabe em riqueza.
Só quem tem um stock de riqueza acumulado é que tem maior probabilidade de estar resguardado do risco de acabar na pobreza; mas, mesmo assim, é preciso ter um estilo de vida que não exausta essa riqueza ou essa riqueza tem de gerar retorno que compense o estilo de vida, o que requer algum conhecimento de gestão financeira. Afinal, há bastantes pessoas que conseguiram acumular boas fortunas e depois as perderam. Mesmo os que ganham a lotaria frequentemente acabam mais pobres do que antes de a ganhar.
No Washington Post, a Michelle Singletary, colunista de Finanças Pessoais, aconselha as pessoas a serem um bocado mais humildes, porque ninguém está livre de acabar pobre depois de um azar, ou mais, e recomenda a leitura de um texto de William McPherson, um jornalista do WashPost que ganhou o Prémio Pulitzer, nunca tinha sido pobre, mas acabou na pobreza porque decidiu trabalhar por conta própria em vez de manter o emprego, teve um ataque cardíaco, etc.
Muita gente não percebe que está tão próximo da pobreza porque o normal é não haver grandes azares na vida da maior parte das pessoas e depois há a questão da visibilidade: enquanto que alguém de sucesso é reverenciada, aparece em jornais, mostra a sua boa sorte nas redes sociais, quem tem azar é muito mais discreto voluntária ou involuntariamente. A pobreza não é sexy, a não ser que acabe em riqueza.
Só quem tem um stock de riqueza acumulado é que tem maior probabilidade de estar resguardado do risco de acabar na pobreza; mas, mesmo assim, é preciso ter um estilo de vida que não exausta essa riqueza ou essa riqueza tem de gerar retorno que compense o estilo de vida, o que requer algum conhecimento de gestão financeira. Afinal, há bastantes pessoas que conseguiram acumular boas fortunas e depois as perderam. Mesmo os que ganham a lotaria frequentemente acabam mais pobres do que antes de a ganhar.
No Washington Post, a Michelle Singletary, colunista de Finanças Pessoais, aconselha as pessoas a serem um bocado mais humildes, porque ninguém está livre de acabar pobre depois de um azar, ou mais, e recomenda a leitura de um texto de William McPherson, um jornalista do WashPost que ganhou o Prémio Pulitzer, nunca tinha sido pobre, mas acabou na pobreza porque decidiu trabalhar por conta própria em vez de manter o emprego, teve um ataque cardíaco, etc.
"McPherson says he miscalculated his money and financial skills. In 1987, at 53, he decided to leave The Post and write about Eastern Europe as a freelance journalist.
“I chose retirement because I was under the illusion — perhaps delusion is the more accurate word — that I could make a living as a writer and The Post offered to keep me on their medical insurance program, which at the time was very good and very cheap,” he writes. “The pension would start 12 years later when I was 65. What cost a dollar at the time I accepted the offer, would cost $1.44 when the checks began.”
He had investments — a 401(k), a Keogh — money from some real estate ventures, and even some inheritances. It would all have been enough.
Except, it wasn’t.
He spent more than he should have in Europe, and the cost of recovering from a major heart attack further drained his finances."
Fonte: Michelle Singletary, The Washington Post
quinta-feira, 30 de março de 2017
Era só um milagrito!
Hoje matei um esquilo pela primeira vez, enquanto conduzia. Fiquei capaz de morrer. É verdade que, de vez em quando, estas criaturas me chateiam porque escavacam as minhas plantas no pátio. Não percebo porque implicam com o meu pátio, pois eu até lhes deixo nozes de vez em quando, num buraco de uma árvore. E aquela vez que, em Memphis, tive de pagar mais de $1.000 a alguém porque os esquilos tinham conseguido entrar na estrutura da minha casa? Fiquei chateada com o custo das reparações, mas o serviço também incluía apanhar os esquilos malandrecos e mudá-los de sítio, para longe de onde eu vivia. Ninguém os matou.
Dizia eu que, hoje de manhã, ia eu devagar, quando um esquilo aparece a sair de uma valeta, a correr para a estrada. Não tive tempo para fazer nada, pois se travasse era capaz de o passar a ferro -- foi a única coisa que me ocorreu. Talvez devesse ter acelerado, mas era difícil para mim avaliar em que sítio do meu carro o bicho estava. Olhei para o retrovisor e ele estava deitado na estrada, os pelinhos da cauda esvoaçavam com a brisa. Virei o carro para voltar atrás, estacionei, fui buscar um pano que trago na mala, e fui auxiliar o esquilo. Se estivesse vivo, levá-lo-ia ao hospital dos animais.
Não passei por cima dele; julgo que bateu contra uma das minhas rodas e, com o impacto, teve uma hemorragia interna, pois tinha a boca com sangue. Peguei no bichinho, abanei-o a ver se ainda se mexia, mas nada... Levei-o para uma zona mais recatada, debaixo de uma árvore, e deitei-o no chão. Fiz-lhe festinhas, falei com ele, e pensei que seria bom se ele só tivesse desmaiado, mas estava morto. Resignei-me e regressei ao carro.
Este era um macho, mas fez-me recordar daquela vez em que vi um esquilo fêmea morto na estrada. Notava-se que estava a amamentar e os filhotes devem ter morrido. Hoje podia ter sido pior, podia ter matado uma mãe-esquilo. E depois pensei no valor da vida dos esquilos, se matar um macho era preferível a matar uma fêmea. É uma pergunta parva, mas ocorreu-me.
Quando fui almoçar olhei para o sítio onde o deixei, pensei que talvez tivesse havido um milagrito, mas ainda estava lá. Não vale a pena gastar milagres em esquilos.
Dizia eu que, hoje de manhã, ia eu devagar, quando um esquilo aparece a sair de uma valeta, a correr para a estrada. Não tive tempo para fazer nada, pois se travasse era capaz de o passar a ferro -- foi a única coisa que me ocorreu. Talvez devesse ter acelerado, mas era difícil para mim avaliar em que sítio do meu carro o bicho estava. Olhei para o retrovisor e ele estava deitado na estrada, os pelinhos da cauda esvoaçavam com a brisa. Virei o carro para voltar atrás, estacionei, fui buscar um pano que trago na mala, e fui auxiliar o esquilo. Se estivesse vivo, levá-lo-ia ao hospital dos animais.
Não passei por cima dele; julgo que bateu contra uma das minhas rodas e, com o impacto, teve uma hemorragia interna, pois tinha a boca com sangue. Peguei no bichinho, abanei-o a ver se ainda se mexia, mas nada... Levei-o para uma zona mais recatada, debaixo de uma árvore, e deitei-o no chão. Fiz-lhe festinhas, falei com ele, e pensei que seria bom se ele só tivesse desmaiado, mas estava morto. Resignei-me e regressei ao carro.
Este era um macho, mas fez-me recordar daquela vez em que vi um esquilo fêmea morto na estrada. Notava-se que estava a amamentar e os filhotes devem ter morrido. Hoje podia ter sido pior, podia ter matado uma mãe-esquilo. E depois pensei no valor da vida dos esquilos, se matar um macho era preferível a matar uma fêmea. É uma pergunta parva, mas ocorreu-me.
Quando fui almoçar olhei para o sítio onde o deixei, pensei que talvez tivesse havido um milagrito, mas ainda estava lá. Não vale a pena gastar milagres em esquilos.
A erosão do intelecto
“We should only be working on two things, health and the freaking environment. The last thing we need is another freaking browser and app -- those things are eroding our national intellect.”
~ George Yancopoulos, Regeneron Pharmaceuticals Inc. co-founder
~ George Yancopoulos, Regeneron Pharmaceuticals Inc. co-founder
O Vito Gaspar
Ontem, enquanto passeava o Choppinho ao final da tarde, e me entretinha a observar os estragos da tempestade que tivemos de manhã (Aviso de tornado, pessoal! A coisa ficou mesmo preta -- literalmente! Entre as 10:30 e as 11 da manhã ficou escuro como breu. Chuva, trovoada, vento...), ouvi o podcast mais recente do Bloomberg Surveillance. Surpreendentemente foi curto, mas o Willem Buiter, de quem gosto bastante, foi entrevistado e um tal de Vito Gaspar também -- o Tom Keene não sabe dizer Vítor.
Pois é, era o Vítor Gaspar, que foi falar de um relatório em que foi um dos autores e que analisa a relação entre dívida e política. Percebe-se que o nosso antigo Ministro das Finanças é um grande fã de Alexander Hamilton. Será que ele tem a banda sonora de Hamilton, o musical da Broadway, que tem sido usada para ensinar economia e história?
Pois é, era o Vítor Gaspar, que foi falar de um relatório em que foi um dos autores e que analisa a relação entre dívida e política. Percebe-se que o nosso antigo Ministro das Finanças é um grande fã de Alexander Hamilton. Será que ele tem a banda sonora de Hamilton, o musical da Broadway, que tem sido usada para ensinar economia e história?
Depois, queixem-se
Para que o populismo floresça, tem de haver uma oferta e uma
procura. Quando os nossos analistas dizem que não há populismo em Portugal,
estão a olhar apenas para o lado da oferta. Esquecem-se do lado da procura. Até ver, não há de facto líderes ou partidos políticos que utilizem o discurso
populista por excelência, do “nós, o povo real e puro, contra a elite corrupta,
que pensa apenas nos seus próprios interesses”. Mas só um cego é que não vê sentimentos
populistas no seio da população, sentimentos, aliás, bastante antigos e com uma
longa tradição. A ideia de que “eles” não estão lá para governar, mas para se
governarem está bem entranhada na sociedade portuguesa. Este sentimento populista
pode estar adormecido, ser apenas latente, mas está lá, disso não tenhamos
dúvidas. Para que seja activado, são necessárias duas ou três coisas. Primeira,
que apareça a tal oferta, sob a forma de um líder ou partido ou movimento populista.
Segunda, que se espalhe e interiorize, por exemplo, a ideia de que existe uma corrupção
sistémica e que não há consequências, ou seja, o sentimento de que a justiça é
forte com os fracos e fraca com os fortes. Por isso, neste momento, o desempenho da
justiça é mais importante do que nunca. Mas há outros rastilhos.
Os partidos tradicionais portugueses (em
especial o PS), à semelhança do que aconteceu por essa Europa fora, andam a
brincar com o fogo. Quando as coisas correm bem, os méritos são do governo;
quando correm mal ou não podem cumprir certas promessas, a culpa é da União
Europeia, que os obriga a fazer coisas contra a sua vontade. Esta atitude não é
séria. Ao invés, os partidos deviam admitir claramente as limitações do seu
poder e explicar que essas limitações advêm de concessões feitas à EU por esses
mesmos partidos no passado. Mas não. Com o objectivo de ganhar votos no presente, estão
inadvertidamente a alimentar ressentimentos futuros em relação à UE. E é deste
tipo de ressentimento que se alimenta em grande parte o actual populismo na
Europa. Depois, queixem-se.
A minha Fruta Feia
Hoje foi dia de receber o meu saco da Fruta Feia aqui do burgo. É entregue à minha porta, semana-sim/semana-não (foi essa a frequência que escolhi, em vez de semanalmente), à Quarta-feira, num saco térmico que tem uma garrafinha de água congelada para manter a temperatura. Há uns meses, o serviço começou a enviar SMSs no dia anterior para nos lembrar para deixarmos o saco vazio da semana anterior à porta, mas eu já tinha colocado um lembrete no meu telefone, pois, por vezes, cheguei a acumular dois e três sacos, o que me chateava um bocado.
Eu compro o chamado "medium bushel", que custa $27.99 e tem 5 a 7 itens diferentes. Esta semana recebi beterraba Chioggia, que é uma beterraba às riscas (as rodelas parecem um chupa-chupa; nunca tinha visto), com a respectiva verdura; cenouras e respectiva verdura -- acho que vou tentar fazer pesto --; um molho pequeno de couves; alface; 4 laranjas; e cerca de meio quilo de batata doce.
Para além de ser conveniente receber o saco em casa, evito gastar tempo e gasolina para ir à mercearia e não caio na tentação de comprar coisas de que não preciso. Uma outra vantagem é que acabo por ter uma dieta mais variada e que muda com o que está na época. Muitos dos ingredientes que recebo são coisas que não costumo comprar ou desconheço; mas há produtos que dei instruções para não me enviarem: quiabo (okra), sálvia (costumo ter no jardim), e beringela.
Aqui está a foto desta semana:
quarta-feira, 29 de março de 2017
Se dependesse de mim, todos os aeroportos do mundo chamar-se-iam Marilyn Monroe.
terça-feira, 28 de março de 2017
Consolos
Quando eu andava no primeiro ano do ciclo, actual quinto ano, tive hepatite, julgo que no terceiro trimestre. Apanhei porque a minha vizinha, que era um ano mais nova do que eu, ficou doente: eu apanhei dela e a minha irmã apanhou de mim umas semanas mais tarde. Durante dias fiquei de cama, julgo que faltei à escola cerca de três semanas. Detesto estar de cama e, para passar o tempo, li o meu livro de inglês, pois esse era o primeiro ano que aprendia inglês. De vez em quando, um senhor de idade, nosso vizinho, vinha visitar-me. Ele costumava ensinar-me Matemática na escola primária porque eu não dava nada para a caixa em contas. Se a escola fosse apenas Língua Portuguesa e Meio Físico e Social, o meu mundo seria muito melhor. Só no oitavo ano é que eu aprendi a gostar de Matemática, mas não é que eu não gostasse, apenas era indiferente àquilo.
A minha mãe falava com as vizinhas acerca da minha doença e do que havia de me dar de comer. Uma delas, uma senhora já de muita idade, viúva, sempre vestida de preto, e que vivia sozinha mais acima na nossa rua, aconselhou a minha mãe a dar-me arroz branco acompanhado de frango temperado só com sal e preparado numa placa grelhadora em cima do fogão a gás. Essas refeições foram das mais consoladoras que alguma vez comi, o que é estranho porque são das coisas mais simples que há. Já no outro dia me tinha recordado delas, mas hoje vi que Portugal está a sofrer um surto de hepatite A e lembrei-me outra vez.
Depois de ficar boa, regressei à escola e tive imediatamente um teste a inglês, uma das coisas que saía no teste era como se perguntava e dava as horas. Tive 84% sem ter estudado para o teste; apenas tinha lido o livro para não morrer de tédio. Foi a segunda nota mais alta e a minha professora deu-nos, a mim e à minha amiga Cláudia, que teve a nota mais alta, uma borracha de cheiro em forma de guarda chuva, verde com um centro cor-de-rosa. Guardei a minha até sair de Portugal; depois os meus pais apoderaram-se do meu quarto e não sei onde foi parar a borrachinha.
A minha professora preferida era sem dúvida a de inglês, que era extremamente criativa: desenhava coisas em ponto grande em cartolina, pintava, recortava, e levava-as para a aula, afixando-as ao quadro com Fun-Tak (uma massa parecida com plasticina, que serve para aderir coisas à parede). Foi assim que aprendemos a identificar comida, roupa, etc., com ela a apontar para os seus desenhos no quadro e a dizer-nos o que as coisas se chamavam. Eu nunca tinha visto Fun-Tak em Portugal, mas decerto que ela a tinha comprado no estrangeiro, pois quando vim para os EUA, toda a gente usava aquilo na universidade para aderir posters e outras coisas à parede e decorar quartos e gabinetes. Em homenagem à minha professora de inglês, também comprei Fun-Tak e colei coisas na parede.
Não me recordo do nome da minha professora, o que acho estranho, mas ela gostava muito de mim e chegou a perguntar à minha mãe se eu tinha aulas de inglês fora da escola. Não tinha; o inglês aparecia naturalmente na minha cabeça, sem que eu fizesse grande esforço para isso. Para mim, o inglês sempre foi um grande refúgio. Muitos anos mais tarde, já depois de eu ter vindo para Houston, um amigo meu ao ouvir-me falar em inglês, disse que tinha sido um erro cósmico eu ter nascido em Portugal; eu pertencia aos EUA.
A minha mãe falava com as vizinhas acerca da minha doença e do que havia de me dar de comer. Uma delas, uma senhora já de muita idade, viúva, sempre vestida de preto, e que vivia sozinha mais acima na nossa rua, aconselhou a minha mãe a dar-me arroz branco acompanhado de frango temperado só com sal e preparado numa placa grelhadora em cima do fogão a gás. Essas refeições foram das mais consoladoras que alguma vez comi, o que é estranho porque são das coisas mais simples que há. Já no outro dia me tinha recordado delas, mas hoje vi que Portugal está a sofrer um surto de hepatite A e lembrei-me outra vez.
Depois de ficar boa, regressei à escola e tive imediatamente um teste a inglês, uma das coisas que saía no teste era como se perguntava e dava as horas. Tive 84% sem ter estudado para o teste; apenas tinha lido o livro para não morrer de tédio. Foi a segunda nota mais alta e a minha professora deu-nos, a mim e à minha amiga Cláudia, que teve a nota mais alta, uma borracha de cheiro em forma de guarda chuva, verde com um centro cor-de-rosa. Guardei a minha até sair de Portugal; depois os meus pais apoderaram-se do meu quarto e não sei onde foi parar a borrachinha.
A minha professora preferida era sem dúvida a de inglês, que era extremamente criativa: desenhava coisas em ponto grande em cartolina, pintava, recortava, e levava-as para a aula, afixando-as ao quadro com Fun-Tak (uma massa parecida com plasticina, que serve para aderir coisas à parede). Foi assim que aprendemos a identificar comida, roupa, etc., com ela a apontar para os seus desenhos no quadro e a dizer-nos o que as coisas se chamavam. Eu nunca tinha visto Fun-Tak em Portugal, mas decerto que ela a tinha comprado no estrangeiro, pois quando vim para os EUA, toda a gente usava aquilo na universidade para aderir posters e outras coisas à parede e decorar quartos e gabinetes. Em homenagem à minha professora de inglês, também comprei Fun-Tak e colei coisas na parede.
Não me recordo do nome da minha professora, o que acho estranho, mas ela gostava muito de mim e chegou a perguntar à minha mãe se eu tinha aulas de inglês fora da escola. Não tinha; o inglês aparecia naturalmente na minha cabeça, sem que eu fizesse grande esforço para isso. Para mim, o inglês sempre foi um grande refúgio. Muitos anos mais tarde, já depois de eu ter vindo para Houston, um amigo meu ao ouvir-me falar em inglês, disse que tinha sido um erro cósmico eu ter nascido em Portugal; eu pertencia aos EUA.
segunda-feira, 27 de março de 2017
Belas contas...
Quando o défice em percentagem do PIB melhora sensivelmente à mesma velocidade do ano passado, mas a dívida em percentagem do PIB, que desacelerava, passa a acelerar, conclui-se que cálculo diferencial não é o forte da dupla Centeno/Costa.
Extra kiss...
Na Sexta-feira, o "fechador" de negócios não fechou o negócio do "Trumpcare", mas hoje já temos mais um negócio alinhado: Jared Kushner vai liderar um novo gabinete que irá simplificar a burocracia do governo americano, usando princípios do mundo de negócios. (Se chamassem a isto Simplex, até seria engraçado, porque a simplificação burocrática deu um resultadão em Portugal. A partir daí, o país cresceu que nem uma erva daninha.)
Kushner é um homem de negócios muito experiente e sábio. Por exemplo, vendeu a sua parte na "Torre Kushner" quando o sogro ganhou as Presidenciais e o timing foi perfeito, pois o 666 Fifth Avenue está quase falido, com uma taxa de ocupação de 70% em Setembro passado, quando precisa de pelo menos 91%. A família Kushner, sem o Jared, está a ver se arranja $850 milhões de empréstimos através do programa EB-5 para refinanciar a dívida do edifício e endireitar a coisa.
O EB-5 é o programa de "vistos dourados" dos EUA, em que investindo $500.000 em imobiliário americano, um estrangeiro pode obter um visto de investidor. O Congresso está a considerar aumentar o investimento mínimo para $1,35 milhões. Aguardemos o contributo de Jared Kushner para a máquina estatal americana, pois daria bastante jeito para a economia e para os negócios Kushner, apesar de não se saber se o Jared está envolvido nas negociações do financiamento da Torre Kushner.
Hoje, também, e para demonstrar que é um homem de boa vontade, Jared Kushner irá voluntarimente submeter-se às questões do Senate Intelligence Committee acerca das alegadas ligações da Campanha de Donald Trump à Rússia.
E mais uma vez se confirma que o Prince é que tinha razão: "You don't need to watch Dynasty to have an attitude"; basta acompanhar a saga Trump.
Kushner é um homem de negócios muito experiente e sábio. Por exemplo, vendeu a sua parte na "Torre Kushner" quando o sogro ganhou as Presidenciais e o timing foi perfeito, pois o 666 Fifth Avenue está quase falido, com uma taxa de ocupação de 70% em Setembro passado, quando precisa de pelo menos 91%. A família Kushner, sem o Jared, está a ver se arranja $850 milhões de empréstimos através do programa EB-5 para refinanciar a dívida do edifício e endireitar a coisa.
O EB-5 é o programa de "vistos dourados" dos EUA, em que investindo $500.000 em imobiliário americano, um estrangeiro pode obter um visto de investidor. O Congresso está a considerar aumentar o investimento mínimo para $1,35 milhões. Aguardemos o contributo de Jared Kushner para a máquina estatal americana, pois daria bastante jeito para a economia e para os negócios Kushner, apesar de não se saber se o Jared está envolvido nas negociações do financiamento da Torre Kushner.
Hoje, também, e para demonstrar que é um homem de boa vontade, Jared Kushner irá voluntarimente submeter-se às questões do Senate Intelligence Committee acerca das alegadas ligações da Campanha de Donald Trump à Rússia.
E mais uma vez se confirma que o Prince é que tinha razão: "You don't need to watch Dynasty to have an attitude"; basta acompanhar a saga Trump.
Vem nos livros
A democracia per se pode ser
definida como uma combinação da soberania popular com a regra da maioria. Neste
sentido, basta que haja eleições livres e justas para que um regime
seja considerado democrático. A chamada democracia liberal vai além desta
definição. Exige também a criação de instituições que garantam a defesa de
direitos fundamentais como a liberdade de expressão e a protecção das minorias.
O grande desafio é conseguir um equilíbrio harmonioso entre o governo da
maioria e os direitos da minoria. Na prática, este equilíbrio é complicado ou
mesmo impossível de alcançar. Basta pensar nas leis antidiscriminação, que, amiúde,
vão contra o princípio da maioria. Os populistas exploram estas tensões e, às
vezes, diga-se de passagem, as elites políticas põem-se mesmo a jeito ao
ignorarem com desdém as inquietações de largas franjas da população. O
populismo, nas suas mil e uma variantes, pode ser compatível com a
democracia per se, mas é incompatível com a democracia liberal,
pois nada deve constranger a vontade do povo puro. Entidades independentes como
o sistema judicial e os meios de comunicação tornam-se alvos preferenciais a
abater. Como seria de esperar, Donald Trump assestou as suas baterias nessa
direcção. Afinal de contas, os inimigos do povo, internos e externos, não
param de conspirar a fim de sabotar o trabalho "fantástico" do governo. É, por
isso, necessário estar sempre alerta e denunciar os conspiradores ao mundo. Vai ser assim até
ao fim, com o nível de paranóia a aumentar, provavelmente, de dia para dia.
sábado, 25 de março de 2017
Putin: o 28.º Estado-Membro da UE
A tentação imperial de Putin não é nova. Porém, vem
encontrando no actual momento político-económico e social o mais favorável
“caldo” para se desenvolver. A História ensina-nos que o equilíbrio de poderes
do pós-Guerra Fria só na aparência foi resolvido a favor dos EUA, dado que o
gigante apenas adormeceu estrategicamente. Passada a fase da Comunidade de
Estados Independentes, reconfigurada a Federação Russa, eleito um
ex-operacional do KGB para o Kremlin, sabia-se que o espaço de influência
continuaria.
Confrontada com maus desenvolvimentos económicos,
limitando a sua capacidade de manutenção e renovação militar, o regime de
verdadeiro “czariato” de Putin fez alianças com a China e foi namoriscando os
EUA, que foram no logro de que o desequilíbrio económico seria suficiente para
manter a política externa moscovita dentro de aceitáveis margens de controlo.
Puro engano. Não apenas o Presidente russo, mas boa
parte da população, por entre os frangalhos de uma ex-URSS todo-poderosa e um
desejo de afirmação e expansão de império, co-natural àquele povo, depois de
ameaçarem a UE e a OTAN em virtude do despautério do alargamento a Leste,
anexaram a Crimeia. Um primeiro grande teste de resistência a que Putin quis
submeter a dita “comunidade internacional” e no qual passou com louvor e
distinção. O controlo sobre uma boa parte do gás que abastece a Europa central,
em especial a Alemanha, a ainda existente ameaça militar e uma personalidade
que contrasta com um apagamento das lideranças do Velho Continente, conduziram
a reacções pífias e inconsequentes.
E assim foi nascendo um novo “movimento dos não-alinhados”,
com Putin e Erdogan, a que se vai aliando, pontualmente, o pragmatismo da
política externa chinesa, mais apostada no poderio económico, bem visível no
montante dos créditos que detém quanto à dívida pública norte-americana. Com a
habitual subtileza da China, após a governação por tweets de Trump, bastou uma pequena lembrança deste facto para que
o inefável homem que marca a moda da altura das gravatas se virasse mais para
os bad hombres e para as
investigações do FBI que o podem chamuscar.
O dito “movimento dos não-alinhados” não tem uma
verdadeira massa unificadora que não seja a vontade de afrontar o Ocidente e o
que ele ainda representa. Entendamo-nos: por certo é de todo respeitável que a
Rússia deseje aumentar a sua influência no mundo a todos os níveis. Os outros
fazem o mesmo e não é por serem russos que uma política expansionista passa
necessariamente a ser má. Esta junção de pequenos e grandes ódios, de
interesses económicos estratégicos, de demonstração ao mundo globalizado que se
pode viver como uma espécie de “ilha”, levam a um reforço do dito “movimento
anti-globalização”. Putin deseja ficar para a História como o hábil político
que dilatou o império, de preferência sem disparar uma bala, bastando-se com as
malas diplomáticas. O eixo turco-russo está, assim, interessado em explorar uma
Europa em devaneios populistas, fragmentada pela crise dos migrantes, com
exigências de indicadores económicos quase sempre irreais e que perdeu uma
ponte com os EUA através do Brexit. E
isto mesmo que o Reino Unido fique a perder mais que o conjunto dos demais
países da UE, o que ficou claro com os atentados em Westminster.
Daí que a recepção a Marine Le Pen como se de uma
estadista se tratasse, bem como de outros líderes populistas e xenófobos, seja
uma evidente forma de legitimar o que está em contradição com o núcleo duro dos
valores europeus. Resta é saber se Le Pen não terá arriscado em demasia.
Sabemos que as mais recentes sondagens apontam para a sua vitória nas
presidenciais francesas, como não desconhecemos a operação de cosmética que ela
e o seu partido têm feito no sentido de adocicar o discurso. Donde, a colagem a
Putin e a legitimação através dele podem bem jogar contra os interesses
eleitorais de Marine. É certo que se escreveu já que o financiamento da sua
campanha está difícil e que existiria um empréstimo de um banco russo que
estaria a pressionar a respectiva liquidação. Ora, pode especular-se quanto à
mão estendida de Putin…
Mas não seria o custo político desse empréstimo
demasiado elevado? Gostaria bem que sim, pois o respirar de alívio com a
Holanda é sol de pouca dura. Mais eleições se avizinham por essa Europa fora e
comprovado está que Putin vai sempre ser um player
importante. Arrisco-me a dizer que a Federação Russa quase pretende substituir
o papel de enfant terrible do Reino
Unido. Continuaríamos, então, a ser 28 Estados. Apesar de este, descontado o
equívoco geográfico, porventura não cumprir com a Carta dos Direitos
Fundamentais da União. Mas, all in all,
poderá a UE, no actual momento, dar-se ao “luxo” de ser uma comunidade de
valores?
sexta-feira, 24 de março de 2017
Mais um défice
O Papa aprovou
a canonização dos pastorinhos videntes Francisco e Jacinta Marto. E vem aí mais uma santa portuguesa: o processo de canonização da irmã Lúcia também parece estar bem
encaminhado. De qualquer maneira, em nove séculos de história, Portugal
produziu, salvo erro, 10 santos. O que dá mais ou menos um por século. Estamos
seguramente abaixo da média comunitária. Enfim, mais um défice que nos persegue
há séculos. Donde vem este défice de santidade? Não sei se Deus nos abandonou e
deixou ao deus dará. Não sei se os copos e as mulheres são a nossa perdição, como aventou esta semana um socialista holandês. O
facto é que não é fácil ser santo neste país.
quinta-feira, 23 de março de 2017
Os idiotas da objectividade
Quando há ataques terroristas, costuma aparecer alguém
a lembrar que morrem muito mais pessoas em acidentes de viação. São “os
idiotas da objetividade”, como lhes chamava o Nelson Rodrigues. Imaginem que é dito aos residentes de uma cidade que há dois bombistas prontos a atacar. E é dito aos
de outra cidade que há apenas um bombista. O seu risco é inferior em metade, mas acham que alguém se vai sentir mais seguro por cauda disso?
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