sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Cursinhos e promoções

Não percebo o porquê do BCE exigir que os administradores chumbados vão fazer cursos para o INSEAD. Quando saí da universidade e comecei a procurar por empregos fora da academia, tive uma enorme dificuldade em ser considerada para entrevistas porque um dos requisitos era experiência na área, mas fora da escola -- ou seja, não era o cursinho apenas que me abria as portas. Cheguei a achar um bocado ridículo que, para alguns dos empregos em análise de dados, por exemplo, eu podia ensinar o tópico na universidade, mas depois as empresas achavam que eu não sabia fazer aquilo a sério; só sabia a teoria e não tinha ideia de como se faria na prática. Ainda bem que esse entrave não existe aí. Sendo assim, é redundante perguntar-me o que faz esta gente tão especial que tenham mesmo de ser eles, e não outras pessoas que já tenham a qualificação técnica necessária.

Quanto à questão de acumulação de cargos, dá-me a impressão que estão a tentar dizer-nos que sofremos de paranóia porque nos jornais noticiam que as regras portuguesas são mais apertadas do que as regras europeias. Dado que as regras portuguesas na área de corrupção e abuso de poder não estão ao nível das europeias, talvez não fosse má ideia manter estas. A não se que a legislação esteja em promoção de "dois pelo preço de um" e o governo aproveite e, ao mudar a lei da acumulação de cargos, mude também o enquadramento legal para os casos de negligência, corrupção, abuso de poder, etc., de modo a que fiquem também ao nível do que se faz lá fora.

3 comentários:

  1. "Those who know, do. Those who don't, teach"

    Certamente conhecerás esta máxima muito corrente no meio académico Americano e em que as universidades em geral evitam cair. A aprendizagem bem como o trabalho desenvolvido exclusivamente no meio puro da academia, na realidade, não preparam integralmente para o exercício real duma profissão. Dão as imprescindiveis bases e os necessários conhecimentos mas não dão, não têm como dar, a aplicação prática em contextos variados e sujeita a múltiplos constrangimentos aleatórios. Não é possivel simular um contexto global com todos os seus intrincados, todos os seus pormeores e, muito importante, a mudança constante de tudo isto. Por isto o valor de alguém acabado de sair duma universidade é muito inferior àquele de alguém com, nem que seja, um ano de experiência. A curva de aprendizagem nos primeiros meses de experiência profissional é enorme e valoriza proporcionalmente as pessoas. É este o motivo pelo qual as empresas pedem alguém com um tempinho de experiência, algo com que concordo, aliás. Um tempinho de experiência suficiente para o candidato já ter experienciado as condições reais de trabalho mas, nos casos aplicaveis, não tão longo que leve a que a aculturação à nova empresa se torne impossivel.

    Nos EUA, com o passar dos anos e das décadas, alguém que acabe por nunca sair do puro meio académico acaba por ter muito pouca valia até como professor e fica relegado para funções menores ou pior. Concordo com esta filosofia dado só ela poder dotar as universidades dos melhores, daqueles que aliando o saber teórico ao exercício prático estão em melhores condições de transmitir conhecimentos aos mais novos.

    Claro que isto aplica-se tanto ao meio académico como a tudo o resto e, evidentemente, para a administração da CGD deveria ir gente que tenha já os conhecimentos e a experiência necessários ao exercício das funções. Mas isto não acontece em Portugal como todos sabemos.

    Desta perspectiva a decisão do BCE parece-me incompreensivel, também. Porém, à luz do que tem sido a actuação do BCE de Draghi, com regras de geometria variavel, mudando e adaptando-se segundo as circunstancias de cada momento, a decisão torna-se perfeitamente compreensivel e até natural.

    ResponderEliminar
  2. Por vezes, os académicos americanos têm uma carreira bem sucedida no governo. Mas muito raramente. Ocorreme, assim de repente, dois exemplos: John Kenneth Galbraith e Henry Kissinger.

    Quanto ao Draghi e ao BCE, Zuricher, a sua principal função, mesmo que não seja explícita, é salvar o euro a todo o custo, contra toda a lógica e toda a evidência.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Judas Macabeu, sobre Galbraith pai não sei o seu passado mas Henry Kissinger teve vasta actividade relevante fora da academia e até antes de entrar nela. A sua carreira militar ligada a questões estratégicas, de informação e operações psicológicas foi longa e variada e depois disso trabalhou para várias entidades entre elas os Rockefellers e o CFR. A sua vida académica ocorre posteriormente a tudo isto e foi feita a par com empregos vários na área da sua especialidade, geoestratégia. Tem também a sua própria empresa de consultadoria.

      Em relação ao seu segundo parágrafo, grande verdade, grande verdade, meu caro. Uma grande e infeliz verdade. A criação do Euro ocorreu pelos motivos errados e contra tudo o resto incluindo o que são os usos duma moeda e que vão muito além de mero meio de troca. A loucura continua e continuará vivendo-se hoje em dia um ambiente de Euro pelo Euro. Até ao dia em que se tornar impossivel manter a ficção e cair tudo com estrondo. A orotodoxia de Trichet era muito mais benéfica neste campo dado não tentar placar tensões com tensões acrescidas para o futuro e deixar as coisas seguirem o seu rumo. Com Trichet já teria existido provavelmente a implosão do Euro. Que, tal como a implosão do SME é hoje reconhecida como positiva, seria reconhecida como positiva nos médio e longo prazos.

      Eliminar

Não são permitidos comentários anónimos.